Almejar

14 Capítulo XIV - Prazos


Notas iniciais
Boa leitura!

Um vento fresco passeava pelo bairro Limoeiro quando a sonolenta Mônica entrou na Dream com um copo de café em mãos. O morcego havia deixado seu apartamento antes mesmo de Milena chegar, mas como a partida de UNO jogada com Cascão e Agnes havia se arrastado até a madrugada, só descobriu isso depois de muitas cartas +4 e discussões.

“Eu tenho que parar de sair de casa em dia de semana! Já é a segunda vez que chego só o bagaço.” comentou consigo mesma enquanto ia bater seu ponto.

“Mônica! Já tem cliente seu esperando na sua sala. Até pensei em dizer pra esperar aqui, mas como é vip do vip…” a recepcionista avisou.

A wedding planner franziu o cenho, imaginando se tratar de Carmem.

“Do nada ela decidiu levar a sério. Obrigada por avisar.” falou e logo foi para a sua sala, já ligando seu tablet de serviço.

Ao abrir a porta, nem olhou quem estava lá.

“Madrugou, hein, Carmem!” comentou enquanto deslizava o dedo no aparelho.

“Não somos apenas um ainda.” a voz masculina a fez levantar a cabeça.

“Cebola! O que o traz aqui tão cedo?” perguntou enquanto abria um sorriso.

"Como sei que você é ocupada, decidi vir mais cedo. Ontem a Carmem falou que tenho que ir atrás de um terno, mas como não sei escolher um ideal… a fada madrinha teve que ser acionada.” respondeu e ela riu.

“Vai ser um prazer te ajudar. Mas seu padrinho também podia fazer esse trabalho.” comentou.

“O Cascão? Se aquele cara usou um terno duas vezes na vida é muito! E aposto que ele pediu pro pai dele ajudar.” o rapaz zombou..

“E por que não pediu ajuda pro seu?” ela perguntou e o outro suspirou.

“Ele não quer que eu me case. Ele e minha mãe dizem que respeitam minha decisão, mas no fundo… eu sei que eles não querem isso. Eles nem foram na open house!” respondeu.

“Isso parece te incomodar.” a moça comentou.

“Eu sei que parece ridículo, mas eu queria que meus pais compartilhassem esse momento comigo.” o moreno confessou.

“Não acho ridículo! Acho bonito da sua parte querer que pessoas importantes estejam lá com você.” Mônica falou.

“O problema é que eles não querem estar.” o noivo afirmou.

Mônica tinha muito o que dizer sobre isso, mas queria diminuir ao máximo seu envolvimento com o rapaz que vinha ocupando seus pensamentos, então preferiu não aprofundar.

“É uma situação complicada. Bom, mudando pro motivo de você estar aqui, o prazo do casamento nos impede de fazer um terno sob medida, então vou falar com um dos nossos parceiros pra ver se tem um horário pra você alugar um.” falou já pegando seu celular.

“Horário? Pra alugar um terno não é só ir lá, experimentar e pronto?” o rapaz perguntou surpreso.

Mônica riu enquanto digitava algo.

“Seria se você já soubesse o tipo de corte, tecido, cor e essas coisas. Além disso, temos um grande problema em mãos: Carmem ainda não escolheu o vestido.” falou.

Cebola a olhou confuso.

“As coisas do terno estão em latim pra mim e não sei o que o vestido da Carmem tem a ver com isso.” comentou.

Mônica acabou rindo.

“O casamento também precisa estar no visual, Cebola, então sua roupa precisa casar com a dela.” respondeu.

O rapaz deu um riso.

“Como você consegue gostar de trabalhar com isso? É muito detalhe!” exclamou e foi a vez de ela rir.

“Eu gosto de casamentos. Mas, como todo profissional, já me perguntei a mesma coisa.” respondeu.

No mesmo instante, o celular dela vibrou.

“Ah, ele liberou um horário agora pra você. Ser noivo de Carmem Frufru tem lá suas vantagens. Tem aula agora?” perguntou.

“Hoje eu ‘tô de boa.” negou e ela pegou sua bolsa.

“Então vamos no meu carro.” chamou-o.

Diferente do que acontecia no carro de Carmem, o de Mônica era mais caloroso e tinha conversa em meio a risos.

“O morcego pelo menos animou sua noite.” Cebola comentou após ela falar sobre a noite anterior.

“Até demais. Principalmente quando o Timóteo e Xavier chegaram! Achei até que o síndico iria aparecer na porta.” riu ao lembrar.

“Aquelas hienas devem subornar o síndico! Mas adoraria estar lá e não na open house da Carmem.” o rapaz disse.

“Open house de vocês. Você também vai morar lá!” ela corrigiu.

Cebola suspirou.

“Nem me lembre disso.” falou.

“Não gostou do apartamento?” ela perguntou.

“Não é que eu não gostei, o lugar é um luxo! Mas… é estranho.” ele comentou.

“Por quê? Não era esse seu objetivo?” a moça disse enquanto fazia uma curva.

“Era, mas… muita coisa mudou.” Cebola revelou.

“Tipo o quê?” ela perguntou.

O rapaz a olhou.

“Eu te conheci.” confessou.

Mônica arregalou os olhos, mas não o olhou.

“O quê?” fingiu não ter entendido.

O rapaz umedeceu os lábios, lembrando-se da conversa com Cascão sobre a amiga ser funcionária da família de Carmem.

“Eu te conheci e vi que casamento é… é um negócio mais sério.” emendou.

Mônica assentiu, sentindo uma estranha decepção.

“Ah… eu… eu não sei o que te dizer, Cebola. De verdade.” respondeu.

“Acho que nem eu sei!” ele falou com um riso sem graça.

Um silêncio constrangedor se instaurou no veículo. Para a sorte dos dois, o destino havia chegado.

Cebola observou a fachada do local, uma loja para noivos, e riu ao constatar que era um estabelecimento típico dos Frufru: exagerado, refinado e luxuoso.

“Algo me diz que aqui é bem caro.” comentou com a wedding planner.

“Pode ter certeza disso. Mas são bons ternos.” ela respondeu com um riso.

Na entrada, um funcionário de terno e sorriso falso os aguardava.

“Cebola, este é Renê, estilista, alfaiate, gerente, consultor de moda e imagem e, é claro, um dos meus parceiros quando o assunto é moda masculina. Renê, este é Cebolácio Menezes, noivo de Carmem Frufru.” Mônica os apresentou.

“É um prazer conhecê-lo, senhor Menezes. Vamos entrando que tem muito o que ser feito.” cumprimentou antes de entrar na loja.

Com o passar dos minutos, Cebola teve o atendimento mais atencioso, exclusivo e bajulador que já havia tido em toda a sua vida. Há menos de um mês, teria certeza que aquele era o tipo de tratamento que queria ter em todos os lugares que fosse. Porém, agora, via como um exagero.

Seu olhar se voltou para Mônica e teve uma certeza: nem o tratamento mais privilegiado que tivesse se igualava à maneira que ela o tratava, fosse como wedding planner, fosse como amiga.

“Senhor Menezes?” foi chamado, fazendo com que saísse de seus devaneios.

“Sim?” respondeu olhando para o homem à sua frente.

“Trouxemos aqui algumas opções de tecidos para o senhor escolher. Pelas informações que Mônica nos deu, achamos que a escala de cores da página 32 pode ser interessante.” entregou um pesado catálogo de tecidos.

“Nossa! Existe esse tanto de tecido no mundo?” perguntou abrindo o objeto.

O outro forçou um riso.

“O senhor é engraçado. Vou trazer também o catálogo das gravatas. Antes que eu me esqueça, será fraque ou meio-fraque? Quanto o senhor calça? E os acessórios? Suspensórios, cintos, um lenço, uma flor de lapela…” falou várias coisas.

Cebola arregalou os olhos e se direcionou para a sorridente Mônica.

“Renê, acho que vai precisar ser um pouco mais lúdico.” ela falou.

O homem riu.

“Oh, esqueço que os jovens de hoje usam poucas roupas sociais. Vamos começar do começo.” ele disse antes de sair, rumo ao estoque.

Mônica ajeitou sua bolsa no ombro.

“Enquanto você tem aulas sobre terno, vou resolver umas coisinhas com um fornecedor aqui perto.” alertou.

Cebola segurou em sua mão.

“Não me abandone, Mônica! Pelo peso do catálogo, deve ter uns cem tecidos com alguma diferença muito sutil que eu vou confundir e acabar fazendo uma péssima escolha. E certeza que ele vai me empurrar pro mais caro!” implorou.

A morena riu.

“Você vai sobreviver sem mim. Sinta o tecido, peça informações sobre como ele fica no corpo e peça para provar os que você gostar mais, aí você vai conseguir escolher. E o Frufru ‘tá pagando, relaxa. Já volto.” ela disse dando tapinha no ombro dele.

Cebola encarou o catálogo e respirou fundo ao ver que Renê voltava com outros catálogos de tecidos em mãos.

*

Enquanto isso, na Dream, Carmem se sentia exausta e desanimada enquanto girava em sua cadeira. A open house havia sido tão mentalmente cansativa que a moça dormiu cedo e acordou mais esgotada que das vezes que ficava bêbada quando os pais viajavam.

“Sobreviver àquela festa chata foi um desafio! Quero nem imaginar o casamento.” resmungou.

Seu celular vibrou, indicando ser uma mensagem de sua mãe.

“Filha, hoje estou livre. Posso te acompanhar em uma prova de vestidos.” ela disse.

Carmem respirou fundo, não estava com ânimo algum para isso, todavia, seu prazo estava se encerrando e as cobranças pelo vestido não vinham apenas da wedding planner.

“Vou chamar a Denise também. Ér… depois do almoço?” sugeriu.

“Não, agora de manhã é melhor. Essas coisas costumam demorar. Fale para a sua wedding planner marcar com urgência. Certeza que arranjam um tempinho pra você.” a mãe respondeu.

A moça confirmou e mandou mensagem para Mônica. Enquanto a wedding planner não respondia, decidiu olhar a rua pela janela.

“Ah! As sementes. Plantar aqui aquelas sementes que o Nik me deu na floricultura me deram um hobby.” lembrou-se enquanto ia pegar água.

Assim que abriu a cortina e pegou o vasinho do peitoril, sorriu largamente ao ver alguns brotinhos.

“Ah, que bonitinho! Tenho que mostrar pro Nik! E tem que ser pessoalmente!” deixou o local com um grande sorriso.

X

Ao chegar na GGeek, Nikolas arrumava uma encomenda enquanto Agnes fazia sua habitual limpeza de expositores.

“Oi, Carmem! Bom te ver! Aqueles quadrinhos que têm você e o Cebola chegaram, a gráfica decidiu entregar aqui por algum motivo.” ele disse apontando para uma caixa recém chegada.

“Tenho uma coisa muito melhor pra mostrar! ‘Tá germinando!” mostrou o vasinho para ele.

Nikolas sorriu.

“Aí, sim! E não é que você tem o dedo verde mesmo?” comentou e ela riu.

“Duvidou de mim? Nossa plantinha está sendo muito bem cuidada.” garantiu.

“Vê, Agnes? Ela já ‘tá até falando como casada. Cebola tem sido um bom pai de planta?” o rapaz perguntou e a amiga riu.

“O pai dessa belezinha aqui é você, queridão.” falou.

O dono dos dreads franziu o cenho confuso, fazendo Agnes se segurar para não rir e Carmem gargalhar alto.

“Hã?” perguntou.

“Nunca ouviu aquela historinha de pais que não querem falar de sexo com os filhos e falam que o papai deu uma sementinha pra mamãe? Você que me deu as sementes, lembra?” ela respondeu.

Nikolas gargalhou gostosamente junto de Carmem, fazendo até Agnes rir.

“Tá certo… sou o pai das suas plantas. Teu noivo ‘tá sabendo que vai ser padrasto de planta?” perguntou ainda rindo.

“Ele tem que entender que antes dele eu já tinha uma vida.” ela respondeu.

“Antes? Você já ‘tava noiva quando eu te dei as sementes.” o rapaz lembrou.

“Ele tem que entender que quando um homem e uma mulher não se amam muito, certas coisas acontecem.” brincou risonha.

“Que horror, Carmem! E se eu for um pai presente? Como vai explicar pro seu porteiro as minhas visitas frequentes?” ele perguntou.

“Ué, é só falar que foi ver as plantas.” a moça disse óbvia.

“O tanto que o Cebola seria chamado de corno… Falando sério agora, fiquei feliz que as sementes germinaram. O que será que é? A dona Nena sugeriu um mix de sementes, então acho que nem ela sabia o que era.” falou olhando para a planta.

“Sei lá. Agnes, você faz Biologia, né? Sabe que planta que é essa?” Carmem perguntou.

Agnes riu.

“Não é porque eu estudo Biologia que eu conheço todas as plantas. Nem sou tão fã assim de botânica. Mas se você der sorte e ser alguma planta comestível, já começou muito bem. Consumir alimentos orgânicos é maravilhoso.” respondeu.

“Eu sempre falo isso pra ela. Alimentação saudável é tudo.” Nik falou e a amiga riu alto.

“Ah, Nikolas, você come miojo! Agnes, nas noites do hambúrguer na casa dele, todo mundo pega leva. A Denise faz um vegetariano, o Jerê um menos pesado, eu um que minha nutricionista não iria querer me esganar e esse menino… ele junta todos os cavaleiros do apocalipse em dois pães, não sei como é possível.” expôs.

“Nikolas, Nikolas…” Agnes repreendeu risonha.

Nikolas revirou os olhos.

“Não é pra tanto também! E não sei que moral você tem pra me criticar, Carmem! Nas noites do hambúrguer, você sempre prova um pedaço do meu.” rebateu.

Carmem suspirou derrotada.

“Agnes, esse gamer tem lá suas dificuldades na cozinha, mas o hambúrguer dele, quando bem feito, é gostoso, cheiroso e bonito, três coisas que chamam minha atenção em muitas esferas da minha vida.” confessou.

“Uma amiga minha acha o Nik essas três coisas. E olha que ela nunca sentiu o cheiro dele.” Agnes revelou.

“Eu conheço essa amiga?” ele perguntou, chamando a atenção de Carmem.

“E pra que você quer saber quem é, Nikolas?” perguntou.

“Ué… porque eu sou curioso.” ele respondeu óbvio.

“Até onde eu sei, você só conhece duas amigas minhas. Uma você já não conseguiu nada e a outra ‘tava sorridente demais hoje cedo.” a estudante de biologia comentou.

“Ele também conhece a Sofia.” Carmem lembrou.

“Ela te acha bonito, mas não é ela. Essa amiga mora na França.” a outra esclareceu.

Carmem não percebeu o suspiro de alívio que soltou.

“Meu ego está amaciado. Meninas, tenho que atender!” o rapaz riu enquanto olhava para seu celular vibrando.

“Eu vou indo nessa. Tenho que experimentar vestidos hoje.” Carmem disse enquanto pegava a planta.

“Escolha um bonito!” o rapaz disse antes de ir para o depósito.

“Agnes, lembre-se: pelo menos uma dessas três características faz toda a diferença.” Carmem falou antes de sair.

Agnes riu com aquilo. Por mais que achasse Carmem um pouco metida, não se irritava com a presença dela na loja, principalmente após as bodas. Tanto que tudo ficou muito silencioso quando ela saiu, afinal, como de costume, a loja estava vazia.

“Ela e Nik só perdem tempo. Já que aqui não tem ninguém e ‘tá tudo limpo, vou ler texto.” falou enquanto pegava alguns textos que sempre levava consigo.

Assim que leu o primeiro parágrafo, lembrou-se da fala de Cascão sobre seu curso e acabou rindo.

“Por que será que não paro de pensar nele?” perguntou-se.

Como se fosse um gatilho, sua mente começou a desenhar o rosto sorridente do rapaz, com cada detalhe, e acabou pensando no conselho de Carmem. Além de Cascão parecer cada dia mais bonito desde que se conheceram, não havia se esquecido do perfume forte que ficara em sua roupa no dia da rampa, quando o abraçou.

“Foco, Agnes! As provas estão chegando!” repreendeu-se e voltou a ler.

A loira conseguiu ler e destacar o texto inteiro de quinze páginas sem uma única interrupção de clientes. Quando ia dar uma pausa em suas leituras, seu chefe retornou aparentemente animado.

“Agnes, vai ter um evento nerd no sábado e, depois de muita negociação e um pouco de apelação, consegui fazer liberarem um espaço para a GGeek!” revelou.

“Que bom! Acho uma boa chance pra outras pessoas conhecerem a loja.” ela comentou.

“Sim! Então se prepare! Sábado estaremos em um lugar com limpeza e higiene alheia questionáveis. O Cascão ainda aceita bicos? Porque eu já estava confirmado pra aparecer lá e jogar umas coisas, assim não te deixaria sozinha.” o rapaz perguntou.

Agnes não percebeu o sorriso largo que cresceu em seu rosto.

“Posso ver com ele, mas acho que ele topa, sim.” falou.

“Beleza, depois me avisa.” falou enquanto voltava para o depósito.

Agnes pegou seu celular e sorriu enquanto digitava.

“Oi, Cascão. ‘Tá livre no sábado? Porque tenho uma proposta.” enviou animada.

*

Mônica demorou mais do que imaginou que demoraria. Ao chegar na loja, viu Renê escrevendo algo.

“O Cebola já foi, Renê?” perguntou.

“Você chegou em bom momento, Mônica! Ele está provando o traje completo. Esse de agora é a melhor escolha.” o outro disse.

A moça se sentou e seus olhos cresceram um pouco quando Cebola saiu do provador.

“Mônica! Que bom que voltou! O que acha desse?” perguntou enquanto girava.

A morena perdeu o ar por um instante, Cebola estava lindo. Sequer ouvia as explicações de Renê sobre o tecido, a cor e todas as demais especificidades das roupas, apenas focalizava na expressão esperançosa que o rapaz a olhava, como se esperasse seu sim.

Aquilo fez Mônica suspirar e, de certa forma, fantasiar como seria estar no altar em frente àquele rapaz. Porém, logo balançou a cabeça.

“Ficou lindo! Acho uma ótima escolha! Tenho certeza que vai casar bem com o vestido da Carmem.” opinou seriamente.

O rapaz sorriu e voltou para o provador enquanto Renê se aproximava dela.

“Esse daí parece aceitar só as suas opiniões, Mônica. Se eu não te conhecesse, pensaria que a noiva é você.” comentou e ela riu.

“Eu não tive essa sorte.” falou sem perceber.

“Sorte? Pelo tanto que esse daí é enjoado… diria que sorte é não ser a noiva.” o outro riu ao dizer.

“Enjoado? Por quê?” ela perguntou.

“Ah… é uma má vontade! Parece até que não quer se casar. E olha que a noiva é de família próspera.” comentou.

Mônica quis rir.

“Dependendo do que você está considerando como próspera, o problema é justamente esse.” comentou.

O outro suspirou.

“Vou começar a reservar as coisas. A parte boa é que a comissão vai ser boa.” piscou um olho antes de sair.

No mesmo momento, Cebola retornou.

“Bora? Não aguento mais olhar pra ternos!” exclamou.

“Olha pelo lado positivo! O terno escolhido é bom.” ela disse.

“Pra ser wedding planner precisa entender até de ternos?” ele perguntou.

“É importante. Mas isso se aprende com o tempo. Quer ser meu estagiário?” brincou e ele riu.

“Se não fosse pela parte do trabalho de wedding planner, eu adoraria. Estar perto de quem a gente gosta é sempre muito bom.” respondeu.

Mônica sentiu as bochechas corarem por algum motivo e Cebola acabou sorrindo sem graça. Para a sorte deles, Renê retornou com um comprovante em mãos.

“Aqui está, Cebola. Três dias antes do grande dia, é só apresentar este voucher. O modelo do sapato e os acessórios estarão aqui também. Foi um prazer! Nos vemos em breve! Tchau, Mônica! Sempre é um prazer trabalhar com você!” ele disse ao entregar o comprovante.

“O prazer é meu, Renê. Tchau!” despediu-se.

De volta ao carro, as coisas ficaram silenciosas, então Cebola tratou de quebrar o silêncio.

“Jamais imaginaria que teria todo esse trabalho para alugar um terno.” comentou.

“Eventos formais são assim mesmo.” ela disse.

O rapaz observou a amiga e decidiu fazer uma pergunta.

“Mônica, você acha que estou me iludindo com os Frufru?” perguntou.

A moça apertou o volante.

“Cebola, eu já me envolvi muito na sua vida matrimonial…” tentou fugir.

“Nenhum dos Frufru vai ficar sabendo dessa conversa, eu prometo! Eu realmente quero ouvir sua opinião. Não como wedding planner ou advogada, e sim como… amiga.” insistiu.

Mônica mordeu o lábio e decidiu, mais uma vez, interferir na vida pessoal do cliente e amigo.

“Como amiga, acho que você devia se dar o devido valor.” falou com sinceridade.

“Como assim?” ele perguntou.

“Eu já entendi que você tem seus objetivos, mas você parece se diminuir demais pra caber naquela família.” ela explicou.

“Ah… é por uma boa causa. Vou ter tudo como eu sempre quis.” tentou argumentar com algo que ele mesmo vinha se questionando.

“Será mesmo? Além de nem mesmo saber em que o Cornélio quer te enfiar, se a Carmem decidir acabar com esse casamento, ela continua com tudo que ela sempre teve, mas e você?” começou, deixando o rapaz silencioso e sério.

“Eu… o pai dela… ela… ér… eu não sei.” respondeu sincero.

“Bom, pois então é melhor começar a pensar nisso. Seu casamento é daqui uns dias.” a moça aconselhou.

Mônica continuou dirigindo com a mão levemente trêmula, não queria ter falado tudo aquilo tão diretamente, mas fora a única chance que viu de fazer isso. O fato de Cebola não sair de seus pensamentos deixava claro que vinha sentindo algo por ele, porém, sua intenção com o conselho não era acabar com o casamento, e sim impedir que o amigo saísse prejudicado.

Cebola, por sua vez, ficou pensativo. A cada dia que se passava, sua certeza sobre o casamento diminuía. Mentiria se dissesse que nunca havia pensado que tudo podia dar errado, mas se forçava a acreditar que era fruto do pessimismo, mas a fala de Mônica havia o deixado reflexivo.

“Mônica… poderia me deixar aqui, fazendo favor? Eu preciso falar com uma pessoa.” pediu após perceber onde estavam.

“Claro. Cebola, minha intenção não foi te deixar mal ou criar um climão entre nós, eu só…” falava até ele sorrir.

“Não se preocupe. Eu quis sua opinião e me serviu mais do que você imagina. Obrigado pela companhia!” despediu-se e saiu do carro.

Mônica o observou se afastar, estavam em uma parte bem rica do bairro do Limoeiro, então imaginou para onde ele iria.

“Ele vai falar com o Frufru… espero que nada de ruim aconteça.” comentou consigo mesma antes de seguir seu caminho.

*

Mônica estava certa, Cebola havia ido atrás do sogro. O fato de saber que ele jogava golfe àquela hora facilitou as coisas, tanto que não precisou andar muito para encontrá-lo sentado sozinho em uma mesa de uma cafeteria.

O rapaz respirou fundo e colocou os cabelos para trás antes de ir até o local chique e pouco movimentado.

“Senhor, Frufru!” cumprimentou e o homem tirou os olhos de seu celular para olhá-lo.

“Cebola! Você por esses lados?” comentou.

“Eu precisava falar com o senhor.” falou sério.

O mais velho levantou uma sobrancelha.

“Certo. Sente-se. Vai querer algo?” falou e o outro negou.

“Não, obrigado.” respondeu enquanto se sentava de frente para o mais velho.

Cornélio bloqueou o celular.

“Então… o que queria falar comigo?” perguntou.

O moreno engoliu em seco e respirou fundo.

“Eu adoraria saber que tipo de trabalho o senhor estava pensando para mim.” falou direto.

O homem riu antes de dar um gole em seu café.

“Sabe, Cebola… estou um pouco desapontado e preocupado com você.” falou.

O rapaz franziu o cenho.

“Por quê?” perguntou.

“Você aceitou um futuro trabalho sem ao menos saber o que era. Minha filha merece estar ao lado de um homem responsável, ambicioso, atento e, acima de tudo, inteligente! E não um que não lê contratos e aceita propostas sem ter o devido conhecimento sobre tudo.” explicou.

Aquilo surpreendeu Cebola, não imaginava que estava sendo testado novamente.

“Eu… eu não imaginei que o senhor seria uma ameaça, entende?” falou.

“O mundo corporativo tem muitos lobos em pele de cordeiro, rapaz. Não há espaço para confiança exagerada, pode ter certeza que terão colegas que não hesitarão em te passar para trás.” Cornélio comentou severo.

O moreno abriu e fechou a boca, sem saber o que falar.

“O casamento está perto, então mostre que merece fazer parte desta família.” completou.

“Sinto muito, senhor.” desculpou-se baixo.

“Não sinta, abra seus olhos e seja o homem que minha filha possa contar. Afinal, vocês são um casal apaixonado, não? Mesmo que sejam curiosamente discretos.” comentou enquanto bebericava seu café com o olhar fixo no mais jovem.

Naquele momento, Cebola sentiu a espinha gelar, com medo que tudo fosse descoberto.

“Eu… a gente acha que até vidas públicas precisam de um pouco de privacidade. Mas… o senhor tem alguma dúvida da nossa relação, senhor Frufru?” decidiu confirmar.

O loiro terminou seu café.

“Eu gosto de você, Cebola. Tem muitos requisitos que sempre dissemos à Carmem que valiam a pena, mas há coisas que precisam ser ditas. Respondendo sua pergunta, você seria um dos meus secretários.” enfim revelou.

Cebola arregalou os olhos.

“Secretário? Mas… mas… eu logo vou ser um engenheiro de software! Com um intercâmbio e fluência em inglês, inclusive. Achei que seria alguma coisa mais da minha área, sabe? Sei que na empresa do senhor…” falava até o outro rir.

“Não achou que eu iria te colocar em uma posição alta assim de cara só por se casar com minha filha, achou? Porque se for o caso… essa relação está seguindo um rumo que não me agrada nem um pouco.” falou assustadoramente sério.

O rapaz engoliu em seco.

“Não, senhor.” negou.

“Ótimo. Você terá um bom salário, Cebola. Não se preocupe.” Cornélio garantiu.

O rapaz engoliu em seco, as coisas estavam saindo de seu controle.

*

Mais tarde, na faculdade, Cascão respirou fundo antes de entrar na sala de aula onde estava Átila, o professor que havia lhe dado zero em uma prova e que, até aquele dia, não havia tido coragem de falar sobre isso.

“Bom dia, Átila!” cumprimentou e o outro o olhou.

“Cássio.” falou voltando-se para as provas que corrigia.

“Ér… eu queria falar sobre minha nota na sua prova.” falou e o outro riu.

“Está bem atrasado, rapaz. Faz tempo que eu dei essa prova.” falou.

“Eu sei, mas tive que tomar coragem pra vir até aqui.” respondeu.

Átila o encarou.

“Cássio, quanto mais você hesitar em fazer algo importante, menos chances de sucesso você terá. Você será um educador físico, como pretende incentivar seus alunos com essa postura?” questionou.

“São coisas diferentes, Átila. Eu tinha muito problema com notas na escola, então isso se repetir na faculdade não me deixa muito bem.” explicou-se.

O outro assentiu.

“Entendo. Bom, então veio aqui com que objetivo? Me pedir para mudar sua nota?” perguntou.

“Não, para ver o que posso fazer para melhorá-la. Se quiser um trabalho de 30 páginas, alguma atividade extracurricular, outra prova… qualquer coisa, eu faço. Só não quero reprovar ou pegar D.P.” respondeu firme.

O outro sorriu de canto.

“Me deu uma boa ideia. Você sabe que costumo passar trabalhos extensos para quem tirou nota baixa tentar recuperar a nota e não deixar tudo para a P2, então ainda estava preparando. Mas agora vou mudar. Fique de olho no seu e-mail.” avisou.

Cascão sorriu.

“Muito obrigado, professor Átila!” disse saindo animado em seguida.

No corredor, deu de cara com Felipe.

“Cascão! O cara que eu queria ver!” o loiro exclamou.

“E ai, Playba! Raridade te ver fora da rampa, fica mais lá que aqui.” cumprimentou com um toque de mãos.

“Prioridades. Seguinte, domingão vai rolar um amistoso de bairro lá perto da rampa e ouvi dizer que vai ter olheiro lá.” revelou e o outro arregalou os olhos.

“Tá zoando!” Cascão duvidou.

“Não, é sério. Um dos times ‘tá precisando de um atacante, então falei que conhecia a pessoa certa. ‘Tá dentro?” perguntou.

“É óbvio! Faz um tempinho que não jogo, mas ainda ‘tô em forma.” aceitou e o loiro riu.

“Então fechou! Sabia que podia contar com você!” Felipe fez um high-five com o outro.

Cascão sorriu largamente.

“Hoje estou tendo muita notícia boa! Ah, a mensagem da Agnes que não li!” falou e viu a notificação em seu celular.

Ao ler a mensagem, seu ânimo cresceu.

“Mano, acabou de pintar um trampo pro sábado! Vai ser um prazer trampar de novo com você, Agnes!” comentou com o colega antes de mandar um áudio.

“Voltou pro tinder, cara?” o outro perguntou enquanto começavam a andar.

“Não, é na GGeek. A Agnes trabalha lá e me indica quando precisa de uma mão extra.” falou bloqueando o aparelho.

Felipe sorriu malicioso.

“Ainda acha que ela não te dá mole?” perguntou.

“Uma coisa não tem nada a ver com a outra, Felipe.” o moreno respondeu.

“É claro... Ela é solteira?” perguntou e Cascão riu.

“Ela não é pro teu bico, não.” falou.

“Se liga, eu ‘tô de olho em outra amiga tua! É pra entender por que você não tentou nada ainda, já que tu não pode ver uma loira que começa a babar.” o outro comentou.

Cascão revirou os olhos.

“Nem sei por que ainda falo com você. Mas sobre ela, eu acho ela bonita e tem se mostrado ser muito mais legal do que pensei, mas talvez nem teria chance. Ela não é do tipo que fica com qualquer pessoa.” explicou-se.

“Papinho de gente insegura, hein?” o loiro comentou.

“É sério, cara. Vou deixar a menina em paz.” Cascão decidiu.

“É… o término te deixou medroso. Lamentável.” Felipe negou com a cabeça.

“Ah, vai lá levar outro fora da Milena, vai!” Cascão praguejou e o outro riu antes de sair.

O moreno caminhou devagar pelo corredor e olhou para o ícone de Agnes em seu celular.

“É… nenhuma chance.” comentou antes de bloquear o aparelho novamente.

*

Mais tarde, Milena foi até o apartamento de Do Contra, onde deu de cara com Nimbus, que estava prestes a sair do prédio.

“Oi, Nimbus!” cumprimentou.

“Milena! O Grózny falou com você?” perguntou e ela franziu o cenho.

“Hoje não… o que ele te disse?” perguntou um tanto receosa.

“Ele disse que pelo conteúdo que viu, já tem material suficiente, então você só tem até sábado para terminar as gravações e o resto do mês fica pra editar. Eu ‘tava meio bêbado ainda, então acabei aceitando a proposta. Foi mal.” revelou.

A moça ficou alguns segundos sem reação, ainda não se sentia preparada para finalizar as gravações. Porém, não tinha muito o que fazer.

“Bom… vou ver o que eu faço. Já falou com o DC?” a morena perguntou.

“Não, e nem que fechei uma apresentação pro grupo no sábado. Mas depois eu falo pra ele quando voltar, tenho que comprar uma coisa decente pra comer. Eu deixei a porta aberta. Ele ‘tá meditando, mas pode interromper.” alertou antes de deixar o prédio.

Ao entrar no apartamento, o som de heavy metal soava do toca-discos quando a moça viu DC meditando apenas de cueca e óculos de sol, como de costume. Colocou suas coisas no sofá e se aproximou cautelosamente, tentando não fazer barulho.

"Eu sei que você ‘tá aqui, Milena." ele falou ainda de óculos de sol e na posição lótus.

“Milena?” tentou engrossar a voz, fazendo o rapaz gargalhar.

“Poderia dizer que sua energia é inconfundível, mas é por causa do perfume.” respondeu e ela se sentou ao lado dele.

"Hora de gravar e você aí." disse tirando os óculos de sol dele e colocando nela mesma.

"Meditação me deixa mais zen." disse antes de se inclinar para beijá-la nos lábios.

“Beijo? Cadê o profissionalismo?” ela comentou risonha.

“Ainda não estamos com as câmeras ligadas.” ele ressaltou.

“É… tem um ponto. Mas temos trabalho a fazer, nosso prazo está apertadíssimo.” falou enquanto se levantava.

“Ainda não completou um mês.” ele também se levantou e vestiu sua roupa.

“É, mas o Nimbus atendeu o telefone ainda bêbado e aceitou a proposta do Grózny de encerrar as filmagens no sábado e focar só na edição e montagem do mini doc.” revelou começando a ajeitar os equipamentos.

O rapaz a olhou de cenho franzido.

“Sério isso?” perguntou e ela assentiu.

“O próprio Nimbus me falou. Depois disso, não vai me ver mais.” falou e ele riu enquanto se aproximava.

“Tá pensando em sumir da minha vida depois que o mini doc acabar, Milena?” perguntou e ela riu se virando para ele.

“É esse meu plano.” brincou e ele riu enquanto a puxava para perto.

“Vai ter que se esforçar um pouco mais para se livrar de mim.” disse antes de, novamente, juntar seus lábios aos dela.

De súbito, Nimbus reapareceu e olhou surpreso.

“Opa! Algo finalmente aconteceu!” comentou enquanto colocava sacolas na mesa.

“Sim, você bebeu demais e complicou as coisas.” DC falou enquanto a moça se afastava para terminar de arrumar as coisas.

“Desculpe por diminuir o prazo, mas quem ainda resolve coisas por ligação? É tão mais fácil por mensagem.” o mais velho se defendeu.

“Não tente entender o Grózny. Nimbus, você até hoje não apareceu em nenhuma filmagem, o que acha de aparecer? O trio vai estar também, você pode entrar no embalo.” Milena falou.

“Fechou. Mas depois de eu comer, estou faminto.” ele aceitou já abrindo uma sacola.

“Esqueci de te avisar, o trio não vai conseguir vir. Isadora tem coisa de peça, Toni pegou um trabalho e Jerê tem aula.” DC lembrou.

“Então somos só nós. Vai comer também, DC?” perguntou e ele negou.

“Não, podemos começar. O que vamos fazer, chefe?” questionou.

“Acho que seria legal um take da sua meditação. É uma coisa que o mundo precisa saber.” comentou devolvendo o óculos de sol.

“Se eu fosse um cara que medita de cueca e óculos de sol num lugar fechado ao som de heavy metal, iria preferir que ninguém soubesse.” Nimbus comentou de boca cheia.

“Cala a boca, porco!” DC xingou.

“Vou perguntar no off uma coisa que tenho curiosidade desde a primeira vez que te vi, DC: por que você medita seminu e de óculos de sol?” a moça e ele riu.

“Gosto de sentir o atrito do chão gelado com a minha pele quente e o óculos é pra ficar mais escuro mesmo. Todo mundo devia tentar fazer isso um dia.” explicou.

“Estranho e levemente safado, do jeitinho que ninguém gosta.” Nimbus zombou.

“Ninguém é uma palavra muito forte, Nimbus.” Milena comentou, tirando um grande sorriso de DC.

Após arrumadas as coisas, DC se colocou novamente na posição de lótus, apenas sem camisa e óculos de sol, e fingiu meditar. A moça o filmou por alguns segundos antes de iniciar as perguntas.

“Você acha que se envolver em um escândalo tirou sua paz?” perguntou.

Nimbus se surpreendeu com a pergunta, mas o entrevistado continuou sereno e na mesma posição.

“Por um tempo. Depois eu percebi que as coisas não precisavam ter acontecido daquela forma.” respondeu.

“Você acha que teria a mesma reação hoje em dia?” perguntou.

DC pareceu pensativo por alguns segundos.

“Naquela noite, eu tive uma das discussões mais sérias com meus companheiros de banda, e foi justamente isso que me fez perceber que agi sem pensar no grupo. Então não teria como eu ter uma reação diferente sem ter aprendido.” respondeu.

“E se pudesse voltar no tempo?” instigou.

“Acho que falaria para meu eu do passado pra não deixar de ser autêntico e lutar pelo que acredita, mas que fizesse isso de um jeito inteligente.” respondeu.

“E acha que seu eu do passado ouviria o conselho?” perguntou e ele acabou rindo.

“Sinceramente… tenho minhas dúvidas. Porque eu me conheço o suficiente pra saber que eu iria querer ouvir mais sobre o futuro. Se eu falasse sobre quem eu conheci depois de tudo e sobre as aventuras que essa pessoa me proporcionou… acho que ele não iria fazer nada diferente.” respondeu com um sorriso.

Milena também sorriu e Nimbus, que estava ao lado dela, riu malicioso.

“O cara é sincero mesmo.” sussurrou e a moça parou a gravação.

“Maurício… por que você faz isso comigo? Esgotou o assunto e acabou de me dar um gancho pra falar da sua vida amorosa! A gente vai ter que mudar de cenário.” comentou com um riso.

O entrevistado riu enquanto se levantava.

“Os outros três vão falar do escândalo, então vai render. Tenho que esticar as pernas, lótus por muito tempo dói e eu já ‘tava meditando antes.” respondeu enquanto deixava a sala.

“Não acha que o Grózny vai suspeitar que a pessoa misteriosa é a fotógrafa?” Nimbus perguntou para a cacheada.

“Acho que ele vai cogitar que seu irmão interage com outras pessoas. Vamos gravar enquanto o DC estica as pernas?” perguntou e ele assentiu.

“Claro. O que tem em mente?” ele perguntou.

“Pensei em você falar primeiro da sua relação com ele como irmão e depois como agente.” a moça sugeriu.

“Beleza. Eu que escolho o cenário? Porque pra falar como irmão eu queria que fosse no ateliê e o como agente no escritório.” escolheu.

“Claro! Eu nem sabia que tinha um escritório aqui. E olha que já rodei quase esse apartamento inteiro.” ela respondeu pegando os microfones.

“O escritório é onde o Nimbus dorme quando ele não fica jogado aqui na sala.” DC apareceu comendo um kiwi.

“Então você não mora aqui?” ela perguntou enquanto microfonava Nimbus.

DC riu.

“Não, ele é só um parasita mesmo.” brincou.

“Eu moro num apê muito mais moderno e bonito. Não é que eu não goste daqui, mas eu não sei se minhas visitas iriam gostar de dar de cara com esse zumbi aí.” o mais velho respondeu enquanto apontava para o irmão.

“Zumbi? Acho o DC até bem vívido.” a moça comentou.

“É porque ele ficou mais alegrinho quando você apareceu.” Nimbus revelou.

DC sorriu levemente sem jeito, mas não negou. Milena, por sua vez, acabou sorrindo graciosa.

“Assim eu fico sem graça. Me mostrem o escritório/quarto do Nimbus, pra gente ter uma ideia do que fazer.” pediu.

O apartamento de DC contava com três quartos, um era o seu, o outro seu ateliê e o terceiro um cômodo com uma grande prateleira cheia de livros, dois armários grandes com porta, uma mesa com um notebook pouco moderno e uma simples cadeira giratória. Em um espaço, havia um sofá-cama com uma coberta e um travesseiro.

“Tá… sua prateleira cheia de livros é um bom cenário, mas pensando na imagem de agente do DC… acho que o toca-discos e algum instrumento pequeno podem dar um tchan a mais. O ateliê ‘tá arrumado, DC?” Milena perguntou e Nimbus riu.

“O dia que aquele lugar estiver arrumado, o DC se mudou.” zombou.

“Aquela é a arrumação de lá.” DC respondeu.

“Beleza. Vamos arrumar aqui e começar.” a fotógrafa falou.

Nimbus foi altamente genérico e profissional quando falou como agente de Do Contra, porém, como irmão, as coisas ficaram diferentes.

“Ser irmão do DC é viver uma doideira praticamente todos os dias, mas não é uma doideira ruim.” começou, o que chamou a atenção do irmão.

“O DC da infância, da adolescência ou de agora?” ela perguntou.

“Todos! Ser irmão desse cara nunca foi uma tarefa muito fácil. Todo mundo é desafinado quando começa a tocar instrumentos e cantar, e o DC canta e toca vários instrumentos, ou seja, esses ouvidos aqui sofreram muito!” começou.

“Qual instrumento te marcou mais?” ela perguntou.

“Com toda certeza a bateria. Hoje ele é um ótimo baterista, mas antes… eu até escondia as baquetas pra ele parar de tocar, mas o safado improvisava baquetas e piorava tudo.” riu ao dizer, fazendo o caçula rir também.

“E sem os instrumentos? Ele também te fazia sofrer?” a moça perguntou.

“O sofrimento era por sempre ter que dizer que ele não era esse estranho que ficavam falando. Mas o cara começava a andar com as mãos e falar ao contrário, aí não me ajudava em nada.” falou risonho.

De repente, o olhar de Nimbus ficou um pouco mais contemplativo.

“Mesmo com tudo isso, não consigo me imaginar sendo irmão de alguém diferente. Ele pode ser todo excêntrico, mas sempre foi uma ótima pessoa comigo e me apoiou quando os ditos “normais” queriam me apedrejar. O cara até que é legalzinho.” concluiu o raciocínio.

DC acabou sorrindo com aquilo. Nimbus não era uma pessoa fria, era até bem caloroso, mas o “código de irmãos” os impedia de falarem coisas como aquelas, então era a primeira vez ouvindo aquilo.

“Qual a parte mais difícil de ser agente do seu irmão?” a fotógrafa perguntou.

Nimbus pensou por um instante.

“Acho que equilibrar as coisas. O DC é um cara de opiniões fortes, e isso nem sempre traz um bom resultado. Como agente, eu tenho que pensar nos riscos pra carreira, mas como irmão… eu sempre acabo voltando pra aquele eu que o defendia independente da estranheza que ele estivesse fazendo. Então nem sempre é uma tarefa fácil saber quando ser agente e quando ser irmão.” revelou com sinceridade.

Aquilo fez Do Contra arregalar os olhos. Querendo ou não, algumas coisas sobre sua própria família só estavam vindo à tona com as entrevistas. Sua surpresa fez com que nem mesmo ouvisse as demais perguntas, tanto que, quando se deu conta, os dois já haviam acabado a gravação.

“Belas palavras, Nimbus.” Milena elogiou.

“Sou um ator nato.” riu ao dizer.

“DC, vamos falar sobre sua vida amorosa agora. Mas qual cenário você acha que combina?” a moça perguntou.

O rapaz pensou um pouco.

“Acho que a lavanderia.” respondeu.

Nimbus riu.

“Milena, as pessoas que trabalham com cenografia que vão assistir o mini doc vão te odiar muito por ter dado liberdade criativa pra esse maluco.” comentou e ela riu.

“Precisa ter sensibilidade para compreender a essência da coisa.” respondeu.

“O mesmo acontece com O palhaço e a panqueca.” DC comentou, fazendo a moça rir.

“Outra hora a gente discute sobre isso.” ela disse.

Na apertada lavanderia, após microfonado, DC se escorou em sua máquina de lavar e olhou pela janela por um instante, até a moça começar as perguntas.

“Muitas músicas que você canta e toca falam sobre amor. Como é sua vida amorosa?” ela perguntou.

“Tipo um agitador de uma máquina de lavar.” respondeu direto.

Os outros dois se surpreenderam com a resposta, tanto que Nimbus soltou um riso nasal ao tentar reprimir o riso.

“Poderia explicar um pouco mais?” a moça perguntou.

“Quando a máquina está ligada, o agitador movimenta tudo, com muita intensidade. Quando desligada, é só uma peça. E quando ela está ligada, mas ele não se mexe, é porque tem algo errado. Minha vida amorosa é basicamente isso.” começou.

“Quando estou com alguém que eu gosto e sinto uma conexão, quando estou ligado, eu sou intenso. Quando não sinto nada, que estou desligado, sou só mais um. E quando estou ligado, mas não sendo o cara intenso que sou, é porque não estou sendo verdadeiramente eu.” explicou.

A moça sorriu satisfeita e o irmão torceu a boca enquanto assentia.

“Então você é o emocionado da relação?” perguntou e ele acabou rindo.

“Sempre me chamam disso! E eu concordo. Sou um cara que gosta de sentir. Diria que isso vem do papel que a música tem na minha vida. Eu gosto de sentir as ondas sonoras correndo pelas minhas veias! Quando penso em amor, eu penso em música, penso em sintonia. Se estou sintonizado com a pessoa, é mais fácil de sentir.” respondeu.

Milena o olhou com admiração. DC costumava falar coisas profundas quando seus sentimentos estavam envolvidos, principalmente quando se misturavam com a música.

“E essa sintonia é unicamente amorosa?” perguntou.

“Não, eu também me conecto com pessoas que não me envolvo amorosamente. Posso até ser emocionado, mas nem tanto. Um exemplo são meus companheiros de banda! Tenho uma grande conexão com eles sem ter um sentimento amoroso, não por acaso nossa banda não morreu totalmente.” respondeu.

Milena bateu palminhas após parar a gravação.

“Que gancho, DC! Que gancho! Depois daqui, vai entrar a fala dos outros.” elogiou.

“Milena, o cara se comparou a uma peça de máquina de lavar que eu nem mesmo sabia o nome! Não está merecendo elogios.” Nimbus observou.

“Aquilo também me surpreendeu, Do Contra.” ela disse.

O rapaz riu.

“Eu ‘tava lavando roupa e pensei nisso. Não escolhi aqui à toa, sabia que Milena conseguiria achar ouro.” explicou.

“Jogando muita responsabilidade nas minhas mãos. Acho que por hoje já deu, até passamos do meu horário.” ela comentou tirando a câmera do tripé.

“Eu achava que as gravações eram mais rápidas, mas é tudo demorado! Arrumar cenário várias vezes, pôr e testar microfone, refazer take estranho, fazer os takes cinematográficos… só você pra gostar disso, Milena!” Nimbus comentou enquanto os três deixavam o cômodo.

“Gostar é uma palavra muito forte. É minha primeira e última vez fazendo mini documentário.” respondeu começando a guardar seus equipamentos.

“Há! Você realmente conseguiu traumatizar ela!” o mais velho apontou para o irmão enquanto pegava seu celular.

“Não, não foi isso. É que é muita coisa pra eu fazer sozinha.” a moça esclareceu.

Nimbus arregalou os olhos para seu celular.

“DC, nossos pais vão vir aqui jantar com a gente hoje.” avisou.

“Aqui? Virou moda eles virem aqui do nada agora?” o outro perguntou.

“Estão tentando se aproximar mais, irmãozinho. Certeza que eles vão adorar ter você aqui também, Milena.” Nimbus disse.

“Não, isso é um momento familiar. Prefiro ir pra casa.” falou já colocando uma mochila nas costas.

“Você já vai agora? Não vai nem passar um tempinho comigo com as câmeras desligadas?” DC perguntou enquanto acariciava-lhe o ombro.

“Prometo te dar atenção em dobro na próxima. Me acompanha até lá embaixo? Tchau, Nimbus!” perguntou acariciando o rosto e ele assentiu.

Enquanto esperavam o carro dela, beijos eram trocados. Ao fim, ele a abraçou.

“No sábado você deixa de ser minha fotógrafa, certo?” ele perguntou balançando levemente o corpo.

“Teoricamente, sim.” a moça respondeu ainda sendo abraçada por ele.

“Então, se a gente sair, sem relação nenhuma com o mini doc, só nós dois, o Grózny não vai poder questionar seu profissionalismo, certo?” perguntou e ela riu.

“Não, ele não vai.” confirmou e o rapaz sorriu largamente.

“Então vamos sair no sábado? Pra comemorar a conclusão das filmagens e… ter nosso primeiro encontro.” convidou e ela riu.

“Olha… acho que é a primeira vez que vou num primeiro encontro com um cara que eu já estou me envolvendo e até já beijei. Mas você vai ter pique pra sair depois de um show?” perguntou e ele franziu o cenho.

“Show? Que show?” perguntou.

“Ah, é! Nimbus não te disse. Ele me disse que conseguiu uma apresentação pro grupo no sábado.” a moça revelou.

“Ah… então um after do show?” propôs.

Milena sorriu.

“Eu vou adorar.” respondeu e ele sorriu antes de beijá-la novamente.

A vibração do celular indicando a chegada do carro a fez se separar dele.

“Até mais, DC.” piscou um olho e saiu.

O rapaz suspirou enquanto observava ela se afastar.

“E pensar que um escândalo colocou ela na minha vida…” comentou rindo antes de entrar novamente.

O resto da noite passou tão rápido quanto o restante da semana, logo já era um quente e agitado sábado, que contava com mais emoções do que os jovens imaginavam.