Alone
17 Ira

— Jeff! — Gritava irritada, carregando a mochila pesada que ele praticamente jogou em cima de si.
— O que é agora?
— Posso ao menos descansar um pouco antes de continuarmos?
— Não. — Rebateu.
— Ótimo. — Ironizou, respirando fundo. — Posso pelo menos comer alguma coisa então?
— Você já comeu demais, não acha?
— Comi umas 5 horas atrás porque fiquei te esperando aqui e você fez o favor de se atrasar.
— Desculpe, estava fazendo algo melhor. — Sorriu, cínico.
— Se eu pudesse, eu guardaria uma bala pra atirar dentro dessa sua boca imunda, Woods.
— Aprecio o gesto, mas dispenso.
Continuou a segui-lo, encontrando o mesmo lugar que visitaram da última vez, mas com mudanças é claro. A mesa não continha uma pistola ou um facão como da vez em que Jeff a propôs um desafio. Nessa ocasião em especial, não havia nenhuma arma por perto, exceto um braço humano manchando a madeira da mesa com o sangue, com um cutelo preso ao pulso, completamente fincado. Já viu o Jeff fazer cada coisa que isso nem chegou perto de impressioná-la, embora uma pergunta ainda estivesse em sua mente: Qual seria o próximo passo?
— Jeff...o que é pra fazer agora?
Jeff estava parado, encarando a extensa floresta que em sua divisão perdia-se entre as árvores muito bem distribuídas. Com as mãos no bolso de sua costumária blusa branca, ele continuou imóvel mantendo silêncio nos longos minutos seguidos. Não sabia ao certo o que ele poderia estar pensando, e conhecendo o Jeff, era uma grande sorte não saber.
— Siga-me. — Disse, quebrando o silêncio e começando a andar apressadamente.
Deixou a mochila perto da mesa, e tratou de o seguir, sem puxar assunto. A caminhada durou no máximo uns 15 minutos, mas pela falta de assunto e o cansaço parecia estar durando um longo e tortuoso período. Quando finalmente ele parou de andar, o viu se agachando em frente a uma lagoa, tocando a água sem um motivo em particular. Era estranho ver Jeff fazendo algo assim, mas ignorou e tratou de saber suas reais intensões a levando até ali. Ao abrir a boca para perguntar a respeito, ele a interrompeu, a assustando com tal coincidência.
— Gosto desse lugar, essa água tão limpa nos traz uma sensação de paz, não acha? — Perguntou, em um tom tão incomum que ela não soubera identificar se havia ironia ou se simplesmente estava tentando fazer um comentário sério.
Jeff falando de paz?! Era piada?!
— Não sei. Por que me trouxe aqui? — Arqueou a sobrancelha.
Ele se levantou, sem desviar seu olhar da água.
— Sabia que esse lago em particular tem algo especial?
— Especial? — Indagou.
— Sim, especial.
— E por que seria?
— Esse belo lago profundo, é na verdade, um cemitério debaixo d’água.
Mesmo o vendo de costas, pelo jeito que ele explicava parecia estar sorrindo enquanto falava, um sorriso de divertimento.
— Justifique-se.
— A água desse lago é extremamente fria, quando alguém morre debaixo d’água, o pulmão se enche e os gases se acumulam até que ela volta à superfície. Entretanto, nesse lago temos uma exceção. Pela água ser exageradamente fria, as bactérias que resultam no acúmulo de gases são impedidas, e os corpos não voltam à superfície. — Suspirou, encantado. — Pense em quantas pessoas morreram afogadas e continuam no fundo desse lago...
Isso já foi o bastante pra explicar o porquê de Jeff estar molhado da última vez que o viu...
— Quantas pessoas, aproximadamente, tem no fundo desse lago?
— É difícil dizer, não sou o único que causou mortes por aqui. Muitos já apreciaram essas águas antes de nós.
— "Apreciaram"?
— Claro. A água, calma, imóvel. Ela combina tanto com as pessoas mortas aqui. Todas tiveram vidas miseráveis se afundaram em suas penúrias, e não foram capazes de voltarem para a superfície tais como seus corpos aqui afogados.
Quando Jeff começava a falar daquele jeito, a incomodava extremamente. Ele não era uma pessoa que aderia uma única personalidade. Sempre mudando, sempre criando uma nova paranoia. Chegava a um ponto em que chamá-lo de louco era elogio.
— Me diz, Jeff. Por que te agrada tanto ser responsável por tantas mortes? Eu já te conheço, mas as vezes vejo que você muda seus propósitos.
— Mato por prazer.
— Mas o prazer é tão passageiro.
— A vida também, por isso o procuro.
— Como era sua vida antes de se tornar um assassino?
— O que é isso agora? Um interrogatório? — Encarou, sério.
— Não é isso. Pode responder?
— Eu responderia, se sua pergunta tivesse algum nexo.
— Como? — Mostrou-se confusa.
— Nenhuma vida é diferente em questão de objetivos. Estudar, ser um bom filho, crescer, se formar, ter um bom trabalho, criar uma família, e depois morrer. Não há nada pra se desfrutar no meio dessas futilidades todas. Os objetivos podem ser iguais, mas as vidas humanas não tem o mesmo valor. Sempre terão os que causarão a podridão, no caso, nós.
— Que seja. — Deu de ombros. Ainda queria ter uma opinião diferente, apesar de tudo.
— Lauren, venha até aqui.
Com os olhos bem abertos, atentos, ela se aproximou. Não confiava nem um pouco em Jeff, e com certeza se arrependeria de seguir suas ordens, mas assim fez, se agachando ao lado dele.
— O que é?
Sem movimentar seu rosto, ele a encarou no canto de seus olhos, e antes que percebesse ela sentiu seu rosto indo parar na água, sendo segurado com força pela mão de Jeff que pressionava em sua nuca. Enquanto se debatia e tentava voltar para a superfície, a voz rouca dele em um tom mais alto e cortes, pôde ser ouvida.
— Enquanto estiver aí, agoniando, quero que revise o que aprender a respeito dessa água que pode ou não te consumir. — Riu. — Primeiro: Qual a resistência do corpo na água doce? — A puxou pelo cabelo, trazendo para a superfície assim dando-o uma resposta.
Abrindo sua boca, respirando com dificuldade, respondeu rudemente:
— Não sei onde quer chegar com essas aulinhas, mas o corpo resiste no máximo 3 minutos depois que a pessoa começa a se afogar. — Respondeu, ofegante.
— Muito bem. — Sorriu, empurrando-a para a água novamente. — Então você já sabe que não tem muito tempo, sua opção é reagir e impedir que eu continue, ou continuar respondendo corretamente minhas questões, que é mais divertido pra mim. — Comentou em um tom sarcástico. — Durante a Revolução Francesa o afogamento foi muito utilizado como tortura, sabia? Olha que interessante o que temos aqui. Eu sempre soube que você acabaria sendo torturada por mim. — Mordeu o lábio com extrema força, sentindo o sangue se espalhando por sua língua em um prazer que era adquirido assistindo toda aquela agonia que ele causava. — Mais uma pergunta: Até que ponto se pode mergulhar em uma profundidade com condições estruturais como essa?
Estava se divertindo tanto que sem que pudesse perceber, ela atingiu seu nariz com força usando o cotovelo, aproveitando a brecha para sair da água, com um ódio irreconhecível em seu olhar.
— Jeff você é um desgraçado. — Foi pra cima dele, atingindo seu estômago com o joelho. — Desde quando você virou meu professor?! — Ironizou, soltando uma risada forçada. — Você consegue ser uma mistura de tudo que eu mais desprezo nesse mundo. — Começou a gritar, irada. — Eu espero que seu corpo se decomponha junto com todos aqui nesse lago maldito! — Socou seu rosto, que para sua surpresa, ele continuou sem reagir ou reclamar. — Era só para me treinar, mas você fez questão de se divertir as minhas custas, você não tem noção do quanto eu te odeio, Woods! Depois que eu matar meu tio, eu juro que você será o primeiro em minha lista, o primeiro. — Chutou entre as pernas do rapaz, caindo pra trás no chão, respirando fundo tentando se acalmar.
Jeff era uma das poucas pessoas que conseguia a tirar do sério, se não a única. Nunca chegou a abandonar o raciocínio e agir simplesmente pela emoção, descontando sua fúria. Mas foi bom...não pôde negar que isso aliviou sua revolta temporariamente. Ele continuo em silêncio, depois de apoiar seu braço em volta de seu corpo, onde foi atingido pelo golpe em seu estômago. Ele se levantou, e simplesmente ficou rindo descaradamente, baixo, porém sem demonstrar qualquer dor. Mas...pera, por que Jeff não a atacou mesmo?
— Muito bem, parece que você passou no teste.
Arregalou os olhos, sem entender o que ele queria dizer.
— Teste?!
— Sim. Você não tem controle de suas emoções, descobri um meio de usar isso ao seu favor. Sua raiva é tão intensa que causa uma descarga de adrenalina em seu corpo com mais rapidez, seus ataques ficam mais precisos e sua força aumenta consideravelmente. A desvantagem é que deve saber utilizar o lado intelectual com mais precisão, mas em ataque é de grande importância ter equilíbrio e efetuar golpes ligeiros como os que você fez. Tenha em mente que pra agir desse jeito, tem que ser na hora certa.
— Então me trazer até aqui e ficar falando sobre a "água" desse lago não teve objetivo algum?
— Teve sim um objetivo. Nesse lago só estão inimigos a altura que enfrentei, e em breve, teremos um lugar especial para Adam Cresswell. E além do mais, efetuei um teste psicológico. O cérebro humano é incapaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo com perfeição, você irá se descuidar e isso levará ao fracasso de uma delas. Enquanto você se entreteve com meu diálogo, não percebeu que eu fui te afogar, sua mente já estava focada em uma coisa, não foi capaz de prestar atenção em outra, nem sequer considerou a ideia. É isso que se tem que aprender ao se tornar um assassino. Não basta matar, tem que dominar a mente de cada vítima antes, essa é a beleza. — Abriu um sorriso que a causou calafrios.
— Tá bem Jeff, já entendi que você adora dar lições de moral, ensinar coisas que só usarei uma vez na vida e principalmente, me tirar do sério. — Levantou, andando com a ideia de voltar para a cabana e ter por fim, uma noite tranquila.
— Amanhã, às 06:00 em ponto, me encontre nesse mesmo local. E dessa vez não quero precisar te acordar pra te lembrar que precisa de treinamento. — Avisou em um tom esnobe.
— Tá. — Revirou os olhos, saindo.
Ao chegar na cabana, o cansaço de seu corpo era tanto que até tirou sua fome, tudo o que poderia fazer era se jogar sobre sua cama, trancando seu quarto para ter certeza que não seria acordada pelo capeta em pessoa novamente. Assim fez. Entrou, o trancando e sem se dar ao trabalho de acender a luz. Se direcionou até a cama e amoleceu seu corpo, que entrou em contato com o colchão, fechando suas pálpebras e tendo a desejada e relaxante noite de sono.
Acordou assustada, olhando para o relógio no mesmo instante.
— 07:20? O Jeff vai me matar! — Reclamou, se levantando desesperadamente e colocando uma roupa velha que encontrou dentro do armário.
Foi até a cozinha e pegou uma maçã. Tinha nojo do Jeff, não sabia o que esperar de seus alimentos então nem chegava perto dos armários. Correu, saindo da cabana apressadamente. Teria que comer no caminho com a maior rapidez possível, se isso a faria bem ou não, não se importava.
Enquanto corria, parou ao ver uma figura entre as árvores ao lado, que parecia a observar. Pela estatura, era uma mulher. Deu uma mordida na maçã e foi até lá ver de quem se tratara. Ao notar sua presença, a pessoa se aproximou, logo tornando seu rosto visível.
— Rebecca?
Essa garota está me perseguindo agora?!
Continua...
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