Almejar

8 Capítulo VIII - Agitação


Notas iniciais
Boa leitura! Ficou maior que eu esperava :O

Mônica e Agnes hesitaram em aceitar o convite de Milena. O fato de Cascão frequentar festas apocalípticas e de nunca terem ido ao apartamento ao lado as fez pensar se seria uma boa ideia.

“Tá muito apocalíptico?” a morena perguntou.

“Tá muito nojento, sujo e cheio?” Agnes perguntou junto.

Milena riu.

“Não. Podem confiar.” respondeu.

O fato de as duas estarem a fim de sair e ocupar a mente as fez ceder. Ao chegar no local, perceberam que suas preocupações eram infundadas.

O som baixo de música se misturava às conversas divertidas e ao mix de aromas. Além disso, o local não era bagunçado ou sujo e as poucas pessoas ali presentes nem mesmo pareciam estar em um local com bebidas de tão tranquilas que estavam.

“Essa calmaria toda é realmente uma resenha do Cascão? O povo não ‘tá nem bêbado e ele é o cara dos rolês apocalípticos!” Mônica comentou incrédula, fazendo Cascão rir.

“Não ‘tô no pique pra dedo no cu e gritaria hoje, mas estou feliz que finalmente vieram! Aqueles dois ali são os outros dois moradores daqui. Outros moradores daqui, essas são Agnes e Mônica.” falou apontando para dois rapazes jogando sinuca.

“Oi, sou Xavier, mas pode me chamar de Xaveco. Prazer em finalmente conhecer as outras vizinhas.” um magro de cachos loiros disse batendo o taco na bolinha.

“Satisfação, garotas! Sou Timóteo, mas só Titi ‘tá bom. Cascão não tinha dito que as outras vizinhas também eram gatinhas.” um moreno musculoso de topete e dentes salientes flertou.

Xaveco acertou-o com o taco.

“Fala direito com os outros! Querem jogar sinuca?” perguntou após repreender o outro.

“Tô bem…” Agnes comentou ao ver Titi coçar as costas com o taco.

“Eu nem sei jogar sinuca!” Mônica comentou com um riso.

“Sentem aí! Podem se sentir em casa.” Cascão comentou.

As duas se sentaram no sofá junto de Milena. Não demorou para que comes e bebes fossem servidos.

“Acabaram os copos descartáveis, vai ter que ser de vidro mesmo.” uma moça comentou enquanto entregava copos a elas.

Ao receber um copo de vidro, Agnes fez uma expressão enojada e se segurou para não ir lavá-lo na pia cheia de louças no escorredor.

“Relaxa, Agnes. Não é um lugar nojento! Mas também não é um lugar com a maior higiene do mundo…” pensou enquanto olhava em volta.

Mônica, por sua vez, reparava mais no local enquanto se sentia um tanto deslocada. As pessoas ali tinham assuntos em comum, e nenhum deles envolvia algum casamento, uma das únicas coisas que fazia parte de sua rotina.

“Deveria ter ficado em casa assistindo série.” pensou enquanto seu olhar se perdia na TV ligada em um clipe de música.

“Aproxima o copo aqui!” um rapaz pediu com uma jarra em mãos.

Agnes e Mônica trocaram um rápido olhar, perguntando-se se passariam uma péssima primeira impressão ao negar o que fora oferecido.

Para a sorte delas, Milena se pronunciou.

“Pera aí, isso daí é o quê?” perguntou.

“Caipirinha. Acabei de fazer com essas mãozinhas mágicas.” respondeu simples.

“Nem vem pegar todo crédito! Eu que espremi os limões! Sem espremedor!” uma garota riu alto ao dizer.

Agnes engoliu em seco e Mônica olhou para a jarra.

“Não quero, não. ‘Tô de boa de álcool hoje.” Milena negou tranquilamente e as duas suspiraram aliviadas.

“Eu também!” responderam juntas e ele foi servir os demais.

Cascão pareceu lembrar de algo.

“Acho que sobrou suco de laranja de um drink que fizeram. Comam os salgadinhos, são de um lugar bom.” falou apontando para a caixa de salgados fritos antes de ir até a cozinha.

“E esse brownie? ‘Tá bom também?” Mônica perguntou pegando um.

“Ele é recheado, ‘tá?” alguém alertou.

“Recheado?” Mônica repetiu.

“Melhor não comer o brownie, Mônica.” Milena recomendou e a amiga entendeu o recado, devolvendo-o no mesmo instante.

Mônica se sentiu segura para pegar um kibe quando viu Milena pegar uma bolinha de queijo, mas Agnes encarou bem o papel toalha oleoso e notou que a maioria pegava direto, sem usar algum guardanapo.

“Eu ‘tô sem fome.” falou.

Cascão riu, voltando com o suco. Era um natural, igual ao que levara no almoço com os pais de Agnes.

“Esqueci que você é mais saudável, Agnes. Nosso chef da noite fez um macarrão com brócolis muito bom.” falou enquanto servia suco para elas.

“Que chef que cozinhou?” Milena perguntou.

“Um vagabundo que já ‘tá pronto pra casar, literalmente.” respondeu rindo

“Qual vagabundo?” perguntou.

“Cascão! Essa pia do banheiro de vocês ‘tá nas últimas!” Cebola surgiu do corredor de repente, fazendo Mônica rir da coincidência.

“Como você quebrou a pia, Cebola?” o outro perguntou.

“Eu não quebrei! É só um comentário.” esclareceu.

“Que nem o cano?” Titi perguntou já rindo.

“Que cano?” perguntou sem perceber e vários presentes riram.

“Aí, sim, hein, Cebolão?!” zombaram alto.

“Pega leve, mano.” falaram.

Cebola acabou rindo.

“Cês são besta demais. Opa! Mônica!” cumprimentou ao vê-la.

“Tá me perseguindo? Tenho te visto mais que vejo minha mãe, Cebola.” comentou ele riu.

“A vida tem suas coincidências. Tinha esquecido que vocês eram vizinhas do Cascão. E ai, Milena e… e a outra que esqueci o nome.” falou e as duas cumprimentaram com um aceno.

“É Agnes, cara. Esse daí que é o nosso chef.” Cascão revelou.

“Cheguei antes de sonharem em comprar salgadinhos e não iria comer a lavagem que eles ousam chamar de comida. Então decidi usar meus dotes culinários.” falou.

“Ah, vai se ferrar!” o amigo o xingou rindo.

“Ficou bom mesmo, Cebola?” Mônica perguntou.

“Vem provar! Quero ouvir sua opinião!” convidou.

“Se for sobre o macarrão, os lariquentos ali comeram tudo. Mas sobrou ingrediente.” Titi revelou apontando para um risonho grupo sentado no chão e jogando truco.

“Faz lá, Cebola! Vai ser nosso almoço e janta nos próximos três dias.” Cascão brincou.

“Tá sonhando demais, cara.” Xaveco comentou rindo.

“Fechou!” ele topou indo para a cozinha.

Mônica acompanhou Cebola, preferiu interagir com alguém além das colegas de casa, uma vez que Milena falava com conhecidos e sabia que Agnes não iria querer acompanhá-los.

“Como é essa sua receita?” ela perguntou.

“Macarrão, molho branco e brócolis.” respondeu enquanto pegava alguns itens do escorredor.

“Ah… sua versão é sem bacon.” comentou e o rapaz riu.

“A versão que é minha-minha tem até bastante, e eu adoro. Mas o Cascão não come carne de porco, então pra ele eu faço sem.” respondeu enquanto enchia uma panela de água.

Mônica sorriu graciosa.

“Que fofinho, Cebola! Posso te ajudar? ‘Tô à toa aqui.” pediu e foi pegar coisas na geladeira quando ele assentiu.

“Eu até poderia fazer uma quantidade separada, mas seria muito trampo. Você é vizinha dele, acha que ele merece todo esse trampo?” perguntou e ela riu e colocou o brócolis para cozinhar.

“Eu converso muito pouco com o Cascão, muito pouco mesmo! Mas pelo que vi… acho que vale. Você disse que se conhecem desde a infância, né? Então ele já morava aqui?” perguntou.

“Não, a gente morava na mesma rua quando era moleque, mas cada um se mudou. Só que nossa amizade nunca acabou, sabe? O Cascão é uma dessas pessoas que é bom ter por perto.” respondeu cortando o alho rapidamente.

“Legal uma amizade tão antiga assim. As minhas foram ficando com o tempo, mas conheci a Magali, a que morava comigo antes da Agnes, que nossa… sinto que conheço ela desde sempre. A gente brigou, mas logo a gente volta a se falar.” comentou procurando uma outra faca para cortar a cebola.

“Por que vocês brigaram?” perguntou entregando a faca a ela.

“Ela diz que meu trabalho ‘tá engolindo minha vida pessoal e… ela ‘tá certa.” respondeu começando a cortar a cebola.

“Bom… De todas as vezes que nos vimos, só falamos sobre algo que não fosse seu trabalho quando eu ainda achava que você era a assistente da Carmem.” lembrou-se enquanto colocava manteiga em outra panela.

“Sim, mas… de que outra coisa eu falaria? Naquele dia, eu tinha que fingir que não era wedding planner.” falou limpando os olhos.

“Até chorou.” brincou e ela riu, passando as cebolas cortadas para um recipiente e entregando a ele.

“Eu não te considero só minha wedding planner, Mônica. Você sabe coisas sobre mim que nem minha mãe sabe e me deu conselhos que ‘tô carregando comigo, você é uma amiga. Tenta falar sobre você! Você disse que o Direito tinha deixado de fazer sentido, o que fez isso acontecer?” perguntou juntando o alho e cebola na panela com manteiga.

Mônica pensou por um instante enquanto colocava o macarrão na água fervente, aquela conversa quase nunca acontecia.

“Eu gosto de lidar com pessoas. Na faculdade parecia tudo muito distante, sabe? Talvez porque eu ainda era estudante e parecia que nada nunca ia acontecer, mas com a organização de eventos… eu me senti parte. Eu ainda gosto do curso de Direito, mas sei lá…” disse e ele riu.

“Bom, você é uma boa wedding planner. E pelo que me ajudou com o negócio do acordo, diria que também seria uma boa advogada. E sua relação com as meninas?” perguntou.

“Eu tenho mais proximidade com a Milena. Com a Agnes é um pouco mais difícil. Cascão ‘tá realmente tirando leite de pedra com ela.” falou observando o brócolis.

“E por que é tão difícil?” perguntou.

“Ela é meio fechada, perfeccionista e tem tendências hipocondríacas. É difícil conviver. Ela não é chata, mas… não é uma pessoa que você olha e logo de cara pensa em fazer amizade.” respondeu sincera.

“Consigo imaginar.” falou e ela riu, voltando a ajudá-lo com a comida, estava gostando.

X

Enquanto isso, Agnes observava ao redor sem conseguir interagir com alguém. Não falava com ninguém além de Cascão, Milena e Mônica. O rapaz estava sumido, a cacheada jogava UNO com alguns amigos e a outra ainda cozinhava com Cebola, com direito a divertidas risadas.

“Como elas conseguem?” questionou-se

"Tá sozinha aí por quê? Milena ‘tá jogando, a Mônica na cozinha, os caras que jogaram beer pong ‘tão ali, se pedir, eles fazem um." era Cascão.

"Ah… Milena até me convidou, mas… aquela roda ‘tá muito fechada. E eu não gosto de cozinhar em conjunto e nem de propor jogos pra doidos que nem eles.” falou e ele riu.

“Precisa relaxar um pouco.” falou e ela deu de ombros com um suspiro.

“Você já se sentiu deslocado alguma vez?" perguntou e ele se sentou ao lado dela.

"Algumas. Por quê? Você 'tá se sentindo deslocada?" perguntou e ela encolheu os ombros.

"Um pouco. Pera aí, já? Você?!” comentou e ele riu.

"O começo costuma ser mais difícil pra todo mundo. Fica sozinha, não. Vem jogar comigo!" convidou.

"Jogar o quê?" perguntou.

"Boliche! Aquele dia você disse que queria jogar, então vamos improvisar um. Tenho aqui umas latinhas e uma bolinha de piscina de bolinhas, de um rolê muito doido que fui um dia." falou e ela franziu o cenho.

"Você já foi numa piscina de bolinhas sendo adulto?" perguntou e ele riu.

"Agnes, as coisas que aconteceram naquela piscina de bolinhas... criança sairia traumatizada. Bora!" levantou em um pulo e ela sorriu ao acompanhá-lo.

O jogo a deixou mais leve, principalmente quando seus colegas do beer pong se juntaram a eles e até mesmo outras pessoas. Não demorou muito para o macarrão de Cebola e Mônica ficar pronto e todos se enfeitiçarem pelo aroma.

Agnes preferiu comer na sacada, onde a chuva já não molhava mais, e logo ganhou a companhia de Cascão.

"O vagabundo cozinha bem, né?" ele comentou e ela riu.

"Sim. Confesso que estava com fome, mas aqueles salgadinhos onde todos colocavam a mão... não tinha como." revelou e ele riu.

"Relaxa." falou.

A moça suspirou.

"Nunca cheguei a te perguntar... como é sua relação com seus pais? Eles sabem sobre seu trabalho no Tinder?" perguntou.

"Nos damos bem. Eu não falei do Tinder, mas eles sabem que me viro bem." respondeu.

"O que te fez querer morar sozinho?" perguntou e ele riu engolindo o macarrão.

"Eu queria meu espaço, sabe? Eu sempre gostei de um rolê duvidoso, mas é foda você ficar chegando de madrugada ou levar gente em casa quando teus pais têm que levantar cedo e tudo mais. Os meninos daqui também gostam de bagunça, então não pesa pra ninguém." revelou.

"E como é você na faculdade? Um cara mais estudioso?” perguntou dando mais uma garfada em seu macarrão.

“Não o cara que tira dez, nem o que tira zero. Na escola era pior.” falou.

“Você gostava da escola?” perguntou.

“Tenho boas lembranças. E você?” o rapaz perguntou e ela riu.

“Traumas. Eu era a esquisitona. Se não fossem a Penha e a Sofia… teria passado todos os anos sozinha.” revelou.

“Você disse que a Sofia voltou de viagem. Por que não chama ela pra fazer alguma coisa? Ela faz parte da sua galera, Agnes, pode te ajudar a se sentir melhor.” falou e ela deu de ombros.

“Tenho minhas dúvidas se ainda somos da mesma galera, Cascão. Ela mudou muito desde que começou a andar com a Denise. Não digo que ficou chata nem nada, mas… não acho que ela toparia sair comigo podendo ir pra lugares que realmente gosta.” respondeu.

“Só tem um jeito de descobrir.” ele disse e ela riu.

“Eu vou tentar. E ai? Preparado para o último dia de contrato? Meus pais querem ir a um zoológico.” perguntou.

“Claro! Depois de amanhã, você se livra de mim, hein? Vou pegar mais macarrão antes que os lariquentos acabem com tudo, já volto.” respondeu, saindo em seguida.

Agnes também terminou de comer e respirou fundo enquanto olhava para o nada. Era estranho imaginar que assim que seus pais fossem embora, talvez não teria mais essa proximidade com Cascão. Esses pensamentos a fizeram querer ir embora.

Apenas foi até a cozinha barulhenta, levou seu prato até a pia já cheia de louças e foi para casa sem dizer nada.

X

Mônica e Cebola riam enquanto degustavam o macarrão feito por eles.

“Sinceramente, estou surpresa que você cozinha bem.” ela comentou ao terminar.

“Por quê? A rica é a Carmem.” falou e ela riu.

“Nem é por riqueza, é que… sei lá. Não dá pra olhar pra você e dizer que faz um macarrão com brócolis divino.” falou.

“Você me ajudou, fez diferença.” ressaltou.

“Já cozinhou com a Carmem?” perguntou e ele negou com um riso.

“Aquela lá na cozinha é uma tristeza. Ela faz noite de hambúrguer com amigos dela, eu nunca me interessei em ir. Deve ser um horror e eu gosto de comer bem.” revelou.

“Ah, mas é bom pra relação fazer algo juntos.” comentou e ele a olhou.

“Relação?” repetiu e ela acabou rindo.

“É… o caso de vocês é outro.” falou.

“O que virou seu lance com o Nik? Deu certo?” perguntou e a moça suspirou.

“Eu vacilei em ter jogado mais com você que com ele.” confessou.

“Ah, mas ele não ficou sozinho.” respondeu.

Mônica abriu e fechou a boca.

“Você tem ciúmes da amizade dele com a Carmem?” perguntou e ele riu.

“Ciúmes de alguém que você não sente nada?” perguntou.

“Mas em dois anos vocês nunca… ér… se envolveram?” ela perguntou e ele olhou com a sobrancelha erguida.

“Você quer saber se a gente já transou? Já. Só que é tipo um sexo casual mesmo. Mas faz um bom tempo que não acontece.” respondeu.

Mônica riu.

“Não era nesse sentido, era de algo emocional mesmo…” explicou e ele riu.

“Ah, sim. No começo, acho que tinha um pouco.” falou.

“E não te faz falta?” perguntou e ele deu de ombros.

“Bom… eu gostaria sim de estar com alguém que eu gosto, mas é aquilo… interesses.” disse e ela assentiu.

“Se surgisse a chance, você correria atrás?” perguntou.

“Não sei, acho que sim. O papo ‘tá ótimo, mas tenho que ir nessa. Acordo cedo amanhã. Foi bom te ver hoje, Mônica. Temos que cozinhar juntos mais vezes.” falou e ela sorriu.

“Eu vou adorar!” respondeu e ele saiu.

Mônica também decidiu ir para casa, sentindo-se revigorada, como há muito tempo não sentia

*.

O dia havia sido comprido para Do Contra. Como se não bastasse a visita surpresa dos pais, após muita insistência, precisou acompanhá-los até um evento da alta sociedade e a noite terminaria na casa deles.

“E então? Por que estamos tão unidos hoje?” perguntou um tanto impaciente.

“Qual o problema de uma família se reunir por um dia?” o pai perguntou.

“Nenhum, pelo menos não quando todos aceitam a todos.” alfinetou.

“Maurício, não é hora para seus chiliques. Recentemente, percebemos que queremos nossos meninos mais perto.” a mãe disse.

“Onde essa conversa vai chegar?” perguntou direto.

“Queremos que você volte para cá. Ou pelo menos pra esta região da cidade.” Keiko falou e ele riu.

"Por que esse interesse repentino?" DC perguntou.

“Maurício, aquele seu prédio velho é horrível! As pessoas comentam, meu filho!” ela exclamou.

“Problema deles.” respondeu.

“Não, problema nosso! Porque é da nossa família que estão falando! Já foi um escândalo você ter abandonado a faculdade e ter feito aquele papelão, quando sair aquele mini documentário amador mostrando aquele apartamento velho… as coisas só vão piorar!” o pai rebateu.

O rapaz bufou.

“Sinto muito que a nova pauta dos chás da tarde seja como um dos filhos dos Takeda está em decadência.” falou irônico.

“Sem ironias!” o pai repreendeu.

“Estamos tentando nos reaproximar de você, Maurício!” a mãe exclamou.

DC suspirou.

“Se o problema é o que dizem por aí, podem dizer que eu me corrompi. Eu não ligo!” falou.

“Por que você não pode ser igual ao seu irmão? Ele nunca deu trabalho pra gente, se importa pelos negócios da família, tem a própria empresa, soube aproveitar as oportunidades que teve… e você aí! Jogando tudo pela janela!” o pai reclamou.

“Querido!” a esposa repreendeu.

“Lamento que eu tenha sido uma decepção. Se me dão licença… está ficando tarde.” falou se levantando e deixando o local rapidamente.

Nimbus também se levantou.

“DC!” chamou indo atrás dele.

DC andava a passos pesados já chamando um uper. O irmão conseguiu alcançá-lo.

“Pelo menos tenta dar uma chance! Você vai sair ganhando!” tentou argumentar.

O irmão o encarou sério.

“Sair ganhando? Esqueceu por que eu me mudei, Nimbus?!” interrogou.

“Eles estão preocupados com você.” o mais velho disse.

“Mesmo? Parece que estão preocupados com a imagem que estou passando.” DC falou.

“Você sabe que aparências são importantes. Acho que devia aceitar a proposta, ou pelo menos pensar melhor.” o irmão recomendou.

“Boa noite, Nimbus.” o músico disse deixando o local.

Ao chegar em casa, DC colocou sua playlist de heavy metal, ficou apenas de cueca, sentou-se no chão gelado e tentou meditar, mas não conseguiu. Sua mente estava tão barulhenta que ofuscava a música.

Respirou fundo, vestiu apenas suas calças e caminhou até um dos quartos e acendeu a luz. Pegou um godê e um pincel antes de começar a deslizar o objeto sobre uma pequena tela sobre uma larga mesa. Não via as horas passarem enquanto pincelava, mas sentia sua mente esvaziando.

Sem que percebesse, dormiu na mesa, sendo acordado horas mais tarde pelo seu celular vibrando e pela fresta de luz entrando pela janela.

Coçou os olhos e olhou para as horas: 8 da manhã.

“Quem manda mensagem pra alguém a essa hora?” perguntou rouco de sono, mas acabou sorrindo quando viu ser um áudio de Milena.

“Oi, Do Contra! Vi sua mensagem sobre seus pais. Realmente acho uma boa ideia a família aparecer um pouco. Até mais tarde.” ela disse.

O rapaz olhou pela janela e suspirou.

“Família…” balbuciou.

*

Mais tarde, Agnes levantou não muito animada. Era o último dia do acordo com Cascão, mas não estava tão eufórica como seu eu de alguns dias atrás achou que estaria com o fim da visita de seus pais.

Olhou-se no espelho e negou com a cabeça.

“Estou horrível!” exclamou enquanto deixava o local.

Àquela hora, nenhuma das garotas estava no apartamento. Então se permitiu deitar no sofá da sala e encarou o teto.

“Por que eu estou tão afetada? Até pouco tempo, eu até tinha nojo desse cara!” exclamou.

De repente, ouviu sua campainha. Ao abrir a porta, deu de cara com Cascão.

“Oi! Foi embora sem nem se despedir! Magoei, sabia?” comentou e ela riu sem graça.

“É que eu… minha bateria social tinha acabado e decidi só vir embora. Entra.” deu passagem.

“Melhor não. ‘Tô de tênis e se eu tirar você morre com meu chulé.” disse e ela negou.

“Não precisa tirar. Hoje estou de folga, então limpo a casa depois.” explicou e ele entrou.

“Pensei que já tinha limpado, aqui ‘tá com cheiro de… nem sei do quê, mas lembra produto de limpeza.” comentou fungando.

“É meu repelente. Um zoológico tem muitos insetos.” falou e ele riu.

“Tá tudo bem? Parece meio… desanimada.” observou.

“É sono. Não costumo participar de resenhas.” respondeu e o rapaz riu.

“E olha que ‘tava calma. Não por acaso, diria que estou 85% hoje.” falou.

“85? Bem perto do 100.” ela disse.

“É aquilo… no 100, eu nunca estou. Qual é o itinerário de hoje? Só zoológico?” perguntou.

“Sim, eles querem almoçar em casa. Acabei nem te perguntando como estavam suas aulas hoje!” respondeu.

“Hoje ‘tá suave. Relaxa.” falou.

Não demorou para os pais da moça aparecerem e irem direto para o zoológico. Agnes tentava mascarar seu incômodo com o local enquanto pensava no quão demorado seria seu banho.

“Devia ter trazido um boné!” reclamou apertando os olhos, o sol estava quente.

“Por que não pede emprestado pro seu namorado?” a mãe perguntou.

“Eu sei lá quando ele lavou o cabelo!” falou sem perceber.

“Tomei chuva ontem, então já conta.” brincou e ela fez uma feição enojada.

“Qual o problema, Agnes? O que é um fio de cabelo se encontrando com outro quando vocês se beijam de língua.” a mais velha falou.

Agnes corou.

“Mãe!” reclamou e a outra riu.

“Eu menti? Mas espero que seja apenas saliva sendo trocada. Agnes é moça de família, então sexo só depois do casamento.” falou e a moça quis tomar o lugar do avestruz que havia enterrado a cabeça há pouco.

“Falando em casamento, quando pretende colocar um anel no dedo da minha filha, rapaz?” o pai perguntou.

Cascão, que até então apenas observava, sentindo um misto de graça e constrangimento, levantou a sobrancelha e Agnes perdeu a fala.

“Acho que ainda é cedo demais para isso, senhor.” respondeu.

“Mais jovens vocês não vão ficar. E tenho minhas dúvidas sobre Agnes achar alguém melhor.” o mais velho comentou.

“Estamos indo com calma. Não tem pra que ter pressa.” Cascão disse.

“Você também é virgem, Cássio?” a mãe dela perguntou sem cerimônias, fazendo os jovens arregalaram os olhos.

Naquele momento, Agnes se arrependeu de ter mentido sobre ter um namorado.

“Por que estamos tendo essa conversa invasiva, desnecessária e constrangedora? No meio do zoológico ainda por cima!” a moça exclamou.

“Não é desnecessária! É importante e não ouvi a resposta do rapaz.” a mãe falou.

Cascão olhou para a vermelha Agnes.

“Não, eu não sou virgem. Mas não tem com o que se preocupar. Não estou com a filha de vocês pensando em sexo, e sim porque eu gosto dela.” respondeu calmamente.

Agnes olhou de relance para ele, o rapaz não estava nada envergonhado.

“Bom saber disso.” o pai falou com um sorriso.

Após mais algumas voltas, em um clima constrangedor entre os mais jovens e um comum entre os pais da moça. Agnes e Cascão se despediram dos mais velhos, já na entrada de seu prédio.

“Foi um prazer te conhecer, Cássio! Cuide bem da Agnes.” a mãe dela falou.

“Pode acabar sendo o contrário, hein?” brincou e eles riram.

“Se cuidem! E respeito!” o mais velho disse.

Ao chegarem na porta dela, Agnes respirou fundo.

“Eu não ‘tô conseguindo olhar na tua cara de tão envergonhada que eu ‘tô!” falou fitando o chão e ele riu.

“Não esquenta com isso.” falou.

A moça, enfim, o olhou.

“Como você está tão calmo?” perguntou incrédula.

“Minha ex e eu começamos a namorar na adolescência e os pais dela eram bem sistemáticos, então já ouvi coisa mais constrangedora que isso.” revelou.

“Acho que nosso acordo chegou ao fim… Obrigada, Cascão! Você foi… incrível!” falou e ele sorriu.

“Foi interessante conhecer melhor minha vizinha.” falou.

“Me manda seus dados! Tenho que te pagar.” falou e ele enviou.

Após fazer a transação, olhou para o rapaz e abriu e fechou a boca.

“Bom… a gente se vê!” ele disse e ela assentiu.

O rapaz se virou e ela o chamou.

“Cascão! Ér… Você é um dos caras mais legais que já conheci, então… acho que seria legal… você sabe…” falou e ele sorriu abertamente.

“Continuo sendo seu vizinho. É claro que ainda podemos ser amigos!” falou e ela suspirou aliviada.

“Que bom!” disse e ele estendeu a mão.

“Bate aqui!” disse e ela bateu.

“Aeee! Até mais, Agnes!” falou indo para seu apartamento.

Agnes sorriu, havia feito um novo amigo.

“Será que Nik topa cortar minha folga pela metade? Quero esquecer de hoje e estou 300 reais mais pobre…” questionou-se.

*

Nikolas estava atarefado naquela terça. Durante uma live feita na noite anterior, havia anunciado um alto desconto para quem comprasse na loja física, o que resultou em uma enorme quantidade de clientes ao longo da manhã, justo no dia em que Agnes estava de folga.

Sequer havia ido almoçar e agradeceu quando a loira apareceu com sua proposta. Sem se importar em tirar seu uniforme, aproveitou a diminuição do fluxo de clientes e foi até a Dream, precisava falar sobre o ensaio de seus pais.

Ao chegar no prédio, foi falar com a recepcionista.

“Oi, boa tarde, sou Nikolas. Tudo bem? Gostaria de contratar serviços fotográficos.” falou.

“Olá, Nikolas! O senhor Grózny está com um cliente agora. Pode aguardar ali.” apontou para algumas poltronas.

Não demorou para Grózny aparecer com seu sorriso falso enquanto acompanhava um casal rico até a saída.

“Voltem sempre que precisarem! É sempre um prazer tê-los aqui!” despediu-se.

“Senhor Grózny, o rapaz está o esperando.” a recepcionista disse.

Nik se levantou e o outro o encarou dos pés à cabeça, demorando no uniforme da GGeek.

“Olá! Sou Nikolas!” o rapaz estendeu a mão, que foi apertada sem firmeza alguma.

“Oi. Em que posso ajudar?” o outro perguntou.

“Eu gostaria de contratar um ensaio fotográfico para meus pais.” falou reparando no olhar fixo às suas roupas.

“Ah, sim. Uma dica, pacotes de baixo orçamento podem ser contratados por mensagem. Já evitaria a chamada de atenção que vai levar por ter saído no meio do expediente.” falou sem muita cerimônia.

“Algumas coisas são melhores pessoalmente. E não se preocupe com meu expediente.” respondeu e o outro apenas fez sinal que o seguisse.

Nikolas não era ingênuo, havia percebido que Grózny claramente não queria atendê-lo, e tinha certeza que tinha relação com o olhar fixo em seu uniforme de trabalho. Sua certeza aumentou quando chegaram na sala e foi apresentado apenas ao pacote super econômico, sem nem dizer o que pretendia.

“São de cinco a sete fotos simples, o cenário fica a critério do cliente. Este é o valor. Tudo bem para você?” perguntou com um sorriso esnobe enquanto mostrava o valor em seu tablet.

“O senhor não me perguntou, mas esse ensaio é de bodas de 30 anos. Acho que 30 fotos fica mais significativo, a gente pode…” falava até o outro bloquear o aparelho.

“Acho que você não entendeu, rapaz. Um pacote tem uma quantidade limitada de fotos. Se quiser mais fotos, vai ficar mais caro. Vi que trabalha em uma lojinha, então imagino que seja melhor manter os pés no chão.” disse sem nem esconder o desdém em sua voz.

Nikolas ficou sério.

“Acho que o senhor que não me entendeu. Se eu estou pedindo para ter mais fotos, eu pretendo pagar a mais por isso!” rebateu com a voz firme.

Grózny digitou algo e virou para o rapaz.

“Este seria o novo valor. Ainda tem essa certeza?” perguntou com um sorriso sarcástico e foi a vez de Nik rir.

“Tenho.” respondeu simples e o outro deu de ombros.

“A gente divide só até três vezes.” alertou seco.

“Tudo isso? Quanta generosidade. Eu vou pagar à vista. Pelo que sei, é metade antes e metade depois, certo? Vocês aceitam pix?” falou com a voz carregada de ironia.

O outro arregalou os olhos.

“Quer ver o valor de novo?” perguntou.

“900 reais, eu vi. E vou continuar.” respondeu sério.

Finalizado o contrato, os dois deixaram a sala em silêncio. No hall, Nik se preparava para falar tudo que queria sobre a maneira que estava sendo tratado, mas, para a surpresa deles, uma debutante de família bem conhecida cruzou o caminho.

“Aaaah! É o Nik! Eu sou muito sua fã! Posso tirar uma foto com você?” ela sorriu abertamente.

“Fico feliz em ouvir isso. E é claro!” aceitou e a moça logo tirou a foto.

Após as fotos e elogios, o supervisor de fotografia encarou o rapaz.

“Você tem fãs?” perguntou e ele riu.

“Algumas pessoas gostam do meu trabalho.” respondeu.

Como se o destino estivesse a favor de Nik, no mesmo instante, Carmem apareceu junto de seu pai, que quase nunca visitava a empresa.

“Senhor Frufru! O senhor por aqui?” a recepcionista se ajeitou na cadeira.

“Vim ver algumas coisas.” respondeu ainda ao celular.

Carmem sorriu ao ver o amigo.

“Nik! Por que não disse que viria agora? Eu teria ido com você ver as coisas das fotos dos seus pais.” ela disse se aproximando.

“Nem eu sabia que viria agora.” falou.

“Ér… vocês se conhecem?” Grózny perguntou um tanto amedrontado.

Carmem riu enquanto abraçava o amigo pelos ombros.

“Quem não conhece Nik, o Geek, Grózny? É só um dos melhores streamers da atualidade com milhões de seguidores no insta’ e no youtubo, dono da melhor loja geek que eu conheço, futuro engenheiro de software e, é claro, meu melhor amigo!” respondeu sorridente e Nikolas riu provocativo.

“Acho que ele não me conhecia, Carmem.” comentou.

Em questão de segundos, Grózny empalideceu e sentiu as pernas bambearem. Seu estado pareceu piorar quando o pai de Carmem encerrou a ligação e se aproximou.

“Nikolas! Faz tempo que não te vejo!” cumprimentou-o sorridente e com um abraço lateral.

“As coisas andam corridas, senhor Frufru.” falou com um riso.

“Já disse para me chamar pelo nome. Carmem comentou sobre as bodas dos seus pais, mande minhas felicitações. E fico feliz que tenha nos escolhido para eternizar este momento. Imagino que Grózny tenha mostrado os nossos melhores pacotes e fotógrafos!” falou.

Nik decidiu brincar com a situação.

“É claro que escolheria vocês. São vários? Ele me mostrou só um.” revelou e o mais velho franziu o cenho.

“Só um?” virou-se para o funcionário.

Grózny tremeu.

“Ér… Nikolas parecia tão apressado. Então… fui mais rápido.” mentiu.

“Eu parecia apressado? Ah, é! O senhor ficou olhando meu uniforme e achou que meu patrão iria comer meu rim se eu demorasse. Acho que nem te disse que a loja é minha, né?” respondeu risonho.

“É… deveria ter me dito! Também sobre sua amizade com Carmem! Assim… teria sido… ér… diferente.” o outro falava com medo na voz.

“Não sabia que precisava ser dono de algo ou falar que era amigo dela pra poder ver outros pacotes de ensaios fotográficos. Vou lembrar disso se me pedirem indicação de um estúdio de fotos.” ironizou.

O pai de Carmem apertou a ponte do nariz e suspirou preocupado.

“Sinto muito por isso, Nikolas. Pode ter certeza que não vai se repetir!” garantiu.

Nikolas se aproximou do Frufru.

“Uma crítica construtiva: Se o Grózny continuar tratando as pessoas desse jeito, vocês vão perder clientes. Eu não indicaria um lugar com um péssimo atendimento cheio de julgamentos por causa da roupa, por não serem amigos de donos ou famosos. Então abram o olho com ele.” falou seriamente, o que não surpreendeu Carmem, sabia que o amigo era sério quando o assunto era sério.

Cornélio olhou irritado para Grózny.

“Pode ter certeza que levaremos em consideração sua crítica. Que fotógrafo que vai te acompanhar?” perguntou alto, para o funcionário ouvir.

“A Milena.” respondeu.

“Milena… Quem é essa, Grózny?” tentou lembrar.

Grózny umedeceu os lábios.

“A que cuida do pacote econômico e fotos menos concorridas.” respondeu fraco e o outro negou com a cabeça.

“Independente do pacote, eu iria querer fazer com ela. Tenho que ir agora, meu uper ‘tá perto. Até mais, senhor Cornélio, foi bom te ver. E até qualquer hora, Carmem!” Nik esclareceu e saiu em seguida.

Assim que o rapaz deixou o local, Cornélio olhou feio para o funcionário e ignorou a presença de qualquer um que pudesse ouvir a bronca.

“Ivan, se não fosse pelo apreço que tenho pelos seus pais, eu te mandaria embora por justa causa hoje mesmo!” esbravejou.

“Senhor Frufru, eu não conheço esses influencers de agora e não fazia ideia de que ele era amigo da senhorita Carmem!” Grózny tentou se defender.

“Não quero saber! Aquele rapaz tem muita visibilidade na internet, principalmente entre os jovens. Reze para ele não nos dar uma avaliação negativa, reze!” saiu bravo.

“Ei, Grózny! Acho bom esse ensaio sair perfeito! Se uma coisinha mínima não sair do jeito que os pais dele quiserem, você ‘tá ferrado.” Carmem ameaçou e logo saiu.

Grózny limpou o suor da testa e tentou se recompor.

“Quando a Milena chegar, mande-a ir falar comigo com urgência.” pediu à recepcionista e logo foi para a sua sala.

“Galera precisa saber disso!” ela riu ao pegar seu celular.

Não demorou para Milena chegar e a recepcionista quase voar em sua direção.

“Milena! Notícia quentíssima de seu interesse!” falou animada.

“O que rolou?” perguntou.

A recepcionista contou detalhadamente tudo que havia visto, fazendo Milena escancarar a boca.

“Não acredito! Que dia maravilhoso!” exclamou e a outra assentiu.

“Demais! Agora vai lá que ele deve estar soltando fogo pelas ventas.” falou.

Milena tentou parar de sorrir ao chegar na sala, mas não conseguiu.

“Boa tarde, senhor Grózny. Queria me ver?” cumprimentou sentindo um cheiro forte de cigarro.

“Um rapaz famoso na internet entrou em contato com você para um ensaio?” perguntou direto.

“Sim, o Nikolas. Ele é super amigo da Carmem, inclusive.” falou tentando segurar o sorriso.

O outro suspirou.

“Não me lembra disso… Por que não me avisou que um famoso viria hoje? Ou que usava uniforme da loja dele?” perguntou.

“Eu também não sabia.” respondeu.

O outro suspirou.

“Acho que vou passar esse ensaio para minha sobrinha. Certeza que o trabalho terá a perfeição necessária.” comentou com um sorriso interesseiro.

Milena se esforçou para não revirar os olhos, Grózny estava claramente tentando sabotar seu trabalho e colocar sua sobrinha, que sequer levava os ensaios a sério, por conta de se tratar de um famoso.

“Não querendo questionar seu trabalho, mas não acho uma boa ideia.” argumentou.

“E por que não? Minha sobrinha sempre pega ótimos trabalhos e usa a melhor equipe. Ele é um cliente vip, coisa que você não costuma trabalhar. É diferente.” falou.

A moça umedeceu os lábios, odiava aquele homem.

“Para tudo tem uma primeira vez, não? E outra, não acho que vai pegar muito bem para a empresa o cliente ter escolhido uma fotógrafa e eles mandarem outra. Tenho minhas dúvidas se o senhor Frufru iria ficar feliz com isso, ainda mais sendo o amigo e padrinho de casamento da filha dele.” lembrou.

“Seus horários são ruins, impossível se flexibilizar para atender às demandas do cliente!” o outro disse.

“Não foi isso que o Nikolas em pessoa disse. Se quiser perguntar a ele o que ele acha, por mim tudo bem. Mas já aviso que é comum a Carmem estar lá na GGeek com ele, então ela poderia ficar sabendo que a escolha do melhor amigo dela pode não estar sendo respeitada.” contra argumentou.

Grózny franziu o cenho, estava encurralado. Ao passo que queria ajeitar aquele promissor trabalho para a sua sobrinha, de fato seria um problema ir contra o desejo do cliente que tudo precisava ser perfeito.

“Tudo bem. Mas já aviso que se este ensaio não for perfeito, você terá problemas não comigo, mas com a chefia. Eles querem algo extremamente perfeito. Acha que dá conta?” duvidou e ela o olhou de cabeça erguida.

“Alguma vez eu não dei conta, senhor Grózny?” perguntou com um sorriso lateral.

O outro tossiu. Os elogios que o trabalho de Milena recebia eram grandes, mesmo com uma equipe pequena e pouco renomada.

“Enfim, por conta de alguns erros no sistema, ele acabou pegando o pacote econômico em vez do vip. Mas trate como vip. Ele é um cliente especial, então prefiro que fale com ele pessoalmente onde ele preferir.” recomendou.

“Posso ir à GGeek, sei onde é.” ela disse.

“Ótimo. Me mantenha informado.” disse e ela saiu.

*

Milena de fato foi à GGeek com um largo sorriso. Ao entrar na loja, deu de cara com Agnes limpando um expositor enquanto alguns clientes olhavam mercadorias.

“Ué, você não 'tava de folga hoje?” perguntou.

“Tive uma manhã tão traumática que perguntei pro Nik se podia deixar metade da minha folga pra outro dia. Como aqui ‘tá bem movimentado hoje, ele topou. Precisa de ajuda em alguma coisa, Milena?” perguntou.

“Eu precisava falar com ele.” respondeu.

“Ele ‘tá ali!” apontou com a cabeça para o rapaz, que carregava uma caixa de gibis.

“Oi, Nikolas!” cumprimentou e ele sorriu.

“Se não é a fotógrafa do ensaio dos meus pais. Tudo bem, Milena?” comentou e ela sorriu abertamente.

“Estou ótima. Eu vim a mando da Dream para falar sobre o ensaio, mas viria até se não precisasse. Tinha que te agradecer.” falou.

“Pelo quê?” ele perguntou.

“As notícias chegaram até mim sobre o que rolou com o Grózny, sinto muito que ele tenha sido escroto com você, ele é assim com qualquer um que não seja um milionário. Mas o agradecimento é por ter feito ele se ferrar.” disse e o rapaz riu.

“Ah, imagina. Odeio gente que nem ele.” falou.

“Me fala um pouco do que você espera pra esse ensaio! Pelo que vi, são bodas de 30 anos e serão 30 fotos. Tem algum cenário em mente? Prefere estúdio? Vocês escolhem.” perguntou com seu celular em mãos.

“Eles ainda não sabem sobre o ensaio, então tenho que dar a notícia. Vou deixar eles escolherem e te falo.” respondeu.

“Ótimo! Esse aqui é meu contato. Vai ser incrível! A propósito, hoje vou juntar a galera pra ir pro Bidu pra comemorar o Grózny se dando mal, isso é tão raro que merece uma comemoração. Eu adoraria que você fosse! Foi você que possibilitou isso!” convidou.

Nik pareceu pensar. Fazia um bom tempo que não ia em algum lugar como o Bidu, então talvez seria um bom lugar para esquecer coisas que rondavam sua mente.

“Acho que pode ser legal. Apareço lá.” falou.

“Beleza. Também te espero lá, Agnes! Não adianta dizer que não!” falou e logo saiu da loja.

Minutos depois, Carmem entrou na loja.

"Nik! Nosso papo ontem sobre noite do hambúrguer me deixou inspirada! Vamos fazer hoje? Você, eu, a Denise e o Jerê! Vai ser legal!" propôs.

"Hoje vou ter que furar, vou no Bidu." respondeu e ela franziu o cenho.

"O bar? Desde quando você vai lá?" perguntou.

"Fui convidado e decidi topar." falou.

"Posso ir também? Conhecendo a Denise, aposto que ela toparia." perguntou e ele assentiu.

"Claro! Faz tempo que a gente não vai pra um fervo, pode ser legal." ele disse e ela assentiu.

"Com certeza! Ainda 'tá chateado com o Grózny?" perguntou.

"Ah, eu quero que ele se dane. Acabei de falar com a Milena e ela 'tá animada. Algo me diz que fiz uma boa escolha." falou.

"Espero que sim. A propósito, eu sei que você vai negar, mas eu quero que esse ensaio seja um presente meu pros seus pais. Também serve como um pedido de desculpas da Dream pela babaquice do Grózny." falou e ele revirou os olhos.

"Carmem..." falou.

"Aceita! Você sabe que eu adoro seus pais." falou e ele segurou em uma de suas mãos.

"Você 'tá me ajudando a montar tudo! Já é um presente. E eu já paguei metade também." falou.

"A outra fica por minha conta! E não se fala mais disso!" ela disse e ele riu soltando a mão dela, que pareceu queimar.

"Já vi que não vou conseguir te convencer. Então obrigado. O que virou seu apê? Escolheu?" perguntou.

"Ainda não, mas acho que vai ser aquele mesmo. Você e Denise que vão cuidar da open, hein?" falou e ele riu.

"Para de dar trabalho pra gente!" exclamou.

"Vocês são meus padrinhos! Têm que me mimar!" riu divertida.

*

Milena foi direto para o apartamento de DC para poder gravar. Assim que ele a recebeu, deu um riso verdadeiro ao ver o quanto ela estava sorridente.

“Oi, DC! Tudo bem?” cumprimentou sorridente.

“Tudo! Tá feliz hoje!” comentou fechando a porta.

“Notícias maravilhosas me deixam assim.” deu um giro.

Ainda sorridente, o rapaz a encarou.

“Mesmo? E o que aconteceu?” perguntou.

“O Grózny se fodeu bo-ni-to! Senta que a história é longa e maravilhosa!” falou ainda sorridente.

DC se sentou cruzando as pernas e ela se sentou com ele e contou a história e sobre sua ida à GGeek.

“Enquanto eu ‘tava indo, eu fui combinando com a galera uma comemoração! Você está convidado e não aceito um não como resposta!” falou e ele deu de ombros ainda sorrindo.

“Pedindo desse jeitinho, nem tem como negar. Vai ter que abrir um champanhe pra comemorar esse momento.” respondeu.

“Nem tive tempo de comprar um. Corri de um canto pra outro desde que soube.” respondeu.

DC se levantou.

“Não seja por isso.” falou e foi até a geladeira, de onde pegou uma garrafa de champanhe ainda lacrada.

“Ganhei em algum dos meus shows e nem abri. Acho que esse grande momento merece.” falou pegando duas taças.

“Beber em trabalho?” ela perguntou.

“Hoje pode.” falou já abrindo a garrafa.

Após servir as taças, deu uma a ela.

“Um brinde a esse grande momento.” falou.

“A esse grande momento.” repetiu, juntando as taças.

Após beber, ela se levantou em um pulo.

“Agora, ao trabalho! Estou muito curiosa sobre o que você quer falar na lavanderia.” exclamou.

“Eu tinha pensado uma coisa super nada a ver, mas acho que daria pra começar a parte que falo da minha família lá e depois cortar pra quando eles falarem.” respondeu.

“A lavanderia simboliza alguma coisa na vida de vocês?” ela perguntou.

“Não, é a ideia de lavação de roupa suja mesmo.” respondeu.

Milena o olhou.

“Antes de ligarmos as câmeras e tudo mais… quer me dizer algo sobre seus pais?” perguntou.

“Eles queriam que eu fosse igual o Nimbus, então tem julgamento o tempo todo.” respondeu.

“Entendi… e o que fez você querer colocar eles no seu mini doc?” ela perguntou.

“Eles se convidaram. Eles vieram de surpresa ontem e me arrastaram pra um monte de coisa, mas brigamos e nem meditar pra acalmar os ânimos eu consegui, tive que apelar pra pintura.” desabafou.

“Além de músico, também é pintor?” ela comentou surpresa e ele riu.

“Ah… não me chamaria de pintor, eu rabisco. Quer ver?” perguntou.

“Quero!” aceitou.

DC nunca mostrava suas pinturas a ninguém, mas Milena simplesmente despertava boas sensações nele. Ao entrar no quarto, a moça olhou para os vários quadros e percebeu um padrão.

“Você gosta de arte abstrata!” observou.

“Você gosta de pinturas?” ele perguntou.

“Não sou tão chegada assim, mas tenho uma amiga que é. São bonitos seus quadros. Por que não mostra essa sua camada?” ela perguntou.

DC riu.

“Sei lá… eu não me exponho tanto assim, na verdade. Pelo menos até o escândalo.” respondeu.

Milena o olhou.

“Até hoje você não me disse exatamente o que aconteceu.” falou e ele puxou uma cadeira para ela, que se sentou, e foi até a janela.

“Minha banda e eu fomos contratados pra tocar no aniversário de um amigo ricaço do meu pai. O problema foi que além de querer jogar na nossa cara que só tinha nos chamado por consideração ao meu pai, ‘tava ofendendo a banda, atrapalhando o show, falando muita merda… um horror! O cachê era muito bom, mas eu não tolero esse tipo de coisa, então eu simplesmente parei de tocar, xinguei o cara no microfone mesmo, levantei e saí. Como o cara é rico, isso viralizou, só que fora do contexto.” começou.

“Minha banda ‘tava aceitando as merdas que ele dizia porque eles precisavam da grana, então minha saída no meio ferrou com as coisas. Tanto que eu quis terminar a banda, porque não estou disposto a engolir sapos. Mas como continuamos amigos e ainda tocamos juntos às vezes, somos uma banda de Schrödinger, estamos vivos e mortos ao mesmo tempo.” continuou.

Milena começou a juntar peças e as coisas começaram a fazer sentido.

“Eu não me arrependo de ter surtado, mas eu assumo que poderia ter feito isso de um jeito que não prejudicasse eles. O Toni é um modelo freelancer, a Isa é atriz de teatro e o Jerê é estudante, eles não têm pais ricos que nem os meus que é só eu pedir que pronto, dinheiro na conta. Então, pra eles, um cachê a mais vai fazer diferença.” completou.

“Uau!” Milena exclamou e ele riu.

“É… uau!” concordou.

“Se me permite, acho legal que não tenha julgado seus amigos por terem “aceitado” o que ele dizia por precisarem da grana.” a moça opinou.

“Não vou mentir pra você, Milena. No dia, a gente discutiu e eu julguei. Nessa discussão, Isa me disse que eu precisava aprender mais sobre o que é a vida e como ela muda de pessoa pra pessoa. Eu pensei muito depois, e foi aí que eu vi que deveria ter agido diferente.” falou e ela assentiu.

“Fico feliz que tenha percebido.” falou.

“Você já passou por isso alguma vez?” perguntou e ela riu.

“Um dos motivos de eu aturar o Grózny é a Dream ter sido a única agência em que eu pude fazer meus horários. Tenho a sorte de meus pais me ajudarem financeiramente, mas ainda preciso e prefiro completar. Fora que eu gosto de ser fotógrafa.” respondeu.

Após a resposta ela se levantou.

“Vamos voltar ao trabalho? Direto pra lavanderia! Olha, acho que pode dar B.O você falar que se dá mal com seus pais.” falou e ele riu.

“Acho que vem aí minha primeira omissão. Mas podemos falar sobre…” falava até ela negar com o dedo.

“Pensei que queria espontaneidade.” disse e ele sorriu.

“Desculpe, senhora.” falou e ela negou com a cabeça.

“Pra você pensar nas mentiras ou omissões, vamos focar naquela questão dos instrumentos que eles gostavam, um pouco de como foi lidar com o diferentão e sobre sua carreira agora.” falou.

“Como você pensa nessas coisas tão rápido?” perguntou e ela deu de ombros.

“Eu também não sei. Vamos lá!” falou e os dois saíram.



*

O trabalho com Agnes não havia sido o único naquele dia. Após retornar para casa de um recital de dança, Cascão se jogou no sofá e encarou o teto com uma expressão péssima enquanto se lembrava da conversa que tivera com um cliente.

“Fracassados como você se dão bem com fracassados como eu.” o outro disse.

“E por que eu seria fracassado?” perguntou.

“Ué, cara, você fez um perfil tosco no tinder alugando sua amizade pra pagar a fatura depois de ter sido irresponsável com dinheiro por causa de ex. Espero que seus pais ou essa ex não saibam disso. Eu sentiria muita vergonha no lugar deles.” lembrou da fala do cliente.

Na hora, havia ficado tão sem reação que não respondeu. Depois, enquanto voltava de ônibus, pensou nos vários xingamentos que poderia ter proferido. Mas, agora, as palavras doíam.

“Tenho que parar de responder com sinceridade quando me perguntam por que eu fui pro Tinder!” respondeu enquanto se virava.

Sua mente o fazia pensar não só na parte do Tinder, mas também em outras esferas de sua vida que o deixavam inseguro, como o futebol e seu rendimento na faculdade.

“Mente vazia é oficina mesmo, hein? Acho que vou correr um pouco!” falou indo se vestir para correr na rua.

Antes de sair, viu seu celular tocando, era uma solicitação de vídeo-chamada de Magali.

“Oi, casada! ‘Tá sumida!” atendeu.

“Briguei com a Mônica, então dei um tempo do zap pra ela refletir.” respondeu.

“Não era mais fácil só ter dado um block temporário?” ele perguntou.

“Não. Que cara é essa? Parece estar triste.” Magali observou e ele suspirou.

“Fui chamado de fracassado por um cara e ficou na cabeça, sabe? O pior foi que eu fiquei sem reação em vez de mandar o cara ir se foder.” confessou.

“Que idiota! Fracassado é ele, Cas! Você sabe o quanto é incrível!” falou.

“É, mas… eu queria ter falado na cara dele.” remoeu.

“Queria estar aí pra gente ir falar com esse merda.” falou e ele riu.

“Tu não mete medo em ninguém! Como estão as coisas aí? Ainda brigada com o mozão?” perguntou.

“Não, a gente já fez as pazes. Ele se tocou que eu estava certa, como sempre. Acabou seu acordo com a Agnes, né? Como foi?” ela perguntou.

“Os pais dela são um porre. Mas acho que ela agora não tem mais nojo de mim, até quis manter contato.” revelou.

“Ela é sua vizinha, acho que seria estranho não manter. ‘Tá indo sair?” perguntou e ele assentiu.

“Correr um pouco pra ocupar a mente.” respondeu.

“Não vou te atrapalhar. Fica bem, ‘tá? Haters gonna hate.” falou.

“Me derrubar é um pouco mais difícil. Tchau, casada! Vê se faz as pazes com a Mônica.” disse rindo e desligou.

Ao sair, deu de cara com uma animada Milena.

“Oi, Cascão! Você vai, né?” perguntou.

“Onde?” perguntou.

“Não viu a mensagem? Galera vai pro Bidu pra comemorar que o Grózny se fodeu.” respondeu.

“Sério? O que rolou?” ele perguntou.

Após a moça explicar, Cascão abriu um sorriso e a abraçou.

“Aí, sim! Eu não ‘tava a fim de rolê hoje, mas agora eu vou com toda certeza!” garantiu e a amiga riu.

“Você não tinha escolha. Mas eu ouvi direito? Você negando rolê?” perguntou surpresa.

“Umas fitas aí, mas depois eu conto. Hoje é dia de comemoração!” exclamou.

As horas passaram depressa, até finalmente ser hora de irem ao Bidu, onde muita coisa poderia acontecer.

Notas finais
De acordo com a wiki, o pai da Carmem se chama Cornélio