Alma de Vidro |HIATUS|
21 Capítulo 21. O Inimigo Do Meu Inimigo É Um Completo Mistério
Notas iniciais
A pergunta é logo seguida por um horrendo grito vindo do outro lado da porta.
Afasto imediatamente as mãos de Loki, buscando pela maçaneta, mas ele, prevendo meus movimentos, alcança meus pulsos antes que eu chegue até ela.
– Você quer sair daqui para vencer a HIDRA ou não? – Pergunta em tom urgente. Só consigo encará-lo chocada antes de puxá-lo para longe da porta, surpreendendo-me ao não encontrá-la trancada.
Nem as palavras sombrias de Loki haviam me preparado para o que encontro no corredor.
A porta de onde saí é a única. As demais instalações são todas celas, como em uma verdadeira delegacia. O chão e as paredes são de um cinza fúnebre, como que para acostumar os presos à morte que provavelmente viria, um humor negro e temível. O local como um todo parece mais velho que o tempo, com manchas de ferrugem perto das grades e certos pontos no teto onde se vê tijolos gastos, formando um cenário igual ao que eu relacionei antes de cruzar a porta: uma mansão mal assombrada – no caso, o calabouço onde as vítimas sofrem tortura.
Mas isso não é o pior; dentro de cada cela há um indivíduo acorrentado pelos pulsos, que estão envolvidos pela corrente que os pendura acima do chão, prendendo-os com as costas na parede. Garotas. Garotos. Adolescentes. Crianças. Todos inconscientes, com a exceção de um: o que estava gritando.
– Oh, Meu Deus. – Murmuro comigo mesma, pulando para fora da minha bolha ainda pasma, caminhando em direção ao homem. Posso ver que, no fim do corredor, ele não está só. Um homem careca de pele pálida está bem em frente à sua cela, rindo feito um porco antes do banquete. Bom, alguém deve estar lá dentro fazendo o trabalho sujo...
Loki, de repente, se coloca feito uma rocha na minha frente, agarrando em frenesi meus ombros.
– Você quer o conselho de um deus? Dê meia volta.
A urgência em sua voz ainda não se esvaiu e fico subitamente curiosa em relação à importância que ele me dá. Que tipo de força de poder o maluco realmente acha que posso conceder a ele? Ele pensa que, quando toda essa bagunça da HIDRA for limpa, seremos parceiros no crime? Dois cowboys fora da lei?
– É, tem razão. Vamos voltar lá para dentro, aí eu te ensino a dançar tango e você me ensina a dançar lambada para que a gente possa aprender a diferença entre um e outro. Eu, particularmente, nunca descobri. – Digo ao continuar andando, sendo mais uma vez barrada pelo moreno. Ele me segura pelos braços e me debato contra ele, tendo a imagem de mim mesma como uma criança, considerando o tamanho todo do deus. – Saia. Da. Minha. Frente!
Quando dou por mim, Loki já tapou minha boca com uma mão enquanto a outra enlaça meu corpo por trás, puxando-me para longe da cela onde estou tentando chegar ao mesmo tempo em que grito para ele obscenidades que não produzem mais que o som de um animal sufocado.
– Lambada, o que quer que seja, parece uma ótima ideia no atual momento. – Diz ele contra meus cabelos, arrastando-me de volta para a sala.
Pensando rápido, paro de me agitar nos braços de Loki, estancando os pés no chão e cessando os gritos abafados. Após um momento de hesitação, ele me solta devagar, virando-me de frente para si sem modificar o aperto em minha cintura e, encarando seus olhos com determinação, engulo em seco antes de começar a falar:
– Quão bem você conhece esse lugar?
A desconfiança no rosto de Loki faz com que ele una as sobrancelhas, apertando os olhos de um modo tão fofo que... Mas que droga, Domino!
– Por que a pergunta?
Olho em volta automaticamente, reparando outra vez em toda a cena que me rodeia.
– Ele parece bem velho, mas o sistema de celas é definitivamente novo. – Concluo, focando nas grades pretas sem um arranhão ou qualquer outro tipo de desgaste.
– E então? – Incentiva um Loki cheio de expectativa. – Não vamos ficar escondidos nesse ângulo do sujeito sem cabelos no fim do corredor para sempre.
– Então — Digo alongando a palavra, falsamente irritada com a brilhante afirmação do agente Loki. –, Se há um sistema de alarme de incêndio, bastaria apertar um botão para que o procedimento faça as portas se abrirem.
O morena olha para mim como se estivesse me vendo pela primeira vez, a expressão de suspeita se suavizando à medida que seus olhos perfuram os meus. É um misto estranho de aprovação, orgulho e surpresa que não me passa despercebido. Na verdade, tenho a absoluta certeza de que tudo não passa de uma máscara para me fazer pensar que ele está fascinado comigo quando, na verdade, sua única intenção é me espremer como uma laranja para fazer suco dos meus poderes e tomá-lo sozinho.
– Você sabe da existência de algum alarme de incêndio por aqui? – Pergunto para me livrar logo da dispersão que o deus me causa.
– Não. – Ele responde prontamente, pensativo. – Mas acho a ideia muito provável.
– Ótimo. –Afirmo com uma pontada de esperança. – Vamos perguntar ao nosso coleguinha de internato.
Dessa vez, antes que Loki possa me alcançar, corro na sua frente, chegando ao final do corredor em frente à cela onde vejo que um homem de terno todo picotado e manchado de poeira está pendurado pelos pulsos com cortes fundos no peito e abdome. Ele foca os olhos claros em mim assim que me apresento diante dele, encarando-me assustado como se temesse pela minha segurança.
– O que está fazendo aqui, pirralha? – O Pouca Telha ralha comigo em uma voz forçadamente grossa e rouca que me lembra bastante a do gerente do Harlotte’s, o bar de bandidos onde eu costumava trabalhar.
– Eu não sabia que tinha um lugar específico dentro desse galinheiro onde eu deveria estar.
– Ora, sua fedelha... – Sancho Pança me agarra pelo braço e, por puro reflexo, meto a cabeça em seu nariz com toda a força que consigo reunir, lançando-o à distância enquanto seu nariz sangra e seu comparsa, um sujeito negro, bonito e alto corpulento parece notar minha presença, observando-me atentamente como um cão raivoso, segurando na mão direita, um canivete prateado ensanguentado.
– Tem para você também. – Falo, erguendo a cabeça e rezando para que Loki me dê cobertura e pegue o troglodita de surpresa.
O homem avança na minha direção sem segundos pensamentos, um perfeito touro bufando de ódio com todo o seu tamanho e, então, nem pisco com a aproximação, porque, pela visão periférica, localizo Loki vindo também em minha direção, ao meu lado. Antes que eu sinta qualquer coisa, ele já tem o touro pelo pescoço fora do chão, erguendo-o acima da minha cabeça com uma só mão. O canivete rapidamente cai em um baque metálico no chão.
– Espere. Solte-o. – Peço quando Loki aprofunda o aperto sem nenhum esforço aparente. O deus me olha com censura e tédio, mas me concede o pedido, voltando a encarar o sujeito pendurado e largando-o no chão, limpando a mão na roupa sobre o peito como um elitista metido.
O comparsa desorientado e ensanguentado tenta correr grade afora, mas Loki o puxa pela gravata roxa que está usando tão forte que lança sua cabeçorra oca contra a parede, fazendo-o cair completamente desmaiado.
Ando para perto do homem negro, que continua bufando feito animal desenfreado, agora com os olhos esbugalhados como dois pratos de sopa fria, olhando por um instante para Loki, indicando o homem de terno acorrentado, depois abaixando-me diante do salafrário. Sentindo o deus se aproximar do preso, volto a atenção ao homem à minha frente.
– Qual o seu nome? – Pergunto de uma vez, observando-o atentamente.
– Dalton.
– De onde você é, Dalton?
Ele esboça uma careta de completo desentendimento, mas responde à questão:
– Toledo, Ohio.
– Quantos anos você tem?
Percebo que Loki está me olhando como se eu fosse louca, tentando interpretar meus passos, descobrir de que se trata o interrogatório. Ao invés de verificar o estado do homem nas correntes, que também está focado em mim, fica parado como um poste, com aqueles olhos verdes brilhando no lugar da lâmpada.
– O que isso tem a ver com...?
– Só responda. – Interrompo. – Por favor.
Piscando feito farol com defeito, Dalton balança a cabeça e engole em seco.
– Trinta e seis.
– Trinta e seis. – Digo retoricamente, reflexiva. – Você tem família, Dalton?
– Não. – Ele responde rápido demais, claramente apavorado, arregalando os olhos ainda mais. Estreitando os olhos, tombo a cabeça, desconfiada.
– Sim, você tem.
– Não, eu não tenho. – Ele insiste com urgência, negando diversas vezes com a cabeça.
– Não?
– Não.
Assim que Dalton termina de falar, encosto dedo indicador e o médio no espaço entre sua traqueia e músculo do pescoço, pressionando levemente até sentir sua pulsação descontrolada.
– Seu coração diz o contrário. – Constato, deixando o homem branco como osso. – Mas não se preocupe. Eu sou legal. Nada vai acontecer com a sua família, eu prometo. Estou tentando escapar desse lugar, sou totalmente contra sua patroa. Isso quer dizer que eu estou do seu lado, meu chapa. Aguente aí.
Coloco-me de pé outra vez e, fingindo que estou ignorando Loki, dirijo-me ao desconhecido consciente da sala, considerando o desmaio repentino do Sancho Pança.
– Chaves?
– No bolso dele. – Ele aponta justamente o compadre desacordado. Tudo que consigo fazer é menção de alcançá-lo já que, Loki, como um perfeito cavalheiro, me restringe com um toque suave no cotovelo, sorrindo para mim antes de pegar as chaves no bolso do capanga e, ao invés de jogá-las para mim, se aproxima de novo para segurar meu pulso de modo a colocar a palma da minha mão para cima, depositando ali a chave bem devagar, olhando dentro dos meus olhos a cada movimento, cobrindo minha pele com a palma e sua própria mão. Sorrindo desdenhosamente para o deus, ofereço-lhe as costas, concentrando-me na tarefa de libertar o homem à nossa frente.
Quando é solto, o homem cai para frente feito um saco de batatas, incapaz de se manter de pé ao mesmo tempo em que Loki e eu o pegamos, apoiando seus braços sobre nossos ombros.
– Tudo bem, vamos tirar você daqui. – Falo, determinada a continuar a conversa com Dalton. Há mais coisas que preciso saber. Volto, então, para junto do homem assustado, abaixando-me à altura dele. – Quem é você? – Pergunto rapidamente.
– Coulson. – O homem fala despreocupadamente, pronto para a ação, como alguém que já passou por situações piores. De repente, não posso deixar de me lembrar que o resto dos prisioneiros são crianças e adolescentes e este é o único que se destaca nesse sentido. – Phil Coulson, agente da SHIELD.
Ah, merda.
Encaro Loki com olhos irritadiços e frustrados.
– Que droga a HIDRA quer com agentes da SHIELD?
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