Alone

14 Corvo


Jeff lançou a faca sobre a garota, que desviou mas ainda assim foi atingida em seu ombro em um corte profundo. O sangue descia pelo seu corpo enquanto tentava se levantar, cobrindo a ferida com a mão. A cada investida que ele lançava, sua satisfação aumentava sentindo o sangue da garota atingir sua pele nívea a manchando com o líquido vermelho. Lançou a faca cortando o rosto delicado dela, que sentiu o corte em sua bochecha arder enquanto o sangue saía sem aviso.

Lauren tentara manter todas as suas forças estando em pé mesmo com seu corpo quase caindo sobre o chão, incapaz de reagir. A essa altura tinha cortes distribuídos por boa parte de seu corpo, mas em sua barriga e braços estavam os mais fundos e ligeiros. Jeff estava agindo rápido demais, mas não estava provocando lesões sérias, seu divertimento estava sendo na dor duradoura. Ele pisou em seu pé, e chocou seu corpo contra o dela empurrando para trás, onde se encontrou com o chão em um impacto intenso a impedindo de expressar qualquer palavra ou ação que definisse aquele sentimento corporal penoso. O que ele desejara estava sendo efetuado com sucesso, as últimas palavras que ela ouviria seriam de fato, "Go to Sleep".

Sobre o chão, avistara as aves de plumagem negra grasnando, soltando ruídos desagradáveis e pairando sobre os galhos das árvores secas. Nenhum outro som era emitido, como se tudo a sua volta estivesse em total silêncio, parado...se transformando em um mundo sem cor, representado pela própria morte. A única certeza da vida, sempre foi o fim dela, o conceito da morte nunca foi bem compreendido por ela, mas o sufoco que ela trazia sempre a preenchia de algum modo. No vazio da alma opções surgiam, a de viver, ou de se entregar à morte. Mas a pessoa que se tornou hoje não aceitara a segunda opção...a morte já a consumiu o suficiente, mesmo que pelas mãos de Jeff, não iria chegar aqui sem lutar, era isso que tornara alguém vivo. Fechou os olhos, respirando fundo e procurando um motivo para ter chegado até aqui.

Jeff pensou em finalizar logo, mas a perda de sangre estava sendo tão bela de assistir, empolgante, diga-se de passagem. Abriu um sorriso vendo o corpo da garota próximo ao de Brianna, com os dois corpos próximos suficiente para formar uma poça rasa de sangue. Se virou, andando calmamente enquanto limpava sua faca em sua blusa branca. Ouviu um pequeno barulho, virando seu rosto e vendo Lauren totalmente machucada, com sangue escorrendo por todo o seu corpo, com os cabelos bagunçados e algumas partes desfiadas, mas ainda assim...com um sorriso em rosto, e um olhar desumano.

– Sabe uma coisa que aprendi com você, Jeff? A nunca olhar pra trás... — ainda vacilando sobre os pés, lançou a katana atingindo as costas dele, que caiu ajoelhado segurando sua faca.

– Desgraçada. — gritou furioso, com a coluna razoavelmente curvada à frente.

– Desde o início montamos um plano, sempre deixei claro que precisava de sua ajuda. Você sabe que também precisa da minha, então por que dificulta tanto as coisas? Deixe esse orgulho de lado, você está descontrolado Jeff, normalmente você planeja melhor as coisas, me matar agora não iria ajudar em nada sua procura...

– Sua insolente. — gritou novamente — Quem você pensa que é pra falar assim comigo? Você já deveria estar morta. — se levantou correndo em direção a ela, jogando a faca na direção de seu pescoço.

Bloqueou o ataque colocando a katana em frente.

– Já estou cansada de pedir desculpas por algo que não fiz, ou ser uma tola inocente que só recebe ordens. Se for pra manter um plano de justiça pelas minhas próprias mãos, teremos que ter uma parceria, e caso não saiba o que isso é, parceria é uma união para realizarmos algo juntos. Não é pra me tratar como se eu fosse um nada, já estou tão cansada disso. Por mais faltas de motivos que minha existência tenha, você não pode me matar, não agora. — estreitou o olhar.

Ele soltou uma risada um pouco alta, fazendo sangue sair por sua boca. Então era isso...a garotinha ingênua que confiara no primeiro que aparecera, havia morrido. Aquela...não poderia ser mais a Lauren, um novo alguém havia surgido.

– Me diz, você gosta de corvos? — perguntou, ainda tentando atingi-la com a faca.

– Por que a pergunta?

– Responda.

– Nunca parei pra pensar, mas acho que sim...gosto de corvos. Por quê?

– Somos como eles.

– Como corvos? Do que você está falando?!

– Caso não saiba, muitos definem corvos como encarnações do mal. Acreditam que dentro dessas aves possui almas condenadas e perversas, as vezes sendo retratados como o próprio diabo. Os humanos carregam isso dentro de si, mas só onde há sofrimento algo toma seu corpo desse jeito.

Insano...

– Onde quer chegar com essa metáfora?

– Você mudou, se está mais forte não posso garantir, principalmente tendo à mim como oponente, mas não é mais a mesma.

– O que isso muda afinal?

– Absolutamente tudo. — afastou-se.

Por um momento pensou em perguntar porquê ele não tentaria matá-la novamente, mas sabia que era uma ideia tola principalmente se ele voltasse a tentar. Pelo menos ele havia voltado ao normal...ou pelo menos o mais perto que ele chegará disso.

– Posso perguntar o que descobriu sobre meu tio? — perguntou finalmente baixando a guarda, inteiramente exausta.

– Nem seu tio ele é, pra início de conversa. Mas poupe saliva, esse assunto não será comentado agora. Atualmente ele está em São Francisco, mas duvido que fique por lá muito tempo, ele tem algo a fazer por aqui, e é por isso que iremos esperá-lo.

– Ele voltará?

– Sim, ele ainda não descobriu que a filha morreu.

– Filha? Mas que eu saiba ele só tinha um filho...e foi morto a um bom tempo.

– Ele tinha uma filha, e era a Rachel.

– O quê?! — cogitou.

– Se eu fosse você me prepararia, eu matei o filho dele no passado, foi uma das minhas primeiras vítimas, que pensando bem...foi o responsável pelo o que me tornei hoje. Agora, Rachel foi morta por sua causa. Ele não ficará nada feliz com isso. — riu.

– Minha família sabia da Rachel?

– Como é que eu vou saber?!

Revirou os olhos.

– Tem algum palpite ou não tem?

– Não. Mas se eles soubessem dela, não estariam mortos. A menos que eles sejam tão idiotas quanto você era.

– Cala boca. Mas diga-me...como descobriu essas coisas?

– Tenho ótimas fontes de informações.

– E quais seriam?

– Não lhe diz respeito. — disse caminhando pro lado oposto. — Sugiro que dê um jeito nesses ferimentos sozinha, a não ser que queira que eu cause mais derramamento de sangue. — sorriu cinicamente.

Quantas mudanças de humor esse cara tem...– pensou.

– Pode me emprestar seu carro?

– Quer roubar um carro roubado?

– É...

– Que seja. Se eu tiver sorte, você sofrerá um acidente com ele.

– Admiro sua simpatia.

Com muita dificuldade, e muitos tropeços, caminhara até a cabana, que inicialmente iria manter distância. Tendo como prioridade chegar ao veículo, carregava a katana continuando sua caminhada exaustiva. Jeff já tinha chegado, deve ter se adequado à dor com o tempo, e muitas vezes até gostara de senti-la.

Depois de um tempo, se apoiou sobre o carro, respirando fundo. Usando como apoio foi se direcionando até à porta, abrindo-a. Entrou se sentando e colocando a katana no banco ao lado. Colocou o cinto de segurança, pegando a chave que estava jogada ali. O ligou, suspirando aliviada. Antes de começar a dirigir ergueu o olhar vendo Jeff encostado na porta, com um copo em mãos, bebendo um líquido que de longe parecera ter uma cor negra mas estava mais próximo do vermelho. Era sangue?!

– Além de estuprar a menina ele bebeu o sangue dela?! — perguntava enojada. — Isso é nojento.

Começou a dirigir, observando pela última vez o rapaz saboreando o conteúdo do copo. Cursou uma estrada diferente da vez anterior, dirigindo próximo a uma cidade. Seu corpo doía, mas a dor estava começando a se anestesiar.

Demorou mais do que o esperado, muitas vezes pegando o caminho errado, mas conseguiu chegar à uma drogaria. Vasculhou o carro procurando por algum trocado, conseguiu uma mixaria mas ainda assim daria pra comprar alguma coisa.

Saiu do carro vendo seu sangue pingar sobre a calçada, o dono da farmácia foi correndo ao seu encontro, perguntando se estava bem. Eles conversaram, e ela explicou a situação, dizendo que foi atacada e logo após de medicar iria até a polícia dar queixa. Ele se prestou a fazer alguns curativos e a deu um remédio pra dor, indicando que ela fosse ao hospital. Ela agradeceu, mas sabia que não poderia ir tão longe levando em conta que havia se tornado uma fugitiva.

Após isso, voltou ao carro, dirigindo para um lugar que já deveria ter ido a muito tempo. Um cemitério. Perdeu o velório de seus amados, precisara visitar aquele lugar.

Não era muito longe, porém afastado de qualquer comércio e movimento. Estacionou o carro, saindo. Abriu o grande portão com grades, desgastado pelo tempo ecoando um som pelo local. Podia ver algumas pessoas de longe, mas onde permanecera, estava solitário, um clima sombrio. Nunca gostou de cemitérios, mas atualmente via aquilo como um ambiente calmo e sem medo. O medo era causado pelos humanos, quando eles morriam, o medo desaparecia junto. Por mais sem razão que seu ponto de vista tivera, era o que passava por sua mente.

Encontrou as lápides de seus familiares, se agachando à frente. Estavam lado a lado, com apenas seus nomes e datas de nascimento e falecimento escritos, com pequenas fotos deles decorando. Algumas flores tinham sido deixadas, algumas já morrendo.

– Eu não pude impedir a morte de vocês, acho que na época eu era ingênua demais pra ver as coisas ruins desse mundo. Fui criada vendo as coisas boas, foi um choque descobrir o lado ruim delas. Sei que podem não estar ouvindo isso agora, e que depois da morte tudo pode acabar, mas irei mudar as coisas...pelo menos pra mim. A morte de vocês me causou grande dor, e sinto muita falta de cada um de vocês. Eu peço desculpa por ter falhado, e por terem morrido sem saber o que nossa família escondia. Mas um dia as coisas farão sentido...sei que irão.

Enquanto falava, viu um corvo pousar sobre a lápide de sua mãe, que ficava ao meio entre a de seu pai e irmão. O encarou, soltando um riso fraco.

– O que foi? Assim como o Jeff, acha que sou como você?

Vendo a gralha negra parada, preferiu acreditar que isso fosse um sim.

– Agora estou falando com um corvo... — debochou, rindo. — Acho que não estou nos meus melhores dias...

– Concordo. — ouviu uma voz fina, rindo baixo de forma tímida.

Se virou, vendo de quem se tratara.

– Rebecca?!

Continua...