Almejar
22 Capítulo XXII - Aquilo que almejas
Notas iniciais
A lua já havia assumido três formatos diferentes desde a noite na rampa quando, em uma manhã nublada, a tímida claridade entrava pela grande janela de um dos corredores da Dream enquanto a fumaça do café de Carmem subia.
A moça observava os prédios altos com luzes ainda acesas sem nem mesmo vê-los, seus pensamentos estavam agitados há dias.
“Oi, Carmem. Milagre ver você por aqui a essa hora.” um cumprimento a despertou.
A loira se virou, dando de cara com Mônica, que, como sempre, tinha em mãos seu inseparável tablet de trabalho e um copo de café.
“Nove da manhã já é horário comercial.” comentou.
“Pra filha do dono que às vezes nem aparece… não sei se faz diferença ser horário comercial ou não.” a outra disse, causando um riso na loira.
“Realmente, não faz. Muitos casamentos, Mônica?” perguntou.
A morena riu um tanto surpresa por Carmem puxar assunto. Nas raras vezes que se trombavam, a loira trocava poucas palavras e logo ia para a sua sala, fosse a do prédio, fosse a de sua casa.
“Uma influencer que me fez organizar um casamento em um mês me trouxe bons clientes.” respondeu.
“E teria um minuto pra conversar com essa influencer?” a outra perguntou.
“Depende. Se for pra me pedir pra organizar outro casamento em pouco tempo, não.” condicionou.
Carmem riu.
“Não, é uma dúvida profissional.” revelou.
“Vamos pra minha sala.” a de cabelos curtos apontou para a direção com a cabeça.
A sala de Mônica continuava a mesma, mas, para Carmem, parecia diferente.
“Você mudou alguma coisa daqui?” perguntou enquanto se sentava.
Mônica olhou ao redor com um riso.
“Não. Às vezes, o que mudou foi você. O que queria me perguntar?” disse também se sentando.
“Você sabe onde fica a GGeek?” a loira começou.
“Sim. Moro lá perto.” a outra confirmou.
“Na esquina de lá, tem uma floricultura…” Carmem continuou.
“A da dona Nena?” a morena perguntou, fazendo a outra sorrir esperançosa.
“Não me diga que é uma das suas fornecedoras, Mônica?!” falou.
A wedding planner negou com a cabeça.
“Não, ela é tia da minha amiga. Mas… por que ela seria minha fornecedora?” perguntou.
“Por que ela não seria? Ela entende muito de plantas, tem um espaço lindo e o melhor: pensa no bem estar das plantinhas.” a outra falou.
“Aonde quer chegar, Carmem?” a morena a interrogou.
“Você, sendo alguém que trabalha nessa área de eventos, acha que meu pai toparia uma parceria com a floricultura da dona Nena?” perguntou.
Mônica mordeu o lábio inferior.
“Acho que minha resposta não vai te animar…” falou.
A outra sentiu os ombros caírem.
“Você acha que não?” falou.
“O legado da Dream de realizar sonhos deixa as coisas meio complicadas.” respondeu.
“Complicadas?” a loira repetiu.
“Vamos pensar no setor matrimonial. Eu tenho que fazer o possível para que o casamento dos sonhos dos clientes seja alcançado, por mais específicos que sejam.” começou.
“Então, preciso de fornecedores que tenham uma boa variedade e quantidade, e isso costuma ser possível em empresas maiores.” explicou.
“Mas você só tem um fornecedor?” Carmem perguntou.
“Não, mas é mais fácil usar os que têm mais coisas. Assim, não gasto tanto tempo só indo atrás de fornecedor, que é só a ponta do iceberg do processo. Fora que a própria Dream não fecha com qualquer um, seu pai prefere fazer parceria com quem tem algo a oferecer.” a outra esclareceu.
A loira deu de ombros.
“Qualquer uma ofereceria algo: o produto.” ressaltou.
“Na qualidade e preço que ele procura, não.” a wedding planner respondeu.
“Mas lá tem uma ótima qualidade! E Nik conseguiu as sementes das bodas por um preço ótimo.” argumentou.
Mônica sorriu compreensiva.
“Sementes são muito diferentes que plantas ornamentais e coisas do tipo, Carmem. Ainda mais para casamentos. Os números contam muito aqui na Dream, então, se eles não favorecerem o seu pai, ele não vai se interessar.” falou sinceramente.
“Favorecer em que sentido?” a administradora perguntou.
“Principalmente financeiro.” a outra respondeu.
As palavras de Mônica calaram Carmem. Conhecia o pai o bastante para saber que ele jamais permitiria algo pouco rentável, principalmente se envolvesse o setor matrimonial, o mais lucrativo da empresa.
“A cada dia que se passa, vejo que você realmente é uma ótima wedding planner. Obrigada pelo conselho. Pelo menos evito de dar uma ideia ruim pro meu pai e ele se decepcionar com minha inconsequência.” elogiou-a.
A morena negou com a cabeça.
“Você ter vindo me procurar já mostra que não é inconsequente, Carmem. Fora que você estava pensando nas plantas.” falou.
A herdeira suspirou.
“Não é só nas plantas. A situação com o Grózny me fez ver que a Dream precisa passar por mudanças. Um dia, eu vou herdar isso aqui, e não quero que seja um lugar que compactua com pessoas como aquele escroto, mas também não quero tomar decisões que possam quebrar a empresa.” confessou.
“Você é administradora, não acho que quebraria…” Mônica comentou, fazendo a outra rir.
“Eu nem queria fazer Adm’! Qualquer um que trabalhe seriamente aqui dentro saberia que minha ideia era torta.” falou.
“Seu objetivo é bom, mas leva um tempo para alcançá-lo, mesmo sendo Carmem Frufru. Tem que começar aos poucos.” Mônica acalentou.
A loira sorriu.
“Por onde eu começaria?” perguntou.
Mônica pensou um pouco.
“A Dream tem outros tipos de evento que também usam plantas como decoração. Pode começar daí.” sugeriu.
“Mas como eu iria propor isso ao meu pai? Faria mais sentido ele aproveitar os fornecedores que já tem.” a outra disse.
A morena deu de ombros.
“Agora é com você.” falou.
Carmem se levantou.
“Muito obrigada, Mônica! Abriu meus olhos. Como vão você e Cebola?” perguntou.
A wedding planner engasgou com a própria saliva.
“Ah… bem! É estranho falar dele com você.” confessou o desconforto.
A outra riu.
“Por quê? Eu ‘tô até com outra pessoa!” falou despreocupada.
“Eu era a wedding planner de vocês.” Mônica lembrou.
“E eu disse não! Vou te deixar trabalhar.” Carmem falou, saindo em seguida.
Mônica a observou com um sorriso, Carmem não era a péssima pessoa que por muito tempo achou que era.
Isso a fez pensar em seu curso, que estava perto de retomar.
“Uma boa advogada pensaria isso de alguém?” ela perguntou.
Não demorou muito para alguém bater em sua porta.
“Entre!” autorizou e se colocou de pé, era a sua gerente.
“Mônica, ótimas notícias!” disse assim que fechou a porta.
“O quê?” a outra perguntou.
“Seu nome anda passeando muito pelos corredores.” comentou.
“Isso é uma boa notícia? Ser alvo de fofocas?” a morena perguntou.
“Não são fofocas! Os clientes estão te recomendando demais!” falou.
A morena riu.
“O casamento da Carmem rendeu.” comentou.
“Colaborou, mas é o seu excelente trabalho que tem causado isso. Não por acaso… chegou aos ouvidos do Frufru.” a gerente revelou.
“Fala logo a boa notícia, mulher!” Mônica a apressou.
A outra sorriu abertamente.
“Parabéns, Mônica! Você é uma das novas wedding planners do pacote Queen!” exclamou animada.
A boca de Mônica se abriu, deixando-a sem fala por alguns segundos. O pacote Queen era semelhante ao pacote VIP da fotografia, ou seja, eram menos trabalhos por vez e salários maiores.
“Não brinca com meus nervos!” falou rindo.
“Chega de vários casamentos pra planejar ao mesmo tempo, Mônica! Agora vai ser pouco e ganhando mais.” falou.
Mônica deu um pulo de alegria, sabendo que o retorno que tanto almejava estava próximo.
“Eu vou poder escolher os trabalhos! Escolher!” sorriu abertamente.
“E ganhar mais! Você merece, Mônica!” exclamou antes de sair novamente.
Mônica conferiu se a porta estava bem fechada e começou a pular.
“Finalmente! Finalmente! FINALMENTE!” comemorou.
Pegou seu celular e a primeira pessoa que avisou fora Magali, que sempre dizia que aquele momento chegaria.
“Miga… o dia de glória chegou!” explicou tudo em um áudio.
Em seguida, mandou outro para o namorado.
“Cebola, amor, quando estiver livre, me manda mensagem. Tenho uma notícia!” falou.
Quando chegou a vez de avisar suas colegas de casa, lembrou de um de seus desejos: mudar do apartamento por conta da proximidade da faculdade, que vira e mexe despertava sentimentos não tão bons.
“Será que eu espero um pouco?” perguntou-se.
Nunca havia tido dúvidas quanto a isso, mas as coisas haviam mudado. Já não focava unicamente no trabalho, Agnes havia deixado de ser uma completa estranha na casa, Milena também havia se aproximado mais e os vizinhos não eram mais apenas rostos familiares, Cascão, em especial, tornara-se um grande amigo. E essa mudança havia transformado a experiência de viver ali.
“Bom… talvez eu possa adiar um pouquinho essa mudança.” decidiu.
*
Na faculdade, Cebola sentia-se frustrado enquanto ouvia seus colegas falarem da nada distante formatura e de seus respectivos futuros trabalhos.
Desde o fim do noivado, vinha tentando pensar menos em seu futuro. Porém, a proximidade do fim da graduação o deixava levemente amedrontado.
Seus colegas se vangloriavam de futuras parcerias enquanto ele nem mesmo sabia como montaria seu primeiro currículo como engenheiro de software formado sem experiência ou contatos.
Tentava ao máximo esconder esses sentimentos de Mônica, já que ela sempre dizia que as coisas aconteceriam no tempo certo. Todavia, seu espírito ambicioso e apressado, que não havia o abandonado totalmente, o fazia sofrer por esse momento parecer nunca chegar.
Quando o professor liberou a turma, já ia sair da sala quando foi chamado.
“Podemos trocar uma palavrinha?” perguntou.
“É sobre o TCC? Senhor Spada, eu já estou revisando a bibliografia…” explicava-se para ele, que também era seu orientador.
“Não, não. É sobre o futuro. Já tem planos para depois de formar, Cebola?” perguntou.
O rapaz quis rir da peça que o destino parecia pregar.
“Não… eu… eu estou dando um passo de cada vez.” respondeu.
“Pois tenho uma proposta a você! Um amigo meu, antigo colega aqui da faculdade, tem uma empresa crescente e está precisando de um engenheiro. Eu falei que tinha um aluno quase formado para indicar. É claro que, no começo, não vai ser uma coisa espalhafatosa, mas te ajuda a ganhar experiência. Estaria interessado?” perguntou.
A boca de Cebola se escancarou.
“Se eu quero? Senhor Spada, eu tenho até tido sonhos com isso!” falou e o outro riu.
“Beleza. Vou te passar o contato e você manda seu currículo. Mas já vai sabendo que vai começar debaixo.” avisou.
“Há um tempo, isso seria um grande problema pra mim. Mas não é mais! Muito obrigado pela confiança e indicação, professor!” exclamou sorridente.
“Você faz por merecer. Ah, e não se esqueça de incrementar seu referencial teórico do TCC. Falta coisa!” avisou e ele assentiu.
Cebola praticamente correu da sala, com um enorme sorriso no rosto.
“Amor, amor, amor! Tenho uma ótima notícia! Me responde quando ‘tiver livre!” mandou um áudio à namorada, sem nem mesmo ver que ela também havia mandado um.
“Vagabundo, consegui um trampo! ‘Cê que já trabalhou nuns botecos, depois me ajuda a fazer um currículo decente, mas não igual o seu do Tinder.” enviou um áudio a Cascão, que visualizou no mesmo instante.
“Aí, sim, Careca! Mas não sabe fazer nada sozinho, impressionante! ‘Tá ligado que o primeiro salário vai ser tudo em lanche, rolê e cachaça, né?” o amigo respondeu.
“Alugar tua amizade não te ensinou nada sobre educação financeira? Vou é comprar um play’ novo e levar a namorada num restaurante chic.” respondeu risonho.
“Já sabemos quem vai acabar pagando a conta.” o outro brincou.
Cebola continuou caminhando com um sorriso aberto enfeitando o rosto, o dia parecia ter até ganhado uma nova cor.
*
Nikolas revirou os olhos quando chegou à padaria onde iria se reunir com seu contador e percebeu que ele estava acompanhado.
“Senhor Cornélio! Senhores! Não sabia que conheciam o João.” cumprimentou-os.
“Parece que quem te rodeia também vira contato deles.” o contador comentou.
“É claro…” balbuciou enquanto se sentava.
“Como está, Nik? Anda sumido.” o sogro comentou.
“Estou perto de formar, então juntam demandas do curso, da loja e do canal.” respondeu.
“E como anda a loja, Nik, o geek?” um dos amigos de Frufru perguntou.
“Bem.” respondeu seco.
“Deve ser bom ser contador de um lugar muito lucrativo, hein?” um deles cutucou João.
“Ah, é uma boa loja. Mas, como sempre digo ao Nikolas, as coisas sempre podem melhorar.” falou levantando um braço, como se fosse um foguete.
“As coisas andam mal?” um deles perguntou com interesse.
“É uma loja nova, então digo que andam bem.” respondeu, fazendo o cliente sorrir.
“O início é a parte mais difícil, Nik. Por isso, sempre é bom ter amigos, padrinhos…” um dos senhores disse.
“Contanto que não sejam iguais a Ivan Grózny…” o outro alfinetou, deixando os demais calados.
“Bom… erros fazem parte do percurso.” o sogro falou sem olhá-lo.
“Chega de enrolar o garoto, senhores. A GGeek precisa de investimento, e a Dream de um rostinho famoso da internet. Uma mão lava a outra.” um deles falou sem rodeios.
“Faz um tempinho que estamos te sondando, rapaz. E, bom, todo homem e toda empresa têm o seu preço.” outro deles disse.
O contador olhou para o cliente, que se manteve impassível.
Cornélio também o olhou, sabia que uma das principais diferenças entre Nik e Cebola era que esse não se deixava influenciar facilmente. E era justamente isso que estava testando.
“Pense nisso, Nikolas. Claro que não te forçaria a nada e nem te impediria de namorar minha filha caso negue, eu respeito a relação de vocês e sei separar o lado profissional do pessoal, mas eu ficaria feliz.” Frufru falou.
De repente, os mais velhos se levantaram e saíram, fazendo João encarar o cliente.
“Nik, aquela proposta é o que estou pensando?” questionou apontando para trás.
“O que está pensando?” o outro devolveu uma pergunta.
“Eles querem uma parceria!” exclamou.
“É isso mesmo.” o outro confirmou dando um gole em seu café.
“E você está aí de braços cruzados?! Uma parceria com eles pode alavancar a GGeek a níveis enormes! Nem sabia que esses senhores se interessavam pelo seu tipo de comércio.” o outro disse.
“Não se interessam. Querendo ou não, muitos fãs compram porque é a loja de Nik, o geek, e isso dá os números que eles tanto gostam.” o mais novo respondeu calmo.
“Você parece já saber desse desejo faz tempo.” o contador observou.
“Eles estão me sondando faz tempo, e nem sempre são discretos.” explicou.
O outro suspirou.
“Olha, Nikolas… a GGeek física não anda mal, mas também não anda bem. Pelas minhas estimativas, para alcançar o rendimento da loja online, você teria que fazer eventos todos os meses e ter sucesso em todos eles.” ressaltou.
“A falta de esperança do senhor chega a ser desanimadora.” Nik comentou.
“Não se trata de falta de esperança, e sim uma questão de rendimentos. Não se investe em algo que traz mais gastos que lucros.” João ressaltou um ponto que sempre falava.
“Eu sei disso, mas a GGeek física ainda é um bebê.” o outro argumentou.
“O bebê precisa se desenvolver, Nikolas! Você ainda é um rapaz jovem, quase formado em uma área que você pretende atuar e com uma renda muito estável com a loja online e seu canal. Você precisa se perguntar se a loja física realmente é um bom investimento.” aconselhou.
“É claro que sim! Eu gosto da minha loja!” respondeu.
“Disso eu não tenho dúvidas, mas a sua realidade não é mais a mesma de quando você abriu a loja física.” o contador lembrou, fazendo Nik se calar.
O rapaz nunca havia escondido a motivação que tivera ao abrir a loja física: ocupar sua mente ao máximo para esquecer de Keika. Porém, agora, as coisas estavam diferentes, tanto que quase nem ficava na loja.
João se levantou.
“Entenda de uma vez: os números estão oscilando demais. Se algo não for feito, vão cair, e você vai ficar no prejuízo! E isso vai afetar a sua imagem! Tenha um bom dia.” saiu.
O dono dos dreads respirou fundo, como se tudo despencasse de uma vez. Retornou para a loja com a cabeça confusa, dando de cara com uma aparentemente entediada Agnes.
“Agnes, tivemos muitos clientes hoje?” perguntou.
“Bom… das três pessoas que entraram aqui, duas eram pra perguntar onde fica a faculdade e outra só deu uma olhadinha. Mas chegaram vários pedidos da loja online.” respondeu.
O outro assentiu é foi para o depósito, onde se deitou em um pequeno sofá que ficava ali.
“E agora?” questionou-se.
*
O portfólio de Milena havia gerado bons resultados. A procura pelos seus trabalhos havia crescido tanto que seu estúdio estava perto de se tornar realidade.
Havia faltado da faculdade naquela segunda. Mesmo que tivesse optado por concluir o semestre, o cansaço a fez ficar na cama até mais tarde, mas, quebrando a rotina, foi tomar café da manhã em outro lado da cidade.
O som de cachorros latindo em meio ao barulho de um secador do prédio ao lado era a trilha sonora do bem iluminado Hall.
“Foi dormir tarde e acordou cedo assim?” a outra perguntou.
“Ah, mãe… eu já virei noites antes.” comentou enquanto se lembrava de uma noitada em pleno início de semana que participou uma vez.
“Estou feliz que as coisas estejam caminhando, mas não acha que está trabalhando demais, minha filha?” a mãe comentou.
“Estou tentando pegar mais leve. Eu achei que tudo acabaria quando fui demitida da Dream, mas parece que foi um novo começo! Não foi assim quando a senhora abriu o consultório?” perguntou.
A mais velha sorriu nostálgica.
“Em meio a muita luta… mas é claro que eu queria que, para você, fosse mais fácil. Que não precisasse dessa correria toda.” ela disse.
“Vamos dizer que tive a quem puxar. Não vou dizer que está e que vai ser fácil, mas está sendo mais leve com a ajuda crucial da Sarah e Luca com as fotos, do Nik com a divulgação e, é claro, o apoio de amigos, das minhas colegas de casa e do DC.” falou.
A mãe sorriu.
“Quando a gente vai ter a honra de conhecer o DC?” perguntou.
A fotógrafa umedeceu os lábios, não apresentava qualquer pessoa aos pais. Considerava um passo importante demais, que só deveria ser dado quando tivesse certeza. E DC, mesmo tendo suas excentricidades, despertava algumas certezas.
“Olha… o que acha de hoje? Acho que ele consegue.” decidiu.
A mãe quase cuspiu o café.
“Hoje? Milena, seu pai e eu trabalhamos o dia todo! Não tem como receber alguém, ainda por cima meu genro, com a casa como está. Precisa pelo menos arrumar. Fora que nem pensei em um cardápio decente.” falou.
“Posso te garantir que ele iria até preferir essa energia cotidiana, nosso primeiro encontro oficial foi num bingo dos avós dele. Ele não é chamado de Do Contra à toa.” a outra disse.
“A primeira impressão tem que ser boa. A não ser que… que você dê um jeito na casa.” sugeriu.
Milena riu enquanto dava de ombros.
“Posso fazer isso. Posso até pedir pro próprio DC me ajudar.” falou.
“Não brinca com essas coisas! Vou avisar seu pai e seus irmãos. Vocês ainda vão me deixar com os cabelos ainda mais brancos.” a mais velha resmungou.
A moça riu enquanto pegava seu celular.
“Oi, DC! ‘Tá livre esta noite?” perguntou.
“Sim. Quer fazer o que hoje?” ele logo respondeu.
“Jantar com meus pais, e adoraria que você fosse. Topa?” enviou.
A mãe a olhou surpresa.
“Falou na cara assim? Sem nem preparar o terreno?” observou.
“Vai por mim, preparar terreno com esse daí não funciona.” a filha falou rindo.
Após ler a mensagem afirmativa do namorado, Milena foi para a casa dos pais, que ficava bem longe da sua. A mãe queria tudo perfeito.
Não tinha ninguém em casa. Quando entrou no quarto em que dividia com a irmã, sentiu algo semelhante ao que DC sentiu quando revisitou seu quarto na casa de Keiko e Nimbão.
Por mais que visitasse a casa com mais frequência que o namorado visitava a de seus pais, era a primeira vez que ficava sozinha lá desde que se mudara.
Olhou para os pôsteres motivacionais que ficavam acima de sua cabeceira, e até mesmo alguns sobre fotografia, e se lembrou de quando optara pela medicina veterinária.
“No dia, eu já sentia que estava tomando a decisão errada.” balbuciou.
“Se perdeu pela cidade?” uma voz com oscilação típica da pré-adolescência soou.
“Não sou você. O que está fazendo aqui a essa hora, Binho?” perguntou ao ver o caçula com os olhos fixos em seu celular.
“Ainda tenho o direito de almoçar em casa. Vi a mensagem da mãe. Conhecer o cara que foi maluco o suficiente pra querer ser namorado de um filhote de cruz credo vai ser uma honra.” zombou da irmã.
“Só não vai assustar ele com essa voz de taquara rachada. Vai fazer um gargarejo, moleque.” devolveu.
O irmão acabou rindo, sentia falta dela por lá, mesmo que jamais assumisse em voz alta.
“Por que não vai ser na tua casa? Dava pra eu ir na GGeek.” perguntou.
Milena riu enquanto se deitava na cama cheia de roupas.
“Se liga, Binho. O Nik não fica lá o tempo todo.” falou.
“Não custa nada tentar a sorte. Já achei ele um vez num evento.” o outro disse.
“A sorte dele é você não ter essa sorte.” provocou enquanto o olhava com graça.
O garoto revirou os olhos.
“Besta!” saiu e ela riu.
Logo outra pessoa entrou, esta um pouco mais cansada.
“Não é deitada nessa cama que a casa vai ficar nos trinques.” falou jogando uma mochila em sua cama.
“Muita coisa se inicia deitada, Sol. Você vai gostar de conhecer o DC. Ele toca vários instrumentos.” falou enquanto balançava a perna.
A irmã deu de ombros.
“Eu dou aula de música pra crianças. Às vezes, não quero nem pensar em música. Mas já ouvi falar dele. Ou melhor, da família dele. Você, que sempre fugia dos playboys, acabou com um.” Sol comentou.
“Ele é diferente. Digamos que ele se desprendeu do ninho, mesmo podendo ter o suporte quando quiser.” a mais nova revelou.
A mais velha franziu o cenho.
“Um rico que prefere não ser rico?” perguntou.
“Ele quer fazer o nome dele.” a outra explicou, fazendo a irmã rir.
“Tem como fazer seu nome com uma carteira cheia, é até melhor.” falou.
“Aí não seria Do Contra. E pela quantidade de contratos que tem entrado… acho que a carteira não esvaziou.” Milena riu.
*
Um pouco mais tarde, o vento distribuía o cheiro de desinfetante pela loja quando Agnes deitou a cabeça no balcão, deixando vários fios de cabelos caindo no rosto.
A vontade de ignorar um sentimento ruim e insistente a fez limpar duas vezes seguidas o chão da pouco movimentada loja, que estava brilhando, mas agora estava cansada e com os pensamentos até mais fortes.
“Não tem jeito! Eu não consigo parar de pensar nisso!” reclamou alto e apertando os olhos.
“No quê?” uma repentina voz a assustou, fazendo-a levantar a cabeça de uma vez e seus óculos caírem.
Era Carmem.
“Opa… não queria assustar.” falou enquanto se abaixava para pegar os óculos.
“Tudo bem. É melhor ter você me tirando do transe que um cliente aproveitando minha distração.” a outra disse.
“E aí? No que você não para de pensar?” Carmem retomou a pergunta após devolver os óculos.
Agnes suspirou enquanto limpava as lentes com uma flanela, que sempre ficava abaixo do balcão.
“Você vai me achar uma boba, mas… eu acho que não sei namorar.” confessou, aquilo estava a consumindo.
A outra a olhou confusa.
“Como assim?” perguntou.
“Eu nunca namorei, nunca nem tive uma aproximação tão íntima como tem sido com o Cascão, então não faço ideia se estou fazendo as coisas do jeito certo. O que faz um casal que não faz uma dupla de amigos?” falou.
Carmem riu.
“Bom… depende do tipo de amigo e do tipo de casal.” respondeu.
“Como você sabia o que fazer quando começou o namoro com o Nik?” perguntou.
“Não sei se podemos servir de parâmetro, Agnes. Mas cada casal tem suas particularidades.” a outra disse.
“Eu sei, mas, vendo qualquer casal, todos parecem saber exatamente como… como ser um casal! Se o namoro é só trocar beijo e carícia … nada mudou.” desabafou.
“De certa forma, a ficada é um teste drive. Mas eu diria que um namoro envolve mais coisas além de beijos e otras cositas más.” a de cabelos ondulados especificou.
“Tipo o quê?” Agnes perguntou.
Carmem deu de ombros.
“Acho que tem a ver com a vontade de ter essa pessoa por perto, mas não como você sente com um amigo. Tem algo a mais, que ninguém sabe ao certo explicar. É como se seu corpo chamasse o outro, e sua mente quisesse se conectar com a outra.” explicou sincera.
“Isso porque não tem sentimentos.” a voz de Nik soou risonha.
As duas se viraram para a porta que dava acesso ao depósito, onde Nik estava há bastante tempo.
“Tava ouvindo a conversa dos outros, Fofoqueiro?” a namorada perguntou.
“Tava vindo e a conversa chamou minha atenção. Eu desperto isso em você, Carmem Frufru?” o rapaz a provocou.
“Você sabe que sim, mas o foco aqui é tentar ajudar a Agnes a entender que um namoro é meio que uma amizade ao quadrado.” ela respondeu.
“E individual. Nenhum relacionamento é igual ao outro.” ele completou.
“Mas como eu sei que estou no caminho certo?” a míope perguntou.
“Você ‘tá feliz?” o chefe perguntou.
“Sim. É um sentimento diferente, tem sido legal estar ainda mais perto.” a outra respondeu sinceramente.
“Então você ‘tá no caminho certo. Se tem uma coisa que eu descobri depois das bodas, de um quase casamento e de ter me declarado pra esse gamer workaholic é que nem tudo a gente consegue explicar, e nem precisa. Você só precisa… aproveitar o momento.” Carmem opinou.
“Ela ‘tá toda filósofa hoje.” Nik a abraçou.
“Realmente, eu ‘tô inspirada!” gabou-se enquanto retribuía o abraço.
“Eu concordo com ela, Agnes. Você já tinha uma relação com ele antes, então só precisa cultivar.” ele se direcionou à outra.
“Mas do jeitinho de vocês. Porque se for se comparar com o que os outros casais mostram… você pode acabar caindo em um casamento que tem todos os sinais de que vai dar errado e acabar vendo nos 45 do segundo tempo que estava indo longe demais.” Carmem comentou olhando para o nada.
“Isso foi muito específico, ‘tá tudo bem?” Nik zombou, recebendo um tapinha risonho da namorada.
“Do nosso jeitinho…” Agnes balbuciou enquanto sua mente a lembrava de seus momentos com Cascão.
Tudo com Cascão sempre havia sido natural. O máximo que ele havia forçado fora a ida ao Bidu, mesmo que tivesse sido para que o plano desse certo, o que de fato havia acontecido.
Seu receio vinha de comparações tecidas entre sua relação e as que via por aí. Todavia, havia se esquecido de algo: sua relação havia começado de um jeito muito diferente da de outras pessoas, logo, não tinha como ser igual.
“Obrigada, gente. Vocês são meu casal favorito.” agradeceu, e eles riram.
“Deixa as tuas amigas ficarem sabendo disso.” Carmem comentou.
Nikolas olhou para a porta que se abriu e sorriu.
“Carmem, me acompanha até o correio?” ele perguntou.
A namorada assentiu.
“Claro. Tchau, Agnes. E não se esqueça: do jeitinho de vocês.” saiu com ele e sorriu ao ver quem havia entrado, entendendo o motivo da saída.
Agnes se abaixou por um instante, para colocar as embalagens dos produtos de limpeza no balde vazio, e, quando levantou, quase se assustou quando o cliente em questão já se encontrava no balcão.
“Oi, Agnes.” ele cumprimentou. Era Cascão.
“Quando foi que você apareceu? Nem te vi chegando!” exclamou.
“Tava no estágio na escola de boy. Como tenho aula daqui a pouco, não fico tanto assim. Aí decidi vir te ver.” falou antes de se inclinar para um selinho.
A loira sorriu.
“E como foi no estágio?” perguntou.
O rapaz riu.
“Sabe como é… a criançada rica é diferenciada e até hoje tem funcionário incomodado com o estagiário que fala gíria e não se veste que nem eles. Mas como eu preciso daquela grana, eles podem jogar os olhares tortos no peito do pai, que eu ó…” falou enquanto fingia dominar uma bola no peito e depois no pé.
Aquilo fez a namorada gargalhar.
“Não tenho dúvidas que logo eles vão gostar de você. É muito fácil isso acontecer.” ela disse.
O namorado acariciou-lhe o rosto.
“Foi difícil você gostar de mim, Agnes?” perguntou.
“No começo, um pouco. Mas em pouco tempo… Eu gostei. Tanto que olha só aonde chegamos.” apontou para os dois.
“Bem longe!” ele disse e ela assentiu.
“E você? Foi difícil gostar de mim? Que… eu não sou uma inimiga da timidez e muito menos tenho esse jeito cativante que você tem, é bem o contrário eu diria.” a moça perguntou.
Cascão sorriu carinhoso.
“Não, não foi difícil. Você só precisava de uma chance pra mostrar quem existia além da carranca séria que eu sempre via. Nosso amigo Tinder ajudou.” falou e ela riu, lembrando de como tudo começou.
Com a lembrança, veio o rosto de seus pais, mas não no dia que viram Cascão pela primeira vez, e sim quando o viram pela última.
“Acredita que desde aquele dia não falo com meus pais?” mudou o tom.
Cascão ajeitou a postura.
“E como se sente com isso?” perguntou sério.
“Não sei ao certo. É um pouco libertador, de certa forma. Mas ainda me sinto estranha por sentir esse… alívio.” falou.
O rapaz crispou os lábios.
“Olha, Agnes, tua situação é bem complexa. Eles são seus pais, beleza, mas era paia o jeito que eles te tratavam. Não posso te dizer o que fazer porque só você sabe o que sente e porque nunca passei por esse tipo de problema, mas…acho que, depois que você experimenta esse alívio que você disse, não tem como voltar a ser o que era antes.” opinou.
Agnes o olhava com atenção. Cascão era um rapaz de muitas camadas, e todas elas tentavam ao máximo respeitar o interlocutor.
“Concordo com você. Eu… eu não tenho vontade de voltar a me sentir como me sentia. Por curiosidade, quantos por cento você está hoje?” ela perguntou, fazendo-o rir.
“Uns 75, porque estou com sono.” respondeu.
“Bastante coisa. Se estivesse sem sono, estaria no 100?” perguntou.
“Não, no máximo uns 89. É impossível estar esse tanto! Em algum momento, ou vou me incomodar com alguma coisa da vida, tipo o fato de não ser um herdeiro que pode ficar sem fazer nada, ou alguma preocupação que a cabeça insiste em criar.” respondeu.
“Ser herdeiro talvez não resolveria seus problemas. A Carmem é uma e sempre aparece aqui com algum. Nem ela está 100%.” a loira comentou.
“São problemas diferentes, mas acho que nenhum ser humano fica 100%. Se fala que fica, ‘tá mentindo. Você, neste exato momento, está quantos por cento?" ele perguntou.
A moça pensou por um instante.
“Eu limpei aqui duas vezes e tenho aula hoje, então… uns 70.” contabilizou.
O rapaz estranhou.
“Duas vezes? Nikolas ficou mais exigente depois que começou a namorar a Carmem?” perguntou seriamente, fazendo-a rir.
“Ah, não. É que eu ‘tava tentando não pensar em problemas.” respondeu.
“Que tipo de problema ‘tá te deixado mal? O lance com seus pais?” ele perguntou.
“Não. Era sobre a gente.” revelou e ele franziu o cenho.
“A gente? Tem alguma coisa que eu ‘tô fazendo que ‘tá te incomodando?” preocupou-se.
“Não! É mais sobre mim. Você sabe que eu nunca namorei, então é difícil saber exatamente o que fazer. E isso ‘tava me incomodando.” a namorada o respondeu.
“Tentando racionalizar a relação, Agnes?” ele disse e ela riu.
“Foi automático, gosto de sentir que sei o que estou fazendo. Mas a Carmem e Nik me falaram umas coisas bem legais. Eu até disse que eles são meu casal favorito.” esclareceu e ele riu.
“Eu achei que seu casal favorito fosse você e eu.” apontou para ambos.
“Bom… eles são meu segundo casal favorito.” ela disse antes de beijá-lo.
Porém, a entrada de um cliente os fez se recomporem.
“Tenho que ir nessa, tenho aula daqui a pouco. A gente se vê.” falou dando um selinho antes de sair.
Agnes sorriu enquanto ele se afastava e respirou fundo, sentindo o aroma de limão encher suas narinas.
“Nem acredito Que isso tem acontecido.” comentou com um sorriso.
*
Já na faculdade, Cascão se sentou com uns amigos durante uma aula de Átila.
“Como é namorar uma hipocondríaca?” um deles perguntou.
“Ela não é hipocondríaca, tem tendências. É diferente.” explicou.
“Você entendeu.” o outro reclamou.
O rapaz deu de ombros.
“Normal.” respondeu e os outros riram.
“Normal-normal não deve ser, não. No mínimo, diferente.” comentou.
“Isso é óbvio. A Agnes preza muito pela saúde dela, então tem coisas que ela faz que eu nem sonhava que poderia dar B.O, tipo… tirar sapato pra entrar em casa, deixar verdura de molho num negócio lá, pedir delivery…” enumerava.
“O sapato e a verdura é até bom mesmo, mas o delivery…?” um deles estranhou.
“Não dá pra você ver o preparo.” o moreno explicou.
“É só não ser cliente chato ou fazer pedido faltando 5 minutos pra fechar que teu rango não chega batizado.” o outro riu ao dizer.
“Nossa, mas ela se preocupa demais! Como ela não surtou ainda?” o outro amigo perguntou.
“Ela faz terapia.” respondeu simples.
“Mas isso não vai te deixar meio pilhado? Ela convive com isso, você é o oposto.” um deles observou.
Cascão deu de ombros.
“Olha, cara, eu olho além dessas coisas. Não posso te dizer que vai ser como meu antigo relacionamento ou os meus rolos, mas tem sido bom ver ela evoluindo e evoluir junto.” respondeu
“E você tem evoluído no quê?” o outro perguntou.
“Como pessoa. Conviver com alguém super diferente e conseguir manter uma relação legal é sinal de amadurecimento.” respondeu.
“Ou só comprova que você é um pau mandado de mulher bonita.” o outro zombou.
“Vai se ferrar!” Cascão mostrou o dedo médio.
“Não, é sério! Nem nos rolês você cola mais.” o outro disse.
“Minha vida é mais que rolês. Fora que agora sou estagiário num colégio de boy, se eu vou menos de 50% pra lá… é tchau. E eu preciso da grana.” explicou.
“Quando você não ‘tá fodido, Cascão?” o outro riu ao perguntar.
“Quando estou com a minha gata.” piscou um olho, fazendo os demais rirem.
“Onde vocês se conheceram, hein? Ela é bonita mesmo, com todo respeito, é claro. Ela acharia alguma coisa melhor, certeza.” um deles disse.
“A gente é vizinho. E acharia mesmo, mas eu sou tipo um bombonzinho de licor: quando a pessoa gosta, não tem jeito.” brincou risonho.
“Falando em licor, vamos na Toca hoje? Leva tua mina.” o amigo convidou.
“Sou um estagiário decente agora. Acabaram os dias de farra nesse tipo de lugar.” comentou.
“Ah… tuas vizinhas curtiram no Bidu e foram trampar no outro dia! Deixa de ser fraco!” o outro reclamou.
Átila chamou a atenção da turma para o quadro.
“Seguinte, pessoal, aqueles trabalhos que vocês da recuperação fizeram me deu uma ideia, até alterei o plano. Nosso trabalho final será um projeto desenvolvido por cada um. Numa dessas, vocês podem achar um tema de TCC, de pesquisa ou, por que não, até publicação.” falou.
Cascão sorriu, lembrando-se de como fora revigorante fazer o projeto com as pessoas que viviam perto da rampa, ainda mais por ter levado Agnes consigo.
“Será que ela topa ir comigo ver se elas topam?” questionou-se.
X
Agnes aceitou usar o restante de seu horário de almoço para acompanhar Cascão até a rampa. O lugar despertava boas memórias aos dois, então ficavam felizes em construir novas.
Ao passar em frente ao campinho que ficava perto da rampa, o olhar do rapaz se voltou para algumas crianças jogando bola descalças e com o uniforme da escola, mesmo que o sol estivesse quente.
Sem que notasse, comparou-os com seus alunos do colégio de elite. Enquanto esses usavam chuteiras que custavam mais que o seu salário, mesmo que estivessem em fase de crescimento e que logo fossem trocar de numeração, camisetas de times originais e tinham um teto coberto para jogar; os outros, felizes, jogavam no chão quente e esburacado do campinho, que nem mesmo possuía uma trave de gol.
Embora ele mesmo sempre preferisse jogar como esses garotos, perguntou-se qual dos dois grupos teria maiores chances de realizar o mesmo sonho que possuía: ser jogador de futebol. Uma criança que não precisaria se preocupar com nada, ou aquela que logo começaria a se preocupar com coisas até demais?
Aquilo o fez suspirar.
“Acho que vou mudar meu objeto de estudo.” comentou com a namorada, que até então o observava com uma interrogação.
“Mesmo? E qual vai ser?” perguntou.
Cascão olhou novamente para as crianças.
“Vou ensinar essa molecada a jogar futebol que nem ensinam naquelas escolinhas caras, como eu queria que tivessem me ensinado, mas a grana foi um obstáculo. Certeza que entre eles tem alguém muito promissor. Vira e mexe aparece uns olheiros por aí, só precisam da oportunidade.” respondeu.
Agnes sorriu orgulhosa.
“Muito sensível da sua parte, Cascão. Certeza que o Átila vai gostar.” falou.
O namorado riu.
“Ih, aquele homem não gosta de nada, não! Certeza que vai me cobrar ainda mais, mas ‘tá valendo. Sorte que você não tem que fazer essas coisas.” respondeu e ela riu.
“Quem disse que não? ‘Tô vendo o tema de um. Até pensei em fazer sobre morcegos, em homenagem àquele que entrou lá em casa, mas prefiro trabalhar com microbiologia.” falou.
Cascão riu nostálgico.
“Meu mano morcego é muito mais romântico.” brincou e ela riu.
“A parte do reino animal não é comigo.” ela disse.
“Acho que nunca te perguntei… o que te fez querer fazer biologia?” o rapaz questionou.
“Queria entender mais sobre aquilo que eu tanto tinha pavor: germes, doenças, saúde e essas coisas. Até pensei em fazer biomedicina, mas era integral e eu não conseguiria fazer isso.” falou.
“Disso eu não tenho dúvidas! E ainda tem pavor?” perguntou.
“Não amo, mas não tenho mais aquele pavor a ponto de nem encostar nos outros.” respondeu.
O rapaz a abraçou.
“E de beijar os outros? Tem pavor?” provocou-a.
“Se for você, não.” disse antes de beijá-lo, aquilo que caracterizava o namoro.
*
Após o almoço, Nik chamou a namorada para o acompanhar em um lugar, revelando qual era apenas quando ficou em frente.
“A floricultura da Nena? Tem que comprar o quê?” ela perguntou ao estacionar.
“Nada. Mas você tem que falar com ela.” falou, a moça havia lhe dito sobre a conversa com Mônica e o desejo de parceria.
“Eu não falei com meu pai ainda.” ela ressaltou.
“É importante saber se ela gostaria de fazer parceria com a Dream.” ele disse.
A namorada riu.
“E por que ela não iria querer uma coisa positiva?” perguntou.
“Nem todo mundo gosta da Dream, Amor. Ela poderia até perder cliente por se atrelar a vocês.” ele revelou.
A loira negou com a cabeça.
“Os clientes dela não iriam querer vê-la crescendo?” perguntou.
“É mais por uma questão de princípios. Se ela tiver um cliente que odeia a Dream por causa do escândalo, por exemplo, ele pode deixar de comprar lá por ela ter “se vendido.” Tem gente que é bem radical.” ele disse.
Carmem revirou os olhos.
“Grózny dando problema até depois de ser demitido. Agora eu fiquei ansiosa! E se ela não quiser?” questionou.
“Só tem um jeito de descobrir.” abriu a porta do carro.
Carmem, ao descer, ficou por alguns segundos encarando o muro inglês até tomar coragem de segurar na mão do namorado e entrar.
A floricultura fresca e iluminada exalava um cheiro de mato misturado a múltiplos aromas de flores e contava apenas com Nena, que estava no balcão.
“Bom dia, dona Nena.” cumprimentaram.
“Oh! Que bom ver vocês! Como está a jiboia, Carmem? E como andam as sementes das bodas, Nikolas? Andou sumido, rapaz!” falou sorridente, tinha uma memória invejável.
“É a correria. As sementes de muita gente têm germinado. Uma das minhas é mostarda.” ele respondeu.
“A minha é alecrim. Pelo que li na Internet, é difícil de cuidar.” Carmem disse.
“Não era você que gostava de desafios?” o namorado a provocou.
“Nem tanto. Mas a jiboia está bem, dona Nena.” ela falou.
“Que ótimo. Em que posso ajudar hoje?” a mais velha perguntou.
“Eu vim aqui para falar sobre uma ideia que eu tive. A senhora tem tempo?” a moça perguntou.
“Hoje o movimento está baixo, então tenho.” Nena confirmou.
“Vou deixar vocês conversarem a sós.” Nik disse antes de se afastar.
Carmem respirou fundo.
“A senhora já ouviu falar da empresa Dream?” perguntou.
“Claro! Acho que toda a cidade conhece.” a outra respondeu.
“Então… ela é do meu pai. Eu gosto muito do cuidado e respeito que a senhora tem com plantas, então pensei que poderia ter uma parceria entre a Dream e a floricultura da senhora. Ainda não falei com meu pai, justamente para poder ouvir a senhora primeiro.” falou.
Nena arregalou os olhos.
“Parceria com a Dream? Não sei, Carmem… a Dream é uma empresa que não se importa em desperdiçar para mostrar uma suposta perfeição. Isso vai contra alguns princípios da minha floricultura.” explicou sincera.
A loira mordeu o lábio inferior. Seus olhos vacilaram por um instante, dando de cara com Nik, afastado, que levantou os dois polegares, o que a animou.
“Eu sei que existe um histórico controverso, mas… eu quero mudar isso!” exclamou.
A outra crispou os lábios.
“Isso é bom, mas a empresa é do seu pai, certo? Imagino que a preferência iria para uma floricultura com uma variedade de plantas, já que os sonhos das noivas são variados.” ressaltou.
“Falei com uma wedding planner e ela disse isso, mas a Dream não faz só casamentos. Fora que tem gente que prefere coisa mais simples, mas com boa qualidade.” argumentou.
A mais velha suspirou.
“Vamos fazer assim: você fala com ele, e eu penso se iria querer atrelar a imagem daqui à Dream. Mas me diga… De onde veio essa ideia de mudança?” perguntou.
Os olhos da moça foram até o namorado, que observava um lírio da paz.
“Eu não casei com aquele meu ex noivo, mas achei a minha raiz firme. Eu nunca tinha dado tanta atenção pras perversidades da Dream até o dia que o Nik foi a vítima.” respondeu.
“Ah, eu soube do problema com o fotógrafo preconceituoso.” ela disse.
“O pior é que se não fosse um cara famoso que tivesse feito o exposed, nada teria mudado. Eu sou a filha do dono e namorada do cara que fez a mudança acontecer, então eu tenho a motivação e a influência necessária para pelo menos tentar mudar algo, então… quis começar por aquilo que anda fazendo minha vida ganhar mais sentido.” falou sinceramente.
Nena sorriu.
“Uau! Eu sempre soube que aquele casamento não sairia. E agora… Vejo uma raiz firme sendo construída.” falou e a outra sorriu abertamente.
“O dia que eu me casar, já sabe de onde sairão as flores, né?” falou e a outra riu.
“Está me coagindo a aceitar a parceria?” perguntou.
“Não, eu nem sei quando isso vai acontecer. Mas é isso. Leve o tempo necessário. Vamos, Nik!” chamou o namorado.
Lá fora, ele a olhou curioso.
“E então?” perguntou ansiosamente.
“Ela vai pensar no caso. Seja sincero comigo, se ela aceitar, acha que eu consigo convencer meu pai? Ou que eu vou mesmo conseguir mudar as coisas?” questionou e ele riu.
“No fim das contas, você realmente é Carmem Frufru. O que você quer, você consegue.” falou e ela sorriu abertamente enquanto destrava o carro.
“É. Mas agora me fala uma coisa… ‘tá tudo bem com você?” ela perguntou enquanto entrava no veículo.
“Por que não estaria?” o namorado devolveu uma pergunta, sem encará-la.
“Você parece pensativo demais.” observou.
“Não é nada.” tentou desconversar colocando o cinto.
“Não mente pra mim…” ela disse e ele suspirou.
O rapaz respirou fundo antes de contar todo o ocorrido, até mesmo sua conversa com o contador.
“E então?” perguntou.
“Não vou aceitar a parceria. Além da vista grossa pro Grózny, nem temos o mesmo público. Acho que eu iria era sair perdendo.” ele respondeu.
“Sairia. Seus fãs não iam deixar passar batido. Mas o que você pensa sobre tudo isso?” ela perguntou.
“Eu sei lá. É que agora tem mais coisa em jogo. Eu estou quase formando e quero atuar em alguma coisa que não tenha total relação com Nik,o geek, mas também não quero abandonar Nik, o geek.” respondeu.
A moça riu.
“Você nunca vai sair dessa divisão de você mesmo. Mas o que tem te incomodado? Não se juntar ao meu pai não vai falir a GGeek. É que seu contador é exagerado, Nik.” ela disse.
“Ele ‘tá fazendo o que foi contratado para fazer. Não ouço tudo que ele aconselha, senão a loja teria fechado faz tempo, mas eu considero.” o rapaz explicou.
“Bom… Você quer atuar como engenheiro de software, continuar sendo streamer e dono ativo de uma loja. Você é muita coisa, Amor, mas o superman não é uma dessas coisas.” ela opinou calmamente.
“Então acha que a GGeek física precisa…” falava um tanto decepcionado até ela completar.
“De um gerente! ‘Tá certo que lá foi o refúgio do seu coração despedaçado pela Keika, mas as coisas mudaram. Poucos donos ficam na própria loja.” falou.
“De lojas grandes. A GGeek ainda é pequena.” ele lembrou.
“Pode até ser, mas você pode contratar alguém que cuide pra você, Mão de vaca!” ela disse.
“Meu problema não é pagar alguém, Carmem, é que eu gosto de fazer isso.” ele explicou.
“Então algum dos outros vai ter que ir pro saco. Mas pense bem! Um é o seu canal, que dispensa comentários, e o outro é uma coisa que o meu futuro engenheiro de software quer vivenciar. O que pesa mais?” a namorada ressaltou.
O rapaz bufou.
“Por que será que é tão mais fácil de opinar em vez de decidir?” perguntou e ela riu enquanto o abraçava.
“Porque pimenta nos olhos dos outros é refresco. Eu também amo a GGeek, não é por acaso que sempre vou lá. Mas, das suas alternativas, essa é a que vai te abraçar melhor. Você tem ficado cada vez menos na loja e… as coisas não podem ficar sempre só nas mãos da Agnes, mesmo com baixo movimento.” Carmem falou com sinceridade.
O rapaz suspirou derrotado. Embora Agnes gostasse de trabalhar sozinha, Nik vinha se ausentando demais, o que dava mais trabalho a ela.
“Toda a parte burocrática vai estar no teu colo ainda e você pode aparecer lá, mas… a GGeek é muito importante pra se tornar um fardo pra você, Nik. Se você pegar tudo isso, vai sofrer um burnout, seu contador vai pressionar pra fechar a loja física e seus clientes que vão sofrer. Eu não quero um namorado com uma péssima qualidade de vida.” falou categórica.
Nikolas encarou a namorada com surpresa, ela havia mudado muito ao longo do tempo.
“Isso foi profundo.” comentou e ela riu.
“Hoje ‘tô filósofa demais!” exclamou rindo.
O rapaz ficou alguns segundos em silêncio enquanto chegava a uma conclusão.
“A GGeek sempre vai ter a minha essência, mesmo que eu não esteja integralmente lá.” falou.
*
O expediente havia acabado quando Carmem foi até a sala do pai, onde sua mãe também estava naquele dia.
“Podemos falar uma coisa bem séria?” perguntou.
“Sobre o quê?” o pai perguntou.
A moça mordeu o lábio inferior. Muitas coisas que fizera fora para agradar aos pais, então aquele era um passo muito maior que parecia. Respirou fundo e falou.
“Lembram de quando eu estava mexendo com as Bodas?” perguntou.
“Sim.” afirmaram.
“Eu conheci uma floricultura ótima. Ela é pequena, mas cuida muito bem das flores. Eu acho que uma parceria poderia ser interessante.” falou.
“O que teria de lucrativo nessa parceria? Temos parceiros que, em um lugar só, têm de tudo, o que teria de especial em uma pequena?” perguntou sem rodeios.
Carmem abriu e fechou a boca. Olhou pela janela, onde voavam algumas folhas, e decidiu ir até o fim.
“A Dream prega perfeição, e não tem como ser perfeito se não tiver pensamento sustentável. Tem pessoas que comentam sobre o desperdício daqui, pode ser uma boa tentarmos mudar essa realidade.” começou, chamando a atenção dos pais.
“A Floricultura da dona Nena respeita as plantas, e na Internet tem muitos pais de planta ou interessados pela causa que iriam adorar saber que a Dream tem parceiros assim. Lembrando que o escândalo do Grózny não foi uma das coisas mais positivas pra gente.” argumentou.
Os mais velhos se entreolharam.
“Pode ser uma boa ideia… mas se fizermos isso agora, enquanto ainda é recente a confusão do Grózny, pode parecer que queremos usar uma causa para abafar outra.” Isabele opinou.
“Eu cheguei a sugerir pra Nena, mas ela ainda está pensando, então… temos um tempo.” falou.
“Se ela se interessar, fale conosco. É um bom plano. Parabéns, filha.” o pai disse, o que a fez sorrir.
“Obrigada!” agradeceu sentindo-se orgulhosa.
De repente, Carmem se sentiu poderosa e possibilitada de fazer absolutamente qualquer coisa, desde a mais complexa até a mais banal.
*
A noite chegou depressa para um agoniado Do Contra. Nunca se imaginou tão nervoso como estava naquele momento.
Após uma falha tentativa de meditação, andava pelo apartamento, ainda seminu e de óculos de sol, em busca de uma forma de se acalmar.
“Tá parecendo um fantasma andando por aí. Aqui, um bolo de padaria pra não intoxicar os sogros com tua comida podre.” Nimbus disse ao colocar uma sacola na mesa.
“Se eu não estivesse agoniado, eu te responderia do jeitinho que você merece.” o caçula falou.
“Você ‘tá nervoso com o quê? Ela já deve ter adiantado algumas informações suas.” o outro disse calmamente.
“E se eles não gostarem de mim? Eu tenho consciência que não é todo mundo que vai entender meu jeito de ser. Você iria querer que sua filha namorasse um cara como eu?” perguntou.
Nimbus gargalhou enquanto se deitava no sofá.
“É óbvio que não. Eu falaria pra ela terminar assim que perguntasse o que significa DC ou em que circunstâncias vocês se conheceram.” o mais velho o irritou.
“Você não está me ajudando!” o outro reclamou.
“Do Contra, relaxa! Se ela estivesse preocupada, nem estaria te apresentando. Conhecer os pais é tranquilo quando você é de boa.” Nimbus tentou acalmar o irmão.
“Onde que o cara que teve que fazer um mini doc pra limpar a imagem é considerado de boa?” DC perguntou.
“Pra Milena, você é. No fim das contas, é isso que vai importar. Você não é tipo uma máquina de lavar? Seja firme como uma.” o mais velho aconselhou.
DC o olhou.
“Na verdade, é minha vida amorosa que é como um agitador de máquina de lavar.” corrigiu-o.
O outro bufou.
“Vai se ferrar, garoto! E um conselho, não chega lá com esses papos tortos. Vai assustar eles e até dar vergonha na Milena.” aconselhou-o.
“Obrigado por reacender minha insegurança.” DC agradeceu irônico.
Nimbus gargalhou.
“Parece que o todo diferentão não é tão do contra assim, no fim das contas.” zombou.
“Sai da minha casa!” expulsou-o.
“Tô brincando, Ranzinza! Você tem que relaxar. Eles vão gostar de você.” falou e o outro revirou os olhos.
O som da campainha o despertou, Milena havia combinado de o acompanhar.
Nimbus abriu a boca com um sorriso.
“Chegou a hora, garotão!” irritou-o.
DC levantou os dedos médios antes de ir abrir a porta, deixando para trás um risonho Nimbus.
Milena riu quando viu a feição do namorado.
“Nossa, ‘tá tudo bem?” perguntou.
“Eu ‘tô nervoso! É mais fácil encarar uma plateia que não me conhece que a família da minha namorada.” falou ao abraçá-la.
“Relaxa.” acariciou-lhe.
“Cunhadinha, esse daí ‘tá isso aqui de infartar.” Nimbus gesticulou com a mão.
“Eu não apresento qualquer pessoa pra eles, então eles já sabem que você vale a pena. Mas se você for no estilo que medita… não vai ser uma boa primeira impressão.” ela disse.
O rapaz olhou para baixo, reparando sua seminudez, e saiu da sala, fazendo a namorada e o irmão rirem.
Ao deixarem o prédio velho, DC se surpreendeu com a colorida kombi de Sarah.
“Ué… teremos companhia?” perguntou.
A moça sorriu abertamente.
“Temos uma parada antes.” disse ao empurrar a porta do veículo, revelando Marina, Franja e Luca.
“Oi, DC!” cumprimentaram.
“E aí! Pra onde estamos indo?” DC perguntou enquanto se sentava perto da janela.
“Pra um lugar muito especial.” Milena disse ao se sentar ao lado dele.
“Elas também não me disseram. Pra gente aceitar entrar numa kombi sem saber o destino, temos que confiar muito.” Franja comentou.
“Não confia na sua namorada?” Marina perguntou.
“Confio, mas tenho medo de acabar virando modelo. Não estou no meu melhor estilo hoje.” o loiro falou.
“Você sempre está assim, Franja.” Sarah riu ao dizer.
“Eu sempre ‘tô acabado desse jeito?” perguntou com um riso.
“Se isso é seu acabado, Franja, você arrumado tem que ser um modelo internacional.” a namorada disse sorridente.
“A namorada nunca vai dizer que ‘tá ruim.” Luca provocou.
“Não quando a namorada é a Marina.” Sarah ressaltou.
“A Milena diria que você está ruim, DC?” o ruivo perguntou.
“Diria. Mas de um jeito fofo.” ele disse.
“E essa daí é fofa desde quando?” Luca perguntou risonho.
“Com quem me interessa, né, queridão?!” ela disse.
“Fechem os olhos! Fechem os olhos!” Sarah disse animada.
“Eu já vim aqui, então é indiferente.” Luca disse.
“Deixa de ser chato! Vão indo, meninas, vou ajudar o Luca.” Sarah disse.
“Vem, DC! Não vale espiar!” Milena puxou o namorado pela mão.
“Prometo que não vou.” prometeu com os olhos fechados.
O som dos pés em contato com o piso fazia um sonoro eco, indicando que o local estava vazio. O rapaz fora guiado até ela parar de andar.
“Espera aí!" ela disse e logo ouviram-se janelas se abrindo, ao mesmo tempo que subiu poeira, fazendo-o tossir.
“Me trouxe pra fazer faxina e não ‘tô sabendo?” perguntou e ela riu.
“É exatamente isso. Agora… pode abrir!” ela autorizou assim que a voz voltou a se aproximar dele.
DC descobriu os olhos e olhou a redor: estava em uma sala escura, iluminada apenas pela luz da lua e do poste da rua, espaçosa, empoeirada, com paredes cobertas por papel de parede envelhecido e duas janelas de aço.
“Bom… estamos exatamente onde?” perguntou olhando ao redor.
Milena sorriu abertamente.
“No meu estúdio!” revelou alegre.
DC a encarou boquiaberto, sabia que ela ia muito bem com as fotografias e, durante um tempo, suspeitou que ela andava escondendo algo, mas não esperava que fosse o tão sonhado estúdio.
“Sério? O pai da Marina…” falava e nem precisou completar.
“Ele viu que ‘tava dando certo e foi nosso fiador. O estúdio triplo existe!” ela exclamou.
DC sorriu largamente enquanto a abraçava, girando-a no ar no processo.
“Amor, que coisa incrível! Essa estética envelhecida que nem o meu prédio é interessante, só a poeira que pode ser meio complicada.” disse ainda abraçado a ela.
A moça riu.
“Eu vou mudar muita coisa! Primeiro, esse papel de parede horrível vai sumir! Pensei em pintar as paredes de modo que deixasse o espaço maior, Marina disse que existe uma técnica pra isso. Nas janelas, uma cortina, porque eu ainda vou precisar da luz solar.” falava enquanto se virava em direção à janela, ainda nos braços do namorado.
“Conheço essa técnica, é boa mesmo. Você que vai pintar e deixar sua marca?” perguntou e ela negou.
“Sarah e Marina deram essa ideia, mas prefiro algo profissional. Afinal… já tenho uma primeira cliente.” falou.
“Mesmo? Quem?” ele perguntou.
“Uma super exigente da Dream fez um nu artístico comigo uma vez e me chamou de novo pra um normal. Quando eu falei que pretendia abrir um estúdio, ela disse que queria ser a primeira cliente.” respondeu.
“Mas é um novo nu artístico?” perguntou.
“Ela não especificou, mas por mim tudo bem. Ainda vai demorar um pouco pra poder chamar aqui de estúdio, mas… é um grande começo!” comentou.
O casal ficou alguns segundos apenas olhando a cidade pela janela, tinha uma boa panorâmica.
“Tem espaço nessa agenda pra um namorado muito orgulhoso?” ele perguntou baixo.
“Posso arranjar. Quer um nu artístico também?” ela virou apenas o rosto.
O rapaz sorriu com certo interesse.
“Eu não teria problema nenhum. Acho que pode ser até a capa de um álbum da banda.” ponderou.
“A Isa e o Toni topariam, o Jeremias eu não sei.” ela comentou.
“Por que não? Ele não é esse bom moço que aparenta.” o moreno disse rindo.
“A namorada dele é ciumenta. Mas a banda precisa de um nome pra ter uma capa.” ela disse.
“A gente andou falando sobre isso e só tem uma opção: A banda de Schrödinger.” contou e a moça riu.
“Eu já chamava assim. Então vai ser um prazer fotografar A banda de Schrödinger. Agora temos outro lugar pra ir!” ela exclamou.
“Eles já sabem do estúdio?” perguntou enquanto ia fechar a janela.
“Sim. Mas acho que hoje o foco deles vai ser você. Vou chamar um uper, os amigos das meninas vão vir conhecer.” ela disse.
X
Observar os prédios altos cederem espaço para alguns menores enquanto acariciava a mão da namorada deixava Do Contra mais calmo.
O bairro dos pais de Milena era considerado mediano, mas não era perto da faculdade.
“Acho que nunca te perguntei o motivo de você morar sozinha sendo que seus pais moram na cidade e vocês parecem se dar bem.” ele comentou.
“Curso integral longe da faculdade é uma tristeza, vai por mim. E, bom… eu queria aquela famosa independência, mesmo não sendo totalmente independente, e um pouco de privacidade também. E você sabe que eu gosto de um rolê apocalíptico, mas meus pais não.” respondeu e ele riu.
“Então seus pais nem sonham com suas idas ao Bidu?” perguntou e foi a vez de ela rir.
“Das vezes suaves, eles sabem. Agora os rolês agitados demais, as idas na Toca do Coelho, madrugadas viradas na rampa, festinhas universitárias duvidosas e umas resenhas… prefiro até que não saibam.” respondeu e ele gargalhou.
“Mileninha mentindo pros pais que é uma santinha que às oito da noite está deitada na cama?” zombou.
“Mentir é uma palavra muito forte. Digamos que eu prefiro evitar certos sermões. Meus pais são legais e entendo a preocupação, mas depois do dia que eu falei sobre um rolê apocalíptico e levei um sermão que se arrastou por dias… eu desanimei de falar.” esclareceu.
O rapaz assentiu, entendia bem até demais sobre sermões duradouros.
“Entendo. Você nunca teve problemas nesses rolês?” perguntou.
“Não. Eu ia com uma galera que não se desgrudava, cuidava bem da minha bebida, me controlava e ia pra casa sempre plena de minhas faculdades mentais.” ela respondeu.
“Então por que não dizia pros seus pais que estava segura?” o rapaz perguntou e ela riu sem muito humor.
“No dia do sermão, eu falei. Mas isso foi totalmente ignorado. Seus pais diriam algo?” perguntou.
“Eu não saio muito, então era mais o contrário. Eu quis me mudar pra poder viver meu estilo de vida sem os inúmeros julgamentos que você já viu acontecendo.” respondeu.
Enfim, chegaram na casa, que não era nem grande nem muito pequena.
“Gente, este é Mauricio, vulgo DC. Meu namorado.” ela apresentou. O rapaz sorriu ao ser apresentado como namorado, ficando até menos nervoso.
Do Contra reparou em cada uma das pessoas ali presentes conforme se apresentavam: Sílvia, a mãe, a veterinária, era uma mulher aparentemente animada; Renato era um publicitário bem humorado e pouco ou nada ciumento; Solange, a irmã mais velha, a Sol, por mais que parecesse alegre, parecia cansada e batucava na mesa o tempo todo; e Fabinho, vulgo Binho, era um típico pré-adolescente entediado que parecia odiar o mundo e ter toda a sua atenção no celular.
“Binho, sai desse celular! Tem visita em casa!” a mãe repreendeu.
“Se ele namora a Milena, não é bem uma visita.” ele comentou.
“A Milena não mora aqui, então ele não vai aparecer com frequência.” Sol comentou com um bocejo.
“Ela mora. Ela só fica menos que a gente gostaria. Vamos nos sentar, gente.” o pai disse.
À mesa, DC se sentou ao lado da namorada, ficando de frente para o sogro, que não tinha nada de amedrontador, como imaginou que seria.
“Como vocês se conheceram?” a mãe perguntou.
“Eu era fotógrafa dele. Acabamos nos aproximando e deu no que deu. Mas foi só depois de tudo!” Milena respondeu.
“Sim, fomos muito profissionais.” ele comentou.
“Profissionalismo é a base de qualquer coisa. E o gostou do trabalho dela? Sempre imaginamos Milena só fazendo uma coisa, mas já que ela gosta de fotos e não liga de trabalhar demais… nos restou aceitar.” o pai disse.
“Sim, ela é uma excelente fotógrafa.” ele respondeu.
“E foi isso que fez você se apaixonar?” a mãe perguntou e os dois riram.
“Não, foi por causa dela em si. A gente foi no… num lugar comemorar um grande acontecimento, e eu vi que as coisas estavam mudando.” ele disse, ocultando a parte da ida ao Bidu.
“Que lugar?” Binho pareceu se interessar.
DC olhou para Milena, como se pedisse autorização para revelar.
“O Bidu. Mas nada de apocalíptico.” ela fez questão de ressaltar.
“Ah, Milena… esses bares perto da faculdade são todos uns antros. Não é lugar que você devia frequentar.” a mãe comentou.
A moça deu de ombros.
“Não é como se eu fosse sempre. E como eu disse, nada apocalíptico.” falou.
“Faz o que da vida, Maurício?” Renato perguntou.
“Sou músico. Toco muitos instrumentos e também tenho uma banda.” respondeu.
“Músico? Legal. E por que fez um mini doc?” ele perguntou.
“Tive um desentendimento com um cliente rico e manchou minha imagem, então precisava melhorar.” o rapaz decidiu ser sincero.
“Funcionou?” a mais velha perguntou.
“Sim. Tenho recebido muitas propostas.” respondeu.
“Tá melhor que você, hein, Sol.” Binho zombou.
“Vidas diferentes.” ela disse simples, fazendo DC a encarar por alguns segundos.
“Você fez que nem a Solange que escolheu música em vez de algo mais… ér… que a sorte e contatos contam menos, ou fez outra coisa e tem a música como outra paixão?” Sílvia perguntou.
“Eu quase me formei em Arquitetura, mas, quando deixou de fazer sentido pra mim, eu larguei e fui atrás do meu caminho.” respondeu.
“O que seus pais acharam disso?” Renato perguntou.
“Não assistiram ao mini doc?” Milena perguntou, não sabia se o rapaz queria entrar na questão que tinha com os pais.
“Sim, mas queremos ouvir dele. Às vezes, o ponto de vista muda. ” ele explicou.
DC deu um gole em sua bebida, que era suco de laranja.
“Eles não gostaram. Não por acaso, eu não moro mais com eles, não dependo deles e só com o mini doc voltei a me aproximar um pouco.” respondeu sincero.
“Situação complicada essa.” Sol comentou despretensiosamente, antes de dar um gole em sua bebida.
“E pra vocês? Foi difícil a decisão a Milena de mudar de curso ou até mesmo se mudar?” ele enfim fez uma pergunta.
“Apoiamos as mudanças. É claro que não é fácil ter sua menininha indo morar sozinha, mas entendemos a necessidade de crescer, ser independente e ter sua liberdade.” Renato disse.
“Vai dar tudo certo! Física é um curso com várias oportunidades.” Milena logo disse, quase de modo automático.
“Sim. Por isso apoiamos. Ela sempre dizia querer ser cientista e tinha toda a questão da medicina veterinária, mas às vezes mudamos de ideia.” Sílvia disse.
“Dependendo da mudança, as coisas são mais difíceis.” a irmã mais velha falou, deixando a mesa silenciosa.
Milena forçou um sorriso diante do silêncio da mesa.
“O que significa DC?” Binho perguntou.
“Do Contra. É um apelido de infância. Eu não sou muito convencional, gosto contrariar o senso comum, mas nem sempre tem sido assim.” o rapaz explicou.
“E quis namorar uma pessoa certinha e toda regrada feito a Milena?” Binho perguntou risonho.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!DC olhou para a namorada com carinho.
“Dizem que os opostos se atraem. E olha que não acho que somos tão opostos assim. Mesmo ela dizendo que não tem como misturar surrealismo com barroco, não goste de um filme injustiçado pela crítica e ache que o Edward tem um poder legal.” respondeu.
A família estranhou a resposta, mas Milena sorriu verdadeiramente, o que o deixou ainda mais tranquilo a respeito de ser ele mesmo.
“E a sua banda? É verdade que a Isadora é sua ex?” Sol perguntou e ele assentiu despreocupado.
“Sim.” confirmou.
“E não te incomoda, Milena?” a mãe perguntou.
A fotógrafa riu.
“Sinceramente, não. Até me dou bem com ela. Inclusive, ela ficava me ajeitando pro DC.” revelou.
A família ficou ainda mais surpresa.
“A relação de vocês é meio… diferente.” Renato comentou.
“Pra não falar outra coisa.” o caçula falou.
“Binho!” os pais repreenderam.
“É justamente isso que deixa interessante. É um diferente legal.” Milena falou.
“É verdade que você medita pelado ou era só pro vídeo? Porque deixar o garotão relaxar também parece uma boa estratégia.” Binho perguntou curioso, mas a voz de Sílvia impediu a resposta.
“Vamos provar esse bolo? Parece maravilhoso!” Sílvia disse em meio aos risos dos mais jovens e a força de Renato para reprimir o seu e fingir não se interessar pela resposta.
“O quê? Eu não conheço ninguém que medita, ainda mais pelado. Fiquei curioso.” Binho reclamou.
“Não é pelado, mas… é um raciocínio interessante. O contato do chão gelado com o corpo quente é bom.” DC não viu problema em responder.
“O primeiro pedaço vai para quem?!” a mais velha tentou mudar o foco.
“Acho que para Milena. Em homenagem ao estúdio.” o pai disse e ela sorriu.
O jantar continuou até o jovem casal decidir ir para casa, alegando ter um longo próximo dia. DC saiu com a impressão de que a família de Milena era legal, porém, o rapaz percebeu de onde vinham os excessos da namorada.
“Me diz uma coisa… seus pais eram severos quando você era adolescente?” perguntou já dentro do uper.
“Comigo, não muito. Só o básico mesmo: estudar, ir pra uma boa faculdade, não beber ou fumar, não engravidar, ficar longe de drogas e más companhias… essas coisas.” respondeu.
“E com a sua irmã?” perguntou.
A moça suspirou.
“Todos nós gostamos de nos divertir, mas a Sol é a filha mais velha, sabe? Essa coisa de ser o primeiro filho e do exemplo pegam muito. Ela tirou uma nota muito alta no ENEM, tão alta que passaria em cursos “renomados”. Mas ela escolheu música.” revelou.
“Podem não ter demonstrado hoje, mas a família tem música nas veias. Não é por acaso que nossas iniciais são notas musicais. Mas… a escolha dela desagradou muito, a ponto de coisas pesadas serem ditas.” continuou.
“Infelizmente, eu sei como é isso.” o rapaz comentou.
“Querendo ou não, acho que internalizei essa coisa de não desagradar. Eu sempre admirei minha mãe e a profissão dela, mas meu negócio eram cálculos.” ela disse.
“Mas exatas costumam ser muito bem vistas.” ele comentou.
“Sim, mas eu cresci dando a certeza que seria veterinária. Com o tempo, a escolha da Sol foi aceita e a mente deles se abriu muito, mas…” não completou.
“Você tinha esse receio de decepcionar e acontecer o mesmo que aconteceu com sua irmã. Agora faz mais sentido as dúvidas sobre mudar de curso.” ele completou e a namorada assentiu.
“Eu seria uma cientista sendo veterinária, mas não o tipo de cientista que eu queria ser. Conviver com você me ajudou a chegar a na minha decisão.” confessou, fazendo-o arregalar os olhos.
“Mesmo?” perguntou e ela assentiu.
“Você decidiu seguir seu sonho sem se importar com nada nem ninguém. Eu via que era difícil e até frustrante, mas… no fundo, valia. Aí pensei: por que não?” revelou.
O rapaz sorriu.
“Eu sempre admirei sua coragem! E também me incentivou a continuar. Acho que temos muitas diferenças, Milena, mas a gente se completa demais.” rapaz concluiu e ela o beijou, os dois tinham algo que os conectava.
*
Assim como os sonhos e realizações dos jovens, duas primaveras haviam florescido.
O sol ainda estava em seus primeiros raios quando, no belo prédio de três andares de cores neutras e contrastes, Milena acabava de fotografar uma cliente muito especial, que estava em um dia ainda mais especial.
Os dois anos foram difíceis, fosse em termos financeiros, de autoconfiança e até mesmo de conciliação com seu segundo sonho, o de ser cientista, e seu relacionamento. Mas tudo pareceu casar bem a ponto de chegar onde havia chegado: um estúdio cheio de clientes fiéis que se sentiam confortáveis com seus respectivos pacotes.
“Terminei por hoje. Agora nos vemos mais tarde! E nada de estresse, madame!” falou e a outra pessoa sorriu abertamente.
“Quem sou eu para não seguir o conselho. E quem se estressa em um SPA?” a cliente perguntou.
“É possível. Agora vai lá, que hoje é o seu dia. Daqui a pouco eu chego.” falou e a outra saiu.
A cacheada começou a organizar suas coisas quando Ana, a recepcionista do prédio, entrou.
“Milena, tem alguém aqui querendo falar com a chefe do estúdio fotográfico.” ela comentou com um sorriso enfeitando o rosto.
“Ué, mas nem abrimos hoje. Foi exclusivamente pra…” falava até a outra rir.
“Acho que você vai gostar de ver quem é. Vou deixar vocês a sós.” ela disse antes de sair.
Milena, curiosa, foi ver quem era. Ao chegar na entrada, cresceu os olhos.
“Grózny?!” reconheceu.
Ivan Grózny estava diferente. Parecia mais cansado, suas roupas estavam desalinhadas e olheiras enfeitavam seus olhos.
O homem se surpreendeu, mas logo fez sua típica expressão arrogante.
“Impressionante como esses recepcionistas não trabalham direito… eu mandei chamar a chefe, não outra funcionária.” reclamou.
“Respeite a Ana, Ivan. E você não está na condição de mandar em ninguém. O que o traz aqui?” a moça cruzou os braços.
O homem deu de ombros.
“Ouvi falar de um estúdio relativamente novo que estava crescendo. A Dream não me aceitou de volta depois do exagero daquele moleque e… não tem sido fácil estar em outro ofício, meu negócio são câmeras.” falou.
“Tá trabalhando no quê?” ela perguntou.
O homem fechou seu casaco, cobrindo um uniforme de empresa.
“Não vem ao caso. Enfim, poderia chamar seu chefe? Estou com um pouco de pressa. Dado meu currículo, talvez hoje mesmo eu já seja contratado. Aí vou acabar sendo seu chefe de novo, já que experiência conta e muito.” falou rindo presunçoso.
“Sair da Dream deve ter sido muito difícil pra você.” ela comentou.
“Difícil? Claro que não. Eu não continuei na fotografia porque eu quis dar um tempinho. A Dream que perdeu um ótimo fotógrafo por ter medinho de famoso da internet. Nenhum fotógrafo que entrou depois chega aos meus pés. Mas chega de papo, vá logo chamar seu chefe, ok?” praticamente ordenou.
A moça quis falar palavras pesadas, que poderiam humilhá-lo da pior forma possível e talvez fazê-lo sentir um pouco do que sentiu ao longo dos anos, mas não conseguiu. Tudo que conseguiu sentir fora pena do homem que, mesmo sem ter nada, ainda se sentia superior a todos.
“Pode falar o que deseja.” respondeu.
“Você não entendeu, florzinha. Quero falar direto com o chefe! Não quero nenhum funcionário fofoqueiro fingindo intermediar.” falou grosseiramente.
Milena queria estapeá-lo, mas se segurou.
“Na verdade, você que não está entendendo, querido. Eu sou a pessoa que você procura. O estúdio é meu.” revelou devagar.
Os olhos de Ivan cresceram.
“Seu? Mas como?!” perguntou incrédulo.
“Não foi nada fácil, confesso, mas eu consegui chegar aonde você sempre achou que eu nunca chegaria.” ela disse.
Grózny a encarou com uma expressão amarga de inveja.
“Vemos que namorar o Takeda estranho teve seus resultados.” insinuou.
“Sim, teve. Eu vi que podia ter uma vida amorosa e profissional com alguém que me apoia. Mas se você falava sobre dinheiro… eu não pedi um centavo a ele, tudo isso foi fruto do excelente trabalho que eu faço e de relações que me ajudaram a crescer.” a moça rebateu.
“E então? Queria falar com a chefe, estou aqui.” ela cruzou os braços.
Ivan a encarou boquiaberto. Ainda não acreditava que Milena, a moça que propositadamente colocou em trabalhos que ninguém queria a fim de que seu brilho não ofuscante a si e à sua sobrinha, havia chegado ao topo.
“Eu… com licença.” falou e apenas saiu do prédio.
Milena sentiu o corpo tremer e uma imensa vontade de rir, de gritar, de fazer qualquer movimento ou som. De repente, sentiu ser abraçada. Eram Sarah e Marina.
“A Ana foi falar pra gente quem estava aqui. Aí ouvimos a conversa. Que dia! Que dia!” Sarah exclamou eufórica.
“Grózny se fodendo sempre vai ser uma maravilha!” Marina disse.
“Hoje eu posso dizer que o mundo… ele gira!” Milena exclamou risonha.
DC apareceu junto da banda, que também vinha crescendo cada vez mais. Ele carregava algo consigo.
“Tá rindo de quê?” ele perguntou.
“Grózny acabou de se ferrar.” falou.
“Esse cara ainda dá problema?” Jeremias perguntou.
“Achei que ele tinha até se mudado.” Toni disse.
“Bom, ele reapareceu.” Milena logo contou o ocorrido.
Os demais riram.
“Queria ter visto isso! Viemos te trazer um pôster do nosso álbum. Nossa fotógrafa favorita merecia.” Isadora entregou um papel enrolado.
Milena riu ao abrir. A banda não havia feito um nu artístico, mas também não estavam totalmente vestidos.
“Vou colar na minha parede.” Falou rindo.
“Sabe o que mais você pode colocar na sua parede? Isso!” DC entregou o embrulho grande em formato retangular.
“Um quadro?” ela perguntou enquanto abria.
Ao desembrulhar, sorriu abertamente.
“O quadro que mistura surrealismo com barroco! Não acredito que você realmente fez!” olhou sorrindo para o presente.
“Eu disse que te daria um. Aí está. Eu demorei porque tive que encomendar a parte barroca e aprender a surrealista.” Falou.
A namorada o abraçou.
“Eu amei.” ela disse.
“Aí você forçou. Esse é o quadro mais feio que eu vi.” Toni disse com uma careta.
“É um espelho, Toni?” Jeremias disse.
“Você não tem sensibilidade.” Isadora disse.
“Eu tenho, mas dizer que isso é bonito… já é demais.” explicou-se.
“Defina bonito.” Milena pediu.
“Tipo isso aqui.” apontou para si mesmo.
“Isso não é bonito, é castigo.” DC zombou, fazendo os demais rirem.
Aquele quadro tinha uma história por trás, então DC, ao olhá-lo novamente, sentiu voltar no tempo. De repente, sua imagem estava boa, sua banda evoluindo, sua relação com os pais um pouco melhor e sentia o amor crescer em seu peito. Aquilo o fez sorrir e até querer compor uma música, faria isso quando fosse meditar.
*
Em outro lugar, Nikolas sorriu para um funcionário da loja vizinha à sua assim que entrou na agora grande e espaçosa GGeek.
Seu contador não ficara satisfeito quando havia tomado a decisão de ignorar a proposta de Frufru, menos ainda quando quis contratar um gerente e muito menos quando quis expandir, tudo com os lucros que vinham de seu canal, que não eram poucos.
O começo foi complicado, mas João teve que reconsiderar quando os lucros começaram a crescer, principalmente quando a GGeek ganhou um aplicativo promissor, criado pelo próprio Nik, que de fato vinha utilizando seu diploma.
Diferente do que achou que aconteceria, não havia se afastado da GGeek, muito pelo contrário, a loja havia ganhado parceiros que proporcionavam mais marcas, eventos e clientes.
Naquele dia em especial, quis estar na loja, pois era o último dia de Agnes.
Quando chegou na loja, deu de cara com a loira, observando o entorno.
“Já está com saudades ou está contando quantos micróbios devem ter naquela prateleira?” Ele perguntou.
A moça se virou com um sorriso.
“Pode ser as duas coisas. Aqueles novos funcionários não sabem como se limpa um lugar do jeito certo.” comentou.
“Como você, acho que eu também não sei.” o rapaz brincou.
Agnes o olhou por alguns segundos, lembrando-se da primeira vez em que se viram.
O dia estava quente quando Agnes, caminhando pelas ruas perto da faculdade, viu o anúncio de contrata-se após o terceiro “você não se encaixa no nosso perfil” do dia.
“GGeek? Deve ser uma loja geek.” comentou.
Não tinha experiência, odiava contato físico, não era tão conhecedora de cultura geek e nem mesmo se aproximava das pessoas, mas, para sair da casa dos pais e conseguir trabalhar melhor sua hipocondria, precisava de dinheiro. Sendo assim, decidiu tentar.
Com isso, empurrou a porta e, ao entrar, reparou na loja de artigos geek um tanto escura, desarrumada e não muito limpa, pelo menos para os seus padrões. Ao olhar para o balcão, deu de cara com um rosto que jurava já ter visto antes.
“Oi.” cumprimentou.
O rapaz a olhou com um sorriso, parando de limpar os vidros dos expositores com um produto que não era próprio para isso.
“Oi, em que posso ajudar?” ele perguntou.
“Ér… meu nome é Agnes e… e eu vi ali uma placa de precisa-se e queria saber os detalhes.” falou.
“Entende de cultura geek, Agnes?” ele perguntou.
“Um pouco. Mas não tenho problemas de aprender.” ela respondeu.
“E você sabe quem eu sou?” perguntou.
A loira franziu o cenho.
“Bom… eu tenho a impressão de já ter te visto, mas não sei de onde.” Falou e ele sorriu.
“Um requisito você já tem. Prefiro trabalhar com alguém que não me veja apenas pelo prisma de Nik, o geek. A propósito, sou Nikolas.” comentou e ela, enfim, se lembrou.
“Ah… agora eu sei! Uma amiga minha adora você. Não posso dizer que sou sua fã porque não tenho o costume de assistir, mas… é legal.” a moça falou.
Nik explicou os detalhes do emprego, que interessaram a moça, mas algo chamou sua atenção.
“Você trabalha na sua própria loja?” perguntou.
O olhar do rapaz se tornou doloroso.
“Abri aqui para esquecer um pouco da vida. Já que se interessa pela vaga, o que acha de fazermos um teste? Para ver se realmente vai gostar?” ele perguntou, também era sua primeira vez empregando.
“Aceito. Ah, e eu tenho que te dizer, esse produto vai estragar os expositores.” apontou.
“Mesmo?” ele encarou o produto.
“Usar um limpa vidros, vai fazer toda a diferença. E tenho que contar uma coisa sobre mim: eu… eu tenho tendências hipocondríacas.” preferiu já revelar.
Nik pensou por um instante.
“Tá… isso significa que você se preocupa muito com doenças, né?” perguntou.
“Mais ou menos. Mas eu tenho tendência, é diferente. Então, contato físico, sujeira, muita proximidade, coisas que podem atrair bichos ou me deixar doente me incomodam. Se isso for um problema… eu vou entender.” falou.
O moreno deu de ombros.
“Por mim, problema nenhum. Mas assim… não posso te garantir que ninguém vai falar com você e, no momento, um outro funcionário.” falou.
“Sobre o outro funcionário, até prefiro não ter. E… acho que consigo aguentar.” ela disse.
“Então ao trabalho, Agnes.” ele sorriu ao dizer.
O começo fora estranho, mas Nikolas era um rapaz gentil, sempre muito ocupado e que respeitava seus limites, então tinha uma certa liberdade na loja. Em poucos dias de trabalho, num dia em que Nik estava no correio, teve a primeira aparição de Carmem e Denise no momento em que limpava o chão.
“Nik contratou uma faxineira?” Carmem perguntou com sua voz enjoada.
“Não sou faxineira, sou a nova funcionária daqui. Em que posso ajudá-las?” respondeu.
Carmem a encarou por alguns segundos.
“Cadê o Nik?” perguntou.
“Foi ao correio. Logo ele aparece.” respondeu.
“Só vim mesmo dizer que voltei.” a de cabelos ondulados respondeu.
“Eu aviso ele que a namorada veio.” Agnes disse, fazendo Carmem rir.
“A gente não namora, ele é meu amigo. Pode avisar que a Carmem veio aqui. Seu chefe é uma graça, vê se não se apaixona.” aconselhou.
Denise a encarou também.
“Ah, eu sei quem você é! É a amiga hipocondríaca da Sofia!” exclamou alto.
Agnes engoliu em seco, um pouco constrangida.
“Hipocondríaca?” Carmem perguntou.
“Tenho tendências. É diferente.” explicou-se.
“Pra mim, é a mesma coisa. Sofia que sofre. Bom, nos vemos por aí, Agnes. A gente sempre aparece por aqui.” Denise saiu rindo ao lado da outra, que já imaginava que não gostaria.
Os dias na GGeek a fizeram se tornar um pouco menos avessa a pessoas e seus germes e a aproximaram bastante de Nikolas, que mesmo distante era um bom chefe, de Carmem, que se tornou muito mais suportável, e até de Denise, que até a ajudou com Cascão.
Tudo isso se concretizou no dia atual, no qual se despedia do local que tanto aprendeu para um importante passo em sua carreira profissional.
“Você foi meu primeiro chefe. Me pagava certinho, deixava eu sair mais cedo quando tinha prova, não surtava com minhas consultas e ainda me aceitou sem ter experiência ou ser uma nerd. Eu sei que muita gente tem chefes horríveis, então me considero uma pessoa de sorte.” ela disse.
“Eu que me considero. Aprendi uns truques de limpeza que sinceramente levei pra vida. Boa sorte no mestrado, Agnes. Tenho certeza que vai ser muito bom.” desejou.
Agnes já havia se formado. E, pouco tempo depois, passou em um mestrado com bolsa na área que tanto gostava: microbiologia.
Mesmo que o tempo tivesse passado, abraços ainda não eram algo que gostava de dar. Mas, naquele momento, sentiu vontade e abraçou Nikolas com todo o carinho que sentia por ele.
“Espero poder voltar aqui como cliente e amiga. Meu namorado adora coisas geek e umas têm chamado minha atenção.” ela falou e ele retribuiu.
“Também espero.” ele falou.
Carmem logo apareceu.
“Há um tempo, essa cena me surpreenderia muito.” ela falou.
“Ah, Carmem… sua presença na GGeek no começo me irritava, mas depois… passou a ser legal.” Agnes revelou.
“Somos amigas agora, Agnes. Não se livrou da gente, não. Suas dicas sobre como se lava um banheiro não me animam, mas aquelas de quais plantas limpam o ambiente chamam minha atenção.” ela disse.
“Só isso chama sua atenção?” Nik perguntou.
“Para de ter ciúme das plantas.” ela riu
Agnes riu, sentiria saudades daquilo. Quando clientes começaram a entrar, respirou fundo.
“Vou nessa. A gente se vê!” despediu-se.
Como a loja agora tinha outros funcionários, Nik apenas foi para o depósito, sendo seguido por Carmem.
“Tá vindo de onde?” ele perguntou.
“Tava na floricultura. Ela vai expandir o prédio e quis saber minha opinião.” falou.
“Lembra de como você ficou feliz quando seu pai aceitou?” perguntou e ela riu.
“Claro! Me senti tão poderosa que naquele dia eu fui atrás de um curso novo e até fui lavar um banheiro pela primeira vez. Pra ir do complexo pro banal.” lembrou.
“E qual é qual? O curso de moda ou lavar um banheiro?” perguntou.
“Eu odeio lavar banheiro e adoro estudar moda, então…” falou rindo ao fim, sendo acompanhada por ele.
“As coisas tomaram um rumo diferente pra gente.” comentou enquanto a abraçava.
“E continuamos juntos! Construir minha raiz firme com você tem sido maravilhoso.” ela disse.
“Digo o mesmo.” concordou antes de beijá-la.
A raiz firme dos dois se tornava cada dia mais firme.
*
Agnes caminhava se sentindo estranha. Não se imaginava trabalhando na GGeek para sempre, ainda mais agora que estava indo para a sua área, mas sentiu algo diferente, era como se algo tivesse se encerrado.
“Um fechamento de ciclo…” falou.
Olhou para trás mais uma vez e foi para casa, onde muito em breve seriam só ela e Milena.
“Tudo muda de repente…” balbuciou.
No prédio, deu de cara com um alegre Cascão.
“Amor! Tem alguém aqui que quer te conhecer.” ele disse.
A moça entrou no apartamento do namorado, onde havia uma garota de longos cabelos negros e um sorriso doce.
Cascão sorria abertamente.
“Agnes, essa a famosa Magali, a que morava no teu apê antes de você. Casada, essa é Agnes, a minha namorada.” apresentou-as.
A loira ficou surpresa em finalmente conhecer Magali.
“É um prazer finalmente te conhecer, Agnes!” a outra exclamou estendendo a mão, sabia que ela não gostava de abraços.
A loira apertou.
“O prazer e é meu! Por que ele te chama de casada?” perguntou algo que sempre quis saber.
“Ah, é daquele meme oi, casada. Teu namorado é bobo, então eu ter casado com minha alma gêmea foi um prato cheio.” explicou.
“Ela foi pra gringa de lua de mel e ficou dois anos sem aparecer aqui. É claro que eu ia continuar zoando.” o rapaz disse.
“Mas sempre estive presente! Tenho que ir agora, hoje sou acompanhante. Foi um prazer, Agnes! E cuida desse avoado!” falou risonha antes de sair.
Cascão ria sozinho.
“E aí? Já com saudades da GGeek?” ele perguntou.
“Foi estranho encerrar esse ciclo, mas foi pela microbiologia. Soube que teve olheiro no último jogo dos meninos.” comentou.
Cascão havia alcançado seu sonho de se tornar jogador há pouco tempo, mas também havia levado adiante seu projeto com as crianças que viviam perto da rampa, tanto que já tinha até alguns mais velhos que haviam conseguido evoluir mais.
“Sim! Fiquei feliz. Eu achava que só virar jogador que me deixaria realizado, mas dar essa chance pra molecada mudou as coisas. Devo ser um maluco.” Falou.
“Bom… você namora há dois anos com uma hipocondríaca que te contratou pra ser o namorado falso no Tinder. Talvez seja mesmo.” brincou, fazendo-o rir.
“Tendências. É diferente!” disse antes de beijá-la.
*
Mais tarde, Cebola fazia o nó em sua gravata quando encarou seu próprio reflexo. Sua vida havia dado um nó perfeito, como o que jamais conseguiria reproduzir em sua gravata, e não podia se sentir mais feliz.
“Eu estou num bom trampo e vou casar com o amor da minha vida… incrível como já foi o total oposto.” riu.
De repente, viu o rosto de seu pai pelo espelho.
“Imaginei que teria esse problema de novo.” Comentou apontando para a gravata.
“Isso porque sou bom com nós.” comentou.
O pai fez um nó em questão de segundos. Ao fim, tocou no ombro do filho.
“Meu filho… fico feliz que tenha achado seu caminho. Espero que seja muito feliz ao lado da Mônica.” desejou.
“Eu já sou, pai. Obrigado!” recebeu um tapinha e logo ficou sozinho, mas não por muito tempo.
“Já é a segunda vez que vai parar no altar e ainda fica feio de terno? Seu caso não tem salvação mesmo.” Cascão apareceu.
“Se um dia você virar técnico, ternos não poderão ser usados. Não cai bem em você.” rebateu.
“Nervoso?” o outro perguntou.
“Um pouquinho. Viu a Mônica hoje?” perguntou.
“Vi. Até falei pra ela que dava tempo de fugir, mas não quis me ouvir.” zombou.
“Besta!” o noivo riu.
“Como se sente? Há dois anos, ‘tava fazendo uns burrada e agora… tá casando com a wedding planner.” o padrinho comparou.
Cebola sorriu emocionado.
“Realizado. Nunca achei que me sentiria assim com algo que não fosse material.” respondeu sincero.
“Você seria um cara muito triste se fosse feliz só com isso.” o outro comentou.
Cebola olhou para o amigo por alguns segundos. Cascão sempre esteve ao seu lado, independentemente de suas escolhas, sempre o aconselhando sem medo de ser sincero.
“Tá me olhando por quê? Estranho!” Falou.
“Valeu por ser meu amigo e padrinho, Cascão. Tanto agora como daquela vez, que sempre esteve me falando o necessário.” agradeceu.
Cascão riu.
“Chora não, vai borrar a tua maquiagem.” zombou.
“Vai se ferrar!” Cebola mostrou o dedo médio.
O amigo negou com a cabeça enquanto sorria.
“De nada, Careca. Vai lá fazer aquela mulher ser ainda mais feliz. Se fizer merda, vou ser o primeiro a te dar um murro.” deu um saquinho no ombro do amigo e saiu.
Cebola sorriu consigo mesmo, estava rodeado de boas pessoas.
*
O céu estrelado tinha algumas partes azuladas quando Mônica, em seu apartamento, encarou os vários prédios com luzes ligadas, típicos de uma grande cidade.
Desde o sim, havia planejado cada detalhe daquele dia maravilhoso. Porém, ainda parecia irreal que estava a um passo de se casar.
Olhou ao redor e quis chorar, eram seus últimos momentos naquele prédio, tanto que suas coisas nem mesmo estavam lá.
“Tá pronta, miga?” a voz de Magali soou.
Mônica a encarou emocionada. Agnes e Milena também estavam presentes, muito bem arrumadas e assistindo a um filme de comédia romântica enquanto aguardavam a hora de ir.
“Pra casar, pra deixar o apê ou pra uma nova vida?” perguntou.
“Pra tudo.” Milena comentou.
“Não sei. Ficamos um ano planejando e ainda parece pouco. Como foi que consegui planejar aquele da Carmem em um mês?” Perguntou.
“Situações infinitamente diferentes.” Agnes comentou.
Mônica usava um longo vestido branco com detalhes de flores em algumas partes. Ao seu lado, um buquê de tulipas vermelhas e seu véu e grinalda, tudo minuciosamente pensado por ela.
“Você alcançou tudo que queria, Mô. É uma advogada, uma das melhores wedding planners que pode escolher os casamentos, trocou de carro e vai morar longe daquela faculdade que dá gatilhos com o amor da sua vida, que daqui alguns minutos vai ser seu marido.” Magali disse com sua voz doce.
Mônica acabou rindo.
“Muita coisa aconteceu, né?” falou.
“E muitas novas vão acontecer. Se teve uma coisa que aprendi com fechamentos de ciclos é que um novo se inicia.” Milena disse.
“Concordo.” Agnes falou.
Mônica olhou para cada uma delas. A vida também havia dado um giro para elas, e não podia estar mais feliz.
“Vamos, madrinhas. Hora de me casarem.” Falou e elas riram.
*
A igreja estava enfeitada com um tapete vermelho, vasos de lírios brancos e um tapete espelhado. No altar, um nervoso Cebola olhava para a porta de madeira ainda fechada.
Diferente da outra vez, que seu olhar caía nas janelas, agora estava fixo na porta, esperando sua noiva.
Quando iniciou o som da marcha, achou que seu coração sairia pela boca. Todavia, quando a porta revelou Mônica de braço dado ao pai, sentiu que o órgão havia derretido e escorria por seus olhos.
Cascão o cutucou, entregando um lenço, que foi usado para secar as lágrimas.
“É a coisa mais linda que já vi.” balbuciou.
Quando Souza a entregou, dando um soquinho em seu ombro e sussurrando um “cuide bem dela”, beijou a testa de sua noiva e se encaminharam para o altar.
O rito passou arrastado até chegar o momento dos votos, que desta vez não foram tão difíceis de escrever.
“Mônica, com você, a minha vida ganhou um novo sentido. Você me ensinou a enxergar a vida de outro jeito, a amar de verdade e a esperar pelo momento certo das coisas. Com você, sinto que a felicidade cresce a cada dia, e espero poder te fazer feliz dia após dia. Eu te amo.” leu.
“Cebolácio, você entrou na minha vida de um jeito que nunca achei que entraria. Você me ajudou a ver que a felicidade também está nas pequenas coisas e que sempre estamos em constante mudança. Com você, sinto que a felicidade é possível e que quero compartilhá-la com você. Eu te amo.” leu.
Após a troca de alianças, enfim foi dita a grande frase.
“Eu vos declaro marido e mulher. Podem se beijar.” autorizou.
Cebola não hesitou em beijar apaixonadamente sua esposa, que sorria em meio ao ósculo enquanto os convidados aplaudiam.
Na festa, após muitas fotos, comilança e bebedeiras, chegou o momento de jogar o buquê.
“É agora, mulherada! 1…2…3!” Mônica riu de costas para elas antes de arremessar.
O buquê voou e, em meio a muitas mãos, pousou naquelas cujas unhas estavam muito bem pintadas de rosa.
“Peguei!” havia sido ninguém menos que Carmem Frufru.
Mônica e Cebola riram da sorte.
“Como o destino é sacana…” Cebola comentou.
Mônica fez questão de abraçá-la.
“Espero que a fada casamenteira te presenteie com um noivo maravilhoso.” desejou.
“Ah, ela já presenteou.” disse ao se virar para o namorado e piscar um olho, sendo retribuía por ele.
“Só espero que não noive em um mês, Carmem.” a morena falou e a loira riu.
“Não, minha wedding planner iria me degolar. Parabéns pelo casamento, Mônica. Espero de verdade que sejam felizes para sempre.” desejou sincera e Mônica voltou aos braços do marido.
Cada um ali presente curtia a festa à sua maneira. Podia ser difícil continuar almejando algo quando a inconstância da vida não deixa claro onde, quando e como os objetivos serão alcançados, mas cada um daqueles jovens tinha uma nova certeza: em algum momento, em meio a muitos inesperados do percurso, alcançariam aquilo que almejavam. E não podiam estar mais felizes por isso.
Fale com o autor