Alma de Vidro |HIATUS|
22 Capítulo 22. B de Blefe
Notas iniciais
– Que parte de “resgate” você não entendeu? Domino me pediu para buscar você, o namorado dela e o corpo dela. Capiche?
Thor não está nem um pouco convencido. Sua desconfiança somada à antipatia que tem pelo Garoto Réptil lhe causa paranoias além da realidade.
–E como é que eu saberei...
Inesperadamente, a porta dos fundos da cabana bate contra a parede, abrindo-se em um estampido alto o suficiente para que Thor, por reflexo, largue imediatamente o telefone sobre o gancho, encarando perplexo a figura da Mulher de Branco parada no batente da porta, mirando-o como uma arma carregada.
– Por mil demônios! – Silken grita do outro lado da linha. – Thor! Thor?!
Ellendra sorri com a surpresa do Deus do Trovão, que em questão de segundos caí de joelhos no chão com a cabeça entre as mãos, grunhindo de dor.
– O grande Thor. – Ela afirma ao adentrar a cabana devagar, andando com elegância e despreocupação, olhando em volta como se a paisagem a fascinasse, como se visse cores pela primeira vez. – Com toda a sua glória e força e luz... – Ela morde o lábio inferior ao se aproximar do loiro, rodeando-o como uma raposa. – E o que é isso comparado a um jogo mental?
Thor ri nervosamente.
– Você soa como meu irmão. – Constata.
– Mais esperta que você? – A mulher pergunta orgulhosa.
O deus ergue os olhos para ela, apoiando as grandes mãos no chão, com clara dificuldade em focar a visão.
– Como uma trapaceira. – Ele esclarece, sentindo uma pontada de vitória.
Na sala ao lado, Loki se esconde sorrateiramente atrás da porta exatamente no momento em que Ellendra desfere um tapa contra a bochecha de Thor, arrancando-lhe mais um urro. Virando-se para uma Hayden amarrada e carrancuda, ele revira os olhos claros com evidente desgosto enquanto ouve o som do toque do telefone.
– Nós precisamos desaparecer. – Diz a ela.
– Então, qual é o plano? – Ellendra continua a jogar conversa com Thor, que só consegue pensar em como a arrogância e egocentrismo pode atrapalhar os planos das pessoas. Se não saboreasse tanto a humilhação alheia, a mulher poderia muito bem já ter chego até Domino que, à essa altura, já devia estar longe com Loki. – Esse é seu forte e Domino é sua protegida?
Atento ao som do telefone, o deus conta quantos toques ouviu até que não houvesse mais som.
– Você não é mais esperta que eu? – Thor retorque. – Por que não descobre sozinha?
A loira ri e ajeita o cabelo para trás do ombro esquerdo. Ela anda pelo cômodo como se este fosse uma passarela, saboreando o momento em que pensa que Thor está em apuros.
– Você não pode salvar aquela garota. Ela está condenada.
Quando o telefone começa a tocar novamente, o deus espera pelo penúltimo toque para alcançar o aparelho e colocá-lo fora do gancho.
– Por que perder tempo buscando por uma maldição? – Thor apoia as costas contra a parede, respirando ruidosamente. – Você, tão bem quanto eu, sabe que a condenada é você sem ela.
– Por que ela é tão especial para você? – Ellendra questiona rapidamente, quase cortando a fala do deus, subitamente irritada.
– É disso que se trata? – Ele sorri consigo mesmo. – Você tem ciúme dela?
– Eu não tenho ciúme dela. Eu queria ajudá-la. O lugar dela era ao meu lado. Mas ela corrompeu meu filho e o arrancou de mim. Ela me deixou sem nada e, veja você, se eu deixar isso passar, eu perco meu poder, minha força.
– Então, você teme que a HIDRA perceba o quão fraca você é. – Não é uma pergunta. Thor sabe que a está tirando do sério.
– HIDRA está sob meu controle há anos. – Ellendra eleva o tom de voz, voltando a se aproximar de Thor, tomando o queixo dele na mão, erguendo sua cabeça para cima, em direção à dela. – Nenhuma garotinha rebelde vai mudar isso.
– Você quer dizer a parte que cuida dos mutantes, não é? Pelo que eu sei, eles estão bastante cansados de serem mortos e torturados por vocês. Domino os encoraja e isso te apavora.
Com um falso sorriso cortês, Ellendra se afasta do deus.
– Nós acabamos de brincar. – Ela estala os dedos e Thor desaba sobre o chão, desacordado.
– Isso não foi muito gentil.
A loira se vira brusca e imediatamente ao som melodioso da voz, deparando-se com o Deus da Trapaça diante de si, avaliando-a com sua expressão superior e enigmática de costume, em toda a sua pose de rei do universo.
– Vejam se não é o Cavaleiro no Cavalo Branco. Veio resgatar sua donzela? De novo?
Loki sorri com escárnio. A mulher é inacreditável!
– Do ângulo que eu enxergo as coisas, Domino não é a pessoa que precisa de proteção. Na verdade, para mim, tudo de que ela precisa é um par de adagas e um encontro com você.
– Como se ela algum dia fosse capaz de me machucar. – Ellendra afirma com convicção, o egocentrismo tamborilando no ar em um batuque irritante. Loki dá de ombros despreocupado, não precisando do conhecimento que a loira pensa que tem a respeito de Domino.
– Talvez não da maneira que você pensa. – Ele rebate em um tom misterioso e, apesar de a expressão superior de Ellendra não sofrer nenhuma alteração, ela sabe que, desta vez, ele não está mentindo.
A presença da mulher para Loki é tóxica, assim como é para Domino. Ambos permanecem afastados no espaço do cômodo, cada um em uma extremidade, as posturas tensas, rígidas como se protagonizassem um daqueles duelos de faroeste onde quem puxa o gatilho primeiro se torna o vencedor. Já para Ellendra, a presença do deus é instigante; ela sabe que sempre terá a chance de atingi-lo ao mencionar Domino. É como um trunfo doloroso que lhe dá prazer empregar contra o moreno.
– Ela nunca será feliz com você. – Diz a loira em uma reflexão particularmente obscura.
Um milhão de coisas passam pela mente de Loki como um enxame de vespas que ele não consegue controlar ou espantar. Eles nunca teriam uma rotina de casal que inclua confiança. Nunca se casariam. Nunca teriam filhos. Ela nunca conheceria Asgard, nem ouviria as histórias sobre como ele cresceu ou sobre as batalhas nas quais lutou ao lado do irmão...
Bom, é tarde demais para isso, Loki pensa ao lançar um rápido olhar para o telefone.
– Domino não pode confiar em você. – Ellendra continua com gosto. – Você nunca vai abandonar seus objetivos e sua mágoa por ela. Ela nunca vai parar de acreditar no que acredita para ter você. Ela não pode. Vocês viverão um impasse pelo resto de suas vidas. – Respirando fundo, a mulher ergue as sobrancelhas de modo a demonstrar o quão conformada está com a situação. – O melhor que você tem a fazer é deixá-la ir.
– Esse é seu instinto maternal falando? – Loki pergunta como quem não quer nada, os olhos levemente apertados contra as pálpebras ao questionar a mulher. – Porque você e eu não precisamos fingir que você se importa com qualquer um daqueles garotos. Nada seria mais conveniente do que eu me afastar de Domino, não é? Um adversário a menos para você. Um muito poderoso, a julgar pelo seu desespero.
– Bom, sobre ser um adversário perigoso, sou obrigada a admitir que é verdade. Mas tem certeza de que quer discutir instinto materno comigo? – Ellendra reflete a expressão leviana do moreno. – De uma órfã para outro, eu acho que você não tem muito mais experiência do que eu nestas questões. Você nasceu de uma camada dura e fria de gelo.
Loki pensa no quanto está satisfeito por estar enrolando a loira, pensa que ela não achará o corpo de Domino e perderá mais esta batalha. Ele, então, poderá rir dela à vontade quando sua pobre tentativa de irritá-lo chegar ao fim. Mesmo assim, sua mandíbula trava de tal maneira que todo o seu rosto se contorce em uma máscara violenta de raiva. Com um sorriso de quem acha graça, o deus dá de ombros outra vez.
– Isso é discutível. – Responde. – Posso ser um Gigante de Gelo, mas Silken está trabalhando comigo. Ele se tornou meu amigo e nós nos unimos para arruinar você. Posso nunca fazer Domino feliz, podemos nunca ficar juntos, mas a mesma coisa aconteceu com você, porque você nunca mais estará com seu único filho. Estamos... Como vocês, humanos, dizem? No mesmo barco.
Ellendra não é tão boa em esconder suas emoções ou em controlá-las quanto o Deus das Trapaças e bufa abruptamente, claramente repleta de ódio.
– Onde ela está? – Demanda, erguendo o queixo.
– Eu te diria. Mas você nocauteou meu irmão e somos uma família muito unida. Isso me deixou irritado. Além do que, assim como você disse, eu tenho meus próprios objetivos. E Domino está abaixo deles. Entendeu? Ela está abaixo de tudo isso. No subsolo. É como se ela estivesse escondida. Eu preciso que você entenda que eu estou acima dela, não o contrário.
– Não me venha com essa de “família”! Não você. – Ellendra explode, aproximando-se do deus espumando raiva, ignorando a inversão de papéis que Loki pintou. – Onde ela está?
Loki começa a apalpar o próprio peito, descendo as mãos pela barriga e pelos quadris com um ponto de interrogação no rosto.
– Ela não está nas dobras da minha roupa.
Ao agarrar o traje do deus com mãos que mais se assemelham à garras, Ellendra arregala os olhos quando o corpo dele simplesmente desaparece.
Loki não está lá.
– Filho da puta. – A loira murmura consigo mesma, chocada, abandonando o cômodo e saindo da cabana, determinada a captar qualquer pensamento que pudesse levá-la ao deus ou a Domino.
Ouvindo à parafernália toda pelo telefone, Silken encerra a ligação tão chocado quanto a mãe.
E Domino está abaixo deles. Entendeu? Ela está abaixo de tudo isso. No subsolo. É como se ela estivesse escondida. Eu preciso que você entenda que eu estou acima dela, não o contrário.
– Loki, seu maluco... – Diz, ainda na contramão, largando o celular no banco do passageiro de seu carro. – Ok, eu entendi. Domino está escondida no porão da cabana.
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