Almas em suspenso

2 Capítulo 1 - Sete dias


Carina deLuca


Terceiro dia


O sol daqui é mais intenso, os raios parecem penetrar pelos poros da nossa pele sem queimar como na cidade, não sei, pode ser que lá o aquecimento global esteja levando mais a sério a ideia do fim do mundo. São muitos quilômetros, mas a vida no interior realmente é muito diferente o que assusta já que sempre fui uma mulher urbana.


Já é o terceiro dia que estou aqui, a minha recepção foi feita pela prefeita da cidade, não que eu seja uma estrela de Hollywood, diz ela que faz isso com todos os “forasteiros”. É assim que chamam as pessoas que vêm de outra cidade. Uma curiosidade é que foi ela mesma quem me indicou essa casa quando ainda estava em Seattle. Pelas fotos parecia uma fazenda com árvores, um lago e um grande jardim ao lado da garagem, porém me senti em um site de relacionamento onde você acha que vai encontrar o príncipe encantado só que a realidade é outra.


A recepção foi um pouco engraçada como a minha vida costuma ser, o lago vazio, o jardim com flores secas e a grama alta, nada que consiga me abalar mais. A senhora disse que aquilo era besteira e que me ajudaria a organizar tudo. Bom, ainda estou me acostumando em ir à cidade, conhecendo as pessoas que sempre estão dispostas a ajudar e, um fato estranho, até hoje não precisei cozinhar já que todos os dias um vizinho diferente vem trazer algo comestível de boas-vindas. Não sei se sou má em pensar que são belos fofoqueiros – algo que eu faria – ou se só são cordiais mesmo.


Hey, stranger!

Uma grande sombra cobre meu rosto e fecho os olhos os comprimindo e esfregando. Com menos claridade consigo ver uma mulher descendo do seu cavalo e o prendendo em uma estaca onde deveria ser o jardim, ela é loira, não tão alta e os cabelos são dourados.

— Olá. — respondo um pouco cansada, mas, pelo menos, ela não traz uma torta nas mãos.

— Realmente, você não parece daqui. — ela vem se aproximando e em um impulso senta ao meu lado.

— Uma forasteira talvez.

Ela ri.

— É, é assim que costumam chamar. — estende a mão depois de limpar na jeans — Maya Bishop!

— Prazer.

Assinto ao aperto de mão, sorrio de soslaio e não dou muito assunto.

— Parece que Marsha pregou mais uma de suas peças!

— Não entendi!

Respondo confusa.

Marsha é a prefeita da cidade, uma senhorinha muito ágil e respondona, por mais que pareça inconveniente em alguns momentos, mostrou-se educada e disposta a auxiliar no que eu precisar.

— Ela sempre tenta empurrar essa casa para quem chega… Parece que você é a mais nova inquilina. — ela dá de ombros.

— Mentira? — minha boca entreabre com a tamanha falta de noção.

— Um segredinho… — seu corpo se aproxima do meu com um sussurro — as imagens são da internet.

Gargalho.

Alto.

— Mas é claro! Se isso não acontecesse comigo realmente seria de se estranhar!

— Não vá falar que te contei.

— Sabe o mais engraçado? É que eu nem cheguei a cogitar. Será que uma senhora de aproximadamente setenta anos sabe o que é inteligência artificial?

— Óbvio que não, ela só jogou no Google, resgatou as fotos e colocou no perfil da imobiliária.

— E eu caí como um patinho.

— Sim, você caiu.

Nós duas acabamos rindo.

— Mas não faz diferença, acho que vai ser bom gastar um tempinho tentando arrumar a bagunça.


Por mais que Maya tenha confessado que caí em mais uma emboscada de Marsha, não é o pior dos mundos. Saí de Seattle, minha zona de conforto, para me reinventar e pode ser que aqui seja um bom lugar. Ainda tenho alguns dias até me apresentar no hospital da cidade então vou aproveitar e organizar a minha nova vida.


Maya faz movimentos rápidos me tirando do transe. — Você voou longe.

— Ah… — desembaralho os pensamentos — É que o novo assusta.

— Por que decidiu vir?

— Eu já perdi as contas de quantas pessoas me perguntaram o motivo de vir para Beaufort.

Ela ri novamente.

— É que as meninas da cidade grande não costumam gostar de vir para o interior.

— Nos filmes não costuma ser assim? A mocinha larga todos e decide vir se esconder no meio do mato para recomeçar?

Dou de ombros.

— Você acha que a vida é um filme?

— De terror?

Ficamos pensativas novamente. Até que Maya quebra o silêncio.

— Não deve ser para tanto!

— Minha melhor amiga transando com meu noivo no sofá que dei a ele de aniversário parece alguma comédia romântica?

Os olhos de Maya arregalam.

— Mil desculpas, eu não…

— Não precisa se desculpar, você não é a primeira a ficar espantada!

— É que não faz sentido.

— E o que faz sentido?

A loira apoia o peso do corpo nos braços e cobre o sol que aponta meu rosto com os cabelos amarelos. Encosta a cabeça em um dos ombros e apenas suspira.

— Às vezes, você só está somatizando as coisas e achando que é o fim. Como seria o fim se a mocinha ainda não teve um final feliz? — ela sorri e seus dentes são tão brancos… Mas antes que eu responda ela pula de onde estamos sentadas olhando o relógio no pulso. — Deu minha hora!

Ficamos trocando palavras e não pude perceber que o sol ia se pondo rapidamente.

— Parece que o dia está acabando na nova cidade de Beaufort. — brinco ao esticar os braços espreguiçando.

Maya vai andando de costas enquanto abre os braços e ri de novo.

— Parece que sim! — ela desfaz o laço que prende o cavalo na estaca e em um golpe o monta dando a volta. — Uma pergunta importante… Como é que eu te chamo?

— Como é? — respondo com uma nova pergunta em confusão.

Ela balança a cabeça com o sorriso ainda pregado.

— Seu nome, forasteira.

Reviro os olhos e revido o balançar de cabeça. — Carina.

— Seja bem-vinda, Carina.

Acena com a cabeça e não espera por resposta alguma.

Só impõe ordem ao cavalo que em calmos galopes vai se afastando e, aos poucos, perco-a de vista.





































Quarto dia


Urro uma vez.

A segunda vez vem com um chute no carrinho de madeira que comprei na cidade com as gramas sintéticas para compor parte da frente da casa.

— Quer uma mãozinha?

Uma voz brincalhona aparece de repente ao pé do ouvido.

Pulo com o susto.

— Pelo amor de Deus!

— O que foi? Soou assustador?

Coloco a mão no peito com o coração ainda disparado.

— Claro, você simplesmente surgiu do nada!

Maya cai em uma risada.

— Desculpa é que estava passando por aqui e vi você brigando com o pobre carro, achei que precisasse de ajuda.

— Tudo bem, estou precisando mesmo…

Maya abaixa e em negativo torce o nariz.

— As rodas afundaram no barro, vou precisar que você empurre quando eu mandar!

Ela dá a volta no carro de madeira e amarra as mangas da camisa. Os braços são fortes e o cabelo está preso num rabo de cavalo simples. Comprime os olhos e quando eleva um pouco o carro tirando as rodinhas afogadas no barro grita para que eu empurre e em um rompante acabo atropelando seu corpo que cai na terra úmida.

Meus lábios formam um grande “O”.

— Merda!

Dou a volta e avisto Maya rindo enquanto tenta se levantar.

— Calma, não é um problema. — ela continua rindo como se não tivesse forças para levantar.

— Me dá a mão! — estendo para alcançá-la, minha face está ruborizada.

— Pelo menos já fiz o teste da sua terra e ela me parece pronta! — sua mão molhada agarra a minha, saindo da pequena poça que seu corpo formou ao cair como uma fruta madura.

Consigo rir com a brincadeira.

Ela tenta tirar o excesso da lama da calça enquanto ameniza a situação.

— Vamos para dentro vou te ajudar com toda essa sujeira.

— Já disse que isso é besteira.

— Claro que não é, você está toda suja Maya!

Ela balança a cabeça. — Você era jardineira na cidade?

— Não! Agora vamos arrumar isso. — a empurro em direção a casa e Maya trava como um gato assustado com os braços pregados na porta.

— Eu vou sujar tudo com toda a lama!

— Não se importe uma vez que foi eu mesma quem procurou por isso.

Maya meneia a cabeça e antes de entrar retira as galochas com a lama as colocando no canto. Ela entra com passos curtos e atrás vou a acompanhando olhando por todos os cantos com cuidado. Sua mão com o dedo indicador passeia por alguns porta-retratos que já estão nos seus devidos lugares, mas ela não pergunta nada. Ao passar pela sala de estar que fica ao lado da cozinha fecha os olhos como se fosse abraçada pelo aroma do café que deixei fazendo enquanto estava em um embate interno com o carro da grama.

— Já sei, cozinheira!

— Também não. — aponto para o banheiro de visitas e Maya entra, vou logo em seguida. — Tem água morna e toalhas novas, pegarei uma calça para te emprestar.

— Você não é jardineira, não é cozinheira… Que diabos faz?

Paro antes de dar o próximo passo.

Volto e Maya está de braços cruzados esperando por uma resposta.

— Sou médica especializada em intensivismo. — suspiro.

— Hmmmm…

Apoio o corpo na beirada da porta também cruzando os braços.

— Não tenho cara de médica?

Ela ignora enquanto começa a tirar a lama das unhas.

— É que largar uma vida estabilizada sendo uma médica competente realmente me faz pensar que você levou a sério achando que sua vida é um filme de terror.

— Não é como se eu estivesse agindo como uma fugitiva, entende?

— E existe outro nome para uma pessoa que decide largar tudo e vir parar aqui? Carina, por mais que a cidade seja um dos melhores lugares que já estive, você não pode achar que vai esconder o passado.

Um silêncio nos assombra por um tempo.

— E por que acha que tentaria esconder algo?

Ela ri descrente.

— É sério? — abre os braços. — você parece feliz naquelas fotos… As pessoas que deixou devem sentir sua falta enquanto você se oculta no que acredita ser um recomeço.

Desencosto o corpo da madeira grossa que compõem a porta.

— Agora você virou minha psicóloga?

As minhas mãos estão firmes na cintura.

— Deixa de besteira Carina, só estou dizendo que se você quer recomeçar precisa realmente desejar isso, sem se enganar. — dá de ombros.

— E você acha mesmo que no segundo dia que me conhece já deu um diagnóstico?

Enquanto seca as mãos na toalha branca se aproxima com passos lentos, seus olhos passeiam pelos meus com destreza entregando a toalha úmida nas minhas e o choque com a pele queimando em negação se torna um contraste, antes que ela responda, o barulho da chaleira nos tira a atenção.

— Salva pelo gongo. — sussurra Maya.

Enrugo as sobrancelhas.

E ela continua. — E quem diria que a médica da cidade faria tão bem um café? Adoraria uma xícara.

Deixo a cabeça cair para trás.

Inferno.

— Preciso dizer alguma coisa?

— Se eu prefiro açúcar ou adoçante soa amigável. — ela fecha um dos olhos e morde o lábio inferior.

— Não tenho adoçante, esqueci de comprar da última vez que fui à cidade, então não vou perguntar não.

Ela volta a rir enquanto bato os pés me aproximando da cozinha para buscar as xícaras do café que continua sendo importunado pelo barulho angustiante da chaleira quente.

Ao buscar com cuidado a bandeja com as xícaras e pedrinhas de açúcar, antes de passar pela sala de estar, ascendo as luzes visto que o sol se pôs e as árvores lá fora acabam deixando os cômodos escuros demais. Ao pegar novamente a bandeja e me aproximar do banheiro onde Maya se encontra, vejo vestígios de lama pela pia e o chão com pegadas dos pés descalços que vão em direção a porta que está entreaberta e o vento a fazendo balançar me arrepiando.

— Maya?

Ainda ensaio por seu nome, mas só recebo o som do vento que adentra.

Sem vestígios dela.



Quinto dia

Depois que a curiosidade dos vizinhos foi embora, os dias têm sido silenciosos, o único som que me acompanha é da natureza. Estou um pouco reclusa, mas tento ir à cidade sempre pela manhã buscar frutas e raízes frescas. O jardim lá fora está tomando vida desde que Maya me ajudou com a grama e posso assistir o verde por toda a extensão.

Bem lembrado, nunca tive facilidade em fazer amigos, pode ser por minha timidez ou introversão, mas Maya me parece legal mesmo com seu bocão dizendo verdades que não estou preparada para ouvir ainda. Escrever nessa folha em branco soa um desabafo até que eu consiga entender o que pretendo fazer estando aqui.

Diário.”


O cheiro do bolo que deixei assando passeia pelas narinas dizendo que é hora de desligar o forno, fazendo-me largar a caneta e fechar o pequeno caderno. A minha psicóloga, faço sessão pelo menos uma vez na semana, sugeriu que eu pudesse escrever o que estiver sentindo, sem pressão e, para ser sincera, está me fazendo muito bem.

O vibrar do celular me tira a atenção enquanto removo o bolo de dentro do forno, atendendo-o assim que vejo na tela o nome da minha mãe.


Mamminaaaaaaa!

Mia ragazza!— a voz da minha mãe ao mesmo tempo que parecealegre sinto no fundo saudade.

Sim, somos italianos, na verdade, lembro-me pouco da Itália. Mamãe sempre conta de quando conheceu meu pai que fazia uma viagem a negócios, os dois se apaixonaram a primeira vista e logo o grandão decidiu se mudar para lá, mas como o trabalho era na América, convenceu minha mãe a vir para os Estados Unidos quando completei 5 anos e desde então sou italiana com cidadania americana, diferente do meu irmão Andrew que já nasceu por aqui.

Como estão as coisas?

Seu pai continua triste por perder a menina dos olhos dele.

Arfo.

Imaginei que ainda pudesse estar chateado…

O apartamento ainda não foi alugado, tem certeza que não quer voltar?

Tenho mãe, pela primeira vez parece que estou me virando sozinha.

O celular faz o som de que uma segunda chamada deseja participar da ligação, pelo visor consigo identificar Andrew e, assim, compartilho a conversa.

Irmãzinha do meu coração!— sua voz é brincalhona como sempre — Mamãe já te comunicou que vou ficar responsável por cuidar das plantinhas do seu apê?

Gargalho. — Ela não é louca!

Só se fosse para o pai de vocês acabar com a minha raça.— responde mamãe divertida.

Tudo bem por aí, irmãozinho?— direciono a pergunta para Andrew que suspira.

E quem gosta de reabilitação, maninha? — responde frustrado.

Andrew é o fatídico irmão mais novo, sempre alegre e destemido às aventuras não agradando muito nosso pai que até hoje o pressiona para dar continuidade a faculdade de medicina. Meu irmão sempre foi o mais inteligente, mas sua vocação é voltada para a arte e papai não entende isso, tornando-se um agravante para Andrew que enfrenta a depressão tem alguns anos.

Está no final, sabe que estou aqui por você, não é?— mamãe fica em silêncio enquanto o conforto.

É a segunda vez que ele precisa de reabilitação, a primeira foi quando descobrimos um acidente na faculdade que acabou machucando um amigo da turma e a segunda agora foi quando tomou um porre depois de uma briga acalorada com papai e ficou dias sem aparecer e, quando apareceu, estava em condições muito precárias e fora de si, não nos dando outra opção.

É, eu sei, eu sei.— ele muda de assunto — Já fez amigos aí? Eu digo amigos ao ponto de forjar a morte escrupulosa do idiota do Ryan.

Andrew, que horror!— mamãe diz em espanto.

Não tem graça, Andrew. — reviro os olhos. — Acho que fiz uma amiga, mas ela é, digamos que, um pouco misteriosa.

Por mais que Maya não me transpareça perigo eu não sei nada sobre a sua vida, ela simplesmente aparece e some de repente com sua visão leve de ver a vida e transformar o que achamos ser um gigante problema em algo fácil de resolver. No entanto, não sei de onde ela vem, o que ela faz para sobreviver nem tampouco o que a faz vir até mim.

Uau, amo o mistério…— a voz de suspense de Andrew nos faz soltar uma risada.

Ouço barulhos do lado de fora me fazendo com os dedos levantar a persiana da janela que dá para frente da casa, avistando Maya saltar de uma caminhonete e pegar alguns sacos do baú, aguçando minha curiosidade.

Falando em mistério…— penso alto — galerinha, o assunto está divertido, mas vão cuidar da vida de vocês enquanto resolvo umas coisinhas.

Rapidamente me despeço.


Ela amontoa sacos próximos ao jardim criando vida, secando o suor que escorre, visto que faz um dia lindo de sol aqui fora. Aproximo-me e consigo identificar que se tratam de adubo e sementes, sorrio sem perceber que meus lábios se juntaram de orelha a orelha, afinal eu adoro plantar e desde que descobri que fui enganada pela imobiliária a ideia de conseguir levantar o jardim de novo me deixa animada.


— Como adivinhou?

Maya franze a testa unindo as sobrancelhas. — Depois de ontem notei que você quer dar um jeito nessa bagunça então decidi trazer um pouco de adubo da fazenda e sementes da cidade.

Pela primeira vez noto um tom amigável de Maya, seu interesse em me ajudar é algo que estou precisando muito depois de todo o furacão que passei em Seattle, fazendo-me perceber que para criar raízes aqui primeiro preciso fazer boas amizades.

— Você é maravilhosa! — em um movimento inesperado junto os braços ao redor do corpo dela que fica estranhamente sem se mover.

Ela ri amarelo.

— Cuidado, estou suada.

Dou de ombros a resposta.

— Marsha ficou de trazer ajudantes para baixar a altura dessas folhas secas e remover a areia para poder umedecer o restante e adubar, só espero que dessa vez não seja mais uma de suas peças.

— Posso te ajudar também.

Suas mãos vão aos bolsos e balança o corpo de um lado para o outro de forma tímida.

— Vai ser uma mão na roda… Falar em roda, decidiu trocar de cavalo? — brinco me referindo a caminhonete.

— Digamos que essa mocinha tem mais cavalos — se gaba. — Mas é que o Dante não daria conta da quantidade de sacos.

— Dante… Gostei!

Ela meneia a cabeça e esconde o rosto dos raios solares.

— Sei que conhece bem a cidade e que também não se tem muita coisa para fazer aqui, mas queria te levar em um lugar que você vai se apaixonar!

Meu semblante se torna confuso.

— Só sei que seu nome é Maya, que tem um cavalo chamado Dante e no máximo que tem uma fazenda e você quer me levar a um lugar que eu vá me apaixonar?

Ela gargalha.

— Não é o suficiente?

— Acha que vai me comprar com alguns sacos de adubo e sementes?

Ela dá dois passos.

Não me importo.

— Se eu fosse uma serial killer não acha que aproveitaria o fato de uma mulher sozinha morar em uma casa distante da cidade recoberta pela floresta e teria sumido com você?

Engulo a seco.

— Você me fez pensar…

Maya ri. — Deixa de besteira Carina, a fazenda que moro fica a poucos metros daqui e você deve passar por ela sempre que vem da cidade, Beaufort é muito segura não precisa se preocupar.

— Foi o que pensei! — mudo de assunto rapidamente.

— Então você vem?

— Vou.


O vento bate contra meus cabelos enquanto Maya dirige, o rádio está ligado na estação local que toca country e, vale ressaltar que, ela é a própria interiorana. Adora um xadrez – com mais intimidade precisamos abordar esse assunto –, a música me lembraFootloose e falta só mastigar uma palha.

Durante o caminho que se estende por menos de uma hora estacionamos o carro próximo a um píer, ela me ajuda a descer da caminhonete com degraus altos e sinto o ar frio mesmo sob o sol contrapor meu corpo. De imediato não falo se quer uma palavra, porque a paisagem consegue captar tudo que seria impossível dizer. O céu azul tem pássaros que voam sincronizados, não há nenhuma nuvem e a sombra que avisto vem das árvores ao redor do que se inicia o mar sendo o único barulho vindo da corrente de água que bate contra as madeiras do píer.


— Perderia tudo por uma única palavra. — Maya e seus olhos encontram os meus, um verde amarelado tão claro que contrasta com a íris marrom feito um girassol.

— É que… É lindo!

O silêncio surge.

— Tem medo de água? — ela brinca enquanto desfaz o laço do pequeno barco ancorado.

— Não tanto quanto de fogo. — respondo-a pegando na sua mão e um pouco desequilibrada desço segurando meu corpo no pequeno acento.

O barco balança ao sentir Maya se juntando a nós.

Ela segura o riso.

— E se eu te contasse que sou bombeira?

Arregalo os olhos.

— Realmente você não sustentaria a profissão de serial killer, é muito boazinha.

— Boba, esse é o meu segundo emprego. — ironiza.

Ao me explicar como segurar os remos e a sincronia para que possamos sair do lugar, de vagar, vou me sentindo mais segura em poder continuar a conhecendo.

— Quanto tempo?

— Hã?

— Quanto tempo você trabalha com isso?

— Desde que me entendo por gente, cresci assistindo meu pai salvando vidas e apagando incêndios até o perder para um desses.— ela suspira. — de início eu não queria saber mais disso, não tinha perdido o herói da cidade, o meu pai tinha me deixado.

Novamente, engulo a seco.

Perder um pai?

É algo que não conseguiria lidar.

— Não precisa falar se não conseguir…

Maya sorri e acena com a cabeça, mas continua.

— Tentei fazer outras coisas, a cidade é pequena e toda ajuda é necessária, só que não consegui ir contra o que nasci para fazer e hoje agradeço meu pai por ter me ensinado a cumprir cada missão mesmo tendo me deixado tão cedo.

Ela se esforça para não deixar com que uma lágrima escorra pela pera rosada do seu rosto, mas me permito comprimir um dos olhos deixando com que a gota escorra até encontrar a linha dos lábios que sentem o salgado.

— Você me faz sentir uma tola por achar que tenho uma vida ruim.

— Carina, nós passamos por apuros e perdemos algo todos os dias, nada é menor. A diferença é o contragolpe, não desistir.

Sinto o tranco que o barco faz quando se choca com a areia, impedindo-me de continuar.

Ela salta do mesmo me ajudando a descer e logo o ancoramos. De imediato minhas mãos são colocadas na cintura enquanto não perco nenhum detalhe da vista, o vento aqui é mais frio ainda, as mãos sobem e esfregam os braços em uma tentativa de aquecimento.

— Obrigada por me trazer.

— Não tem um dia que eu não venha aqui.

Estamos em uma praia, não há pessoas além de nós que eu consiga enxergar, somente barcos pesqueiros vazios ancorados próximo do nosso e a alguns metros um grande farol que parece inativado, a pintura está queimada por toda a estrutura a deixando mais interessante.

— Dá para subir?

— Tem medo de altura? — indaga.

— Não que eu saiba.

É o suficiente para que ela me leve até uma escada de metal, de primeira o enferrujado discreto me assusta, mas ao sustentar o corpo de Maya que sobe na frente sem ranger já é o suficiente para que eu vá logo em seguida. Paramos duas vezes até chegar ao pico e Maya me ajuda a entrar, lá de baixo não parecia que aqui fosse tão grande. Ainda existem cinzas pelo chão que voam quando o vento bate, mas não tem mais o cheiro da fumaça.

— Sempre que eu quero me encontrar venho aqui.

Seu corpo apoia nos ferros que nos protegem do abismo, as mãos estão entrelaçando os próprios dedos e o olhar focado nas nuvens que lentamente vão cobrindo o sol.

— O que aconteceu aqui?

Aproximo-me encostando suavemente nossos ombros, lado a lado.

— Um acidente. Tem aproximadamente 2 anos.

— E é seguro?

— Sim, virou patrimônio histórico da cidade.

Sorri de lado.

Não falamos muito ao passo que o céu mais pesado vai ficando escuro com o início do entardecer, trocamos apenas conversas rasas sobre Maya não conhecer Seattle ainda, sua vontade de crescer na academia se tornando capitã e também sobre os cães pastoreiros que defendem a fazenda em que mora com sua mãe dona de uma confeitaria na cidade. Rimos de algumas besteiras até que a falta de iluminação do lugar nos faz descer e caminhar pela praia alcançando o barco que nos leva para o píer novamente. A viagem de volta é animada, eu tratei de conectar o aplicativo de música no rádio e logo começamos a cantar hit’s de quando éramos mais novas e é impressionante como Maya reconhece as poucas músicas da Britney que eu surtava na adolescência.

O som do motor desligando nos avisa que chegamos.

— Que fome! — massageio o abdômen.

— O dia correu.

Suas mãos passeiam pelo volante até chegar no porta-luvas de onde tira um frasco de adoçante, arrancando-me uma risada.

— Então agora posso te oferecer um café e aproveitar para servir uma fatia de bolo de laranja que fiz mais cedo?

Ela ri, mas nega ao balançar a cabeça.

— Está ficando tarde, preciso ir.

Transpareço a frustração.

— Uma pena…

— Não vão faltar oportunidades, afinal, eu sempre acabo voltando.

— E sumindo de repente também.

— É uma das minhas especialidades!

Nós rimos.

— Realmente o lugar é apaixonante.

O carro está apenas com a luz central acesa à medida que ao redor já se encontra escuro.

Maya descansa a cabeça no braço que apoia no volante, os seus olhos são mais escuros diferentes do verde de mais cedo. Os lábios abrem pouco em um sorriso discreto e pela primeira vez a quietude que nasce consegue se tornar um pouco constrangedora. A outra mão que antes repousava no freio de mão se estende a minha a tocando com o seu dedo indicador e um arrepio sobe da ponta do dedo até a espinha.

— Eu te falei que seria.

Quebro, estraçalho com o momento, afastando de pressa nossos corpos sem que soe estranho. — Nos vemos quando agora?

— Antes do sol se por.

São as últimas palavras.

Salto do carro e com passos largos chego a parte iluminada da casa, o barulho do motor ligando quebra a tensão que estava passível de ser cortada com uma faca. Não estou querendo me enganar ou interpretar de outra forma, mas Maya pareceu um pouco mais intensa agora, quer dizer, pode ser pelas conversas que nos fizeram viajar para momentos importantes e saudosos de mais cedo e, talvez, ela só esteja tentando se aproximar mais e colocando em prática a história de criar laços.

É, é isso.

ideias mirabolantes.

Isso é a vida no interior.

Gentileza gerando gentileza.



















Sexto dia


Não me importo com o barulho que está fazendo porque estou sozinha, parece que sempre estive nos últimos anos, então o som que os estilhaços fazem não vai incomodar ninguém, até porque o meu choro é ainda mais alto. O desespero que vem de dentro do meu corpo é grande ao ponto da ansiedade não permitir enxergar que estou passando dos limites.


Perdi as contas de quantos vasos arremessei, das cadeiras que revirei sem saber que tinha forças para erguê-las e antes que eu continue, a porta abre ligeira e com os olhos marejados consigo enxergar Maya surgindo. Ela corre pelas minhas mãos pegando os objetos e eu rio sem parar, o que não a incomoda. Escuto suas palavras que parecem enroladas, deve ser por conta da meia garrafa de uísque puro que tomei. Ela me leva à poltrona como uma criança de castigo enquanto espremo os olhos para tentar decifrar as palavras que saem da sua boca e continuo rindo como se estivesse sob cócegas.


— Carina, sua mão está sangrando! O que aconteceu? — as bilhas esverdeadas estão completamente esbugalhadas um dos motivos que me faz continuar gargalhando.

— Seu cabelo é cheiroso… — digo a primeira coisa que vem na cabeça.

A loira revira os olhos.

Deixa-me sentada na poltrona enquanto some.

O gasparzinho ataca novamente.

Parece que foi até a cozinha, voltando com uma compressa de gelo que quando encosta na ferida me tira um grunhido e em segundos viro a chave voltando a chorar de soluçar, não pelo arder do frio na pele machucada, mas pela dor que acerta o peito. Nos últimos dias eu somente brinquei com os sentimentos na tentativa de ignorar o quanto a realidade era dolorosa. No entanto, as notícias que agora parecem mais firmes golpeiam a boca do estômago e a crise de ansiedade vem mais forte do que o efeito dos ansiolíticos.

— O corte não é profundo.

— Por que dói?

— Querida, eu não sei do que está falando… — sua voz é quebradiça ao passo que segura a compressa na mão onde está o corte.

Levanto a outra que segura o celular.

E lá se encontra o motivo do álcool e de toda desordem.

A notícia de que Ryan está namorando minha melhor amiga Andy.

Os dois parecem felizes.

— Eles não esperaram se quer eu me recompor, Maya!

Jogo o aparelho para trás.

— Céus… — murmura.

Ela não diz nada.

O olhar é de compaixão.

— Sabe qual a parte mais triste? É que sete anos juntos não são sete dias que completará amanhã desde que descobri a traição desses covardes.

Passeio até a garrafa de uísque e antes que eu possa dar uma golada, Maya a tira de mim.

— Não vai mais beber.

Rio em tom de ironia.

— Para de ser uma grande chata, toda certinha, vocês são uns chatos! O que fazem aqui? Vocês não brigam? Não cansam de sorrir e serem cordiais?

Maya ignora.

— Você precisa de um banho para tirar o efeito do álcool e um curativo na mão até que consiga ir na clínica mais próxima. — suas palavras transbordam um tom de seriedade da qual ainda não conhecia.

— Meu irmão é alcoólatra, Maya! Acha que meia garrafa de uísque vai me derrubar? É hereditário, o fracasso é.

Maya me sacode.

Sinto meu corpo trepidar.

— Chega, Carina! Não é como se fosse o fim. Você só está histérica, precisa parar e ouvir as atrocidades que diz.

A voz ecoa pelos meus ouvidos.

Estática fico por frações de segundos.

Por mais que Maya seja mais baixa do que eu míseros centímetros, por ser atleta, consegue passar meus braços pela sua nuca e após engolir a seco sua resposta, vou coordenando nossos corpos chegando no andar de cima da casa aonde é meu quarto. Não estou tão embriagada ao ponto de perder os sentidos, então colaboro para tentar facilitar um pouco as coisas. Acho que ela tem razão, a histeria me cegou um pouco e, se antes eu estava extremamente fora de si, agora dou lugar a vergonha.


Maya me deixa sentada na cama sem falar nenhuma outra palavra, liga o chuveiro até a água esquentar e me faz tomar um banho demorado. A água na sua maior temperatura não queima minha pele, por mais que eu deseje que queime meus neurônios. Dou-me um tempo de baixo d’água, lavo bem o cabelo e o corpo à medida que a espuma faz arder o corte. O barulho da água é tamanho se igualando ao que estava dentro de mim. Meus olhos não têm mais lágrimas e estão vermelhos com a sensação de terem areia ao abrir e fechar das pálpebras. Coloco o roupão macio que trouxe de Seattle e enrolo uma toalha no cabelo longo molhado. Ao sair do banheiro encontro Maya com uma maleta de socorrista, ela estende a mão e assinto sentando do seu lado.


— Desculpa. Isso tudo foi ridículo. — a consciência vem como um tiro e ainda me acostumo com o gosto amargo do álcool na boca.

— Não é hereditário e você não é uma fracassada.

Ela abre a maleta e pega materiais para o curativo.

Arfo.

— Não quis dizer isso…

— Sei que não, mas comparar o que você está sentindo a doença de uma pessoa não é justo e não anula o seu sofrimento.

Ela é cirúrgica.

— Andrew não tem culpa do meu surto e eu estou completamente arrependida de ter exposto ele dessa forma. — meneio a cabeça.

— Adoro esse nome.

— Ele é adorável. — faço a tentativa de esboçar um sorriso, mas não consigo.

A delicadeza com que toca na ferida me faz parecer que não estou sentindo.

— Tudo é necessário, entende? Faz-se necessário chorar, soluçar e sentir medo, Carina. Somos vulneráveis.

A porrada vem de novo e meus olhos marejam. Mas fecho a boca impedindo que a cachoeira se forme mais uma vez.

— Jurei que não abriria as redes sociais e falhei, fui atrás de uma emboscada.

— Por isso que não tenho. — ela ri.

— Como consegue? E as fofocas?

Maya balança a cabeça enquanto finaliza o curativo.

— Beaufort é pequena demais, não precisamos de redes sociais para saber das fofocas.

— Bastam entregar tortas nas casas das pessoas que chegam. — rio pela primeira vez.

— É o nosso jeitinho. — ela dá de ombros.

— Sobre as coisas que eu disse lá embaixo, não são verdades…

A loira impede que eu complete.

Ela junta uma das suas mãos na minha e a outra toca meu cotovelo o acariciando distintamente.

Aquele arrepio volta à espinha.

Eu senti essa coisa de novo?

Um frio na barriga?

Espera aí disco voador…

— Você disse que sete dias não são sete anos e de primeira concordei intimamente, porém nos últimos dias venho aprendendo muito e uma vontade nasceu dentro de mim como se eu quisesse continuar vivendo, um dia após o outro.

Lá estão aqueles olhões fincados em mim.

A minha mão foge da dela em um compasso, assustando-a levemente, ela abre os lábios ensaiando uma palavra, mas trato de interrompê-la antes que tudo vá longe demais.

— Eu sei que tudo aconteceu rápido demais e o novo gera curiosidade, mas Maya eu não sou assim…

Ela franze as sobrancelhas.

— Assim como?

— Não quero deixar as coisas se confundirem.

— Do que você está falando?

A garota loira de cabelos macios e cheirosos na minha frente lateraliza a cabeça e insiste em tentar entender, no entanto eu perco novamente para minha falta de zelo com as palavras. Não estou acostumada com tamanho cuidado e posso confundir isso com segundas intenções, mas independente do que esteja acontecendo aqui, por mais que eu seja rude e não a conheça tão bem, não posso deixar que isso caminhe para a beira de um precipício.

— Eu nunca senti vontade, não vai acontecer nada entre a gente, você é uma amiga e parece um anjo da guarda às vezes, mas é só isso!

Desta vez é ela quem engole a saliva.

Respira fundo.

— É que…

— Sem mais delongas, você é incrível Maya, mas nesse estágio da vida eu não posso permitir que uma pessoa se envolva no meu furacão.

Seus olhos se perdem dos meus.

As mãos arrumam rapidamente os materiais dentro da maleta de socorrista.

— Você tem razão, não tenho direito de confundir as coisas. Eu não fiz nada intencionada, não quero que você entenda dessa forma. — ao reunir tudo se desloca para próximo a porta do quarto, eu diria que sua expressão é um pouco retraída.

Puta merda.

Eu destruindo as coisas mais uma vez.

— Não é isso! Ou é isso! Mas não dessa forma… — gaguejo, comprimo os olhos.

— Você precisa de um tempo.

— Sim, preciso…

— E o meu parece estar acabando.

Maya sai pela porta.

Minha cabeça faz um barulho parecendo tic-tac-tic-tac.

Levanto tão de pressa que dá uma leve tontura, mas insisto em descer atrás dela, o motor da caminhonete ruge me deixando comendo poeira.

Inicialmente passa pela cabeça pegar o celular novamente e mandar uma mensagem tentando explicar o que nem eu mesma sei, mas logo caio em si que por mais que eu a tenha durante todos esses dias, continuo não sabendo muito sobre ela e tampouco tenha o seu número.

Então a vejo sumindo aos poucos pela escuridão.




















































Sétimo dia


Ontem foi um dia conturbado, demorei para pegar no sono e quando pude perceber já era madrugada e ainda estava alerta. Notei que fui dormir quando o sol ensaiava para nascer e acabei perdendo a hora. Parece que levei uma surra, meu corpo dolorido e a mão inchada com o curativo que Maya fez. E o que falar dela? Poderia ficar todo o meu dia aqui e não teria coragem de iniciar uma única linha. A verdade é que a sinceridade dela sempre me assustou e ontem com toda aquela vibração assustou mais ainda. Eu não vou embarcar em uma loucura, nunca tive essa orientação, o que tornam os pensamentos embaralhados. Mas hoje à noite é o meu primeiro turno no hospital da cidade e preciso estar distante de toda confusão.

Diário.”


O dia passou com passos de tartaruga por mais que tenha acordado mais tarde e atrasado os afazeres. Não consegui cozinhar por conta da mão inchada e decidi pedir que trouxessem comida para o almoço e a refeição da noite. Uma sensação vem rodeando a tampa do estômago desde que acordei. É impossível não lembrar das palavras jogadas ao vento ontem e a atitude de Maya indo embora.


Não sei o que ela estava querendo dizer quando mencionou que não tinha muito tempo, mas hoje o dia começou parado demais, parecendo em slow motion, os pássaros quase não cantaram e um nublado impediu que o sol continuasse vívido por mais tempo. Por mais que eu tenha muita coisa para fazer já que destruí metade dos móveis da sala de estar ontem, a inquietude continua me assombrando, parece que indiretamente fico esperando que Maya apareça a qualquer momento me oferecendo ajuda ou com uma novidade. Sei lá, estar sozinha nessa casa tão grande fez com que eu percebesse que desaprendi a ficar sozinha.


As horas no relógio passam e a angústia vai ficando cada vez mais presente, não sei se tem a ver com a primeira vez que vou ingressar em um novo trabalho e isso gera insegurança ou se a falta de notícias de Maya me corrói, o que não deveria acontecer, eu não posso me importar tanto. O sol se despediu mais cedo e está ventando lá fora, parece que minha viagem até a cidade vai ser sob chuva e a temperatura baixa muito quando existe a possibilidade de chover, fazendo-me lembrar que odeio dirigir quando sei que vai cair o mundo lá fora.


Logo o dia passa e o início da noite vai dando boas-vindas e Maya não aparece, arrumei todas as coisas na bolsa e mesmo que esteja quase me atrasando trato de fazer o que preciso calmamente até o último momento em que preciso trancar a porta sabendo que agora só voltarei amanhã à noite e a possibilidade de ela aparecer e não me encontrar fazendo conjecturas equivocadas gera um formigamento nas mãos. Ouço o trovejar quando estou dentro do carro e o para-brisas vai trabalhando para que o vidro não embace. O hospital não fica distante, antes de me interessar pela vaga, fui criteriosa em avaliar a infraestrutura que ainda de uma cidade pequena consegue ter uma tecnologia próxima com a que trabalhava em Seattle. Nos primeiros plantões vou cobrir uma doutora que está de licença maternidade e, daqui a dois meses, voltarei para os turnos da manhã.


— Boa noite, doutora! — acena um dos seguranças. O lugar está movimentado mesmo com a chuva, mostrando que aqui o funcionamento é vinte e quatro horas. Logo que vou caminhando até o elevador, uma voz chama pelo meu nome duas vezes, fazendo com que a encontre.

— Doutora deLuca! — ao se aproximar o rapaz coloca a mão no peito, esbaforido.

— Respira… — rio.

— Sou George! — o jovem rapaz me estende a mão em uma recepção. — a doutora Bailey a aguarda nos dormitórios para mostrar aonde vai colocar suas coisas e mostrar por onde começar.

Após o cumprimento, subimos pelo elevador e rapidamente chegamos a Bailey que me aguarda com o tablet e o pager que irá me acompanhar durante a estadia aqui. De imediato consigo reparar antes de ouvir o tom de voz que Miranda Bailey não é fácil. Claro que o ti-ti-ti pelos corredores é o suficiente para que eu possa tirar conclusões, mesmo entendendo que não é interessante julgar o livro pela capa.

— Oi, doutora Carina. — a voz é firme e o cumprimento também. Bailey é baixinha e ao passo que caminhamos pelos corredores do hospital vai me mostrando tudo o que preciso saber, mas por vezes, somos interrompidas pelo apitar do seu pager, afinal ela é a responsável pelos residentes, um deles sendo George que ao me levar até ela não chegou a trocar olhares, até soou cômico.

— É agitado por aqui.

— Sim, somos o hospital vinte e quatro horas de toda a cidade de Beaufort, então não conseguimos parar.

— Percebi…

— É muito feliz termos você na equipe, seu currículo me deixou bastante animada.

Sorrio.

— Também estou bastante animada em começar de novo.

Bailey percebe o fraquejar na minha voz, mas não leva adiante.

— Estamos passando por uma época difícil de epidemia de gripe, ano passado perdemos alguns pacientes que estão na UTI, é preocupante sempre que passamos por isso.

Ela me parece cansada.

As cores dos corredores vão de acordo com a gravidade em que se encontram os pacientes, tipo uma cromoterapia.

— Espero reduzir essas perdas.

— Você vai.

Agora é mais confiante.

Entramos na ala onde precisamos nos higienizar e paramentar, são duas salas até conseguirmos ter acesso aos enfermos. Após paramentadas, a enfermeira chefe, Bookhe An, abre as portas e sorri nos recepcionando. Bailey e ela parecem amigas de longa data e vão me mostrando os equipamentos, os lugares onde consigo acesso às medicações e prontuários. Logo avançamos para os pacientes que se encontram em ventilação mecânica, com acessos arteriais na maioria das vezes e completamente comatosos.

— No total ainda somos oito pacientes.

— Por que ainda? — pergunto em curiosidade.

— É uma longa história, Carina… Mas preciso te colocar a par dessa paciente.

Andamos para o último leito que é recoberto por uma cortina que o separa dos outros. Os passos são lentos e vez ou outra os aparelhos emitem um som conhecido, nada que precisamos nos preocupar. Antes que Beiley afaste a cortina, paramos para conversar em um tom baixo.

— Essa paciente é muito conhecida na cidade, mas nos últimos anos com a mudança de cargo na prefeitura começamos a ter dificuldades em mantê-la. A mãe dela tem um pequeno negócio no centro e está fazendo de tudo para que não desliguem os aparelhos. Por muito tempo, a antiga prefeita, custeou os gastos por ter sido uma dos melhores amigas do pai dela, mas com a troca de comando as coisas não ficaram fáceis de intermediar. — ela suspira após as longas palavras.

— Não tem nada que possamos fazer?

— Infelizmente… Não! — ela meneia a cabeça e prossegue. — A verba não está caindo mais na conta do hospital e por sermos privado, a família não está conseguindo continuar. Estamos todos decepcionados e tristes por perder alguém tão jovem.

— Entendo, é como se a esperança que eles acordem nascesse de novo a cada dia.

— Exatamente.

A mão arrasta a cortina e de imediato os meus olhos encontram o corpo deitado.

O coração inicia batidas descompensadas.

O ar foge dos pulmões.

Balbucio.

É ela, Maya.

Uma confusão destrói todas as linhas de pensamento que poderiam fazer sentido. O seco alcança meus olhos que produzem lágrimas que seguram para não rolarem pelas bochechas. Aquele formigamento nas mãos volta e os pés agora estão gelados pelo ambiente mórbido.

O escuro encobre as vistas.

O peso do meu corpo cai e só ouço a voz desesperada de Bailey que vai ficando cada vez mais longe.

Até que eu não consiga mais ter o controle.