Almejar

7 Capítulo VII - Mentiras


Notas iniciais
Boa leitura!

A segunda-feira havia amanhecido chuvosa. Após uma péssima noite de sono, Mônica decidiu sair mais cedo de casa e tomar café da manhã na padaria.

Sentada em uma mesa, sentia o aroma do café forte e observava as gotas de água deslizando pelo vidro enquanto revivia a discussão com Magali, a mesma que havia a impedido de dormir direito.

“Você é uma excelente wedding planner, não precisa abdicar da sua vida pessoal pra continuar fazendo o excelente trabalho que faz! Faça só o que está ao seu alcance, não tem como mudar a cabeça dura de dois interesseiros!” martelou.

Com um suspiro, deu um gole em seu café e se lembrou de Nikolas e do péssimo encontro.

“Realmente vacilei com ele…” balbuciou enquanto outra lembrança surgia.

“Apenas aceite que nem todo casamento tem sentimentos!” lembrou.

“Magali tem razão! Já fiz tudo que pude pelo casal, agora só resta fazer o possível para que o evento casamento saia perfeito!” exclamou bebendo o café de uma vez e indo para a empresa após pagar a conta.

Ao chegar em sua sala, abriu seu e-mail a fim de abrir o arquivo com a lista de convidados, porém, antes, viu o e-mail de Cebola.

“Ah, o acordo.” lembrou-se e decidiu abri-lo primeiro.

Conforme ia lendo, seus olhos cresciam.

“Eu tenho que falar com o Cebola! Ou será que ele meio que já aceitou tudo quando entrou nesse relacionamento? Argh! Pensa, Mônica, pensa!” exclamou.

Colocou os cabelos para trás sem saber o que fazer, uma vez que era algo que poderia impactar na continuação do noivado.

“Foda-se! Ele precisa saber!” exclamou e pegou seu celular.

“Bom dia, Cebola! Eu li seu acordo pré-nupcial e precisava muito falar com você. Estou muito atarefada a manhã inteira, você teria algum horário livre durante o almoço?” mandou um áudio.

Seu celular vibrou segundos depois.

“Oi, Mônica! Bom dia! Hoje eu tinha ficado de ir ver os apartamentos com a Carmem, mas consigo dar uma escapada rapidinho.” ele respondeu com outro áudio.

“Beleza, não vou tomar muito do seu tempo.” enviou e respirou fundo ao fim.

“Magali, é a última vez que me meto nas escolhas do cliente!” exclamou.

*

Agnes não gostava muito de dias chuvosos, considerava-os facilitadores de doenças. Porém, o domingo havia sido tão bom que estava sorridente, até assobiando uma música.

“Parece animada hoje, Agnes.” Nik observou enquanto embrulhava uma coleção de mangás.

A loira sorriu.

“Tive uma boa noite de sono. Pedido da loja online?” apontou para o que ele embrulhava.

“Sim! A maioria das vendas vem de lá. Me pergunto como atrair mais gente pra física.” respondeu.

“Faz uma sessão de autógrafos seus, talvez funcione.” sugeriu e ele riu.

“Acho que nunca dei um autógrafo. Geralmente, me pedem foto. Enfim… espero que a chuva não afaste todos os clientes hoje.” desejou.

“Eu, particularmente, preferiria ficar deitada na minha cama. A pessoa que comprou os mangás deve ter pensado a mesma coisa.” a moça comentou e ele riu.

“Pelo conteúdo desses mangás… não sei se quero pensar o que vão ficar fazendo. Sabe se ainda tem marcadores de página lá embaixo?” perguntou.

“Acho que tem… mexi numa caixa deles esses dias.” respondeu e ele foi buscar.

Assim que o rapaz saiu, uma moça ruiva entrou, fazendo Agnes deixar o que fazia para ir até o balcão. Nik preferia deixar os clientes observarem à vontade, então era o cliente que costumava buscar conversa, o que foi o caso.

“Oi, Agnes!” a pessoa cumprimentou e só então a loira a reconheceu.

“Denise… Procurando algum artigo geek hoje?” falou entediada e a ruiva riu.

“Estou procurando o geek! Cadê o Nik?” perguntou.

“Foi no depósito, logo aparece aqui. Aproveita a espera e dá uma olhada no que temos, tem novidades por aí.” falou organizando qualquer coisa que ficava no balcão para evitar uma conversa.

“Sim… eu também tenho novidades. Minha viagem com a Sofia foi incrível! Vários lugares divertidos. Todos amigos deviam ter a chance de viajar juntos às vezes, não acha?” provocou.

Sofia era uma das poucas amigas de Agnes, e melhor amiga de Denise. A loira não gostava muito da ruiva, mais ainda por sempre ser provocada quando se viam.

“Que bom pra vocês, Denise. E como anda a Sofia?” perguntou vendo entrar um cliente na loja, mas não viu quem era.

“Como estaria mal tendo uma amiga tão atenciosa por perto? Sofia gosta de sair e se divertir, Agnes, coisa que você não gosta e Penha ‘tá longe demais pra fazer.” disse e a loira revirou os olhos.

Para a sua salvação, Nikolas apareceu com uma caixinha em mãos.

“Oi, Denise. Pensei que ainda estivesse viajando.” ele comentou.

“Cheguei ontem à noite. Mas precisava vir te dar um puxão de orelha antes de fazer isso na Carmem. Porra, Nikolas! Deixei você cuidando dela e você deixou ela noivar?!” repreendeu.

“Até onde eu sei, não tenho filhos, ainda mais da idade da Carmem.” defendeu-se e ela riu.

“Você me entendeu.” falou.

“Queria que eu fizesse o quê? Sabe como é praticamente impossível mudar a cabeça dela quando ela se decide.” respondeu colocando três marcadores de páginas no embrulho.

“É só falar com mais convicção. Esse casamento já nasceu fracassado, querido.” a ruiva disse e ele suspirou.

“Eu tentei! O que me restou foi aceitar o fato. Boa sorte em tentar fazer ela mudar de ideia.” falou.

Denise cruzou os braços.

“Você desiste nos seus jogos?” perguntou.

“Nos meus jogos, não tem uma mulher teimosa, competitiva e pouco sentimental que não te escuta quando o assunto é casamento.” rebateu.

“Eu vou falar com ela hoje e tentar fazer ela desistir dessa loucura. Te mantenho informado. Tchau, Nik. E tchau, Agnes! Digo pra Sofia que você mandou lembranças.” riu ao fim antes de sair.

A loira bufou.

“Não gosta da Denise?” Nik observou terminando seu embrulho.

“Não muito. Temos uma amiga em comum, só que sabe quando um amigo acha outro amigo e fica mais próximo desse amigo?” respondeu e ele riu.

“Meio confuso, mas acho que sim.” disse.

“Foi isso que aconteceu. Sofia é uma amiga que se aproximou mais da Denise, a ponto de serem tipo melhores amigas. Aí sempre que a Denise aparece, fica me enchendo.” a moça explicou.

“Situação chata essa. Denise sabe ser irritante às vezes. Tenho que ir entregar esse pedido no correio, talvez de lá eu vá pra um lugar, mas é coisa rápida. Qualquer coisa, me manda mensagem.” falou e ela assentiu antes de ele sair.

Agnes começou a passar um paninho no balcão quando o outro cliente se aproximou. Neste momento, ela sorriu.

“Cascão! Nem vi que era você!” reconheceu e ele sorriu.

“E ai, Agnes! A chuva engrossou comigo na rua e decidi pegar um abrigo aqui e aproveitar pra conhecer a GGeek física. É mais foda do que pensei!” exclamou olhando ao redor.

“É… gosto da organização, até porque sou eu que organizo.” ela falou.

O rapaz escorou no balcão.

“A mina que ‘tava aqui ferrou com amizade tua?” perguntou e ela riu.

“Tava ouvindo minha conversa?” perguntou.

“Ah… acabou chamando minha atenção.” disse e a moça deu de ombros.

“Ela não ferrou. A Sofia é minha amiga há anos, mas, com o tempo, ela foi conhecendo outras pessoas e começou a gostar de sair. Igual você, só que bem menos apocalíptica.” revelou e ele riu.

“Acabamos nos afastando um pouco, já que eu nunca queria ir aonde ela queria. Não acho ruim ela ter feito novos amigos, mas essa Denise é chata! Ela sempre fica me zoando.” explicou.

“Você chegou a ir num desses rolês?” ele perguntou.

“Não, sempre neguei todos e até falava que ela perdia tempo me chamando.” Agnes respondeu.

“E ai?” ele a incentivou e ela deu um riso, que não durou muito.

“Aí que ela parou de me chamar.” respondeu.

“Isso parece te deixar mal.” o rapaz observou e a loira deu de ombros, voltando a limpar o balcão.

“Ainda somos amigas e nos falamos, mas… se reduz muito a isso, falar. Ela não aparece lá em casa, por exemplo.” falou.

“Acha que a Denise foi um motivo pra ela se afastar?” ele perguntou e a outra negou.

“Por mais que eu não goste da Denise, não posso culpá-la. Também não culpo a Sofia. Querer fazer as coisas e a outra pessoa nunca querer desgasta as coisas.” respondeu.

“Mas você sairia com ela num lugar menos apocalíptico? Você saiu ontem e foi legal.” Cascão perguntou.

“Não sei. Se ela tiver voltado junto com a Denise, prefiro esperar um tempo.” respondeu.

“Por quê?” o rapaz perguntou de cenho franzido.

“Vai saber o tanto de doença que ela pode ter trazido de onde ela ‘tava!” disse e ele compreendeu.

“É… tem isso. Mudando completamente de assunto, e seus pais?” falou.

“Minha mãe mandou mensagem confirmando o almoço. Pensei seriamente em sugerir que seja lá em casa, mas acho que as meninas vão estar lá e merecem almoçar em paz.” ela respondeu.

“Desistiu de não ter que cozinhar?” ele perguntou com um riso.

“A questão nem é essa, é que junta duas coisas que não gosto: shopping em horário de pico e chuva.” a moça revelou.

“Finalmente temos algo em comum! Também não gosto de chuva! Mas relaxa, se precisar, é só fingir que algum restaurante perto é melhor. Vou aproveitar que a chuva parou e ir nessa. Até depois, Agnes!” Cascão se despediu saindo em seguida.

Agnes suspirou ao imaginar o que lhe aguardava.

*

Um pouco mais tarde, Nikolas retornou do correio e deu de cara com Carmem, que o esperava para irem à floricultura, que ficava no fim da rua. A fachada do local possuía um muro inglês cheio de flores; dentro, era bastante iluminado e cheio de variadas plantas, flores e artigos de jardinagem.

O rapaz nunca havia ido lá e a moça sequer havia visto aquela floricultura, que parecia ter saído de um filme de comédia romântica de tão fofa que era.

“Vou tirar uma foto aqui. É aesthetic!” a loira disse pegando seu celular.

“Foco, Carmem. Temos que descobrir uma planta boa o suficiente para ser uma lembrança. Será que planta realmente é um presente bom?” comentou olhando em volta, também era um lugar novo para si.

“Teus pais gostam de plantas, o presente precisa ter alguma relação com eles.” falou pegando uma flor branca caída no chão de madeira.

“É, mas qual?” perguntou e ela ficou de frente para ele.

“Olha que bonitinha!” mostrou a flor.

“Que flor que é, Especialista em plantas?” zombou e ela riu, colocando a flor na orelha do rapaz.

“Engraçadinho… essa eu sei. É jasmim. Um monte de noiva escolhe ela, só não sei o motivo. Vou tirar uma foto sua!” falou sorrindo e apontando o celular para ele.

“Vejo que o amor persegue o casal, essa flor caiu de uma decoração de casamento que saiu agorinha. Diria que é bom presságio.” uma senhora comentou enquanto esguichava água em uma planta.

Os dois deram um riso sem graça ao ouvirem a palavra casal.

“Bom dia! Precisamos de ajuda.” Nik falou.

A senhora gordinha de cabelos loiros e óculos de grau foi até eles e estendeu a mão.

“Será um prazer. Sou Nena.” apresentou-se.

“Sou Carmem e ele é Nikolas.” cumprimentaram-na com um aperto de mão.

Nena reparou no anel de Carmem.

“Uma noiva! Precisam de ajuda com o quê? Decoração de casamento? O buquê? A flor que vocês acharam combina com decoração, mas pra buquê… recomendaria tulipas vermelhas! Chegaram hoje!” falou.

“O que tem de tão especial na tulipa vermelha?” a moça perguntou curiosa.

“Simboliza amor verdadeiro e eterno! Sempre recomendo.” Nena explicou e eles riram.

“Já sei o que você não pode usar no seu buquê. Na verdade, estamos organizando as bodas dos meus pais e pensamos em dar alguma planta de lembrança pros convidados, mas não faço ideia de qual escolher.” Nik sussurrou o começo e depois se dirigiu à senhora.

“Planta de lembrança?” a mais velha repetiu.

“Ideia minha! É que os pais dele gostam tanto de plantas que eu digo que elas são as filhas favoritas. Aí ele fica com ciúmes.” Carmem revelou.

“Não é ciúme. Eu só sei que isso não é verdade.” ele falou e a amiga gargalhou.

“Mas as plantas têm algum significado na união dos seus pais?” Nena perguntou.

“Sim. Eles até têm uma árvore que foi plantada assim que se casaram.” respondeu.

“Vou ser sincera, não gosto muito de como algumas equipes lidam com plantas em eventos. Sei que bodas é um evento mais curto, mas ainda sim pode ter negligência, e eu odiaria que uma planta daqui tivesse esse fim.” ela disse.

“Agora que a senhora disse, realmente pode acontecer de as plantas não serem bem cuidadas pela correria. Agora fiquei sem ideias!” o rapaz suspirou ao dizer.

“Você acabou de me dar outra ideia com essa coisa da árvore. E se em vez de uma planta já nascida, fosse uma semente? Assim o convidado pode plantar e… sei lá, tentar repetir o que seus pais fizeram.” Carmem sugeriu.

Nik sorriu abertamente.

“Acho uma ótima ideia! ‘Tá inspirada hoje! Gostei de ver.” falou e ela riu orgulhosa.

“Também acho mais simbólico. Vocês podem até colocar alguma frase que tenha relação com essa simbologia.” Nena opinou.

“O que a senhora sugere? Não sou o cara mais amoroso do mundo.” falou e Carmem riu.

“Ah, para! Você é todo romântico!” ela exclamou.

“Ah, nem sou!” ele disse.

“Não é hora de vergonha! Pense nessa relação dos seus pais e vire aqui pra sua noiva! Pode te ajudar a pensar melhor.” Nena o fez se virar e dar as mãos para Carmem.

“Ela não…” falava até ser interrompido.

“Foco!” a mais velha exclamou e ele olhou para a amiga, que sorria divertida.

Carmem se divertia com a situação e não sentia vergonha alguma, tanto que tinha os olhos fixos nos dele. Nik, por sua vez, sentiu a testa suar e quase desviou o olhar, mas respirou fundo e seguiu o conselho de Nena.

“Essa semente simboliza o início. Então… plante com um propósito e cuide dela com amor, assim as raízes serão firmes e terá uma bela história.” falou pausadamente, como se lembrasse ou pensasse aos poucos, enquanto mexia os dedos nas mãos da moça.

Carmem, que começou risonha, tinha agora o olhar levemente abobado e a boca entreaberta, surpresa com o impacto que sentiu em cada palavra dita. Não por acaso, sentiu vontade de beijá-lo e viver aquela história, mas se limitou a apenas olhá-lo.

“Ele é romântico mesmo…” a senhora comentou com uma outra funcionária, que apareceu de repente.

“Nikolas, isso foi… lindo!” Carmem falou sem conseguir desviar seus olhos dos dele.

“Ah… meus pais são o casal mais romântico que conheço, são cúmplices e apaixonados desde que me entendo por gente, então… sei lá, eu só consegui pensar nisso. Mas pelo visto essa vai ser a frase das sementes, agora pra lembrar...” revelou.

“Que sementes?” ela perguntou ainda hipnotizada.

“Das lembrancinhas das bodas, Carmem. Esqueceu?” lembrou e ela piscou um olho de cada vez, saindo do transe.

“Ah! As bodas! Ér… e qual semente vai ser?” perguntou passando as mãos nos cabelos.

Nena sorria para eles de braços cruzados.

“Acho que um mix pode ser uma boa, assim a pessoa terá uma surpresa. A vida pode ser bem surpreendente, principalmente quando o assunto é sentimento, não acham?” perguntou sorridente.

Os dois se entreolharam.

“Ér… talvez. Bom… tenho que voltar pra loja e Carmem tem… tem os compromissos dela. Vamos ver isso.” Nik falou.

“Vamos lá no caixa.” Nena falou e ele a acompanhou.

“Vou ficar olhando aqui.” Carmem disse enquanto passeava pela floricultura.

Durante seu passeio, parou nas tulipas vermelhas.

“Usei uma dessas no meu casamento. Na verdade, usei uma paleta bem vermelha. Levei o simbolismo do vermelho a sério.” uma funcionária comentou e ela a olhou.

“Mesmo? E… funcionou?” perguntou.

“Meu casamento foi um dos dias que mais passei raiva, mas ao mesmo tempo amei. Casar é cansativo, tem muita coisa pra fazer antes, durante e depois. Você é noiva, deve saber do que estou falando. Mas… eu fiquei muito feliz em me casar com a pessoa que eu amo.” a outra falou.

“E pelo que vi do seu noivo e dos olhares de vocês, acho que seu casamento também vai ser um dia especial.” finalizou dando a ela uma das flores.

Carmem não disse nada, mas seu olhar se voltou para a tulipa e depois para Nikolas, que finalizava a compra, e acabou sorrindo fraco.

“Meu casamento…” balbuciou um tanto melancólica.

De repente, o rapaz retornou com um saquinho de sementes e uma rosa vermelha em mãos.

“Ela me deu essas para fazer um teste e pensar em embalagem e essas coisas.” balançou o saquinho de estopa.

“E essa rosa?” perguntou e ele estendeu a ela.

“Pra você! Não queria uma foto aesthetic? Um acessório a mais.” falou.

Carmem sorriu aproximando a flor do nariz, era cheirosa.

“Vamos indo nessa, até mais!” despediram-se.

Nena os observou de sobrancelha erguida.

“Casal fofo, né?” a funcionária comentou e ela suspirou.

“Eles não são um casal. Percebeu que só ela está de aliança?” comentou.

“Ai que mico! Mas eles pareciam tanto!” a outra lamentou.

“Essa garota não quer se casar. Uma noiva sempre fala do noivado quando tem a chance, coisa que ela não fez. Algo me diz que eles sabem que, no fim das contas, não é com o noivo que ela vai criar as raízes firmes.” falou e a funcionária riu.

“Nena… ‘tá assistindo comédia romântica demais!” comentou.

X

A loja era bem perto da de Nik, tanto que os dois caminhavam a pé até lá.

“Achei bonito o que você disse dos seus pais. Agora ficou óbvio porque você acredita no amor.” comentou girando as flores em suas mão e ele sorriu envergonhado.

“Nem eu sei por que eu disse aquilo, acho que foi pressão da dona Nena. Tinha a ver com eles, mas… também tinha um pouco a ver com a gente.” falou sincero e ela o encarou.

“A gente?” repetiu.

“Cumplicidade. Acho que somos cúmplices.” disse e ela riu.

“Eu também acho. Eu vou plantar essas sementes aí, acha que germinam até as bodas?” perguntou.

“As bodas ‘tão perto demais, acho meio difícil. Mas ela me disse que tem umas aí que germinam rápido.” falou.

“Então é isso. Me fala uma coisa… ter trocado a lembrancinha aumentou o orçamento, né?” ela perguntou e ele riu.

“Digamos que ele anda meio extrapolado. Eu ‘tô dando as bodas de presente, mas eles deixaram claro que queriam uma coisa simples e um orçamento baixo. Mas certas ultrapassagens não precisam ser ditas.” piscou um olho e ela riu.

“Isso é legal. Eu duvido que meus pais fariam bodas simples! Ou até mesmo bodas. Enfim... Não ‘tô nada animada pra ver apartamentos hoje.” mudou o foco.

“O amor da sua vida vai estar lá com você.” falou e ela riu.

“Cala a boca! E a Mônica? Vai sair com ela de novo depois daquele fiasco?” perguntou e ele deu de ombros.

“Ah… não sei. Acho que se a pessoa que ‘tá saindo com você se diverte mais com outro e a coisa ainda vira um encontro de amigos, ela não ‘tá tão a fim.” falou parando de andar, haviam chegado na GGeek.

“É… foi uma situação estranha. Até mais, amigo. Me deseje sorte!” falou entrando em seu carro e ele em sua loja.

*

A chuva havia voltado a molhar a cidade. Aproveitando o som da água em contato com o ferro da janela, Do Contra dormia confortavelmente embaixo de seu edredom até este ser puxado de si após o quarto ser iluminado.

“Você tem visita!” a voz do irmão soou.

O mais novo, sem abrir os olhos, bufou.

“Fala que eu saí. Estou cansado.” respondeu com a voz sonolenta.

“Esse teu apartamento nunca viu uma vassoura, Maurício?” uma voz feminina soou e ele abriu os olhos e encarou a mulher de cabelos negros e feições asiáticas.

“Mãe?” perguntou surpreso e ela cruzou os braços.

“Nunca dá um sinal de vida, tinha que ver como estava. Levanta daí! Já está tarde e hoje vamos almoçar juntos. Seu pai foi ao mercado, essa tua geladeira chega a me dar pena.” respondeu abrindo a janela e ele apertou os olhos.

“Eu ‘tava dormindo!” reclamou.

“Maurício, já é quase meio dia! Já dormiu o suficiente!” exclamou deixando o local.

O rapaz se sentou e coçou os olhos.

“Podia ter me avisado que o batalhão estaria aqui hoje! Eu teria dado um perdido.” reclamou com o irmão.

“Se olhasse seu celular, veria as várias mensagens que mandei.” Nimbus disse saindo em seguida.

DC bocejou e olhou as horas. Dez e dois.

“Quase meio dia…” reclamou enquanto se levantava.

Ao deixar o quarto, constatou que a mãe estava em seu apartamento há um tempo, ao julgar pelas cadeiras em cima da mesa, o chão úmido e a desconhecida que passava pano no vidro de sua sacada.

“Oi. Sou Maurício, o morador desavisado daqui.” cumprimentou-a.

“Oi! Sou Márcia, a diarista da sua mãe. Bonito seu apartamento!” cumprimentou com um sorriso.

“Obrigado.” agradeceu.

“Bonito e sujo, Márcia! Devia ter vergonha, garoto! Pode limpar o quarto dele agora. Pelo pouco que vi, está um chiqueiro.” a mãe comentou ao fundo.

“Não está tão sujo assim, só não segue os padrões de limpeza de Dona Keiko. Preocupa não, Márcia.” falou e ela saiu rindo com o que usaria em mãos.

Keiko se aproximou do filho e o olhou antes de abraçá-lo.

“Como está?” perguntou e ele a abraçou de volta, fazia um tempo que não se viam.

“Bem.” respondeu.

“Por que anda tão sumido?” perguntou e ele a soltou.

“Muita coisa aconteceu nesse meio tempo, mãe. Precisava de um tempo para mim.” falou indo pegar algo para seu desjejum.

De repente, seu pai entrou com sacolas em mãos.

“A bela adormecida decidiu levantar?” comentou dando um tapinha nas costas do filho.

“Infelizmente.” respondeu.

“Para de ser negativo, Do Contra! Vai me dizer que não gosta de receber uma visita que não seja eu, sua banda ou sua fotógrafa!” Nimbus reclamou deitado no sofá.

“Você eu só aturo. E eu gosto de ser avisado que vai rolar uma faxina aqui em casa e uma visita.” o outro disse.

A sala ficou apenas com o som da chuva até o pai limpar a garganta.

“Fiquei sabendo do seu documentário. É uma boa ideia.” comentou.

“Quem será que disse, hein?” olhou para o irmão, que deu de ombros.

“Não sabia que era segredo de estado.” respondeu e o outro suspirou.

“Sim, estou fazendo um mini documentário. Tem sido bom.” confirmou.

“Por que não nos disse? Teríamos conseguido uma ótima equipe.” o mais velho perguntou.

“Acho que acabou sendo bom pra ele. Além de ser muito mais em conta, ele gostou da fotógrafa. E sabemos como é difícil o DC gostar de alguém.” Nimbus comentou.

“Fotógrafa?” a mãe perguntou.

“Pacote mais barato tem uma equipe menor, neste caso só uma pessoa.” Nimbus explicou.

“Vai ficar amador.” o pai previu.

“Ela tem feito um ótimo trabalho.” DC respondeu.

“E quando vamos participar desse minidocumentário?” a mãe perguntou.

DC franziu o cenho.

“Por que vocês querem participar?” perguntou.

“Por que não iríamos querer? A família sempre aparece.” ela disse.

“Não sei se é uma boa ideia…” ele disse.

“Eu já acho o contrário. A família aparece em documentários. Tenho certeza que Milena vai concordar com a gente.” Nimbus falou e o irmão bufou.

“Posso falar com ela, mas os horários dela não são os mesmos que os de vocês.” respondeu.

“Dá pra dar um jeito.” a mãe falou e o filho respirou fundo.

*

Um pouco mais tarde, Mônica se encontrou com Cebola em sua sala.

“E ai, Mônica! Se incomoda se eu comer? Estou faminto.” perguntou tirando um salgado de um saco de papel.

“Não, pode comer. Bom… eu li o acordo pré-nupcial e vou ser direta. Tem coisas lá que podem te preocupar.” ela disse.

“Que coisas?” o rapaz perguntou.

“Você já ouviu falar em separação total de bens?” Mônica respondeu com uma pergunta.

“Já, mas não sei como funciona.” o outro respondeu.

“Em caso de divórcio, tudo que você comprou antes ou durante o matrimônio, será seu; e tudo que a Carmem comprou antes ou durante o casamento, será dela. Ou seja, considerando que praticamente ela que compra tudo, se vocês se separarem, você não leva nada.” começou.

Cebola deu de ombros.

“Isso não é bem um problema pra mim.” respondeu.

“Ah, não? Achei que aquela questão do estilo de vida tivesse a ver com isso também.” falou.

“Até tem, mas as portas que essa relação vai abrir, vai me permitir comprar coisas também, que ficariam comigo.” respondeu e ela sentiu um estranho alívio, afinal, Cebola não era inteiramente interesseiro.

“Ah… que bom que pensa assim. Eu acho. Bom, outra coisa que chamou minha atenção é a divisão de contas. Pelo visto, a única coisa que te isentaram foi o pagamento do aluguel e IPTU, de resto… você é o provedor.” falou e ele arregalou os olhos.

“O quê?!” enfim se preocupou.

“Aqui diz que você vai arcar com despesas como condomínio, luz, internet, água, gás, algum eventual serviço de streaming ou assinatura de revistas, jornais e afins. Somente a alimentação será dividida entre você e Carmem.” resumiu.

Cebola encarou boquiaberto.

“Mas… mas como? Como os pais dela esperam que eu pague tudo isso sem nem ter formado ainda? Sem ter um emprego?!” questionou.

“Algumas coisas podem ser mudadas se as duas partes concordarem. Então recomendo que converse com a Carmem ou com os pais dela. Agora se eles se negarem… talvez as coisas fiquem mais sérias.” recomendou.

Cebola engoliu em seco.

“Eu vou… eu vou...” não completou.

“Você ‘tá bem? 'Tá ficando pálido… vem aqui perto da janela.” falou e ele respirou fundo.

“Eu não tenho como pagar tudo isso, Mônica! Ainda mais onde a Carmem for escolher morar!” exclamou.

“Eu… lamento.” falou.

Cebola respirou fundo, perdendo completamente a fome.

“Você se importa de ir comigo falar com o pai dela? Eu sei onde ele costuma estar a essas horas.” falou.

Mônica arregalou os olhos.

“Eu? Isso não deveria ser uma coisa de família? E não vai dar problema pra mim, Cebola?” perguntou.

“Prometo que não! É que eu não queria ir sozinho. Eu aposto que eles vão preferir que ela nem sonhe com isso.” falou.

“Você tem certeza que quer fazer isso pelas costas da sua noiva?” perguntou.

“Você já sabe toda a situação, Mônica. Lembre-se que ela também tem os interesses dela, que eu duvido que tenha dito aos pais quais são. Nem pra mim ela disse! Assim como eu não disse os meus a ela.” respondeu.

Mônica mordeu a bochecha para não contar o que sabia.

“Eu…” hesitou.

Novamente, a morena se viu em um impasse. Acompanhar Cebola podia ser arriscado, mas não acompanhá-lo poderia ser ainda pior para ele. Naquele momento, seu lado quase advogada falou mais alto.

“Tá. Eu tenho que ir atrás de alguns fornecedores, mas dá tempo. Não acho uma boa eu estar junto com você quando for falar com o Frufru, ele é meu chefe e prefiro não ter problemas.” cedeu e Cebola sorriu.

“Eu jamais iria te prejudicar, Mônica. Não se preocupe, eu só vou avisar a Carmem que não vou conseguir ir com ela ver apartamento, mas ela deve se virar bem.” falou.

Mônica respirou fundo, Magali iria querer matá-la se soubesse o que estava fazendo.

“Onde acha que ele está?” perguntou.

“Ele gosta de almoçar num restaurante caro perto de um campo de golfe. Aposto que está lá.” falou.

“É muito longe?” perguntou.

“Não.” respondeu.

“Então vamos!” ela disse.

*

Carmem estava furiosa com Cebola. Enquanto o aguardava em frente ao apartamento que olharia, junto do impaciente corretor, recebeu uma mensagem alertando que não iria por conta de um imprevisto e ficou offline.

“Aguenta só um pouco, vou ir buscar meu noivo agora!” ela exclamou entrando no carro.

O corretor disfarçou um bufo, perder uma venda para um Frufru em um local caro seria enterrar sua carreira.

“À vontade, senhorita Frufru.” falou entredentes.

Cebola estava incomunicável e Carmem sabia que ele não estava na faculdade, então dirigiu o mais rápido que pôde até um restaurante, rezando para que seu alvo não tivesse decidido comer em outro lugar naquele dia.

Ao chegar, agradeceu aos céus ao vê-lo deixando o lugar.

“Nikolas! Que bom que te achei!” exclamou alto e ele a olhou.

“Aconteceu alguma coisa?” perguntou.

“O porra do Cebola furou comigo e o corretor está esperando. Preciso que você me acompanhe e finja ser meu noivo!” exclamou.

Nik levantou a sobrancelha surpreso.

“Tá… só não podemos demorar. Daqui a pouco tenho que abrir a loja de novo.” falou.

“Prometo que vai ser rápido! Muito obrigada!” falou e ele a acompanhou até o carro.

De volta ao prédio, o corretor fingiu simpatia.

“Voltei! Este é meu noivo! Estamos ansiosos para conhecer nosso possível futuro ninho.” a moça disse abraçando o braço do moreno.

“Desculpe minha demora. Tive um imprevisto em minha empresa. Espero que não tenha atrapalhado seus compromissos.” Nik mentiu cortês.

“Não… meu compromisso é com meus clientes. Vamos lá!” falou.

“Claro! Antes de mais nada, deixa eu te perguntar… como é a vizinhança? Incomodam com barulho? Festas? Eventuais gritos de gente que gosta de jogar…” perguntou.

“Bom… este prédio possui um apartamento por andar. Pelo que eu soube, os vizinhos viajam muito, então talvez não se incomodem.” falou.

O apartamento em questão era grande, monocromático e frio. Após olharem o local junto do falante e mentiroso corretor, Carmem olhou em volta e não sentiu nada de especial.

“Não sei…é bonito, tem tudo que eu gosto, mas não consigo visualizar nada.” falou.

“Tenho certeza que seu designer vai deixar do seu jeitinho.” o corretor argumentou.

“O que acha, querido?” perguntou e ele segurou o riso ao ouvir o “querido”.

“É perto de onde você gosta de ir, tem uma vista pras suas fotos conceituais, tem a piscina pros seus stories e até quadra de tênis pra sua mãe ter o que fazer quando vir te visitar. Acho que é sua cara.” falou.

A moça torceu os lábios.

“Mas morar aqui… não sei se me vejo tendo bons momentos aqui. Não sei se seria um bom ninho pra gente.” comentou.

O corretor olhou um tanto desesperado para Nik, como se implorasse que a convencesse, visto que a comissão seria alta.

“Essas coisas levam um tempo. Mas ouça seu noivo! Acredito que seria um ótimo lugar para vocês criarem suas lembranças.” falou.

“Vem cá.” Nik chamou a amiga, que se aproximou, recebendo um abraço lateral.

“Imagina uma das nossas noites do hambúrguer. A gente ali na cozinha, sofrendo para seguir o tutorial, enquanto rimos do quão péssimos cozinheiros nós somos e que tudo de ruim pode piorar ainda mais.” falou e ela deu um riso.

“Aí, depois de tirarmos no par ou ímpar se vamos continuar cozinhando na força do ódio ou se vamos ser conscientes o suficiente para desistir de tentar ter uma intoxicação alimentar e escolher o bom e velho delivery, vamos jogar vídeo game. Eu, com certeza, vou ganhar de você e vamos acabar bebendo uma taça de vinho pra acalmar os ânimos.” continuou e o sorriso da moça cresceu.

Por mais incrível que parecesse, Carmem conseguiu visualizar cada cena.

“Faltou o brigadeiro que nunca sabemos dar o ponto direito e fica ou muito molenga ou muito duro! Ou trocar o vinho pelo meu icônico Bloody Mary.” acrescentou.

“Vulgo…” ele disse e ela riu.

“Bloody Carmem!” falaram juntos com um sorriso.

Carmem se animou.

“Aquele quarto menor ali serve como uma sala gamer certinho! Uma das suítes pode ser o quarto de hóspedes, pra quem não aguentar o Bloody Mary ou pra quando nossos pais inventarem de ver se estamos bem casados.” completou e ele riu.

“E tem aquele espaço na sacada para suas futuras plantas. A das bodas dos meus pais e as da horta que você vai começar.” ele disse.

“Ah, agora eu vou fazer uma horta? Só se for pra você cuidar!” exclamou risonha.

“Ué, você não era a doutora em botânica? Tem que usar seu conhecimento.” brincou e a moça gargalhou mais.

“Vou acabar fazendo mesmo, só pra esfregar na sua cara que tenho o dedo verde, Bobão!” falou e foi a vez de ele gargalhar.

O corretor os observava com um sorriso.

“Não é por nada não, mas vocês são um dos poucos casais que vejo dar tão certo com um apartamento. Vocês visualizaram! O casamento é quando?” perguntou.

“Em menos de um mês.” Carmem disse.

“Uau! Parabéns! Tenho certeza que vão ser muito felizes aqui.” desejou e os dois se entreolharam um pouco sem graça.

“Ér… querida, gostou deste apartamento? Ou prefere ver outros ao longo da semana?” Nik perguntou.

“Eu… eu gostei. Mas vou ver outros também, pra ter certeza. Mas este tem pontos altos.” falou.

O caminho de volta à loja foi um pouco silencioso e constrangedor, algo que era difícil de acontecer entre eles.

“O apê é bom. Acho que você e Cebola vão gostar dele. Espero que ele te acompanhe nos outros, assim… ele vai dar a opinião dele. Mas tem que ser outro corretor.” falou e ela deu um riso.

“Seria engraçado se fosse o mesmo. Você sairia como corno. Ou posso deixar pra próxima semana, ele já vai ter esquecido.” falou.

“Acho que é melhor já se livrar disso, coisas imobiliárias são uma chatice! Quanto mais cedo vocês escolherem o lugar, mais cedo vão pro ninho do amor.” sugeriu e ela fez uma careta.

“Ninho do amor? Que breguice!” falou.

“Ah, quando eu era o noivo não era brega, né? Suas máscaras estão caindo, Carmem Frufru!” zombou e ela riu estacionando o veículo, havia chegado na loja.

“Obrigada por ter ido comigo! Seria horrível ter ido sozinha.” agradeceu e ele sorriu.

“Depois me fala a escolha, assim já sei onde vão ser minhas futuras festas.” brincou.

“Vai ser uma casa de respeito, rapaz! Tchau, Nik.” falou e ele se despediu.

Nik entrou em sua loja ainda fechada, estava cedo para abri-la. Ficou ali sentado e decidiu ver coisas da loja online, mas não conseguiu focar.

“Seria… seria foda.” pensou ao lembrar do apartamento.

*

Agnes engoliu em seco e sentiu suas mãos tremerem assim que chegou ao shopping com os pais e Cascão, o local estava cheio.

“Tá tudo bem?” Cascão sussurrou.

“Sim… eu só… não imaginei que estivesse tão cheio.” respondeu.

“Pensei que tinha acabado com essas manias, Agnes.” a mãe comentou.

“Eu…” não soube completar.

“Cássio, se soubesse as manias que essa daí tinha, você pulava fora na hora!” o pai comentou.

“Manias?” o mais jovem repetiu.

“Achava que tudo deixava doente, tinha uns TOCs com limpeza… essas coisas esquisitas. Espero que nunca tenha uma recaída, Agnes, senão… pode dizer adeus ao seu namorado.” o pai riu ao dizer.

Agnes baixou o olhar, algo que não passou despercebido por Cascão.

“Se ela tivesse uma recaída por algum motivo, eu entenderia.” falou e a moça o olhou surpresa, assim como os mais velhos.

“Não deve ser fácil viver assim, então… eu não viraria as costas em um momento de dificuldade. Um namorado que faz isso, não pode ser chamado de namorado, não acham?” finalizou firme.

A loira abriu a boca levemente, mal podia acreditar que havia acabado de ser defendida.

“É… faz sentido.” a mãe disse um tanto desconcertada.

O rapaz olhou para a moça e piscou um olho, fazendo-a sorrir. Automaticamente, Agnes entrelaçou seu braço ao dele, que aceitou.

O almoço não fora muito diferente do anterior e nem comprido, uma vez que os dois jovens tinham compromissos, mas serviu para Cascão perceber algo: os pais de Agnes a julgavam com frequência.

“Pessoal, o almoço estava ótimo, mas preciso ir. Tenho aula agora.” falou.

“Também tenho que ir, tenho que voltar para o trabalho. Mas pedi uma folga ao Nik amanhã, assim passamos o último dia da visita juntos.” Agnes revelou.

“Foi bom mesmo. Mais ainda por ver que suas manias realmente se foram. Enfim, à normalidade.” a mãe disse levantando um copo para um brinde, que foi brindado sem muito ânimo por parte dos dois jovens.

Cascão e Agnes deixaram o local juntos, os pais ficariam para fazer compras. A moça estava atenta a qualquer espirro e claramente incomodada com o fluxo de pessoas no fechado ambiente.

“Agnes! Você ‘tá bem mesmo, né? Parece ofegante.” ele comentou.

A moça deu de ombros.

“Relaxa. Obrigada por ter me defendido naquela hora, mas não precisava. Não está no nosso acordo você ter que intermediar conflitos familiares.” falou séria.

“Não te defendi por causa do nosso acordo, foi porque achei certo.” ele esclareceu.

Agnes ficou sem uma resposta imediata, mas sorriu.

“Então te agradeço.” falou e ele sorriu de volta.

“Nos separamos agora. Até mais!” despediu-se e ela seguiu seu caminho até a loja.

Chegando lá, ficou um pouco dispersa fazendo seu trabalho e pensando em muita coisa, inclusive na proximidade do fim de seu acordo com Cascão.

“Será que depois de amanhã tudo isso acaba?” questionou-se.

*

Após um demorado almoço, Cebola enfim conseguiu falar com o sogro quando este estava prestes a deixar o local.

“Cebola! Que surpresa te ver por aqui.” falou.

“Pois é, estava por aqui e decidi dar um oi. Aproveitando que te achei… eu queria falar sobre… ér… o acordo pré-nupcial.” comentou e o outro sorriu de sobrancelha erguida.

“Acompanhe-me até o campo de golfe, rapaz.” disse e o rapaz olhou para trás, mas o seguiu.

Os dois caminhavam pelo local falsamente simples e vazio, a chuva afastava qualquer pessoa dali. O pai de Carmem colocou seus óculos de sol e pôs os braços para trás enquanto observava o campo verde.

“Então você finalmente decidiu ler o documento… pensei que demoraria mais.” começou e o rapaz umedeceu os lábios.

“Senhor, eu… eu ainda nem me formei! Não tenho como bancar tudo aquilo, entende? Eu… eu sei que esses documentos são sérios, mas não teria como alterá-los? Pelo menos até eu me estabilizar.” perguntou e o sogro riu.

“Uma lição importante, Cebola: nunca assine nada sem ler. Eu fiz um teste e você não passou, mas também não reprovou, já que veio até mim.” começou.

“Eu lamento…” o mais novo disse e o mais velho negou.

“Não lamente. Sabe por que eu não vi problemas em sua relação com minha filha? Porque você é um rapaz inteligente, ambicioso e com um futuro promissor se tiver os contatos certos. Tenho planos para você, que vão garantir não só o dinheiro necessário para todos esses gastos como muito mais.” disse.

Os olhos de Cebola brilharam.

“Que planos?” perguntou.

“Estou à procura de pessoas ambiciosas como você para projetos igualmente ambiciosos. Então não se preocupe com dinheiro, rapaz. A partir do momento que você fizer parte do meu ninho, vamos assim dizer, estará em bons trilhos.” garantiu.

Cebola suspirou.

“Obrigado!” agradeceu.

“Eu que agradeço. Sempre quis que Carmem se relacionasse com alguém que a ajudasse a crescer mais. Acho que vejo isso em seu anseio pela grandeza. Confesso que aquele Nikolas que sempre está com ela também chamou minha atenção, o garoto tem muita visibilidade na internet, isso é útil! Mas você também pode me ser útil.” comentou.

O rapaz franziu o cenho.

“Do que está falando, senhor Frufru?” perguntou.

“Oras, Cebola… não achou que eu deixaria minha filha se casar com um rapaz que não iria querer trabalhar para mim, achou?” foi direto.

Cebola negou com a cabeça.

“Não, não. Bom… preciso ir agora, tenho aula em breve. Obrigado pela atenção!” agradeceu e o mais velho assentiu.

“Fique em paz, Cebolácio. As coisas estão se encaminhando.” disse.

Cebola saiu um pouco incomodado com a conversa. Quando entrou no carro de Mônica, pelo banco de trás, ela o encarou curiosa.

“E ai?” perguntou e ele sorriu.

“Resolvi.” falou.

A moça suspirou aliviada.

“Espero que esteja satisfeito.” falou e ele assentiu sem olhá-la nos olhos.

“Estou. Obrigado por me acompanhar e por ter falado sobre o acordo, Mônica. Não sei o que faria sem você.” comentou e ela riu.

“Talvez estaria ferrado.” brincou e ele riu.

Após ser deixado de volta na faculdade, Cebola repensou na conversa e se lembrou da fala de Cascão sobre estar nas mãos da família de Carmem.

“Será que estou fazendo a coisa certa? Que trabalho será esse que o pai da Carmem ‘tá falando?” perguntou-se.

*

Mais tarde, finalmente, Carmem se encontrou com Denise em sua casa.

“Denise! Finalmente voltou.” falou ao abraçá-la.

“Oi, Burra!” a ruiva disse a abraçando de novo e a loira riu.

“Você falou sério quando disse que me chamaria de burra pessoalmente.” lembrou enquanto iam até a sala, estavam sozinhas.

“Você está indo se CASAR com um cara que só pegou pros seus pais pararem de te irritar e por competição, Carmem. Queria que eu te chamasse de quê?” Denise disse enquanto se sentava no sofá.

“Não é o fim do mundo. O Cebola é legalzinho.” a outra ressaltou.

“O suficiente para chamar de marido e aceitar tudo que isso vai englobar? Inclusive o conteúdo que você posta?” a amiga perguntou.

“Casamento pra mim não é isso tudo. E eu posso muito bem fazer um conteúdo raso sobre isso e falar que prefiro uma relação discreta.” respondeu.

“Pode sim, mas aí vive um problema: você não é discreta e muito menos uma mulher de conteúdo raso! Essa competição com a Amanda é o cúmulo do absurdo, Carmem!” a outra exclamou.

Carmem bufou. Havia momentos em que se arrependia da competição, mas seu orgulho era maior.

“Estou ciente e pretendo continuar.” afirmou.

Denise suspirou.

“Falando sério, não se trata só de colocar um anel, morar junto e postar fotos bonitas. É mais que isso.” falou.

A amiga revirou os olhos.

“Você e Nik levam isso muito a sério!” reclamou.

“Você que não ‘tá dando a devida atenção ao buraco que está se enfiando!” Denise rebateu.

Carmem bufou.

“É por causa de sentimentos, né? Nem todas acham um Jeremias, Denise.” falou.

Denise apertou os olhos.

“Eu ‘tô falando com uma porta, não é possível! Carmem, não tem lógica viver com alguém que não sente nada por causa de uma competição besta! Nem uma vida sexual com o Cebola você tem! Pra que continuar com essa loucura?!” interrogou.

“Eu gosto dele.” a loira resumiu.

Aquilo foi a gota d’ água para Denise.

“MAS NÃO O SUFICIENTE PARA SE CASAR COM ELE! Você vai se foder e não vai ser por falta de aviso!” alertou.

“Estou ciente e pretendo continuar.” a outra repetiu calmamente.

Denise, incrédula, a encarou bem.

“Na boa, qual é sua outra motivação? Aquela que nunca contou pra ninguém?!” perguntou.

Carmem deu de ombros.

“Nenhuma.” respondeu.

A ruiva cruzou os braços.

“Tem a ver com o noivo da Amanda ser o seu ex?” perguntou e ela revirou os olhos.

“Claro que não!” exclamou.

“Com a falta de sentimento do Cebola?” perguntou.

“Eu não sou sentimental, caramba!” negou.

Denise deu um sorriso malicioso.

“Tem a ver com o Nikolas?” perguntou.

Carmem travou.

“N-não viaja, Denise!” desviou o olhar.

A ruiva riu, decidindo investir nessa suposição.

“Você tem raiva da Keika?” instigou.

“Não, ué! Só achei burrice ela ter terminado com um cara feito ele.” respondeu sem olhar para a amiga.

“Um cara feito ele?” repetiu.

Carmem sentiu os olhos marejarem e desistiu de se segurar.

“Maravilhoso, Denise! Ele é um dos melhores caras que eu já conheci! Nik me apoia, me anima, me traz pra realidade, me faz rir, me deixa bem… ele deixa o mundo mais bonito!” tirou do peito aquilo que tanto reprimiu, fazendo Denise sorrir satisfeita.

A loira sentiu um nó deixar sua garganta e um peso gigante sumir de seus ombros, que pareciam deixar seu corpo junto com suas lágrimas.

“Hoje ele foi meu noivo de mentirinha e, por um momento, eu quis que fosse de verdade. Eu quis que aquele apartamento fosse realmente nosso e que eu estivesse ajudando nas bodas dos meus sogros. Denise, eu… eu não sei o que ‘tá acontecendo comigo! Somos amigos!” confessou limpando o rosto.

A ruiva a olhou com carinho após a abraçar.

“Carmem… não é óbvio? Você está apaixonada pelo Nikolas.” falou simples.

Carmem negou com a cabeça.

“Não, eu não posso!” reclamou.

“Por que não? Ele ‘tá solteiro faz tempo!” a outra ressaltou.

“Mas eu não.” falou.

Denise revirou os olhos.

“Você nem gosta do Cebola, garota!” exclamou.

“Mas estou noiva dele! E Nik faz questão de me lembrar disso. Se ele sentisse o mesmo… talvez não faria isso, ou demonstraria, ele é um cara romântico.” a loira rebateu.

Denise a olhou com pesar e Carmem respirou fundo.

“Denise, eu só quero… concluir o que comecei. Eu sei que parece que não levo a sério, mas eu estou levando do meu jeito. Eu preciso de você como minha madrinha, de verdade.” falou.

“Mas e o Nikolas? Você vai aguentar estar tão perto e tão distante dele?” a ruiva perguntou.

“Eu vou superar o que sinto por ele. Vai ver é só minha TPM me sacaneando ou as coisas das bodas. Quando passar, tudo vai voltar ao normal.” garantiu sem de fato acreditar nisso.

*

A chuva havia voltado a engrossar quando Milena, exausta, chegou em casa e se jogou no sofá. Suas aulas estavam difíceis e cansativas, e tudo piorava por não gostar tanto do curso que fingia gostar.

O fato de trabalhar no dia seguinte a cansava mais, mas uma de suas alegrias era saber que teria o trabalho com DC, que ironicamente havia se tornado seu favorito.

“O que será que vai sair da entrevista na lavanderia?” questionou-se com um sorriso.

Agnes, que até então estava na sacada, se juntou a ela no mesmo instante que Mônica passou pela porta, ambas com a cara péssima.

“Nossa… o que aconteceu com vocês? Tiveram as mesmas aulas chatas e intermináveis que eu?” a cacheada perguntou.

“Nem fui pra aula hoje. Dias chuvosos me desanimam.” a loira disse, omitindo o mal estar que perdurou desde o almoço.

“Briguei com a Magali, vacilei com um cara legal, me meti em vida pessoal de cliente, atrasei encontro com fornecedor por causa disso… só problema.” Mônica revelou.

“Todas na merda.” Agnes comentou.

Mônica suspirou.

“Tem algum rolê hoje, Milena? Preciso esquecer da vida.” perguntou.

“Posso ir com vocês?” Agnes se convidou.

Milena encarou incrédula. Mônica quase nunca saía a lazer e Agnes naturalmente não saía de casa.

“Calma aí, Aventureiras! Rolê de segunda-feira tendo que trabalhar no outro dia é tenso pra quem não ‘tá acostumada. Ainda mais com chuva.” alertou.

“Milena, pra eu sugerir sair e a Agnes querer é porque a situação ‘tá crítica.” Mônica disse e Agnes assentiu.

Milena suspirou, mas cedeu ao ter uma ideia.

“Espera aí.” deixou o apartamento por alguns minutos, retornando com um sorriso.

“Gostam de sinuca, comida duvidosa e papos mais ainda?” perguntou.

“Não é show do DC não, né?” Mônica temeu e a outra riu.

“Não, é no apê do Cascão. Eles sempre me convidam pras resenhas deles e hoje ‘tá tendo uma. E aí? Vamos lá?” perguntou e as duas se entreolharam, questionando-se se deviam ou não aceitar.

Aquela noite seria longa.

Notas finais
Nena é a tia da Magali