Almejar

18 Capítulo XVIII - Imagem


Notas iniciais
Desculpe a demora, foram dias muito corridos! Sem mais delongas, fiquem com um enorme capítulo!

Tímidos raios de sol iluminavam o quarto de uma já desperta Mônica. A moça havia acordado há pouco, acreditando que a noite anterior não havia passado de um sonho, até se dar conta do braço masculino rodeando seu corpo.

Cautelosamente, desvencilhou-se do braço do rapaz e, nas pontas dos pés, deixou o quarto. Ao entrar no banheiro e encarar seu reflexo no espelho, percebeu que um belo sorriso enfeitava seu rosto.

“Eu não acredito que realmente fiz aquilo! Menos ainda que faria tudo de novo.” comentou consigo mesma antes de rir sozinha.

Após sua higiene matinal, mantendo seu sorriso, foi preparar seu café da manhã. Para a sua surpresa, deu de cara com Agnes e Milena na cozinha.

“Bom dia, meninas! Acordadas a essa hora em pleno domingo?” cumprimentou enquanto ia até a geladeira.

“Eu sempre acordo cedo, gosto de manter uma rotina de sono regular.” a loira comentou enquanto dava um gole em seu suco natural.

“Eu não consegui dormir direito. Deveria ter negado almoçar com os pais do DC.” Milena comentou bebendo café.

“Já estão nesse nível?” a outra morena comentou surpresa.

“Nem me fale de níveis! Mas e aí? Eu soube sobre o casamento da Carmem.” a cacheada disse.

“O que aconteceu no casamento dela?” Agnes perguntou curiosa.

“Ela disse não. Várias páginas do instagrão estão falando disso.” Milena respondeu.

“Eu não sigo influencers. Deve ter sido uma barra pro Cebola.” a loira comentou, fazendo Mônica gargalhar.

Antes que falassem mais alguma coisa, o som de uma porta se abrindo chamou a atenção, não mais que Cebola aparecendo com feição sonolenta, paletó no antebraço e roupas amassadas.

“Bom dia, meninas! Que belo domingo, não? Mô, pensei que me acordaria…” cumprimentou com a voz rouca e sonolenta enquanto coçava os olhos.

“Ontem foi uma noite cheia pra você. Fora que você dorme bonitinho.” respondeu, fazendo o rapaz rir.

“Não seria problema nenhum. Se me dão licença, tenho que dar um sinal de vida ali do lado e lá em casa. Tenham um bom dia, meninas. A gente se fala depois, Mônica.” falou antes de dar um selinho em Mônica e deixar o local.

Agnes e Milena se encararam atônitas antes de se virarem para a wedding planner.

“Ele… ele dormiu com você?” a loira perguntou incrédula.

Mônica riu enquanto passava requeijão em uma fatia de pão.

“Bom… foi um pouco mais que dormir.” revelou.

A cacheada riu alto.

“Nem devia estar surpresa. Foi bom, Mônica?” perguntou maliciosa.

Mônica lambeu a faca suja de requeijão com um sorriso lascivo.

“Se foi bom? Foi ma-ra-vi-lho-so!” deu um giro, jogando a faca na pia.

“Ainda não acredito que você transou com um cara sem saber se a higiene íntima dele é aceitável…” Agnes continuava incrédula.

“Felizmente, era.” a outra respondeu.

“A Carmem não vai surtar? Sei que ela não gostava do Cebola, mas se estão falando mal dela… deve dar problema.” a loira temeu.

Mônica deu de ombros.

“Ela que disse não, então os B.Os são dela.” comentou indo para seu quarto com seu café da manhã.

Agnes olhou para Milena.

“Acha que isso vai dar ruim?” perguntou.

“Não… logo estoura uma nova polêmica e todo mundo esquece. E não duvido nada que ela fez o mesmo que a Mônica ontem.” a morena comentou.

“Você perguntaria pro DC sobre a higiene dele?” perguntou sem rodeios.

A cacheada começou a rir.

“Não esperava por isso! Ah… não sei, Agnes. Ele é todo desenrolado, acho que nem ficaria climão. Mas por que a pergunta? Pensa em perguntar pro Cascão?” perguntou e a outra riu.

“Eu já sei a resposta.” respondeu.

“E não te incomoda? Não digo que seja ruim, mas não deve ser do jeito que você considera ideal.” a cacheada perguntou.

Agnes deu de ombros.

“Eu devo estar muito apaixonada por ele, porque… não. Não me incomoda estar saindo com um cara que sempre que eu via ‘tava suado.” respondeu sincera.

“Bom… então deveria aproveitar. Sentimentos bons, a gente deixa sair.” Milena disse antes de deixar a cozinha.

Agnes sorriu consigo mesma e lembrou-se do convite de Cascão.

“Pra onde será que ele vai me levar?” perguntou-se.

*

No apartamento ao lado, Cebola ainda sorria quando deu de cara com Titi dormindo no sofá.

“Aposto que esse daí vai ter uma ressaca monstra.” comentou.

De repente, Cascão apareceu comendo um bem-casado.

“Ué? Eu achei que era você dormindo no sofá!” comentou rindo.

“É o Titi. Eu jamais usaria esse corte dele.” o outro respondeu enquanto ia beber água.

“Com essas entradonas, fica difícil mesmo.” o amigo zombou.

“Há-há-há.” riu irônico.

“Por onde andou, cara?” Cascão perguntou.

Cebola sorriu.

“Aqui do lado.” apontou.

O amigo arregalou os olhos.

“Mas você foi lá agora ou…?” falava até ver o amigo rir com a língua para fora.

“Passei uma excelente noite lá.” completou.

“Você transou com a Mônica?! Como?!” perguntou incrédulo.

“Quer mesmo que eu explique?” Cebola riu ao brincar.

“Quem transou?” Titi levantou a cabeça.

“Falou a palavra mágica. Casou ontem e já traiu a mulher, Cebola?” Xaveco apareceu com os braços cheios de roupas recém saídas da lavanderia.

“A Carmem disse não.” revelou com um largo sorriso.

“Fala isso com um sorriso no rosto. Tudo errado, Cebola!” Xaveco opinou.

“É uma longa história, cara. Pra resumir, era uma relação cheia de interesses, então eu também ia falar não.” Cebola resumiu.

“Esperar chegar no altar pra falar não é sacanagem.” o loiro riu ao dizer.

“Pra ser justo, teve gente que avisou que era burrada durante o noivado todo, mas a coragem só veio no grande dia.” explicou-se.

“Você é maluco, Cebola! Ainda bem que não entro nessa pira de casamento.” Titi comentou enquanto se sentava.

“Alguém teria que querer se casar com você, Titi. Mas a Mônica não tinha pedido pra você se afastar, Cebola?” Cascão lembrou.

“Sim, mas eu precisava dizer o que sentia pra ela! Aí ela pulou em mim com tanto gosto que, maaano… foi o melhor beijo da minha vida! Não só o beijo!” sorriu abertamente.

“Ah, então ela também gostava de você!” Xaveco constatou.

“Sim! Mas era um lance que não podia acontecer enquanto eu ‘tava noivo, ainda mais por ela ser a wedding planner.” esclareceu.

“Então rolava talaricagem durante o noivado?” Titi perguntou.

“A gente não fazia nada, Titi. Tudo era reprimido.” o outro respondeu.

“Cê é muito complicado, Cebola.” Xaveco comentou rindo enquanto ia para seu quarto.

“O amor é complicado, amigos!” falou risonho.

“Apaixonou na primeira pentada? Erro de iniciante, Cebolácio.” Titi disse se levantando e saindo da sala.

“Você que não tem sentimentos, Timóteo!” Cebola gritou.

Cascão se aproximou do amigo e deu-lhe tapinhas nas costas.

“Tá feliz, né, safadão?!” comentou e o amigo riu.

“Você sabe que eu ia dizer não. Era pra eu estar cheio de problemas, mas aí a Carmem que disse não! Além disso, a Mônica me deu uma chance! Feliz é pouco, Cascão!” exclamou.

“Que bom que as coisas acabaram bem. Só que… não querendo ser corta brisa, mas como as coisas vão ficar agora? Tem uma galerinha brotando no teu inta’ pra te chamar de chifrudo.” perguntou.

Cebola revirou os olhos.

“Aff. Depois eu vejo isso. Vou pra casa agora.” fez um toque com o amigo.

“Vou sair também, tenho que resolver uma coisa pra hoje à noite.” o outro falou.

“O que você vai fazer hoje à noite?” Cebola perguntou.

“Sair com a Agnes, mas de um jeito meio diferente.” respondeu.

O amigo riu.

“Eu te disse que aquele trampo no Tinder ia resultar em romance ou coisa do tipo. Vou indo nessa, valeu por tudo, Cascão!” despediu-se.

X

Ao chegar em casa, Cebola deu de cara com seus tios se preparando para ir embora.

“Molecada do caramba! Não se decidem e fazem a gente ter que gastar tempo e dinheiro à toa!” o tio reclamou.

“Pelo menos a comida era boa. Ainda bem que a wedding planner liberou o buffet.” a tia disse fechando sua bolsa.

“Eu queria ter tirado foto com o Nik. Mas quase nem via ele…” um primo reclamou com o celular na mão.

Todos, inclusive seus pais e irmã, estavam tão ocupados em suas próprias tarefas que sequer o viram.

“Oi, gente.” enfim se pronunciou.

Os familiares pararam o que faziam para encará-lo, uns com surpresa outros com pesar.

“Meu filho! O Cascão disse que você foi para a casa dele! Como você está?” a mãe foi até ele para abraçá-lo carinhosamente.

Cebola deu de ombros.

“Bem.” respondeu, não iria falar nada na frente dos fofoqueiros tios.

“Ô sobrinho… essas coisas acontecem. Pelo menos não descobriu um chifre. Tudo de bom, família!” o tio disse antes de sair com a esposa e filho na companhia do pai de Cebola.

“Esse pão é de hoje? ‘Tô cheio de fome!” perguntou enquanto pegava um pão.

“Só eu que percebi ou ele parece muito… bem?” Maria sussurrou à mãe.

“Queria que ele estivesse mal?” a outra perguntou de volta.

“Não, mas… ele ouviu um não, né? Isso deve acabar com a autoestima.” comentou.

“Minha autoestima continua intacta.” ele falou após passar manteiga no pão.

“Vemos que você não entrou no insta’ hoje.” a irmã comentou, fazendo-o subir e descer os ombros.

“Tava ocupado.” falou antes de dar uma mordida.

“Filhão… você está bem?” o pai perguntou assim que retornou.

O filho sorriu.

“Nunca estive melhor! Eu vou ser sincero com vocês, eu ‘tava me casando por interesse. Mas coisas foram acontecendo e eu percebi que estava construindo uma vida muito infeliz. Se ela não tivesse dito não, eu teria dito.” revelou com sinceridade enquanto se servia de café.

A família encarou surpresa, mas um tanto aliviada.

“Não sei se digo sinto muito ou se te parabenizo pela coragem…” o pai disse sincero, fazendo-o rir.

“Estou feliz.” afirmou.

“A wedding planner tem alguma coisa a ver com isso?” a mãe perguntou com a sobrancelha erguida.

Cebola riu enquanto lambia os lábios, como se ainda sentisse o gosto de Mônica.

“Ah… bastante. Ela… ela me deu bons conselhos. Se me dão licença, preciso de um banho!” disse e logo saiu, levando seu café da manhã consigo.

*

Em outro lado da cidade, Carmem levantou da cama em um pulo. Mesmo que estivesse sozinha no quarto, foi abrir a janela com um sorriso radiante e olhar para a rua pouco movimentada. A simples manhã de domingo parecia mais bonita.

“Quem diria que acordar fora de um casamento por interesse me deixaria tão leve?” brincou antes de ir para o banheiro, onde não teve pudor algum em utilizar o enxaguante bucal de menta.

Ao sair do cômodo, rumo à cozinha, sentiu o aroma do café entrando em suas narinas enquanto ouvia a voz masculina que tanto gostava conversando com alguém.

“Quantas pessoas têm um contador que te liga em um domingo de manhã?” a voz dele soou.

“Tive insônia e fui trabalhar, achei que seria bom você já saber de umas coisas para ser mais fácil de resolver na segunda.” a voz do contador soou digitalizada, mostrando que Nik falava com ele pelo celular.

“É tão urgente assim?” perguntou.

Carmem entrou na cozinha e viu que o rapaz cortava frutas enquanto falava com o contador pelo viva-voz. A moça o abraçou pelas costas, beijando-lhe a bochecha.

“Urgente-urgente não é, mas é muito importante. Vou encaminhar um e-mail mais explicativo. Nos vemos amanhã.” o outro falou antes de desligar.

“Se podia enviar o e-mail, não era mais fácil ser só o e-mail? Desligou já.” negou com a cabeça.

“Trabalhando no domingo, senhor workaholic?” ela provocou com um riso.

“Pior que não. Meu contador teve insônia, quis trabalhar e decidiu que eu tinha que me preocupar com trabalho às nove da manhã de um domingo. Enfim… dormiu bem?” perguntou terminando de cortar morangos.

“Muito. Mas você me deixou sozinha naquela cama gelada… isso magoa, sabia?” falou e ele riu.

“Eu ‘tava com fome e até pensei em te acordar com meu pé gelado, mas decidi deixar você descansar.” respondeu enquanto se virava para um selinho.

Carmem riu.

“Eu posso me acostumar com isso.” comentou enquanto ia se sentar na banqueta.

“Com isso o quê?” ele perguntou juntando o morango com outras frutas.

“Você e eu.” sorriu abertamente, fazendo-o sorrir também.

“Para de ser fofa, eu sou tímido.” brincou enquanto colocava mel nas frutas.

“Não foi o que pareceu ontem.” ela piscou um olho.

“Sua salada de frutas predileta, moça que fugiu do altar! Quis te mimar hoje pela coragem de ontem.” deu a ela um potinho de vidro com as frutas cortadas e ela gargalhou.

“Obrigada! Se fosse na cama, seria ainda melhor.” falou enquanto espetava uma rodela de banana com um garfo.

Nikolas riu enquanto ia até a sala.

“Nunca mais como nada naquela cama desde o dia que caiu café no meu lençol favorito.” comentou.

“O dia que você descobrir que dá pra lavar roupas, sua cabeça explode, Nikolas.” ela zombou.

“Olha quem fala. Falando em roupas, a Denise veio aqui. Ela trouxe roupas e seu celular.” ele disse entregando uma sacola a ela junto de seu celular.

“Aposto que ela insinuou alguma coisa.” comentou.

“Você conhece a amiga que tem. Só não repito o que ela disse porque é muito cedo para baixaria.” ele disse.

A loira desbloqueou seu celular e ligou o wifi, fazendo com que várias notificações surgissem.

“É… falar um não realmente movimenta as coisas…” ela comentou.

O rapaz se sentou ao seu lado.

“O que pensa em fazer, Carmem? Não querendo te deixar estressada, mas… sua situação é bem delicada. Eu vi uns comentários e pelo que Denise disse… seus pais não estão nada felizes.” falou seriamente.

A moça deu a mão ao rapaz, acariciando-a no processo.

“Não se preocupe comigo, Nik. Eu sabia o que me esperava quando decidi dizer não. Não estou mais na idade de ficar de castigo, mas… sei lá. Caso eles me deserdem e expulsem de casa, posso vir pra cá?” perguntou e ele fez questão de abraçá-la carinhosamente.

“Eles não vão te expulsar de casa nem te deserdar. Mas, em todo caso, as portas da minha casa sempre estão abertas pra você.” falou e ela sorriu.

“É por isso que te amo. Achamos um prato que você sabe fazer bem, Nik. Salada de frutas!” comentou dando mais uma garfada no alimento.

“Eu sou um mestre cuca nas horas vagas, sabia?” brincou e ela riu.

De repente, o celular da moça tocou. Era sua mãe.

Respirou fundo antes de atender.

“Oi. Sim, estou indo pra casa. Já estou à caminho, calma. Até. Mestre cuca, vou ter que ir nessa. Mas, antes, eu necessito de um banho.” falou dando mais sua última garfada na salada de frutas após encerrar a ligação.

“Vai me convidar pro banho?” ele perguntou com um tom de voz que Carmem não soube se era brincadeira ou não.

“Adoraria, mas eu tenho que ser rápida. Prometo que tomo banho com você outro dia.” levantou-se, bagunçando os dreads do rapaz ao sair.

Carmem não ficou muito no apartamento de Nik, a mãe parecia furiosa ao celular e havia a apressado. Assim que chegou em casa, encontrou os pais na cozinha.

“Finalmente decidiu aparecer! Inventa de se casar em um mês e nos faz gastar rios de dinheiro pra quê? Para dizer não no altar e jogar o sobrenome Frufru na lama? O que você tem na cabeça, Carmem?!” a mãe falou zangada.

“Você sabe que odiamos escândalos! E agora nosso rosto está em várias páginas de fofocas!” o pai exclamou também bravo.

A moça revirou os olhos.

“Estou bem, obrigada por perguntar. Esse casamento não ia acabar bem! Eu não sinto nada por ele!” exclamou.

“Então por que quis se casar com ele, garota?! Não é como se alguém tivesse te forçado! Ou ele fez isso?” Isabele perguntou.

“Não, ele não me forçou. Eu… eu tentei pensar num futuro que não era meu.” omitiu algumas informações.

“Sentimentos podem ser construídos, Carmem. O rapaz podia não ser de uma família abastada, mas era promissor.” o pai comentou.

“Promissor? Ele ia ser seu secretário, pai!” exclamou.

“E em pouco tempo seria um funcionário exemplar! Tem que ter história de humildade para contar, minha filha.” Cornélio falou.

“História de humildade? Ele ia era me odiar com as várias dívidas que aquele acordo jogou no colo dele.” a moça disse.

“Ele aceitou. Mas precisava ter escolhido justo o dia do casamento para perceber que não era o que você queria? Podia ter escolhido qualquer outro dia e usado a desculpa que decidiram curtir mais o noivado e depois viram que não daria certo, seria infinitamente melhor para nossas imagens!” o pai exclamou.

Carmem deu de ombros.

“Eu sei que poderia ter feito isso antes ou ter mudado o noivado, mas também não foi uma escolha fácil pra mim.” respondeu.

“Muito fácil dizer isso quando você não teve prejuízo nenhum ou teve que se preocupar com as coisas. Sorte que a wedding planner com a ajuda da Denise cuidou de tudo, garantindo ao menos uma boa imagem de profissionalismo da Dream! Porque se fosse depender de você… estaríamos ainda mais mal falados!” a mãe exclamou.

Carmem bufou, aquela conversa estava destruindo sua bela manhã.

“Eu sei. Peço desculpas por isso. Posso ir agora? Estou cansada.” falou.

“Onde você estava, afinal?” o pai perguntou.

“No apartamento do Nik. Quando eu corri do salão, ele conseguiu me achar de táxi e fomos pra casa dele. Ele foi até gentil em me emprestar a cama dele pra dormir um pouco mais confortável.” omitiu alguns detalhes, não conseguindo esconder um sorrisinho.

“Algum paparazzo te viu?” a mãe perguntou.

“Acho que não, eu tinha despistado os fotógrafos. Mas mesmo se tiverem… todo mundo sabe que ele é meu amigo.” respondeu.

“É claro que é isso que irão supor, Carmem! Enfim, não estou mais com cabeça pra isso! A propósito, diga adeus ao apartamento.” o pai falou.

“Não só pra isso! Diga adeus às novas publis que iriam te colocar, ao casamento servindo de referência para a Dream…” a mãe comentou.

“Posso ir agora?” ela perguntou e os pais suspiraram.

“No momento, Carmem, descubra como você vai fazer para livrar nosso rosto dessas páginas de fofoca!” o pai exclamou e ela assentiu.

Carmem foi para seu quarto enquanto respirava fundo. Os pais se importarem mais com a imagem que passavam não a surpreendia, mas também não era algo bom.

“Só me resta resolver isso.” comentou.

A moça prendeu os cabelos em um coque, fez uma maquiagem simples e colocou uma camiseta básica branca antes de iniciar a gravação.

“Meus amados seguidores! Só agora que consegui me sentir bem o bastante para vir falar com vocês sobre o que aconteceu ontem. Como vocês já sabem, eu fiquei noiva do meu ex namorado Cebolácio.” começou.

“Quando eu decidi me casar com ele, eu tinha um turbilhão de sentimentos dentro de mim. Quem me conhece sabe que sou intensa quando o assunto é viver o momento, então eu quis aproveitar o que sentia.” continuou.

“Mas, ao longo do noivado, eu fui vendo que talvez o casamento havia sido um equívoco e só aos 45 do segundo tempo que fui aceitar o fato que Cebola e eu estávamos sendo mais amigos do que um casal, e isso não daria certo.” falou.

“Então, venho neste vídeo pedir que parem de atacar o Cebola, a mim e minha família! Meus pais não sabiam e Cebola não me traiu nem nada, então não merecem sofrer por uma escolha minha.” continuou.

“Quero também pedir desculpas a ele, por ter percebido só no altar que não era o que eu queria; às nossas famílias e amigos, que se organizaram para estar lá; à equipe da Dream; ao espaço onde foi o evento; a todos que estavam trabalhando lá; e à minha wedding planner, que fez um trabalho sem igual para deixar tudo como a gente quis. Vou deixar o arroba deles, assim vocês poderão conhecer o trabalho magnífico que fazem.” continuou.

“Bom… é isso. Se eu puder dar um conselho às futuras noivinhas que me seguem, tenham certeza de que estão se casando com alguém que esteja na mesma sintonia que você, faz toda a diferença. Beijos, amo vocês!” mandou beijo com as duas mãos e o vídeo se encerrou.

“Trabalho feito.” afirmou enquanto deslizava seu dedo para um contato.

“Oi, Cebola. Tudo bem? Ér… temos que conversar sobre ontem e imagino que você não vai querer vir aqui e que seus pais não querem me ver. Então, se quiser conversar, escolhe um lugar que eu vou.” mandou um áudio.

Para a sua surpresa, o rapaz logo respondeu.

“Sem pressa, Carmem.” respondeu e ela deu de ombros, decidindo postar o vídeo, propositalmente sem edição.

Após postado, não demorou para surgirem interações que variavam entre mensagens de apoio e de xingamento. Contudo, no meio disso, um deles chamou sua atenção.

“Aposto que tem outro homem envolvido. Não duvido nada que daqui uns dias ela aparece com um namorado novo e jurando amor, igual fazia com esse.” leu em voz alta.

Diante dessa mensagem, respirou fundo enquanto se jogava na cama.

“Certeza que vão falar bosta se me virem com o Nik. É sério que vou ter que viver meu romance dos sonhos no off? Que merda!” praguejou.

*

Mais tarde, Milena ajeitava seus cachos enquanto sentia o coração bater um pouco mais rápido só de pensar para onde iria. Por mais que já conhecesse os pais de DC, a situação era no mínimo constrangedora, uma vez que tinha certeza que os avós do rapaz haviam falado sobre o dia no bingo.

“Calma, Milena! É só um almoço com pessoas que você já conhece!” tentou se acalmar.

“Tá toda bonita, ela! Vai ter date hoje?” Mônica perguntou enquanto se escorava no batente.

“Não é bem um date. Os pais do DC me convidaram para um almoço em comemoração ao minidoc.” falou.

“E está nervosa por quê? Você já conhece eles.” perguntou.

“Ah… é estranho.” falou.

“Só porque agora eles são seus sogros?” perguntou.

“Eles não são meus sogros.” respondeu.

“Por enquanto. Teu namorado ‘tá lá na sala.” falou risonha.

“E o teu provavelmente ali do lado!” rebateu e a de cabelos lisos riu.

“Adoraria. Bom almoço pra vocês e uma sobremesa melhor ainda.” desejou zombeteira.

“Pelo visto, se deliciar com cebola deixa as pessoas mais ousadas.” brincou e a amiga gargalhou.

“Deixa.” disse saindo em seguida.

Milena acabou rindo e se olhou uma última vez no espelho.

Ao chegar na sala, percebeu que o rapaz estava na sacada, olhando a rua. Na ponta dos pés, chegou nele, cobrindo-lhe os olhos.

“Adivinha quem é.” tentou engrossar a voz, fazendo-o rir.

“Como já disse uma vez, eu te reconheço pelo cheiro.” falou já se virando e a abraçando.

“Então você é mais como o Jacob ou como o Edward?” perguntou após receber um beijo.

“Podemos descobrir mais tarde. ‘Tá bonita!” elogiou e ela sorriu.

“Você também! Eu não sabia o que levar, então segui o conselho da Sarah: uma salada bonita não vai te jogar em saia justa com veganos, com fitness e nem com carnívoros que gostam de uma saladinha pra completar.” falou enquanto voltava para dentro, em direção à geladeira.

“Esse é um bom conselho. Tenho que elogiar a decoração e essa bela travessa, de onde ela veio?” perguntou assim que ela colocou na mesa.

A moça riu.

“Acredita que saí com um cara que me levou num bingo e ainda consegui fazer ele ficar com inveja do meu prêmio?” comentou.

“Ele pode ter até perdido no bingo, mas não saiu perdendo.” piscou um olho.

“É claro. Pergunta rápida… seus pais gostam desse tipo de salada, né?” perguntou nervosamente.

O rapaz acabou rindo.

“Por que está preocupada? Vocês já se conhecem.” comentou.

“Ah… é uma situação nova.” falou e ele riu.

“Pode ficar tranquila. Eles vão gostar! Vamos lá!” falou e os dois saíram.

X

O almoço na casa dos pais de DC estava sendo incrivelmente agradável. Após comerem, decidiram se reunir em um lugar que Keiko e DC gostavam: o jardim.

O vento fresco complementava o clima descontraído do local, onde Milena detalhava alguns momentos das filmagens do minidoc, Keiko sorria com cada fala, Nimbão brincava descontraído, Nimbus ria em meio às mensagens trocadas com alguém e DC observava a moça contando com um sorriso enfeitando os lábios e os dedos deslizando carinhosamente em sua mão.

“Eu diria que o dia no bar foi o favorito dele. Ele ‘tava contemplativo.” ela opinou enquanto balançava no enorme balanço de madeira.

“Foi um momento nostálgico.” ele lembrou.

“Era difícil ter esses momentos? Parecia natural no vídeo.” Nimbão perguntou.

“Até que não. Vocês têm um filho muito espontâneo." respondeu.

"E qual foi seu momento favorito, DC?" Nimbus perguntou.

O rapaz sorriu.

“Acho que a entrevista dos meus pais.” revelou.

A moça franziu o cenho em sinal de dúvida.

“Do mini doc, cabeçudo!” o irmão especificou com um riso.

“Não consigo definir um favorito. Tudo era muito legal.” o irmão disse.

“Agora fiquei curiosa. O que te marcou tanto na entrevista dos seus pais?” a cacheada perguntou.

“O que aconteceu depois.” piscou um olho, fazendo-a rir.

“Não fala essas coisas…” sussurrou.

“E qual foi o seu, Milena?” Nimbus perguntou.

A moça pareceu pensar por alguns segundos.

“Não sei te responder. Foi tudo tão… único. Acho que conhecer o DC foi minha parte favorita.” confessou, fazendo o outro sorrir abertamente.

Os mais velhos se entreolharam com um sorriso.

“Gostou do bingo, Milena?” Keiko perguntou de repente.

“Sim, foi divertido. A travessa está adorando o novo lar.” ela respondeu.

“Ela vai adorar conhecer lá em casa. E talvez ficar uns dias, meses, anos…” DC brincou.

“Ah, DC… desiste.” falou com um riso, fazendo-o rir também.

“Esse foi o único lucro que ela teve saindo com você. Deixa ela aproveitar." o irmão zombou.

“Ah, não… não foi o único.” ela disse, recebendo uma piscadela em resposta.

Mais uma vez, os mais velhos trocaram um olhar.

“Minha mãe me falou sobre alguns corações sobrevoando o bingo… imagino que vocês tenham algo a ver com isso.” Nimbão comentou ousado.

Milena umedeceu os lábios, sentindo uma certa tensão e quentura no rosto. Diferente de DC, que estava sereno.

“Conversa meio invasiva, não?” ele perguntou.

“Foi só um comentário. Vocês não estão mais em uma relação puramente profissional, certo?” Keiko disse.

A cacheada não soube o que responder.

“É… Gente, a tarde foi deliciosa. Mas eu preciso ir.” falou enquanto se levantava.

“Já? Está tão cedo!” o mais velho disse.

DC riu, também se levantando.

“Eu vou com você.” ele disse.

“Não precisa. Vocês estão tendo um bom momento em família.” falou já com seu celular em mãos.

“Sua rotina é corrida demais, temos que aproveitar os momentos que podemos ficar juntos.” falou normalmente.

Keiko não conseguiu esconder um enorme sorriso ao mesmo tempo que não entendia o motivo de nada estar oficializado ainda.

“Milena, querida, quero te presentear com uma flor. Não aceito um não como resposta.” falou.

A cacheada sorriu.

“Bom… se não aceita o não, então não posso dizer não.” falou e as duas se afastaram.

Neste momento, Nimbão encarou o filho.

“Maurício, o que exatamente está acontecendo? Vocês dois demonstram que têm alguma coisa, mas ao mesmo tempo não assumem nada! Pensei que tivesse mais atitude.” perguntou direto.

DC suspirou.

“Pai, eu estou indo com calma.” respondeu.

“Calma? Vocês literalmente flertam um com o outro a cada olhar! Isso é um dos sinais mais claros de que algo precisa ser feito.” ele disse.

“Mesmo sendo emocionado, preciso saber dosar.” falou.

X

Enquanto isso, Keiko caminhava com Milena pela roseira.

“Milena, meu filho está apaixonado por você. Isso é nítido. E pelos olhares e até mesmo toques… imagino que seja recíproco.” ela disse direta.

Milena suspirou.

“Vou ser sincera com a senhora, dona Keiko, depois de algumas decepções, decidi não me envolver seriamente com ninguém. Com seu filho, eu não consigo deixar esporádico, mas, ao mesmo tempo, não sei se conseguiria me relacionar seriamente de novo.” confessou.

“Acho que seu problema não é só o medo de se apaixonar, é também que você está tentando racionalizar um dos sentimentos mais difíceis de fazer isso. Como meu filho adorava dizer quando mais novo: carpe diem.” falou enquanto entregava uma rosa vermelha.

Milena ficou pensativa.

“Vou pensar nisso.” falou e a outra sorriu.

X

No uper, a caminho de casa, DC a abraçou pelos ombros.

“Não encana com meus pais tentando apressar as coisas. Eles são assim mesmo.” revelou.

“Eles também são assim com os relacionamentos do Nimbus?” a moça perguntou e ele riu.

“O Nimbus levou a sério demais aquilo de relacionamentos líquidos.” comentou.

“E você não segue nada dessa filosofia?” perguntou e ele deu de ombros.

“Fica difícil quando você se apaixona.” revelou sem hesitação alguma.

Aquela não era a primeira vez que Do Contra demonstrava estar apaixonado, mesmo com pouco tempo. Antes que dissessem algo, o carro parou, havia chegado no ponto de Milena.

“Tchau, DC! Eu realmente adorei hoje.” disse e ele a beijou.

“É sempre bom estar ao seu lado.” piscou um olho.

A moça observou o carro se afastar com a cabeça longe e encarou a rosa vermelha, era tão difícil sua vida amorosa se direcionar daquele jeito que estava sem reação.

Assim que ia entrar em casa, a kombi de Sarah estacionou.

“Sarah? Você por aqui?” perguntou.

A amiga desceu rapidamente do veículo e logo a abraçou, fazendo a morena encará-la sem entender.

“Ô Milena... você 'tá bem? Aquele cara não passa de um idiota!” a tatuadora exclamou.

“Que cara? Do que você 'tá falando?” perguntou.

“Você não viu?” a outra perguntou.

“Não vi o quê? 'Tô offline faz umas horas. O que aconteceu?" a cacheada perguntou.

“Tem um cara, um pseudo crítico de cinema famosinho na internet, que assistiu o mini doc e fez um vídeo de crítica que, amiga… 'tá viralizando.” revelou.

“E daí? A intenção não era viralizar pra limpar a barra do DC?” a outra perguntou.

“Sim. Ele chegou a falar bem do DC, agora do mini doc…” comentou e a outra sentiu o chão fugir de seus pés por um instante.

“O que ele disse, Sarah?” perguntou.

Sarah suspirou.

“É melhor você mesma assistir.” falou e as duas entraram no prédio.

Na sala, Milena logo acessou o vídeo, percebendo uma alta quantidade de visualizações.

“Como pode tanta gente ter visto? O DC está em ascensão, mas… tudo isso em tão pouco tempo, é muita coisa!” perguntou.

“Esse cara é famoso. Então teve canal de react que já assistiu e uma coisa leva a outra.” a de cabelos azuis explicou.

Milena deu o play e assistiu ao vídeo do rapaz, que se intitulava fã da banda de Do Contra.

“A única coisa boa desse mini doc é a presença do DC, porque de resto… é horrível. É uma tentativa ridícula de fazer uma coisa conceitual, num nível tão absurdo de amadorismo que um simples trabalho de faculdade sem edição decente e com um roteiro básico ficaria melhor." começou.

"O DC foi quem fez valer a pena, porque por um milagre o cara conseguiu fazer render. Mas, para ser justo, os cortes até que seguem uma boa linha de raciocínio. Se a pessoa que entrevistou não for só uma estagiária, tem que ser demitida ou fazer uns cursos pra aprender o básico, porque esse vídeo... nota 2. Se você for fã do DC, pelo menos os closes são bons.” completou.

Milena ficou alguns segundos parada enquanto um anúncio tocava, apenas processando cada palavra.

“Milena… não liga pra ele! O conteúdo dele é ficar xingando uns vídeos pra viralizar, ele não é crítico de cinema de verdade. O mini doc ficou ótimo! Lembre-se que não tivemos suporte nenhum e que você foi sim atrás de estudar, pedir ajuda pra Cascuda e fez o possível. Tem muita gente contrariando ele e elogiando o vídeo." Sarah disse calma.

A cacheada não falou nada, mas sentiu uma lágrima deslizando por sua bochecha.

“Sarah… e se em vez de eu tiver ajudado o DC com o escândalo, tiver piorado? Eu devia ter me empenhado mais! O pai dele me disse que 'tava amador! Eu devia ter ouvido e ter feito mais coisa, ter estudado mais, devia...” falava rapidamente até a outra segurar em seus ombros.

“Milena! Para de se culpar! Foi seu primeiro mini doc e o Grózny não nos deu suporte nenhum! Pelas condições que tivemos, ficou ótimo! Ignora esse maluco!" exclamou.

“Como? O vídeo está cada vez mais viral! O que eu vou fazer?!" perguntou.

Sarah a abraçou.

"Antes de mais nada, respirar fundo. Não é sua culpa!" acalentou-a.

Milena, por sua vez, tentava normalizar sua respiração e diminuir os pensamentos ruins. Era exigente com seus trabalhos, então ficava mal quando algo dava errado, ainda mais em um trabalho tão especial como aquele.

*

Em casa, Do Contra tentava meditar. Estava despido, de óculos escuros e sua playlist de heavy metal já estava na quarta música, porém, não conseguia esvaziar sua agitada mente.

A cobrança dos pais e de seu próprio coração faziam com que sua mente desenhasse o belo rosto de Milena, destacando seu sorriso pintado de vermelho e revivendo os beijos viciantes.

De olhos abertos, bufou antes de tirar os óculos escuros e passar a mão nos cabelos.

“Tô parecendo um adolescente pervertido.” falou enquanto se levantava, indo até seu ateliê.

Decidiu ir trabalhar no quadro que havia prometido à Milena, que estava longe de se concluir. Pintou por horas, tanto que, quando se deu conta, o céu começava a escurecer.

“Tá pintando ou meditando?” Nimbus apareceu de repente.

“Quando foi que você apareceu aqui?” perguntou assustado, não havia o visto entrar.

“Tenho um date aqui perto daqui a pouco.” respondeu.

“E o que 'tá aberto a essa hora?” comentou.

“Pelo visto, você perdeu a noção das horas.” apontou para a janela.

O outro suspirou enquanto pegava um pano úmido para limpar as mãos.

“Eu não vejo a hora passar quando 'tô pintando.” comentou e o irmão foi olhar a obra.

“O que exatamente você 'tá fazendo? Tá com um abstrato estranho.” o irmão de cenho franzido.

DC girou em sua cadeira.

“Não é abstrato. Prometi à Milena que faria um quadro misturando Surrealismo com Barroco.” falou e o outro riu.

“Como? Você não sabe fazer pintura barroca. E nem surrealista. E nem tem como misturar esses dois!” comentou.

“O ponto é esse: mostrar que é possível.” explicou enquanto se levantava para esticar o corpo.

O irmão gargalhou.

“Um conselho: escolha melhor as suas batalhas. Mas por que o heavy metal ainda 'tá tocando? A meditação veio pra cá?” perguntou.

“Não 'tô consigo meditar. Minha cabeça 'tá muito cheia.” o outro respondeu.

“De quê? Você não faz nada.” Nimbus cruzou os braços ao perguntar.

O caçula suspirou.

“Eu ‘tô apaixonado, Nimbus. A cada tentativa de abstração, eu penso nela!” revelou e o irmão riu.

“Agora me fala uma coisa que eu não sei.” disse.

“Milena não costuma ter relacionamentos sérios, é sempre coisa mais esporádica. Ela me disse que não sou esporádico, mas… eu não quero forçar ela a nada, ainda mais em pouco tempo e sabendo que os exes dela deixaram marcas.” confessou.

“Forçar? Do que você 'tá falando?” o mais velho perguntou.

“Eu quero pedir ela em namoro! Eu... eu gosto muito de estar com ela e do que sinto por ela. Mas tem esses empecilhos.” confessou.

Nimbus acabou sorrindo.

“Não acha que ela não te considerar esporádico é uma deixa?” perguntou.

“Nimbus, só nos conhecemos há um mês.” o irmão lembrou.

“E daí? Você mesmo já disse que o tempo é uma ilusão e nunca ligou com isso.” rebateu.

“É, mas e se ela ligar? Até onde eu sei, um relacionamento não depende de uma opinião só.” o baterista ressaltou.

Nimbus bufou.

“Tudo você tem que complicar! Maurício, ela sabe que você é emocionado e continua com você. Então… fala pra ela! Se ela disser não, a vida segue." aconselhou, sentindo o celular vibrar ao fim.

O irmão suspirou e observou o semblante de Nimbus mudar para um mais sério em questão de segundos.

“Que cara é essa? Levou um fora?” perguntou.

O irmão não disse nada, apenas começou a assistir a um vídeo curto. Ao terminar, encarou o irmão.

“Tá me assustando, Nimbus.” DC falou.

“Do Contra… você sabe onde a Milena mora, né?” perguntou sério.

O olhar do mais novo se tornou preocupado.

“Sei… aconteceu alguma coisa com ela?” perguntou.

“Não diretamente, mas… afeta. Pelo visto, um influencer que se acha crítico de cinema falou bem de você, mas arregaçou o mini doc. Profissional do jeito que ela é… deve estar mal. Aqui, assiste.” explicou antes de entregar o celular.

Do Contra assistiu ao vídeo com o punho se cerrando conforme o rapaz do vídeo falava. Quando acabou, sentindo o sangue ferver, saiu do cômodo.

“Eu vou na casa dela. Me manda o arroba desse fodido aí! Eu faço questão de entrar no instagrão pra falar com ele! Qual o meu usuário e senha?!” exclamou alto.

“Calma, Maurício! Não vá fazer nada de cabeça quente!” o irmão aconselhou enquanto ia para onde o outro havia ido.

“Como não fazer nada, Nimbus?! Olha a merda que esse cara falou!” reclamou enquanto pulava para vestir suas calças.

“Eu sei, mas você acabou de sair de um escândalo, não pode entrar em outro.” falou se escorando no batente da porta.

“Eu não vou entrar em outro. Só quero conversar!” exclamou enquanto limpava as lentes de seus óculos de grau.

"Deixa que eu cuido disso. Vai lá dar uma força pra Milena!" Nimbus falou e o irmão assentiu, tentando se acalmar um pouco.

*

Outra pessoa preocupada com o que a internet desencadeava era Mônica. Embora não fosse uma seguidora de Carmem, a marcação de seu perfil profissional, conta que seguia Carmem desde o início do noivado, fez com que ganhasse novos seguidores.

Diante de sua angústia, decidiu ligar para Magali, que já estava sabendo das novidades do casório e da vida amorosa de Mônica.

"Estou a um passo de surtar, Magali! Se esse povo descobre o que Cebola e eu fizemos depois do não, eles vão achar que foi por minha causa e minha carreira vai pro buraco!" ela exclamou.

"De onde você tirou que eles acham que você teria alguma coisa a ver?" a outra perguntou.

"Um monte de gente me mandou DM perguntando se eu sabia o motivo! Imagina se eles descobrem de algum jeito que eu transei com o noivo horas depois de a Carmem ter dito não!" a amiga explicou.

“Relaxa, Mônica. Esse povo tem mais o que fazer pra ficar fuçando na sua vida.” Magali comentou.

“Tenho minhas dúvidas. Carmem tem uns fãs muito desocupados.” falou.

“Qual o seu medo exatamente? A wedding planner não controla a decisão dos noivos.” perguntou.

“E nem dorme com o noivo!" Mônica acrescentou.

"Que não era mais noivo. A Carmem disse não!" a amiga lembrou.

"Mas ainda sim foi muito em cima! Eu não devia ter atendido à porta ontem, Magali! Devia ter me segurado mais!" exclamou enquanto massageava as têmporas.

“Adeus trocar de carro! Adeus me mudar! Adeus sonhos! Adeus tudo! Eu devia ter me envolvido menos, ou melhor, devia ter negado ser wedding planner da Carmem, foi só dor de cabeça! Fui pensar na grana, na carreira e me…” lamentava-se até a amiga a interromper.

“Mônica! Calma! Você vai ter um ataque de nervos assim! Olhei o perfil da Carmem e do Cebola e eles não parecem tão preocupados que nem você." a amiga exclamou.

“É claro! Não é o profissionalismo deles que vai ser colocado em jogo. Mas enfim... já foi. Pelo menos a noite foi boa.” tentou se conformar com a situação.

“Você falou com o Cebola?” a amiga perguntou.

“Não. Eu fui na minha mãe, fiquei fazendo umas coisas e depois fiquei um tempão vendo páginas de fofoca pra ver se alguém suspeita de alguma coisa.” a de cabelos curtos respondeu.

“Vai lá falar com ele e dá um tempo do instagrão. Vocês precisam se apoiar nesse momento.” Magali recomendou.

“Não tenho cara pra falar com ele agora. Só sei que estou até com medo de como vai estar amanhã na Dream.” Mônica comentou.

O som de batidas na porta a fez se levantar e arregalar os olhos ao ver quem era.

“Cebola? O que está fazendo aqui?!” perguntou.

“Precisava esquecer da vida. Eu realmente achei que ela ter dito não acabaria com meus problemas, mas parece ter só começado!” falou e ela o deixou entrar.

“Magali, tenho que desligar agora. Tchau! Cebola… acha que te seguiram?” perguntou e ele franziu o cenho.

“Me seguiram? Hã?” perguntou confuso.

A moça se jogou no sofá.

“Eu 'tô ficando paranoica com os fãs da Carmem querendo saber o motivo do não. Tenho medo de eles descobrirem sobre nós e a gente se ferrar.” confessou.

O rapaz riu.

“Como eles descobririam?" perguntou.

"Sei lá. Ficamos próximos na época do noivado e você sumiu do altar quando a Carmem foi embora. Se juntarem as peças..." a moça disse.

"Na época do noivado, você estava sendo apenas uma excelente e atenciosa profissional. E eu fui pro apê do Cascão, simples. Nada disso é mentira, tem quem comprove.” falou.

A moça acabou rindo.

“Pra alguém que 'tá sendo chamado de corno e sendo alvo de teorias, você 'tá bem tranquilo!” observou.

Cebola se colocou atrás dela.

“Você precisa relaxar.” começou uma massagem nos ombros tensos da moça.

Mônica acabou rindo.

“Sabendo que amanhã aquela Dream vai estar uma fofocaida daquelas… preciso mesmo.” falou sentindo a tensão diminuir.

O rapaz começou a beijar seu ombro desnudo, descendo até o pescoço, fazendo a moça arfar.

De repente, a porta abriu de sobressalto, assustando os dois.

“Que susto, Do Contra!” ela falou com a mão no peito.

“Foi mal! Milena 'tá aqui?” perguntou rapidamente.

“Não sei… Vê no quarto dela.” a moça respondeu.

“Qual é o quarto dela?” ele perguntou.

“O segundo.” apontou e ele foi para o corredor e bateu à porta antes de entrar.

Agnes entrou em casa segundos depois.

"Pra um cara que contraria os outros, esse daí é bem afobado. Licença, casal." falou antes de ir para o quarto.

Cebola riu.

“O Do Contra nunca veio aqui com a Milena? Eu pensei que eles fossem mais… diretos.” comentou.

Mônica riu.

“O que te fez pensar isso?” perguntou.

“Eu lembro dele sendo muito direto naquele dia do boliche e ela vai em festa apocalíptica. Quem vai nesse tipo de festa, não fica perdendo tempo.” supôs.

“A Milena não fica com qualquer um. Trazer pra casa e pro quarto então… nem se fala. Nem te perguntei, 'tá tudo bem com seus pais? Eles surtaram com o casamento que não rolou?" a moça perguntou e o rapaz riu enquanto se sentava com ela.

"Eles ficaram felizes! Meus pais não eram a favor do casamento." respondeu.

"Pelo menos isso. E você veio me ver ou ver o Cascão? Porque se você já subiu... não foi aqui que interfonou." Mônica disse, recebendo um abraço lateral seguido de um beijo no rosto.

"Queria fazer uma surpresa, então contei com a ajuda do seu vizinho." falou e ela se aconchegou.

"Quer assistir série comigo? Preciso esquecer da vida." convidou-o.

“É claro!” exclamou enquanto a trazia para mais perto.

De repente, Cebola a olhou com um sorriso bobo.

“Sabe… quando estourar alguma próxima bomba e esquecerem desse casamento, topa sair comigo?” convidou e Mônica riu.

“Acho que é o primeiro convite pré-datado que recebo.” comentou.

“Pra você ver como a situação anda complicada.” ele disse e a moça sorriu graciosa.

“Eu vou adorar!” disse antes de dar um selinho no rapaz.

Estar daquele jeito deixou a moça um pouco mais tranquila, como se estivesse preparada para enfrentar qualquer coisa.

X

Enquanto isso, no quarto de Milena, DC estava deitado ao lado da moça, acariciando-lhe o ombro lentamente enquanto ela tinha a cabeça escorada em seu ombro.

Milena estava um pouco melhor do que quando estivera com Sarah, porém, ainda estava em choque.

“O cara não sabe o que 'tá falando.” ele disse.

“E se outras pessoas pensarem igual a ele, Do Contra? Eu me sentiria horrível se te prejudicasse! Sem contar que também ferraria pra mim.” ela disse.

“Não vai me prejudicar. É só mais um aleatório na internet falando coisa que nem sabe.” ele garantiu.

“Um aleatório com fama. Eu vou surtar, Do Contra! Primeiro teve a demissão, depois vem minhas dúvidas sobre meu curso e agora me vem mais essa! Que maré de azar horrível é essa?!” a moça praguejou.

“Você precisa descansar. Amanhã é um novo dia.” DC falou.

“Uma nova oportunidade pra descobrirem que sou uma fraude!” a moça disse desanimada.

“Negativismo não combina com você, Milena.” o rapaz comentou.

“Então me fala como eu posso ser positiva quando tudo dá errado, porque eu não consigo! Eu sei que, no futuro, vou olhar pra isso e talvez até rir, mas ainda não estou no futuro.” Milena falou sincera.

O rapaz suspirou. Por um lado, concordava com ela, era difícil manter o otimismo quando tudo parecia desmoronar, mas, por outro, estava odiando vê-la triste daquele jeito.

“Tem razão. É difícil manter o pensamento positivo, então vamos fazer o contrário.” sugeriu e ela franziu o cenho enquanto se virava para ele.

“Manter o pensamento negativo?” perguntou e ele acabou rindo.

“De certa forma. A ideia é pôr pra fora tudo que te preocupa." falou.

Milena o olhou por alguns segundos. Não tinha o costume de compartilhar seus problemas, mas sentia que estava prestes a explodir de tanta pressão que sentia de vários lados.

"Eu... eu me sinto perdida. Não sei o que pensar da minha vida profissional, acadêmica e até mesmo amorosa." começou.

"Eu amo ser fotógrafa, mas a Dream tinha sido o único lugar que pude fazer meus horários, então... acho que já era. Mesmo podendo fazer aquilo que divulguei, pode não dar em nada. Não tenho garantia nenhuma! Na faculdade, eu gosto do meu curso, mas não me vejo sendo uma veterinária, tem perdido espaço. Mas, ao mesmo tempo, não quero parar agora, foi muito difícil chegar até aqui e estou quase acabando. E minha vida amorosa... acho que tenho medo de deixar os sentimentos falarem mais alto e acabar me decepcionando de novo. Foi por isso que eu quis coisas menos sérias, mas, às vezes, eu quero sentir!" desabafou, sentindo o peito e os ombros ficarem mais leves.

Do Contra estava surpreso. Sabia de algumas coisas, mas vê-la confessando era diferente, ainda mais quando comparava aos seus problemas.

"Eu... eu queria muito saber o que dizer, como você sempre sabe. Mas eu só consigo pensar no quanto você guarda tudo pra você mesma e no quanto deve ser doloroso fazer isso." disse sincero.

A moça acabou rindo.

"Um pouco, mas... não é de se sentir pena. Eu estou bem, mas, como todo mundo, tem dias que não." falou e ele assentiu.

"Pra esses dias, posso ser um bom ouvinte." assegurou e ela o abraçou, recebendo um beijo no topo da cabeça.

"Quer saber? Chega de pensar nessas coisas! É domingo à noite, já é naturalmente triste! Vamos assistir crepúsculo? Ainda temos uma discussão para fazer." ela decidiu mudar os ares.

DC sorriu.

"Minhas opiniões continuam as mesmas." falou e ela riu.

"Veremos." piscou um olho enquanto ligava seu notebook.

O rapaz se aconchegou na cama da moça e mais ainda quando ela voltou a se sentar ao seu lado, não evitando de se aconchegar em seus braços e ele de sentir o aroma dela em contato com seu nariz, havia gostado daquilo.

*

Em outro canto, Nikolas havia acabado de encerrar uma live, que havia durado várias horas, e conversava com Xaveco por vídeo-chamada.

“Você acha que alguém te viu?” loiro perguntou.

“Não. Mas, mesmo se tiver visto, quem acompanha ela de verdade sabe que somos amigos. Deve saber até que eu era um padrinho.” respondeu enquanto comia uma maçã.

“A pessoa que filmou ela correndo tentou filmar a reação do Cebola, só que ele já tinha vazado. E sabe quem mais tinha sumido? Você! Isso é suspeito.” o amigo falou.

Nik riu.

“Xaveco, a noiva saiu correndo do altar, só isso já chama atenção o suficiente. E não sabia que o Cebola tinha sumido também." respondeu.

“Pensou tanto com a cabeça debaixo que esqueceu que era padrinho do noivo." o outro zombou, fazendo o amigo rir.

“Deixa de ser idiota. Eu fiquei realmente preocupado com a Carmem." rebateu.

“Você transou com ela, Nikolas. O nome disso não é preocupação, mas também termina com ão." Xaveco disse.

“Eu não fui atrás dela pensando nisso, Xavier! Eu te juro que ajudei ela sem segundas intenções. Só que ela decidiu ligar o foda-se e se declarou pra mim, aí eu não ia ficar chupando o dedo, né?” o amigo esclareceu.

“Você se declarou também?” o amigo perguntou.

“Sim. Eu não tinha nada a perder.” confirmou.

“E o casamento sai quando? Mês que vem?” perguntou, fazendo-o rir.

“Para de ser bobo! Acho que ela não vai querer se casar nunca mais. Só fico com pena da Mônica nisso tudo.” respondeu.

“Por quê?” perguntou.

“Ela trabalhou muito pra esse casamento dar certo. Eu amo a Carmem, mas não vou dizer que ela facilitou o trabalho, muito pelo contrário. Certeza que Mônica vai receber a grana, mas sendo alguém que gosta de casamentos… deve ser decepcionante uma noiva dizendo não.” explicou.

Xaveco riu.

“Relaxa, ela não saiu perdendo. Fofoca pra você, amigo: o Cebola fugiu lá pra casa, mas ele não dormiu lá. Ele se enfiou no apê do lado e rolou coisa. Detalhe: se a Carmem não tivesse dito não, ele diria. Você já tinha percebido que eles queriam se pegar, né?” perguntou após fofocar.

“Suspeitei.” respondeu.

“Pois é… ela não saiu triste daquele casamento. Mas eles têm que ficar espertos! Se vaza o que rolou depois do não... a Mônica pode se ferrar muito.” Xaveco comentou.

“Logo esse povo esquece. Muitos fãs da Carmem nem conheciam o Cebola, e ela já até apagou as fotos dele. É uma questão de tempo até ele poder seguir com a vida dele com quem bem entender.” Nik falou.

“Ainda mais quando a Carmem aparecer com Nik, o geek. Nikolas, vocês têm que ir postando aos poucos e tudo enigmático pro povo ir descobrindo! Eles vão até esquecer de vez do Cebola!” sugeriu no mesmo momento que a campainha tocou.

“Carmem é um pouco mais direta, mas acho que iria adorar fazer isso. Já volto, Xaveco.” falou enquanto se levantava.

“Vou sair, cara. Não faça o que eu não faria.” falou antes de ficar offline.

Nikolas foi atender e riu ao ouvir a voz da pessoa.

“Esquivou dos fofoqueiros de plantão?” perguntou assim que a moça chegou em sua porta.

“Meu querido, meus pais nem sonham com o tipo de festa que fui durante as viagens dele. Me esquivar de fotógrafos é moleza!” Carmem disse antes de beijá-lo nos lábios.

“Você não presta, Carmem." brincou.

“Você sumiu, rapaz. Por onde andou?” ela perguntou enquanto colocava uma sacola de compras retornável em cima do balcão.

“Tava em live zerando um jogo, então fiquei um tempo por lá. Como foi com seus pais?” perguntou enquanto se sentava no sofá.

“Você sabe que eles se preocupam muito com imagem, então o escândalo emputeceu eles. Até perdi o apartamento, mas agora eles estão viajando de novo. O que me estressou foi o povo chato no meu instagrão! Até desloguei hoje.” comentou enquanto ia se sentar ao lado dele.

“Pra você deslogar de alguma coisa… é porque foi sério.” ele comentou.

“Tem gente teorizando um monte de coisa, parece doido! Eu falei com o Cebola, e ele 'tá muito de boa.” comentou, fazendo o moreno rir.

“Claro, você que disse não! Livrou ele de tudo.” falou e ela riu enquanto se espreguiçava.

“Livrei ele do casamento e joguei no colo da Mônica. Eles devem jurar de pé junto que eu nunca percebi.” comentou e ele riu.

“Até eu achava que não.” falou.

“Ah… por favor, Nikolas! O Cebola não sabe disfarçar. A Mônica até consegue, mas ele… deixa muito na cara. Se a Denise não tivesse me dito que ela ficou ajudando no salão, eu teria certeza que ele foi pra casa dela." a loira comentou.

“Ele foi pro apartamento do Cascão, que fica do lado do dela. Pelo que me disseram, Cebola andou se esparramando nos lençóis dela na calada da noite.” fofocou, fazendo-a rir.

“Você é fofoqueiro, hein?” zombou.

“Assim você não se sente culpada por ter trocado o noivo pelo padrinho.” brincou.

“E quem disse que eu me sinto culpada? Eu não casei, então sou uma mulher livre das amarras matrimoniais.” falou e ele riu enquanto se levantava.

“Pensei que tinha mudado sua visão sobre casamentos. Quer água?” falou indo até a geladeira, de onde pegou uma garrafa de água.

“Não, valeu. E, sim, eu mudei. Mas continua sendo uma convenção social! Só que, agora, eu até participaria por vontade própria.” confessou.

Nikolas riu em meio a um gole de água.

“Ah… ela pensa em se casar!" cantarolou zombeteiro, fazendo-a rir.

“Fica aí rindo! Mas não se esqueça que nunca se sabe o dia de amanhã.” alertou.

“O casamento não sendo feito em só um mês, já muda muita coisa. O que trouxe nessa sacola?” perguntou enquanto colocava seu copo na pia.

Carmem sorriu enquanto ia até lá.

“Nossa primeira noite do hambúrguer! Espero que esteja com fome!” exclamou tirando coisas de dentro.

O rapaz franziu o cenho.

“Primeira?” repetiu e ela assentiu.

“É! Desde quando nos conhecemos, eu estava com o Cebola. Agora não estou mais.” explicou.

“Ah, sim. Então é a primeira noite do hambúrguer em que os dois são solteiros.” constatou e ela sorriu maliciosa enquanto ia até ele, abraçando-o e acariciando-lhe a nuca.

“Solteiros? Você é meu namorado agora.” afirmou, fazendo o rapaz, que a abraçava de volta, gargalhar.

“Eu não lembro de ter feito um pedido ou de ter sido pedido.” falou enquanto colocava uma mecha de cabelo dela atrás da orelha.

“Detalhe! A gente pode resolver isso agorinha.” falou e ele a beijou.

“Carmem, quer namorar comigo?” pediu e ela assentiu com um largo sorriso.

“Quero!” exclamou e o beijou várias vezes.

“Ou somos muito emocionados ou esse foi o pior pedido de namoro do mundo." o rapaz comentou.

“Nem um, nem outro. A gente já agia como um casal, então não tem pra que ficar enrolando. No pedido de casamento, você capricha." ela disse enquanto se voltava para a sacola de compras.

"Achei que você que gostava de fazer os pedidos e filmar." ele comentou enquanto a ajudava.

"Nós dois vimos o que aconteceu da última vez, então prefiro não arriscar. Fora que o romântico da relação é você." ela disse.

"Boa desculpa. Nossos fãs vão ficar sabendo da novidade? Que seus pais vão infartar com mais fofocas." perguntou.

"Ai, Nik, eu não quero ficar adiando meu romance dos sonhos com você, mas acho que vamos ter que deixar no sigilo pelo menos por enquanto." falou e ele assentiu.

“Problema nenhum. Xaveco tinha dito pra revelarmos aos poucos, deixando os fãs descobrirem o enigma. Achei legal.” falou.

A moça riu enquanto ia até o armário das panelas, já era íntima com a casa do rapaz.

“O Xaveco sabia que você ia me pedir em namoro?” perguntou.

“Ah… mais cedo ou mais tarde, isso ia acontecer, acabou sendo bem mais cedo.” ele respondeu terminando de tirar tudo das sacolas.

“Pra todos os fins, gosto de aproveitar o momento! Vamos fazer esse hambúrguer, amor. Que estou com fome!” falou sorridente.

*

De volta ao prédio perto a faculdade, Agnes sentia-se levemente ansiosa com seu primeiro encontro, que não era de fato um primeiro encontro.

“Essa 'tá boa?” perguntou para Penha e Sofia em chamada de vídeo.

“Aonde exatamente vocês vão?” Sofia perguntou.

“Eu não sei, por isso estou nervosa!” exclamou.

“Vai que ele te leva num outro Bidu?” Penha perguntou com um riso.

“Ele pediria pra ela ir com alguma roupa confortável num outro Bidu, Penha?” Sofia perguntou.

“Você vai em rolês assim, Sofia. Sabe muito bem como algumas pessoas vão nesses lugarrees.” Penha disse com um riso.

“Mas aí ele não faria suspense. Foi o primeiro lugar que eles foram juntos! Ele é skatista, né? Vai ver é lá.” Sofia disse.

“E ele farria suspense? É só usar uma coisa nem muito velha e nem muito nova, Agnes.” Penha sugeriu.

“Acho que odeio surpresas.” Agnes falou escolhendo uma das roupas em meio ao monte em cima de sua cama.

“Falando em surpresas, estou surpresa que Nik fez live um dia depois de ser padrinho de casamento. 'Tava com saudades daquele gostoso.” Penha comentou, fazendo a amiga rir.

“Tenho péssimas notícias para você: Carmem disse não no altar.” a loira falou.

“E eu com isso? Eu nem conheço ela!” a morena falou.

“Eles são a fim um do outro. Mas o noivado meio que impedia isso, então agora é uma questão de tempo até eles se pegarem. Ou seja, seu youtuber bonitão logo ficará indisponível.” fofocou enquanto se vestia.

“Mesmo? Que droga! Gostei de ficar com ele.” reclamou.

De repente, a campainha tocou.

"Será que é seu convidado?" Sofia perguntou.

"Hoje aqui 'tá cheio de convidados! Então talvez seja mesmo." respondeu ajeitando os cabelos.

“Vai lá e use camisinha!” Penha subiu e desceu as sobrancelhas, fazendo Sofia rir.

“Penha!” repreendeu antes de desligar a chamada.

Assim que ficou de frente para a porta da sala, que já estava vazia, ajeitou os óculos e a roupa. Respirou fundo e abriu a porta.

“Ooooi!” Cascão a cumprimentou com um sorriso.

“Oi, Cascão! Me deixou ansiosa o dia todo.” falou e ele levantou a sobrancelha.

“Mesmo? Com o quê?” perguntou.

“Bom… não sou muito fã de surpresas.” ela respondeu.

“Ah, foi mal. Não queria ter te deixado ansiosa. Lembra do meu projeto com o Átila? Hoje é a finalização. É uma sequência de esportes pra algumas pessoas. Como o espaço é aberto, tem como você não ficar muito perto dos outros, então achei uma ideia interessante.” Cascão revelou.

Agnes levantou a sobrancelha antes de começar a rir.

“E eu achando que a Milena ter tido encontro em um bingo foi estranho.” comentou e o sorriso dele diminuiu um pouco.

“Ah… eu achei que seria legal. Mas parando pra pensar… é uma ideia meio ruim.” falou e ela arregalou os olhos.

“Não, não! Não era uma reclamação! É só… diferente. Ser convidada pra concretização de um trabalho de faculdade é uma coisa nova.” explicou-se.

O rapaz respirou aliviado.

“Bom… considerando que a gente se conheceu por causa de um contrato feito pelo Tinder…” comentou e ela começou a rir.

“Você tem um ponto.” assumiu.

“Então vamos lá! Não se esqueça da sua garrafa de água!” falou e ela foi pegar, sentindo uma onda de ânimo a acometer.

X

Chegando na praça, teve uma surpresa ao ver que havia apenas cinco senhoras.

“Achou mesmo que eu te levaria pra um lugar lotado? Posso ser meio desligado, mas sempre tento respeitar os limites dos outros.” ele comentou após perceber o olhar.

A moça o olhou com um sorriso.

“Acho que isso que faz eu gostar tanto de você.” falou sem perceber.

O rapaz acabou sorrindo gracioso, mas a voz de umas das senhoras os interrompeu.

“Vamos começar, Cássio? Queremos balançar!” ela disse animada.

“Claro, dona Petúnia! Vamos lá, madames! Primeiro, distância significativa e vamos começar a se alongar!” falou.

Agnes olhou ao redor com um sorriso, todas estavam longe o bastante para que o contato físico fosse mínimo. Além disso, a moça percebeu que Cascão seria um excelente futuro educador físico, fosse pelo seu carisma, fosse pela sua paciência, fosse pelo seu amor aos esportes e fosse pelo seu profissionalismo.

Ao longo da sequência, Agnes ria divertida. Não se incomodava em sempre praticar esportes solitários e no conforto de sua casa, mas mentiria se dissesse que não havia sido uma boa experiência se exercitar ao lado das bem humoradas senhoras.

“Senhoras, muito obrigado por terem se juntado a mim neste projeto. Foram alguns dias de exercícios, interação e saúde!" o rapaz aplaudiu.

"Nós que agradecemos! Somos muito esquecidos aqui, então ter um professor atencioso... faz diferença. E trouxe a namorada hoje, você fez uma boa escolha, menina!" uma senhora disse, fazendo a moça enrubescer.

Após beber água, Cascão e Agnes se sentaram em um banco da praça ainda movimentada. Pessoas faziam caminhada, tomavam sorvete ou apenas se falavam. Diferente do dia, a noite estava fresca demais e o céu sem estrelas, indicando uma possível chuva, mas que parecia distante.

“Cascão, eu… eu me diverti muito! Nunca imaginei que esporte ao vivo, sem ser com uma pessoa numa gravação dando instruções, seria legal.” confessou.

“Nunca subestime a atividade física e o contato humano, Agnes! Mas fico feliz que tenha gostado! Vou colocar no meu relatório.” o rapaz comentou risonho.

Sem cerimônia nenhuma, ainda com o coração batendo mais rápido, Agnes juntou seus lábios aos dele. Havia sentido falta daquele contato, inclusive das mãos do rapaz em contato com seu corpo. Sua língua ainda não havia se acostumado em dividir o espaço com outra, ainda mais após muita atividade física, então o beijo fora curto.

"Uau! Eu gosto disso!" ele piscou um olho ao sussurrar.

"Eu também! Você me enfeitiçou, só pode." brincou e ele riu.

"Ah, Agnes... culpa do Bidu. Acho que merecemos um suco natural pra repor as energias e ganhar uma vitamina c!” falou e ela riu.

“Também acho.” concordou.

O clima, porém, tinha outros planos. Um vento forte soprou pouco antes de uma chuva se iniciar, engrossando em questão de segundos.

“Agnes, você ainda detesta chuva?” ele perguntou enquanto pegava sua mochila do chão.

“Demais!” ela exclamou.

“Então vamos ter que correr!” ele exclamou ao estender a mão para ela, que a pegou antes de começarem a correr.

Agnes sempre odiou correr na chuva, odiava água suja da enxurrada e dos carros que pareciam fazer questão de molhar as pessoas, mas, com Cascão, parecia divertido, tanto que gargalhava enquanto corria com ele.

“Para um atleta, até que você corre bem devagar.” a loira o provocou.

“Olha a audácia! Eu 'tô cansado!” o rapaz se defendeu e ela riu mais.

“Desse jeito, vai ser mais difícil ser chamado no time.” continuou provocando.

“Até apostaria uma corrida, mas corrida na chuva é paia.” ele disse e ela riu.

Encharcados, os dois enfim chegaram no prédio e pararam em frente à porta dela.

“Nem te perguntei, como foi com sua família?” o rapaz perguntou enquanto torcia a barra de sua camiseta.

“Uma chatice. Minha família pega muito no meu pé por vários motivos. Mas meus pais perguntaram quando te verão de novo, aí eu disse que a faculdade anda te atarefando." respondeu.

“Bom… não deixa de ser verdade.” ele comentou.

“O suco natural ainda 'tá de pé? Tenho laranjas em casa.” ela disse.

“Depende, se eu tiver que espremer, fica meio difícil.” o rapaz condicionou.

A moça acabou rindo.

“Você é mais preguiçoso do que eu pensava…” comentou.

“Esforço mínimo. Ontem foi um dia corrido, hoje eu fui instrutor de exercício e amanhã eu tenho aula. Você entende bem o suficiente do corpo humano para saber que as energias precisam ser repostas.” Cascão se explicou.

“Por isso o suco de laranja.” ela falou e ele riu.

“Sabe o que é bom mesmo, hein?” o moreno disse antes de enfim a beijar.

De súbito, a porta do apartamento se abriu.

“Cadê o respeito, rapaz?” uma voz rouca soou.

“Deixa eles!” outra soou.

Aquelas vozes fizeram a loira gelar e arregalar os olhos enquanto se afastava de Cascão.

“Mãe? Pai?” questionou incrédula.

“Surpresa!” falaram juntos.

“Como vocês… como vocês entraram?” perguntou.

“Sua colega Mônica abriu pra gente.” a mãe respondeu.

Cascão sorriu para os mais velhos.

"Como estão? Faz tempo, hein?!" comentou.

Nesse momento, Agnes caiu em si.

“Vamos entrar, Cascão! Conversar no corredor não é uma boa ideia.” falou entrando em casa com o rapaz.

Lá dentro, os pais de Agnes pareciam curiosos.

“Como está, Cássio?” o homem perguntou.

“Bem! E vocês?” perguntou.

“Ótimos, ainda mais sabendo que o namoro de vocês continua. Por que não foi com Agnes nos visitar?” a mãe perguntou.

“Eu 'tava num casamento, sendo um bom padrinho pro meu amigo. Então fiquei meio ocupado.” respondeu sincero.

“Não sabia que você tinha deixado de ir num casamento. A gente teria entendido, Agnes. ” a mãe falou com a filha.

“Eu não fui convidada.” ela respondeu limpando suas lentes.

Os pais franziram o cenho.

“Ele não convidou a namorada do amigo? Pra ser madrinha até entendo, mas nem como convidada? E você não fez nada, rapaz?” o pai perguntou bravo.

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Os dois se entreolharam, não haviam percebido a armadilha em que haviam se colocado.

“É que é um amigo antigo e foi de última hora. Ele nem sabia que eu… que eu namoro.” Cascão inventou.

“Como não sabia? Essas coisas a gente fala, rapaz! Vai me dizer que tem vergonha da minha filha…” a mãe disse de olhos semi-cerrados.

Cascão arregalou os olhos.

“Não, claro que não! É que… bom…” o rapaz não soube o que responder.

Agnes respirou fundo, decidindo ser sincera.

“É porque Cascão e eu não somos namorados. Eu o contratei para aqueles dias.” revelou.

Os pais ficaram boquiabertos e Cascão a olhou surpreso.

“Está me dizendo que nos abrimos para um total desconhecido?” a mãe perguntou zangada.

“Não é um total desconhecido! Cascão é meu vizinho.” a moça disse.

“E você, rapaz? Não se sentiu nem um pouco mal em enganar as pessoas assim? Aposto que foi ideia sua! O que queria ganhar com isso?!” o pai esbravejou para Cascão, ameaçando ir para cima dele.

“Não, pai! A ideia foi minha! Ele só fez aquilo que o contratei para fazer.” Agnes disse séria.

“Você é um garoto de programa ou o quê?” o mais velho perguntou.

“Não, eu não sou um garoto de programa, eu…” o rapaz respondia até ter sua fala cortada.

“Não acredito que fez isso conosco, Agnes! Por quê?” a mãe perguntou.

Agnes respirou fundo, não era assim que imaginava o fim de sua noite.

“Não quero ouvir explicação nenhuma! Se mentiu sobre um relacionamento, deve estar mentindo sobre tudo! Não me surpreenderia se estivesse vendendo o corpo na esquina em troca de drogas!” o pai exclamou furioso.

“Vocês sabem que não!” ela exclamou.

“Será? Você mentiu para nós! Devíamos ter imaginado… uma menina fresca e cheia de problemas, que mal consegue fazer amizades, não conseguiria um namorado. Ainda mais um rapaz como ele!” o pai apontou para Cascão, que tinha os olhos arregalados e boca fechada.

“Não devíamos ter permitido que viesse para cá, Agnes! Você se perdeu!” a mãe falou com nojo na voz.

Cascão estava perdido no meio da discussão familiar, então olhou para Agnes, percebendo os olhos marejados por trás dos óculos, o lábio trêmulo e a força que fazia para não chorar. Foi aí que decidiu agir.

“Sei que não tenho nada a ver com a família de vocês, mas pelo que pude conhecer da Agnes, ela mentiu porque não sentiu confiança em ser sincera com vocês!” iniciou.

“Você não conviveu com ela o suficiente para saber o quanto essa menina é problemática, Cássio!” a mãe falou.

“Posso não ter convivido, mas o pouco que tenho conhecido dela mostra o quanto ela tem evoluído. Nunca fui um cara hipocondríaco, mas não acho que seja fácil, ainda mais quando se é julgado o tempo todo por uma coisa que você não escolheu ter.” ele rebateu.

“Eu sei que mentira não é a solução, mas, vendo a reação de vocês, fica claro porque ela preferiu contratar alguém. Ela não queria mais um julgamento!” falou.

Os mais velhos se olharam, mas não disseram nada.

“Quem você acha que é para nos dizer o que fazer?!” o mais velho falou alto.

“Ninguém. É só uma opinião.” respondeu sem elevar a voz ou baixar a cabeça.

“A mesma que não pedimos! Conhecemos a filha que temos, mas não conhecemos você! Se nos dá licença…” a mãe apontou para a porta.

Cascão abriu e fechou a boca e olhou para uma envergonhada e quase chorosa Agnes.

“Cascão… acho melhor você ir pra casa.” ela disse baixo.

O rapaz a encarou antes de assentir com pesar.

“Tudo bem. Boa noite!” falou e deixou o local sem muita reação, a noite que tinha tudo para ser boa havia acabado péssima.

Quando o rapaz saiu, os pais de Agnes praticamente gritavam sobre os inúmeros perigosos que ela se submeteu.

“Não te reconhecemos mais, Agnes! A nossa filha jamais mentiria ou se colocaria em risco assim. Eu sabia que não devia ter confiado!” a mãe exclamou.

“Você deveria voltar para casa e para o EAD. Aquela faculdade, esse prédio, aquele trabalho medíocre, essas pessoas… não te fazem bem! Despertam o pior de si.” o pai esbravejou.

Os olhos de Agnes brilharam com as lágrimas que se formaram, mas sua voz não saía, por mais que quisesse gritar.

“Vamos para casa. E você… reveja suas atitudes. Imoralidades não combinam com essa família. Pode destravar o portão daqui?” a mãe perguntou com a voz enojada.

“Eu… eu…” não conseguiu completar, apenas foi até o interfone e a destravou o portão.

Os pais a olharam com reprovação antes de deixarem o local.

A loira ficou sem reação por alguns segundos, pensando nas palavras dos pais. Elas sempre a afetavam demais, tanto que as críticas constantes haviam sido um motivo para querer se mudar. Porém, não tinha coragem de falar nada.

“Eu sou patética!” xingou-se antes de ir para seu quarto com os olhos marejados.

A noite não durou muito depois disso. Logo a segunda havia chegado chuvosa e cheia de receios.