Almas em suspenso

3 Capítulo 2 - Semente


Carina deLuca

Ergo rapidamente o corpo.

A enfermeira que cochilava na poltrona ao lado se assusta e no mesmo momento se aproxima.

Olhando ao redor consigo reconhecer que estou no meu quarto e na minha cama, existem alguns fios presos nos braços e peito e um monitor mostrando algumas informações.

— Dra. deLuca, a senhora está bem?

A voz dela ainda chega atrasada.

Minha cabeça gira um pouco e o gosto acre na boca incomoda.

— Só um instante. — murmuro.

Massageio as têmporas.

Estou tentando me acostumar com a ideia de que Maya não vai voltar.

Acostumando-me com o fato de que tudo pode ter sido um sonho.

Sonho?

Talvez não.

— Sua pressão não regularizou durante toda a noite, agora pela manhã que os monitores conseguiram estabilizar, por isso que a Dra. Bailey preferiu que eu ficasse aqui até que a senhorita conseguisse se recuperar.

Ouço-a melhor, mas não presto muito atenção.

Afinal, não estou levando em consideração nada que venha de algum lugar que não seja de dentro da minha cabeça.

Estou ficando louca?

Uma mulher de aproximadamente trinta anos surge inesperadamente na minha casa e de vagar vai ocupando um espeço que eu não imaginava que precisava ser ocupado, então ela some e de repente a encontro em uma cama dormindo tão serenamente poucos passos de ser desligada.

Os pensamentos embaralhados topam uns nos outros tentando entender qual a mensagem que ela queria me passar, por que me escolheu dentro do caos que se encontra a minha vida?

São muitas perguntas.

Nenhuma resposta.

— Preciso levantar, preciso entender…

— A senhorita não pode!

Sem nenhuma noção vou me desfazendo dos fios e o monitor vai desligando automaticamente os recursos. A jovem enfermeira tenta com cuidado me impedir é quando percebo que estou tão fora da realidade que não sei quem é a moça que passou a noite inteira me monitorando.

— Desculpa… Qual é o seu nome?

— Eu sou a Becca, a dra. Bailey me pediu que ficasse aqui com a senhorita até que estivessemelhor e não tem nem 1 hora que seus parâmetros estabilizaram!

— Becca, não precisa me chamar de senhorita! Avise a Miranda que estou bem e que ainda hoje à noite estarei recuperada para retornar ao plantão.

Já estou de pé.

Os olhões esbugalhados de Becca em outro momento me fariam rir.

— Mas… — ela balbucia.

— Você não vai ser prejudicada, fica tranquila.

Com movimentos precisos corro até o guarda-roupa pegando qualquer blusa básica e um jeans. Sinto pequenas pontadas de enxaqueca, mas nada que me impeça de fazer o que precisa ser feito. Uma vez que, agora não é hora de explicar o inexplicável, é muita loucura dizer para alguém que a mulher que acabei de ver em coma estava me encontrando todo os últimos dias.

— Preciso que a senhorita assine o termo de permissão para enviar os tubos com seus exames para um check up completo, investigar o que aconteceu a pedido da dra. Bailey. — a menina está com uma prancheta com solicitações de exames como norma do hospital, ela treme um pouco sem saber o que fazer, mas eu as assino sem titubear.

— Sem problemas! Só preciso que peça a ambulância que leve esses aparelhos de novo para o hospital e que Miranda saiba que estou bem.

— Mas a senhorita não está…

— Becca, olha pra mim. — pego em suas mãos, esse é o momento em que nem eu acreditaria em mim, consequentemente devo estar com cara de desequilibrada — Estou bem e voltarei ao meu ofício logo à noite, só preciso que me deixe resolver algumas coisas.

Ela engole a seco.

— Tudo bem… — arfa e seus ombros caem.

— Obrigada, vou ser grata a você por toda a vida!

Calço as botinas com certa dificuldade e a jovem enfermeira continua me olhando como se não conseguisse acreditar que uma médica renomada está agindo feito maluca. Alcanço a bolsa e as chaves do carro e logo saio pela porta. Antes que cruze as escadas, volto em passos longos avistando a enfermeira guardando os equipamentos.

— Ah! Tem bolo na geladeira e um chá que fica pronto rapidinho, não deixe de se alimentar.

Ela apenas sorri e balança os ombros.

Torno a correr.

No relógio ainda é bem cedo e tenho um longo dia pela frente.

Assim que sento no acento do carro, consigo organizar melhor os pensamentos mesmo ainda não entendendo muita coisa. Após ter desmaiado, trouxeram-me para casa e não lembro de mais nada desde que fechei os olhos. Toda vez que a imagem de Maya surge uma sensação estranha encobre meu corpo e o meu coração acelera em cada batida. Mas balanço a cabeça me desvinculando do atormento por hora. A chave encaixa e o motor responde ao ligar, mas não saio do lugar, enfio o pé no acelerador, mas continuo não saindo do lugar. Como ontem choveu bastante, a terra ficou muito molhada e a roda acabou afundando na lama, surpresa, estou atolada.

— Merda, merda, merda! — balanço forte o volante do carro.

O barulho alto do motor rugindo como um leão não me tira do lugar.

Não é possível que isso esteja acontecendo.

Universo, por favor, deixe-me sair do lugar…

Saio do carro batendo a porta com força.

Chuto a roda empoçada.

O céu ao redor chega a caçoar de mim, está ensolarado e um sol contagiante, só não foi o suficiente para secar a lama que está me prendendo aqui. Gasto minha energia em uma mímica de tentar empurrar o carro de uma forma patética e na tentativa de sair da inércia lembro do momento em que Maya caía de bunda no chão ao tentar me ajudar e um turbilhão volta a me acertar e é quando entro de novo no carro, a respiração é forte, meus olhos abertos e as mãos fincadas no volante do carro, um calor sem explicação sobe absurdamente pelas minhas entranhas e a respiração vai ficando como de um cachorrinho. As lágrimas vêm em um tapa e escorregam sem controle. Agora estou gritando por dentro, sentindo-me inútil, cada vez mais distante de fazer algo por quem acabei de conhecer.

Paro com tudo.

Respiro fundo.

Você é uma deLuca.

Engulo o choro saindo rapidamente do carro, busco as primeiras pedras que encontro e afundo atrás e na frente das rodas, entro novamente e ligo o carro mais uma vez. Diminuo a velocidade com que piso no acelerador, coloco em segunda marcha e revezando os giros no volante de um lado para o outro vou sentindo as pedras se quebrando a medida que saio do buraco. Risco os pneus ao sair e comemoro com um grande palavrão quando consigo tirar o carro da lama. Volto a rir e em poucos segundos solicito por comando de voz que o GPS me liste todas as propriedades ao redor da minha. Estou fadada a encontrar a de Maya.

Só não contava que haviam tantas assim.

A primeira é de um casal de senhores. Inclusive não me são estranhos, eles chegaram a levar guloseimas na semana em que cheguei, mas não nego a frustração de não ser a de Maya. A mesma coisa acontece na segunda propriedade, na terceira, na quarta… E aos poucos o meu brilho vai se apagando.

Buzino algumas vezes antes de sair do carro.

O lugar é grande e bem cuidado.

Ao avistar um rapaz jovem sair, pulo do automóvel e vou em sua direção.

— Olá, bom dia.

— Bom dia, vizinha!

Sorrio.

— Sabe me dizer se aqui mora uma mulher chamada Maya?

— Hm…

Ele coça a cabeça.

— A senhora é da polícia?

Assusto com a pergunta.

— Não, não… Eu sou médica, inclusive… — o rapaz me interrompe.

— Ah sim! — ele dá de ombros. — Essa moça aí não mora mais aqui não.

— Como assim não mora mais?

Ele balbucia, mas desembucha. — Os pais dessa moça aí anunciaram a fazenda na cidade e eu comprei com a minha esposa tem anos, mas já estou cansado de sempre me importunarem procurando por ela.

Suspiro.

Tenho milhares de perguntas para atropelar o rapaz, mas o poupo. Ele não parece muito acessível.

— Tudo bem… — dou as costas com milhares de pontos de interrogação na minha testa, então torno a perguntar. — Mas você saberia me dizer onde a família está agora, alguma informação?

— Olha, a única coisa que sei é que vi o anúncio em uma padaria no centro, mas já faz tanto tempo que não sei se ela ainda existe!

Ele dá de ombros.

Vou começar a rever minha opinião das pessoas daqui serem tão prestativas sempre.

Minha vontade é revirar os olhos, mas engulo e agradeço.

Assim que vou descendo os degraus, o rapaz assobia.

Agora eu sou uma cadela? É isso?

— Diga! — eu grito, impaciente, sem ao menos perceber.

— Espera um segundo, forasteira!

O rapaz some de vista.

Agora eu reviro os olhos e bufo.

Ele corre na minha direção.

— Meu nome é Carina.

— Forasteira, esse é o número da senhora que me vendeu a casa. — inicialmente ele ignora o fato de que acabei de falar meu nome, mas o número de um telefone, faz com que eu também o ignore totalmente.

— Muito obrigada!

Eu sorrio.

— Não é nada!

Ele dá de ombros.

Com passos curtos, entro novamente no carro e a primeira coisa que faço é ligar para o contato, mas a mensagem este número de telefone não existe maisfaz perceber que voltei a estaca zero. Minha cabeça descansa encima dos braços que estão no volante e o desespero vem mais uma vez, os neurônios começam a correr de um lado para o outro e as fisgadas me lembram que de fato ainda não estou bem. Até que uma lâmpada parece acender e a luz no fim do túnel fica cada vez mais palpável.


Tindon-Tindon.

É o som que a campainha faz.

A porta abre abruptamente e o susto que Marsha leva é evidente.

— Já sei, já sei… Os jardineiros que contratei logo vão a sua propriedade ajudar a resolver os probleminhas.

A senhora deixa a porta aberta e sem trocar muitos olhares, vai andando para dentro da casa. Eu só a sigo.

— A senhora precisa me ajudar a salvar a Maya!

Ela espreme os olhos.

— Você conhece a Maya?

— Digamos que sim… Quer dizer, digamos que não, mas isso não vem ao caso. Ela não pode ser desligada!

Marsha balança a cabeça de um lado para o outro e sua feição agora é de frustração.

— Querida, não conseguimos mais.

— Como não conseguimos mais? A senhora não é a prefeita da cidade?

Ela balbucia.

— Eu fui… — sussurra quase que inaudível.

— Como assim?

— Fui de não sou mais! — ela grita.

Eu gargalho ironicamente.

— Não é possível…

— É que eles me impediram de tentar me reeleger por conta da idade, até parece que sou tão esquecida assim como eles dizem! Envelhecer é uma merda.

— Então toda aquela ladainha era uma mentira? Você me vendeu uma casa caindo aos pedaços dizendo que era a prefeita da cidade!

— É que… — ela gagueja.

— Você era a minha última esperança.

— Há um ano viemos tentando impedir que o prefeito parasse com o apoio ao tratamento da Maya… Eu conheci o pai dessa moça, o entreguei menções honrosas a ele algumas vezes até que o perdemos em um acidente. Maya, a menina dos olhos dele, decidiu seguir os passos do pai e acabou entregando a vida dela em troca de outras pessoas, assim como seu pai! Por isso que cada ano era uma luta para mantê-la no oxigênio e nos aparelhos que a garantem mais um dia todos os dias, só que…

— O que é?

— A mãe dela já assinou os papéis.

— Isso não é justo!

Meu coração petrifica.

Encosto no braço do sofá e meu olhar se perde por alguns segundos, mas Marsha me tira do transe.

— O prefeito não concordou em continuar cobrindo os valores do hospital, a família já vendeu tudo o que podia e mais um ano sem ela acordar dificulta as coisas.

— Ele não vai fazer isso!

Um rompante ou um extinto de loucura me faz levantar e encontrar a porta. O único caminho que consigo fazer é o que me leva ao centro da cidade. A prefeitura não fica longe, preciso conseguir um tempinho com esse tal prefeito. Eu não sei o seu nome, sua idade, quanto tempo tem de mandato e o quanto é acessível ou não. O que posso afirmar é que não vou desistir.

Inicialmente a secretária me diz que na sua agenda não há mais horário.

Eu demonstro inquietude, mas ela torna a dizer que não tem o que fazer.

Seu tom é de deboche.

Porém eu também sou e continuo batendo o pé.

A moça distinta até ignora minha obstinação, ela ao menos pergunta o meu nome ou o interesse de marcar um novo horário, simplesmente não quer saber.

Um rapaz com entregas a chama e automaticamente dou a volta abrindo a primeira porta na minha frente e só consigo ouvir a sua voz de taquara rachada dizendo que eu não poderia entrar e que vai chamar os seguranças.

Minha respiração é ofegante e eu vou abrindo as portas das salas vazias até encontrar alguém. Assim que entro em uma das salas, encontro uma moça mexendo em flores que decoram o lugar, ela se assusta com a minha presença.

— Oi? Posso ajudá-la?

— O prefeito, aonde ele está? — minha voz sai em golpes de ar.

As portas atrás abrem e dois armários aparecem vestidos de preto e engravatados. Eles agarram o meu braço e começo a espernear.

— Soltem ela! — a ordem é dada pela moça.

— Obrigada…

— Eu sou Ster, você quer um copo d’água?

— Aceito.

Os rapazes saem e a secretária entra me fuzilando com os olhos com uma xícara de café e um copo de água.

— Como você se chama?

— Carina.

A mulher na minha frente tem um cabelo com luzes douradas, seus olhos são um mel claro e seu corpo é lindo, as curvas são delicadas assim como o tom de voz de lavanda. Ela para de molhar as flores e se aproxima com uma mão estendida.

Ainda respiro fundo, mas não é tão frenético.

— Está acontecendo alguma coisa? Você precisa de ajuda?

Antes que eu consiga responder as portas atrás voltam a abrir e ouço vozes brigando umas com as outras com uma mulher, que reconheço sendo a secretária, e a de um homem.

Ele me interrompe.

— Que diabos está acontecendo aqui?

O seu tom é grosseiro, o homem é de meia idade, já tem os cabelos brancos, sua cor de pele também é clara e o cheiro de charuto que vem do seu terno alinhado irrita um pouco as minhas narinas.

— Pai, essa moça precisa falar com você.

— Sr. Maltês, eu disse a ela que sua agenda estava cheia, ela simplesmente invadiu!

O senhor me avalia.

Faz um movimento de enxotar para a secretária e com um ar de soberania, senta-se na cadeira de couro.

— O que devo a sua rebeldia?

— Eu sou médica, sou a dra. Carina deLuca, responsável pelo intensivismo do hospital do centro.

Ster encosta na beira da estante e seus olhos descansam em mim.

— Beafort Grace? — ele mexe no seu grande bigode branco.

— Exatamente! — acinto a pergunta.

— Se você é uma dessas médicas ativistas que está aqui pedindo reajuste para a classe de enfermeiros, peço que não perca seu tempo! O piso salarial já foi reajustado não tem 5 anos.

Eu reviro os olhos.

Já vi que esse homem é um mão de vaca.

— Maya.

Ster desencosta da mesa rapidamente quando escuta o nome sair pela minha boca.

— Como você a conhece? — a moça parece interessada, o que me gera um leve incomodo. Será que as duas se conhecem? Claro, não é? Essa cidade é uma azeitona, todos devem se conhecer.

Demoro a respondê-la, afinal, vou dizer o que? Conheço sim, sua alma, espírito, corpo, sei lá, me visitava todos os dias.

— Eu sou a médica responsável por ela e não admito que ela seja desligada assim!

O velho ri.

Ironicamente.

— Ah, você é mais uma… — não entendo o seu tom de voz se referindo a mim, mas o igoro. — Fim de papo, mocinha. A própria família já assinou os papéis, está próximo! Outras pessoas precisam do recurso, pessoas que realmente podem ter o seu quadro revertido. Maya não vai mais acordar!


E o meu parece estar acabando”, essa frase nunca fez tanto sentido. Maya pode ter vindo pedir ajuda, não sei porque confiou em mim e nem acredito nessas coisas. Mas ela foi até a mim todos os dias e eu só a assustei. Ela me conheceu mais do que eu poderia conhecê-la. Estava tão preocupada com o tamanho dos meus problemas que não enxerguei que haviam maiores, um deles estava ali bem na minha frente, pedindo socorro.

— Isso não é uma certeza! — respondo de forma falhada.

— Já são mais de 2 anos e nada… — Ster tem o olhar quebrado, com certeza talvez haja mais do que uma simples amizade aí.

— Não dá para voltar atrás, os familiares já permitiram o processo de desligamento, não há o que fazer!

Ster deixa escorrer uma lágrima discreta, mas a limpa com rapidez.

Permito alguns segundos em total silêncio.

As portas tornam a abrirem e os armários de preto param ao meu lado.

— Não, não precisa… — as palavras saem desacreditadas.

— Consegue ir para casa sozinha? Você tem alguém?

Ster é solicita.

— Dra. Carina, não seja mais uma… — ele bufa — haja com seu profissionalismo e faça sua parte!

Novamente é grosseiro.

As pernas levantam sozinha e vão saindo até a porta como se tivessem vida própria. O sol lá fora não ofusca a visão e continuo andando sem rumo até que o sininho de uma porta que parece de faroeste me tira repentinamente da angústia. Não olho ao redor, onde estou o que quero fazer, só me sento em uma cadeira e abaixo a cabeça que está a ponto de explodir. Sinto um dedo me cutucar e ergo os olhos para enxergar. É uma senhora com um caderninho esperando que eu diga alguma coisa, mas eu não falo nada.

— A senhorita deseja algo?

— Sumir! Tem isso no cardápio?

Sou ríspida.

A senhora se afasta ligeiramente com a resposta.

— Posso trazer um café?

— Não. Sabe o que pode me trazer? A merda da minha antiga vida! Há uma semana encontrei meu namorado transando com a minha melhor amiga. O caos tornou a minha vida de cabeça para baixo e quando eu achei que ia conseguir sair do buraco, descobri que vou perder uma amiga! Tá bom? Quer mais?

Ela sorri.

Um sorriso sereno como se eu já tivesse o visto em algum lugar.

— Acredito que você seja nova na cidade.

— É, uma forasteira.

Ela mantém o sorriso.

— Eu sempre fui muito incisiva, uma jovem que tinha muitos sonhos e queria realizar todos de uma vez só, foi quando conheci meu esposo. Pruitt chegou para fazer morada, seu jeito leve de encarar a vida ensinou que eu poderia realizar cada um dos meus sonhos desde que eu tivesse paciência. Assim que fiquei grávida, até os 9 meses eu achava que era um menino, mas Pruitt apostou que vinha uma menina. E não é que era mesmo? Assim que a vi nascer e ele a levantou no seu colo, ali percebi que os meus sonhos tinham sido concedidos. — ela suspira — De repente o perdi e agora também vou perder a minha menininha. A única coisa que consigo te dizer e que aprendi com eles é que é necessário paciência para que mesmo doendo tanto, a gente consiga entender que tudo tem um propósito e que um dia, talvez, você entenda.

Ela suspira.

Suas palavras me tocam e, novamente, vem a aflição.

As mãos atadas.

— Sinto muito…

— Se você pudesse conhecê-los… Pruitt e Maya eram tão parecidos! Os problemas pareciam simples de resolverem.

— Maya? Você é a mãe da Maya?

— Você conhece minha filha?

O peito congela as batidas.

Agora tudo faz tanto sentido, os cabelos loiros presos para trás quase querendo embranquecer, o sorriso com as lentes dos dentes tão certinhos exalando um branco brilhante assim como os de Maya. A mulher na minha frente perdeu duas pessoas que eram o combustível do seu barco e agora parece que o coração está ancorado no fundo do mar. Eu tive 7 dias do lado da sua filha e ela conseguiu que eu enxergasse que nenhum problema era tão grande que eu não conseguisse resolver. Hoje em uma completa coincidência, entrando sem rumo em qualquer lugar para me esconder da bagunça que estou vivendo, descubro quem é a mulher que a educou e que está com um sentimento de perda assim como eu.

— Pouco, sou a nova médica dela. — enrolo um pouco, pois já estou em desequilíbrio, falar que conheço Maya e como a tive por perto iria a perturbar ainda mais.

— Faz um tempo que não a vejo mais.

— Ela deve sentir sua falta.

— Aquela ali já não é mais a minha filha. Eu a perdi no dia que soube que ela entrou em coma e cada dia que ela não acorda eu venho morrendo junto.

— Foi por isso que assinou a permissão para desligarem os aparelhos?

— Sim.

As últimas palavras que troquei com a mãe de Maya foram de conforto, eu gostaria de falar mais, mas também não pude ter tanto tempo com ela como gostaria. Parece que depois que pude conhecê-la, aceitei melhor a ideia de deixá-la partir. Maya surgiu do nada oferecendo dias melhores, parecia saber que existia e existe um vazio dentro de mim, ajudou a enxergar as dificuldades como obstáculos que precisavam existir, porque isso é viver. Pode ser que um dia eu realmente fosse conhecê-la seja em um esbarrão numa livraria ou em um soar equivocado de emergência no hospital que precisasse acionar a estação de bombeiro mais próxima. Poderíamos ser amigas por muito tempo ou ela não suportaria meu gênio rabugento. Conjecturar um lugar na minha vida para Maya duraram 7 dias. Eu a conheci tão pouco e agora pareço querer mergulhar dentro da história que a fez ser quem é ou quem foi.

Após aceitar que em algum momento a realidade viria a tona, parece que ficou mais fácil de lidar com tudo, então retornei para casa sem mais uma lágrima para descer, estava frio mesmo com as janelas fechadas. O sol já tinha se despedido e a noite adentrava. Foi o suficiente para que organizasse tudo para uma nova noite de plantão e a ideia de que voltaria a ver Maya dormindo tranquila me vem em um gatilho de ansiedade, porque mesmo de olhos fechados, seu peito respirando ainda me traz esperança.

Ao revisar todos os prontuários, noto que o de Maya não está ali, visto o capote para ter acesso ao CTI e a enfermeira Bookhe An não está, existem alguns leitos vazios. Conforme vou passando por cada um deles, a frequência do meu coração vai aumentando e automaticamente sinto as pontas dos pés trepidando.

As cortinas do leito de Maya estão voando pelo vento que sopra do ar condicionado embutido, agora os meus passos reduzem a velocidade e como se eu não quisesse controlar meus olhos vão diretamente para cama que se encontra vazia. Não há mais nada aqui, os monitores estão apagados, os fios soltos e jogados sobre os lençóis. Inicialmente meus lábios secam e a garganta fecha, apoio meu corpo em uma estante após bambear. A ideia que já tenha acontecido sem que eu estivesse aqui pela última vez faz com que um caminhão de culpa me atropele, porque quando eu precisei ela esteve lá me acalmando.


Os passos que dou levam até parte de fora do CTI e ao tirar o capote, respiro fundo como se estivesse submersa em apneia. O enfermeiro próximo, que ainda não sei o nome, aproxima-se preocupado com um copo d’água que engulo rapidamente.

— Cadê a paciente Maya?

Eu pergunto.

Mas o medo da resposta é um abismo.

— Dra. deLuca, a senhorita por aqui? — a enfermeira Bookhe An entra segurando uma dúzia de papéis, os óculos escorrendo pelo nariz como sempre, não há nenhuma ruga de nervosismo ou se surpresa — A enfermeira Becca disse que a senhora estava melhorando, mas pensei que ainda ia manter o repouso por mais um dia.

— O que aconteceu com a paciente Maya?

Ignoro completamente todas as palavras que saíram da sua boca.

O que pode soar assustador para ela, uma vez que ninguém sabe que conheço Maya e essa preocupação pode parecer passar um pouco dos limites.

— Ah, o seu pager não avisou?

Pager? Meu Deus, esqueci o meu pager em casa desde ontem.

— Não… — balbucio.

— Tem exatamente 1 hora que a Maya estubou.

Ela estubou?

Agora é que meu corpo cai sentado de novo na poltrona e o meu cérebro tenta me fazer retornar a realidade de que sou médica e sei exatamente o que isso significa.

Sela estubou, ela acordou.

Maya acordou.

— Aonde ela está?

— Está no quarto sob os cuidados da Dra. Robbins.

A baixinha na minha frente continua organizando os papéis e envelopes sem esboçar nenhuma reação. Tudo bem, na medicina, vemos isso todos os dias, os pacientes podem não acordar ou, de repente, abrirem os olhos. Não podemos confundir a emoção com a razão de que nem sempre isso significa qualidade de vida, mas eu estou pouco me importando, parecem que existem luzinhas dentro da minha cabeça ligando e desligando, ligando e desligando.

— Os pacientes já foram revisados, qualquer coisa peça que me chamem, vou ver como Maya está!

Em segundos minhas pernas ganham força e começo a marchar rápido até a porta, quando ouço a voz de Bookhe me trazendo de volta.

— Dra. deLuca!

Minhas pernas travam. — O pager! Não esqueça mais!

Arfo. Mas só concordo com a cabeça.

O enfermeiro pelo qual ainda não conheço mas que parece muito simpático me leva até o andar superior que se encontra os quartos dos pacientes menos graves. Aqui é mais movimentado, existem pacientes andando com seus acompanhantes pelo corredor, uns sorrindo, outros não, no entanto é algo mais vivo, familiar. Eu não consigo lidar muito com as emoções, não estou pensando na minha reação, no que vou falar e muito menos fazer depois daqui. Depois de anos em coma o paciente não costuma lembrar de nada e muitos precisam de fisioterapia para voltarem a falar e terem de volta os movimentos. Mas só de encontrar ela sem respirar com ajuda de aparelhos e respondendo aos parâmetros, por hoje não vou precisar de nada além de agradecer por ela não ter desistido.

A porta está encostada.

Maya está sozinha e apenas com uma sonda presa nas narinas para que o oxigênio ajude na oximetria, está bem aquecida e parece continuar dormindo, meus passos são inaudíveis e eu ainda não tinha chegado tão perto do seu corpo desde a última vez que a vi. É diferente, mais pálida pela falta do sol, mas os cabelos ainda são dourados. Os braços não estão tão fortes como eu sempre a via. Os cílios piscam discretamente o que em coma não acontece, meu coração é um misto de sensações, não consigo fazer muita coisa, mesmo assim meu dedo indicador toca a pele do seu braço singelamente fazendo um movimento em zig-zag e os cílios adormecidos se levantam lentamente e lá estão os olhos claros cansados me olhando por um tempo e eles piscam de vagar também.

É de derreter qualquer ser humano.

É estar viva.

É voltar.

Abaixo um pouco meu corpo para poder falar próximo ao seu rosto, consigo sentir a respiração soprar das suas narinas.

Hey stranger… — sussurro. Mesmo não esperando nada, sabendo que ela não vai me reconhecer, Maya apenas sorri, ela acaba de sorrir como se tivesse me reconhecido, mas é passageiro porque em seguida seus olhos voltam a se fechar para continuar descansando para se recuperar, e eu conhecê-la mais uma vez se ela permitir. Então, torno a sussurrar — Você pode não se lembrar, mas fiquei te esperando até o sol se por…

E é assim que continuo ali.

De pé.

Zelando seu sono.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.