Notas iniciais
Adrien estava no telhado de sua casa, olhando para o horizonte com sua única e melhor amiga, Agatha.
A empregada trajava peças comuns e de baixa qualidade enquanto o loiro vestia roupas feita dos melhores tecidos. Eles discutiam um com o outro, enquanto olhavam para o horizonte.
— Então, você vai se casar, não é mesmo? — o loiro perguntou, encarando o céu noturno que, naquela época, não era coberto pelo pó avermelhado.
— Então você soube? — ela perguntou com um sorriso.
— Digamos que nada passa despercebido para aquele que, futuramente, comandará esse "império" — ironizou, fazendo a garota soltar um pequeno riso. — De todo modo, quem é o cara de sorte?
— Nicolau Freitas — ela declarou com um sorrisinho no rosto. — Creio que você o conhece. Um grande guerreiro, ele luta ao lado de seu pai, deve conhecê-lo.
— Ah, sim — o loiro declarou, sentindo uma pontada em seu peito, afinal, aquela garota havia sido sua melhor amiga e seu primeiro amor. — Ele parece ser uma boa pessoa.
A voz do garoto estava falha, mas ele tentava disfarçar. Sabia que sua amiga deveria ser feliz, e sabia que, mesmo que ela o amasse igualmente, não adiantaria nada, pois um nobre jamais poderia se relacionar com seu servo. Seus olhos marejaram e o vento soprou em seu rosto, não colaborando com seus planos de evitar que fosse visto chorando.
— Adrien, você está bem? — a morena perguntou, encarando-o com seus belos olhos castanhos.
— Sim, Agatha — mentiu. — Só acho que quero ficar um pouco... Sozinho.
Ela continuou fitando-o por um tempo, até que desistiu e se levantou, ajeitando seu vestido e seu avental. — Tudo bem então, mas você sabe que ficar sozinho nunca é uma boa escolha — ela sorriu, aqueles dentes incrivelmente brancos que contrastavam com a pele morena e davam a ela um incrível charme, que fez com que o loiro se avermelhasse e sorrisse também.
— O vento me fará companhia — brincou. A menina deu de ombros e andou até o alçapão, descendo de lá para dentro da casa.
Então Adrien estava sozinho. Ele respirou fundo, sentindo a garganta fechar e as lágrimas descerem. Abraçou suas próprias pernas e olhou para o horizonte à beira da destruição.
Viu bombas caindo e seu coração se afundar em um mar de escuridão. Perdido em sua vida e inseguro sobre tudo o que viria a seguir, ele chorou baixo até que nada mais pudesse sair de seus olhos.
Ele sentiu um toque em seu ombro, o que o fez se virar bruscamente. — O que está fazendo aqui?
— Ah, é você — ele murmurou quando viu que era a garota de cabelos escuros cujo nome nem se dera o trabalho de saber. — O que quer?
— Sei lá, eu acordei e você tinha sumido, então eu vi uma saída e tentei fugir, mas...
— Sim — ele falou, apontando com a cabeça para seu lado. — Senta aí.
Ela pensou um pouco e olhou para o céu, estava o dia estava no fim e só se tocara agora que tinha dormido a tarde toda na cama confortável do loiro. Marinette abaixou um pouco a camiseta grande que estava usando, para que se sentasse em um lugar um pouco mais quente já que estava com as pernas quase que totalmente descobertas.
— E ai, o que está olhando? — ela perguntou, acompanhando o olhar dele para a sua antiga cidade.
— Não é pela visão, é pelas lembranças — respondeu, encostando a cabeça e as costas na parede de concreto.
— Esse lugar é horrível, mal posso esperar pra fugir daqui — ela murmurou a última parte e se ajeitou como ele, que soltou uma risada em deboche.
— Boa sorte pra sair desse lugar, eu mesmo já tentei várias vezes.
— Mas você não sou eu — ela falou, fechando os olhos e abrindo um sorriso quase imperceptível. — Eu já fugi de muitas pessoas e de muitos lugares, é apenas uma questão de qual entrada explodir primeiro.
— Você não vai explodir entrada nenhuma — o loiro retrucou, olhando para ela.
— Ah, nem a principal? — o garoto continuou a encarando. — A da ala Sul? Ala norte? Uma janelinha?
Ele riu. — Não seria melhor abrir a janela?
— Não teria graça — a garota falou. Ambos voltaram a olhar para o horizonte de destruição às suas frentes.— Quando eu fugir — ela começou —, eu vou te levar junto. Você me parece estar precisando de um pouco de diversão.
— É uma oferta tentadora... Se não fossem descobrir que eu sumi algumas horas depois. Alem disso, eu sou o sucessor do governo, é minha obrigação ficar...
— E quem disse que você não iria voltar? Ou que iriam perceber? — ela se levantou. — Vamos colocar uma máscara em você, sim, ou cobrir seu rosto com algum cachecol preto, depois vamos matar alguns guardas do castelo, pular os muros e correr deserto adentro, e só Deus sabe o que faremos em seguida — sua voz animada fez o loiro sorrir. — Vamos te dar algum codinome e te traremos de volta na mesma madrugada! O que acha? — ela riu. — Será que seria o suficiente para te pagar pelo banho?
— Só pode estar brincando comigo que todo esse plano foi para o pagamento do banho — ele falou, afundando seu rosto em seus joelhos. — Você é a pessoa mais retardada que eu já conheci.
— Por que você certamente conhece /muitas/ pessoas retardadas — a garota ironizou. — Mas e então?
— Então o que?
— Isso foi um sim ou um não?
Ele pensou um pouco, se levantando e olhando a garota nos olhos. — Foi um talvez.
Ela revirou os pequenos pedaços de céu que eram seus olhos. — Acho melhor se decidir até amanhã, por que eu não vou voltar pra cá.
— E quem disse que te deixei ir?
— Você não precisa deixar, eu faço o que eu quiser e você fica quietinho, é assim que as coisas funcionam.
— Até parece que você vai para algum lugar com o braço nesse estado — ironizou, revirando os olhos.
— Passei quase que um dia inteiro com ele aberto, vou sobreviver com alguns pontinhos.
— Achei que você quisesse suas armas de volta — ele falou, sorrindo de lado.
— Seu puto, as minhas armas!
— Só vai tê-las de volta quando esse braço se recuperar.
— Eu te odeio — ela falou, abrindo a portinhola para o quarto. — Nem quero mais te levar pra fugir comigo.
— E quanto ao agradecimento pelo banho? — ele perguntou, a seguindo.
— Vejo isso quando estiver vazando daqui — respondeu com um sorriso e fazendo um sinal para que ele passasse pela portinhola, e assim o fez. — De toda forma, em quanto tempo você julga que isso vai ficar bom?
— Hum, acho que algo em torno de quinze dias, se você não forçar o braço talvez nem isso.
— Olha se não é mais tempo do que eu esperava — ela ironizou revirando os olhos. Eles passaram por algumas tubulações de ar e chegaram no quarto do loiro, onde a garota se jogou na cama de casal e fitou o teto.
De certa forma ela tinha o achado legal, mas ainda não mudava o fato de que era seu inimigo.
Certo, talvez ela não devesse tê-lo convidado para uma fuga em tempos aleatórios, mas ele havia sido gentil com ela, gentil demais na verdade. Ele até mesmo tinha feito com que Marinette se lembrasse de seu antigo amor o que, parcialmente, a entristecia.
O estômago dela roncou mas ela decidiu ignorar, já tinha comido na tarde passada, ainda conseguiria aguentar mais umas doze horas.
— Está com fome? — ele perguntou.
— Não — mentiu.
— O que você quer comer?
— Você — brincou, ainda olhando para o teto. Ela notou um silêncio constrangedor e passou a olhar para a face totalmente ruborizada do loiro, o que fez com que ela risse de seu desespero. — É brincadeira, criança.
— Vá se fuder — ele murmurou com o rosto tampado pela própria mão.
— Eu prefiro /te/ fuder — ela brincou, percebendo que ele estava ainda mais vermelho. — Você é muito sensível — ela riu.
— Desculpe por nunca ter conversado sobre algo assim com alguém — ironizou e se encostou na parede. — Você não é vegetariana, né?
— Sou cem por cento carnívora — a voz dela demonstrava malícia e gozação.
— Da pra parar?!
— Parece que irritei a princesinha.
— Que bom que você sabe — respondeu irritado, puxando a corda que chamava as faxineiras. — Eu estou com fome e eu quero um pedaço de carne, se você não quer, problema o seu.
— Não seja grosso, gatinho — ela brincou, se aproximando dele. — Eu também quero carne.
Ele revirou os olhos levemente. — Já perdi a conta de quantos apelidos constrangedores você me deu desde que chegou aqui.
— Vamos ver — ela falou sorrindo. — Teve principezinho, princesa, princesinha, Agreste, gatinho, loiro, herdeiro do caos, garoto mimado...
— Eu não lembro de alguns aí.
— Ah, são os que eu deixei só na minha cabeça — deu a língua. Algumas batidas foram ouvidas na grande porta. — Eu vou pro armário, okay?
Ele deu de ombros enquanto ela se escondia. Adrien abriu a porta, vendo ali o ex-amor de sua vida, Agatha. Ele desceu os olhos para suas mãos, vendo a aliança dourada. Mesmo que já fizessem quase três anos desde o casamento, ele continuava descendo os olhos para aquele lugar, na esperança de tudo aquilo ter sido apenas uma brincadeira de mal-gosto, mas nunca funcionava.
Ele encarou os belos olhos amendoados, tentando não sorrir apenas pelo fato de te-la perto de si. — B-boa noite Agatha. Queria que trouxesse o jantar pra mim e para minha convidada.
— Ah sim! — ela gritou, com um sorriso animado. — Onde ela está? Para ter se interessado em alguém, ela deve ser uma garota incrível!
Marinette ignorou o comentário da garota, procurando pelo armário sua bolsa de armas. Ela achou estranho que, em cada camisa olhada, possuía um broxe com o formato de uma borboleta negra formado por pedrinhas preciosas, imaginou o quanto de dinheiro ganharia se vendesse um desses para um de seus traficantes.
De toda forma, toda aquela busca não estava resultando em nada, ela apenas pensava onde aquele maldito garoto poderia ter guardado aquela bolsa cheia de coisas valiosas.
A porta de correr foi aberta, dando permissão à entrada das luzes artificiais do quarto, e ao olhar dos dois amigos sobre a rebelde.
Merda, ela estava definitivamente fodida.
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