Alma de Vidro |HIATUS|

3 Capítulo 03. Tem Um Copo D'água Na Minha Tempestade


Notas iniciais
Alô, cheguem maaaaaaaais. Não mordo. Sério s2 Até Tony Stark se juntou à festa nesse capítulo.

Ela deixa claro na maneira como fita o hall de entrada que está cem por cento desapontada. Mesmo olhando para a madeira lisa e polida do chão, seus olhos parecem imersos em algo relativo a desespero enquanto focados para baixo em falsa calmaria, como um monstro trancado dentro de uma caixa prestes a romper a fechadura e pular sobre mim.

Fecho a porta atrás de mim e largo a mochila amarela ao pé da escada, caminhando na direção da cozinha, onde minha mãe está sentada na cadeira da ponta, de frente para a porta de entrada, esperando por mim.

Ela não levanta os olhos para mim em nenhum momento. Os cabelos de um castanho claro vivo quase loiro caem em ondas quase até a cintura sobre a blusa branca de mangas compridas que ela usa. As mãos estão apoiadas nas pernas esticadas sobre o jeans e posso ver à distância as manchas roxas e escuras abaixo dos olhos azuis brilhantes. Apesar de tudo, parece jovem como sempre pareceu. Ela tem trinta e dois anos e uma filha de dezessete. É uma pessoa bastante jovem.

– Você ao menos comeu alguma coisa? – Pergunto ao parar diante dela na escuridão da cozinha à uma e meia de uma madrugada particularmente nublada e naturalmente escura.

Jordana não queria que eu saísse ontem à noite, mas, mesmo assim, saí. Ela jamais aprovou meu trabalho no Harlott’s e, sempre que tem oportunidade, tenta me persuadir a abandoná-lo. Ela se esquece de que a arte da persuasão é um domínio meu. E sempre perde as discussões a cerca do assunto quando se vê incapaz de rebater um argumento que formulo. Bom, cantar e ocasionalmente tocar violão em um bar não é muito desonesto. Quero dizer, o lugar é tão simplório que meu palco é a mesa de bilhar – quando subo nela, os clientes não se queixam de ser impossível jogar, porque os ânimos sempre se acalmam e todos ficam atentos ao show. Não que isso influencie nas opiniões da minha mãe, razão pela qual eu tento ao máximo esconder dela o tipo desclassificado de delinquentes que frequentam o Harlott’s quando ela vai me ver tocar. Uma vez subornei um motoqueiro para que mantivesse as aparências e ameaçasse sua gangue para que todos se comportassem – subornei-o com uma garrafa de tequila. Pelo menos deu certo.

Os olhos marejados da minha mãe voltam-se para mim e me vejo fazendo uma careta de desentendimento.

– Mãe, – digo, aproximando-me do balcão pronta para abrir a porta do armário enquanto falo depressa: – se te aborrece tanto meu trabalho no Harlott’s, posso até te fazer um chá para aliviar a tensão e...

Jordana agarra uma de minhas mãos antes que eu alcance o armário.

– Você não entende porque você é você. – Ela sussurra com uma tranquilidade que não acredito que esteja sentindo. – Você nunca teve que se sentir fraca para poder se reerguer forte porque você nasceu com uma força que eu nunca vou entender.

Encaro a mulher transtornada diante de mim afastando a ideia de que ela está louca, porque sei que, em algum lugar de sua mente machucada, seu discurso quer dizer alguma coisa.

– Você é diferente, Domino. Um pouco como eu. – Jordana sorri e seus olhos finalmente transbordam, expulsando lágrimas estranhamente puras, como se ela não estivesse realmente sofrendo, e sim se orgulhando em admitir algo para si mesma. – E eu não quis te deixa ir por um longo tempo, mas você tem que ir agora.

– Ir para onde? – Murmuro com a garganta seca, os olhos molhados e o corpo rígido, a careta de desentendimento ainda em meu rosto.

– Ir fazer o que você faz melhor. – Ela continua sorrindo, agora acariciando suavemente minha mão. Meu primeiro impulso é me afastar o mais rápido possível e interromper o toque, mas talvez isso a magoe, então, continuo parada como se fosse feita de mármore. – Ser você mesma. Ser justa e ser corajosa.

Olho brevemente para o lado tentando escapar por um segundo da situação desesperadora, depois volto a olhar minha mãe.

– Eu não entendo. – Admito como um pedido mudo para que ela me explique do que toda essa fala se trata.

– Essa é a primeira vez. – Ela assinala. – Você vai.

O estrondo vindo da porta quando esta é brutalmente posta a baixo me faz pular e o som da minha mãe engatilhando a arma que ela, como subdelegada, nunca traz para casa chama minha atenção de volta para ela, mas só tenho tempo de bombardeá-la com perguntas através dos olhos antes que uma mulher e um rapaz irrompam pelo corredor em nossa direção.

A mulher é loira, alta e esbelta, irritantemente elegante em seu blazer e saia branca, assim como o sapato de salto e bico fino. Seu cabelo é tão loiro que quase chega também ao branco e olhar seu rosto me dá a impressão de que ele é feito do mais caro e refinado vidro que se quebraria a menor menção de movimento que ela fizesse. O azul claro e preciso de seus olhos esquadrinha a casa como se fossem os de uma decoradora pronta para dar a última dica da moda. O sorriso que traz orgulhosamente estampado no rosto desperta em mim uma súbita e quase incontrolável vontade de socá-la até que ele desapareça.

O rapaz, por outro lado, não podia estar mais longe da luz que toca a elegância. O jeans desbotado, a jaqueta de couro marrom surrada e o cabelo loiro bagunçado entregam facilmente seu ar despreocupado enquanto seus olhos – vejam só – também azuis absorvem cada detalhe ao seu redor como se ele fosse a pessoa mais focada do mundo e cada traço em cada centímetro da minha casa fossem dignos de ser averiguados cuidadosamente.

Francamente, não sei qual dos dois está me irritando mais.

– Olá finalmente, Jo. – Diz a loira com seu semblante de quem contempla a casa com aprovação, olhando minha mãe como se fossem velhas conhecidas. – É uma linda casa a que você tem aqui. Tão aconchegante... Não é o que eu esperava, considerando seu passado conturbado, mas nada mal. É claro, você podia colocar umas cores mais fortes nessas pare...

– Meu Deus, você adora o som da sua voz, não é? – Interrompo irritada pelo falatório, irritada pela invasão, irritada pelo tom arrogante.

A mulher direciona sua atenção em mim, fitando-me como se eu fosse a coisa mais encantadora que ela já viu.

– Eu disse que “Domino” combinaria com ela. Falei para que o nome que você escolhera era um nome lindo, Jo. Viu só? Concordamos em alguma coisa.

Assim que ela termina de falar, reparo que a luz da cozinha é a única acesa na casa. E que minha mãe está se agarrando à arma como se sua vida dependesse disso, mas a está mantendo abaixada, apontada para o chão enquanto suas mãos tremem como se seu corpo estivesse submetido a um terremoto. A loira também tem uma arma. É uma pistola prateada – bem distinta da preta que pertence à minha mãe – que me parece bastante versátil e moderna, que ela lentamente retira do cós da saia e engatilha.

– Só vá embora, Ellendra. – Minha mãe pede como em uma súplica, os olhos de repente exaustos e o vislumbre de um choro dançando na voz. – Não precisa ser assim. Há alguém a caminho. Eu não quero que ninguém se machuque.

Tenho muita vontade de perguntar à minha mãe que diabo está acontecendo e por que motivo ela não quer que a mulher de branco se machuque quando ela está segurando uma arma que pode estourar nossos miolos. Mas não digo nada. Calculo, pela visão periférica, em quanto tempo consigo me virar, segurar o vaso comprido e transparente de vidro que está sobre a mesa e me virar novamente.

– Você ligou para a SHIELD? – A mulher prossegue. – Sério?

– Acabou. – Minha mãe responde.

– Eu vou querer saber o que é SHIELD? – Murmuro para minha mãe.

– É só o começo. – A loira rebate com um sorriso desdenhoso nos lábios.

Quando ela está prestes a erguer a pistola assim que finaliza a frase, viro-me para pegar o vaso e o lanço na mão dela, fazendo-a derrubar a arma. Corro até o outro lado da cozinha onde fica o interruptor e desligo a energia de toda a casa.

Sinto uma mão gelada agarrando meu pulso e sei que trata-se da minha mãe puxando-me para perto de si. Ela coloca a arma em minha mão e se afasta mais rápido do que consigo puxá-la de volta. Em seguida, escuto um urro de quem está no meio de uma briga, e logo ele se multiplica, enchendo a cozinha acompanhados pelo som de pontapés e socos e sabe-se lá mais o que.

Disparo na direção da confusão e esbarro em um corpo forte e alto que deduzo ser do rapaz loiro. Mirando onde acho que está seu ombro, puxo o gatilho. Mas só ouço o vidro de um dos armários se estilhaçando. Eu errei.

Algo se enrosca de repente no meu pescoço, puxando-me para trás de modo que caio de costas sobre o chão da cozinha.

É como se um cachecol gigante, gelado e grotesco estivesse lutando com todas as forças para me enforcar e a ideia de uma cobra estar enrolada em mim começa a me atormentar.

Meus dedos são ferro em torno da arma e tento colocá-la em posição para atirar no que está me tirando o ar, mas o aperto é cada vez mais forte e ambos nos contorcemos mais e mais, tornando quase impossível qualquer noção de precisão que eu tentasse arriscar.

Serpenteamos pelo azulejo até eu sentir minha cabeça se chocando contra os armários que tocam o chão e meu corpo deslizar sobre os cacos de vidro.

Apanho rapidamente o primeiro caco de vidro que minha mão esquerda alcança e, sem nunca soltar a arma, cravo o objeto pontiagudo na coisa empoleirada em meu pescoço, ouvindo um sonoro sibilar incrivelmente alto e arisco antes de sentir meu pescoço livre.

Tateio às cegas tentando me levantar e tropeço até o interruptor, voltando a ligar a energia.

Com a luz da cozinha acesa, consigo ver minha mãe no que parece uma luta de vida ou morte com a mulher de branco no corredor da porta de entrada, ao lado da escada. As duas parecem habilidosamente aptas em combate, distribuindo golpes particularmente flexíveis demais e executando defesas que viravam o jogo a seu favor alternadamente, tornando a coisa toda bem equilibrada. Eu quase não acredito no que meus olhos estão me mostrando, mas aí me lembro do passado profissional da minha mãe que, trabalhando na polícia há anos, realmente entende de brigas e até tem uma obsessão enorme em me ensinar todas as táticas que sabe. O que me choca é que nunca realmente a vi em ação e costumo pensar nela como a pessoa doce e racional que eu não sou, o que torna a cena tremendamente surreal.

Assim que inicio minha pequena corrida até o corredor, meu pé fica preso em alguma coisa e caio com a cara no chão, olhando depressa para trás. Estou diante do corpo cansado e ferido de uma cobra inteiramente branca e enorme, duas vezes mais grossa que meu tronco, de olhos vermelho intenso e caninos gigantescos. Sua boca abre e fecha em agonia e seu sangue – da mesma cor de seus olhos – se espalha em um rio escuro no qual meu pé está envolvido. Balanço-o freneticamente até me afastar da pele peçonhenta do bicho e me ponho de pé, afastando-me com urgência da criatura que há pouco tentara me sufocar até a morte, cuja a pele perfurei com um caco de vidro.

– Mãe! – Grito para ela assim que chego ao corredor, para que se afaste de modo que eu possa obter uma mira.

A loira tenta se levantar assim que toca o chão. Acerto-a no joelho. Ela não tenta mais se levantar. Só grita histericamente, contorcendo-se perdida em um nevoeiro de dor.

Olho para trás e vejo as pernas do loiro onde anteriormente estava a cobra. Ele está deitado exatamente de onde o sangue flui e posso ouvir sua respiração cansada de onde estou.

– Alguma coisa que queira me contar? – Pergunto à minha mãe enquanto ambas encaramos igualmente alteradas a mulher sangrando e se desfazendo em berros no chão.

– Conte a ela, J! – A loira tenta ordenar aos gritos. – Conte a ela agora, ou não vai contar nunca mais.

Aponto a arma para a cabeça da mulher, sabendo ao mesmo tempo que sou incapaz de finalizá-la e que, pelo tom de ameaça que ela usou estando incapaz de sequer se por de pé, eu deveria finalizá-la.

– Domino. – Minha mãe me chama com urgência, os olhos na loira aos seus pés. Assim que viro a cabeça para ela, sua atenção vem para mim. – Eu amo você.

Ela toma a arma da minha mão e deduzo que acaba de dizer que me ama como um modo próprio de se desculpar por estar prestes a matar alguém diante de mim.

Um grito horrível preenche a casa inteira quando minha mãe dispara a arma na própria cabeça.

O zumbido que ressoa na minha mente me deixa tonta e, a princípio, não entendo de onde veio o grito até de repente perceber que ele era meu.

Minha mãe. Morta.

Inanimada na minha frente, o calor do corpo já aos poucos se esvaindo, os olhos fechados, os braços e pernas em direções diferentes e a cabeça apoiada no chão para nunca mais se levantar.

Caio de joelhos ao lado dela, colocando sua cabeça sobre minhas pernas dobradas e tirando seu cabelo do rosto. Estou tremendo. Mas ela está tão parada, tão imóvel...

Algo como água cai sobre seu rosto e algo ensopa minha calça, espalhando no ar um cheiro de ferrugem que me dá claustrofobia.

O tempo está perdido.

Não sei quantos minutos se esvaem até que um ruído vindo da cozinha chame minha atenção. Mas ficar viva importa, se nada mais importasse. Ou minha mãe teria morrido por nada – assim penso eu, que não entendo nada sobre ela mesma ter disparado o tiro que lhe tirou a vida.

Abro a porta sobre a escada em direção ao porão e arrasto de volta ao corredor duas caixas cheias de C4, o explosivo que sei que minha mãe mantém lá embaixo escondido depois de ter “confiscado” algumas caixas da delegacia em um caso maluco que ajudou a solucionar. Nunca entendi porque ela insistia em guardar todo aquele material que poderia nos fazer voar pelos ares com um simples descuido de nossa parte, mas tudo agora parece fazer sentido.

Não vejo mais as pernas do loiro, nem a mulher de branco quando volto arrastando as caixas e, antes que saia à procura de qualquer coisa para estourar o explosivo, meu corpo é levado para frente e a lateral da minha testa se choca com força contra a grade da escada. Fico grogue e sou mais uma vez jogada para frente.

Na terceira vez, um punho de ferro segura o pulso da mulher de branco exatamente no momento em que minha testa ia se espatifar na madeira de novo. Literalmente. Um. Punho. De. Ferro.

A armadura vermelha que vi tantas vezes na televisão e em jornais e em revistas e em tantos outros lugares está parada bem na minha frente impedindo minha agressora de esmagar meu crânio.

“Há alguém a caminho. Acabou”.

Não pode ser...

Mas por que a loira achou que minha mãe tivesse contatado uma tal de SHIELD – seja lá o que for isso – quando, na verdade, ela contatou o Homem de Ferro?

Minha cabeça gira e gira porque não ter a mínima noção do que está acontecendo me joga em um poço de névoa onde sou tão profundamente envolvida pela falta de conhecimento que o ar começa a me faltar, bem como quando estava sendo estrangulada.

Tony Stark puxa a mulher para trás para afastá-la de mim e, ela com o joelho debilitado, cambaleia até voltar ao chão.

Os olhos do Homem de Ferro me fitam como que procurando por algo em meu rosto levemente ensanguentado e, de algum jeito, sei que o cara por trás da armadura está igualmente atônito, curioso e espantado.

Agarro o braço da armadura, de uma forma altamente esquisita gostando da sensação do metal contra minha pele, como se o toque me passasse uma sensação completamente nova de segurança que eu não conhecia. Arrasto o bilionário desesperadamente para fora da casa enquanto o rapaz loiro subitamente aparece no corredor com a arma da minha mãe em mãos.

Tony Stark logo o avista também e passa o braço ao redor de mim, rebocando-me para fora. Assim que pisamos na varanda, paro bruscamente, puxando-o pela mão de modo que ele também pare.

– Stark, C4! – Grito com urgência

Ele não demora nem um segundo para entender e me puxa para trás de si, o braço esticado diante de nossos corpos pronto para colocar o plano em ação.

O disparo surge do centro de sua mão no instante em que o gatilho é puxado.

A bala é mais rápida.

Minha consciência passa a ficar apenas metade atenta a partir do momento em que Stark nos tira do chão, levando-nos para o mais longe o mais rápido possível da casa em chamas que um dia chamei de “minha”. Mal senti o impulso que nos tirou do chão e o sangue quente e melado que avança pela minha blusa, saindo do meu abdome, me deixa perigosamente escorregadia em contato com a armadura.

Sinto levemente o impacto contra o chão quando Stark nos coloca provavelmente sobre o telhado de algum prédio. Ouço-o dizendo algo como “Aguenta aí, pirralha” em um misto de urgência e preocupação e medo, e, então, formulo um último pensamento antes de ser levada à força pela escuridão: se eu sobreviver, minha vingança será maligna.

Notas finais
O esquema: um capítulo na atualidade e um capítulo revelando acontecimentos do passado da Domino. Volto a dizer que, mais para frente, tudo fará sentido GAYIUAAUHI COMENTEM!