Alma de Vidro |HIATUS|
4 Capítulo 04. Velhos Maus Tempos
Notas iniciais
– Domino, largue essa coisa! – A senhorita Jane Foster se sobressalta, gritando comigo como se estivesse tão acostumada a fazer isso quanto está acostumada a respirar. A espontaneidade com que a represália deixa seus lábios é nitidamente algo comum, porque o jeito como eleva o tom para comigo insinua que já tem intimidade o suficiente para isso sem que o ato seja considerado anormal.
Pergunto-me o que já aprontei de tão sinistro com a moça para que minha presença a deixe claramente nervosa e – arrisco-me a dizer – até um pouco desconfortável.
Será que, pela suposta amizade que eu tinha com o namorado de Jane, não simpatizava com ela? Isso não faz sentido algum em minha cabeça.
Se eu tinha sei lá o que com o irmão do namorado da Jane, por que não gostaria dela?
Fito a senhorita Foster com descaso e desconfiança enquanto aperto os dedos em torno do pescoço da garrafa de absinto e estreito os olhos, apertando as pálpebras de modo acusatório.
É uma garrafa relativamente simples, bastante fina e comprida, estreita e de um vidro meio embaçado, desses do tipo que me faz pensar em um incenso transparente. O líquido em seu interior é de um verde místico, claro, mas não fluorescente, nem berrante, somente de um tom meio que reconfortante, como se, em contato com a bebida, minha mão pudesse tocar algo sólido, macio e aconchegante ao invés de algo que eu não posso segurar. Algo me diz que já olhei muito para garrafas assim.
– Não seja invejosa, mulher. – Digo a Jane, encolhendo-me cautelosamente no banco do passageiro para longe dela. – Mantenha seus olhos na estrada. – Aconselho, entornando mais um gole. – Por falar nisso, você continua dirigindo e dirigindo e ainda nem sei para onde estamos indo.
Jane abre um sorriso vitorioso e seus olhos brilham com a ideia que acendeu uma lâmpada em seu cérebro pequeno – a que está rondando sua mente provavelmente desde o momento em que mandei o sinal do Código Cinza. Ela se ergue no banco, deixando uma mão no volante enquanto a outra apalpa o bolso da frente do jeans até encontrar um celular.
Permaneço em silêncio enquanto ela procura um contato e faz a ligação, encaixando o aparelho entre a orelha e o ombro enquanto volta a dominar o volante com ambas as mãos.
– Steve? – Diz, estreitando os olhos como se não conseguisse ouvir com clareza a pessoa do outro lado da linha. – Steve? Steve?! – Ela se vira para mim e revira os olhos: – Ele deve estar segurando o celular do lado errado de novo. Ao contrário, com a parte onde ele me escuta para baixo e a parte onde ele fala na própria orelha. Pobre Steve.
Com uma careta de aborrecimento, tomo o aparelho em minhas mãos.
– Tem alguém na linha? – Pergunto. – SAIA, PORQUE O TREM ESTÁ VINDO!
Jane estica o braço em minha direção e esbarra na garrafa de absinto que está apoiada sobre o meu joelho. Como estou com o pé sobre o banco e a bebida estava à altura da janela, ela se foi em um segundo quando Jane Foster roubou de volta o celular.
– Trem? Trem? Onde? – Grita o telefone, com uma voz urgente de homem.
– O que foi que você fez? – Berro histericamente, colocando a cabeça para fora da janela e encarando no chão a mancha verde que fica cada vez mais distante da lata velha de Jane.
– Eu não fiz nada, madame. – Insiste o homem na ligação.
– Ora, dê um roteiro para esse cara. – Reclamo emburrada, sentando como índio e cruzando os braços. – Diga a ele que me deve uma droga de um absinto.
– Steve! Sou eu, Jane Foster. – Isso pareceu esclarecer muita coisa na conversa: – Sim, sim, por isso estou ligando. Estou com ela, ela está bem ao meu lado. Está bem, sim. Não. – Ela respira fundo. – Steve, estou dizendo a você que ela está bem. Eu ainda não sei. Ela não se lembra de nada. – Uma longa pausa é feita. – Por favor, diga alguma coisa.
O rosto de Jane é de repente uma sopa amarga de pesar e agonia enquanto ela fita a estrada para não olhar meu rosto.
Quando o celular é estendido na minha direção, seguro-o com imprecisão, sem saber qual o motivo de a notícia ter afetado tanto o tal de Steve.
Minhas mãos suam e percebo que me transformei em uma poça de nervosismo. Minha pele esquenta em tensão e sei que, apesar de não ter a menor ideia de quem foi Steve para mim, ele definitivamente foi importante.
– Domino? – Ele me chama após ouvir minha respiração.
– De acordo com as informações, é ela.
A resposta demora um pouco a vir:
– Você está bem?
Eu não sei. Não. Possivelmente não. Talvez mais ou menos. O que ele quer dizer?
– Muito bem. Estou viva.
Ouço-o suspirar como que inconscientemente, refletindo uma tensão enorme que me alivia por saber que não sou a única a senti-la.
– Você sabe quem eu sou?
– Querido, eu não sei quem eu sou.
– Posso falar com a senhorita Jane?
Esforço-me ao máximo para não escutar uma palavra do que Jane diz quando passo a ligação para ela. É insuportável ouvir a voz de Steve e saber que eu não podia estar mais longe dele – de saber quem é, de conhecê-lo, de abraçá-lo. Essa frustração dolorosa é um chute em meu estômago e me encolho no banco para perto da janela, voltando a colocar os pés sobre o banco e apoiando os braços nos joelhos e o queixo sobre os braços.
– Ok. Eu concordo. Vou ligar para ele. Não, eu não sei onde Bruce Banner está, ninguém nunca sabe isso. Somos todos, por agora. E nem se atreva a perguntar sobre Thor.
Quem é Thor? Que tipo de nome é Thor? E quem diabo é Bruce Banner? Jane Foster está comandando uma legião agora? O que ela pretende com essa reunião? E para quem está pretendendo ligar?
– Isso é tudo no momento, Steve, sinto muito. – Ela me lança o olhar mais carinhoso que recebi desde que acordei praticamente amordaçada em uma cadeira. – Ela vai ficar bem, eu prometo. Você pode confiar em mim dessa vez.
Dessa vez.
Subitamente, minha – de novo essa palavra – suposta antipatia para com Jane Foster começa a me parecer a coisa menos estranha no momento.
– Então? – Pergunto assim que a chamada é encerrada. – Quais são os planos da Comandante Foster?
Ela respira fundo, apertando com força o volante e sorri misturando ansiedade e um pouco de insanidade.
– Temos uma reunião em Malibu.
–x-
Malibu não é muito perto de Novo México. E eu odeio voar. E odeio o mistério. A coisa engraçada sobre mistérios é que é muito triunfante saber tudo sobre eles uma vez que a pessoa misteriosa é você, mas, quando se está do outro lado do tabuleiro, o jogo é torturante. E estou cansada de jogar de acordo com regras que não controlo.
Então, quando ponho o primeiro pé dentro da luxuosa casa de ninguém menos que o gênio, bilionário, playboy, filantropo Tony Stark e olho em volta, capturando o vasto espaço e o mar e o toque elegante do Homem de Ferro, alguma coisa que não consigo identificar me diz que já estive aqui antes. O mapa do lugar pisca na minha cabeça como uma placa em neon, fazendo com que eu me pergunte o que eu e Stark tínhamos em comum.
Pepper Potts e o próprio Stark estão esperando no corredor de entrada assim que Jane e eu adentramos a casa. Minha mente cria um pensamento reconfortante em relação a Pepper e reparo em como ela é linda e em como sei que gosto dela. Já com Stark não é tão simples. Sei que sinto algo forte por ele, mas ainda não consigo explicar o que é esse sentimento. Ele me olha com um olhar sério que não combina com o ar irônico que me lembro de ter visto em entrevistas. Não tenho ideia de como o estou olhando, mas não desvio os olhos dos dele.
Encaramo-nos perdidos por alguns instantes até que Pepper, na terceira vez em que abre a boca, decide, por fim, falar:
– Oi, Domino. – Ela está sorrindo e dá um passo incerto na minha direção, recuando rapidamente e pigarreando em seguida. – Bem vinda.
Aceno com a cabeça com um pequeno e mecânico sorriso.
– Nós devíamos... – Stark troca um rápido olhar com Pepper. – Devíamos... – Ele aponta para trás de si. – Devíamos ir para o Quartel General.
– Eu estou bem, obrigada. – Diz Jane, despreocupada.
– Olá, Jane. – Pepper faz o papel de anfitriã, como se cumprimentar a mulher ao meu lado fosse seu plano desde o começo, antes que ela prendesse a atenção em mim. – Como vai? Parece que você está com vontade de tomar um chá. Fazem um chá maravilhoso em uma lanchonete há trilhões de quilômetros daqui, o que acha?
– O quê? – Jane se posiciona indignada. – Está tentando me enxotar?
– Enxotar? – Pepper banca a incrédula. – Claro que não. Mas é um chá realmente imperdível. – Ela se coloca atrás de Jane e gentilmente a reboca para fora da casa. – Você nunca mais será a mesma depois que provar o néctar dos deuses...
Elas rapidamente desaparecem de vista.
Stark aponta novamente para trás de sua figura ilustre.
Dou um passo para frente, mas ele se coloca em meu caminho.
– Você realmente não se lembra de nada?
Olho-o com raiva.
– Eu me lembro de que Mufasa morre em O Rei Leão. Eu me lembro de que, se eu colocar minha mão em uma fogueira, vou me queimar. Eu me lembro que a capital dos Estados Unidos é Washington. Eu me lembro quem é o Homem de Ferro. Eu não sei quem eu sou, nem como conheço você, ou Pepper, ou Jane Foster, ou sei lá mais quem. Eu não tenho ideia do que estou fazendo aqui. E eu não gosto disso. Na verdade, odeio isso. Mas o que odeio mais é ter que provar que estou dizendo a verdade.
Tony franze os lábios e estende o braço como em um gesto de cavalheirismo, indicando-me o caminho pela terceira vez.
– Vejo que você não abandonou a delicadeza de um trubufu. – Comenta. – Como uma verdadeira... Hepburn.
No caminho até a sala de estar (Quartel General, creio eu), sinto que Tony Stark está sério de maneira preocupante. Ele devia estar fazendo piadas a meu respeito e tornando a situação divertida e engraçada. Eu esperava isso. Eu precisava disso. Mas ele simplesmente anda em silêncio atrás de mim e realmente não entendo a dimensão do impacto que minha amnésia jogou em cima dele.
Ao chegar até a sala, deparo-me com um sujeito loiro de cabelo bem arrumado, camisa xadrez azul e porte físico lisonjeiro. Ele está sentado no sofá espaçoso de Tony de cabeça baixa que rapidamente se levanta ao som dos meus passos. Coloca-se de pé em um pulo, olhando-me como se eu devesse olhar de volta para ele, como se naturalmente lhe devesse um olhar tão preocupado e carinhoso como o que está me lançando. Contra todos os meus princípios, amaldiçoo-me por não poder retribuir o... O que quer que fosse.
– Oi. – Diz ele desajeitadamente, claramente querendo dizer qualquer outra coisa, menos aquilo.
– Olá, Steve. – Digo. – Você soa melhor pessoalmente.
– Vejo que todos se conheceram. – Diz Tony Stark.
– Não exatamente. – Acentuo.
– Não sejamos tão literais. – Stark reforça. – Afinal de contas, você é novata. Isso significa Level 1, que significa que você tem que fazer o que os adultos, que somos eu e o Picolé, mandamos. Ou só o que eu mando, já que você vai descobrir que o Capitão está meio desatualizado. Tipo enferrujado. Travado. Etc.
– Eu ouvi “Capitão”? – Quase grito. – Tipo... Steve Rogers? – Não consigo conter o sorriso pateta que se espalha pelo meu rosto, aquecendo inesperadamente meu corpo gélido. – Ai. Meu. Deus!
– Aqui vamos nós. – Stark revira os olhos, mostrando o quanto desaprova a reprise que está vivendo.
– Ora, quantas vezes se pode conhecer o Capitão América? – Digo entusiasmada. – Puxa, mas que sorte a minha! Estou encantada, James Dean. – Pisco para o loiro, que sorri timidamente, adquirindo um leve tom avermelhado nas bochechas, o que acho tremendamente fofo.
– Você pode pedir um autógrafo em uma parte do corpo depois. – Stark interrompe. – Eu tenho uma ideia brilhante para recuperar a sua memória, pirralha. Se tudo der certo, você ficará bem e viverá o resto da sua vida lembrando-se de como é uma tremenda inconsequente.
Arqueio uma sobrancelha, intrigada pela não continuação da frase e pelo olhar severo que Steve Rogers direciona a Tony.
– Se tudo der errado, o que acontece comigo?
– Eu não tenho ideia. – Stark responde prontamente em uma postura não convencional, com uma mão no queixo e outra no bolso da calça que está usando. – Tratando-se da pessoa na qual estou pensando em contatar, não sei quais são suas possíveis reações, as quais podem ser náuseas, enjoos, mal estar... Mas espera. Não é tudo a mesma coisa?
– Stark. – Diz Steve, zangado.
– E quem você está pensando em contatar? Um pai de santo? – Digo, cruzando os braços. – Fique sabendo que não vou deixar ninguém jogar água “benta” em mim. Ouvi dizer que o bagulho, na verdade, é xixi de cabra.
– Eu devia retirar o depósito que fiz na conta do mestre Lulu. – Dzi Stark em falsa contemplação.
– Lulu? – Repito, cética. – É o melhor que pode fazer?
– Luzes apagadas e lugares de galinhas assanhadas. Era o que dizia no anúncio.
– Mas que porcaria de negócio é esse? Essa gente realmente ganha dinheiro?
– Já me disseram que essas pessoas são verdadeiros profissionais. As maravilhas que eles fazem com carne de carneiro...
– Não entendo o que carne de carneiro tem a ver com nossos problemas. – Diz o Capitão, completamente aborrecido.
– Certamente a pirralha está com fome. – Stark rebate.
– A pirralha, quem quer que seja, está com fome de conhecimento. – Esclareço. – Algum de vocês, conhecidos meus, pode me dizer quem diabos pretendem contatar para me ajudar a lembrar do meu enigmático passado?
Stark toma a frente e, contra a vontade de Steve, se pronuncia sobre o assunto:
– O nome dele é Loki e não sei onde foi que errei, mas ele te conhece bem o suficiente para poder ajudar. Melhor do que qualquer um aqui, para o nosso azar.
– Bom, vamos chamá-lo. – Digo imediatamente, esperançosa e animada e algo como anestesiada com o efeito que o nome tem sobre mim. Soa tão bem. E me faz pensar em coisas bonitas, como uma floresta completamente tomada por flores de amarelo vivo sobre uma brisa leve e calma, na maciez de um edredom contra minha pele no inverno, no gosto de um chá cujo sabor me foge à mente...
Um estampido totalmente inesperado balança o chão e nós três nos entreolhamos alarmados. A adrenalina pulsa como veneno em minhas veias, jogando-me violentamente contra o lado de fora da casa, para a varanda, de onde veio o Impacto Profundo.
Sempre correndo em direção ao perigo, hein, Domino.
Não reconheço a voz que ecoa na minha cabeça na minha corrida até o lado de fora da casa, mas ela me faz querer chorar. É a voz de um homem e não se assemelha em nada com as vozes que escutei até agora.
Quantas pessoas eu amei antes de me esquecer da minha vida?
De repente percebo-me ofegante e perturbada, quase descontrolada diante de um loiro extremamente alto e forte, também de olhos azuis. Ele traz em mão o que me parece um martelo mais antigo que os faraós do Egito e está usando uma capa vermelha que complementa sua roupa medieval e incomum. Traz também olhos surpresos e confusos, como se não acreditasse no que vê.
– Domino! – Grita de repente, disparando em minha direção.
Meu primeiro instinto é correr até ele também e pular em seus enormes braços, mas mantenho-me parada no mesmo lugar, observando-o de maneira estranha, com uma careta de dúvida.
Por que tanta gente está tão preocupada comigo? O que eu fiz? O que eu sou? Qual é minha ligação com tantos heróis?
Quando o Balacobaco me ergue no ar em um abraço que não só me tira do chão, como me tira o fôlego, começo a simpatizar com ataques afetuosos de estranhos e me vejo inconsequentemente desejando que Stark e Steve tivessem me abraçado também. Sinto-me... Despreocupadamente feliz nos braços do loiro pirado.
Quando ele me põe de volta no chão, encaro-o com um sorriso enorme que nem me lembrava de que era capaz de esboçar.
– O que aconteceu? – Questiona ele em uma voz forte e carregada. – Quando voltei para Asgard, Heimdall me disse que ele havia te perdido.
Perdido?
– Eu morri e não estou sabendo? – Pergunto ironicamente.
Para a minha maior surpresa do dia, o grandalhão adquire a expressão mais pesarosa que seu rosto bonito é capaz de mostrar e respira fundo antes de dizer bastante seriamente:
– Sim, você morreu. Eu ouvi seu coração parar.
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