Almejar

21 Capítulo XXI - Constelação


Notas iniciais
Nossa, o nyah repaginou nesse meu breve sumiço! Boa leitura!

O relógio marcava três da manhã quando Cascão apertou os olhos pela talvez vigésima vez naquela noite, desistindo de tentar dormir. A declaração de Agnes somada à sua falta de resposta eram o principal motivo da insônia.

Decidiu sair de seu quarto, dando de cara com uma presença que não espera ver: Nikolas.

“Nik? Em minha humilde residência? A essa hora?” perguntou e o outro riu.

“Perdi uma aposta pro Xaveco e acabei tendo que aprender a jogar xadrez de madrugada.” apontou para o loiro, que arrumava um tabuleiro de xadrez.

“O que faz acordado a essa hora, Cascão? Vai dar rolê?” o cacheado perguntou.

“Não… é que eu fui um idiota.” respondeu enquanto se sentava.

“Por quê? O que você fez?” o outro perguntou.

“A Agnes disse que me ama! E eu não disse nada!” revelou.

“Por que você não disse nada?” Nik perguntou.

“Eu fiquei sem reação, não esperava isso. Fora que eu fiquei pensando se sou realmente o que ela espera.” respondeu.

“Como assim?” o gamer perguntou.

“É tudo muito novo por causa da hipocondria, mano. Será que ela realmente gosta de mim ou é essa euforia do novo? Mesmo eu fazendo o possível pra respeitar os limites dela, tem muita coisa do dia a dia da Agnes que não faz parte do meu, tipo… tirar os sapatos pra entrar em casa!” revelou.

“Ah, mas isso são detalhes mínimos, Cascão.” Xaveco comentou.

“Mas importantes pra ela! E eu sou avoado demais pra lembrar de tudo.” assumiu.

Os outros dois olharam surpresos.

“Mano… você ‘tá preocupado demais!” Nik comentou.

“Verdade! Ela te conhece, sabe que vocês têm diferenças! E mesmo assim quis continuar.” Xaveco concordou.

“Eu sei, mas… eu não quero decepcionar!” o outro exclamou.

“Antes de mais nada: o que você sente por ela?” Nik perguntou.

Cascão riu.

“Fazia um tempinho que eu não sabia o que era ter uma dona do meu pensamento. Eu gosto de estar com ela, de ver ela evoluindo a cada dia nas paradinhas contra a hipocondria, do sorriso, do beijo, do cheiro… de tudo!” revelou.

Os outros dois sorriram.

“Então você já sabe o que fazer!” Xaveco disse.

“Eu convivo com a Agnes faz um tempinho, Cascão. Ela não deixa qualquer um entrar na vida dela e muito menos fazer morada. Se tem uma coisa que posso te recomendar é que seja sincero com ela e com você! Não vale a pena ficar reprimindo os sentimentos.” Nik aconselhou.

“Olha que homem amoroso!” o loiro zombou o amigo.

“Eu sou assim mesmo, fazer o quê?” ele disse.

A fala de Nikolas deixou Cascão pensativo e um tanto decidido.

“Valeu, gente! Estamos planejando o que fazer hoje à noite pra comemorar a demissão do Grózny, conto com a presença de vocês!” falou.

“Cascão, são três da manhã! Por que já está fazendo planos pra noite?” Xaveco riu ao perguntar.

“Pra não ter desculpas.” falou antes de sair do cômodo, sentindo-se um pouco mais leve.

*

Não muito tempo mais tarde, no apartamento de Do Contra, o rapaz observava uma fresta de luz começar a clarear um pedacinho do ambiente enquanto, ao seu lado, Milena dormia serenamente.

Logo mais, a moça iria sair para o primeiro ensaio de seu portfólio, que seria às cinco horas da manhã. Sentia orgulho de todo o empenho que Milena tinha para alcançar seus objetivos, porém, sentiu despertar em si um sentimento negativo: a comparação.

“Ela acordando cedo pra correr atrás de um sonho e eu aqui… tendo tudo sempre caindo aos meus pés, sem esforço nenhum...” divagou.

Sua mente o levou até o dia do escândalo, naquele mesmo apartamento, logo após sua saída do show e uma discussão acalorada com a banda.

“Gente, pela milésima vez: eu não sou um cara que engole sapos! O cara ‘tava tentando humilhar a gente! Então foda-se ele!” exclamou a fim de encerrar a discussão.

“Do Contra, a gente também não gosta de engolir sapos, mas o cachê era maior que os dos últimos três shows que fizemos!” Jeremias ressaltou.

“Tive poucos freela’ este mês. Iria fazer uma diferença boa.” Toni acrescentou.

DC revirou os olhos enquanto se jogava no sofá.

“Nem tudo na vida é dinheiro, meus amigos.” comentou.

Isadora bufou enquanto cruzava os braços.

“Mas praticamente tudo que fazemos, envolve dinheiro! Você tem que levar as coisas mais a sério, Maurício!” exclamou.

“Se levar a vida mais a sério é ficar ouvindo merda calado e ainda aceitar… prefiro continuar na mesma.” ele disse.

“Do Contra, bota na cabeça que nenhum de nós queria estar ouvindo as merdas que ele ‘tava falando da banda, dos integrantes e até das músicas, mas a gente precisava do dinheiro!” Jeremias disse sério.

“Vão vir outros trabalhos. Relaxa, gente.” falou despreocupado.

Toni riu sem humor.

“Pra você é fácil falar! É só chegar nos teus pais e dizer “me empresta 5.000 amanhã?” Que te emprestam. Brigando, mas emprestam. Pra gente, o buraco é muito mais embaixo.” falou.

“Por que ainda estamos falando sobre isso?” o outro perguntou.

“Porque você vacilou! Você podia ter feito seu protesto de outro jeito. Tipo… depois de a gente estar com a grana na conta.” Isadora disse.

“De quanto vocês precisam?” perguntou e os demais o olharam feio.

“A questão não é essa, cara!” Jeremias exclamou.

“Então é qual? Até agora, só ouvi reclamarem sobre não terem conseguido o cachê.” falou.

“A questão aqui é que você não pensou na gente! Não pensou como uma banda! Não pensou nas consequências que sua atitude traria pra banda! Você nem mesmo avisou a gente o que ia fazer!” Toni exclamou zangado.

“Vocês iam negar.” falou.

“Não, a gente não ia! Mas seria de um jeito que ninguém saísse tão prejudicado assim. O cara ‘tá te queimando por causa disso e vai respingar na banda!” Jeremias disse.

“Não me arrependo de nada.” o outro moreno deu de ombros.

Os três negaram com a cabeça.

“Você é um imaturo! Maurício, você ainda tem muito o que aprender sobre o que é a vida! E mais ainda sobre como ela muda de pessoa pra pessoa! Vamos vazar daqui, meninos!” Isadora disse, retirando-se com os outros dois.

Antes de sair completamente, ela girou os calcanhares.

“A propósito, está tudo acabado entre nós. Eu não posso continuar com um cara que se diz contrário a padrões e coisas do tipo e não consegue olhar para outras realidades!” ela rompeu o relacionamento antes de sair.

Tudo aquilo havia o deixado atônito. Nimbus, que havia ouvido tudo em completo silêncio, enfim decidiu se pronunciar.

“Péssimo dia, hein?!” deu um tapa no ombro do irmão antes de também deixá-lo.

DC voltou ao presente ao ouvir o celular da namorada despertar. Ao mesmo tempo que era grato por sua insensatez ter colocado Milena em sua vida, tinha momentos que ainda se sentia o mesmo Do Contra de outrora, que não olhava para a realidade dos outros.

A moça abriu os olhos devagar e pareceu ficar alguns segundos sem saber ao certo onde estava.

“Bom dia, DC.” cumprimentou com um bocejo, fazendo-o sorrir.

“Bom dia, guerreira.” desejou de volta, beijando-a no rosto.

A moça riu.

“A guerreira devia ter dormido na própria casa. Tenho ensaio daqui a pouco e meus equipamentos ‘tão tudo lá.” comentou enquanto se espreguiçava.

“Sua casa ontem era um ninho de amor. No momento, foque em um café da manhã decente.” ele falou.

“Você vai fazer pra mim?” ela perguntou.

O rapaz gargalhou.

“Eu falei decente, logo, podemos ir numa padaria.” respondeu.

A moça se sentou.

“Tenho uma péssima notícia a você: as padarias ainda não abriram.” ela disse enquanto coçava os olhos.

O moreno arregalou os olhos.

“O cara acorda antes das padarias todos os dias?” perguntou surpreso e a namorada riu enquanto se levantava.

“Só um dia que não, quando ele está de folga. A vida não é moleza pra muita gente, Mauricinho.” ela disse enquanto ajeitava os cabelos.

Aquilo deixou o rapaz pensativo. O sermão de Isadora havia o feito pensar sobre isso na época, e a convivência com Milena havia o feito perceber ainda mais no presente.

“Realmente. Então vamos descobrir o que tem na minha geladeira.” falou também se levantando enquanto tentava mudar o foco.

“Provavelmente restos de delivery e comida que nem devia estar lá mais. Parecida com a minha.” brincou e ele riu enquanto a acompanhava, sentindo-se um pouco mais leve de suas inquietações.

*

Horas mais tarde, no apartamento das meninas, Cebola despertou revigorado. O sim de Mônica havia se estendido para uma deliciosa noite recheada de afagos, declarações e beijinhos.

Porém, sua surpresa foi a ausência da namorada ao seu lado.

“Será que tudo não passou de um sonho?” questionou-se.

“Não.” Mônica entrou no quarto com uma bandeja de café da manhã.

“Ontem você cozinhou pra mim. Então quis retribuir!” ela falou colocando a bandeja no lado vazio da cama.

O rapaz gargalhou ao ver o cardápio: torradas e café.

“Me surpreendi com o banquete.” falou enquanto pegava uma torrada.

“Meu amor, se você soubesse os péssimos hábitos de café da manhã que se tem nesta casa… entenderia que torrada com café realmente é um banquete. Só a Agnes que se alimenta decentemente.” a moça riu com ele.

“E sente orgulho disso, dona Mônica?” ele perguntou.

“Orgulho eu não sinto, mas algum dia eu chego lá. Se quiser, sobrou comida de ontem.” respondeu e Cebola riu.

“Comer um pratão de macarrão com brócolis às… 08:30 da manhã? Não sei se é uma boa ideia.” comentou após olhar seu celular.

“Depende. Acha que o Cascão, quando chega dos rolês apocalípticos de manhã, não atacaria um pratão a essa hora?” perguntou e o namorado gargalhou.

“Comeria até o reboco das paredes, dependendo do que ele andou fazendo na noite.” disse antes de colocar a bandeja na mesinha e puxar a moça para a cama, fazendo-a rir.

“Mas falando de você, acho que vou ter que aparecer aqui todos os dias pra ter certeza que está comendo direito, senhorita!” beijou-a no rosto.

“Não vou achar ruim. Está livre hoje, Cê?” ela perguntou em meio a uma carícia no braço.

“Geralmente, a ocupada é você.” ele ressaltou.

A namorada apontou-lhe o dedo.

“Em minha defesa, estou bem menos workaholic!” defendeu-se.

“E estou feliz por isso! Respondendo sua pergunta, estou.” ele disse enquanto pegava café.

Mônica colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

“Hoje eu tenho um almoço com meus pais e adoraria que você os conhecesse. Mas eu entendo se for muito cedo pra você, é claro.” convidou-o.

Cebola sorriu largamente, sentindo-se alegre pela namorada querer apresentá-lo aos seus pais.

“Mônica, nos apaixonamos em um mês! Acho que entre nós não existe isso de muito cedo. Eu vou adorar!” exclamou e ela sorriu largamente antes de abraçá-lo.

X

Não muito tempo depois, Cebola bateu à porta ao lado, por onde passou rapidamente, assim que o sonolento Cascão a abriu.

“Cascão! Mônica me convidou pra um almoço com os pais dela e estou nervoso! Estou feliz, mas nervoso. E se tudo der errado? E se eles não gostarem de mim? E se eu passar vergonha?” o rapaz falou de uma vez.

Cascão piscou um olho de cada vez.

“Não ouviu uma palavra do que eu disse, né, seu Avoado?!” Cebola reclamou.

“Cebolácio, são nove da madrugada e eu nem dormi direito. O que te faz achar que eu estou lúcido o suficiente pra entender você falando como se estivesse na velocidade 2x?” o amigo se defendeu enquanto fechava a porta.

“Mônica me convidou pra conhecer os pais dela e estou apavorado.” o outro resumiu.

“Se era só isso, falou aquele textão pra quê?” Cascão perguntou rindo.

“Só isso? Isso aqui é assunto sério, Cabeção! Caso de vida ou morte!” Cebola exagerou.

“Para de ser exagerado! Conhecer os sogros é meio tenso mesmo, mas não é o fim do mundo. E a mina vai estar lá com você.” o amigo o acalmou em meio a um bocejo.

“Pra você é fácil falar! Parece ter um ímã que faz todo assunto fluir e as pessoas gostarem de você! Comigo… hunf! A realidade é um pouco mais dura.” o outro comparou.

Cascão riu.

“Você só reclama, hein? É só ser você mesmo, Careca.” falou.

“E se eles perguntarem o porquê de eu não ter casado?” o desesperado amigo perguntou.

“Até onde eu me lembro, quem disse não foi a noiva.” Cascão ressaltou.

“E eu fui correndo atrás da wedding planner!” Cebola lembrou.

Cascão suspirou.

“Cebola, só relaxa e mostre que suas intenções são sérias e boas. A Mônica gosta de você! Então se agarre a isso.” aconselhou.

“Foi assim quando você conheceu os pais da Agnes?” perguntou e o outro riu.

“Circunstâncias diferentes. Mas, atualmente, eles devem ter raiva de mim. Está mais calmo? Eu ‘tava tendo um sonho ótimo e queria saber como termina.” respondeu.

“Não tem como continuar um sonho. Teu subconsciente não é série com todas as temporadas prontas, não!” Cebola riu ao dizer.

“Seria legal.” divagou.

“Seria o maior fracasso já visto.” o outro zombou.

“Boa mesmo seria a sua, né, bichão? Vai pra casa e me deixa dormir!” reclamou rindo.

*

Um pouco mais tarde, após a limpeza da casa, Agnes foi guardar algo em seu banheiro quando deixou cair uma caixinha. Ao pegá-la, percebeu ser a de seu termômetro, que não era usado há dias.

A loira encarou o objeto por alguns segundos, refletindo sobre como as coisas haviam mudado.

“Se me dissessem que eu nem mesmo lembraria da existência do termômetro que eu usava todo dia pra medir minha temperatura… eu não acreditaria.” riu consigo mesma até ouvir a campainha.

Assim que atendeu, sorriu ao ver Sofia, que havia sido convidada para um café.

“Adorei seu convite, Agnes. Mas já aviso que estou virada.” comentou enquanto ajeitava seus óculos escuros.

“Deixa eu adivinhar… saiu com a Denise.” comentou enquanto servia um copo de suco de laranja para a amiga.

“Não, com outros amigos. A Denise tem ensaio fotográfico hoje, então disse que dormiria pelo menos 8 horas pra estar plena.” revelou enquanto pegava um pãozinho.

“Com a Milena, né? Ela me chamou pra ser uma modelo também. Eu aceitei, mas talvez nem devesse.” a outra comentou.

“Por que não?” perguntou.

“Não sou muito de fotos. Sofia, hoje eu percebi que faz muitos dias que não olho minha temperatura.” comentou sorridente.

“Isso é uma coisa boa, imagino.” Sofia falou bebendo o suco.

“É! Mostra que as coisas estão mudando.” falou e a amiga riu.

“Isso não é de hoje, Agnes. E seu crush?” perguntou.

A loira lambeu os lábios e teve uma ideia.

“Será que a Penha ‘tá online? Assim conto de uma vez… está! Penha, vou fazer chamada de vídeo! A Sofia ‘tá aqui comigo.” mandou um áudio para a amiga, que logo aceitou.

“Fala. Por que está de óculos de sol, Sofia?” a morena falou assim que a câmera ligou.

“Rolê que durou demais.” respondeu dando um gole em seu suco.

Agnes contou detalhadamente os acontecimentos da noite anterior, que deixou as amigas boquiabertas.

“Você disse que ama ele?!” interrogaram incrédulas.

“Sim.” a outra respondeu calmamente.

“E o que ele respondeu?” Sofia perguntou eufórica.

“Não disse nada, mas ficou surpreso. Mas mesmo que ele não sinta o mesmo, estou feliz por ter dito.” Agnes começou.

“Sérrio?” Penha perguntou de cenho franzido.

“Sim. Eu finalmente entendi o que significa tirar algo do peito. E foi ótimo!” Agnes confessou.

Ao passo que Penha estava surpresa, Sofia encarava a amiga com um sorriso orgulhoso.

“Agnes… você está muito radiante!” Sofia elogiou e a estudante de biologia sorriu.

“Eu estou gostando desta nova fase. Ainda tenho meus problemas com meus pais e minhas tendências, isso não desaparece assim. Mas… estar em dia com a terapia, ter gente me aceitando como eu sou… Tem deixado um pouco menos doloroso.” confessou.

“E pensar que tudo começou no Tinder. Mas como você lida com o fato de ele já ter vivido muito coisa e você não?” Penha perguntou.

“Como assim?” a loira perguntou.

“Até ontem, você nunca tinha nem beijado na boca. E ele vai em festas apocalípticas, onde muita coisa acontece.” explicou.

“Para de botar coisa na cabeça da menina, Penha!” Sofia repreendeu.

“Não é botar coisa, Sofia! É que não tem como desconsiderrar esse choque. Não estou dizendo que o Cascão é um carra que gosta de pegar inexperrientes pra se vanglorriar pros amigos que foi o primeirro e depois sumir, mas existem muitos desses no tipo de rolê que ele vai.” a outra retorquiu realista.

Agnes assentiu.

“Entendo sua preocupação, Penha. Só que o Cascão nunca fez questão nenhuma de esconder o festeiro que ele é, e sempre me respeitou em absolutamente tudo, desde meus limites até o fato de ser tudo novo pra mim.” a loira começou.

De repente, uma mensagem chegou.

“Falando nele… acabei de ser convidada pra comemorar a demissão do Grózny.” leu a mensagem com um sorriso.

“Grózny? Onde foi que ouvi esse nome?” Penha tentou lembrar.

“É o cara que o Nik fez exposed. Milena e todos os amigos dela odeiam ele, inclusive o Cascão. Então tudo que envolve ele se dando mal, eles comemoram.” Agnes explicou.

“Que foda! E você vai?” perguntou e ela riu.

“Tenho que prestigiar minha colega de apartamento, não acham?” falou e as duas amigas riram.

“Tua cara nem treme, Agnes! Virou outra pessoa.” Sofia comentou.

“Não virei outra pessoa! Eu só… mudei algumas visões.” disse risonha.

*

O relógio ainda não marcava meio-dia quando, no apartamento de Nimbus, Milena, Sarah e Luca faziam o ensaio de Denise e Jeremias, que já era o décimo ensaio fotográfico do dia.

Ao mesmo tempo que estavam felizes pelas adesões, já era perceptível o cansaço.

“Sarah, Luca, da próxima vez que eu inventar de fazer uma loucura dessas, podem me dar um tapão! Eu deixo!” a cacheada reclamou enquanto olhava a última foto tirada.

“Digo o mesmo!” a dona dos fios azuis comentou enquanto ajeitava um refletor.

“Até que foi interessante fazer um ensaio às 05 da manhã. Mas seu erro foi ter oferecido 10 fotos, Milena.” Luca disse enquanto manuseava o ventilador.

“Vocês têm noção que tiramos mais de 100 fotos até agora? Clientes diferentes, cenários diferentes, pedidos diferentes e a edição vai ser uma coisa triste.” Sarah disse.

“Se esse portfólio não ficar bom… eu abandono a fotografia. Vamos tentar aquele clássico beijo em que um está de costas e as cabeças tombadas, casal.” Milena instruiu o casal.

“Joga o vento mais pra direita, Luca. Vai dar um efeito legal de esvoaçar de cabelos.” Sarah disse.

O restante da banda também estava presente, preparando-se para quando chegasse a vez de cada um.

“Foto de casal é a coisa mais brega do mundo. Fica parecendo aquele meme dos lagartos se abraçando.” Toni zombou rindo.

“Ah, Marco Antônio… você bem que queria estar assim, só fica aí fingindo que não.” Jeremias rebateu.

“Com você, Jerê?” Milena riu enquanto tirava a foto.

“Sorry, Toni. Mas esses brações aqui não vão te agarrar.” Denise zombou enquanto abraçava o namorado.

O loiro riu.

“Prefiro levar um soco a fazer trisal com vocês dois.” benzeu-se.

“As mulheres pensam o mesmo sobre você. E nem precisa ser trisal.” Isadora zombou, fazendo os demais rirem.

“Última foto, casal. Vamos tentar uma com menos vento agora.” Milena disse após olhar a última foto.

“Quando vai rolar um estúdio fixo, pessoal?” Nimbus perguntou.

A cacheada riu.

“Meu amigo… ‘tô pagando meus modelos com ensaio fotográfico, então zero previsões.” comentou.

“Jeito sutil de dizer que quer a gente fora daqui, Nimbus.” Sarah disse.

“Não, não era isso. É que vocês ‘tão sofrendo hoje. Correr de um lado pro outro deve ser cansativo.” ele se explicou.

“Isso é verdade! Estou exausto. Um fiador resolveria metade dos nossos problemas.” Luca disse assim que o ensaio chegou ao fim.

“Aposto que meus pais aceitariam ser fiadores de vocês.” Nimbus falou.

“Não, obrigada!” Milena negou quase imediatamente enquanto olhava as fotos.

“Por que não? Eles foram meus fiadores.” o cunhado perguntou.

“Você é o filho, isso é infinitamente diferente.” Jeremias observou.

“Prefiro não misturar vida profissional com vida pessoal.” a fotógrafa disse.

“Já ouvi isso antes. E olha só no que deu.” Luca apontou para DC.

O casal riu.

“Ela não era mais minha fotógrafa.” DC ressaltou.

“Vocês começaram a se pegar antes, nem vem!” Jeremias riu.

“Ué, Milena, você trabalha com dois amigos. Não deixa de ser vida pessoal.” Denise observou.

“É diferente. Conseguimos separar muito bem as coisas.” a outra respondeu.

“Acho que eles também saberiam.” Nimbus insistiu.

“O problema está no lado CNPJ da coisa, Nimbus.” Luca riu ao dizer, levando um tapa simultâneo de Sarah e Milena, algo que não passou despercebido pelos olhos e ouvidos atentos de DC.

“O que quer dizer com isso?” o músico levantou uma sobrancelha.

“Nada, não. Pensei alto. Vamos, Toni? Agora é sua vez.” Luca desconversou.

“Conseguiram o que eu pedi?” o loiro perguntou.

“Tá na mão.” Milena disse antes de entregar um esguicho e uma embalagem.

“Óleo corporal e um esguicho?” DC comentou de cenho franzido.

“Pra dar um tchan a mais meu peitoral malhado.” o loiro explicou enquanto tirava a camiseta.

"Eu não ouvi isso..." Jeremias disse rindo.

"É mais normal que você pensa." Milena comentou risonha.

“Milena, você já fotografou um cara tão gostoso que até seguiu no insta?” Isadora perguntou sem rodeios.

“Não vale escolher o próprio namorado! Tem que ser de antes de conhecer ele!” Denise condicionou.

A cacheada riu enquanto umedecia os lábios, sentindo o olhar do namorado em si.

“Eu, né?” Toni falou.

“Você nem é gostoso!” a ruiva disse.

“Muita gente discorda de você, Denise.” ele falou.

“Já, Mi?” Isadora reiterou.

A outra riu mexeu no cabelo.

“Já fotografei muita gente.” desconversou, causando risos.

X

Após muitas fotos e um almoço, DC e Milena decidiram caminhar pela praça arborizada que ficava ali perto, aproveitando o vento fresco de uma tarde quente.

“Tem mais quantos ensaios hoje?” ele perguntou enquanto segurava na mão da moça.

“Seis.” respondeu.

“Mais de dez ensaios em um único dia… como isso é possível?” ele perguntou e ela riu.

“Também estou sem saber. Só sei que vou estar bem cansada pro rolê de comemoração à demissão do Grózny.” comentou enquanto se sentava em um banco.

“Já tem lugar?” ele perguntou permanecendo de pé.

“No bar que fica perto da rampa e na rampa. Você vai né?” respondeu.

“É claro! Eu também odeio o Grózny. Espero que ele veja você fazendo sucesso.” respondeu e ela riu.

“Eu espero que ele não veja, assim não roga praga. Muito trabalho pra ele estragar.” falou e foi a vez de ele rir.

“Sabe… eu estou orgulhoso de ver a coisa caminhando.” comentou e ela sorriu abertamente.

“Eu também! É até surpreendente. Mesmo que ainda vá demorar.” falou.

“Sim, mas… Nimbus deu uma boa ideia.” falou e a namorada suspirou.

“Eu prefiro não misturar as coisas.” falou.

“Tem a ver com aquilo que o Luca disse? Eu não entendi, mas… aposto que você sabe o que ele quis dizer.” o rapaz perguntou e ela suspirou.

“Seus pais são legais, DC, mas quando o lado empresários tradicionais e influentes, o lado CNPJ, entra em ação, as coisas mudam." ela disse.

"Mas fiador e proprietário são coisas diferentes, eles não iriam poder surtar." ressaltou.

"Sim, mas acha mesmo que iriam querer o sobrenome Takeda de certa forma atrelado a um estúdio que também mexe com arte e tatuagem?” perguntou.

Aquilo fez o rapaz se calar. Todas as brigas com seus pais a respeito de suas escolhas sempre entravam na mesma questão: o sobrenome tinha um peso.

“É… talvez eles iriam falar coisas não muito legais.” assumiu mexendo em um de seus vários brincos e ela riu.

“Fora que sua família iria ter a certeza que estou com você por interesse.” a moça acrescentou.

Do Contra respirou fundo.

“Acho que nunca vou deixar de ter o defeito de não olhar além do que eu penso.” reclamou alto.

A moça acariciou-lhe o rosto.

“Não seja tão duro consigo mesmo, Amor. Não é uma tarefa fácil e precisa ser dosada. Porque se não… você deixa de viver a sua vida e passa só a se comparar.” falou.

O rapaz a abraçou.

“Como você sempre sabe o que me dizer? Eu te amo tanto!” falou espontaneamente e ela o abraçou de volta.

“Sempre é uma palavra forte. E eu também te amo.” falou.

Como de costume, o coração e a mente do rapaz sempre se acalmavam quando estava com a namorada.

*

O som do sino da igreja havia dado uma badalada quando Cebola sentiu que logo derreteria de tanto suar. As janelas do carro de Mônica estavam abertas, mas o calor que sentia fazia com que se sentisse em uma sauna.

“Tudo bem, Cebola?” a voz da namorada o despertou.

“Ér… é meio difícil esse primeiro contato. Ainda mais considerando como nosso relacionamento começou.” falou.

“Como assim? Você… você está com vergonha da nossa relação?” perguntou, fazendo-o arregalar os olhos.

“Não! Isso nunca! É que não quero parecer um cara ridículo. Ou que pensem que o que rolou com a Carmem pode se repetir.” falou e ela riu.

“Não se preocupe.” ela disse.

Ao chegarem na casa dos pais de Mônica, a moça acariciou a mão trêmula do namorado antes de entrar na casa mediana.

A primeira pessoa que viram fora o pai da moça, que tinha os braços cruzados e uma feição não muito amigável, seguido da mãe, que parecia mais tranquila.

“Minha filha! Que bom te ver!” a mais velha a abraçou.

“Bom dar as caras também!” Mônica a abraçou de volta.

O mais velho se aproximou de Cebola.

“Olá, rapaz.” cumprimentou alto e severo.

“Boa tarde, senhor! Ér… é um plazer … prazer conhecê-los.” falou, cometendo uma troca de r por l.

“Plazer?” o mais velho deu uma risada ao repetir.

“Para, pai! Quando ele fica nervoso, ele acaba trocando algumas letras. Isso não é motivo de riso. A propósito, esse é meu namorado Cebolácio.” apresentou-o.

“Nome excêntrico. Sou Luísa.” a mãe da moça comentou após cumprimentá-lo com um beijo no rosto.

“Ah… meus pais são bem criativos quando querem. Mas podem me chamar de Cebola.” falou sem jeito.

“Grande diferença. Pode me chamar de senhor Souza.” o mais velho resmungou ao apertar a mão com força, resultando em uma careta por parte de Cebola.

“Vamos para a mesa! Teremos um ótimo almoço!” a mais velha disse e todos a seguiram.

Na mesa, Cebola engolia em seco enquanto sentia o desconforto crescer. Ao passo que Luísa falava sem parar com a filha, o mais velho o encarava, como se tentasse decifrá-lo ou sugar sua alma.

“E então? Como vocês se conheceram?” a mais velha perguntou.

A tão temida pergunta havia ocorrido mais rápido do que esperavam. Cebola olhou para Mônica, que piscou um olho.

“Em um dos meus trabalhos.” ela respondeu.

“Ele é um colega de trabalho ou fornecedor?” a mãe perguntou.

“Não.” Mônica disse calmamente.

Os mais velhos pareceram raciocinar por alguns segundos.

“Você é casado?!” incrédulos, eles perguntaram juntos.

“Não! Eu quase fui. Mas não sou.” Cebola respondeu rápido.

“Mônica, explique isso direito! Se você não trabalha com ela, você era um noivo? Você se envolveu com o noivo de uma cliente, Mônica?” a mãe questionou séria.

“É uma longa história que envolve muita confusão. Pra resumir, os sentimentos dele e da ex noiva eram outros e ela disse não no altar. Nada aconteceu durante o noivado, mas a gente sentia algo um pelo outro.” a filha explicou.

“E quem me garante que o que você sente por Mônica é genuíno? Aposto que já disse que amava sua ex sem de fato amar.” o pai disse sério.

Cebola olhou carinhoso para a namorada.

“Foi tudo muito cúmplice, mágico e natural. Não conseguiria fingir sentimentos nem se eu quisesse.” confessou.

“Nem eu.” a moça disse.

A mais velha sorriu.

“Como vocês são fofos!” elogiou-os.

“Faz o que da vida, Cebolácio?” o pai da moça perguntou.

“Estudo Engenharia de software. Estou quase formando.” respondeu.

“Não trabalha?” ele perguntou.

“A-ainda não. Mas já fiz estágios…” respondeu com a voz trêmula.

“Não vá se escorar na Mônica, hein? Sei a filha trabalhadora que tenho.” ele alertou.

“Não, senhor. E ela realmente é trabalhadora.” falou.

O almoço passou cheio de constrangimentos para Cebola, mas o rapaz saiu de lá com um sorriso enfeitando os lábios e a cabeça erguida.

“Pelo seu sorriso, vejo que deixou de se sentir desconfortável.” a namorada observou.

“Não 100%, mas conhecer seus pais me fez ver que nossa relação está indo pra frente. Como eu queria.” ele falou antes de ganhar um rápido beijinho.

“Eu não os apresento pra qualquer pessoa, então se considere um rapaz de sorte.” ela disse.

“Os meus você já conhece. Só falta conhecerem como minha namorada.” falou e ela riu.

“Vou adorar, mas hoje não dá. Tenho que me arrumar pro ensaio da Milena. Por que você não quis ser fotografado?” perguntou.

“Não gosto de tirar foto assim. Fico meio sem graça. Mas vou estar no rolê à noite.” respondeu.

“Você já foi lá alguma vez?” ela perguntou.

“Foi lá que eu conheci ela… no mesmo dia que eu te conheci, inclusive!” lembrou e ela abriu a boca risonha.

“Não brinca?! Cebola… naquele dia, ela tinha me convidado pra ir lá! Então, se eu tivesse aceitado…” falou e ele riu também.

“A gente teria se conhecido do mesmo jeito. Mônica… se o destino não quer que a gente fique junto, eu não sei de mais nada.” constatou e ela gargalhou.

“E ele está conseguindo!” ela exclamou.

*

Outra pessoa que visitava os sogros era Carmem, que sorria enquanto caminhava pelo jardim dos pais de Nik.

Seus olhos passeavam pelas plantas floridas e aromáticas em meio ao vento fresco, por mais que já fossem duas da tarde. O local e o sentimento envolvido naquele jardim a inspiravam a conhecer mais sobre plantas.

“Aquele é um pé de jabuticaba. Ele já estava por aqui quando chegamos.” Flora apontou para uma árvore, cujo tronco estava cheio de suculentos pontinhos pretos.

“Jabuticaba é bom pra quê?” ela perguntou.

“É bom pra muita coisa! Ajuda no peso, a evitar diabete, no sistema imunológico e mais um monte de coisa.” Sérgio respondeu enquanto tirava um galho caído.

“Já aprendeu a olhar pra uma planta e saber pra que ela boa, mãe de planta?” Nik zombou, fazendo a namorada rir.

“Sou mãe de primeira viagem, ainda estou aprendendo.” ela brincou.

“Isso leva tempo mesmo, querida. Aquela você sabe o que é, né?” apontou para uma flor branca.

“A orquídea! Nik me deu um cacto, mas estou no aguardo de ganhar uma orquídea.” respondeu.

“Uma das mais difíceis?” Nik perguntou.

“Gosto de um bom desafio. Olha quem eu namoro!” apontou e ele riu, negando com a cabeça.

“Não pode esquecer de um carinho e de se comunicar.” Flora ressaltou.

Carmem começou a rir.

“Estamos falando das plantas ou do Nik?” perguntou.

“Que engraçada que você é… como se comunica com uma planta?” ele perguntou.

“Falando. Tem que falar com a planta, meu filho.” a mãe respondeu e Carmem riu.

“Anda falando com sua jiboia, Nikolas? Dando a atenção necessária? Ela também tem suas necessidades.” perguntou cheia de duplos sentidos.

O rapaz mordeu os lábios, segurando o riso. Os pais estavam de olho nas plantas, então não perceberam.

“Eu cuido bem dela.” falou.

“Quando a gente morar junto, eu vou falar mais com elas que com você. Só pra atiçar o ciúme que você tem.” a moça provocou.

“Como eu já disse antes, eu não tenho ciúme de planta.” respondeu.

A fala da moça chamou a atenção dos mais velhos.

“Vocês estão pensando em morar juntos?” Flora perguntou um tanto surpresa.

O jovem casal se entreolhou.

“Acho que nunca nem falamos sobre isso. É tudo muito… recente.” Nikolas comentou.

“Ainda é recente mesmo, mas ninguém aqui está fechando portas.” a loira piscou um olho.

“Você entendeu a indireta, meu filho?” o pai disse e ele riu, trocando um rápido olhar com a namorada.

Os dois não ficaram muito na casa dos mais velhos.

“Acha que seríamos um desastre morando juntos?” Carmem perguntou enquanto dirigia, quebrando o silêncio que estava no veículo.

“Por que seríamos? Só porque não sou um mestre cuca? ” ele perguntou com um riso.

“Também, mas é mais pelas experiências.” ela disse.

“Como assim experiências?” o rapaz perguntou.

“Você mora sozinho, e eu nunca nem lavei um banheiro. Então… não sei se eu já estaria pronta pra um passo desses.” comparou sincera.

“Você chegou a pensar nisso quando pediu o Cebola em casamento?” o namorado perguntou e ela riu.

“Meu amor, eu não pensei nem em como seria depois de sair daquele salão. Acho que, no fundo, eu já sabia que não ia dar em nada.” falou.

“Nunca quis morar sozinha, Carmem?” ele perguntou curioso.

“Meus pais nunca ficam em casa e tenho empregados, então a privacidade eu já tenho e, de brinde, quem faça tudo por mim.” a moça respondeu sinceramente.

“Nem vale a pena.” falou e ela riu.

“Não. Mas… eu não iria querer morar com você sem saber fazer nadica de nada. Às vezes é chato ter empregado rondando, entende?” falou e ele gargalhou.

“Deve ser horrível ter gente fazendo tudo pra você.” zombou e ela fez um bico.

“Ah, você não leva a sério!” reclamou.

“Calma, eu 'tô brincando. Eu… posso tentar imaginar seu caso.” falou.

“A questão é: no futuro, eu quero morar com você. Mas quero me sentir preparada pra isso. Não digo pra ser dona de casa, mas pra… saber como fazer, mesmo que a gente tenha quem faça.” ela revelou.

“Você mesma disse que é no futuro, então relaxa. Se quiser aprender a lavar um banheiro, podemos usar o meu de cobaia. Ele 'tá necessitado.” o namorado disse.

“Eu disse no futuro!” ela ressaltou com um riso.

“O que fez você pensar nesse longo prazo?” Nik perguntou.

“Você sabe que pensar no futuro não é muito a minha vibe, mas… quando eu penso minimamente, você está nele.” tirou uma mão do volante para deslizar no rosto dele.

O rapaz beijou-lhe a mão.

“Você está no meu há muito tempo.” falou carinhoso.

*

Mônica já havia acompanhado noivas em seus ensaios e até participado de um que fora madrinha, mas nunca havia feito um só seu. E tinha que assumir, de fato mudava a autoestima.

“Agora um sorriso aberto, Mônica.” Milena pediu em meio a flashs.

O cenário era o apartamento ao lado, onde usavam a mesa de sinuca como decoração.

Apenas Xaveco estava presente, para o desprazer de Agnes, que já havia passado pelo desconforto de fazer poses diante de uma câmera fotográfica.

“Cadê o Cascão, Xaveco?” perguntou, não havia o visto o dia todo.

“Organizando as coisas do rolê. Desde cedo ele ‘tá fazendo isso.” respondeu.

“Organizando o quê? É num bar de esquina.” Sarah comentou enquanto ajeitava a luz.

“Chamando gente. Mas ele deve ter feito alguma coisa também.” o loiro respondeu.

De súbito, a porta da sala se abriu, revelando um alegre Cascão.

“Gente, ótima notícia: consegui um estágio remunerado numa escola de boy aí. Ganha uma mixaria, mas é melhor que nada.” disse e os presentes o parabenizaram.

“Sabia que viriam os dias de glória, amigo!” Milena disse.

“Vai abandonar o Tinder de vez, Cascão?” Mônica perguntou em meio a um riso.

O moreno riu.

“Eu não pretendo voltar, mas se eu cair no sufoco de novo… talvez.” respondeu.

“Acho que vale mais a pena outros tipos de bico. Tipo o da GGeek.” Agnes falou.

O rapaz enfim a olhou. A loira não estava maquiada igual a Mônica, mas seu cabelo estava solto, caído nos ombros, e usava um batom claro. Havia a achado mais linda que o habitual.

“Trampar na GGeek é ótimo mesmo…” falou com os olhos fixos nos lábios levemente rosados da moça, que riu.

“E o rolê?” Xaveco perguntou.

“Que rolê?” o moreno esqueceu-se.

“Da demissão do Grózny. Você ficou o dia todo nisso.” lembrou-o.

“Ah é! A galera de sempre que vai colar. Mas pra deixar as coisas mais interessantes, vai rolar um campeonato noturno valendo um fardo de cerveja, aí vai mais gente.” Cascão respondeu.

“Por que você quer tanta gente?” Mônica perguntou.

“O dono do bar sabe quem organiza os rolês, aí ele dá um descontaço pra quem lota o bar dele. E eu gosto de um bom desconto, só o de salário que não.” falou.

“Já acabou a grana do Tinder?” Xaveco perguntou, fazendo o moreno rir.

“Ih, Xaveco… já torrei faz tempo! Até cheguei a fazer uns bicos novos.” respondeu.

“Cascão, o trabalhador.” Milena brincou enquanto olhava uma foto.

“Não mais que as senhoras têm sido hoje.” apontou para ela e Sarah, Luca não havia ido daquela vez.

“Não vou mentir, a gente ‘tá mesmo.” Sarah riu.

“As modelos ‘tão bem bonitas. Aí, sim, meninas!” ele elogiou as duas, com o olhar mais voltado para uma delas.

“Milena disse que precisava ser beleza cotidiana, mas aí iria queimar a câmera.” Mônica brincou.

“Você e teu namorado são exagerados demais. Quando é minha vez?” ele perguntou.

“Depois da Mônica. ‘Tô quase acabando o dela, então vai lá ficar bonito. Minha câmera não pode queimar.” a amiga brincou.

“Eu ajeitei o rolê pra você e é assim que me agradece?” ele disse fingindo estar ofendido.

“Você sabe que te amo, Cascão.” ela piscou um olho e ele riu.

“Pra esse daí ficar bonito, só nascendo de novo.” Xaveco zombou.

“Vou colocar a peita do Timão, aí já vou ficar 200% mais bonito. Só não sei onde ela ‘tá…” falou.

“Aquele pano de chão ‘tá no varal. Quase que eu pego ele pra secar o banheiro, mas nem rola estragar o chão assim.” Timóteo apareceu sem camisa enquanto secava os cabelos.

“Ah, Timóteo, o que tu quer ‘tá mole.” Cascão respondeu com um riso.

“A propósito, Agnes, você fez mágica naquele banheiro! Aquele cheiro de mijo, que achei que fosse eterno, sumiu.” o dentuço comentou.

“Olha as visitas, Timóteo!” Xaveco repreendeu.

“Elas já são de casa.” ele disse.

“Prefiro ir atrás do meu traje de gala em vez de ficar ouvindo as nojeiras do Titi.” Cascão disse.

“Você falando de nojeira, Cascão? Só não é um porco completo por causa desse teu time lixo.” Titi zombou, recebendo um dedo médio em resposta.

Cascão foi até a lavanderia e quase se assustou quando alguém se juntou a ele.

“Oi, Cascão.” era Agnes.

Por algum motivo, o rapaz sentiu algo que era muito difícil de acontecer: as bochechas corarem e o coração se acelerar.

“Ah… e aí, Agnes!” cumprimentou.

“Você sumiu o dia todo. O pega-pega te cansou tanto?” comentou e ele riu.

“Seria até preocupante. Sumi mais por causa do rolê de hoje e da resposta que recebi do diretor da escola em pleno fim de semana.” falou.

A moça umedeceu os lábios, mas ouviu um suspiro antes de falar algo.

“Eu ‘tô estranho pra caramba com você, né? Foi mal, é que… eu fiquei em choque com o que você me disse ontem.” confessou.

“Por quê?” ela perguntou.

O rapaz se escorou na máquina de lavar roupas.

“Ah… não é todo dia que alguém diz que te ama, né, Agnes?! E… eu tenho um pouco de medo.” falou.

A moça franziu o cenho.

“Medo?” repetiu.

“É. De… de não ser o que você realmente espera num cara. Sei que é tua primeira vez vivendo isso e, pensando nos exemplos que você vê, não sou um cara romântico feito o Cebola, atencioso feito o DC, foda e atento que nem o Nik… sou só um cara avoado, que ama festas, que dizem ter uma higiene questionável e que te conheceu depois de ter sido muito financeiramente imprudente. Então…” falava até a moça o abraçar, com aquele calor que só ela possuía.

“Cascão, ansiedade não combina nada com você. Você pode até não ser nada disso, mesmo eu achando que você tem todas essas qualidades, mas, mesmo assim, me ajudou a ver que eu podia ter uma vida diferente da que eu tinha sem deixar de ser eu mesma.” começou.

“Minhas tendências não sumiram, mas você deixou tudo mais leve. Quando eu disse que te amava, não era só… apaixonadamente falando. Eu amo a pessoa que você é e o que você desperta em mim.” explicou com os olhos brilhantes por trás das lentes redondas.

A moça tocou delicadamente em seu rosto.

“Não quero que se sinta pressionado a retribuir, eu realmente queria tirar esse sentimento do meu peito. Eu só peço que… não deixe de ser o Cascão que sempre foi! O mesmo constantemente suado e nunca nos 100% que eu tanto gosto.” confessou.

O coração de Agnes não estava tão disparado quanto o de Cascão naquele momento, assim como sua feição tranquila estava longe de se igualar ao olhar atônito e abobado que se desenhava no rosto do sorridente rapaz.

Sem aviso prévio, Cascão juntou seus lábios aos dela, que mostrou um novo aprendizado ao levar a mão à nuca masculina e tombar um pouco mais a cabeça, aprofundando o beijo.

Um clique seguido de um clarão chamou a atenção do par, que cessou o beijo para olhar para a porta, onde havia uma sorridente Milena com sua câmera em mãos.

“Um beijo bem embaixo da camiseta do timão com direito a luz do sol de fim de tarde entrando pela janela. Eu tinha que aproveitar. Camiseta de time é o novo visco?” a fotógrafa falou risonha.

“Apaga essa foto.” Cascão pediu e ela riu.

“Vem apagar!” ela provocou antes de sair da lavanderia.

Cascão, já risonho, ia atrás dela quando Agnes o impediu.

“Você realmente quer ir atrás dela?” perguntou enquanto umedecia os lábios.

O rapaz se sentiu um bobo enquanto seus olhos encaravam os lábios que ela mordia.

“Vou ter outras chances pra isso. Quer ter uma nova experiência, Agnes?” disse ao abraçá-la, prensando-a contra a máquina.

“Que experiência?” perguntou sentindo o corpo esquentar com a diferente proximidade.

Cascão pensou na conversa de mais cedo, nos seus pensamentos cada vez mais frequentes e na declaração da moça e decidiu seguir o seu coração, que estava apressado.

“Como é ter um namorado.” falou em um sussurro.

O coração de Agnes falhou uma batida antes de abrir um sorriso gigante. Não esperava isso, mas desde toda essa relação com o rapaz, já havia se perguntado como seria namorá-lo de verdade.

“Eu quero!” aceitou, selando novamente seus lábios.

*

Havia momentos em que Nikolas, na solidão de seu não tão grande apartamento, se deitava no tapete felpudo da sala e se colocava a pensar sobre suas escolhas e os caminhos que a vida o levava.

Naquele momento, algumas horas antes do jantar, após comer um petit gateau ruim, de falar com seu contador e de uma rankeada mais estressante que relaxante, todos na presença de Carmem, sua mente se pôs a trabalhar.

“Será que se eu não fosse Nik, o geek, coisas que acontecem realmente aconteceriam?” questionou.

“Que tipo de coisas?” Carmem perguntou enquanto deslizava seu feed no instagrão.

“Várias. Será que se eu fosse só mais alguém, tipo meu inscrito que passou pela mesma coisa, o Grózny teria sido demitido? Será que a GGeek teria o mesmo reconhecimento que tem? Será que eu moraria num apartamento como este? Será que eu poderia ser só um gamer que tem sua própria loja e trabalha nela por vontade própria?” falou várias coisas.

A namorada tirou os olhos do celular e o encarou, sem saber ao certo o que dizer.

“Ah… não sei, Nik. Talvez. Por que isso de repente?” respondeu e ele suspirou.

“Às vezes eu penso na vida e caio no pessimismo. Mas hoje, em especial, eu não sei o que esperar do jantar com seus pais. Algo me diz que não é só um jantar.” falou.

“Ele prometeu que não iria ser desnecessário.” ela assegurou.

“É, mas… será que seu pai vai me olhar e ver um cara que se apaixonou pela filha dele ou vai ver um cara famoso na internet que pode alavancar os negócios?” o rapaz questionou.

A loira abriu e fechou a boca. Conhecia o pai e seu ímpeto de transformar tudo em negócios e lucro, ainda mais com ele conhecendo a fama do gamer.

Foi a vez de Carmem ficar pensativa. De repente, sentiu receio de o rapaz reviver a questão que tivera com Keika, em que a imagem de Nik, o geek se sobressaia a de Nikolas.

“Vamos deixar a tristeza de lado e confiar que ele vai cumprir com a promessa!” exclamou animada e se sentou.

“Lembra daquela nossa conversa sobre o que eu almejo?” mudou o foco.

“Lembro.” ele assentiu.

“Eu descobri uma coisa no jardim da tua mãe. Eu quero tentar fazer uma colab entre a Dream e a floricultura da dona Nena, aí, de quebra, eu aprendo mais sobre plantas, uma coisa que tem me interessado de verdade.” revelou.

“E acha que ela topa?” ele perguntou.

“Tenho um argumento: alguém precisa cuidar para que as plantas não sejam maltratadas nos eventos.” a loira disse.

“Então seu sonho é ter uma parceria?” o namorado perguntou.

“Falando assim, fica estranho! Eu quero trazer mudanças na Dream, entende? Quero uma equipe que seja mais respeitosa, com pessoas e plantas.” explicou melhor.

Nik sorriu orgulhoso antes de também se sentar e abraçá-la.

“Bonito da sua parte.” falou e ela sorriu enquanto se aconchegava em seu braço.

“E… acho que vou fazer o curso de moda que eu te falei. O que você acha?” encarou-o ao perguntar.

“Eu acho que vou acabar virando seu modelo!” falou e ela riu.

“Isso é óbvio! Dá até pra criar conteúdo em cima disso. Tipo… diário de uma estudante de moda. Perfeito!” comemorou ao imaginar.

“Tudo tem que virar conteúdo, senhorita Frufru?” brincou, fazendo-a rir.

“Continuo sendo uma influencer.” mandou um beijo.

“Acho que vai ser muito bom, Carmem.” ele falou sincero e ela assentiu.

“Falando em conteúdo… acho que chegou a hora de darmos uma pista pros nossos fãs.” falou enquanto pegava seu celular.

“Postamos as fotos enigmáticas de tudo que fizemos em ordens diferentes, mas a rankeada fez o povo suspeitar mais. Mais uma… acho que alguém mata a charada.” falou.

“Essa é a intenção. Bastante gente me manda DM sobre você, bonitão. Já mataram a charada. Então é hora acabar o mistério.” ela falou.

“Acha que já esqueceram do casamento? Que eu era padrinho, inclusive?” falou e a moça riu.

“Provavelmente não, mas quer saber? Foda-se. Vamos tirar uma foto como? Um selinho ou os dois fazendo biquinho?” perguntou.

“Ser brega ou ser mais brega ainda? Vamos manter o espírito enigmático e postar foto mostrando que estamos juntos no mesmo lugar com alguma legenda sugestiva.” ele sugeriu.

“Boa! Em vez de story, vai ser publicação. Pode ser aquela famosa que segura a mão e mostra todo o fundo, mas no meu feed vai ser a sua mão e no seu feed a minha. Aí a legenda pode ser um coraçãozinho vermelho e a gente se marca.” ela disse.

“Realmente, uma influencer sabe o que faz.” disse e ela sorriu abertamente.

Após postadas as fotos, as notificações começaram a chegar aos montes, inclusive das fã-pages de Nik e de pessoas os julgando por conta do casamento.

Porém, o casal não se importou nem um pouco com isso.

X

Mais tarde, na mansão Frufru, Carmem ficou decepcionada, mas não surpresa. O que era para ser um simples jantar entre seus pais e seu namorado havia se transformado em mais um dos jantares de negócio dos pais.

Havia um serviço de buffet e convidados que nem ela conhecia. Nem tão curiosamente, alguns dos filhos dos convidados eram fãs de Nik, que já haviam visto a publicação e falavam sobre isso e sobre jogos.

“Aqui ele! Meu novo genro!” Cornélio, ao se aproximar com vários homens engravatados, abraçou Nikolas pelos ombros.

“Nik, o geek! É um prazer conhecer uma figura tão importante da internet!” um homem o cumprimentou amigável.

“Pode me chamar de Nikolas. Nik, o geek é mais da internet.” comentou ao apertar a mão do homem.

“Estávamos aqui comentando sobre a GGeek… um pequeno negócio, mas muito promissor!” um outro comentou.

“O senhor acha?” o rapaz fingiu interesse na conversa.

“É claro! Com sua visibilidade, tem um potencial enorme de se tornar uma grande empresa! Se tiver os contatos certos, é claro. Mas isso não é difícil de conseguir.” um deles comentou.

Carmem revirou os olhos. Os homens claramente não faziam ideia de nada sobre a loja, apenas que Nik era famoso.

“Senhores, hoje, em especial, prefiro não falar de negócios. É um grande dia para a minha namorada.” respondeu cordial.

A moça sorriu.

“Tem razão. Um jovem que sabe separar as coisas. Grande negócio, Cornélio. Grande negócio.” outro comentou.

“Bem-vindo à família, Nik. Espero que goste de golfe.” Cornélio comentou com um sorriso.

Nikolas observou o sogro. Era perceptível que já arquitetava algo para se aproveitar de sua fama.

“Na verdade, eu não sou bom com jogos fora da internet. Exceto xadrez, que eu aprendi esta madrugada. Então acho que ficarei de fora das suas partidas, senhor Cornélio.” falou, na intenção de escapar.

Para a sua surpresa, os mais velhos riram.

“Xadrez é um esporte fino, jovem. Ainda teremos boas conversas, Nikolas. Muito boas!” um senhor disse antes de se afastar com os demais.

Nikolas encarou a namorada com certo estranhamento.

"Isso foi estranho!" comentou.

“Acho que o noivado acabou servindo para eles conhecerem você, Nik. Fugir deles vai ser um pouco mais difícil do que pensamos.” ela riu.

“Parecia que estavam cheirando minha fama na internet. Eles nem devem saber qual é meu conteúdo.” riu ao dizer.

“Eu tenho certeza disso. Mas relaxa, você é bom em dar perdidos.” falou e o namorado olhou em volta.

“Posso até ser, mas a especialista em fugas é você. O que acha da gente fugir daqui e ir lá pra rampa de skate, onde vai ser o rolê de comemoração da Milena?” convidou.

A loira sorriu abertamente, odiava os eventos corporativos do pai.

“De penetras?” ela perguntou.

“Eu fui convidado. E como não é evento fechado, vou ser um convidado que convida.” piscou um olho e ela assentiu.

“Vamos pelos fundos!” falou antes de puxá-lo de lá, sabendo que mesmo que o pai tentasse arrastar o rapaz para seu mundo, como fora com Cebola, as coisas seriam diferentes.

*

O céu já era iluminado pela lua e várias estrelas quando o bar que ficava na esquina da rampa estava cheio o bastante para deixar o dono com um sorriso nos lábios.

Não eram todos lá que conheciam Milena ou sabiam da existência de Ivan Grózny, mas a notícia de um campeonato noturno valendo um fardinho de cerveja havia aquecido as coisas.

“Não vai competir, Milena?” Luísa perguntou enquanto ajeitava seus patins.

Milena, ao lado de Sarah e Marina, tomava uma cerveja, ganhada de cortesia.

“Não, ‘tô morta demais pra competir. O ensaio seu e do seu irmão aqui na rampa acabaram comigo! Foto em movimento é difícil, sabia?” ela respondeu.

“Pra mim foi um prazer posar pra você. Se quiser um modelo pra nu artístico, estarei à disposição.” Felipe flertou.

“Me esquece, garoto.” ela disse dando um gole em sua bebida, recebendo um beijo no ar em resposta antes de ele sair rindo.

“O beijo pelo menos era bom?” Sarah perguntou, fazendo-a rir.

“Era aceitável. Mas, como eu já disse pro DC, Felipe foi um erro no percurso.” respondeu rindo.

“DC não fica com ciúmes?” Marina perguntou.

“Até que fica, mas ele sabe que aquele lá não tem chance nenhuma. Falando nele… por onde anda meu músico excêntrico favorito?” ela olhou em volta.

”Ali. Franja e Jeremias devem estar falando sobre algum buraco de minhoca com ele.” Marina apontou cansadamente para onde os três conversam enquanto Franja mostrava algo no celular.

“Adoraria me juntar a eles, mas estou cansada demais para isso.” Milena comentou.

“Como foram os ensaios? Acham que a coisa vai pra frente?” a outra cacheada perguntou.

“Foi cansativo, mas as fotos ficaram boas! O dia começar antes das 5 da manhã é sacanagem.” Sarah comentou.

Marina sorriu.

“Bom… tenho boas notícias! Não é segredo que meus pais queriam que eu fizesse outra coisa e que não iriam financiar meu ateliê, mas quando comentei sobre o estúdio triplo… Eles se interessaram mais.” falou.

Sarah e Milena a encararam.

“Se interessaram? Como assim?” perguntou.

“O rolo do Nik estourou a bolha, então eles sabem do profissionalismo de vocês duas, então… eles disseram que se o negócio se mostrasse promissor, eles poderiam ser os fiadores.” revelou.

As outras duas abriram a boca surpresas. Os pais de Marina eram um casal de engenheira e arquiteto de renome e até negócio próprio, logo, tinham condições mais que suficientes para serem fiadores.

“Isso é sério, Marina?” Milena perguntou.

“Eu jamais brincaria com um negócio desses, Milena. É claro que a parte de mostrar que vai ser rentável pra não cair dívida no colo deles é difícil, mas o portfólio e a divulgação vão ajudar.” falou.

“Ai... papai... do céu!” Sarah disse prestes a dar gritinhos.

Milena sentiu os olhos umedecerem.

“T-tá me dizendo que nosso estúdio triplo pode realmente se concretizar?” perguntou com a voz trêmula.

“Sim, mulher! Se mostrarmos que os três segmentos conseguem se manter sem a ajuda financeira deles, eles topam ser nossos fiadores.” assegurou.

“Milena, aqui não se aplica aquilo dos pais do DC, porque partiu deles e eles não são tão conservadores! Estou sentindo que agora vai!” Sarah exclamou.

As três se abraçaram alegres, sentindo que o tão sonhado estúdio se aproximava. Milena, em especial, sentia o corpo tremer todo, imaginando que tudo de negativo que havia vivenciado estava se convertendo em algo bom.

*

Em uma outra mesa, Agnes encarou os gordurosos salgados fritos colocados em sua frente.

“Salgados quentinhos e cerveja geladinha, molecada!” o funcionário do bar disse ao limpar a mesa de plástico com um pano encardido, que logo voltou para seu ombro, e abrir as garrafas de cervejas dentro de um isopor com um abridor de madeira.

Assim que ele saiu, a moça pegou seu inseparável álcool em gel e lenços, daquela vez apenas de papel, e começou a limpar a parte em que estava.

Os demais, com exceção de Cascão, olharam com estranheza.

“O que você 'tá fazendo?” um deles perguntou.

A moça paralisou, lembrando-se que eles nunca haviam a visto fazer algo do tipo, mesmo que alguns estivessem presentes durante a conversa sobre a infância.

“Limpando a mesa suja.” respondeu devagar.

“Mas o tiozinho acabou de limpar.” o outro lembrou.

“E você confia naquele pano?” Cascão riu, fazendo os demais rirem.

“Tem razão. Boa ideia isso do álcool, Agnes.” uma garota comentou, fazendo-a sorrir.

“Pega aí, Agnes. ‘Tá pago já. E magrinha do jeito que você é, nem deve dar prejuízo.” um deles disse enquanto pegava uma coxinha.

“Fala isso pra Magali. Lembra quando ela colava aqui? A mina comia mais que a gente! Ela ‘tá na gringa ainda?” um outro perguntou.

“Tá. Era pra ser lua de mel e virou moradia. Achou um trampo, né?!” Cascão disse enquanto colocava a cerveja no barulhento isopor.

“Para de pegar mais de um, lariquento! A Agnes não pegou ainda!” uma menina estapeou a mão de um rapaz.

“Não ‘tô com fome, valeu.” a moça negou.

“Nem uma cervejinha? Essa é barata, mas é boa.” um rapaz disse.

“Não bebo álcool.” ela respondeu.

“Ih, Agnes, esqueci de perguntar se queria pedir água ou algum suco.” Cascão falou, olhando pro atarefado funcionário.

“Pede de garrafa! Esse veiaco às vezes dá água de torneira ou suco de saquinho.” uma garota alertou.

“O suco de saquinho é até suave.” um deles comentou.

“Aquilo faz mal em tantos níveis…” Agnes comentou e os demais riram.

“Agnes tem hábitos alimentares invejáveis.” Cascão comentou sorridente.

A conversa na mesa continuou, passando por vários temas. Agnes participava deles, afinal, os amigos de Cascão eram surpreendentemente receptivos, com exceção dos que só falavam entre eles.

Quando o rapaz saiu por um instante, uma garota se virou para a estudante de Biologia.

“Você acha que isso vai vingar, Agnes?” perguntou.

Agnes a olhou, era Luísa.

“Acho que não entendi… o que seria isso?” perguntou.

“O rolo de vocês. Vocês são bem diferentes. Uma hipocondríaca e um cara como o Cascão… não tem como dar certo.” insinuou.

A loira franziu o cenho.

“Eu não sou hipocondríaca. Tenho tendências. É diferente.” especificou e a patinadora deu de ombros.

“Continua sendo estranho demais, rainha do beer pong.” a outra disse em tom jocoso e logo se juntou a outras pessoas.

Aquilo incomodou a loira. Já havia pensado nisso, mas era diferente ouvir de alguém que compartilhava hábitos em comum com Cascão.

De repente, seus olhos se voltaram para os salgados gordurosos, que já nem estavam mais tão quentes. Com as palavras de Luísa na cabeça e olhar contrariado, inclinou-se para pegar um, porém, uma mão a impediu.

“Vai realmente dar ouvidos à Luísa e ir contra uma coisa sua?” a pessoa falou.

A estudante de biologia a encarou surpresa.

“Denise?” viu.

Denise a olhava séria.

“Agnes, podemos não ser amigas, mas tenho que assumir que você mudou muito nesse meio tempo. E não foi para agradar alguém, e sim por você mesma.” começou.

“Então não acho que comer uma coxinha gordurosa e insalubre seja a coisa certa a se fazer só porque a patricinha ali disse uma coisa que você sabe que não é verdade.” concluiu.

Agnes abriu a boca sem uma fala. Denise, a mesma que sempre a provocava, estava sendo atenciosa.

“Mas… realmente somos diferentes.” assumiu.

“Isso te incomoda?” a ruiva perguntou.

A míope deu de ombros.

“Não! Nunca me incomodou, mas a questão é… será que ele não vai se incomodar? Os amigos dele…” falou e a outra riu.

“Se isso acontecer, talvez ele não seja o cara certo. Você é autêntica do seu modo, Agnes, então se valoriza, garota.” falou antes de simplesmente sair.

Agnes observou sem entender o que havia acabado de acontecer. As conversas que tinha com Denise sempre eram curtas e com alguma provocação, algo que não ocorreu daquela vez.

“Não acredito que vou dizer isso… a Denise está certa.” balbuciou.

Cascão retornou, trazendo consigo um suco de laranja natural.

“Tive que ir no mercadinho. 'Tá calor demais pra não molhar a garganta e ganhar uma dose de vitamina C.” estendeu a ela.

A moça sorriu.

“Você sempre me dá um suco saudável, percebeu?” observou e ele riu.

“Temos que agradar do jeito certo.” falou antes de beijar seu rosto.

Aquele simples contato, na frente de todos, e o fato de, novamente, mostrar respeito por seus hábitos, a fez ter certeza de duas coisas: namorar não era algo nojento como um dia pensou, e Luísa não fazia ideia do que estava falando.

*

A noite seguia serena e aconchegante, como se fosse uma das resenhas que ocorriam na casa de Cascão.

Sem que soubessem como, o mesmo grupo que acabou na mesma mesa durante o boliche havia se reunido em um canto da rampa, jogando UNO enquanto as árvores balançavam com o vento levemente gelado, aves noturnas sobrevoavam o local e insetos colidiam com a lâmpada do poste de luz.

“Compra 4! Escolho… vermelho.” Milena disse para Mônica.

“Compra 8, Agnes! Escolho amarelo!” a outra disse jogando a mesma carta.

“Cascão, 12. Escolho azul.” ela também jogou a carta.

“Carmem, compra 14! Porque neste jogo de merda, topamos poder jogar essas cartas assim!” ele riu ao jogar a carta +2.

“Nikolas, meu amor, você chegou à maioridade. Escolho verde.” a loira disse ao jogar um +4.

“DC, agora você pode beber no Japão.” ele disse jogando um +2.

“Cebola… sinto muito.” DC disse ao jogar outro +2.

Cebola bufou ao não ver nenhuma carta especial em seu monte.

“22 cartas? Vão se ferrar! ‘Tão roubando!” reclamou enquanto comprava as cartas.

“Ah… quando você ficou de UNO, ninguém ‘tava roubando, né, Cebola?” Carmem disse.

“Como pode ser honesto se eu não peguei nenhuma carta especial e todos vocês pegaram? Isso é complô.” ele disse.

“Você nem é tão importante assim.” Cascão riu.

“Aposto que você que 'tá roubando!” acusou e o amigo riu.

“Me processa.” provocou.

“Alá! Confirmou!” apontou com um grito.

“Confirmei uma ova! Para de ser louco, Cebolácio!” riu.

“Levanta! Você deve estar escondendo carta.” ele disse.

“Cebola, é só um jogo!” Agnes disse.

“Vai acobertar o namoradinho?” rebateu.

“Vamos voltar a jogar, gente!” Mônica falou.

Assim que uma carta de reverse foi jogada, e Cebola novamente foi forçado a comprar duas cartas, ele se levantou.

“Não dá pra jogar esse jogo com vocês! Só ficam roubando!” reclamou.

“Não sabe perder, Cebola?” Milena riu.

“Sim, mas quando é justo.” falou

“Só é justo quando não é ele que perde.” Nikolas comentou.

“Não vou mais jogar!” cruzou os braços.

Os demais riram.

“Nossa, que cara ridículo.” Cascão disse.

“Ah… vai se ferrar!” reclamou e a namorada beijou-lhe o rosto.

De repente, um vento mais gelado os fez observar o nada.

“Ô gente… o que vocês almejam? Eu quero melhorar coisas da Dream, aproveitar meu lindo relacionamento e… pensar em outras esferas da minha vida.” Carmem, que estava levemente bêbada, fez uma pergunta repentina.

“Formar.” Cebola riu ao responder.

“Não é mais ficar rico?” Cascão perguntou.

“Isso também. Mas alguém aqui me ensinou que temos que dar um passo de cada vez.” piscou um olho pra Mônica.

“Eu continuo querendo entrar num time.” Cascão disse enquanto se deitava no chão.

“E pagar as contas pra não voltar pro Tinder?” Cebola perguntou zombeteiro, fazendo o amigo rir.

“Isso também.” concordou.

“Ser fotógrafa e cientista. E está perto!” Milena disse com um sorriso grande.

“O portfólio rendeu?” Nik perguntou.

“Não só ele. Mas isso vou deixar no off por enquanto.” falou.

“Você sabe o que eu almejo, Carmem.” Nik disse.

“Só ela.” DC disse.

“Que minha loja continue bem, que eu me torne um bom engenheiro de software, que meu relacionamento floresça e… que eu ganhe mais partidas.” respondeu.

“Eu quero cada vez mais me sentir melhor…” Agnes disse com o olhar longe.

“Você está no caminho, Agnes. Se compararmos seu eu de um tempo com o de agora… é outra pessoa.” Mônica disse.

“Tá até namorando!” Cebola subiu e desceu as sobrancelhas, fazendo-a rir timidamente.

“Não sou muito de almejar coisas, sou mais momentâneo.” DC disse.

“Nem sobre seu relacionamento, vida profissional, essas coisas?” Cascão perguntou.

O rapaz apertou a mão da namorada.

“Ah… eu espero continuar ao lado dessa pessoa maravilhosa que chamo de namorada e… quero que minha banda e eu sozinho continuemos com contratos e fazendo o que a gente gosta.” revelou.

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“E você, Mônica?” Carmem perguntou.

Mônica sorriu.

“Continuar sendo uma boa wedding planner, trocar de carro e me mudar pra um apê longe daquela faculdade que já me deu muito gatilho, mas agora acrescento terminar o curso que inventei de voltar.” ela disse.

“Vai abandonar a gente, Mônica?” Milena perguntou rindo e sonolenta.

“Não é um abandono, as portas sempre estarão abertas pra vocês.” falou.

“Como é? Vai liberar a casa pra fazer resenha? É isso mesmo?” Cascão falou.

“Não deixa, não, Mô! Vira bagunça!” Cebola alertou.

“Calma lá, Cascão! E… eu também pretendo me casar um dia.” falou.

Os demais vaiaram.

“Não é agora, gente! É no futuro!” Mônica esclareceu risonha.

“Ixi, Cebolão… vai cair no matrimônio de novo.” Cascão zombou.

Cebola riu enquanto cruzava a perna.

“Situações diferentes pedem posicionamentos diferentes, amigão.” falou tranquilamente.

Mônica deu uma breve olhada em todos e depois para o céu estrelado. Cada estrela tinha sua singularidade, mas ainda compartilhavam algo comum, chegando até a formar constelações. Assim era a relação dos ali presentes: todos eram muito diferentes um do outro, alguns até pouco próximos, mas havia uma linha invisível que os deixava no mesmo patamar, que era o desejo de alcançar os sonhos, independentemente de qual sonho era.

E tinha a certeza que conseguiriam.