Alone
32 Chantagem
Notas iniciais

Lauren caminhava pelo corredor, ouvindo o barulho estridente e não menos irritante da ponta de uma faca sendo roçada na parede.
Era um ambiente escuro e subterrâneo, as poucas luzes que encontrava pelo caminho, eram fracas e ameaçavam apagar a qualquer momento. Haviam muitas salas e passagens que sequer conseguiu contar.
Inalava o desagradável cheiro de mofo que vinha das paredes sujas ou do chão onde muitas vezes encontrava coisas absurdas, incluindo órgãos humanos. Se fosse pra julgar visualmente, tudo o que via a lembrava um hospício antigo e abandonado; alguns quartos, principalmente os que não continham portas e davam a visão de dentro, eram parecidos com dormitórios superiores do hospital psiquiátrico em que foi internada anos atrás e, por ironia do destino, a impulsionou até esse ponto.
— Você está mais quieta do que imaginei que estaria agora — Jeff comentou, observando no canto do olho direito com um pequeno sorriso. — Tudo isso é ansiedade por finalmente encontrar a pessoa que mais te ama nessa vida?
Sorriu de lado, parecendo não se incomodar com os comentários venenosos do individuo.
— Estive pensando em uma coisa importante desde ontem, nunca pensei que logo isso iria tirar minha concentração na hora de reencontrar Adam.
— E o que seria tão importante? — perguntou com as sobrancelhas erguidas.
Mesmo ele parecendo animado por estar em um ambiente medíocre, o qual claramente se identificava, Jeff se sentia extremamente incomodado em saber que ela escondia algo dele. Não saber das coisas, mesmo dos detalhes insignificantes, era como uma falha irreversível.
— Hã... Você saberá depois. Se não se incomoda, prefiro tratar disso primeiro — falou com um tom arrogante. — Onde Adam está?
Após soltar uma risada baixa, Jeff abriu uma porta de ferro que fez um som estridente em suas aberturas enferrujadas. Mas a proteção era mais especifica, mesmo atrás da porta, haviam grades não tão distantes.
— Esse lugar é enorme, e a proteção mais ainda... Tudo foi criado por Adam? — “homem que recuso chamar de pai”, concluiu mentalmente.
— Por ele e outros homens “poderosos”. Sabe-se lá quantos loucos pelo poder não passaram por cima de outras pessoas com pesquisas doentias como essa — disse divertido. — O dinheiro abre muitas portas para os que têm intenções ruins. Aí está o motivo para muitos morrerem e matarem por alguns trocados. A ganância é um pecado horrível, não acha? — sorriu.
Fitou Woods por alguns minutos, processando o que ouviu. Em seguida, olhou para o que tinha atrás das grades, mas tudo o que tinha era a escuridão. Uma escuridão forte o suficiente para não deixar visível nada ao olho humano. Tinha sim pequenos buracos nas paredes que permitiam pequenas entradas de luz, mas ainda assim, não enxergava nada.
— Ele está mesmo aí dentr...
Antes que pudesse terminar de falar algo pulou contra as grades as estremecendo. Lauren olhou surpresa para Jeff com o susto que tomou, ele por sua vez, mantinha a mesma expressão olhando para os braços de quem tanto tentava abrir o portão de ferro.
Ela entendia essa sensação. Era o desespero de quem queria se tornar livre.
— Ora, Lauren. Não está reconhecendo seu próprio pai? — Jeff caçoou.
A jovem piscou uma vez. Duas vezes. Três vezes. Seus olhos só se mantiveram abertos fixamente quando teve certeza do que estava a sua frente.
— Adam?
Ele estava sem alguns dedos, os braços e pescoço tinham cicatrizes bem marcantes. Metade de seu rosto estava totalmente desfigurado, seu olho esquerdo (que assim como Jeff, já não tinha pálpebras) e parte de seus dentes estavam completamente expostos em carne viva. Não dava para ver todos os ferimentos em seu corpo, mas dava pra se agoniar com o olhar dele. Aquele homem já teve muitos olhares, já se fez de mocinho e vilão. Mas com certeza, isso havia mudado com o tempo.
Jeff a fitou, tentando ter uma ideia do que se passava em sua mente. O que ela estava planejando?
— Você se lembra de mim? — finalmente teve coragem de perguntar, encarando o homem deformado que puxava entre os dedos da mão esquerda o pouco cabelo grisalho que ainda restava em sua cabeça, completamente desnorteado.
— Com o tempo ele adquiriu uma paralisia nas cordas vocais, mesmo que ele te responda, será em um tom muito baixo pra você compreender, porque se ele se esforçar pra falar mais alto, a respiração dele também será afetada — Jeff explicou.
O que Jeffrey fez com esse homem?
— Entendi... — suspirou, olhando para suas mãos que tremiam até ela cerrar o punho. — Então não consegue falar, não é mesmo? Tudo o que eu desejei está ocorrendo... Eu desejava que você passasse pelo mesmo que eu, tivesse uma noção de como foi pra mim pagar por todos os seus caprichos. Ninguém podia me ouvir também, mesmo que eu gritasse por dentro, eu já estive como você está agora. Eu não podia fugir, meu corpo doía, mas eu resistia mesmo quando parecia estar no meu limite... — estreitou o olhar. — Entende tudo o que fez? Você é um monstro! Nada mais justo do que ter ficado tão feio por fora quanto é por dentro!
Quando se deu conta, já estava sacudindo as grades gritando com o homem que dava passos em falso pra trás. Até mesmo isso o assustava agora, pelo visto ele já não estava mais aguentando aquele sofrimento. E depois de tantos anos, era compreensível que tivesse ficado mais louco que já é.
Talvez buscar por vingança não tivesse sido tão explorador, inesperado, e com tantas reviravoltas. Mas ao seu lado estava Jeff. Foi ele que a mostrou tantos cenários para ela. Finalmente parecia ter quitado suas dividas com ele.
Respirou fundo.
— Precisamos conversar. — se virou para Jeff, que olhou com desconfiança, mas ainda assim, seguiu-a até um ponto mais distante em que pudessem ficar a sós.
— O que quer? Já conversamos sobre esse assunto, eu decidirei o que acontecerá com ele aqui dentro, está sobre minhas ordens — cruzou os braços.
— Irá prolongar ainda mais isso? Realmente ele sofreria mais. Mas o que eu realmente quero, é dar um fim a dor de todos nós.
— Não estou entendendo as entrelinhas.
— Quando se cansar, sei que dará um fim nele. Mas quero que isso seja agora, e do meu jeito. Pode não ser o jeito mais doloroso ou mais “cruel” pra você, pois sei que você é uma pessoa podre por dentro e arrasar a vida dos outros é um passatempo muito divertido pra você, Woods. Mas ele, mesmo que isso seja uma vergonha pra mim, é meu pai. Tem meu sangue em suas veias. E eu decidirei o que acontecerá com ele, nada mais justo. E será hoje.
— O que deu em você? Decidimos que eu faria isso, e estou muito satisfeito com a situação atual para deixar a senhorita simplesmente acordar de um coma de QUATRO ANOS e querer impor regras em um acordo que já foi desfeito há muito tempo.
— Não é uma ordem, não estou te obrigando a nada. Estou pedindo... Que me conceda essa última alegria antes de eu partir.
— Partir? — perguntou surpreso. — Mal saiu do hospital e já tem um destino? Provavelmente fará besteira novamente. Que estupida — riu debochado.
— É disso que precisamos falar... Jeff. Dylan me deu a oportunidade de fugir com ele. Começar tudo com um novo nome, em uma nova cidade, tendo uma nova vida. Quero ter certeza que Adam morreu antes de ir, quero saber que não corro mais nenhum risco e assim como ele essa história inteira terá terminado. Por que... Eu provavelmente me casarei com Dylan.
Jeff cerrou os dentes.
— VOCÊ O QUÊ? — segurou-lhe pelo pulso. — Agora é assim, não é? Depois de tudo o que aconteceu, depois de ter matado tantas pessoas quer dar uma de Liu e tentar ter a “vidinha perfeita”?! Na sua cabecinha isso realmente parece dar certo, Lauren? Não seja tão inocente. Pensar na liberdade é a única forma de você vivenciá-la, você não tem nada além disso, entendeu? Nada.
— Você está alterado, me solte — o empurrou. — Pra quem não dá a mínima pra vida alheia, você parece um tanto preocupado.
— Não posso deixar você fazer besteira depois de ter te ensinado tantas coisas! Você não entende? Você é meu objeto. Minha criação. Eu te moldei como nunca fiz antes! Eu nunca dei a ninguém esse dom, se você o tem, não pode abandoná-lo.
— Do que está falando agora? Você nunca demonstrou preocupação em estar longe ou não de mim — franziu o cenho. Nessa altura da discussão, podia afirmar que já não entendia mais nada que rodeava a mente daquele sujeito. Ele era a inconstância em pessoa.
— Não estou nem aí pra onde você vá, desde que não esteja ao lado de Dylan. Aquele sujeito é desprezível!
— E você não é? — ironizou.
— EU NÃO VOU DEIXÁ-LA FAZER ISSO.
— Já falei pra você se acalmar, Jeff.
A respiração dele estava acelerada, suas narinas inflavam a todo o momento buscando por mais ar que abastecesse seus pulmões. Como sempre, ele tinha um jeito insano e ameaçador de olhar.
— Pois bem, Lauren. Se quiser dar um fim naquele imprestável do seu jeito, eu permitirei — aproximou, parando com o rosto próximo ao dela. — Mas quero deixar bem claro, que isso terá punição. Nós dois somos partes um do outro, a ação de uma parte prejudicará a outra, é assim que funciona. Pra tudo há uma reação. Faça do seu jeito. Mas eu vou garantir que isso volte pra você — afastou-se.
Engoliu seco. Ele foi bem direto em sua ameaça, mais do que nunca, teria que agir rápido se fosse pra fugir com Dylan.
— Bem... E quanto aos homens que trabalhavam pro Adam? Havia muitos, nem todos devem ter morrido.
— Alguns devem ter se aliado com outras organizações, e os que eram obrigados a trabalharem pra ele, devem estar curtindo suas liberdades bem longe daqui. Dificilmente iriam voltar. — respondeu secamente.
— Entendi. Então vamos finalizar essa história. Será como se nunca tivesse acontecido.
— Você já sabe como?
— Já preparei tudo.
•••
A porta foi aberta, assim com as grades arrastadas. A jaula de Adam finalmente foi liberta, e sua filha, com as chaves entre os dedos, o esperava com um olhar indecifrável em curta distância. Seu corpo estava dormente, e mesmo com os pés meio tortos, caminhou até ela sem saber de suas intenções.
Lauren virou seu rosto o analisando, e segurou suas mãos.
— É realmente uma pena... Acho que nunca tive uma visão paternal de você, sequer me senti protegida em sua companhia. Não terei nenhuma lembrança boa de você, mas garanto que você também não terá de mim — admitiu, deixando-o ainda mais confuso. — Me siga, quero te mostrar algo.
Tinha o silencio como resposta, mas no estado dele, dificilmente ele tentaria fazer algo. Adam caminhava como em um corredor da morte, um passo de cada vez, nas batidas cada vez mais fortes de seu coração.
Depois de alguns minutos, que pareceram passar mais rápido do que imaginara, Lauren abriu a porta de um cômodo qualquer que preparou pra ocasião.
Havia algumas cadeiras, cuja as da primeira fileira eram as únicas que não estavam caídas ou quebradas completamente, e na parede à frente, um telão, que era a única iluminação do quarto. No mesmo telão, fotos eram passadas, fotos que de alguma forma afetaram Adam emocionalmente, porque ao ver, ele estava prestes a chorar, e mais nada no cômodo foi notado por seus olhos.
— Demorei muito pra conseguir encontrar fotos da minha mãe. Da minha verdadeira mãe. A mulher que você tanto amou e viu em mim. Contei com a ajuda de um grande amigo para conseguir reunir tudo isso, mas valeu a pena.
O homem tocava a tela, onde mostrava o rosto da mulher. Encarou com um pouco mais de raiva Lauren, tentando entender aonde ela queria chegar com tantas lembranças ruins.
— A última coisa que eu gostaria que você visse, é nós duas. Afinal, mesmo isso não sendo nada racional, foi culpa “nossa” você ter se tornado assim, até onde sei.
Ele pareceu ainda mais confuso, e até mesmo tentou se aproximar dela, mas alguém o atacou pelas costas, e logo outra figura pareceu subir em cima de seu corpo, e aos poucos, um grupo de pessoas parecia ter se reunido em sua volta, cheirando seu corpo como animais famintos.
— Eu li sobre alguns de seus experimentos. Em um deles, você deixava um grupo de pessoas sob uso de drogas sem alimento por horas, tanto que eles eram obrigados a se alimentarem até do próprio corpo. Essas mesmas pessoas, estão famintas nesse exato momento — completou, vendo-o arregalar os olhos antes dela fechar a porta com tudo.
Encostou seu corpo sobre a mesma porta, onde sua costa deslizou até que se sentasse ao chão. E então começou. Os canibais começaram a devorá-lo vivo, e Lauren conseguia ouvir seus gemidos e gritos falhos de dor. O som de sua carne sendo partida ou abocanhada... Não conseguia pensar em um jeito mais lento de ser morto.
Adam finalmente sabia como era ser devorado, depois de tantas pessoas que passaram pelo mesmo.
Jeff não estava satisfeito com esse fim, mas Lauren estava. Ele tinha visto e sentido tudo o que ela desejava que ele sentisse. Parte dela se sentia aliviada, e ameaçava colocar pra fora aquele sentimento que segurou por tanto tempo. Outra, arrependida por algumas coisas, talvez. Mas agora, o alivio falava mais alto.
Finalmente, não havia mais inimigos. Não havia mais planos de vingança, e os lugares em que andava não eram mais palcos de batalhas sangrentas. É... Deve ser assim que resumem o sentimento de liberdade. Não estar mais presa a nada e ninguém.
Finalmente posso dizer que tudo isso acabou.
•••
O telefone tocava sem parar no andar de baixo da casa. Liu ajudou sua mulher a se deitar confortavelmente na cama, parecendo um pouco preocupado porque o nascimento de seu filho estava atrasado e na pior das hipóteses a saúde da mãe ou do bebê seria brutalmente afetados. Mas todos seus pensamentos e preocupações eram interferidos a cada ligação que recebia. Infelizmente, tinha uma ideia de quem o ligava.
Suspirou.
— Eu já venho — beijou-lhe a testa. — Tente descansar, meu bem.
Virou-se atravessando a porta e descendo até a sala. Por um momento antes de levar a mão ao telefone, seu corpo estremeceu. Seria isso um pressentimento ruim?
Tomou coragem, e assim atendeu a ligação:
— Liu falando. Quem é?
— O pirralho já nasceu? — a voz sarcástica provocou.
Jeff...
— Já falei pra você parar de ligar pra cá! — reclamou, tentando não alterar a voz porque se Ariel ouvisse, ficaria bem aflita com mais uma ligação do assassino. — O que quer de mim? Se encostar um dedo na minha família de novo, eu...
— Calma irmãozinho. Não estou ligando para ameaças, apenas senti saudades e queria saber como você está.
— Acha que sou idiota? Seja o que for que você queira, deixe-os fora disso. Minha família não tem nada a ver com nossa rixa antiga.
Liu estava prestes a encerrar a ligação, quando Jeff riu baixo, o surpreendendo.
— Escute, Liu: estarei disposto a deixar sua família em paz, dou minha palavra que não irei encostar nem no fio de cabelo de uma pessoa importante pra você — sorriu enquanto falava. — Mas para isso, você terá que me fazer um favor.
— Não farei nada pra você.
— Isso é você que sabe, estou dizendo que o deixarei em paz, você terá a oportunidade de ter uma vida saudável ao lado de sua esposa sem temer que seu maldito irmão apareça com novas ameaças.
Não Liu, você não pode fazer isso...
— Sei que você faria qualquer coisa por quem ama, Liu. Uma hora ou outra, você fará exatamente o que quero. Será uma troca mais do que justa, e poderemos dar uma lição em uma pessoa — desligou.
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