Almejar
13 Capítulo XIII - Profissionalismo
Notas iniciais
No polido e silencioso corredor da presidência da Dream, o som dos saltos de Carmem ecoava enquanto ela se dirigia à sua sala. Com o celular em mãos, fingiu não ter ouvido os cochichos sobre sua rara aparição no trabalho até chegar em sua sala gelada.
Enquanto esperava seu computador ligar, sentou-se em sua cadeira e entrou novamente no instagrão, onde crescia o número de curtidas e comentários em sua última foto publicada: uma em que ela estava com Cebola no campo de golfe, mostrando, propositalmente, o anel de noivado.
“Denise e Nik não curtiram… será que eles não viram? Ou será que estão bravos comigo?” perguntou-se.
Suspirou e decidiu fazer algo que já devia ter feito há muito tempo: acessar a pasta criada por Mônica.
“Até que ela fez um design bonitinho.” comentou enquanto apoiava o queixo na mão.
Enquanto lia, percebeu que a wedding planner de fato fazia muita coisa sozinha e deixava tudo muito detalhado. Aquilo a fez lembrar de cada momento compartilhado com Nikolas durante a organização das bodas e do próprio evento, demorando-se no quase beijo. Não por acaso, acabou suspirando.
“Será que ele também ‘tava mentindo quando disse que era emoção do momento?” interrogou-se enquanto olhava para o nada.
De repente, balançou a cabeça.
“Eu tenho que esquecer isso! Eu vou me casar com o Cebola e todo mundo sai satisfeito. Meus pais vão ter o genro ideal que tanto querem; o Cebola continua com os interesses dele e eu… eu ganho da Amanda!” tentou se convencer.
Respirou fundo com isso. De repente, a aprovação dos pais e vencer de Amanda não pareciam ter a mesma importância que no início de seu plano.
“Foco, Carmem! Tenho que pensar no que vai ser melhor pro meu futuro e carreira, e vai ser esse casamento!” repreendeu-se enquanto se levantava.
Ao deixar sua sala, uma funcionária a encarou.
“Já vai, Carmem?” perguntou.
“Não. Vou só pegar um café e… resolver uma coisa.” falou enquanto saía rapidamente.
*
O movimento matutino da rua era observado por uma distraída Mônica enquanto seu café esfriava. Seus pensamentos deveriam estar nos detalhes do cada vez mais próximo casamento de Carmem, porém, eles se direcionavam para o noivo da cliente.
Seus momentos com o rapaz se repetiam em sua mente a todo momento, causando sorrisos e até suspiros, algo que a deixava preocupada.
“Chega, Mônica! Chega! Ele vai se casar!” repreendeu-se.
De repente, ouviu batidas na porta. Suspirou e foi abrir, arregalando os olhos quando viu quem era.
“Carmem?!” exclamou.
“Oi, Mônica. Vim falar sobre coisas do casamento.” cumprimentou enquanto entrava na sala.
A morena continuou boquiaberta e olhou para fora.
“Você… você veio sozinha?” perguntou.
“Sim.” respondeu simples.
Mônica assentiu.
“Ér… pode se sentar! Como está hoje? Tudo bem? E o Cebola?” falou ainda desnorteada.
“Estou bem e ele está na faculdade agora.” a loira respondeu.
A outra foi até seu computador.
“Muita coisa já foi resolvida, mas temos três tópicos urgentes: lembranças de casamento, o vestido e a dança. Começando pelas lembranças, precisa ser algo que combine com o casal, mas não consegui pensar em nada.” apresentou.
“Eu também não faço ideia.” a noiva respondeu.
Mônica mordeu o lábio em frustração.
“Você ajudou o Nik com as bodas, né? Sabe como ele escolheu as lembranças? As sementes foram uma boa ideia.” perguntou.
“Na verdade, isso foi ideia minha.” revelou com um sorriso, surpreendendo a outra.
“Sério? Uau! E se aproveitarmos?” sugeriu.
Carmem franziu o cenho.
“Não! As sementes tinham um verdadeiro significado. Pode ser alguma coisa genérica e rápida de conseguir. Vamos pro próximo tópico.” decidiu.
A morena respirou fundo e anotou sobre pesquisar ideias de lembrancinhas.
“O vestido. Você não me mandou uma foto nem nada sobre ele, é importante saber como ele é para pensar na iluminação e até na decoração, pra ele se destacar e não ter nada da decoração enroscando, sabe? ” perguntou.
“Nem fui atrás do vestido.” confessou.
Mônica mentiria se dissesse que estava surpresa, mas assumia ser no mínimo decepcionante.
“Pelo prazo, duvido que alguém conseguiria fazer um vestido instagramável do zero, então recomendo alugar, preferencialmente um que não peça muitos ajustes.” aconselhou.
“Você tem algum contato que vai me ajudar com isso, né?” Carmem perguntou e a outra assentiu.
“Claro, te encaminho hoje mesmo. Por fim, a dança. Imagino que a dança do casal vá acontecer, mas e a dança maluca com os padrinhos?” perguntou.
“Dispensaria até essa dança, mas minha mãe até já avisou a senhorita Biju, minha antiga professora de etiqueta, que por acaso ensina valsa. Enfim, vai ser só valsa e depois pode abrir a pista.” a noiva respondeu sem ânimo algum.
As duas ficaram em silêncio enquanto Mônica atualizava as informações.
“Tá ansiosa pra ser a senhora Menezes, Carmem?” tentou puxar uma conversa.
“Será um prazer ver Amanda perdendo, mas não vou mudar meu sobrenome.” respondeu.
A wedding planner tirou os olhos da tela e encarou a desanimada loira em sua frente.
“Posso te fazer uma pergunta pessoal?” perguntou.
“Vá em frente.” a outra autorizou.
“Mexer com as bodas fez você mudar sua visão sobre casamentos?” questionou.
A loira riu.
“Acho que minha resposta não é a que você quer ouvir.” respondeu sincera.
Mônica mordeu a bochecha, segurando-se para não falar tudo que pensava.
“Entendi.” forçou-se a dizer.
Carmem a olhou bem.
“Eu sei que você acha que sou um monstro sem sentimentos e o Cebola um príncipe indefeso, Mônica.” supôs.
A morena negou.
“Não, eu não acho.” mentiu parcialmente, não a considerava um monstro.
“Não precisa mentir. Qualquer pessoa que enxergue o casamento como você enxerga acha que isso tudo é um erro. E talvez até seja mesmo, mas nada é unilateral. Se sou a escrota que se casa por uma competição, Cebola é o escroto que se casa por interesse.” afirmou, fazendo a outra arregalar os olhos.
“Ela sabe!” exclamou em pensamento, mas sua expressão facial tornou nítida sua surpresa.
“Por que essa cara? Achou mesmo que eu não sabia disso?” Carmem perguntou.
“Não, eu só… não é nada. É que cuidar de um casamento como o seu é uma novidade para mim.” disfarçou.
Carmem se levantou.
“Entendo. Sabe, Mônica, na verdade, as bodas me fizeram ver o casamento ideal como algo ainda mais inalcançável.” confessou.
“E o que seria esse casamento ideal?” a outra perguntou.
“Um tipo o dos pais do Nik. Ali existe… algo a mais.” a loira explicou.
“Bom… eles estão juntos há 30 anos, então esse algo a mais foi construído com o tempo. Cuidado com as comparações, Carmem.” Mônica comentou.
Carmem assentiu.
“Me manda o contato do vestido.” pediu antes de sair rapidamente.
A morena observou a porta se fechando enquanto brincava com uma caneta.
“Ela conseguiu me surpreender hoje. Tenho ligações a fazer!” comentou enquanto abria uma agenda.
*
A rua perto da faculdade não estava muito movimentada àquela hora, assim como a vazia GGeek. Mesmo com baixo movimento, Agnes, sorridente e cantante, limpava os expositores.
“Parece feliz hoje. Teve um bom fim de semana?” a voz de Nik soou enquanto pegava alguns gibis para montar um pedido.
“Ótimo. Inclusive aqui na loja. Cascão seria uma boa aquisição para os fins de semana, sabia? Esses que você quase não fica por aqui e eu acabo lidando com os otakus e cia sozinha.” sugeriu.
O rapaz riu.
“Em minha defesa, estive ocupado esses dias por causa das bodas. Do contrário, eu também lido com os otakus e cia. Engraçado você sugerir mais alguém aqui, Agnes, você vivia dizendo que a parte boa de ser a única funcionária era não ter que lidar com uma duvidosa higiene alheia.” comentou.
A loira riu enquanto passava mais produto no pano.
“O Cascão até que tem uma boa higiene. Fora que vendeu muito bem, ele tem um perfil muito parecido com o dos clientes.” assumiu.
“Se o movimento não ficar como hoje, posso pensar no seu caso. Mas meu contador iria querer me degolar, mais do que já quer.” o outro comentou e ela riu.
“Ele ainda acha que a loja física é um investimento ruim?” perguntou e o chefe levantou uma das sobrancelhas, não tinha o costume de falar de suas finanças com ela.
“O quê? Vocês se falam por ligação e as paredes são finas.” acrescentou ao perceber o olhar.
“Enfim, tudo depende das vendas. Vou preparar essa encomenda. Qualquer coisa, é só chamar.” Nik falou enquanto descia para o depósito com revistas.
A loira continuou limpando os expositores e, ao ver uma Figura de ação do Capitão Pitoco, lembrou-se de Cascão, ele havia falado com muito entusiasmo sobre a história do personagem.
“Como pode um cara que fala desses bonecos com tanto brilho no olhar ser tão diferente do perfil de outros que fazem a mesma coisa?” perguntou-se.
De repente, uma pessoa entrou na loja. Agnes olhou e foi para o caixa.
“Oi, Denise.” cumprimentou-a.
A ruiva foi até lá.
“Agnes! Sofia e eu fomos num karaokê ontem. Lugar imundo e com gente dividindo microfone. Seria um filme de terror pra você.” provocou.
A loira assentiu inabalável.
“Que legal. Acredita que também estive em um lugar imundo ontem? Uma rampa de skate.” respondeu.
O sorriso debochado de Denise sumiu, dando lugar a uma expressão surpresa.
“Rampa de skate? Você?!” questionou incrédula.
“Sim. Até arrisquei. Acho até que Sofia iria adorar fazer alguma coisa do tipo.” respondeu.
A outra a encarou de olhos estreitos.
“Você ‘tá… diferente.” reparou.
A loira deu de ombros.
“Não sei do que está falando, estou como sempre fui.” a outra disse.
Denise riu.
“Ah, mas não ‘tá mesmo! Enfim, tenho que falar com o Nik. Ele ‘tá aqui?” perguntou.
“Ali.” apontou para o rapaz se aproximando com uma caixa em mãos.
“Nikolas! Temos que conversar.” a ruiva falou.
“Tenho que levar isso pro correio. Podemos ir falando no caminho. Daqui a pouco estou de volta, Agnes.” falou e a funcionária assentiu.
“Tchau, Denise.” despediu-se.
Denise a olhou bem.
“Tchau.” acompanhou o rapaz.
Agnes riu orgulhosa, havia vencido uma das provocações de Denise.
“Quem diria, hein?” comentou consigo mesma enquanto voltava a limpar as coisas.
X
Denise olhou para trás com o cenho franzido.
“O que deu na Agnes?” perguntou.
“Como assim?” ele perguntou.
“Ela disse que foi numa rampa de skate, Nikolas!” a moça ressaltou.
“E daí?” o gamer disse.
“Ela não era hipocondríaca?” Denise lembrou.
“Por que está tão incomodada? Ela não vai roubar a Sofia de você, não.” o rapaz assegurou com um riso.
“Não é isso, Bobo. É que mudanças repentinas são estranhas.” a ruiva se explicou.
“Duvido que você veio atrás de mim pra falar sobre a vida da Agnes, Denise.” Nik desconversou.
“Mesmo sendo uma conversa interessante, não. Vim falar sobre a Carmem. Ela me falou sobre o que rolou nas bodas.” Denise entrou no assunto.
“Emoção do momento.” ele respondeu.
“Não mente pra mim!” ela apontou um dedo e o amigo suspirou.
“Que diferença faz? Você viu a foto dela com o Cebola? Ela vai continuar com o plano, então estou fora do jogo, como sempre estive.” Nikolas desabafou.
“Aposto que se você falar o que sente, ela acaba na hora com essa palhaçada.” a moça supôs.
“Tenho outras coisas pra fazer além de estragar o noivado dos outros.” ele disse.
“Que coisas? As bodas já foram.” falou.
“Seguir com minha vida. Olha, Denise, eu sei que você também não quer que esse casamento aconteça, mas nós dois já falamos e ela não ouviu, então… não tem mais o que ser feito.” Nik se contentou.
A moça sorriu maliciosa.
“Sabia que ela não se arrepende do que te disse?” ressaltou.
O rapaz suspirou.
“Sabia. E sabe do que mais? Que daqui uns dias ela vai se casar com outro.” lembrou.
Denise suspirou, também estava cansada de andar em círculos.
“Tá bom, não vou mais insistir. Pelo visto, o apê dela ficou pronto hoje, então a open é com a gente, mas o pai dela mandou a lista de convidados.” cedeu.
“Uma open house em plena segunda-feira?” o rapaz perguntou surpreso.
“A Carmem parece desanimada hoje, vai acabar sendo bom.” a moça disse e ele suspirou.
“Beleza. O Cebola já sabe?” perguntou.
Denise revirou os olhos.
“Ele devia se chamar banana, moleque mole! Não faz nada!” reclamou e o amigo riu.
“Esperto é ele.” comentou, fazendo a ruiva rir também.
*
Na faculdade, em especial na biblioteca, Milena decidiu aproveitar uma aula cancelada para adiantar algumas edições do mini documentário, principalmente por não estar nada animada com o conteúdo de seu curso.
O fato de a assistência de Grózny em um trabalho que não era feito apenas por fotógrafos ser praticamente nula fez com que Milena recorresse à Cascuda, a estudante de jornalismo e ex namorada de Cascão, com quem mantivera a amizade.
“Aqui! Esses livros podem complementar as dicas.” a loira comentou enquanto colocava quatro livros ao lado dela.
“Acha que eu termino de ler tudo isso ainda nesta vida?” Milena perguntou e a amiga riu.
“Eu já li todos eles, tenho um fichamento com as partes mais relevantes. Encaminho pra você.” ofereceu.
Milena sorriu.
“Muito obrigada, amiga! ‘Tá me salvando demais!” exclamou.
“Seu empenho em fazer um bom mini doc vai acabar te jogando no curso de jornalismo.” a amiga brincou.
A outra negou.
“Nunca mais aceito um trabalho desses!” exclamou.
“Pelo menos vai poder colocar essa opção no seu futuro estúdio.” Cascuda comentou.
“Não me dê mais ideias!” apontou um dedo.
“Tenho que ir agora, até mais!” Cascuda se despediu, saindo com alguns livros consigo.
Milena folheou rapidamente um dos livros deixados e respirou fundo enquanto seu olhar se voltava para a janela que dava visão para a rua, onde viu um cachorro magro abanar o rabo para um desconhecido.
Aquilo a fez se lembrar de sua aula sobre diagnósticos negativos, dentre eles o mais temido por todos.
“Será que eu saberia lidar com o fato de que nem sempre o animal que eu estiver cuidando vai voltar pro dono?” questionou-se.
Reparou em uma criança com um cachorro na coleira e pensou mais.
“Acho que não. Chega disso! Vamos focar no trabalho!” exclamou e olhou para o próximo frame, que mostrava o rosto sério do pai de DC.
“Adoraria só pular as cenas de falsa aprovação deles…” comentou enquanto abria outra aba.
Talvez o cansaço a fizesse se dispersar mais, mas, de súbito, lembrou-se de um comentário feito pelo pai de Do Contra antes do início das gravações.
“Amadorismo… Será que, no fim das contas, isso realmente remete à personalidade subversiva do DC? Às vezes sinto que não estou realmente fazendo o trabalho do melhor jeito.” duvidou.
A vibração de seu celular a tirou dos devaneios. Ao ler a mensagem recebida, franziu o cenho e guardou suas coisas para deixar o local.
Pouco tempo depois, Milena chegou à Dream, ao mesmo tempo que Sarah e Luca.
“O que o velho quer?” Luca perguntou.
“Não faço ideia. Mas se for pra trabalhar hoje, vamos cobrar a mais. Não é nosso dia de trabalho.” Sarah alegou.
“Exato!” Milena concordou.
Ao chegarem na sala do supervisor, ele parecia alegre.
“Queria nos ver, senhor Grózny?” a cacheada perguntou.
“Tenho um trabalho para vocês hoje à noite.” revelou.
“A gente não trabalha de segunda.” Sarah ressaltou.
“Eu sei, mas vocês serão bem remunerados por isso, não se preocupem. O cliente é conhecido da fotógrafa do momento, então achei que seria uma boa ideia.” explicou.
“Do que se trata?” Milena ignorou a provocação.
“A família vai aparecer em uma matéria de revista, então precisam de algumas fotos.” o mais velho disse.
“Quem é?” Luca perguntou curioso.
“Mauro Takeda, da empresa Takeda Ltda. O pai do cliente do mini doc.” respondeu.
Milena quis rir.
“Sério isso? Eu vi o DC ontem e ele não me disse nada!” exclamou.
Grózny levantou a sobrancelha.
“Ontem? Você está saindo com o cliente?” perguntou sério.
“Não! Foi por acaso.” ela respondeu e ele assentiu.
“Ah, bom. Um relacionamento desses seria problemático para você.” alertou.
A moça engoliu em seco, mas manteve seu olhar alto.
“Sobre o trabalho de hoje, é de que pacote?” perguntou.
“Diria que um semi-econômico. A família é endinheirada, mas muito mão de vaca. Só que são grandes empresários, então temos que manter portas abertas.” Ivan respondeu e ela se esforçou para não revirar os olhos.
“E vamos só nós 3?” perguntou.
O supervisor riu.
“Vocês dão conta. Podem ir agora.” disse virando a cadeira.
Os três saíram não muito animados. As tentativas de Grózny em fazê-los pedir demissão eram cansativas.
*
Enquanto isso, no refeitório da faculdade, Cebola contava a Cascão sobre sua noite divertida com Mônica.
“Mano… eu entendi errado ou você ‘tá meio que dando ideia na tua wedding planner?” Cascão perguntou seriamente.
“Que dando ideia! Eu só acho que ela é uma pessoa interessante.” esclareceu.
“Vai mentir pra outro!” o amigo exclamou sério.
“Não é mentira! É crime um cara ter amizade com uma mulher? Você tem amigas!” argumentou.
“Nem tenta comparar! ‘Tá na cara que você sente alguma coisa por ela!” Cascão afirmou.
Cebola bufou.
“A gente não fez absolutamente nada de errado! Só cozinhamos juntos, coisa que a própria Carmem faz com os amigos.” defendeu-se.
“O problema não é esse, Cebola! É que você está esquecendo que está noivo e nas mãos do teu sogro, que é chefe da Mônica! Se ele sonhar que você ‘tá querendo trair a Carmem com uma funcionária dele, rodam vocês dois!” Cascão alertou.
“Quem aqui falou de traição, cara? Eu não fiz nada! E… sonhar não é proibido.” respondeu.
O atleta franziu o cenho.
“Sonhar?” repetiu.
Cebola suspirou.
“Você sabe que casamento nunca fez parte dos meus planos, mas, se eu realmente quisesse me casar com alguém, a Mônica seria a pessoa ideal! Ela… ela sempre foi ela mesma! E além de atenciosa e bonita, é uma companhia maravilhosa. Ela se importa, sabe?” confessou.
Cascão deu um riso.
“Maninho… acho que seus pneus ‘tão arriados.” comentou, fazendo o amigo rir.
“Por coincidência, a gente tem se visto bastante. Sabe aquela sensação de rolê gostoso? Que você sempre quer repetir? É o que sinto sempre que a gente se esbarra. E… eu nunca me senti assim com a Carmem em dois anos de namoro.” começou.
“Ela se tornou uma amiga pra mim, Cascão. Uma amiga mesmo! Só que eu sinto que quero mais que amizade, como nunca quis na minha vida. O que é estranho, porque ela nunca me deu moral desse jeito.” confessou.
“E esse sentimento é maior que seu esquema com a Carmem?” o outro perguntou.
“É uma coisa que tem ficado mais forte. Mas não quero ferrar pra ela, ainda mais sabendo o quanto ela ama ser wedding planner e batalhou pra conseguir a fama que tem.” respondeu sincero.
O amigo assentiu.
“Maduro, Careca. Mas triste.” comentou.
Cebola suspirou.
“Eu quero continuar amigo dela depois do casamento, então… eu vou só tentar seguir em frente.” decidiu-se.
Cascão assentiu.
“No teu caso, é o certo. E o casamento, hein? ‘Tá preparado?” perguntou.
“A cada dia que se passa, fica mais difícil de responder isso. Às vezes, parece que estou fazendo a coisa errada…” respondia até o outro rir sarcástico.
“Você está fazendo a coisa errada!” afirmou, recebendo um olhar feio de Cebola.
“E é aí que lembro meu objetivo! E como eu vou alcançar o que eu quero com esse casório.” continuou o raciocínio.
O amigo cruzou os braços.
“Será?” perguntou.
“Como assim será?” o de cabelos lisos perguntou.
“Você fala que o pai da Carmem vai abrir portas pra você, só que ele não te disse qual vai ser o trampo que vai te enfiar e já te colocou pra pagar conta do novo apê, e não é pouca coisa. Não sou o cara mais inteligente do mundo, mas isso me parece cilada.” opinou.
“Ele vai me dar uma colher de chá no começo, cara. Ele sabe da minha situação. Fora que o Cornélio é gente boa, ele não seria capaz de me passar pra trás.” o amigo garantiu.
Cascão riu.
“Um ricão e esnobe feito ele é capaz de fazer muita coisa, Cebola.” comentou.
“Não é assim também! Vamos mudar de assunto!” o outro pediu.
“Não 100%. E a despedida de solteiro?” o atleta perguntou.
“Ah… não sei se faço. Acha que pega bem?” Cebola perguntou incerto.
Cascão, surpreso, cruzou os braços.
“Fazer uma coisa que todo noivo faz?” perguntou irônico.
“Ah, você sabe… Frufru, né?” o amigo ressaltou.
O amigo acabou rindo.
“Acho que não, cara. Mas se ‘tá tão preocupado com a aprovação dele, é só fazer uma coisa mais suave.” sugeriu.
Cebola pensou.
“Podemos fazer uma resenha no teu apê! A gente pode pedir pro Nik, que é um padrinho, liberar uns jogos caros que ele já jogou em live que eu queria muito jogar.” propôs.
“Beleza. Mas só os caras?” o outro perguntou.
Cebola deu de ombros enquanto desviava o olhar.
“O Titi com certeza vai querer chamar alguma. E… tem suas vizinhas.” respondeu.
Cascão apontou o dedo para ele.
“A-HÁ! Você só quer fazer resenha lá em casa pra convidar a Mônica! Nossa, Cebola… essa conversa não serviu de nada!” exclamou.
“Nada a ver! É que elas moram do lado! Assim evitamos problemas com vizinhos.” explicou-se.
“E eu nasci ontem.” o amigo respondeu irônico.
“Ah, cala a boca! Você também sairia ganhando! A Agnes iria também.” Cebola rebateu.
O outro franziu o cenho.
“O que a Agnes tem a ver com eu sair ganhando?” perguntou.
Cebola sorriu malicioso.
“Ah, Cascão… você levou ela na rampa, chama ela pra tudo… eu ‘tô sacando.” insinuou.
“Não viaja, Cebolácio! Ela é legal e tem sido bom pra ela sair de casa. Estou sendo um amigo.” o outro explicou.
“Se ela quisesse ficar com você, você toparia?” Cebola perguntou.
“Ela tem tendências hipocondríacas, cara. Pra querer pegar alguém, deve querer até um exame de rotina.” respondeu.
“Há uns dias, ela nem olhava na tua cara. Agora… ela até te abraçou.” observou, Cascão havia falado sobre o dia anterior.
“Você é muito pervertido, Cebolácio! Vou até me retirar.” ofendeu o amigo, saindo em seguida.
Cascão caminhava aos risos, porém, seus pensamentos o levaram até a imagem de uma sorridente Agnes. Além do belo sorriso, os abraços trocados haviam sido calorosos.
“Será que esse safado ‘tá certo?” questionou-se.
*
Fazia pouco tempo que o dia havia cedido lugar para a noite quando a meditação de Do Contra fora bruscamente interrompida. O rapaz, ainda de óculos escuros, respirou fundo.
“O que quer agora, Nimbus?” perguntou ainda sentado.
“Se veste! Só lembrei agora que temos umas fotos em família pra tirar.” revelou.
Do Contra se levantou.
“É o quê?” perguntou.
“Nossos pais vão aparecer numa revista, então a família de comercial de margarina que somos precisa estar reunida e bem arrumada, então eu trouxe seus trajes finos.” o outro respondeu enquanto colocava a roupa em cima do sofá.
“Em que mundo que somos uma família de comercial de margarina?!” DC questionou.
“O mundo empreendedor gosta de uma imagem positiva da família.” o irmão comentou.
“E quem disse que isso é um problema meu?” o irmão rebateu.
“Vai logo, DC!” Nimbus insistiu.
“Por que faz tanta questão? Eu não ‘tava manchando o nome da família?” DC questionou.
“Uma família unida compreende os momentos dos filhos.” respondeu e o outro riu sem humor.
“Compreensão não faz parte do vocabulário da família, você sabe muito bem disso. E eu não vou!” exclamou.
Nimbus bufou.
“A equipe já está a caminho de lá! Vai mesmo colocar o pé no trampo deles? É literalmente só estar lá e falar meia dúzia de palavras. Só!” exclamou.
DC suspirou.
“Tá… mas eu não vou ficar muito!” afirmou.
“Não vai precisar.” o irmão garantiu.
X
No caminho para a casa dos pais, DC observou o irmão sorrir enquanto trocava mensagens com alguém.
“Você só manda esse emoji de fogo?” perguntou.
“Se você não pega ninguém, não posso fazer nada.” o mais velho respondeu.
“Eu não flerto desse jeito.” defendeu-se.
“Falou com a Milena?” Nimbus perguntou.
“Elogiei o sorriso dela e ela o meu. Acho que estamos indo bem.” revelou e o irmão riu.
“Quem sabe quando vocês tiverem 84 anos começam a pegar na mão um do outro?” ironizou.
“Idiota.” DC xingou.
“Irmãozinho, se quer quebrar a barreira entre a vida pessoal e a profissional, seja pelo menos mais corajoso.” aconselhou.
DC abriu e fechou a boca, não teve uma resposta.
*
Não tão longe dali, Carmem e Cebola haviam saído há pouco da primeira aula de valsa e, após tomarem banho em suas casas, seguiam rumo ao novo apartamento, onde seus pais provavelmente já haviam iniciado a open house.
A animação dentro do costumeiro silencioso carro de Carmem era nula. Cebola não sabia se era pela aula de valsa ou pela mulher ao seu lado não ser a mesma que enfeitava seus pensamentos. Já Carmem, por sua vez, sequer queria estar ali ou indo para a sua própria festa.
“Cebola, o casamento está chegando, então você tem que ir atrás de um terno bom.” ela enfim se pronunciou.
“Não sei escolher ternos, Carmem.” respondeu, ainda olhando pela janela.
“Pede alguma indicação pra Mônica e joga no orçamento.” respondeu simples.
O rapaz abriu um sorrisinho ao ouvir o nome da outra.
“Ah… ela pode me ajudar nisso?” perguntou.
“Ela é nossa fada madrinha, né? E… acho que já passou da hora de falarmos sobre nossa relação.” decidiu entrar no assunto.
Cebola bufou.
“Quer ter uma DR agora, Carmem?” perguntou.
“Não é uma DR, é só uma conversa. Desde o início do noivado, as coisas estão mais… frias entre nós.” a moça começou.
“Sim.” ele assentiu.
“Então, temos que parecer mais apaixonados. As pessoas suspeitam que a gente não sente nada um pelo outro, e isso pode complicar nossos próprios objetivos.” a loira explicou.
“Tem razão.” o rapaz concordou.
“Ótimo. Então precisamos tentar fazer mais coisas juntos, postar mais fotos e algumas declarações fofas. Depois a gente vê como fica a questão sexual.” falou enquanto fazia uma curva.
Cebola franziu o cenho.
“Espera aí, você ‘tá dizendo que quer voltar ao sexo casual comigo?” perguntou.
“Até pra isso precisa haver alguma atração, coisa que não sinto por você faz tempo! Sem ofensas.” a moça respondeu sincera enquanto entrava no condomínio.
“Não tinha ofendido.” ele negou com a cabeça.
“Enfim, vai chegar o momento que vamos sentir uma necessidade, mas se vazasse uma notícia de traição, nós dois nos daríamos mal. Então, pelo menos por enquanto, você vai ter que se contentar em se...” explicava até o noivo impedir a continuação.
“Tá bom, Carmem! Eu já entendi! Mas, se é assim, o casamento vai acabar com nossas vidas sexuais.” constatou com sinceridade.
“Calma! Depois vemos isso. Mas já sabe, pra todos os fins, somos um casal feliz.” a loira ressaltou.
Cebola revirou os olhos.
“Pergunta genuína: você acha que vai durar quanto tempo esse casamento?” interrogou.
A noiva deu de ombros.
“Eu não sei. Metade dos nossos convidados têm casamentos de fachada e sem amor. Então… pode durar mais do que você pensa.” respondeu estacionando o carro em sua vaga enquanto Cebola refletia sobre sua situação.
Ao entrarem no apartamento, Cebola nem mesmo conseguiu se sentir animado. Além de Denise e Nikolas, não conhecia nenhum dos outros convidados, uma vez que Cascão e seus pais inventaram alguma desculpa para não ir, Mônica não fora convidada e os demais eram seus desconhecidos padrinhos e amigos da família de Carmem.
Diante disso, contentou-se em ficar assistindo ao filme de ação que passava na desnecessariamente grande televisão e comendo as saborosas comidas feitas por um chef. O local estava cheio de móveis caros e belas decorações, porém, era sentimentalmente vazio.
Já Carmem, melancólica e sem ânimo algum, na sacada, olhava para a rua enquanto bebia uma taça de vinho. O local que havia se visualizado há alguns dias havia se tornado um simples apartamento.
“Por que a anfitriã está aqui sozinha?” a voz de Nik a fez se virar.
“Trabalhei hoje, fui ver uns vestidos e ensaiar valsa. Isso cansa.” respondeu.
“Imagino… ‘tá tudo bem? Você parece triste.” observou com as mãos para trás.
A moça suspirou.
“Fiz algumas escolhas erradas na minha vida, Nikolas. Há dois anos, decidi namorar um cara que sabia que meus pais iriam aprovar; há quase um mês, decidi pedir ele em casamento pra ganhar de uma pessoa que nem sabe que estamos competindo e…” falava até encará-lo bem.
“E eu ando mentindo. Mas isso não importa mais, agora o que vier é consequência.” finalizou.
“Mentindo?” ele repetiu.
“Nada demais. Acabei nem agradecendo vocês pela open. Tá bem legal!” mudou de assunto.
Nik decidiu não insistir no assunto.
“Vai ficar melhor se você se animar um pouco. Vamos lá fazer um bloody Carmem.” sugeriu.
“Numa segunda-feira?” ela perguntou e ele riu.
“Tem um quarto pra quem não aguentar, né?” lembrou e a amiga enfim sorriu.
“Tá bom.” aceitou após beber o resto de seu vinho.
“Ah, eu trouxe um presente pra você.” falou enquanto mostrava um pequeno vasinho de cacto, que escondia atrás do corpo.
Carmem franziu o cenho ao pegar a planta.
“Um cacto? A GGeek é pertinho de uma floricultura cheia de plantas legais que dão flores! Quis me dar logo a planta mais sem graça?” reclamou.
“Calma aí, Fiscal de planta! ‘Tá subestimando demais! Tem que começar por uma mais fácil de cuidar. Ah, e, só pra você saber, cacto também dá flor!” o rapaz respondeu risonho.
“Tá sabendo, hein? Achei que a doutora em botânica era eu.” a moça lembrou da brincadeira.
“Já mandei cassarem seu título, não saber que cacto dá flor é inadmissível. Mas… tem um significado também: cacto tem a ver com superação de obstáculos, então pode ser bom pra você e seu futuro marido.” Nikolas completou.
A moça olhou para a plantinha e depois para o amigo, agora com um sorriso no rosto.
“Brincadeiras à parte, obrigada. Um dia, vou ter muitas plantas; e você vai ter ciúme de cada uma delas.” comentou e ele riu.
“Eu não tenho ciúme de planta! Vamos logo fazer a bebida.” disse e ela o acompanhou com um riso, sentindo-se um pouco mais animada.
*
O dia de Agnes estava bom, além de sua resposta à Denise, sua aula havia acabado mais cedo. Enquanto deixava o prédio, percebeu um grupinho de amigos de Cascão, o qual, para a sua surpresa, a cumprimentou.
“E aí, Agnes! Não sabia que estudava aqui.” um deles comentou.
“Estudo. O mundo é pequeno.” respondeu com um riso.
“Estuda o quê?” uma garota perguntou.
“Biologia.” respondeu.
“Nossa… corajosa. Já ‘tá indo embora?” perguntou.
“Sim, minha aula acabou mais cedo.” respondeu.
“Tá a fim de colar no bar da esquina? Bidu não abre de segunda. A gente pode jogar alguma coisa.” foi convidada.
“É com a rainha do beer pong que estamos falando! Então tem que ser beer pong!” um deles disse rindo.
Agnes não escondeu a surpresa. O fato de não ter feito amizades na faculdade fazia com que sempre estivesse sozinha, consequentemente, nunca era convidada para nada.
“Não… vou pra casa mesmo. Mas obrigada pelo convite.” decidiu negar, não conhecia o bar em questão.
“De boa. A gente se vê, rainha do beer pong!” despediram-se sorridentes e saíram juntos.
A loira ficou alguns segundos em choque, sem acreditar que um grupo grande a conhecia e até mesmo havia a convidado para se juntar a eles porque queriam sua presença, e não por estar com alguém que fora convidado.
De repente, deu de cara com Sofia.
“Oi, Agnes! Que grupo era aquele?” perguntou.
“Amigos do Cascão.” respondeu ainda surpresa.
“Eles ‘tavam procurando ele agora? Ele não estuda de dia?” a amiga perguntou.
A de óculos acabou sorrindo.
“Eles não ‘tavam procurando o Cascão, eles vieram falar comigo! Me chamaram pro bar até! Sofia, tem noção que até uns dias eles nem me veriam passando?” comentou.
Sofia sorriu.
“Você parece gostar dessa novidade.” observou.
“Ah… é impressionante! Isso nunca aconteceu.” a estudante de biologia respondeu.
“E por que negou?” a outra perguntou.
“Eu não conheço esse bar. Vai que é sujo e pouco higiênico? Nem o Bidu, que eu gosto, eu confio, imagina um que eu nunca nem fui!” exclamou, fazendo Sofia rir.
“Estou feliz em te ver animada com seu círculo social crescendo. Algum dia, vou adorar sair com você, Denise e Jerê.” fez um convite.
Agnes sorriu com uma confiança tão grande que até a assustou.
“A Penha disse que vinha. Vamos marcar num dia que ela estiver aqui! Aí chamamos também as meninas lá de casa e o Cascão.” aceitou, para a própria surpresa.
Sofia sorriu boquiaberta.
“Você propondo um rolê com esse tanto de gente? Quem é você e o que fez com a Agnes?” perguntou em meio a um riso.
Agnes gargalhou.
“Ah… acho que ter começado uma amizade com o Cascão foi o primeiro passo pra… isso.” refletiu, apontando para si mesma ao fim.
A amiga sorriu abertamente.
“Já 'tô amando esse rolê!” comentou.
X
Ao chegar em casa, Agnes franziu o cenho quando viu Mônica, aparentemente amedrontada, em cima do sofá e com uma vassoura em mãos.
“Ér… Mônica?” chamou.
“Agnes, entrou um morcego aqui em casa!” falou olhando para o alto.
A loira arregalou os olhos.
“Morcego? Morcego transmite raiva!” exclamou enquanto também olhava ao redor.
“Ah! A cortina mexeu!” a morena disse enquanto descia do sofá.
“Cuidado, Mônica!” Agnes exclamou.
Mônica se aproximou devagar e, ao tocar na cortina, o mamífero começou a voar pelo ambiente, fazendo as duas gritarem e correrem para fora do apartamento, fechando a porta em seguida.
“Será que ele saiu?” a morena perguntou, ainda com a vassoura em mãos.
“Não vou entrar pra descobrir! Essa casa vai precisar de uma limpeza completa depois! Ai que agonia desse bicho!” Agnes disse enquanto parecia sentir o braço formigar.
“Tudo bem, meninas? E essa vassoura aí?” Cascão apareceu, com roupa de academia.
“Entrou um morcego em casa! E nenhuma de nós quer entrar enquanto ele estiver lá.” Mônica explicou.
“Mas como vocês vão saber se ele ainda ‘tá lá?” ele perguntou.
“Sei lá, mas não vou abrir essa porta e correr o risco de ele voar em mim. Cruz credo!” a morena se benzeu.
O rapaz riu.
“Venham aqui pra casa enquanto ele não vaza então.” convidou enquanto abria a porta.
“Obrigada, Cascão!” agradeceram e aceitaram o convite.
“Sentem aí. Querem uma água?” ofereceu e as duas negaram enquanto se sentavam.
“Não foi pra open house, Cascão?” Mônica perguntou.
“Nada! Até o Cebola ficou sabendo em cima da hora. Fora que esses eventos de riquinhos são uma chatice! E vai que depois inventam de cobrar alguma coisa? Eu ‘tô liso! E você? Não quis ir?” respondeu.
“Não fui convidada, mas mesmo se fosse… acharia uma desculpa pra não ir.” ela disse.
“Não seria tão estranho, os pais dele fizeram o mesmo. Parece que ninguém quer lidar com os ricões no habitat deles.” brincou ao fim.
“Você saiu do Tinder, Cascão?” Agnes perguntou.
“Saí! Tinha uns clientes suaves, mas tinha uns tão cabulosos que eu ficava até com medo. Falando em medo, como o morcego entrou no apê de vocês?” ele perguntou.
“Pela sacada. Eu peguei a vassoura pra tentar afugentar ele, mas acho que era mais um escudo mesmo. Se ele viesse na minha direção, eu infartava.” Mônica respondeu.
“Eu cheguei agora e vi a cena. Aí o jeito é ou esperar ele sair ou jogar a responsabilidade no colo da futura médica veterinária, já que ela não tem medo de bicho.” a loira comentou.
“Mas ela vai fazer o quê? Acho que morcego é que nem sapo.” Cascão perguntou.
“Morcego é que nem sapo? Quê?” Mônica perguntou confusa.
“Não pode matar.” ele completou e a morena pareceu entender ainda menos.
“Por mais medonhos e asquerosos que eles sejam, eles são importantes pro ecossistema.” Agnes explicou.
“Pera aí, Agnes, você faz Biologia! ‘Tá com medo de bicho por quê? E ainda jogou o B.O só no colo da Milena!” Cascão lembrou enquanto ria.
As duas também riram.
“Ué, Biologia não é só sobre bicho! Além da Milena gostar mais de ter contato com animais do que eu, estudar sobre eles não me impede de ter medo de um bicho que pode transmitir raiva!” ela se defendeu.
“Ah, mas se for assim… não faz diferença ser um cachorro ou um morcego lá em casa. Tua desculpa falhou, Agnes.” Mônica comentou.
“Vai lá expulsar o morcego então, Corajosa.” falou e a morena gargalhou.
“Calma lá, também! Eu não estudo nem Biologia nem Medicina Vetarinária.” defendeu-se.
“E o Direito, Mônica? Perdeu todo espaço mesmo?” Cascão perguntou.
“Sendo sincera, o casamento da Carmem com o Cebola me fez pensar em voltar pro curso.” respondeu.
“Tá pensando em abandonar o planejamento de casamento?” o rapaz perguntou.
“Não, juntar as duas coisas. Posso cair em outros casamentos por interesse em que um lado vai sair mais lesado que outro. O Cebola, por exemplo, tem mais a perder do que a Carmem.” explicou.
“Ele sabe disso, o problema é que ignora. Enquanto vocês ficam à mercê do morceguinho, querem jogar alguma coisa? Sinuca, um UNO pra fortalecer a amizade, um baralho…” Cascão perguntou.
“Só sei jogar o UNO, mas não garanto que sairemos daqui ainda amigos.” Mônica disse e o rapaz foi pegar as cartas.
*
Ao chegar na elegante casa dos Takeda, Milena e sua equipe tinham motivos para odiar Grózny um pouco mais. Ele não havia mencionado sobre a entrevista ser realizada por uma equipe de filmagem, então, junto deles, havia uma equipe completa, cheia de equipamentos, de uma outra empresa.
“Não entendi por que inventaram de chamar a gente. A equipe deles deve ter um fotógrafo.” Luca comentou baixo.
“E são bem arrogantes, hein! ‘Tão olhando pra gente com deboche como se fossem donos da empresa, mas são funcionários igual a gente.” Sarah reclamou.
“Aposto que o Grózny sabia disso! Que raiva daquele homem!” Milena reclamou.
Os anfitriões, bastante arrumados, se aproximaram deles com um sorriso.
“Olá! Milena, querida! Não sabia que a Dream mandaria você e sua equipe!” Keiko cumprimentou.
“Como dissemos que era algo editorial, esperava alguém com mais experiência.” Nimbão comentou.
O grupo forçou um sorriso, era comum duvidarem da experiência do trio.
“Então, senhor e senhora Takeda, diferente do meu trabalho com o mini documentário, não é minha primeira vez como fotógrafa. Sarah, Luca e eu estamos na Dream há dois anos. Já fizemos vários tipos de ensaios, inclusive editoriais.” a cacheada respondeu docemente.
“Então estão em ótimas mãos.” Sarah completou.
“Mas, caso tenham alguma dúvida, podem dar uma olhadinha no nosso portfólio.” Luca acrescentou.
O casal pareceu satisfeito e se afastou para falar com a outra equipe.
“Escolhendo o pacote econômico e querendo serviço vip… típico. DC caiu longe do pé mesmo.” Sarah sussurrou.
“Falando nele…” Luca comentou enquanto apontava com a cabeça para os dois morenos que se aproximavam.
Do Contra sorriu abertamente ao vê-los.
“Vocês que vão entrevistar? Uma boa notícia! Descobri agora que teria que estar aqui, então é bom ser com conhecidos.” comentou.
“Não, amigo. Fomos contratados apenas para fotografar, mesmo tendo uma equipe de filmagem completa bem ali.” Milena explicou.
O moreno franziu o cenho.
“Entender meu pai é uma coisa que nunca vou conseguir fazer.” comentou enquanto negava com a cabeça.
“Aposto que é um presentinho do Grózny, pra dar aquela puxada de saco. Vamos lá, gente.” Sarah comentou e o trio se afastou.
DC observou eles se afastarem e levou um cutucão do irmão.
“Hora de mostrar que sabe separar as coisas, garotão. Pode ter certeza que nossos pais não são os únicos julgando o profissionalismo deles.” sussurrou enquanto apontava com a cabeça para a equipe de filmagem, que observava o trio com ares de superioridade.
“Acha que o Grózny os escolheu por serem bons ou para tentar constrangê-los?” perguntou sincero.
Nimbus suspirou.
“Você deve imaginar a resposta.” falou enquanto se afastava.
DC, nos momentos em que não participava de nada, observava o trabalho dos outros. Ambas equipes trabalhavam bem, mas os equipamentos e grande número da equipe de filmagem criava uma injusta comparação. Naquele momento, não soube se sentia mais admiração pelo trio ou mais raiva de Grózny.
Como já imaginava, seu foco se voltou para a dona dos cachos apertadinhos, que estavam presos em vários coquinhos naquela noite. Já havia reparado antes o leve franzir de nariz e entortar da boca quando não gostava de uma foto, os sorrisos em meio a pedidos de poses, o cuidado com a composição do cenário e a autoconfiança, ainda mais quando a acompanhara em algum trabalho, mas, a cada dia que se passava, parecia ficar mais admirável.
Essa observação o fez suspirar, deixando-o ainda mais dividido sobre expressar seus sentimentos ou não.
“Por que com a Isadora foi tão mais fácil?” questionou-se em voz alta.
“Porque você não é mais o mesmo que era antes.” a voz abrupta de Sarah o assustou.
“De onde você surgiu?” perguntou com a mão no peito.
“Tava dando um tempinho.” respondeu balançando o copo de água em sua mão.
O rapaz suspirou.
“Sabe, Do Contra, o profissionalismo da Milena é um dom e uma maldição. Não tenho dúvidas que até ela já percebeu o jeito que você a olha, mas o eu profissional dela é meio severo. Então precisa ser um pouco mais ousado.” a moça se pronunciou calmamente.
“Tá tão na cara assim?” perguntou e ela riu.
“Acho que até a entrevistadora dos seus pais percebeu.” comentou e ele suspirou.
“Você falou que não sou mais o mesmo. Realmente não sou, mas eu nunca deixei de ter atitude como acontece quando o assunto é a Milena. Eu quero falar pra ela, mas não quero que ela se complique com o Grózny por minha causa.” revelou.
Sarah riu.
“O Grózny é realmente seu maior problema? Ela vai contra as recomendações dele o tempo todo, inclusive a seu respeito. Eu sei que o escândalo mexeu com você, mas seu rio não pode parar de correr por causa disso.” comentou.
Do Contra a olhou sem enxergá-la, a fala de Sarah pareceu clarear sua mente. Nunca fingiu ser quem não era para Milena, mas também não era sempre que se expressava como seu eu interior gostaria, ainda mais pelo motivo que a levou até ele: o escândalo.
“Eu…” ficou sem fala.
A moça jogou o copo descartável no lixo.
“Nós três costumamos nos juntar para comer fast food depois de trabalhos que nos esgotam. Posso pedir para o Luca ser meu cúmplice na desculpa que posso inventar.” revelou.
Os olhos do rapaz brilharam, fazendo Sarah sorrir.
“Minha amiga precisa sair um pouco mais da vida de estudante frustrada e fotógrafa, nem nas festas apocalípticas ela tem ido direito. Mas, se decepcionar ela, saiba que também sou editora do seu mini doc, então coisas podem acontecer. Boa sorte!” falou calmamente e saiu assobiando.
DC encarou boquiaberto, mas logo sorriu determinado.
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Ao fim do trabalho, que fora mais demorado que imaginavam, Sarah cumpriu com o combinado e Nimbus, como de costume, foi se encontrar com a pessoa que sempre ganhava emojis de fogo.
Milena não quis ficar para conversar com os clientes, mas estava adorando a conversa aleatória e cheia de mudanças de assunto que tinha com Do Contra na sala do apartamento dele enquanto dividiam uma pizza.
“Eu aposto que ela sabia que ‘tava se metendo com coisa estranha, mas ela foi e lá e pensou: Eu quero viver essa experiência!” ela argumentou.
“Tudo vale pela experiência?” ele perguntou após morder uma fatia.
“Depende da experiência. Se você soubesse o tipo de coisa que já rolou em umas festas que eu fui… veria que muita gente pensa assim.” a moça riu ao relembrar de alguns momentos.
“Mas será que vale a pena namorar com um vampiro, que nem tem poderes tão legais assim, só pela experiência?” o rapaz indagou.
“Não foi só pela experiência, ela gostava dele. E Ele lia mentes, Do Contra! É um poder legal.” Milena respondeu.
“Mas a irmã dele previa o futuro! Se você tivesse um namorado, iria preferir saber o que ele ‘tá pensando ou sempre saber o que ele vai aprontar?” perguntou.
Aquilo fez a cacheada rir, mas pensou por um instante.
“Nos dois casos, eu preferiria não saber. Gosto de certas surpresas e vai que ele ‘tá pensando coisa que não vale a pena saber?” respondeu.
“Tá vendo como você também pensa no que vale ou não a pena?!” apontou.
“Mas todo mundo pensa assim!” ela deu de ombros.
“Você já namorou alguma vez?” ele perguntou.
“Duas vezes.” a moça gesticulou.
“E valeu a pena?” o rapaz questionou.
Milena tombou com a cabeça antes de rir.
“Ah, mas minha vida amorosa é uma merda. Não dá pra comparar!” comentou.
“Por quê?” ele perguntou curioso.
“Meu primeiro namorado só queria me namorar no off, e ainda se incomodava com meu cabelo, com eu gostar de esportes, de exatas… tudo pra ele ‘tava ruim. O segundo era perfeito, até ele se mudar de país. Por isso, preferi só coisa esporádica.” revelou.
“Não sei se combino com coisa esporádica… demoro para me interessar por alguém, e quando me interesso… eu gamo.” falou olhando sugestivamente para ela.
Milena riu.
“Um roqueiro bonito que faz shows e não passa o rodo. Você realmente é diferenciado. Mas você não é o tipo de cara que dá pra ter algo esporádico, DC.” comentou.
O rapaz ouviu o elogio, mas seu foco foi em outra coisa.
“Mesmo? Por quê?” perguntou.
Milena enfim o olhou bem. A conversa estava tomando um rumo que não esperava, mas não viu problemas em seguir por esse caminho. Na verdade, queria.
“Você é um cara que vale a pena ter por perto. Dizem que você é excêntrico demais, mas… eu gosto. E você mesmo me disse que é emocionado, são coisas conflitantes.” confessou.
O rapaz umedeceu os lábios.
“O Felipe faz o tipo esporádico ou que vale a pena ter por perto?” perguntou instintivamente.
A moça acabou rindo.
“O Felipe foi um erro de percurso.” respondeu.
DC não conseguiu evitar um grande sorriso.
“Erro é uma palavra forte.” comentou.
“Todo mundo tem lá seus arrependimentos. Mas por que o sorriso? Você não gosta dele?” a moça perguntou.
“Não.” respondeu direto.
“Por quê? Porque ele é metido?” perguntou.
O sorriso do rapaz cresceu.
“Nem vale a pena dizer o penso sobre ele. Adoraria ler minha mente agora, né?” voltou ao outro assunto.
“Poder de quem mesmo, Maurício? Fala! Qual que é mais útil agora?” ela provocou, fazendo-o gargalhar.
“Continua sendo o da irmã dele.” manteve seu posicionamento.
Milena negou com a cabeça.
“Você tem que assistir o filme de novo! As visões dela têm uma condição, a leitura de mentes dele não tem.” ressaltou.
“Vamos assistir juntos! Mas você vai quebrar a cara. Ah, e ele não lia a mente dela! Então também tinha uma imperfeição.” o rapaz se lembrou.
“Ela era uma incógnita na vida dele, foi aí que ele balançou as estruturas.” ela explicou.
Os dois acabaram rindo.
“Acha que conseguiria ler minha mente, Milena?” ele perguntou.
“Correção: eu seria maluca em tentar ler sua mente?” a moça corrigiu.
“Maluca? Por quê?” ele cruzou os braços ao interrogar.
“A pessoa que diz que O palhaço e a panqueca é um filme incompreendido pela crítica ser a mesma que fala que tem como misturar Surrealismo com Barroco já deixa meio claro o campo minado que deve ser.” ela retomou uma outra conversa que haviam tido.
DC gargalhou gostosamente, fazendo ela rir também.
“Agora vai ter que me explicar onde está o erro nisso.” ele disse.
“Onde não está, Do Contra! O palhaço e a panqueca é um filme estranho. E essas duas correntes artísticas têm muitas diferenças.” a moça respondeu.
“Mas é aí que ‘tá a graça! Sair do habitual! A gente também tem que assistir O palhaço e a panqueca, aí você vai ver que não é estranho, ele precisa de mais uma chance. E eu vou fazer um quadro pra você misturando Surrealismo com Barroco.” prometeu.
“Como? Você não faz só arte abstrata?” ela perguntou.
“Não falei que vai ficar bom.” detalhou.
“Quero só ver!” a moça riu ao dizer.
DC sorriu gracioso e decidiu dar mais um passo.
“Seguindo a lógica do poder que você acha melhor, eu não conseguiria ler a sua mente.” começou.
“Por quê?” ela perguntou.
O moreno se aproximou mais.
“Porque ele sentia algo por ela, e eu… eu sinto algo por você.” Do Contra declarou.
Milena arregalou levemente os olhos. Mentiria se dissesse que nunca havia percebido os olhares demorados e que nunca havia sorrido em forma de flerte sutil, mas não achou que algo aconteceria.
“Mesmo?” perguntou automaticamente e ele assentiu, aproximando os rostos.
“Sim! Faz um tempo, na verdade. Você disse que é bom me ter por perto, e eu digo o mesmo de você. Eu também quero ter você por perto, bem perto.” aproximou-se mais, dando para sentir o aromas um do outro.
A moça lambeu os avermelhados lábios.
“Então por que nunca me disse?” ousou.
DC também lambeu seus próprios lábios, com os olhos nos dela.
“Acho que o profissionalismo falou mais forte, mas… você, esse seu batom vermelho e… tudo, ‘tá sendo bem mais. Tanto que eu queria muito te beijar agora.” sussurrou.
Milena sentiu uma corrente elétrica passar por seu corpo, queria beijá-lo. Por um segundo, pensou em seu trabalho, porém, decidiu fazer o que fazia nas festas que ia: curtir o momento.
A moça não disse nada, apenas permitiu que os lábios se juntassem, iniciando um beijo com certa urgência. A mão dele pousou em seu queixo ao passo que as suas alcançavam-lhe a nuca. Os corpos começaram a se inclinar no sofá, deixando o beijo mais profundo, beirando a sensualidade, principalmente quando o rapaz fez menção em descer os lábios.
Neste momento, Milena teve um lapso de consciência e se afastou. Deixando Do Contra sem entender.
“Tenho que ir agora! Amanhã acordo cedo, acho que até agora o morcego ‘tá lá em casa e… estamos indo muito rápido.” comentou já de pé.
O rapaz assentiu compreensivo, também se levantando.
“Acho que você conheceu outra camada minha: a ousada.” comentou com um riso.
A moça também sorriu, olhando diretamente para a boca do moreno.
“Eu até que gostei…” assumiu.
Os dois fizeram menção em se beijar novamente, porém, no mesmo instante, a porta se abriu.
“Opa! Não liguem pra mim, eu vou dormir no sofá.” era um bêbado Nimbus.
“Nossa, Nimbus! Ainda é segunda-feira, cara!” o irmão o repreendeu.
“O encontro rendeu, irmãozinho!” ele disse enquanto se jogava no sofá.
“Promíscuo!” falou, fazendo Milena rir.
“Meu uper está a caminho. Vou te deixar com seu irmão bêbado pra cuidar, tchau.” ia se afastar quando ele segurou em sua mão.
“Te acompanho até lá.” acariciou-a.
Os dois foram lado a lado, trocando olhares e sorrisinhos. Ao chegar na entrada, o rapaz a beijou novamente.
“Por que só fui conhecer esse DC agora?” perguntou sincera.
“Ele ‘tava meio escondido nos montes da hesitação e insegurança, mas uma gótica o puxou das trevas.” respondeu.
A cacheada riu.
“Sabia que tinha dedo da Sarah nisso! Tchau, DC.” despediu-se com uma piscadela e saiu.
DC voltou com um sorriso grande enfeitando o rosto, tanto que nem se incomodou com o irmão caído em seu tapete com as pernas no sofá.
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