Alma de Vidro |HIATUS|

20 Capítulo 20. O Grilo Falante


Notas iniciais
HELLO UNIVERSO LINDO DO NYAH! Agradeço mais uma vez à Carol linda: sua recomendação chegou, querida! Espero que gostem desse capítulo e perdoem os erros que possam estar contidos nele, porque eu gostei bastante e estou com uma pressa tremenda por causa da facul. Enfim, boa leitura, beijos de luz!

– Esse é um plano horrível. – Silken desabafa chocado. – Sua voz está soando horrível.

– A voz não é minha, idiota. – Explico pela milésima vez, bufando de irritação. – É da Espiã Feriado.

– Quem? – Pergunta ele em voz aguda de confusão, ferindo meus tímpanos com a gafe.

– Natasha Romanoff, Loira do Banheiro. – Reviro os olhos, massageando as têmporas com a mão livre sob o olhar sério de Tony Stark, Bruce Banner, Steve Rogers e Clint Barton. De acordo com Stark, Pepper está “cuidando de negócios” e Jane “voltará quando voltar” e, então, não perguntei mais nada.

– E o que “feriado” tem a ver com a equação, gênio? – O loiro retruca. Sorrio ironicamente para o aparelho na orelha.

– Feriados estão em vermelho no calendário.

A ligação fica em silêncio por um momento enquanto Silken processa a infeliz piada.

– Essa foi a pior tirada que você já fez. – Conclui.

– Olha...

– E eu esperava mais da filha de...

– Eu não tenho tempo para todo esse “mimimi”, seu Lagartão, só faça o que eu pedi, você consegue? – Aumento involuntariamente o tom de voz, tentada a desligar na cara do sujeitinho.

– Está bem, está bem, deixe comigo... – Com a impressão de que ele estava prestes a dizer mais alguma coisa, encerro a chamada depressa, suspirando aliviada por não ter mais que escutar o som azucrinante da voz do Trombadinha.

– Então... – Bruce mantém um olhar centrado em ponto nenhum, os olhos perdidos em um raciocínio próprio enquanto ele analisa prós e contras em sua cabeça científica. Sentado no sofá da sala Stark com seus cotovelos apoiados nos joelhos e óculos quase escorregando pelo nariz, ele parece mais distraído do que o normal, como se tentasse juntas peças de um quebra cabeça que só ele consegue enxergar. – Eu entendi bem? Você... Você quer que eu pare o seu coração?

– Sim. – Confirmo determinada.

– Essa foi a pior tirada que você já fez. – Tony Stark constata ao cruzar os braços em sua típica pose playboy.

– As pessoas precisam parar de dizer isso... – Murmuro de olhos fechados enquanto balanço a cabeça, frustrada.

– De onde isso está vindo? – Clint pergunta confuso e levemente irritado. Se é por mim ou pelo corpo da namorada, eu prefiro não descobrir. De pé com os braços cruzados em sua postura rígida de agente da SHIELD, ele estranhamente nunca me pareceu mais fora de serviço do que agora.

– É algo que Thor disse. – Confesso sentindo-me mais idiota do que confiante.

Tony joga os braços para o ar e revira os olhos ao dar as costas para mim.

– Lá vamos nós com a Barbie Quebra Nozes outra vez! – Solta frustrado ao caminhar até o lado de Steve, que não está mais feliz do que o inquieto bilionário.

– Ele disse que meu coração parou. – Insisto com firmeza antes que Stark profira uma próxima gracinha, focada em convencê-los de que meu plano vai funcionar, não em convencer a mim mesma, afinal, é aparentemente minha última escolha. – Mas não acho que foi isso que aconteceu. – Respiro fundo em uma vertigem sobrenatural, minha mente sentindo falta do meu corpo. – Eu acho que existem muitos mistérios no meu corpo mutante que nós não entendemos. – Sorrio em uma tristeza taciturna. – Meu coração não parou, mas eu estava pensando e acho que o único jeito para que eu me lembre de quem sou é dar um choque na minha alma, porque é ela quem armazena toda a experiência espiritual que eu tenho.

– Você já não passou por choques demais?! – Tony retruca irritado.

– Não é o bastante. – Explico. – Tem que ser algo que toque meu espírito, não minha mente.

– Você não pode ter certeza disso, é só uma teoria que você tirou de sei lá onde. – Stark contra-ataca de novo.

– Belkan me disse.

Tony olha para mim como se visse o próprio reflexo do meu amigo nos olhos de Natasha Romanoff. Como se também sentisse falta dele.

– Belkan está morto. – Diz, baixando o tom estressado da voz.

– E eu faço viagens para fora do meu corpo. – Eu contra-ataco.

– Como é que o Garoto Maravilha sabe disso?

– Ele vive no “Além” — Faço as aspas com os dedos, elevando meu tom eu mesma, cansada do negativismo do Homem de Ferro. – , ele sabe das coisas!

Bom, a conversa com Belkan foi longa e chocante – e esse é o melhor modo de descrevê-la. Algo me diz que ele morria de vontade de me contar mais, principalmente sobre mim mesma, mas foi como se não houvesse tempo, como se a urgência de me contar sobre como recuperar minha memória fosse importante demais para deixar espaço para algo mais em seguida. É claro que eu não me lembrava dele e a vaga sensação de que nos conhecíamos não devia ser o bastante para que eu confiasse em todas as coisas que ele me disse. Eu acredito. Fim.

– Isso é muito pouco, Domino. – Bruce se interpõe, suspirando alto e colocando-se de pé como se fosse ter câimbras em todos os lugares mais desconfortáveis se não deixasse o sofá imediatamente, parecendo três vezes mais cansado do que na realidade podia estar. – Eu não posso parar seu coração por causa de um argumento tão fraco como este.

Subitamente revoltada com o rumo do assunto em questão, dou um passo impulsivo na direção de Bruce Banner cegada pelo desejo de me provar, de mostrar a todos eles que sou forte, que posso fazer isso.

– Você pensa que é fraqueza? – Pergunto a ele de maneira incrédula. – Tudo o que eu já fiz na minha vida foi baseado em fé. Eu acreditei e eu lutei e eu estou aqui. Eu não me lembro e não preciso me lembrar para saber eu sempre fui perdida e, ainda assim, estou aqui hoje. – Respiro fundo olhando de um em um, para todos os homens presentes no cômodo. – Porque eu fiz o que eu tive que fazer. Desta vez não é diferente, eu tenho que arriscar com alguma coisa.

Stark começa a balançar a cabeça sozinho, determinado a não ceder.

– Eu não concordo com isso.

– É a pior ideia que já ouvi, Domino. – Clint desabafa.

– É muito arriscado. – Banner assinala.

O silêncio do Capitão começa a me corroer como úlcera. Através dos meus olhos cansado, ele parece cada vez mais distante, como se eu pudesse apenas vê-lo através de uma janela. O vidro me barra e me afasta e me enlouquece enquanto sou obrigada a assisti-lo cada vez mais desconexo em relação a mim. E isso é algo que eu simplesmente não posso suportar.

– Steve, diga alguma coisa! – Exijo de modo desesperado. “Apoie-me! Eu preciso do seu apoio! Eu preciso de você.”

Mas ele nada diz por um tempo. Só vira os olhos claros e irritados para mim. E eu sei que ele não precisa nem dizer nada. Porque vejo perfeitamente que está desapontado como se eu o estivesse traindo.

– Vai importar se eu disser? – Ele rebate duramente. – Você vai fazer o que tiver de fazer, não importa qual seja minha opinião.

Com uma careta de desentendimento, surpresa com o ataque – sim, eu me sinto sob ataque –, sinto meu coração perder uma batida sob o atento olhar de Stark, que me encara bastante desconfiado.

– Sua opinião importa muito para mim. – Discordo perplexa.

– Minha opinião nunca importou para você. Você não liga para o que os outros te digam se não for o que você quer ouvir. – Abro a boca para protestar, porque ele está dizendo um absurdo atrás do outro, fervendo meu sangue como água no fogo, mas Steve continua antes que eu tenha a chance de cortá-lo: – Você vem fazendo o que deve ser feito há tanto tempo que nem se lembra mais de fazer o que é humano, como o que ela fez com você. – Ele se vira para Barton como que para estender a conversa a todos, para que sua argumentação toque a todos os homens ali, não simplesmente só a mim. – Essas não são as escolhas sábias, são as escolhas que você é forçada a fazer. – O Capitão volta a olhar para mim nem mais suave, nem menos severo, apenas mais focado. – Isso não é você, isso é o desespero falando.

– Você está me dizendo que não resta mais humanidade em mim. – Constato à beira das lágrimas, comprando uma briga dolorosa contra elas, em um fio de voz.

– Eu estou dizendo que você deve se agarrar à humanidade que resta em você antes que a perca para sempre.

Lá está ele: tomando conta de mim como eu, em algum lugar dos meus pensamentos desordenados, sabia que ele faria. Não como Stark, não como Barton, não como Banner, mas como alguém que partilhou mais do que experiências de vida comigo – alguém que partilhou as mesmas experiências de vida.

– Me ajude a fazer isso. – Sussurro odiosamente desamparada, como se estivesse implorando àquele homem por um abraço, por um toque, por amparo. – Como posso me agarrar à humanidade de alguém que nem conheço?

– Talvez Loki possa ajudá-la com isso. – Steve sugere friamente.

Elas caem. Quentes e salgadas, escorrem pelo meu rosto.

– Capitão. – Stark reclama em um misto de intolerância à sugestão indelicada e raiva de Loki.

– Olha, não vamos levar as coisas para o emocional agora. – Diz Clint quase de forma manhosa. Esse aí daria tudo para não ser pego no meio de qualquer assunto sentimental.

– Eu falo sério. – Steve se coloca. – Não se trata disso. Domino está falando sobre alma e sentimentos e coisas sobre as quais nenhum de nós entende completamente. Quem melhor do que alguém que entende de magia por quem ela sente o que não sente por mais ninguém?

– Eu gostava mais de você quando você estava congelado como um frango depenado. – Stark solta com um olhar entediado e raivoso, mirando o Capitão como se quisesse estar com seu traje para disparar trezentos mil raios na cabeça de Steve.

– Ei. – Digo sem pensar. – Não vamos ficar sentimentais aqui.

– Ela está certa. – Bruce concorda. – Agora, mesmo que eu concordasse em parar o seu coração, com o que não concordei, pelo que você disse que Belkan te disse, seu corpo não pode ficar “vazio” por mais de três minutos.

– Certo. – Confirmo com uma aceno de cabeça.

– Como pretende fazer isso? – O doutor me pergunta em descrença, a expressão de censura destacada em seu rosto.

– Não pretendo. – Respondo, de repente incomodadíssima com o som que a voz de Natasha Romanoff faz ao sair pela “minha” boca. – Mandei Silken para apagar aquela vaca, trazê-la até aqui para que você a induza a um coma para que ela não possa ir vagar por aí do outro lado do véu.

– O quê?! – Todos os homens indagam ao mesmo tempo, obrigando-me a revirar os olhos.

– Olha, esse é o único jeito de a minha metade da moeda vadia não me matar enquanto tento recuperar minha memória e a situação já é deplorada o suficiente sem que vocês critiquem meus métodos. A inconveniência de vocês todos já está me tirando do sério. Além do mais, um coma induzido pode ser “desinduzido”.

– Pode? – Barton e Rogers perguntam juntos, voltando-se rapidamente para o doutor, que dá de ombros.

– Pode.

– Então, é isso. – Finalizo com um sorriso cínico. – Esperamos os três patetas chegarem aqui. – Refiro-me a Thor, Loki e Silken, que trarão meu corpo.

– Acha mesmo uma boa ideia...?

– Eles dão conta. – Interrompo Barton, cercada de mais incertezas que todos eles juntos.

De repente, uma sensação ruim esmaga meu coração dentro do peito.

–x-

Pode-se dizer que Silken é um exímio motorista. Mas o trânsito é inimigo de sua perfeição.

Esses favores a Domino já começavam a consumar sua vida. Tudo bem, ele deve a ela, ele gosta dela, talvez até a amasse. Mas segui-la não é fácil. E as enrascadas em que ela se mete são como um novelo gigante que ela tem que desenrolar sem nem saber onde está o começo ou fim do fio.

De qualquer forma, ele quer ajudar. Ele quer vê-la bem. Então, quando percebe que demorará mais do que o esperado para chegar à cabana e buscar Loki, Thor e a garota – já que os dois deuses inúteis não tinham um mísero automóvel para facilitar as coisas –, ele liga para o telefone fixo da cabana. É, Domino pensa em tudo.

O loiro com pinta de galã atende ao quarto toque.

– Sim?

– Thor?

– Sim?

Revirando os olhos, Silken responde:

– Presta atenção, Loira de Boutique: estou no meu caminho até você e vou demorar, mas não se mexa. Estou em missão de resgate.

– Quem está falando?

– É o Silken, seu idiota!

– Como se atreve a falar assim comigo, Polly Pocket do Terceiro Mundo?

– Você e Domino têm passado tempo demais juntos e isso me perturba.

– O que está fazendo vindo pra cá?

– Que parte de “resgate” você não entendeu? – Silken bufa. – Domino me pediu para buscar você, o namorado dela e o corpo dela. Capiche?

–E como é que eu saberei...

De repente, um estrondo do outro lado da linha deixa Silken surdo por alguns instantes.

– Por mil demônios! – Reclama ele, chateado. – Thor! Thor?!

O deus não responde.

Silêncio.

Vozes ao longe. Uma conversa da qual Silken não consegue distinguir um ruído.

Passos.

– Você pode dizer àquela bastarda que, quando ela menos esperar, será na porta dela que eu estarei batendo.

Silken conhece a voz e, antes que ouça os tus seguidos do telefone, seu estômago afunda tanto em seu corpo que ele adquire a sensação de estra caindo constantemente de um abismo sem fim. Não pode estará acontecendo, mas está.

Após uma rápida olhada para a estrada do lado oposto, na mão de quem está voltando, e não indo, o tráfego está bom. Na verdade, quase não há nenhum carro. Determinado a arrancar dali o mais rápido possível, Silken se joga na contramão.

As buzinas, os gritos dos motoristas, os faróis altos demais em seus olhos, suas constantes viradas de volante para não morrer por descuido estavam todos ali, mas a única coisa martelando freneticamente em sua mente não era o presente arriscado no qual estava caindo de cabeça, e sim seu imediato pensamento após o telefonema: Ellendra, sua filha da puta.

Notas finais
Comentários me fazem feliz, lembrem-se!