Almejar

20 Capítulo XX - Uma dose de amor


Notas iniciais
Boa leitura!

O vento frio do ar condicionado deixava a sala gelada durante a live de Nikolas. Havia ficado algumas horas jogando, então decidiu conversar um pouco com seus telespectadores antes de encerrar a transmissão.

“Nik, eu fui na Dream e tive uma péssima experiência. O que aconteceu, Demolidor01?” perguntou enquanto dava um gole em sua água.

“O gerente me olhou torto e me empurrou pro pacote econômico, sem nem me perguntar qual eu queria, e ainda disse que dava pra contratar esse pacote pelo zap. Ele me tratava com má vontade e a fotógrafa parecia fazer o mesmo. Não foi a que você marcou, era uma de cabelo rosa e cara de nojo.” leu.

O relato fez Nikolas lembrar de sua experiência, algo que o revoltou, principalmente por nada ter mudado. Diante disso, decidiu finalmente tomar uma atitude drástica.

“Nossa, mano, sinto muito que tenha passado por isso! A Dream é muito boa, mas o gerente da fotografia é escroto.” começou.

“Quando eu fui lá, eu fui com o uniforme da minha loja, não achei que isso iria fazer alguma diferença, mas fez! Esse gerente aí fez essa mesma coisa, me vi no seu relato, cara. A diferença é que, na época, tinha a Milena no pacote econômico.” continuou.

“Ele foi tão burro assim pra tratar mal o amigo da filha do dono? Que é famoso ainda por cima! Ele não sabia quem eu era, Vivi045. Só depois que soube.” respondeu.

“Você sabia que ele era escroto e ainda indicou? Não, não é assim também! No dia, eu dei um toque sobre isso diretamente pra chefia de lá, que prometeu melhorias. Eu jamais iria indicar um serviço porco pra vocês, gente! Eu não sabia que tinha sido um blefe.” explicou-se.

“Você é ingênuo, Nik. Empresas não estão nem aí pra isso. Podem não estar, Dio99, mas nossa fanbase é grande o bastante pra fazer um pequeno barulho incômodo.” falou.

“Vai boicotar a empresa da tua amiga? Não é bem um boicote, é uma forma mais eficaz de melhoria. Justamente por ser amigo da Carmem, eu sei que a Dream vende a ideia de entregar sonhos, e duvido muito que ser tratado desse jeito pela roupa que você ‘tá usando, ou coisa mais séria que isso, case com essa ideia. E ela tinha ficado do meu lado quando isso aconteceu.” disse.

“Por que você esperou esse tempo todo pra hablar? Eu cheguei a pensar em fazer isso antes, mas se ele já fez isso antes e continuou na gerência, duvido muito que sairia vitorioso. Fora que a chefia tinha me prometido que tomaria providências, então eu decidi acreditar em vez de ter toda a dor de cabeça de lidar com isso de outro jeito." explicou.

“Se fosse um funcionário da GGeek, o que você faria? Falaria com a pessoa e, se continuasse, não teria muita saída.” respondeu.

O gamer leu mais algumas mensagens sobre o assunto até aparecer uma que fugia do foco.

“Mudando de assunto, você e Carmem ‘tão brigados? Vocês postaram story no mesmo lugar e não postaram nada juntos. Não, a gente não ‘tá brigado, só não postamos coisas juntos o tempo todo.” respondeu com um riso, o plano dos enigmas funcionava bem.

“Por que você sumiu do altar depois que a Carmem disse não? Vocês reparam em tudo! Eu fui ver como ela ‘tava, não é todo dia que uma noiva diz não no altar. Gente, eu ‘tô com sono. Vou encerrar por hoje. Obrigado pra quem ficou até agora, hoje rendeu! Até a próxima!” falou antes de encerrar a live.

*

Não foram necessárias muitas horas para que o exposed de Nikolas viralizasse, seus fãs de fato eram empenhados. Ainda era muito cedo quando, na Dream, o frio do dia e dos ar condicionados não amenizavam a calorosa discussão que ocorria no andar da presidência.

Desde o incidente com as bodas, Cornélio sabia os riscos que corria deixando Grózny na gerência da fotografia, o principal deles havia se concretizado: uma exposição na internet, que a cada hora furava mais a bolha, fazendo com que comentários negativos aumentassem e alguns seguidores diminuíssem.

“Ivan… você desperdiçou sua chance!” falou com os cotovelos na mesa.

Grózny o olhava amedrontado, os ataques eram tantos que havia desativado seu perfil.

“Senhor, não tinha como eu saber que o rapaz iria resgatar aquilo!” falou desesperado.

“Isso não teria acontecido se tivesse ouvido as recomendações! Ele havia ficado quieto, Ivan! Mas você foi lá e fez a mesma coisa com outros clientes! E pior, com um dos fãs dele!” o chefe exclamou.

“Como eu ia saber que era um fã do rapaz, senhor Cornélio?!” interrogou.

“Era só tratar o cliente como um cliente deve ser tratado: bem! Mas nem isso você fez!” o outro rebateu.

“Perdoe-me, senhor! Isso não vai se repetir.” Grózny assegurou.

“Claro que não, até porque sua situação aqui não é mais a mesma! Você sabe que estimo muito os seus pais, mas tudo tem um limite!” Cornélio exclamou.

O gerente de fotografia franziu o cenho.

“Perdão… o que o senhor quer dizer com isso?” perguntou.

“Você vem cometendo uma sequência de péssimas escolhas! O caso de Nikolas, a demissão da fotógrafa, o desvio dos fotógrafos pro trabalho da sua sobrinha, o péssimo trabalho que ela faz no pacote econômico… continuo?” o outro respondeu.

Grózny mordeu o lábio em nervosismo.

“Perdoe-me, senhor, mas a demissão de Milena e a ida de Narcisa para o pacote econômico foram estratégias para levar clientes aos pacotes mais caros.” tentou se explicar.

“Uma péssima estratégia! Além de fazer os números caírem, os clientes estão duvidando da ética e moral da empresa! Prometi aos seus pais que não te deixaria na pior, mas não vejo outra solução para consertar esta bagunça senão desligá-lo.” o chefe falou.

Ivan sentiu o chão sumir de seus pés.

“O senhor… o senhor está me demitindo?” perguntou e o outro assentiu.

“A integridade da Dream vale muito, Ivan! Então, sim. Agradeço sua colaboração e pode ter certeza que todos seus direitos serão respeitados, inclusive em relação ao que está acontecendo na internet. Pode passar no RH e tenha uma ótima nova trajetória!” falou enquanto virava a cadeira, ficando de costas para o outro.

O ex gerente de fotografia ficou sem fala enquanto se levantava da cadeira e saía devagar. Assim que deixou a sala, deu de cara com uma sorridente Carmem ao lado de Isabele.

“Oi, Grózny. Que belo dia, não?” Carmem cumprimentou sarcástica.

O homem a encarou bem, querendo falar muita coisa, mas decidiu não piorar as coisas.

“Talvez para a senhorita. Com licença.” falou antes de sair.

A moça e a mãe entraram na sala.

“Acabaram de me dizer que o exposed deu uma certa engajada nas nossas redes sociais, mas não de um jeito positivo. Um advogado até brincou que um processo seria menos impactante.” Isabele comentou enquanto bloqueava seu celular.

“Não se ele falasse pros fãs que processou. A fanbase dele é grande, gente.” Carmem comentou risonha.

“Você sabia que ele ia fazer isso, Carmem?” o pai perguntou sério.

“Não! Pelo visto, isso só aconteceu porque um fã contou a experiência. Mas, mesmo se eu soubesse, eu ficaria de novo do lado dele. Nunca entendi por que o Grózny ainda trabalhava aqui, ele nem era bom!” a moça exclamou.

“Minha filha, no mundo corporativo, prezamos muito pelas trocas de favores. Os pais do Ivan nos ajudaram muito quando a Dream estava começando, então tínhamos que retribuir.” o pai explicou.

“O grande problema foi que Ivan não é tão íntegro como os pais.” Isabele falou.

“Vocês sabiam que o Grózny agia assim?” Carmem perguntou sincera, sabia que Grózny não era exemplar, mas, até o ocorrido com Nikolas, nunca havia dado atenção a isso.

Cornélio suspirou.

“Você acha mesmo que Nikolas foi o único a reclamar, minha filha? A diferença foi que a fama dele causou barulho.” revelou.

A mais nova suspirou. Não era ingênua para não saber que toda a beleza da Dream, e até mesmo de sua família, escondia coisa demais.

“E o que vão fazer?” ela perguntou.

“Nossos advogados estão preparando uma retratação, mas podemos contar com sua ajuda em algo.” a mãe falou.

“No quê?” perguntou.

“Você e Nikolas são próximos. Então podemos usar isso a nosso favor.” respondeu.

A filha riu sem humor.

“Meu relacionamento com ele não é uma moeda de troca. Se fizerem tudo certinho, sem ficar tentando usar a imagem dele pra se promover, talvez ele possa compartilhar a retratação, mas não achem que só porque ele é meu namorado que vai ignorar tudo que aconteceu e bater palmas pelo mínimo.” respondeu.

Os mais velhos olharam surpresos, tanto pela profundidade da fala da filha quanto pela revelação do relacionamento.

“Namorado?” a mãe repetiu.

A filha riu.

“Eu não ia falar agora, mas... a gente ‘tá junto.” revelou.

Cornélio riu.

“Sabia que ele tinha alguma coisa a ver com aquele não. Mas isso é perfeito! A influência dele na internet pode ser ótima pra Dream!” comentou enquanto coçava o queixo com interesse.

“Não, pai! Não vai envolver o Nikolas nos seus esquemas empresariais! Ele já tem as próprias preocupações com a GGeek e eu não quero que nossa relação tenha esse tipo de interesse!” ela exclamou.

“Depois falamos sobre isso. A princípio, só peça para ele compartilhar a retratação, assim os fãs dele verão que estamos tentando melhorar.” Isabele sugeriu.

“Isso eu posso pedir.” falou.

“Que tal jantarmos juntos amanhã? Adoraria conversar com meu novo genro.” Cornélio sugeriu.

“Os paparazzi vão achar que estão tentando suborná-lo, melhor não. A não ser que seja em casa.” Isabele raciocinou.

“Promete que não vai tentar enfiar ele na Dream ou ficar falando de negócios?” Carmem pediu.

“Prometo!” Cornélio disse.

“Então vou falar com ele.” disse enquanto saía.

Por mais que a moça tivesse uma relação fria com os pais, havia ficado feliz em contar a eles antes de revelar para a internet.

*

Um pouco mais tarde, Mônica deixou o prédio, que transbordava fofocas sobre a demissão de Grózny, e foi almoçar em sua casa após resolver questões burocráticas com um fornecedor. Aproveitou que havia batido com o horário de Cebola e o convidou para comer com ela.

“Então o Grózny foi demitido? Uau! Soube que ele tinha o rabo preso com os Frufru, achei que isso nunca iria acontecer.” o rapaz comentou.

“Força maior! Ou era isso, ou a Dream que rodava, então é o famoso: antes ele que eu. O Grózny era só mais uma peça.” falou após engolir seu alimento.

“Milena que deve estar feliz com a notícia. Lembro que ela fez uma festa no Bidu pra comemorar que ele tinha se dado mal.” Cebola lembrou.

“Eu falei pra ela, mas ela não viu a mensagem ainda. Se ela fizer, eu vou! Eu também odiava ele! Só espero que os Frufru não tentem enfiar o Nik nesses esquemas deles, porque parece que ele e Carmem tão de rolo.” a moça disse.

“Ela disse isso?” o moreno perguntou.

“Quando ela foi me pedir desculpas, ela disse que tinha outra pessoa. E a Agnes trabalha na GGeek, ela já viu.” fofocou.

“Não me surpreende. Mas acho que não tem com que se preocupar, Mô. O Frufru vive puxando o saco dele e ele nunca cedeu.” falou e Mônica riu.

“Até porque ele nem precisa, Cebola. Mas chega de fofocar e vamos falar de você! 'Tá chegando a formatura!” exclamou e ele riu.

“Nem me lembre disso!” falou.

“Por quê? Acha que vai sentir falta da vida universitária?” ela perguntou.

“Sei lá. É que… eu tento seguir seu conselho e não colocar o carro na frente dos bois, mas… é tão difícil. Foi muito tenso ter largado tudo pra virar wedding planner?” ele perguntou.

Mônica riu.

“Ah, Cebola… eu não larguei tudo pra me tornar wedding planner. Quando eu comecei, eu ainda ‘tava na faculdade. Foi só quando vi que aquilo ‘tava me fazendo feliz, me dando dinheiro e o Direito perdendo o sentido que eu larguei.” falou.

“Fora que nem comecei já sendo wedding planner, comecei como auxiliar de organização de eventos e foi sofrido! Mas… as coisas finalmente estão nos eixos.” explicou.

“E como você não surtou? Sabe… vendo que tudo parecia distante.” o moreno questionou e ela riu.

“Eu surtei. E no meio desses surtos, eu me dei conta que não tinha pra que correr. Por mais difícil que seja acreditar nisso.” falou calmamente.

Cebola a encarou com os olhos brilhantes. Mônica deixava sua vida mais leve.

“Mônica, você é tão… incrível! Eu não poderia ser mais sortudo por ter te conhecido.” declarou-se sem perceber.

Mônica sorriu timidamente.

“Não é pra tanto também. Mas eu também me considero sortuda por ter você na minha vida. Você me faz ver que há vida além da organização de casamentos.” falou antes de unir seus lábios aos dele.

O som do celular de Mônica os interrompeu.

“Oi, senhor Eusébio. Ah, sim, estou aí em uma hora. Tchau, tchau.” ela atendeu.

“Uma hora? O lugar é tão longe assim?” Cebola perguntou surpreso e ela sorriu.

“Não, é pertinho. Mas estou em horário de almoço. Sempre me dizem que tenho que ser menos workaholic, então… estou tentando fazer isso.” falou e ele sorriu abertamente.

*

O tempo passou depressa demais para o casal. Assim que Mônica se retirou, Cebola correu para a faculdade, onde conseguiu achar Cascão com alguns amigos.

“Cascão! Eu preciso de um favor… só deixa eu respirar primeiro.” falou enquanto apoiava a mão no joelho para recuperar o ar.

“E isso, senhoras e senhores, é um exemplo do que vamos achar nas academias.” o amigo o zombou.

“Roga praga, não, Cascão!” um deles disse rindo.

“Vocês são atletas! Fica fácil julgar.” Cebola se defendeu.

“Precisa da minha ajuda pra quê?” o amigo perguntou.

“Na verdade, não só sua. Envolve também suas vizinhas.” falou.

Cascão franziu o cenho.

“No que tá pensando, Malucão?” perguntou e o amigo sorriu decidido.

“Um plano infalível!” exclamou, fazendo o outro revirar os olhos.


*

Alheia aos acontecimentos da Dream, sentada no palco de madeira enquanto ajudava a decorar o local, Milena estava no teatro junto de DC, Isadora, Jeremias e Toni.

“Obrigada de novo por virem, gente! Eu realmente precisava de ajuda com esse cenário.” Isadora agradeceu.

“Seus pedidos passivo-agressivos sempre funcionam.” Jeremias comentou.

“Eu sou um amor!” ela disse.

A cacheada cortava uma flor de EVA quando teve uma ideia.

“Toni, quanto você cobra pelos seus serviços de modelo?” perguntou ao loiro, que colava algumas dessas flores em um painel.

“Depende do tipo de foto. Por quê? Conhece alguém que precisa de um gostoso?” perguntou dando uma leve rebolada.

“Gostoso eu não sei, mas eu preciso de um modelo. Tenho que renovar meu portfólio.” ela respondeu.

“Ah, Mileninha… pra você eu faço de graça.” o loiro disse com um sorriso.

“Por que será que tudo que o Toni fala parece flerte?” Isadora observou.

“É só meu sex appeal transbordante.” o loiro disse, fazendo os demais rirem.

“Quem se relaciona com você merece um prêmio de insalubridade pelas coisas que ouve.” a cacheada comentou.

“Ela 'tá há menos tempo no grupo e já percebeu que você é esquisito, Toni. 'Tá no caminho certo, Milena.” Jeremias comentou antes de fazer um high-five com ela.

“Ah, que isso... Aposto que em um universo paralelo, Milena e eu formamos uma excelente dupla.” Toni falou.

“Fala isso na frente do namorado dela? Que é seu amigo, inclusive!” o de pele negra observou.

“Com todo respeito, é claro. E nem era necessariamente amoroso, safado.” falou.

“Até parece que você teria alguma chance, Marco Antônio. Agora num universo paralelo… eu não sei.” DC disse.

“Tenho minhas dúvidas. Mas voltando ao assunto, posso contar com você? Você me faz um descontinho em vez de trabalhar de graça." ela perguntou e ele assentiu.

“Ah, mas por que só o Toni fica com a parte legal? Eu adoro ser fotografada! Por uma profissional então...” Isadora disse.

“Não é nu artístico, não, Exibicionista.” Toni zombou.

“Vai se lascar, Toni.” a loira rebateu.

Milena estralou o dedo.

“Você me deu uma ideia, Isa. Eu tinha pensado no Toni por ele já ser modelo mesmo, mas pode ser legal usar pessoas que não são modelos… mas aí acho que vou oferecer um ensaio como pagamento… porque pagar vários modelos pesa meu bolso.” comentou pensativa.

“Parabéns, Isadora! Tirou o pão da minha boca com a sua inveja!” Toni brincou.

“O dia que eu tiver inveja de você, Marco Antônio, o mundo acaba. Mas eu adoraria ganhar um ensaio, Milena.” a loira falou.

“Então vamos fazer! Eu vou ver se Sarah e Luca podem me ajudar! Jeremias, se quiser fazer ensaio de casal… a hora é agora!” levantou-se e correu com o celular.

“Denise vai querer! Eu tenho certeza!” Jeremias comentou pegando o celular e saindo.

“Milena, espera aí! Hoje, não, né?! Tenho que estar minimamente preparada!” Isadora correu atrás dela.

“Alguém aqui foi esquecido.” Toni deu um tapa no ombro de Do Contra.

“Ela já me fotografou antes. Não só isso.” ele respondeu.

“Não quero saber o que acontece num quarto com vocês dois e uma câmera, cara.” o outro disse.

“Tudo é sacanagem pra você? Vai se tratar, moleque!” DC rebateu.

“Eu 'tô te zoando! Mas falando sério agora, aquilo que eu falei sobre sermos uma excelente dupla era brincadeira. Sei que você é meio ciumento.” Toni se justificou.

“Você se justificando? Acho que aquele Toni do universo paralelo está aqui e o daqui está lá.” o amigo falou com um riso.

“Eu tento ser um cara certinho e vocês me esculacham!” exclamou antes de sair de lá.

Milena retornou com um sorriso gigante nos lábios.

“DC! DC! A Sarah e o Luca toparam me ajudar! E novidade! A Mônica me enviou uma mensagem dizendo que o Grózny foi demitido! Pelo visto, o Nik fez exposed da escrotice dele depois disso ter se repetido com um fã, aí deu no que deu! O mundo gira, meu amor!” ela disse, dando um giro ao fim.

Do Contra sorriu gracioso enquanto a girava novamente.

“Duas ótimas notícias! Pretende fazer outra comemoração no Bidu em honra à demissão do Grózny?” perguntou.

“Tá querendo ir no Bidu, Maurício?” perguntou e ele deu de ombros.

“Tenho boas lembranças de lá… e acho que é um momento que precisa ser comemorado.” falou enquanto a abraçava.

“Eu também acho, mas não vou fazer uma festa, vou deixar mais íntimo. Mas hoje não dá, tenho que dar uma ajudinha pro Cascão e Cebola. Você pode ajudar também!” respondeu.

“Ajudar no quê?” perguntou curioso.

“Cebola 'tá chamando de plano infalível.” falou e o outro riu.

“Isso é brega até pra mim. Mas eu topo ajudar! Assim como no teu ensaio fotográfico… mesmo eu não tendo sido convidado.” respondeu fingindo estar decepcionado.

A morena riu.

“Eu não me esqueci de você, meu amor.” falou o abraçando e ele riu.

"Tenho um jantar com meus pais hoje. Quando acabar, eu vou lá!" combinou.

"Beleza! Agora vamos terminar essa decoração!" ela disse voltando ao que fazia antes.

X

As horas passaram rápido, logo já era hora do jantar de Do Contra com sua família. Desde o mini doc, o rapaz estava mais próximo dos pais, porém, essa proximidade também aproximou outros parentes, os mesmos que não gostava muito. Todavia, para não estragar o evento, preferia falar o menos possível e ficar somente o necessário.

A mesa estava posta e farta. Nela estavam seus pais, seu irmão, algumas tias, tios, primos e primas. Muitas conversas aconteciam enquanto DC comia em silêncio, contando os minutos para sair de lá, alegando ter um compromisso.

“Vocês ficaram sabendo do que aconteceu na Dream? Parece que aquela tua fotógrafa está envolvida, Maurício.” uma tia comentou.

“O que aconteceu?” fingiu não saber.

“Como você não sabe? Só se fala disso nas redes sociais!” ela disse.

“Eu não uso redes sociais.” respondeu.

“O Nik expôs a escrotice do Grózny. 'Tá surgindo mais relatos e gente descendo a lenha na Dream. O negócio 'tá feio!" Nimbus revelou.

“Falta de classe desse rapaz! Podia ter só falado com os superiores do funcionário, mas não... tem que fazer alarde pra se aparecer!” a tia disse.

“Ele falou no off, mas não adiantou de nada.” Nimbus ressaltou.

“Ah, mas mesmo assim. Pra piorar, vi que o rapaz é amigo da filha do Cornélio. Uma falta de consideração enorme! Vai prejudicar uma empresa por causa de uma confusãozinha.” um tio disse.

“O cara foi lá contratar um ensaio e foi maltratado pelo gerente do setor fotográfico… confusãozinha não é a palavra.” DC enfim opinou.

“Isso é o que ele diz.” a tia disse.

“Isso é o que muita gente tem falado que aconteceu! Gente que trabalha lá já comentou sobre o Grózny tratar assim quem não é rico.” Nimbus lembrou.

“Todo funcionário reclama do chefe.” a outra disse.

“Eu conheci o Grózny pessoalmente, ele é um bosta! Acho que Nikolas demorou até muito pra expor o caso.” DC disse.

“Olha o vocabulário, Maurício!” a mãe exclamou, ela e o marido preferiam não entrar nessas discussões.

“Mas o rapaz também não se ajuda! Vai num prédio fino como a Dream usando um uniforme de loja furreca? Estava esperando o quê? Que ele oferecesse um pacote de custo alto só pra mostrar aquilo que ele não poderia ter?” o tio falou.

“Pai, o Nik é muito famoso na internet! Ele poderia ter o outro pacote. O uniforme era da loja dele!” uma prima disse.

“Se tem uma loja, deveria saber que essas polêmicas prejudicam os negócios.” ele falou.

“Parem de passar pano pra preconceituoso!” Nimbus exclamou.

“Não é passar pano! Eu só acho que o rapaz levou a sério demais uma simples confusão. Ninguém é obrigado a saber quem é influencer ou se o uniforme de alguém é da própria empresa! Se bem que uma lojinha… nem pode ser chamada de empresa. Tipo o bar do meu pai! Não tem como alguém estar em um nível alto tendo uma coisa daquelas.” a mais velha disse.

“Eu não ‘tô ouvindo isso…” DC apertou os olhos.

"Tia, ele fez a exposição porque um fã dele passou pela mesma coisa! Não é uma confusão quando se repete!" Nimbus exclamou.

“Gente, já chega! Deixa que o Cornélio se preocupa com isso. Maurício, Milena resolveu aquele problema com o rapaz que ofendeu o mini doc?” o pai tentou mudar o foco.

“Faz tempo. Ela tem gente do lado dela.” o filho respondeu.

“Que bom! Gosto tanto da minha nora! Futura veterinária, sabiam?” Keiko comentou.

“Não mais.” DC revelou, fazendo os pais o encararem.

“Ela vai abandonar um curso promissor como aquele?” o pai perguntou surpreso.

DC riu.

“Ela estava infeliz naquele curso, então…” falava até ser interrompido.

“Aposto que você que enfiou isso na cabeça dela. É um à toa.” uma tia disse sem pudor algum.

“Não, não enfiei nada na cabeça de ninguém. Eu não iria insistir que alguém abandonasse um curso universitário, mas também não iria incentivar a continuar fazendo uma coisa que não vê futuro nenhum.” respondeu.

“Você bem que podia aplicar esse conselho à sua vida e voltar pra arquitetura.” o pai resgatou uma crítica.

“Como assim?” perguntou.

“De não continuar fazendo uma coisa que não dá futuro. Como já dissemos, você leva jeito com música e é algo importante pra você, mas não é estável! Devia fazer igual seus colegas de banda! Que têm a música como um hobby!” a mãe disse.

O rapaz bufou.

“Eu achei que já tinha passado a fase de odiar minhas escolhas.” comentou.

“Nós nos preocupamos com você.” ela falou.

“Inclusive, abre teu olho com essa tua namorada, hein?” o tio comentou, fazendo-o franzir o cenho.

“O que quer dizer com isso?” perguntou sério.

“Ah, Maurício… você pode até ser meio afastado da família, mas continua sendo um Takeda! E ela sabe disso.” ele respondeu.

“E…? Aonde quer chegar?” o mais novo perguntou com a voz um pouco mais alta.

“A garota abandonou a faculdade e não fotografa mais, justo quando começa a namorar um rapaz de família próspera. Logo pede um presentinho aqui, um paga isso pra mim ali, um vamos morar juntos lá… e quanto for ver, você estará bancando ela.” a tia disse.

Do Contra encarou boquiaberto.

“Não acredito que eu 'tô ouvindo isso… estão achando que ela está comigo por interesse?” interrogou.

“A garota veio com papo de namoro pra cima de um rapaz que é todo excêntrico! Isso não é comum! Você é de família abastada, meu filho! Abre teu olho!” a tia disse.

Do Contra riu sem humor enquanto sentia seu sangue ferver.

“Vocês não fazem a menor ideia do que estão falando!” exclamou.

“Maurício, calma!” a mãe segurou em seu braço.

“Como, mãe?! Estão falando mal da Milena! A pessoa que a senhora, meu pai, o Nimbus e meus avós gostam; que nunca me tratou mal, como praticamente a família toda me trata; e ainda me ajudou a sair da lama financeira e existencial! Eu aguentei o assunto merda até agora, mas não vou ficar calmo e quieto enquanto falam merda da minha namorada!” esbravejou furioso.

“Antes de mais nada, ela não abandonou faculdade! Ela TROCOU de curso porque não se identificava com a Medicina veterinária para trabalhar com isso! E também não deixou de ser fotógrafa, ela só saiu da Dream! Sabe por quê? Porque o santo Grózny se incomodava com ela ser melhor que ele e a sobrinha juntos e fez o possível pra que ela saísse! Pode perguntar pra qualquer funcionário do setor fotográfico de lá!” continuou com o rosto cada vez mais vermelho.

“Então vocês lavem essas bocas antes de sonhar em ofender a Milena! Ela é uma das pessoas mais responsáveis, íntegras, estudiosas e comprometidas que tive o prazer de conhecer e me inspirar!” concluiu.

“Maurício… calma. Não foi minha intenção…” a tia dizia até ele se levantar, jogando o guardanapo de seu colo na mesa.

“Ah, claro que era! 'Tava até agora arrotando preconceito! Agora eu lembrei por que nunca vinha nessas coisas de família! É muito julgamento, preconceito, hipocrisia e prepotência! Eu tenho pena de vocês!” gritou irritado antes de sair do local.

Do Contra nem se deu o trabalho de chamar um uper e muito menos de responder aos chamados de sua mãe, que corria atrás de si.

“Maurício, espera! Você sabe que sua tia é muito… conservadora em alguns assuntos. E ela não conhece a Milena! Se conhecesse, não falaria isso.” Keiko falou.

“Se a senhora e meu pai não conhecessem ela pessoalmente, também achariam que ela estaria comigo por interesse? E o caso da Dream? Vocês acham que o errado é o Nikolas?” parou de andar e cruzou os braços ao encarar a mãe.

A mais velha abriu e fechou a boca, sem ter uma resposta, fazendo com que o filho negasse com a cabeça e se virasse novamente.

"Meu filho! Espera!" ela o puxou de volta.

"Já ouvi o bastante!" falou.

“Não, você não ouviu! Entenda, Maurício: o caso do rapaz, eu concordo com você! Ninguém deve ser tratado daquele jeito, ainda mais em uma empresa como a Dream. Mas o caso da Milena… Sua tia errou, mas entenda o lado dela.” falou.

O moreno riu irônico.

“Entender?” repetiu.

“É! Entender! Você pode ser o subversivo que for, mas continua sendo um Takeda. Aquele escândalo te atingiu mais que seus colegas, porque você é um Takeda! As pessoas do condomínio falam sobre você, porque você é um Takeda! E esse mesmo sobrenome pode atrair pessoas boas e pessoas interesseiras. Sua tia exagerou, mas você sabe que é um argumento válido!” falou seriamente.

"Sendo válido ou não, ela ofendeu minha namorada! A senhora conhece ela! Sabe que isso nem tem lógica!" o mais novo ressaltou.

“Justamente por conhecer a Milena, eu sei que ela não é interesseira. Mas quem pega as informações sem contexto, que não conhece vocês e a relação de vocês… pode pensar de tudo.” ela falou.

DC olhou para a mãe com os olhos sérios. Naquele momento, lembrou-se da fala de um dos amigos dela sobre ela ter escolhido um playboy, mesmo que sequer soubessem seu sobrenome.

“Mas, por mais que eu prefira Maurício, não te chamam de Do Contra à toa.” Keiko continuou, acariciando-lhe o rosto.

O rapaz sorriu para a mãe. No fim das contas, não havia sido o único atingido pelo mini doc.

“Desculpe por estragar seu jantar, mãe.” pediu e ela negou.

“Tua tia sabe ser um pé no saco! Vai pra casa, filho.” falou ele a abraçou antes de ir.

X

Em casa, após preferir pegar um ônibus a fim de esfriar a cabeça, o rapaz decidiu meditar. Como de costume, ficou seminu, colocou seus óculos escuros e ligou o heavy metal, mas nada parecia funcionar, sua mente continuava barulhenta e revoltada.

“Nada me acalma!” reclamou.

De repente, ouviu batidas em sua porta. Não queria conversar com os vizinhos, então nem se preocupou em se vestir. Porém, ao abrir a porta, um sorriso se desenhou em seu rosto sério ao dar de cara com Milena.

“Oi! Nimbus me disse que você ‘tava mal e eu fiquei preocupada. Ele até me deu a chave! O que aconte…” não terminou de falar, já que o namorado a abraçou fortemente.

A mente ficava menos barulhenta e seu corpo relaxava conforme apertava mais a namorada contra seus braços.

“O que aconteceu, meu amor?” ela perguntou e ele deu passagem para ela e fechou a porta.

“Odeio jantares em família.” comentou antes de revelar o ocorrido.

Após ouvir a história, sentados no sofá, Milena o encarou surpresa.

“Uau…” balbuciou enquanto se escorava ao corpo dele.

“Por isso eu não sou próximo da família.” ele comentou.

“Sinto muito que tenha ouvido isso. Mas fico feliz que ficou favorável ao Nik e que me defendeu.” falou e ele a abraçou.

“É claro que eu defenderia! E o Nik é gente boa. Fora que foi naquela festa que eu me vi apaixonado por você.” falou beijando-lhe a têmpora.

Milena sorriu antes de se virar para ele, aproximando-se mais.

“Meu herói, hein?” falou rindo antes de começar a beijá-lo.

O som intenso e ritmado das cordas do heavy metal se igualava ao passeio que os dedos de Do Contra faziam na perna de Milena, que brincava com o pé do cabelo dele no processo, com leves passadas de unha na nuca. A alcunha de Maurício podia dizer muito sobre si, mas mesmo sendo do contra, ainda tinha seus instintos e anseios, que tornavam perceptível seu desejo pela namorada.

Com Milena não era diferente. Tinha um namorado atraente, que a fazia feliz e não tinha nada mais íntimo há um tempo, então sua libido estava acesa, o que também era perceptível em seu corpo.

A seminudez do rapaz, fruto de sua meditação, deixava tudo ainda mais intenso, assim como a vontade crescente de as peças da moça também sumirem. Em meio a um beijo que desceu até o pescoço, Milena caiu em si.

“Maurício…” ela sussurrou em meio à respiração ofegante.

“Hm?” balbuciou descendo os lábios até o ombro da namorada.

“Aqui não… o Nim… o Nimbus pode aparecer a qualquer momento.” falou sentindo o corpo cada vez mais quente.

O moreno se levantou, levantando-a junto.

“Tem razão! Seria horrível sermos interrompidos por ele! Você nunca foi no meu quarto, né?” perguntou enquanto a carregava.

“É o único cômodo daqui que eu não conheço.” ela falou sem tirar os olhos dele e logo estavam no quarto.

Milena olhou rapidamente para o cômodo: muitos pôsteres e quadros na parede, uma escrivaninha cheia de papéis e uma cama aparentemente confortável e desarrumada. Não prestou atenção em detalhes, seu corpo estava ardente.

“Amor, este é meu quarto. Quarto, este é meu amor.” ele apresentou, fazendo a rir.

“É um prazer te conhecer, quarto do meu namorado. Espero que a primeira impressão não seja a que fique.” brincou antes de ser colocada na cama.

“Ele é que nem o dono: um subversivo que não liga pra essas convenções.” disse antes de se juntar a ela novamente, beijando-a amorosamente.

A distância entre a sala e o quarto fez com que o som da música se tornasse abafada, assim como os gemidos que o casal soltava em meio a beijos e carícias mais íntimas e roupas cada vez menos presentes.

Devidamente protegidos, o clima parecia esquentar mais conforme os movimentos se tornavam mais intensos e velozes. Nenhum dos dois estava em sua primeira experiência, mas fazia um tempo que não tinham nada com ninguém, porém não se sentiam enferrujados ou tímidos. Estavam corajosos, desinibidos e apaixonados, tanto que cada toque, cada beijo e cada movimento se assemelhava a um pedaço dos céus.

“Ah… um multi-instrumentalista realmente sabe tocar muita coisa…” ela o provocou em meio a uma carícia.

"Só eu?" respondeu enquanto a cheirava e ela lambeu os lábios.

No ponto alto, em meio aos movimentos mais intensos e urgentes, o ar foi expelido da boca de Milena através de um gemido prazeroso ao mesmo tempo que a boca de Do Contra alcançou seu pescoço, depositando ali um chupão, que a fez se contorcer levemente em meio a um riso.

“Deliciosa…” sussurrou no ouvido dela, fazendo-a se arrepiar.

Ainda ofegantes e extremamente satisfeitos, a moça o abraçou, recebendo carícias nas costas nuas.

“Isso foi maravilhoso, DC.” ela disse o olhando nos olhos.

“Você é maravilhosa, Milena. Em tudo! Eu te amo!” respondeu enquanto a olhava amoroso.

A cacheada sorriu carinhosa e um tanto emocionada. Eram raros os “eu te amos” ouvidos, ainda mais com tanto sentimento, carinho e ternura.

“A cada dia que se passa, DC… eu tenho mais certeza que fiz a escolha certa em ter aceitado aquele trabalho do Grózny e… ter me aproximado mais de você. Eu também te amo!” retribuiu e ele sorriu antes dos lábios serem novamente selados.

*

Longe dali, no apartamento de Nikolas, o rapaz e a namorada estavam deitados no tapete da sala enquanto o som de uma música soava e o cheiro de comida quase pronta aromatizava o ambiente.

"Ninguém mais fala do meu casamento. Acha que iriam surtar se a gente revelasse nosso namoro?" ela perguntou.

"Acho que compliquei seus planos com o exposed. Foi mal." falou e ela negou com a cabeça.

"Tudo bem. Estou do seu lado!" falou entrelaçando sua mão à dele.

"Meus pais querem jantar com você amanhã, mas já deixei claro que não quero que falem de negócios ou que fiquem tentando te enfiar na Dream." ela disse.

"Acha que eles vão cumprir a promessa?" perguntou e ela riu.

"Não. Não se surpreenda se de repente tiver convidados a mais amanhã. Mas... mesmo não sendo sentimental, eu fiquei feliz em dizer que você é meu namorado." falou e ele a olhou.

"Acho que vou sentir o mesmo quando disser pros meus pais." falou.

"Faz isso agora, por ligação." ela disse enquanto se levantava.

O rapaz se sentou e alcançou seu celular, interrompendo a playlist.

"Oi, mãe! Tenho uma novidade!" ligou para a mais velha.

"O quê?" a voz de Flora soou.

"Carmem e eu estamos namorando." disse olhando para a loira, que estava na cozinha vendo se o alimento estava pronto.

Ouviu-se o riso da mais velha.

"Eu sabia que aquele não tinha dedo seu." ela disse.

"Dedo meu? Tinha meu corpo inteiro!" brincou, fazendo a namorada rir também.

"Estou feliz por vocês, meu filho. Dava pra ver que existia algo. Quero almoçar com minha nora!" falou.

"A gente marca! Tchau, mãe! Te amo!" falou antes de desligar.

Carmem sorriu.

"Está feliz?" ela perguntou e ele sorriu abertamente.

"Estou! Mas eu acho que ela já sabia..." comentou e a moça se juntou a ele.

"Dizem que as mães sempre sabem. O que seus pais disseram do caso do Grózny?" ela perguntou.

"Felizes eles não ficaram, mas gostaram que eu falei. Fiz questão de falar de demissão, aí eles deram um riso gostoso!" comentou e ela sorriu.

"Vou fazer o possível para que não tenham mais pessoas como ele na Dream." ela assegurou, o que chamou a atenção do namorado.

"Você nem se importava com a Dream... o que mudou?" perguntou e a moça riu.

"Ver as coisas sob outro prisma muda muito. E ter o cara que eu amo sendo destratado... mais ainda." falou e ele a beijou carinhoso.

Novamente, os dois se deitaram e encararam o teto.

“O que você almeja, Carmem?” ele perguntou de repente.

“Como assim? Pensando no nosso relacionamento?” a moça perguntou.

“Pensando na vida em um todo. O que te motiva, com o que você sonha… o que você quer da vida?” Nik perguntou.

Carmem ficou temporariamente sem uma resposta.

“Eu não sei se penso assim, Nik. Sempre fui de marés momentâneas. Por exemplo, eu quis casar pra vencer da Amanda e sabia que teria publis novas, mas esse pensamento a longo prazo… não sei se eu tenho de verdade.” respondeu sincera.

“Você nunca parou pra pensar nisso?” o rapaz perguntou e ela riu.

“Na verdade… eu pensava quando 'tava na escola. Eu não pensava em fazer Adm', eu fiz porque meus pais queriam que eu fizesse. Bom… muita coisa eu fiz pensando no que eles queriam que eu fizesse! Meu namoro com o Cebola não me deixa mentir.” revelou.

“O que você queria fazer?” ele perguntou.

A moça o olhou.

“Eu sempre gostei de moda e beleza. Descobri que gosto de plantas e… é divertido trabalhar com eventos.” respondeu.

“A Mônica deve discordar tanto de você…” supôs e ela riu.

“Se ela não gostasse, teria pulado fora e não seria tão boa.” a moça comentou.

“Será que você traumatizou ela? Um super trabalho pra noiva dizer não.” ele perguntou.

“Ela recebeu, então o papel foi cumprido. Mas é isso! Não sei ao certo o que eu almejo… você me deixou pensativa!” Carmem disse.

“Não existe uma resposta certa. Você também pode ser uma pessoa de marés momentâneas.” o namorado comentou.

“Mas será que eu quero ser uma pessoa de marés momentâneas?” a loira questionou.

“Aí é com você, gatinha.” ele respondeu e ela riu.

“E você, Nik? O que você almeja?” foi a vez de ela perguntar.

“Ah…muita coisa! Que eu continue feliz com meu canal, que eu consiga formar, que a GGeek prospere cada vez mais, que meu relacionamento seja feliz… muita coisa.” respondeu e ela sorriu.

“Você é fofo!” apertou-lhe a bochecha, fazendo-o rir.

Carmem ficou alguns segundos só o observando, estava feliz.

“Acho que tem uma coisa que eu almejo… em termos de vida amorosa.” falou.

“O quê?” ele perguntou.

“Que você sempre esteja comigo e que a gente construa aquela metade que você disse no discurso das bodas.” revelou.

Nikolas a olhou surpreso.

“Você ainda lembra do discurso? Nem eu lembro o que eu disse!” comentou.

“Aquela parte me marcou. Não sei se foi porque eu achei fofo ou porque eu já queria que você vivesse aquilo tudo comigo!” confessou, recebendo um beijo em resposta.

“Eu olhei pra você na hora, então... a gente estava em sintonia. Quando você me pedir em casamento, pode repetir ele. Vai colar.” falou e ela riu.

“É você que vai me pedir em casamento! Eu quero um pedido super instragamável e que me faça chorar, senhor Nikolas.” apontou.

“Vou lembrar disso na hora de coloca o robô pra escrever o pedido.” ele brincou.

“Faz isso e eu caso com o robô! Vamos comer? 'Tô com fome. Você é apetitoso, mas meu apetite é outro.” ela disse enquanto se levantava.

O rapaz riu enquanto se levantava em um pulo.

“Carmem! Na frente do broto, não!” apontou para a plantinha que crescia.

Carmem sorriu e se aproximou.

“Não tinha visto! Quando foi que brotou?” perguntou olhando a plantinha que crescia.

“Eu sinceramente não sei. Em um belo dia, estava aí. É das sementes das bodas.” respondeu.

A loira o olhou.

“Plantada com um propósito e cuidada com amor? Se sim, as raízes vão ser firmes.” falou e ele riu.

“Você decorou o que 'tava no cartão?” o rapaz cruzou os braços ao perguntar.

“Não… eu meio que carrego essa frase comigo. E quando estou com a minha raiz firme, isso floresce. Direto pro story.” falou enquanto tirava uma foto da planta.

Nik se aproximou e a abraçou por trás.

“Eu sou sua raiz firme, Carmem Frufru?” perguntou brincalhão e ela assentiu sorridente.

“É! Eu sou a sua?” perguntou enquanto se virava para ele.

“Mais do que você imagina.” disse antes de girá-la e ela rir, seu relacionamento dos sonhos de fato se concretizava.

*

Mais tarde, no apartamento das meninas, vários corações de papel laminado eram cortados, bexigas no formato de coração enchidas e o aroma de uma comida gostosa perfumava o local.

Milena enchia uma bexiga quando o namorado lançou um sorriso e um beijinho, que a fez rir e soltar o ar, esvaziando a bexiga.

“Para! Eu 'tô tentando encher o negócio aqui!” reclamou risonha.

“Eu não 'tô fazendo nada. 'Tô aqui com minha tesoura e papel laminado.” falou inocentemente.

“Bonito esse tom de vermelho. Acho que vou procurar um batom nesse tom. Acha que vai ficar bom?” perguntou provocativa, fazendo-o morder o lábio inferior.

“Acho!” respondeu sorridente.

Cascão, que decorava a mesa, riu ao lado de Agnes, que cuidava da salada.

“Certeza que esses dois fizeram sapecagens.” ele comentou.

“Como você sabe?” ela perguntou de cenho franzido.

“O casal fica diferente depois que rola.” falou.

“Sério?” ela perguntou e ele assentiu.

“Quando é casal de verdade e não lance de uma noite só, o nível de intimidade muda muito. Ver alguém pelado, com direito a caras e bocas, muda muita coisa.” comentou e a moça acabou rindo.

Cebola, que estava cozinhando, também começou a gargalhar.

“Para de estragar a experiência, Cascão! Falando assim, parece um negócio estranho.” reclamou.

“O que parece estranho?” DC perguntou.

“Nada não. Mas falando em estranho, não é estranho o Cebola saber cozinhar bem? Ele tem cara de quem não sabe nem fritar um ovo.” Cascão desconversou.

“Sua falta de fé é perturbadora.” Cebola engrossou a voz para citar.

“Deixa o Darth Vader fora disso.” Cascão apontou um garfo.

“Cebola, não se esqueça de deixar um pouco desse jantar na geladeira pra gente. O cheiro tá ótimo!” Milena pediu.

“Tô tentando entender a lógica por trás do cardápio. Você pediu onigiris; 'tá fazendo macarrão com brócolis e bacon; estou te ajudando com uma salada; fez aquele negócio super chic; e vai finalizar com morangos com chocolate… qual o sentido?” Agnes comentou.

“São referências. Onigiri foi uma coisa que a gente comeu quando nos conhecemos; o macarrão é de uma vez que cozinhamos juntos na resenha do Cascão, o bacon é pra afugentar ele, inclusive; o negócio chic, o vol-au-vent, comemos na degustação e depois reproduzimos aqui; a salada é pra dar uma equilibrada; e os morangos… é porque é gostoso e romântico.” explicou.

“Uau! Apaixonado mesmo.” ela disse.

“Uma dose de amor sempre cai bem!” o rapaz disse presunçoso.

“E o que a gente vai ficar fazendo enquanto rola o jantar?” Cascão perguntou.

“Ah, sei lá. Soube que o Grózny foi demitido, imagino que Milena queira comemorar.” Cebola lembrou.

“Ela já comemorou, Cebola.” Cascão insinuou risonho enquanto subia e descia as sobrancelhas, fazendo-a rir.

“Cala a boca, Cascão! Eu tinha pensado numa coisa mais intimista pra comemorar este grande momento, mas parece que minha casa está interditada de amor hoje.” brincou.

“Esquenta não, Milena. Faço um grupo no zap agorinha chamando a galera e a gente cola no Bidu.” Cascão sugeriu, abraçando Agnes pelos ombros.

“Vamos marcar pra amanhã, mais tempo pra planejar e Mônica também vai poder ir. E podemos ir num lugar mais barato ou gratuito! Tenho que economizar na comemoração, tenho que pagar a Sarah e o Luca pelos vários ensaios que vamos fazer.” falou.

“Ensaios?” Agnes perguntou.

“Preciso renovar meu portfólio e pensei em chamar gente que tope ser pago com um ensaio fotográfico gratuito, porque pagar todo mundo iria me falir demais.” explicou.

“Eu 'tô nessa! Mas, qualquer coisa, deixo você usar a bio que eu usei no Tinder pra alugar a amizade e ganhar um troco.” Cascão falou e ela riu.

“O tanto de tarado que iria dar match… não recomendo.” DC comentou.

“Já imaginei um cara peladão no sofá.” Cebola riu.

“Que filme de terror! Aconteceu isso com você, Cascão?” Agnes perguntou.

“Um peladão no sofá, não. Mas teve um cara que deu em cima de mim, uma mina que tentou me ajeitar pra avó dela e uma outra que 'tava querendo coisa que prefiro não comentar. Aquilo lá dá de tudo!” exclamou.

“E deu a grana que você precisava?” DC perguntou.

“Minha melhor cliente colaborou muito.” sorriu para Agnes, que também riu.

“Você não sentiu medo de estar caindo numa cilada monstra, Agnes?” Cebola perguntou.

“Eu ‘tava muito desesperada! Mesmo que na época Cascão e eu não fôssemos próximos, me senti um pouco aliviada quando vi um rosto conhecido. E que sabia onde morava caso precisasse ligar pra polícia.” ela respondeu.

“Precavida!” Milena comentou.

“E você, Milena? Nos ensaios que você faz sozinha, nunca bateu um medo?” o namorado perguntou curioso.

“Na verdade, era bem raro eu ir sozinha pra algum ensaio. Sarah e Luca sempre estavam comigo, e quando eu ‘tava sozinha, mandava minha localização pra eles, pro Grózny e às vezes pra uns amigos aí.” falou.

“Amigos aí?” Cebola repetiu com um riso.

“A família dos nossos rolês apocalípticos é bem unida. Não por acaso, tinha bastante gente comemorando quando o Grózny se deu mal.” Cascão disse.

“São os que aparecem nas resenhas?” Agnes perguntou.

“A maioria. Não é todo mundo que eu chamo pra colar lá em casa. Minha mãe sempre disse que tem que tomar cuidado com quem deixa entrar na tua casa, porque pode levar sujeira demais.” respondeu.

“Concordo em todos os sentidos.” Agnes disse.

“E olha que você mudou muito, Agnes! Ainda tiramos os sapatos, mas você está menos atacada.” Milena observou.

A loira sorriu.

“Era isso que eu queria e achava que nunca conseguiria.” ela disse.

“Se quiserem, podem ir pro meu apartamento. Eu moro sozinho.” DC convidou.

Cascão riu.

“Relaxa, mano. Agnes e eu podemos nos aventurar na rampa enquanto vocês dois se aventuram entre lençóis.” Cascão provocou.

Cebola gargalhou, Agnes olhou para Milena com um riso, DC deu de ombros e Milena negou com a cabeça.

“Às vezes eu te odeio, Cascão!” Milena disse e ele sorriu abertamente.

“Nós todos sabemos que não.” falou.

Todos continuaram fazendo o que faziam. Em vários momentos, os olhos de Cascão se direcionavam para a loira, que limpava folha por folha de alface após tê-las deixado de molho na água sanitária por alguns minutos.

Aquele cuidado o fez pensar por alguns segundos.

“Eu nunca lavei folha assim, não tenho uma alimentação boa que nem a dela e muitas outras coisas que tem a ver com limpeza… será que isso pesa demais?” perguntou-se.

Saiu de seus devaneios com uma bexiga estourando.

“Pulmão 'tá bom, hein?” Cebola zombou.

“Essa bexiga que é de péssima qualidade, Cebolácio.” Milena respondeu rindo.

“Tem que ser mais forte que isso pra deixar alguém sem ar.” DC comentou, fazendo Cebola gargalhar.

“Vocês estão tarados hoje.” comentou.

“Eu ‘tava realmente falando de bexigas, agora se você entendeu outra coisa… talvez o tarado seja você.” DC respondeu.

“Quem 'tá fazendo jantar romântico é você, Cebola.” Agnes comentou.

“Estão tirando todo o sentimento envolvido!" ele reclamou.

*

Um pouco mais tarde, Mônica respirou fundo ao estacionar seu carro na garagem. Seu dia havia sido exaustivamente longo e tudo que queria era seu chuveiro e sua cama.

“Planejar casamentos de uma noiva que ama influencers é mais difícil do que eu pensava! Muda de ideia a cada story visto!” reclamou enquanto descia de seu veículo.

Ao sair do carro com sua bolsa, percebeu algo na parede em frente à sua vaga: um cartão no formato de coração.

“Com este voucher, você libera o acesso à uma surpresa…. deve ser coisa da Milena! A demissão do Grózny deve ter inspirado ela!” riu enquanto saía da garagem.

Ao chegar em sua porta, viu outro coração grudado na porta e sorriu ao abri-lo.

“Vá até o apartamento ao lado. Isso 'tá me deixando curiosa! Mas primeiro, um banho!” falou rindo enquanto ajeitava a bolsa em seu ombro.

Destrancou a porta, mas não conseguiu abri-la, era como se algo a trancasse por dentro. De repente, um papelzinho passou por baixo da porta.

“Apê errado, espertinha! Ah, qual foi? Eu preciso de um banho! 'Tá bom!” riu antes de tocar a campainha ao lado, após a porta não abrir.

Seus olhos cresceram quando deu de cara com Cascão e Agnes, ele segurando um vestido num cabide com uma mão e uma caixa de sapatos na outra; e ela com uma toalha e uma necessaire.

“Gente… o que 'tá acontecendo?” perguntou.

Nenhum dos dois disse nada, apenas foi entregue um bilhete, também no formato de coração.

“Milena tá empenhada demais em comemorar a demissão do Grózny, hein? Tem até imersão!” comentou enquanto pegava o bilhete.

“Sei que voltou cansada do trabalho, então tome um banho relaxante. Depois, volte ao seu apartamento. Seu banheiro é usável, Cascão?” perguntou e ele assentiu.

“Agnes fez questão de lavar pra esse momento, então está limpo como nunca esteve.” ele enfim falou.

Mônica riu e foi até lá, decidida a entrar no plano.

Após tomar banho e se vestir com o mesmo vestido usado no dia em que conheceu Cebola, deixou o local, onde também ficaram suas coisas.

“Eu ‘tô muito curiosa!” exclamou e esfregou as mãos ao, enfim, abrir a porta de seu apartamento.

Assim que a porta se abriu, encarou boquiaberta antes de cobrir a boca com a mão.

O apartamento, que estava cheiroso e iluminado à luz de velas, possuía várias bexigas no formato de coração espalhadas pelo chão e corações em papel laminado grudados no teto. Somado a isso, tocava uma música romântica e lá estava Cebola, com um belo sorriso enfeitando seus lábios e um buquê de rosas vermelhas.

“Oi, Mônica!” cumprimentou e ela sorriu abertamente.

“Cebola… eu achei que… o que é tudo isso?!” perguntou ainda sorrindo enquanto olhava ao redor.

O rapaz se aproximou.

“Mônica, eu… eu sou um homem muito grato por ter te conhecido. Desde o momento que você entrou na minha vida, eu sinto que estou cada dia mais feliz. Você me fez ver a realidade de outro jeito, me fez perceber que a vida é mais que materialismo e… e me fez descobrir o que é o amor.” falou e ela sentiu lágrimas umedecer seus olhos.

Cebola se colocou em um único joelho e, trêmulo, segurou em uma das mãos de Mônica.

“Desde aquele dia que eu não me casei, e vim correndo pros seus braços, eu sinto que minha vida mudou completamente... para melhor! Principalmente porque eu vi que te amo! Quer namorar comigo?” pediu.

Mônica sentiu lágrimas deslizando em sua bochecha enquanto assentia com a cabeça.

“Sim, Cebola! Eu quero namorar com você!” exclamou antes de abraçá-lo, assim que ele se levantou.

Um beijo recheado de paixão marcou o início do namoro.

“Eu também te amo, Cebolácio!” ela sussurrou antes de beijá-lo várias vezes.

O som do estômago da moça os impediu de continuarem os beijos.

“Vamos comer, namorada?” perguntou estendendo uma mão a ela, que a pegou com um sorriso aberto.

“Vamos, namorado! O que temos pra hoje?” perguntou enquanto ia sentar na mesa enfeitada.

“Macarrão com brócolis e bacon, vol-au-vent de frango, uma saladinha para equilibrar, uns onigiris para completar e morangos com chocolate de sobremesa. Ah, e claro, um vinho para molhar a garganta.” falou, tirando as tampas de cada um dos alimentos conforme falava.

Mônica olhou para tudo e depois para ele.

“É impressão minha ou esse cardápio foi meticulosamente pensado?” perguntou e ele assentiu.

“Essa era a surpresa.” falou e ela o acariciou.

“Eu amei! Eu… isso vai soar estranho e pouco profissional, mas eu não poderia estar mais feliz por uma noiva ter dito não num casamento que planejei.” falou e ele riu.

“E eu não poderia estar mais feliz por ter sido abandonado no altar.” disse e foi a vez de ela rir.

Mônica não conseguia parar de sorrir e Cebola ainda sentia seu coração batendo rápido. A moça sempre gostou de pedidos inesquecíveis e sorria com as histórias de como os namoros de seus casais haviam se iniciado, e agora ela também tinha um para chamar de sua.

*

Um pouco mais tarde, na rampa, em uma rodinha, vários amigos de Cascão falavam banalidades enquanto tomavam cerveja barata e comiam salgados gordurosos do bar da esquina. Alguns, um pouco mais afastados, fumavam.

Agnes mentiria se dissesse que não estava surpresa por participar de uma dessas rodinhas com quem não tinha muito contato, e mais ainda se dissesse que não estava gostando.

“A gente sempre vai achar que a infância era melhor porque a gente não tinha os problemas que têm hoje.” um rapaz deitado falou.

“Mas e quem teve infância traumática?” uma garota perguntou.

“Não vai lembrar da infância de um jeito bom, simples. Alguém aqui teve infância traumática?” ele perguntou.

“A minha foi um pouco.” Agnes respondeu.

“Como foi tua infância, Agnes?” um deles perguntou.

“Pais rígidos e hipocondria.” respondeu.

“Nossa, que merda! Mas não tem nenhuma memória boa?” uma garota perguntou.

“Tenho! Minha infância e adolescência não foram 100% ruins, mas… eu acho que a parte traumática sobressaiu.” respondeu.

“Uma merda isso! Agora que você falou de adolescência, eu lembro mais dos momentos chatos que dos legais.” uma moça, que fumava, comentou com um riso.

“Real! Eu me sentia muito deslocado na escola e achava que ninguém me entendia. Foi depois de velho que eu comecei a ligar o foda-se.” um deles disse enquanto brindava com uma garota.

“E você, Cascão? Tem cara de ter zero traumas.” Agnes disse e ele riu.

“Tive uma boa infância e adolescência. Eu lembro mais dos momentos bons, por isso acho que aquela época era melhor. Tipo… meu eu de 7 anos só 'tava preocupado em brincar e correr da chuva, mas meu eu de agora… é faculdade, dívidas, futebol, sonhos distantes… tudo! E costuma vir tudo junto.” respondeu após morder uma coxinha.

“E você, Agnes? Acha que antigamente era melhor?” uma garota perguntou e ela riu.

“Não. Eu diria que estou no meu melhor momento agora.” respondeu.

“Aí, sim!” um deles riu.

A roda ficou silenciosa, sendo ouvido apenas o som da noite e de algumas pessoas tossindo após passarem um cigarro.

“Vamos brincar de pega-pega?” um rapaz sugeriu do nada.

“Mano… não sei nem se ainda sei brincar disso.” um outro falou.

“O nome é autoexplicativo!” ele disse.

“Fechou! 'Tá com você!” Cascão disse já se levantando.

“Calma aí! Meu organismo precisa de uns minutinhos! Não tenho mais o joelho e disposição da infância!” um deles riu.

“Também! Fuma mais que a caipora! Teu pulmão deve estar só as cinzas!” Cascão riu ao dizer.

“Não é pra tanto também!” exclamou.

“Corre, Agnes! Mas nem se esforce muito, esse dai não 'guenta correr por 2 minutos.” Cascão disse.

Agnes hesitou por um instante, mas decidiu topar a brincadeira. Minutos depois, a loira gargalhava alto e cheia de graça, como acreditava nunca ter rido. Pega-pega não era uma brincadeira que costumava brincar, e se imaginava ainda menos fazendo isso na vida adulta, mas havia gostado.

Enquanto corria do rapaz que estava incumbido de pegar, sentiu ser abraçada.

“Peguei!” Cascão a abraçou com um riso e ela riu mais.

“Nem 'tá com você, Cascão!” ela disse com um largo sorriso.

"Agora é você que está comigo." ele disse antes de beijá-la no rosto.

Em um ato de alegria, a loira se virou e o envolveu em um abraço apertado antes de beijá-lo nos lábios, cheia de vontade.

“Cascão… eu… eu realmente estou vivendo meus melhores dias!” ela disse.

“Fico feliz em ouvir isso, Agnes! De verdade!” exclamou e ela segurou em suas mãos.

As luzes do poste de luz refletiam nas lentes de Agnes quando encarou o rapaz. Os vários momentos que ele proporcionava somados à sensação inigualável que tinha quando estava com ele a inclinavam para uma certeza.

“Você foi responsável por isso.” disse e ele negou.

“Não… eu só dei um empurrãozinho, o resto… partiu de você! Tenho orgulho de ver você evoluindo a cada dia, Agnes! É uma das coisas mais lindas de se ver! E… estar ao seu lado para ver isso, me deixa cada dia mais feliz!” ele confessou.

A moça sentiu a boca secar e tremer. Sentia que seu peito explodiria a qualquer momento se não expressasse aquilo que seu coração clamava para que saísse. Nunca havia sentido isso antes, tanto que chegou a achar que era a ansiedade, porém, era diferente. Tão diferente que despertou sua coragem.

“Cascão, eu… eu acho que te amo.” Agnes se declarou.

Incrédulo, Cascão a encarou boquiaberto, sem conseguir emitir qualquer palavra. Antes de se recuperar de seu baque, a moça o beijou cheia de paixão, mas fora interrompida pela pessoa que deveria pegar.

“Tá com você!” ele disse antes de correr em meio a tossidas.

A moça correu atrás de outra pessoa, deixando para trás um ainda atônito Cascão.

“Isso… isso realmente aconteceu?” questionou-se enquanto olhava ao redor, tentando desvendar se era um sonho.

“Corre, vagabundo!” um colega o puxou.

Cascão correu um pouco sem rumo, mais ainda por não ter conseguido dizer uma palavra sequer a Agnes, algo que continuou mesmo após irem para casa. Ao passo que a moça pareceu não se importar, aquilo tirou seu sono.