Alma de Vidro |HIATUS|
19 Capítulo 19. O Futuro Da Pátria
Notas iniciais
O conforto que o cenário me passa é tão assustador quanto saber que sou a refém de um grupo de mutantes que pretende iniciar uma guerra contra a humanidade. A cor, o fogo, a manta... Quase parece que sou uma convidada na casa do inimigo. E, pensando bem, talvez seja este o plano. Talvez Ellendra seja esperta o suficiente para perceber que não tenho a menor intenção de negociar com ela e, para isso, se aliou a Olhos Verdes.
Eu realmente pareço alguém que cairia na lábia de um homem atraente tão fácil?
– Eu tenho um nome e é Domino. – Digo, contendo a irritação que ameaça me tomar.
– Oh, eu sei. – O moreno parece muito à vontade na qualidade de sequestrador, os olhos em febre nos meus como os de uma raposa esperta, sondando e aterrorizando ao mesmo tempo. – Venho ouvindo bastante seu nome ultimamente.
Meus olhos correm de um lado a outro quando, de repente, uma percepção me aflige os sentidos.
– Onde está o corpo do Capitão?
Fico nervosa de repente, um calor desconfortável se espalhando por meu corpo enquanto meu rosto se entala em uma expressão dura de seriedade. Olhos Verdes, por sua vez, não faz mais que estreitar o olhar para mim, tentando adivinhar meu nível de interesse no assunto. Posso quase pressentir a chantagem que está por vir.
– Não está aqui.
– Está seguro?
– Talvez.
Respiro fundo e baixo os olhos para os detalhes incrustados no tapete antes de voltar a encarar o homem à minha frente. Coloco a manta para longe de mim enquanto me sento direita.
– Você sabe meu nome, mas eu não sei o seu. – Declaro de maneira neutra, como se não me incomodasse que ele soubesse mais sobre mim do que eu sobre ele.
O homem sorri aprovando, sabendo exatamente onde quero chegar. Nesse momento, sinto que ele me compreende melhor do que qualquer pessoa que conheci até agora, desde que a loucura despencou em minha vida. Ele se levanta e caminha sem pressa até mim, movendo-se em uma eloquência que chega a me desconcertar – percebo que sou completamente deselegante e torpe em comparação a ele.
– Eu sou Loki, de Asgard. – Apresenta-se ao me estender a mão, convidando-me a me levantar também.
Quando toco sua mão, toda a cena da base da SHIELD volta à minha memória e um ponto se destaca tremendamente: sua temperatura. Ele é tão frio que chega a me gelar a alma ou é só o ambiente louco para onde fui trazida?
– Eu sou Domino, da Terra. – Apresento-me oficialmente, aceitando sua mão e ficando mais próxima dele do que gostaria. – E gostaria de saber qual seu interesse em mim, Loki de Asgard.
Loki de Asgard, Loki de Asgard, Loki de Asgard, Loki de Asgard...
Oh, merda.
“– Você nada sabe sobre a guerra, Domino Hepburn.
– É, que seja. – Dou de ombros, também rindo e respiro fundo, mantendo a atenção no caminho que Thor me indicara. – Talvez você queira me ensinar. Conte-me de onde você veio.
Permito-me uma olhadela para o lado, encontrando primeiramente um Thor distante e nostálgico com o olhar perdido em algum lugar longínquo que lhe traz saudade, depois um Thor sorridente cheio de lembranças bem-aventuradas que subitamente o alegram.
– Eu venho de um lugar chamado Asgard...”
Oh, merda, merda, merda!
Outra memória pisca na minha cabeça como semáforo adulterado: as palavras carinhosas de Thor ao falar do irmão Loki, o Deus da Trapaça. “Ele é cheio de truques, mas eu não pediria por um irmão melhor”. O sorriso do loiro ao falar sobre Loki, o brilho em seus olhos, como se o irmão fosse o melhor companheiro do mundo... Eu me lembro de pensar no quanto quis um irmão depois de ouvir Thor falar sobre o dele.
Mas caramba, a vida é uma caixinha de surpresas! Deus da Trapaça, bem na minha frente, os olhos de uma mistura animal e humana sobre meu rosto e a astúcia mirada em mim. A pergunta é: o que eu faço?
Loki não parece ter a menor pressa para soltar minha mão, então, enquanto ele abre a boca para responder à minha pergunta, dou um passo para trás, tomando distância de sua pessoa ardilosa, também prestando atenção em seu rosto.
– Eu vou ser honesto com você... – Ele começa a falar, mas sorrio comigo mesma e balanço negativamente a cabeça.
– Eu duvido disso. – Confesso.
– Eu não tenho escolha, realmente. – Ele continua, sem se deixar abalar pela minha interrupção, ignorando-a completamente. – Como você pode ver, Ellendra não mede esforços para dominar a Terra através da HIDRA. Você, por outro lado, sendo jogada no meio dessa guerra, vai definitivamente lutar com todas as forças para libertar os mutantes que ela mantém como reféns para acabar com a HIDRA. Do modo como eu vejo, você quer impedi-la de mandar a mensagem que a morte do Capitão América daria ao público.
Meu sorriso vai se transformando em uma forma irônica sobre meu rosto com o progresso das suposições de Loki até que ele termina de falar e o encaro em silêncio por alguns momentos.
– Você fala como se quisesse que eu acreditasse que não tem certeza do que está dizendo. – Aponto. – Como se quisesse que eu confirmasse suas conjecturas. – Respiro fundo, fingindo estar pensando. – Como se eu fosse seu irmão, alguém que está cego por você.
As duas sobrancelhas do deus se erguem não em surpresa, mas em aprovação enquanto ele me fita com expressão satisfeita.
– Vejo que ficou bastante amiga de Thor. – Observa sarcasticamente.
– Eu não sou Thor. – Prossigo. – Eu sou você. – Volto a me aproximar dele, avançando um passo em sua direção enquanto o deus é obrigado a olhar para baixo para alcançar meu olhar penoso. – Eu não estou aqui para respeitar regras de moralidade, nem para ser uma boa pessoa. Estou aqui com um objetivo e não vou parar até alcançá-lo, porque há muita coisa em jogo, especialmente para que eu me distraia com alguém como você, que só pensa no próprio desejo e planeja me usar para o que quiser. Se você não é o mocinho, eu muito menos, Loki.
Parecemos feitos de mármore, ambos com o nariz empinado na direção do outro, o peito estufado em sinal de dominância como algo natural, como uma disputa por território, como se eletricidade fluísse de um corpo para o outro e vice-versa. Então, o rosto de Loki lentamente se suaviza quando ele mesmo respira fundo.
– Eu não esperava menos. – Admite.
– Ótimo. – Digo depressa. – Porque você está certo. Se Ellendra matar o Capitão América, isso vai apavorar qualquer um que esteja disposto a lutar do meu lado e será como um símbolo de liberdade perdido. Eu não posso deixar isso acontecer, então você precisa me dizer: onde está o corpo dele?
Os olhos verdes do deus da Trapaça correm de cima a baixo em meu corpo, um vinco curioso surgindo entre suas sobrancelhas.
– Você não liga nem um pouco para o fato de o Capitão ser uma pessoa inocente inconsciente há mais de cinquenta anos que foi pego desprevenido em uma guerra exatamente como você? – Pergunta ele de repente e, como uma pedra caindo na minha cabeça, o peso da questão me atinge.
Eu tenho conhecimento de que o Capitão é alguém inocente e que não merece nada do que está acontecendo com seu corpo, mas não é nisso em que penso todas as vezes em que penso nos motivos para salvá-lo – o que ele representa sempre ganha. E se fosse outra pessoa? Eu arriscaria minha vida e a vida de outras pessoas para salvar quem quer que fosse? Ainda importaria tanto?
– Fatalidades acontecem, não acontecem? – Loki me rodeia devagar, percebendo meu vacilo, vendo nitidamente para onde minha mente está viajando, assim como ele queria.
Viro-me para ele decidida e determinada, quase batendo o pé em sua frente.
– Onde está o corpo?
– Eu lhe digo – o deus fala ao chegar perto o bastante para que possa sussurrar para mim. – se fizermos um acordo antes.
– O quê? Como um contrato? – Pergunto incrédula. – O diabo está nas entrelinhas, não está?
– Sem contratos. – Loki abre os braços como se fosse um homem bondoso convidando-me para um abraço reconfortante, sempre com aquele sorriso traiçoeiro. – Sua palavra bastará para mim.
– E por quê? – Cruzo os braços desconfiada, minha careta de seriedade nunca deixando meu rosto.
– Bom – o deus recolhe confortavelmente as mãos para trás das costas. – Você se diz como eu e nada como meu irmão. Eu digo que você é um meio termo. Algo me diz que você vai cumprir com sua palavra caso se proponha a aceitar meu acordo.
– Nesse caso, suponho que você vai oferecer um acordo que eu possa aceitar, certo? – Pergunto, voltando a deixar os braços livres.
– Eu te entrego o corpo e você se torna minha estudante. – Loki fala enigmaticamente, instigando-me a querer saber mais sobre a oferta, as mãos ainda atrás do corpo como um verdadeiro negociador.
– Eu terminei o colegial e não tenho a menor vontade de voltar para lá. – Digo ao sorrir ironicamente, depois estreito os olhos. – O que você quer dizer com “estudante”?
– Você não sabe muito sobre os seus poderes, sabe? – Ele tomba a cabeça de lado inocentemente. Exceto que Loki pode ser tudo que há no mundo, menos inocente.
– E o que eu não sei você quer me ensinar. – Suponho na mesma falsa inocência.
– Eu sou o Mestre das Trapaças, afinal. – Diz o moreno, exaltando seu título duvidoso, as mãos agora diante do corpo, juntas com os dedos entrelaçados como se ele estivesse no meio de uma prece. – Não há ninguém melhor para te ensinar a lidar com poder.
Pensando bem, não é um acordo vantajoso para Loki. Soa mais como se ele estivesse sondando o terreno, observando minha reação ao ouvir sobre um acordo e, de algum modo, eu sei que qualquer entendimento que ele proponha possui um objetivo escondido de basicamente me ferrar horrivelmente no futuro.
Talvez... Só talvez, para ganhar a confiança de um trapaceiro, eu deva ser exatamente o contrário do que ele é: sincera. Bom, eu certamente tenho várias ideias sobre como enganá-lo antes que ele me engane e essas ideias não precisam ser compartilhadas, mas talvez algumas verdades tenham que ser arriscadas para que eu consiga manter Loki ao meu lado sem causar grandes estragos – pelo menos por um tempo.
– Eu não sei, Olhos Verdes. – Divago distraída. – Algo me diz que há mais nesse acordo do que você está me contando. Sem falar que saber onde está o corpo do Capitão não é um avanço muito grande enquanto sou prisioneira na Mansão Mal Assombrada aqui. – Cruzo os braços novamente, um olhar de expectativa brilhando na direção do deus. – Você vai ter que fazer melhor do que isso.
Loki apenas me encara. Sem sorrisos, sem gestos simbólicos, sem estreitar de olhos. Nada.
– Você é bastante pretenciosa, senhorita Hepburn. – Diz como se estivesse hipnotizado, como se a ideia nunca tivesse lhe ocorrido antes, quase fascinado. Eu só não consigo dizer se qualquer reação dessas é verdadeira.
– Eu tenho algo para te dizer. – Continuo a jogar a isca, colocando meu peso sobre o lado direito do corpo, deixando a perna esquerda esticada comodamente, ainda de braços cruzados. – Você nunca chegou a ver Jane Foster pessoalmente. Nunca esteve com ela e nunca a ameaçou. Eu estou aqui porque eu quero estar. O que o faz pensar que não posso ir embora quando bem entender? – Antes que Loki responda à pergunta, eu o rodeio como ele fez anteriormente comigo, despreocupada. – Tudo o que estou propondo é que você venha comigo.
O deus parece agora mais sério do que nunca. Eu finalmente o atingi? Ele está ouvindo agora?
– Importa-se em explicar melhor?
– De maneira alguma. – Sorrio, ficando frente a frente com o moreno. – Você vê, Ellendra é uma vadia durona e, desde que ela assassinou minha mãe e tentou me matar na minha própria casa, eu venho esperando tudo e qualquer coisa dela. Antes de ligar para ela mudando o endereço do nosso encontro, eu já sabia o que essa ligação causaria. Se eu estava supostamente me metendo com o filho dela, era óbvio que ela descobriria sobre Jane, Darcy e Selvig em um piscar de olhos. Então, assim que encerrei a ligação, mandei Thor e Selvig encontrarem Jane e Darcy e desaparecerem com elas antes que algum capanga de Ellendra tentasse alguma gracinha. – Ergo as sobrancelhas e suspiro em uma decepção orquestrada. – É claro que a última coisa que imaginei foi que você fosse o capanga.
– Então, como eu vi Jane Foster? – Loki pergunta inteiramente interessado, a cabeça baixando na minha direção quando ele se inclina para mim bastante atento.
– Você viu o que um amigo telepata quis que você visse. O que eu disse a ele que você precisava ver. Ele estava lá com você, não Jane.
– Mas a voz dele ao telefone... Eu ouvi a voz de uma mulher. – O moreno contesta, cavando cada vez mais fundo no meu plano.
– Telepatas não são como Silken, Loki. Eles não mudam de forma, eles têm o poder de fazer você ver e ouvir o que eles quiserem, porque eles mexem com a sua mente. Eu, por outro lado, ouvi a voz do meu amigo do outro lado da linha, mas meus pensamentos estavam em Jane, em como eu estava apavorada por ela estar encrencada e foi isso que Ellendra viu na minha mente naquele momento. – Dou de ombros. – Quando eu não estava cantando Johnny Rivers, pelo menos.
– Você me enganou. – Loki conclui apavorado. Irritado. Impressionado. – Você me manipulou.
– Você fica aí chocado como se tivesse sido alguma coisa muito difícil de se fazer. – Digo alto e claro, cansada de usar da minha paciência, erguendo os braços ao lado dos quadris e batendo as palmas das mãos nas coxas em um reflexo de indignação. – E foi fácil. Foi muito fácil e você sabe o porquê, Loki.
– Eu te...
– Subestimou. – Corto-o. – Você me subestimou. – Falo com uma calma precisa, lembrando-me de que essa conversa não é sobre atacá-lo; é sobre convertê-lo. Ignorando o fato de que alguém pode estar nos ouvindo neste exato momento, respiro fundo, determinada a desenrolar meus argumentos. – E você não vai fazer isso de novo, então, agora que eu não tenho mais essa vantagem, tudo o que eu posso te dar é a verdade. E esta é a verdade: HIDRA vai dominar o mundo se não os pararmos. Eles são assassinos, loucos e fanáticos que vão matar pessoas inocentes, torturar, fazer lavagem cerebral, destruir bilhões de vidas e extinguir o mundo como o conhecemos agora. Acredite em mim quando eu digo que isso não é bom para ninguém, nem para mim, nem para você. – Em um movimento não pensado, inconsciente, minhas mãos voam para os braços do deus, segurando seu corpo como se o meu próprio dependesse disso, como um ímã, enquanto Loki permanece sério, ponderando e escutando tudo o que tenho a dizer. – Nós somos a única coisa entre eles e aniquilação total e eles iniciarão um nível muito pior na guerra que já estamos lutando se permitirmos. Loki, não podemos permitir. Você entende isso? – Minhas mãos se encontram com as do deus, as dele frias como gelo e as minhas queimando de nervosismo, quase tremendo de ansiedade. – Você entende que o futuro da humanidade e dos mutantes depende de nós agora?
A língua do deus passa lentamente sobre seus lábios finos. Ele desvia o olhar para baixo e aperta minhas mãos com as suas, pensando, ponderando, entendendo.
Eu nem preciso que ele se importe com a humanidade, com os mutantes, com HIDRA, ou com SHIELD. Agora ele pode simplesmente me entender. Eu o enganei, eu sou esperta, eu tenho uma causa, eu tenho poder, eu sei negociar, eu sou uma aliada que vale a pena e ele sabe disso. Se ele estiver apenas interessado em mim, isso conta e ajuda muito. Os outros conceitos podem ocorrer a ele com o tempo, eu espero. Eu preciso dele. Se vou sair em campo aberto em um lugar desconhecido sem ter a mínima ideia da localização desse lugar, se vou recuperar o corpo do Capitão e salvar a vida dele, eu preciso do Deus da Trapaça comigo, lutando essa guerra do meu lado, sejam lá quais forem seus motivos.
– Eu entendo agora. – Ele responde depois do que para mim parecem horas, os olhos mudando de direção sem parar enquanto ainda não está olhando para os meus. Suas mãos, de repente, suavizam o toque nas minhas e ele entrelaça nossos dedos, mantendo-me presa a ele ao erguer o olhar para o meu. Ele parece perturbado de uma maneira reflexiva e começo a pensar que talvez meu discurso o tenha tocado em lugares profunda e particularmente obscuros. – Você me deu sua verdade, é somente justo que eu lhe dê a minha. – Ele espera, avaliando esperançoso meu rosto.
– Estou ouvindo. – Incentivo, fissurada no tormento verde dos olhos dele, como se assistisse de camarote a uma tempestade em alto mar. Contrariada, sou obrigada a reprimir o impulso maluco que é a vontade de abraçá-lo.
– Eu descobri algo sobre mim mesmo recentemente... Me fez questionar quem eu sou. – Um sorriso amargo cruza a expressão de Loki. – Ainda estou questionando, para falar a verdade e, honestamente, a primeira coisa em que pensei foi trapacear meu caminho até o trono, e esse plano teria dado certo... – Ele estreita os olhos para mim e me puxa de encontro ao seu corpo, fazendo com que eu esbarre em seu peito, nossas mãos ainda entrelaçadas diante dos meus olhos. – E não vou mentir para você: ainda pode dar certo. Depois que eu ajudar você a derrotar a HIDRA.
Não consigo conter um sorriso e balanço a cabeça para o deus, incrédula.
– O que isso tudo quer dizer? – Dou risada comigo mesma. – Você acabou de usar as palavras “verdade”” e “honestamente” na mesma frase e ainda disse “não vou mentir para você”? Por que eu acreditaria nisso? Eu não acredito nisso!
– Eu não acreditaria se fosse você. – Ele admite, o sorriso desdenhoso de volta às suas feições. – Mas nós dois queremos a mesma coisa: impedir que a HIDRA domine a Terra. Primeiro porque alguém mais capaz e habilidoso deveria se encarregar disso – Reviro os olhos sabendo que ele está se referindo a si mesmo. – e também porque nada garante que eles vão parar na Terra.
– E você está preocupado com o trono que pretende roubar.
– Roubar, não. – Ele corrige irritado. – É meu por direito.
– Você só precisa trapacear seu caminho até lá porque é injustiçado. – Ironizo.
– Claramente você não sabe nada sobre mim, Thor, Asgard, trono ou o que quer que tenha relação com esses itens. – Diz o moreno satisfeito consigo mesmo pela explicação. – Ainda assim, é conveniente para mim que a HIDRA não ganhe essa guerra, portanto, vou lhe propor um novo acordo: eu tiro você daqui, te digo onde está o corpo do seu patriota e, em troca, você se torna voluntariamente minha aluna e me diz onde está Silken, já que eu não acredito que você o tenha matado.
Oh, droga.
Eu lá vou saber onde o Lagartinho está! Sabia que era uma péssima ideia jogar com ele, mas não havia como localizá-lo. Eu não podia ir atrás dele eu mesma, nem mandar ninguém por mim enquanto estavam todos juntos protegendo Jane, Selvig e Darcy.
– Feito. – Digo, mesmo assim. Não é uma mentira, porque, assim que eu descobrir onde o Filhote Enguia se meteu, digo ao Trapaceiro e ele pode dizer à Mamãe Serpente. Se ele estiver vivo, vai aparecer cedo ou tarde, de qualquer maneira. – E isso significa que você vai ser um agente duplo, certo? Por isso quer negociar com Ellendra devolvendo o filho à ela. Quer que ela confie em você.
– Bom, ela está quase lá e eu não vou deixar você arruinar meu plano. Nós precisamos dela para prever os movimentos da HIDRA e você não tem ninguém infiltrado.
– Tudo bem. Desde que você não seja um agente triplo.
Trocamos um olhar malicioso, sabendo que um agente triplo é exatamente o que Loki é e puxo minhas mãos de volta, dando-me conta de que ainda estava a uma proximidade absurda do deus.
– Então, temos um acordo. – Loki fala, estendendo uma mão para mim.
– Temos um acordo. – Aceito o aperto de bom grado.
– Então, vamos devolver você ao mundo. – Ele decreta com confiança e, antes de sair por aquela porta enorme sem saber o que há lá fora, por um curto momento de fraqueza, acredito na certeza do Deus da Trapaça.
Como se lhe ocorresse uma ideia subitamente, Loki estanca próximo à porta e vira a cabeça para mim, pensativo. Diante da minha careta de desentendimento, ele caminha até o sofá onde estava sentado e se abaixa para pegar algo sobre uma mesa alta e fina ao lado do móvel. Coro ao me repreender por ficar encarando partes do deus que eu não devia encarar quando ele se abaixa assim.
Com uma das mãos atrás do corpo e bloqueando minha visão da mesa, Loki se aproxima sem pressa e dou um passo para trás desconfiada. Ele percebe e sorri como se me censurasse, chegando perto bem devagar.
Inesperadamente, os móveis todos começam a tremer e um vaso de flores despenca da mesa, espatifando-se em mil pedaços. Minha visão fica turva e volta ao normal mais rápido do que nas outras vezes.
– Calma, querida. — Diz Loki diante de mim. — Não há motivo para "violetar" os olhos para mim. — Ele olha para trás, dando de ombros. — Ou para quebrar os móveis da Mansão Mal Assombrada. — Ele estende lentamente uma mão até meu cabelo, colocando uma mecha atrás da orelha enquanto revela o que tem na mão. É uma rosa vermelha cheia e bonita, exalando perfume, do vaso que se quebrou. Ele delicadamente a coloca no meu cabelo, ajeitando o caule atrás da minha orelha. — Um símbolo da nossa parceria.
– O que ela quer dizer? — Pergunto cética. — Que eu posso confiar em você?
– Não. — Loki fala sem rodeios, a expressão se agravando à medida que a seriedade vai voltando a seu semblante. — Quer dizer que, em uma guerra, sempre haverá danos. Você não pode salvar bilhões de vidas sem perder um punhado delas. E, às vezes, é preciso tomar decisões difíceis que, se não forem tomadas, gerarão consequências catastróficas. — Loki acompanha o comprimento do meu cabelo até o fim do corte, recolhendo sua mão em seguida. — Para sairmos daqui sem criar consequências catastróficas, você tem que tomar a decisão de ignorar certas situações que podemos vir a encontrar.
O tom do deus chega a me assustar e os móveis tremem ainda mais quando respiro fundo teorizando a respeito do real significado por trás de suas palavras. Loki me segura pelos ombros, levando meu corpo de encontro com a porta.
– Pare com isso. — Diz ele com urgência quando o abajur vai ao chão, quebrando também.
Ignorando o pedido, inverto as posições, batendo o corpo de Loki contra a porta, segurando-o pela gola de sua roupa.
– Que tipo de situações?
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