Almejar
17 Capítulo XVII - O casamento
Notas iniciais
Quentes raios de sol aqueciam a cama de um desmotivado Cebola. Sua noite havia sido tão ruim que seu travesseiro havia sido molhado por lágrimas como não acontecia há muitos anos, e ainda assim se sentia mal.
“Ela me avisou uma, duas, várias vezes e eu ignorei. Eu ‘tava querendo o quê? E o que eu pensei que aconteceria depois do casamento? Que ficaria com ela estando casado com outra?” questionou-se.
Seu olhar se levantou para o teto e decidiu abandonar a cama.
“Agora é hora de seguir com o que eu aceitei há um mês.” disse indo até o banheiro lavar o rosto.
Ao ir até a cozinha, teve uma pequena surpresa ao ver alguns parentes bem animados. Quando retornou para casa à noite, passou tão direto que sequer viu que tinha gente dormindo na sala, então, naquele momento, lembrou-se dos parentes que haviam confirmado presença e até viajado para comparecer à cerimônia.
“Olha ele aí! Animado pra casar, rapaz?” um tio perguntou com um riso.
“Pela cara dele… a despedida foi boa.” outro observou malicioso.
O rapaz forçou um riso.
“Foi até tranquilo.” respondeu.
“Como está a noiva? Soube que a família dela é ó…” uma tia esfregou o indicador e o polegar direito, indicando dinheiro.
“É… a família dela é rica. Mas nem é por isso que eu ‘tô casando.” falou.
“E como é a história de vocês, hein? Até hoje não entendi muito bem…” uma outra tia falou.
Antes que respondesse, sua irmã apareceu junto dos primos.
“Cebola! Fala pra eles que você estudou com o Nik e que ele é seu padrinho! Eles não querem acreditar.” Maria pediu.
“Sim e sim.” respondeu.
“Ah… que mentira!” o outro disse.
“Acredita no que você quiser, cara. Eu vou dar uma volta!” disse antes de sair de casa.
Os parentes pareceram surpresos.
“Acho que ele ‘tá ansioso.” a mãe forçou um sorriso.
X
O rapaz caminhava com as mãos nos bolsos e pensamento nublado. Ao se sentar por um instante em um banco da praça, pensou ter alucinado ao ver Mônica e Cascão em um banco não tão longe.
Decidiu se aproximar devagar, conseguindo até mesmo ouvir a conversa sem ser percebido.
“O dia do noivo é basicamente ele ter um momento de relaxamento e depois se arrumar. O casamento é às sete, mas o noivo costuma chegar antes.” ela falou.
“Então é meio que o que já fizemos ontem só que com ele colocando terno?” perguntou e ela riu.
“Meio que isso, mas nada de bebidas!” alertou e ele riu.
“Acha que vai ser suave? Os outros padrinhos nem conhecem ele!” exclamou.
“Não sei, então conto com você e Nik pra deixar ele um pouco mais confortável. E sempre de olho no relógio! Acha que precisa que eu mande mensagem avisando que é pra ir?” ela perguntou.
“Você vai estar na correria, deixa que a gente se vira. Mas e aí? Como você ‘tá com esse casamento?” o rapaz perguntou.
A morena suspirou.
“Foi o casamento mais difícil que já organizei por vários motivos. Estou feliz que acaba hoje.” falou.
“Você não parece muito feliz, não.” Cascão observou e ela deu de ombros.
“Me envolvi demais, é normal ficar assim.” explicou-se.
Ao assentir, Cascão acabou vendo Cebola.
“Ah, Cebola! Chega aí!” chamou, fazendo o outro forçar um sorriso.
“E aí! Decidi andar um pouco pra… pra relaxar. Oi, Mônica!” cumprimentou nervosamente.
A moça acenou com a cabeça.
“Oi, Cebola. O grande dia chegou! Se me dão licença, tenho muitas coisas para fazer hoje, nos vemos à noite. Aproveite seu dia de noivo.” ela disse antes de sair do local.
O noivo, dolorosamente, a observou se afastar enquanto Cascão o observava.
“Melhorou da dor de cabeça?” perguntou cruzando os braços.
“Que dor de cabeça?” Cebola perguntou.
“A que você disse que fez você ir embora da própria despedida de solteiro.” respondeu e o amigo o olhou.
“Bom…” não soube responder.
“Se ‘tava tão ruim assim, podia ter falado. Só não ficou um climão porque o povo ‘tava entretido, mas eu fiquei chateado.” Cascão falou.
“Não ‘tava ruim, é que eu… eu fui chamar a Mônica e ela me pediu pra me afastar dela.” revelou.
“Como assim?” o outro perguntou.
Cebola contou todo o ocorrido, inclusive sobre os sentimentos recíprocos, o que fez o amigo soltar o ar pela boca.
“Sendo sincero, eu já sabia disso.” revelou.
“E não me disse nada?!” Cebola questionou incrédulo.
“De que ia adiantar? Você é noivo da filha do chefe dela, mano! Ela é uma super profissional, então deve estar com a cabeça fodida por se sentir assim. Eu acho a amizade de vocês legal, mas entendo ela querer distância. Eu também iria querer.” respondeu sincero.
O amigo respirou fundo.
“O que eu faço? Me distancio da pessoa que eu realmente sinto alguma coisa e me caso com a que não sinto nada?” perguntou.
“Faz o que tiver que fazer, Cebola. Mas lembrando que, de um jeito ou de outro, vai ter alguma consequência.” o outro respondeu e se levantou.
“Você solta essa bomba e vaza?” o noivo perguntou.
Cascão riu.
“Até parece que você não sabe disso. A gente se vê depois pro seu dia de princesa.” disse antes de sair de lá.
Cebola ficou pensativo com a fala do amigo. Tinha que fazer o que devia fazer, mas o que devia ser feito?
*
Em outro lado da cidade, Do Contra olhou para o grande prédio da Dream ao descer do carro junto de sua banda.
“Acreditam que eu nunca vim na Dream? Bonito aqui.” Isadora comentou.
“Não perdeu muita coisa.” DC disse sem muito ânimo.
“Ah, para! O problema é o Grózny, não prédio todo. Tanto que você conheceu sua pitanguinha aqui.” Toni repreendeu.
“Verdade! Uma amiga minha já fez bico no buffet daqui e disse que eles são gente boa. Milena só deu azar de cair com o gerente escroto.” Jeremias completou.
O amigo assentiu, de fato a raiva que sentia por Grózny o impedia de olhar por esse ângulo.
Não demorou muito para seus pais chegarem, momento este que Ivan apareceu, como se já os aguardasse.
“Olá, família Takeda e amigos! É um prazer tê-los na Dream.” cumprimentou cortez.
Eles se direcionaram até a sala pequena que DC entrou na primeira vez que esteve no prédio, Sarah e Luca terminavam de ajeitar os equipamentos para a projeção do vídeo enquanto uma garota de cabelos rosas roubava um dos aperitivos colocados na mesa.
“Esses são Sarah e Luca, responsáveis pela edição do vídeo, e aquela é Narcisa, atual fotógrafa dos pacotes econômicos.” apresentou-os.
Aquela informação fez o rapaz entender tudo, até mesmo o que não queria.
“Bom dia, pessoal. É um grande prazer para nós do… do pacote econômico realizar um trabalho tão grandioso como o que foi o mini documentário de Maurício Takeda, caçula de nossos queridos clientes da Takeda Ltda. Foi um trabalho árduo, mas emocionante. Esperamos que seja o primeiro de outros trabalhos com você, Maurício, que pode gostar de outros pacotes também.” ela disse como se tivesse decorado aquilo, havendo um certo nojo na voz.
“Já que achou emocionante, imagino que também tenha feito alguma coisa.” decidiu testá-la.
“Não, mas meu tio… quer dizer, o senhor Grózny que fez os créditos.” ela disse.
“Interessante…” comentou.
“Espera aí, cadê a Milena? Ela fez todo o trabalho! Não tinha que estar aqui?” Isadora perguntou o que os outros também queriam saber.
“Infelizmente, Milena não faz mais parte do nosso quadro de colaboradores. Até tentamos contato com ela para que viesse prestigiar o cliente que acompanhou por dias, mas não tivemos retorno. Acredito que ela esteja orgulhosa do trabalho que fez. Vamos começar?” Grózny disse enquanto fazia um gesto para os outros dois.
O mini documentário havia ficado incrivelmente sucinto, emocionante e completo. Por mais que as gravações tivessem durado horas, a edição do vídeo fez parecer que tudo havia sido filmado em um único dia.
Do Contra assistiu a si mesmo com um olhar crítico e sorriso involuntário, viu ali um rapaz que conheceu mais da própria família, de sua banda e até de si mesmo. Após as luzes se acenderem, surpreendeu-se com o choro de sua mãe.
“Isso ficou tão… impressionante! Sensível! Único! Eu não imaginava esse resultado!” ela exclamou limpando os olhos.
“Milena estava certa: tudo combinou com meu filho.” o pai opinou.
“Concordo com vocês! Tem muita sensibilidade e a essência do DC em cada take!” Isadora falou também emocionada.
“Eu vi isso acontecendo! Eu vi! E ainda não imaginei que ficaria tão… redondo! Como pode ter cenas se conectam sendo que nem foram gravadas na mesma semana?!” Nimbus exclamou sorrindo abertamente.
“Sinceramente… eu sabia que ia ficar bom, mas ultrapassou minhas expectativas.” Jeremias disse.
“Por que ninguém está falando dos takes cinematográficos? Eu achava estranho quando via Milena fazendo, mas deixou a coisa diferenciada! O olhar pra rua no carro em movimento, o café pingando, o céu pela sacada… faz todo sentido quando você vê completo! Mano… eu acho que não te conhecia.” Toni comentou rindo.
Grózny sorriu pouco e encarou Do Contra.
“E você, Maurício? O que achou do seu mini doc?” perguntou.
O rapaz ainda estava em êxtase.
“Incrível! Eu me enxerguei como nunca havia me enxergado. Fico feliz que Sarah e Luca estejam aqui, mas queria muito que Milena também estivesse para ouvir esses elogios. Se teve uma coisa que aprendi convivendo com ela nesses dias foi que certos profissionais não são devidamente reconhecidos e valorizados, mesmo fazendo muito com muito pouco.” disse olhando diretamente para Grózny.
O mais velho forçou um sorriso, deixando ainda mais claro que odiava quando Milena era elogiada daquele jeito.
“Certo… repassarei o recado.” falou.
“Eu mesma faço isso, Grózny. Ela vai adorar!” Sarah disse com o celular em mãos, havia filmado.
“Mas… eu tenho uma crítica construtiva, Grózny.” DC se levantou para falar e fez questão de ficar cara a cara com o ex supervisor de Milena.
Seu sangue estava fervendo e seu coração batia mais depressa, sentia raiva daquele homem, o mesmo que pareceu se interessar pela crítica.
“Pode falar. Farei questão de repassar a ela também.” esfregou as mãos ao dizer.
“Caso façam outros mini docs, dêem os créditos do jeito certo ou façam uma ficha técnica decente.” falou seriamente, fazendo o outro franzir o cenho.
“E o que você entende de ficha técnica?” Narcisa rebateu grosseiramente.
“Narcisa! Críticas também fazem parte do trabalho. Por favor, continue.” o outro a repreendeu calmamente.
“Milena não foi só entrevistadora como apareceu. Ela filmou, cuidou do som e até do cenário. Mas nos créditos todas essas coisas estão creditadas à “equipe Dream”, como se tivesse tido várias outras pessoas quando a mais sobrecarregada foi ela! E o senhor claramente não é um diretor de filmagem.” alegou.
Os demais olhavam curiosos, sem falar nada.
“Maurício, entenda, quando seu irmão nos procurou com a proposta do mini documentário e com o orçamento, não tinha como esperar algo grandioso. Um pacote mais simples terá mais limitações.” o mais velho explicou.
“Eu entendo isso. Não estou dizendo que devia fazer um trabalho vip com um orçamento menor, e sim que devia creditar melhor a sua equipe. Porque dá a entender que está tentando passar a imagem de que foi algo com uma grande equipe, quando não foi.” esclareceu.
“E você acha isso negativo? Você pagou pouco, teve um bom resultado e ainda vende a ideia de que pagou muito por isso. Quer mais o quê?” Narcisa interrogou alto.
Aquilo chamou a atenção dos demais. Mas estavam mais interessados no desfecho e na postura de Do Contra.
“Não estou falando de pacotes, Narcisa. E sim sobre creditar as pessoas do jeito certo.” ressaltou.
“Mas eu estou falando de pacotes! Você pagou barato por um serviço bom. Vocês mesmos elogiaram, então não entendo o motivo dessas reclamações.” retorquiu.
“Do jeito que você fala, parece que se a pessoa paga pouco, ela não pode receber algo de qualidade.” rebateu.
“Vip, não.” ela respondeu.
“Por isso te convido a conhecer nosso pacote vip para serviços futuros. Se no econômico a qualidade já é boa, no vip é melhor ainda. Que tal acalmarmos os ânimos? Aceitam alguma bebida?” Grózny interveio, tocando nos ombros de DC.
O rapaz, sem cerimônias, desvencilhou.
“Como eu disse, era uma crítica construtiva sobre os créditos. E dispenso a bebida.” falou.
A sala ficou silenciosa.
“Vamos comemorar esse belo trabalho com um almoço em família?” Keiko disse.
“Claro. Grózny, agradeço pelo trabalho. Ficou ótimo e, por favor, repasse à Milena os elogios.” Nimbus, em sua posição de agente, apertou a mão de Ivan.
“Eu quem agradeço a preferência, Nimbus. E mandarei o recado.” falou.
“Um conselho, treine mais essa nova fotógrafa. Falar assim com um cliente pode te trazer problemas, ainda mais quando apontam algo a ser melhorado.” aconselhou.
“Claro! Acompanho vocês até a saída.” o outro disse.
Assim que saíram, Sarah trocou um sorriso com Luca.
“Devia ouvir esse conselho, Narcisa. Milena era muito elogiada por aqui pela educação, diferente de você.” a moça alfinetou.
Narcisa riu irônica.
“Faça seu trabalho enquanto ainda o tem, queridinha.” a outra disse antes de sair.
Luca franziu o cenho.
“O que ela quis dizer com isso?” perguntou.
A outra deu de ombros.
“Não sei, mas essa mimada não me mete medo. Você encaminhou o vídeo pro e-mail do DC?” perguntou.
“Ainda não, estou com um projeto em andamento.” falou.
“Eu encaminho, é rapidinho.” falou indo até um outro notebook, encaminhando bem rápido.
Minutos depois, Grózny apareceu.
“Sarah, pode comparecer à minha sala?” chamou.
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Minutos depois, na casa dos pais de DC, os mais velhos estavam animados. A banda preferiu não se juntar a eles, mas também havia ficado satisfeita com o vídeo.
“Por que Milena saiu da Dream, Maurício? Ela parece gostar de ser fotógrafa.” a mãe perguntou.
“Ela foi demitida ontem. O motivo é tão ridículo que me faz odiar o Grózny ainda mais e, de certa forma, ficar feliz por ela ter se livrado daquele idiota.” o filho xingou antes de contar o motivo.
“Ele não aguentou ver alguém que não fosse a sobrinha ganhando mais visibilidade… agora entendi por que essa Narcisa que assumiu o pacote econômico. Os clientes vão contratar achando que será um trabalho de qualidade e ela será a responsável. Sagaz…” o pai comentou pensativo.
“Isso pra mim tem outro nome.” o caçula comentou.
“Eu gostei de ver como você defendeu seus interesses de um jeito bem mais maduro. Você cresceu, Mauricinho.” a mãe disse, fazendo-o rir.
“Eu disse isso pra ele! ‘Tá mais maduro e alegrinho.” Nimbus riu ao dizer.
“Falando em alegrinho… falei com meus pais ontem. Pelo visto, você estava acompanhado no bingo.” o pai mudou o foco.
O rapaz assentiu.
“Sim, chamei Milena pra ir comigo.” confirmou.
“O cara tem um encontro num bingo. O quê? Acha que ninguém percebe os coraçõezinhos voando na sua cabeça quando ‘tá com ela, garotão?” Nimbus falou rindo após o irmão o olhar feio.
Aquilo acabou fazendo o caçula rir.
“E seus avós viram você beijando ela. Quando pretendia nos contar?” a mãe perguntou.
“É tudo muito recente. Esse dia no bingo foi nosso primeiro encontro.” revelou.
“E levou pra conhecer os avós. Você é emocionado mesmo, hein?!” o irmão riu.
“Foi por acaso.” respondeu.
“Convide-a para jantar hoje conosco! Realmente quero parabenizá-la. Eu não achei que isso aconteceria, mas sinto que assistir o vídeo me fez ver uma parte do meu filho que eu não via há muito tempo.” Keiko disse.
“Tenho que concordar. Talvez se tivéssemos nos atentado a isso, estaríamos menos distantes.” o pai assumiu.
DC sorriu sem perceber. Tinha vários problemas com os pais, a maioria deles por causa de sua personalidade, então, ouvir aquilo o deixou bem.
“Eu também acho. Mas seu outro filho marcou um evento para daqui a pouco e um show para a noite, então só vejo ela amanhã.” respondeu.
“Então amanhã, sem falta, iremos finalmente ter um momento agradável com nossa nora.” ela disse.
“Calma aí! Eu tenho que ver se ela aceita! E estão muito apressados com essa conversa de nora. Vão assustar a menina.” ressaltou.
“Depois de ter passado um mês te filmando, nada mais assusta ela. Se liga!” Nimbus zombou com um riso.
O outro riu enquanto enviava uma mensagem à moça, também torcendo que ela aceitasse.
*
Um pouco depois, Milena, Sarah e Marina almoçavam juntas em um restaurante próximo à faculdade.
“Ele te demitiu?! Por quê?” Milena interrogou.
“Segundo ele, corte de despesas. Mas até que foi bom, aturar a Narcisa é pagar por pecados que nem cometi.” a outra respondeu.
“Por que ela foi pro econômico? O tio dela sempre colocou ela no topo.” Marina perguntou curiosa.
“Aposto que tem a ver com a sabotagem das bodas. Ouvi dizer que Grózny teve que implorar pra não demitirem ela.” Milena lembrou.
“Sim, mas custou o vip. Aí ele viu que o pacote econômico começou a ser procurado por causa da Milena e quis enfiar a Narcisa pra ela ter vários trabalhos, só que aproveitou pra tirar a pessoa que era mil vezes melhor que ela.” Sarah fofocou.
“Mas qual a intenção dele? Usar uma fotógrafa ruim pra desvalorizar o econômico e o povo querer o mais caro ou uma segunda chance mesmo?” a artista completou.
“Prefiro nem tentar descobrir. Pelo menos não tivemos que cumprir aviso, Sarah.” Milena disse e a outra riu.
“Eu iria preferir pagar se me mandassem cumprir! O que me irrita é que ele só foi demitir a gente depois de termos trabalhado no dia!” falou.
“Ainda não entendi por que ele disse que as vagas eram limitadas sendo que a Narcisa foi rebaixada. Era só fazer uma troca!” Marina comentou incrédula.
“Ele não quer ver ninguém acima dos dele, Mari. Os fotógrafos do vip são todos amigos dele.” Milena revelou.
“Que merda! E o Frufru não faz nada…” falou.
“Aquele lá não sabe o nome de um terço dos funcionários. Fora que eles têm o rabo preso, parece que a família do Grózny era rica e colaborou muito com a Dream, aí já viu.” Sarah fofocou.
“Imaginei que teria esquema por trás. Mas, mesmo assim, vocês vão continuar no universo da fotografia, né?” a outra perguntou.
A estudante de veterinária suspirou.
“Sei lá… o Nik prometeu me indicar pra quem quisesse fazer fotos fora de estúdio, então pensei em postar sobre estar fazendo isso sem vínculo com a Dream.” disse.
“Ótima ideia! Vamos fazer sociedade, Mi. Uma fotógrafa e cientista junto com uma editora de fotos e tatuadora.” Sarah sugeriu.
“E eu? O futuro estúdio de fotos também vai ser meu ateliê, lembra? Então tratem de colocar uma artista plástica na descrição!” Marina lembrou risonha.
“Esse estúdio ‘tá cada vez mais distante, Marina.” Milena disse com a cabeça apoiada na mão.
“Vai dar uma de desistente agora?” a amiga perguntou.
“Não se trata de ser desistente, é que…é difícil manter o ânimo quando parece que nunca vai se concretizar. Eu não sou cientista e acabei de ser demitida do meu trabalho de fotógrafa onde faria contatos, então… sei lá.” desabafou.
“Não, não vamos pensar assim. Não vamos deixar nada nos desanimar. Faz o story! Eu aposto que quem já fotografou com você vai te fortalecer nessa.” Sarah falou.
Milena suspirou, passando a mão nos cabelos antes de pegar seu celular.
“Oi, gente. Recadinho importante: eu não estou mais na Dream, então, pra quem quiser fazer ensaios fora de estúdio comigo, na minha bio tem meu contato. Se estiverem atrás de uma artista plástica ou de uma tatuadora que também edita fotos, essas duas são as melhores.” gravou o story e até filmou as outras duas.
“Toda influencer, ela.” Marina riu ao dizer.
“Falando em gravação, te mandei o vídeo do DC te defendendo. Ele levou pro lado profissional, mas tinha pessoal junto.” Sarah disse.
“Ele é uma graça.” a outra falou.
“Por que mesmo você ainda não respondeu sobre o almoço com os sogrões amanhã?” Marina perguntou.
“Estou com medo das coisas estarem acontecendo muito rápido.” a outra confessou.
“Como assim?” a artista perguntou.
Milena respirou fundo.
“A gente só se conhece há um mês e os avós dele já até perguntaram quando ele vai me pedir em namoro. Nunca tive alguma coisa intensa assim, e o pior é que… não sei se eu negaria o pedido.” confessou e as duas sorriram.
“Vocês sabem que não tenho nada sério faz tempo. Mas… eu não quero algo esporádico com o DC. Ele tem várias coisas que eu fugiria de um cara: uma ex é amiga dele e a outra minha amiga, é um roqueiro em ascensão com alguns fãs que podem ou não ser malucos, gosta de uns filmes de qualidade duvidosa, tem uma família toda problemática…” enumerava.
“Mas…” Sarah percebeu, fazendo a outra suspirar.
“Mas eu sinto que aquela atração inicial está se transformando em outra coisa. Eu gosto muito de estar com ele, temos umas conversas muito divertidas e… ele beija bem demais. Eu acho que estou me apaixonando por ele. Em só um mês!” exclamou.
As duas riram.
“Quem diria que a frequentadora de rolês apocalípticos iria cair no papo do cliente excêntrico?” Marina brincou e as outras duas riram.
“Isso é sério, Marina! Eu nem sei como isso aconteceu! ‘Tá bom que eu conheci muito sobre ele durante o trabalho, mas era um trabalho.” falou.
“Milena, você conheceu a camada dele de fora do ambiente de trabalho. Foi aí que tudo aconteceu. E não pira com essa coisa de tempo.” Sarah aconselhou.
“Então aceita o convite e os parabéns pelo trabalho. Eles até já te conhecem.” Marina completou.
A fotógrafa respirou fundo e aceitou. Seu celular vibrou em seguida, mas não era uma mensagem dele.
“Nik repostou meu story.” anunciou após ver a notificação, fazendo as amigas sorrirem.
“Aí a visibilidade que você queria. E olha que ele é amigo da filha do dono da Dream.” Sarah comentou.
“Ele também odeia o Grózny. Ele mesmo disse que se eu quisesse ferrar com o Ivan, ele me ajudaria.” revelou.
“E por que não quis?” Marina perguntou.
“Eu até pensei em topar, mas eu quero tanta distância daquele velho que… sei lá. Nem quis pensar nisso. Chega de falar de trabalho! Merecemos brindar por pelo menos termos nos livrado do Grózny.” falou.
“Aos dias melhores.” Sarah levantou o copo.
“Aos dias melhores!” as outras duas brindaram.
“O que você vai ficar fazendo hoje? Já que não vai sair com o boy.” Marina perguntou.
“Tenho uma prova horrível na segunda, então vou estudar.” respondeu simples, mas já pensando no dia seguinte.
*
Agnes passava um pano seco na sala com um assobio nos lábios. A GGeek não havia aberto as portas naquele sábado, então estava de folga. Então, havia aproveitado para fazer seus exames de rotina e ir ao seu psicólogo, recebendo boas notícias de ambos, fazendo com que ficasse tranquila.
Além disso, ainda tinha o gosto dos lábios de Cascão em sua boca. Em outro momento, aquilo lhe causaria repulsa, mas não era o caso.
“E não é que Milena tinha razão sobre beijos na boca?” comentou risonha.
O som da campainha a fez se levantar e ir ver quem era. Um sorriso enfeitou seus lábios quando deu de cara com Cascão.
“Oi! Pelo cheiro de produto de limpeza, está fazendo uma das suas atividades favoritas.” cumprimentou e ela riu.
“Oi, Cascão! É meio que isso. Como sabia que eu estava aqui e não na GGeek?” perguntou.
“Porque eu acabei de falar com ele. O Cebola só é próximo de nós dois, então estava perguntando como vamos deixar ele à vontade com um monte de velho rico junto.” falou.
“Não era isso que ele queria?” perguntou.
“Velhos ricos? Não sei.” respondeu e ela gargalhou.
“Não, pessoas influentes.” explicou.
Cascão deu de ombros.
“Sim, mas ele anda cheio de dúvidas. Enfim, só vim te dar um oi e dizer que gostei de ontem.” disse e ela sorriu ligeiramente envergonhada.
“Eu também gostei.” disse e subiu o olhar.
Após uma breve troca de olhares, os dois deram um selinho.
“Sabe… eu não vou ficar muito na festa do Cebola, ainda tenho um pouco de amor próprio. Quer sair comigo hoje à noite?” convidou.
Agnes arregalou os olhos com um sorriso.
“Está me chamando pra sair?” perguntou e ele sorriu.
“Eu 'tô.” confirmou e ela suspirou.
“Eu adoraria, mas é que hoje eu prometi pros meus pais que jantaria com eles e uns parentes, . Então não vou estar aqui…” revelou.
“Ah… se não for um problema, podemos deixar pra amanhã à noite. Prometo que suas oito horas de sono não serão comprometidas.” levantou os braços.
A moça riu.
“Eu vou adorar. Aonde vai me levar?” perguntou e ele sorriu.
“É uma surpresa. Mas recomendo escolher uma coisa confortável e que não manche fácil. Tenho que ir agora, até depois!” acenou e logo deixou o local.
Agnes fechou a porta com um sorriso, ainda surpresa com o que havia acontecido. Foi aí que surgiu uma preocupação que nunca achou que teria.
“O que eu uso em um encontro que não sei onde é?” perguntou-se.
Decidiu voltar à limpeza enquanto pensava e se preparava para ver familiares, aquilo a ajudava a manter sua cabeça no lugar.
*
Carmem demorou para deixar seus lençóis naquele sábado quente até demais para um casamento. Dali alguns minutos iria para seu SPA favorito, mas não estava tão animada com isso.
“Desanimada em ir pra um SPA… é o fundo do poço mesmo!” exclamou enquanto se arrastava até o espelho.
Ao encarar seu reflexo, respirou fundo.
“Quer saber… já que estou na merda mesmo, vou tentar aproveitar o dia. O que pode ser pior que me casar com um cara que nem gosto?” comentou enquanto erguia a cabeça e ia se arrumar.
Ao chegar na sala, franziu o cenho ao dar de cara com dois rostos que adoraria não ver.
“Oh, senhorita Frufru! Mais uma vez, parabéns pelo casamento. Imagino que já conheça minha sobrinha Narcisa.” era Ivan Grózny ao lado de sua sobrinha.
“Oi, Carmem! É um enorme prazer ser sua fotógrafa particular hoje!” Narcisa exclamou.
A loira franziu o cenho.
“Minha o quê?” perguntou.
“Acabei não avisando! Escolhi uma das minhas melhores fotógrafas para estar em um momento tão especial como o dia de noiva.” falou.
Carmem riu alto. As notícias sobre o que Narcisa havia feito também haviam chegado aos seus ouvidos.
“Narcisa, você sabotou o ensaio dos pais do Nik, acha mesmo que eu iria querer você como minha fotógrafa?” falou.
A dona dos cabelos rosados ficou sem reação.
“Mas… mas eu não sabotei ninguém! Aquilo foi um erro de comunicação.” explicou-se.
“É claro que foi... Grózny, quero outra fotógrafa.” falou.
Tio e sobrinha se entreolharam.
“Lamento, Carmem. Mas sábados são dias cheios. Meus melhores fotógrafos vips estão em outros trabalhos. Sem contar que nem todos se sentem confiantes com o desafio de fotografar alguém exigente como a senhorita.” ele falou.
“Se vira.” ela respondeu.
“Perdão?” fingiu não ter entendido.
“Se vira! Não foi isso que a outra fotógrafa teve que fazer quando sua adorada sobrinha sumiu com a equipe? Então faça o mesmo!” exigiu.
Narcisa a encarava zangada, mas o tio a impediu de retrucar.
“Senhorita Carmem, sinto muito, mas não tenho nenhum outro fotógrafo à disposição. Narcisa é uma ótima fotógrafa.” ele recomendou.
“Qual parte do não quero fotografar com ela você não entendeu?” a loira rebateu grosseiramente.
“Então você vai ficar sem as fotos!” Narcisa falou ríspida.
“Ótimo, então não tem fotos!” falou e saiu de lá.
Grózny olhou feio para a sobrinha.
“Você está maluca?! Isso pega mal para o setor fotográfico! Eu já livrei tua pele várias vezes, Narcisa, você está fechando suas portas!” exclamou.
“Ah, que culpa eu tenho que ela é mimada?” perguntou.
“Você sabe que por outro motivo que ela não quer seus trabalhos. Onde você estava com a cabeça quando sabotou a garota?” perguntou.
“Eu queria ela fora da Dream!” exclamou.
“Ela está. E você está a um passo de sair também se continuar com essa postura! Os Frufru já andam irritados com a gente, não piore as coisas!” exclamou e saiu com o celular em mãos.
A de cabelos rosas deu de ombros e manteve sua expressão emburrada.
Carmem, por sua vez, estava aliviada em não ter alguém em seu pé ao longo do dia, não estava a fim de fingir emoções enquanto reprimia suas verdadeiras.
*
Os ponteiros do relógio giraram até faltar exatamente uma hora para a cerimônia. O céu já começava a ganhar tons mais escuros e sons do início da vida noturna eram ouvidos.
Cebola decidiu ir mais cedo para o espaço onde seria o casamento, seu dia de noivo havia sido bom para todos, menos para ele. Não por acaso, não saiu de um jogo de celular durante a tarde inteira.
Os últimos retoques ainda eram dados no luxuoso local quando o noivo entrou no banheiro polido e cheiroso para se vestir.
“Eu não sei o que estou fazendo…” cantarolava enquanto se embolava com a gravata.
De repente, uma figura conhecida se juntou a ele.
“Imaginei que teria problemas com o nó.” era seu pai.
“Levo muito jeito com nós, mas não em gravatas.” riu ao dizer.
O pai se aproximou.
“Sabe… sua mãe e eu estivemos bem distantes de tudo, mas queremos que seja feliz, Cebola.” falou enquanto fazia o nó.
O filho respirou fundo.
“Pai, como o senhor soube que minha mãe era a mulher certa?” perguntou de repente.
O mais velho o olhou nos olhos.
“Quando eu me vi feliz ao lado dela, independente de qualquer coisa.” respondeu direto.
“Ah…” o outro balbuciou.
“Meu filho, se quando está com Carmem se sente acolhido, amado e feliz, ignore a todos e siga o que diz seu coração. No fim das contas, é você quem vai estar lá.” disse ao terminar um perfeito nó.
O jovem olhou para o acessório e sorriu.
“Obrigado, pai.” disse e o mais velho sorriu antes de sair.
Cebola encarou seu reflexo e respirou fundo.
X
No banheiro feminino, Mônica havia acabado de colocar uma roupa social preta que usava nos casamentos, arrumar os cabelos em um coque e fazer uma leve maquiagem.
Havia corrido de um lado para o outro durante horas, resolvendo todo e qualquer mínimo problema. Por um lado, estava cansada, por outro, satisfeita.
“Força, Mônica! Agora é a parte fácil. Assim que ela disser sim e eles saírem de braços dados, acaba! E vai ser bola pra frente.” falou.
Ao sair do local, permitiu-se olhar ao redor. Havia conseguido entregar tudo que os noivos pediram.
A tão difícil união entre minimalismo, luxo e brilho havia se concretizado pelo tapete espelhado em meio a flores brancas e um altar enfeitado com flores também claras, mas em tons diferentes. Tudo sem excessos, mas colocados de modo que destacasse o luxo nos vasos.
A escolha do tom somada aos jogos de luzes visava destacar ainda mais o terno de Cebola e o vestido de Carmem, assim como o buquê de rosas e tulipas vermelhas, que dariam o contraste esperado.
Já nas outras partes, havia uma mesa com um bolo falso alto e decorado junto de docinhos de verdade e algumas plantas verdes, algumas fotos do casal e a história em quadrinhos encomendada, que também contrastavam com o restante da decoração e estavam nas mesas onde ficariam os convidados.
Por fim, próximo à entrada, estava a cabine de fotos instantâneas, um dos únicos pedidos do noivo.
Naquele momento, a wedding planner respirou orgulhosa.
“Fez um ótimo trabalho!” uma voz masculina a fez se arrepiar.
“Cebola… chegou cedo!” comentou dando dois passos para trás, sem deixar de reparar na beleza e no perfume que o rapaz exalava.
“O noivo chega primeiro, né? ‘Tá na sua skin de advogada hoje?” observou a roupa.
A moça riu e olhou para si mesma.
“Ah… sempre me visto assim nos casamentos. Falando em roupa, percebeu que seu terno contrasta com o resto? Não é por acaso.” apontou e ele riu.
“Mesmo? Que foda! Você realmente pensou em tudo.” falou sem tirar os olhos dela.
“Por isso tive muito trabalho. A propósito, olhe o que tem ali.” apontou para a cabine.
Aquilo fez Cebola rir.
“Eu tinha até esquecido disso! Tenho certeza que vai ser muito usada.” comentou e ela assentiu.
“Pois é. Bom… se me dá licença, tenho que conferir outras coisas. Fique à vontade, é seu casamento.” falou antes de se afastar rapidamente.
Ela conseguiu ouvir um suspiro, mas tentou ignorar. Foi até a movimentada cozinha e passou por uma porta, ficando em uma espécie de quintalzinho cheio de bitucas de cigarro no chão.
“Como ele ‘tá lindo! O que é aquilo?! Acalme-se, Mônica! Não bote tudo a perder! Daqui um tempinho ele vai falar sim pra outra mulher e tudo vai voltar a ser como era antes.” falou consigo mesma.
*
Não demorou para que os convidados começassem a chegar. Havia muita conversa e degustação de aperitivos leves e bebidas frescas enquanto a cerimônia não começava.
Nikolas, entediado, mexia em seu celular quando Cornélio se aproximou com alguns amigos, Cebola e, para a sua surpresa, Grózny.
“Olá, Nikolas! Senhores, este é Nikolas. Os jovens o conhecem como Nik, o geek. Uma grande estrela da internet, amigo e padrinho de Carmem e cliente da Dream.” apresentou-o.
“Olá, senhores.” acenou.
“Achei que seus pais viriam. Adoraria finalmente parabenizá-los pessoalmente pelas bodas!” Frufru disse.
“Sábados à noite são cheios para eles. E como tudo foi muito rápido, não tiveram como remarcar compromissos. Mas parabenizaram a Carmem.” explicou.
“Uma pena. Os pais dele completaram 30 anos juntos e nos escolheram para eternizar este momento. Quando Nikolas postou as fotos, até me emocionei. E pelo visto os fãs também, já que números cresceram.” o outro falou para os senhores.
“Isso é uma grande inspiração.” um deles disse interessado, aparentemente era alguém que Frufru queria que fizesse parte da Dream.
“Este é o nível da Dream.” Grózny se gabou.
O olhar de Nik se voltou para o fotógrafo, que evitou o contato visual.
“Pois é. Mas meus pais ficaram um pouco decepcionados quando souberam que a fotógrafa que os fotografou foi demitida, até eu fiquei.” comentou com falsa despretensão.
Aquilo pareceu surpreender Cornélio e amedrontar Grózny.
“Nem sempre somos bem tratados nos lugares, então é triste quando alguém que te trata bem é demitida dum lugar. Deve saber como é isso, não é, Grózny?” provocou.
O outro engoliu em seco, principalmente quando o chefe o encarou.
“Perdão, preciso ir ver como meus fotógrafos estão trabalhando. Com sua licença.” ele disse, saindo rapidamente.
“Acham que foi alguma coisa que eu disse?” o rapaz fingiu ingenuidade.
“Não, ele é assim mesmo. Os gerentes têm autonomia na contratação e demissão, então não sabia que a fotógrafa havia saído. É uma pena. Bom, vou deixá-lo aproveitar a festa. Vamos, senhores, nosso amigo vereador trouxe a nova esposa.” falou.
Cebola ficou para trás, observando Nikolas rir.
“Você é mais dissimulado do que eu imaginava.” comentou.
“Ah, Cebola… acha mesmo que vou puxar o saco do Grózny e do Frufru? Claro que não.” o dono dos dreads respondeu ainda risonho.
“Como você consegue? O Frufru falta suar frio quando você e Grózny se encontram e ele meio que puxa seu saco. Ele nem falou meu nome pra esses velhos!” o outro perguntou.
Nik cruzou os braços.
“O Cornélio empresário é assim mesmo. Ele não puxa meu saco, puxa o saco de Nik, o geek. Por esse mesmo motivo que sua frio quando me encontro com o Grózny.” ressaltou.
Cebola franziu o cenho.
“Até onde eu sei… você é Nik, o geek.” comentou com um riso.
“Sim, o mesmo que pode dar ou tirar os números que o Frufru tanto quer e que Grózny mostrou quem realmente é. Seu sogro tem passos calculados, Cebola.” explicou melhor.
De repente, uma chave se virou na cabeça de Cebola, tanto que lembrou quando o sogro havia dito que Nik tinha uma interessante visibilidade na internet. Porém, antes que falasse algo, Denise apareceu com um chamativo vestido rosa.
“Cebola, querido, vou roubar o Nik um pouquinho.” falou o puxando de lá.
Cebola ficou pensativo e olhou para Cornélio, o mesmo cuja vida profissional, até então, era uma inspiração.
“Será que ainda é?” questionou-se enquanto o mais velho sorria falsamente para um convidado.
O noivo olhou ao redor. Poucos eram seus convidados e a maioria nem mesmo Carmem conhecia. Era como se fosse mais uma festa de negócios. Por um instante, seus olhos pararam em seus pais, que não pareciam muito confortáveis naquela atmosfera de interesses, mesmo que se esforçassem.
“Possuir não é tudo… mas possuir o quê?” lembrou de uma fala.
Olhou para a cabine de fotos, onde algumas pessoas se divertiam, e viu Mônica, com seu inseparável tablet e olhar atento ao entorno.
Um sorriso se formou em seus lábios e decidiu andar um pouco.
*
Um pouco depois, não tão longe de lá, Carmem avaliava seu belo penteado, maquiagem e vestido sem ânimo nenhum. Sua mãe havia saído para terminar de se arrumar e Denise estava no celular.
“Carmem, você ‘tá seguindo aquela tradição de uma coisa nova, uma coisa velha, uma coisa emprestada e uma coisa azul?” perguntou.
“A única tradição que estou seguindo é de casar sem amor, por quê?” a loira perguntou olhando a parte de trás do vestido.
“Diz aqui que traz boa sorte pros noivos. Você vai precisar.” ela zombou.
A noiva acabou rindo.
“Impressionante como até hoje você me zoa. E eu não sou supersticiosa.” falou.
“Tá, mas pedi que trouxessem uma coisa azul pra você. Eu disse que era urgente, então logo chega.” a ruiva falou enquanto se levantava.
“Onde que eu vou enfiar esse negócio azul, Denise?” perguntou.
“No seu buquê. Já volto.” avisou antes de sair.
Carmem revirou os olhos. De repente, ouviu batidas na porta.
“Entra. Nem sei por que está batendo.” comentou arrumando a cauda.
A porta se abriu e, pelo reflexo, viu que não era Denise ou sua mãe, e sim o boquiaberto Nikolas de terno preto, gravata borboleta rosa e flores azuis em mãos.
“Uau…” soltou.
“Nikolas? O que você ‘tá fazendo aqui?” perguntou surpresa, virando-se para ele.
“Eu? Ér... a Denise disse que você estava desesperada atrás de uma flor azul por causa de uma tradição. Então me pediu pra comprar algumas flores azuis enquanto te consolava. Você… você ‘tá linda.” elogiou.
Carmem sorriu antes de descer da plataforma em que estava e ficar de frente para ele.
“Achou?” perguntou e ele assentiu.
“Muito!” falou e ela sorriu mais.
O rapaz a olhou por alguns segundos antes de balançar a cabeça.
“Suas flores! Ér… parabéns pelo casamento. Espero que seja o que você espera.” falou estendendo as flores.
A moça as pegou.
“Obrigada. O que é?” perguntou.
“Eu não faço ideia. A doutora em botânica é você.” falou e ela riu.
“Meu título foi cassado, lembra?” brincou e ele riu também.
“Então vamos ficar sem saber. Vou te deixar sozinha.” falou prestes a se virar.
“Espera aí! Ér… essa superstição pede uma coisa nova, uma velha, uma emprestada e uma azul…” começou e ele assentiu.
“Eu já tenho a coisa nova e a azul, preciso da velha e emprestada. Então… Me empresta sua correntinha?” pediu apontando para o pescoço dele.
O rapaz riu.
“Como você sabe que eu uso correntinha? Eu nunca nem mostro ela.” ele perguntou.
“Te conheço há dois anos, é óbvio que já vi. Na verdade, foi umas das primeiras coisas que eu vi em você, porque brilhava e eu gosto de brilho.” explicou.
“Tá bom. Vai ser a coisa velha ou a coisa emprestada?” perguntou enquanto tirava a gravata.
“As duas coisas.” falou e ele tirou de dentro da roupa um bem fino colar brilhante.
“Abre o negocinho pra mim? Ah, e não vai combinar com seu vestido.” ficou de costas.
“Vai, sim. Nossa… ‘cê tá cheiroso. Não sei se é o cabelo ou o perfume.” falou abrindo o fecho.
“As duas coisas.” falou sentindo o objeto deixar seu pescoço, era até estranho.
“Agora você vai ter que fechar pra mim. Onde você comprou?” falou já se virando e entregando o colar a ele.
“Meu pai deu pra minha mãe em uma das viagens que eles fizeram quando curtiam a vida de casados sem filho. Aí ela me deu.” revelou enquanto prendia nela.
“Então tem resquícios de amor aqui?” perguntou e ele riu.
“Eu sou um amor, então tem. Prontinho. Nos vemos no altar, noiva.” falou e saiu rapidamente.
A moça olhou-se no espelho, daquela vez com um sorriso, e misturou as flores azuis ao buquê vermelho.
“Está pronta, filha? Está linda!” a mãe apareceu.
“Sim.” respondeu decidida.
*
A lua já brilhava no céu quando o grande momento chegou. Todo o rito de entrada foi feito até chegar a hora da entrada triunfal de Carmem ao som instrumental de November rain.
“É agora, querida.” o pai disse ao estender o braço para ela.
“É.” ela disse entrelaçando o braço ao do pai.
Todos olhavam admirados para a noiva e alguns até filmavam, mas havia uma exceção: o noivo. Muitas coisas passavam pela cabeça de Cebola naquele momento, e nenhuma delas envolvia a palavra afirmativa que todos ali esperavam.
Seu olhar se direcionou para a moça de cabelos curtinhos e roupas pretas ajeitando a cauda do vestido de Carmem com todo cuidado com um sorriso satisfeito nos lábios. Aquilo o fez sorrir, independente de tudo, ela amava ser wedding planner.
Assim que Cornélio a entregou a ele, dando um toque em seu ombro, os dois trocaram um forçado sorriso.
O falante e engraçadinho cerimonialista fazia o costumeiro rito sem ser ouvido por aqueles que estavam com fome, pelos que não gostavam de casamento e até mesmo pelos noivos.
Cebola tinha o olhar um tanto perdido enquanto bolava seu plano de fuga pós resposta negativa e Carmem parecia querer sair dali.
“Eu vou dizer não! Não vale a pena jogar minha vida fora assim! Eu não posso sair pela porta de entrada, seria até arriscado. Será que a galera da cozinha deixaria eu fugir por lá?” questionou-se em pensamento.
“Mas aí eu iria embora como? Aqui é mó longe de casa e meu celular ‘tá com o Cascão. Se bem que nem teria como eu pedir um uper, demora pra chegar e o pai dela já estaria correndo atrás de mim com esse vaso caro de plantas enquanto ela chora.” ponderou.
“Mas o que eu faço então?” tentou pensar em outra solução.
A feição do noivo mudava conforme seus planos mudavam, mas Carmem nem mesmo percebia, também estava aérea.
Toda a cerimônia correu com os dois nem mesmo tentando fingir algum sentimento, inclusive na troca de votos. Quando chegou o ponto alto da noite, a hora do sim, o tom de voz do cerimonialista mudou.
Naquele instante, o nervosismo de Cebola cresceu. Olhou para uma janela, pensando em pulá-la, mas ainda não tinha certeza se era o melhor jeito. Para a sua sorte, o cerimonialista se virou para Carmem, então teria alguns segundos a mais para pensar.
“Carmem, você aceita Cebolácio como seu legítimo marido, prometendo ser fiel; amá-lo e respeitá-lo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da sua vida, até que a morte os separe?” perguntou solene.
A noiva olhou para Cebola, que segurava em sua mão, e afrouxou o toque.
“Não.” Carmem negou.
Todos, sem exceção, a encararam incrédulos enquanto uma coletiva puxada de ar de surpresa era ouvida.
“Desculpe, Cebola. Desculpe a todos. Mas eu não posso fazer isso!” ela exclamou antes de correr do altar rumo à porta de entrada.
Os pais de Carmem, que paralisaram por alguns segundos, foram atrás da filha, Denise e Nik se entreolharam surpresos e Cascão puxou Cebola de lá enquanto todos os convidados começavam a conversar e a banda, a mando do maestro, tocava Spring.
“Você vai atrás da Carmem e eu vou atrás dos pais dela.” Denise combinou com Nik e cada um foi para um lado.
Cebola não entendeu por que estava sendo puxado, então, ao chegar na movimentada cozinha, fez a pergunta.
“Cascão?! O que você ‘tá fazendo? Eu não tenho do que fugir! Ela que disse não!” perguntou.
O amigo olhou para fora e depois voltou.
“Se liga, Careca! Logo eles vêm atrás de você pra fazer perguntas e, pela sua cara, você vai acabar soltando que essa também era sua resposta!” exclamou pegando algo do bolso.
Cebola arregalou os olhos.
“Sua cara muda quando faz seus planos, Idiota! Aqui, pega minha chave e meu cartão de ônibus. Eu falo com teus pais. Vai, vai, vai!” entregou e fez sinal para o outro correr.
Cebola não pensou muito, apenas pegou as coisas e correu. Quando conseguiu sair, avistou um ponto de ônibus e foi até lá, livre de fotógrafos.
Como se a sorte estivesse ao seu lado, apareceu justamente um ônibus que passava perto da faculdade, então, embarcou no cheio veículo e se segurou na barra com um sorriso aliviado.
“Acho que isso foi um término.” falou consigo mesmo.
*
Denise havia conseguido convencer os pais de Carmem a retornarem ao salão, falarem com os convidados e depois irem para casa esfriar a cabeça, alegando que Carmem sabia o que estava fazendo e que precisava de um tempo sozinha.
Carmem, com os pés doendo, havia conseguido despistar os sedentos fotógrafos e parou em uma parada de ônibus por alguns segundos, ignorando as pessoas olhando com curiosidade.
De repente, um táxi parou.
“Carmem! Entra!” era Nikolas.
Com um suspiro aliviado, entrou no carro.
“Que bom te ver! De verdade!” ela agradeceu.
“Você ‘tá bem?” ele perguntou preocupado e ela sorriu.
“Meu pé ‘tá doendo, mas acho que nunca estive melhor.” respondeu.
“Você é maluca de correr sem rumo desse jeito!” comentou enquanto enviava uma mensagem para Denise.
“Esqueci de acrescentar um motorista particular no meu plano de fuga feito de última hora.” zombou e o rapaz riu.
“Nem sei como te achei! Amigo, Avenida Maurício de Souza, 2348, por favor.” falou o endereço e o taxista assentiu.
O motorista observava pelo retrovisor com curiosidade, mas sem coragem de perguntar.
“Eu disse não pro meu agora ex noivo.” ela revelou e ele assentiu envergonhado, voltando a olhar para a rua.
Ao chegarem no prédio de Nikolas e descerem do carro, a moça sentiu o pé doer.
“Esses taxistas cobram um rim mesmo! O que foi? Você ‘tá mancando!” observou.
“Meu salto quebrou! Por isso meu pé ainda ‘tá doendo.” ela disse com uma careta.
“Eu te ajudo.” disse enquanto guardava seu celular.
A moça pensou que ele iria apoiá-la em seu ombro, mas quase se assustou quando ele a pegou nos braços, como se carregasse uma noiva.
“Emoções demais pra mais um acidente.” falou e ela sorriu o olhando nos olhos.
Assim que chegaram ao apartamento, ele a colocou no sofá.
“Pode usar a almofada de apoio. Devo ter alguma coisa congelada aqui pra você colocar em cima.” falou indo até a geladeira.
“Se quiser aproveitar e me dar alguma coisa de comer, minha barriguinha faminta agradece.” ela disse sem pudor algum e ele riu.
“Sobras da lasanha da minha mãe ou um miojão?” perguntou entregando a ela uma embalagem de legumes congelados.
“A comida de verdade, por favor. Sem querer extrapolar da minha cota de itens emprestados, me empresta uma camiseta sua? Eu quero tirar esse vestido.” pediu.
“Vou abrir uma exceção porque eu sou um bom menino. Pode ir lá pegar enquanto coloco sua comida no microondas e finjo que me esforcei muito pra isso.” brincou e ela se aproximou dele.
“Abre aqui pra mim, Mestre cuca.” pediu ao tirar o laço, revelando alguns botões.
O rapaz desabotoou devagar.
“Você demorou assim pra desabotoar o vestido da Penha?” ela perguntou de repente.
O amigo riu com a intimidade que possuíam.
“Não era um vestido de noiva caro.” respondeu abrindo os botões, eram vários.
“É alugado, sai mais barato.” a moça revelou.
“Lembrando que você decidiu correr na São Silvestre sem levantar a barra, então vai ter que pagar uma multa tão alta que vale a pena comprar.” zombou, fazendo-a rir.
“O que eu faria com esse vestido?” perguntou.
“Sei lá… vai que surge um novo pretendente?” comentou terminando de desabotoar.
A moça virou a cabeça para olhá-lo.
“Minha visão de casamento mudou. Então eu compraria um novo e talvez jogaria esse fora.” respondeu.
“Consumista como sempre, Carmem Frufru.” brincou.
A moça piscou um olho e foi tirar o vestido.
Minutos depois, após comer enquanto assistiam a algo aleatório na televisão, Nik enfim decidiu parar de trocar mensagens com Denise e perguntar o que queria saber.
“Sei que é meio invasivo, mas… por que você disse não?” perguntou.
“Você mesmo vivia dizendo que eu não devia me casar.” ela respondeu.
“Mas você não me ouvia.” lembrou.
A moça o olhou.
“Eu finalmente aceitei o fato de que seria muito infeliz.” revelou.
O rapaz assentiu.
“É… fico aliviado que você pulou fora, não vou mentir.” comentou.
“Só aliviado?” ela perguntou ao se lembrar da revelação da amiga.
“Feliz também.” disse e ela umedeceu os lábios.
Naquele momento, com o pé menos dolorido, cabelos bagunçados, usando uma camiseta larga como vestido e com os pais provavelmente muito irritados a esperando em casa, Carmem sentiu que não tinha nada a perder.
“Lembra quando eu disse que você me fazia acreditar no amor?” perguntou.
“Lembro.” ele disse.
“Não era emoção do momento. Você me faz acreditar no amor porque eu sou apaixonada por você, Nikolas!” confessou, fazendo o rapaz arregalar os olhos.
“Você sabe que não sou sentimental, mas… amar cada momentinho que estou com você, significa muito pra mim. Eu não ‘tô falando isso pra você se sentir forçado a me corresponder, eu só… precisava tirar isso do meu peito. E não vi melhor momento que esse.” declarou-se.
De repente, Nik segurou em suas mãos com carinho.
“Eu também menti: não era emoção do momento. Eu também sou apaixonado por você, Carmem. E não é de hoje.” correspondeu e ela sorriu abertamente.
“Eu superei por um tempo, mas com as bodas... Tudo voltou. Eu 'tava respeitando sua escolha e seu relacionamento, então decidi me manter distante, mas... eu realmente sou muito a fim de você.” também se declarou.
Carmem sorriu genuinamente, ainda mais quando ele a beijou com certa urgência.
As línguas não demoraram a se encontrar em uma sintonia crescente, fazendo com que a moça subisse no colo do rapaz, abraçando-o pela nuca, e sentisse as mãos dele subindo e descendo em suas costelas e ancas.
"Eu queria tanto te beijar! É ainda melhor do que eu imaginava!” ela exclamou enquanto o ar retornava aos seus pulmões.
“Você se imaginava me beijando?” perguntou baixo enquanto beijava-lhe o ombro.
“Você não?” perguntou e ele fez questão de parar o que fazia para encará-la.
“A tarada da relação é você.” falou e ela riu.
“Cala a boca e me beija de novo!” falou o puxando de volta.
A quentura da noite se igualava ao corpo do par, que clamava por mais.
“Eu quero você… demais!” ela sussurrou enquanto se movia no colo do moreno.
Naquele momento, os olhos de Nikolas brilharam de desejo, porém, teve um pequeno lapso de consciência.
“Eu também quero, mas… mas você acabou de literalmente fugir do altar… Vou entender se ainda quiser processar as coisas.” respondeu, mesmo seu corpo demonstrando o contrário em meio aos beijos que ela não parou de dar.
A loira riu.
“Nikolas, com o caos da minha vida, eu lido amanhã. Agora, eu só quero que você processe a rota daqui até a sua cama.” declarou.
O rapaz sorriu malicioso antes de se levantar com a risonha Carmem nos braços rumo ao seu quarto.
A moça já havia estado lá antes, mas nunca na cama dele e muito menos deitada embaixo dele enquanto o beijava cheia de fervor.
As mãos do rapaz deslizavam por sua perna enquanto os lábios passeavam por seu pescoço. A loira, por sua vez, deslizava as unhas nas costas do moreno por baixo da camisa, atiçando-o ainda mais.
As coisas escalavam depressa, tanto que, em um piscar de olhos, as roupas haviam abandonado os corpos, a proteção estava devidamente colocada e Carmem soltava o ar pela boca em sinal de prazer enquanto seu corpo se movia para cima e para baixo, em compasso com o ranger da cama, durante a movimentação de Nik dentro de si.
“Tá bom?” ele sussurrou ao pé do ouvido dela.
“Aham… mais rápido, Nik!” pediu quase sem voz.
O pedido fora atendido, fazendo com que as coisas esquentassem mais e mais. Quando chegaram ao clímax, a moça soltou o ar de seus pulmões e o rapaz se deitou ao seu lado, completando com um abraço e vários beijinhos, que a fizeram sentir algo diferente das outras experiências que tivera. Parecia muito melhor.
“Se eu soubesse que seria assim, tinha te enfeitiçado antes.” brincou enquanto roçava seu nariz do dele.
“Nem fala isso, porque eu teria caído de propósito.” disse e ela riu antes de dar-lhe um selinho.
Nikolas sentia que havia chegado aos céus como nunca havia sentido, já Carmem havia percebido que, com alguém que de fato sentia algo, parecia mais fácil ver estrelas durante um orgasmo.
Após uma breve ida ao banheiro, Carmem se deitou ao lado do rapaz, aconchegando-se a ele.
“Acho que estou nas nuvens.” ele comentou sonolento enquanto a envolvia com o braço, formando uma conchinha.
“Com essa conchinha, ficou melhor.” ela disse, recebendo um beijinho na têmpora.
O par não poderia estar mais feliz por terem confessado os sentimentos.
*
Mais tarde, já em casa, Mônica se jogou no sofá após tomar banho e vestir seu pijama mais confortável.
Depois do não de Carmem, o evento havia ficado caótico: pessoas xingando, Frufrus desesperados, Menezes surpresos, muitos stories, cochichos não tão baixos e fofoca.
Os pais de Carmem não ficaram no local alegando precisar dar apoio moral à filha, deixando todo o evento nas mãos da wedding planner, que contou com a ajuda crucial de Denise. Então, quando acabou, chegou exausta em sua casa.
“Pelo menos acabou e o salário vai ser bom. Pra onde será que o Cebola foi? Será que ele está bem?” perguntou-se enquanto olhava para o nada.
De repente, ouviu batidas na porta. Olhou para o relógio, que marcava dez da noite, e franziu o cenho.
“Alguém a essa hora?” perguntou enquanto se levantava.
Antes de abrir, olhou no olho mágico, surpreendendo-se tanto com quem estava do outro lado que abriu a porta rapidamente.
"Cebola..." balbuciou ao vê-lo ali, ainda de terno, mas sem gravata.
"Oi, Mônica. Eu... Eu sei que você me pediu para não te procurar mais e que eu literalmente acabei de não me casar, mas… eu precisava te ver." falou sincero.
A presença de Cebola despertou em Mônica um turbilhão de sensações que não soube nomear. Durante o dia inteiro, mesmo se ocupando o máximo que pudesse, seus pensamentos sempre voltavam para ele.
Quando ele não se casou, sentiu uma involuntária pontada de esperança. Então, tê-lo ali em sua frente, com um olhar bobo, fez com que não pensasse muito e apenas agisse.
Sem aviso prévio, Mônica se jogou nos braços do rapaz e o beijou com todo o fervor que manteve enjaulado, sendo retribuída em igual escala.
Os dois andavam sem perceber até trombarem com o balcão da cozinha. O ósculo era recheado de urgência e desejo, tanto que, em segundos, o rapaz envolveu seus braços nas coxas grossas da morena e a tirou do chão, sentando-a no balcão, e aprofundando mais o beijo.
“Cebola… eu não vou me desculpar por esse beijo.” a moça falou enquanto recuperava o ar e ele riu.
"Nem eu. Você não faz ideia do quanto eu esperei por isso! Você entrou na minha vida e eu não quero que saia nunca." declarou-se ofegante.
“Eu também! Eu também!” falou antes de voltar a beijá-lo.
A urgência escorria pelos corpos, deixando o calor da noite ainda maior. Não por acaso, as peças de roupas começaram a se tornar incômodas.
Nenhum dos dois pensava em nada que não fosse consumar aquilo que tanto queriam, mas Mônica despertou do transe ao deixar cair um objeto do balcão.
“Vamos pro meu quarto! É bem melhor.” sugeriu e ele assentiu com o rosto vermelho.
A moça trancou a porta e os dois foram para seu quarto antes que algum senso de certo e errado invadisse as cabeças que giravam.
Sem hesitação nenhuma, Cebola tirou a camisa e enlaçou Mônica para um beijo no pescoço, algo que a fez morder o lábio inferior com lascívia antes de empurrá-lo na cama e se colocar em cima dele, colocando uma perna de cada lado.
“Só relaxa.” piscou um olho antes de iniciar um beijo na boca, que logo começaria a descer.
A luz piscante do poste entrava pelo quarto cujo som oscilava entre gemidos e as molas do colchão. Cebola sentia que seus globos oculares saltariam das órbitas do tanto de vezes que revirou os olhos de tesão enquanto a moça rebolava em cima de si.
“Ah, Mônica… isso…” ele gemeu sem perceber enquanto suas mãos subiam e desciam das ancas da moça conforme ela fazia o mesmo movimento.
Mônica, por sua vez, não fazia sexo há um tempo, então se sentia enferrujada. Porém, os toques de Cebola lhe davam a confiança necessária para continuar, a qual cresceu ainda mais quando a boca dele entrou em contato com seus mamilos endurecidos em meio a uma massagem em sua parte tão úmida e quente quanto outras partes do corpo.
“Nossa… como você… ah…” falava até sentir ele mover um dedo, que a fez soltar o ar inteiro.
Pouco tempo depois, após um intenso e rápido movimento de sobe e desce, a respiração já desregular ficou ainda mais.
“Mô, eu vou… eu vou…” ele ofegou enquanto a moça continuava junto a ele.
Em um movimento ainda mais acelerado, que acabou com uma estocada mais intensa, o par sentiu como se um raio passasse por seus corpos trêmulos e corações acelerados e os levasse para as nuvens.
Ainda em êxtase, Mônica deitou no peito de Cebola, que a abraçou e deslizou o polegar em sua cintura.
“Isso foi maravilhoso!” ele sussurrou.
“Eu também acho!” a morena também sussurrou em resposta.
Mesmo estando parcialmente escuro, os olhos se encontraram antes de um beijo apaixonado. Por alguns segundos, acharam que haviam cometido uma loucura, mas logo mudaram de ideia: haviam feito algo delicioso.
O cansaço os consumiu, tanto que em pouco tempo o rapaz havia adormecido. Após retornar do banheiro e se deitar ao lado do moreno, Mônica percebeu seu celular vibrando.
“Oi, Magali. Eu não posso falar agora. Se eu ‘tô feliz com o fim do evento da Carmem? Bom… estou.” atendeu com um sussurrou enquanto acariciava as costas nuas do dorminhoco Cebolácio.
O sábado não se estendeu muito depois daquilo, logo cedeu lugar para um caótico domingo.
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