Prólogo


A vida é engraçada como um filme de comédia ou, talvez, só é trágica demais que chega a soar cômica, verdade seja dita, ela ensina com bons tabefes como diz mamãe. Agora, olhando a paisagem que parece a mesma há algumas horas, percebo que não estou aprendendo somente com tapinhas, mas sim com tropeços em cada buraco, se é que me expressei da melhor forma.


O dramalhão não é em vão, falar sobre a vida não é tão simples, porque afinal, cada um tem a sua, só que acredito que não seria demais pedir ao universo que pegasse um pouquinho mais leve por aqui. Evidente, não estou clamando pela vida perfeita já que isso é quase impossível, porém, eu sempre acreditei na história do raio não cair duas vezes no mesmo lugar.


Parece que estou falando em códigos dentro da minha cabeça, é que explicar o que me traz até essa estrada que parece não ter fim é desgastante mesmo. Claro que posso ter licença poética e dizer que começaria do começo, no entanto eu volto a gargalhar assim que tento e tento de novo.


Mas vamos lá, um rápido resumo da minha vida de cão, eu sou Carina DeLuca e, por hora é o suficiente para que isso não se torne a prévia do currículo que coloquei no LinkedIn, isso mesmo, o grande responsável pelo meu mais novo emprego em Beaufort, uma distância de dois mil quatrocentos e setenta e cinco milhas de Seattle, onde o inferno começou. Não é que sempre tenha sido ruim, a minha vida lá era estável – até demais –, eu tinha um emprego bem sucedido na área de intensivismo no Grey Sloan, a casa dos meus pais era na mesma rua em que eu tinha um apartamento arborizado que levei meses para aprender a não deixar as plantas morrerem, uma melhor amiga até a página dois e, claro, o maior erro de todas as vidas – se é que acredito nisso –, um noivo.


Não tenho muitas coisas para falar sobre mim, gosto de amarelo e azul, um bom blues e não suporto camiseta xadrez, tem dia que acordo não querendo comer carne e por aí vai. Nada difícil de conviver. Poucos amigos, mas quem precisa de muitos, não é mesmo? Era realmente necessário ser um personagem do “O noivo da minha melhor amiga: a traição”? É quase um filme. Sendo breve, era mais um dia caótico no hospital, meus pés gritavam dentro dos sapatos, o desodorante para vencer, tudo que eu precisava era de um banho com bastante espuma depois de uma série de internados com diagnósticos tão difíceis que me remetia a época da residência. Não era possível, mercúrio retrógrado, chacras desalinhados, fizeram-me sair duas horas antes do expediente acabar e resolvi trocar um pouco de entretenimento com Ryan. Nada aconteceu durante o caminho, os sinais estavam sempre verdinhos, nenhum pneu furou, a vovó da esquina não atravessou a rua naquele dia e eis que cheguei a casa do falecido. Inicialmente achei estranho as luzes estarem apagadas, mas como eu estava com a aura obscura, decidi deixar do jeito que estavam, na minha pequena ignorância Ryan poderia estar para chegar, mas uma dor insuportável surgiu quando topei o dedo mindinho na quina de uma estante ao lado da porta e o barulho fez duas pessoas pularem do sofá que tinha sido um presente de aniversário. Acendi a luz em um rompante e lá estavam os raios caindo no mesmo lugar.