Alma de Vidro |HIATUS|

16 Capítulo 16. O Gosto De Sangue, O Rasgo No Véu


Notas iniciais
Carol, meu anjo, tô chorando até agora com o comentário e a recomendação que você fez! Falo sério quando digo que me deixou loucamente feliz e que foi a inspiração para esse capítulo, porque senti uma necessidade maluca de escrever mais do que tudo quando li o comentário, aí estou aqui finalizando o capítulo e me deparo com uma recomendação perfeita dessas! (': SOCORORORORO fiquei tão emocionada hahaahha Muito obrigada, querida! Fico feliz que esteja gostando tanto ~adoro quando dizem que ficam acordados de madrugada lendo o que eu escrevo~ e espero continuar surpreendendo e agradando, afinal, leitores são uma grande inspiração. Fiquei honradíssima com a recomendação e já sabe que esse capítulo é para você, né? Com todo o amor, sua linda! Beijos! Ah, boa leitura!

“Não deixe que ela entre na sua cabeça”.

Devia ser uma frase simples. Soava como uma frase simples para mim. Mas o peso que a sentença carrega me faz retesar todos os sentidos, aqueles que ainda tenho – o raciocínio, o medo, a ansiedade, a concentração. É como se todos os pensamentos que sou capaz de formular fossem músculos se esticando, preparando-me para a batalha interna que estou prestes a travar.

O plano de Loki não é ruim, mas não há garantias de que ele funcionará.

O tempo é curto agora e minha outra metade logo despertará. Por isso, estamos o deus e eu em um silêncio mórbido carregado de tensão. A qualquer momento, posso abrir os olhos e a sensação de que estou sendo descaradamente roubada me aflige e me deixa louca, tirando-me do sério.

Loki disse que o timing é crucial e que, se por um acaso, eu pegasse eu mesma conversando com ele quando acordasse, as coisas poderiam esquentar de um jeito muito ruim. Portanto, assim que ele me explicou sobre como aprisionamos meu gênio do mal da última vez, a conversa morreu.

De acordo com ele, na primeira vez em que meu corpo foi tomado enquanto eu vagava fora dele entre uma dimensão e outra, o que fizemos foi injetar sangue humano em meu corpo. Em primeiro lugar, minha alma só se fragmentou porque sou mutante. Meu sangue fez tudo isso comigo: quebrou meus ossos, me tornou capaz de projetar campos de força com o mesmo escudo que reveste meu esqueleto, fez com que eu pudesse me mover entre dimensões e libertou minha gêmea sinistra. Então, o sangue é a única resposta para isso. Loki contou que deu um jeito de poder falar comigo quando percebeu que não era eu dentro do meu corpo e disse que a ideia de injetar sangue humano no meu sistema foi minha – como é que fui pensar nisso é um mistério até agora – e, aparentemente, deu certo. Particularmente, preferi nem perguntar o sangue de quem eu fui beber.

Assim que Loki revelou o esquema do sangue, disse a ele que também tinha ideia do que fazer para expulsar de vez a Kelly Osbourne do meu corpo Paris Hilton. Se injetar sangue humano em minha corrente sanguínea para que ele se misture ao meu sangue mutante deixa meu outro eu aprisionada, para livrar-me de vez dela, pode ser que uma “lavagem de sangue” funcione.

Talvez, se eu drenar todo o meu sangue e injetar somente sangue humano no meu sistema, ela vá embora de vez.

É claro que não se pode prever os efeitos colaterais, ou o que acontecerá com meu corpo durante o processo, ou se vou sobreviver, ou se a tentativa será bem sucedida, mas posso sentir que tenho que tentar. Afinal, pode ser minha única saída e alternativa.

E, se não der certo, eu não posso viver com uma coisa vil tomando controle do corpo que eu devia estar habitando, de qualquer maneira.

Mas, no momento, apesar de tantas coisas em jogo, um único incômodo está me comendo viva: se ela beijá-lo, serei eu beijando-o ou devo me sentir traída?

Eu admiro acima de tudo o esforço de Loki para ficar contra Os Vingadores e me sequestrar bem sob os narizes deles na tentativa de fazer com que eu recobre a memória. Se vai ser difícil e incerto? Sim. Porém, eu sou secretamente grata a ele por tomar alguma ação enquanto todos os outros parecem mais perdidos do que eu. É isso. Agora ou nunca.

A garota de cabelos e olhos castanhos levanta lenta e suavemente as pálpebras trêmulas sob a luz do sol que entra pela porta aberta da cabana enquanto a observo de perto, sentada no chão entre os lençóis, debaixo dos quais decidi esconder a adaga para que ela não a visse. Loki insistiu para que eu entregasse a arma a ele para não levantar suspeitas, mas sou incapaz de me separar da única coisa que me dá voz no momento.

“Ela pode ser tão esperta quanto você. Tenha cuidado, Domino”.

É claro que ela pode ser tão esperta quanto eu. Mas não porque somos a mesma pessoa, mas porque ela é parte de mim. Uma parte sombria e inconsistente, incoerentemente criada por meus sentimentos mais obscuros e, inteligente ou não, só quem tem o poder de acabar com ela sou eu, não o contrário.

Meu aperto ao redor da adaga é firme e forte demais, embora eu não sinta nada, porque sei que, se estivesse sentindo, meu corpo estaria tremendo de fúria.

Bom, durante o tempo em que permaneci em silêncio esperando, pensei em um nome para o meu eu ruim: Hayden Keynes. Foi algo que simplesmente piscou na minha memória e fiquei sob a impressão de que já o usei antes – antes de perder minhas lembranças. Faz sentido, pelo menos. Domino Kevia Hepburn – pelo que fiquei sabendo –, Hayden Keynes. Kevia, Keynes, Hayden, Hepburn.

Então, Hayden, minha irmã, parece ligeiramente confusa antes de fixar o olhar no meu Loki. Mas ela logo sorri como uma adolescente apaixonada e pergunto-me se não foi um tanto descuidado de sua parte – já que ela sabe que da última vez que apareceu para bricar, Loki percebeu que não era eu naquele corpo – ou se está fazendo de propósito porque sabe que estou presente, sentada neste exato momento próxima a seus pés, e planeja me tirar do sério até que eu tenha um ataque e estrague todo o sigilo.

Mas que droga.

Olhando em volta, Hayden boceja com uma mão cobrindo a boca como quem acaba de acordar de um sonho lindo e maravilhoso, onde claramente não existem as preocupações que existem aqui. Loki está sentado com as pernas cruzadas ao lado dela, olhando-a com interesse, apesar de eu saber que está como um fio prestes a desencapar, no ponto de estourar de tensão.

De repente, quando eu menos espero – porque eu esperava preliminares –, Hayden iça o corpo na direção do deus e abocanha os lábios dele, colocando-se de joelhos sob a roupa de cama e passando os braços a redor do pescoço de Loki, puxando-o para si.

Vadia, vadia louca, vadia!

Ela está puxando o corpo dele para baixo, para cima dos lençóis, para cima dela!

Sem chance, sua ladra nojenta de esquina de quinta!

Aperto a lâmina da adaga com tudo o que tenho, transtornada, com uma vontade voraz e assassina de simplesmente continuar apertando a arma até decepar minha própria mão!

– Ai! – Hayden grita de repente quando se separa de Loki, levantando atordoada, obrigando-o a recuar. – Minha mão. – Diz como uma imbecil ao voltar a atenção para a mão esquerda, com a qual eu acabo de apertar a adaga. – Minhas mãos. – Corrige depois de reparar na outra mão, ensanguentada de quando apertei a adaga ainda na casa do Homem de Ferro.

Por um breve momento, permito-me sentir-me exultante. E percebo que, por isso, Hayden e eu temos mais em comum do que eu imaginava.

– Acalme-se, não é nada. – Loki a tranquiliza. – Apesar de me parecer um sinal de que já está mais do que na hora de você aprender sobre primeiros socorros.

Amaldiçoo-o por fazer referência ao nosso momento, quando lavou meu ferimento e me beijou, quando eu abracei seu corpo com as pernas e não quis soltá-lo nunca mais. Mas então percebo que talvez – só talvez – ele tenha feito isso para me lembrar de que ainda está aqui comigo, não com ela, e afasto minha mão da adaga debaixo dos lençóis como se ela fosse tóxica, como se fosse me passar qualquer tipo de doença incurável e dolorosa.

Hayden encara Loki como se fosse eu, como imagino que eu o olharia nos olhos, com um misto de desconfiança, fascínio e felicidade perigosa, como se soubesse que estar com ele é perigoso e mortal ao mesmo tempo em que é satisfatório e arrebatador. Ainda assim, há algo em seu rosto, seus olhos, sua expressão, que não a permite chegar à perfeição. Não, ela não consegue me imitar. Não cem por cento. Sempre haverá algo de errado com ela no meu corpo.

Mas ela está lá. Continua lá. Ela pode sentir Loki quando eu não posso. Ela pode beijá-lo quando eu não posso. Ela pode estar com ele quando eu não posso. E isso é demais para mim.

Fecho os olhos e desejo desesperadamente desaparecer, sumir no ar, evaporar até outro lugar onde não doa tanto, onde meus sentimentos não gritem tão alto.

E quando os abro mais uma vez – sem entender como sou capaz de sentar em lugares sólidos ou até mesmo de ter fechado os olhos –, não vejo mais o cenário da cabana. Não vejo Loki, não vejo Hayden.

Há apenas um rapaz bonito de cabelos castanhos rebeldes e desfiados e olhos azuis sorrindo para mim. Ele está vestido em jeans, coturno e camiseta branca com uma jaqueta de couro cinza, parado com as mãos nos bolsos em um cenário inteiramente azul escuro. Não há céu, terra, mar, nada, somente a escuridão da cor nos rondando ao ponto em que eu não consigo distinguir a parte de cima da parte de baixo. Não é como o universo, porque não há astros, nenhum planeta ou constelação, parece simplesmente que está tudo pintado de azul escuro porque o preto seria muito sufocante para mim.

– Onde eu estou? – Pergunto assustada.

O rapaz sorri ainda mais, mostrando os dentes brancos e alinhados em um gesto que me parece de pura felicidade.

– Onde você quer estar. – Diz ele com calma e sabedoria, como quem realmente sabe do que está falando.

– Como assim? – Insisto. – Eu só fechei os olhos e...

– E desejou estar em outro lugar? – Completa ele sagazmente, tirando as mãos do bolso e abrindo os braços para a imensidão azul. – Aqui está você.

Suas mãos batem nas coxas quando ele as abaixa e respira fundo e, contra qualquer sensatez, reparo em suas pernas, em como elas fazem com que ele pareça o modelo perfeito para aquele jeans.

– Onde é “aqui”? – Pergunto com cautela.

– Aqui é entre dimensões. Você é milhões de vezes mais poderosa do que pensa que é, Domino. – Ele cruza os braços parecendo bastante à vontade e , a cada gesto que executa, tenho a impressão de que esteve esperando por mim. – Você não só viaja por entre dimensões; Você pode convocar os mortos. Do meu ponto de vista – ele coloca as mãos no peito, dando ênfase a si mesmo –, você pode viajar por entre dimensões para convocar os mortos.

– Você está morto? – Olho-o de cima a baixo em busca de qualquer sinal de morte em seu corpo, mas não há nada que eu consiga encontrar.

– Por um tempo agora. – Ele inclina a cabeça para cima, levantando o queixo para assentir.

– O que aconteceu?

O moreno estreita os olhos para mim de forma irônica-simpática.

– Está preocupada?

– Não posso estar?

– Não deveria estar.

– O que aconteceu?

– Traição. – Ele fala como se não fosse nada pior do que um dia de chuva que estragou suas chances de passeio ao ar livre. Tão conformado, tão maduro, tão inexplicavelmente humano. – Umas pessoas más colocaram uma amiga minha em apuros e, bem, eu estava com ela.

Olho-o extremamente interessada, triste, mas não angustiada porque não há nada que eu possa fazer para mudar o fato de que ele está morto. Estou entorpecida em uma dor serena, como se estivesse momentaneamente anestesiada.

– Você estava com sua amiga e morreu por causa dela?

– Não! – Ele se apressa em negar, em parte irritado, em pare nostálgico e infeliz. – Eu morri porque acreditava na mesma coisa em que ela acreditava.

– Em que ela acreditava?

Ele esboça um sorriso mínimo bastante significativo.

– Liberdade. – Diz orgulhoso da amiga e dele mesmo por partilharem tal crença. – Ela acreditava que todos tinham o direito de ser livres, não importa o que diz o DNA.

– Parece uma amiga sábia. – Digo cansada, o torpor cada vez mais forte.

O rapaz se aproxima de mim sem pressa, com naturalidade, como se já tivesse feito isso milhares de vezes.

– Ela é, Domino. – Diz com uma sinceridade que toca alguma parte do meu coração morto, o que não sou capaz de sentir neste plano. Ele parece preocupado em me convencer do que está afirmando e sinto que devo acreditar nele. – Eu não morri por causa dela. – Ele segura minhas mãos e as traz junto às dele até seus lábios, sorrindo. – Eu vivi meus melhores dias por causa dela. – Sua boca beija minha mão direita. – E sou grato por ela ter aparecido em minha vida. – A mão esquerda. – Porque não teria sido a mesma coisa sem ela.

Não posso senti-lo, mas quando ele me toca, há uma sensação de colisão, como se a estática entre nós fosse tão grande que o contato causa choques por toda a extensão do meu não-corpo.

– Você está no Paraíso?

Ele abaixa nossas mãos e segura as minhas. De frente um para o outro como estamos, de mãos dadas, sinto como se o conhecesse melhor do que ninguém.

– Estou. – Ele assente. – Mas eu sinto você me chamando de vez em quando. Às vezes te encontro, como agora, e às vezes não. Mas estou sempre aqui para você.

Se eu pudesse chorar, estaria em prantos agora, com os olhos estreitos tentando entender o que é que está acontecendo.

– Quem é você? – Sussurro com medo da intensidade absurda a que chegaram meus sentimentos com os quais eu já estava preocupada antes.

O rapaz sorri mais uma vez um sorriso doce e cheio de significados.

– Belkan. – Diz delicadamente. – Meu nome é Belkan.

Eu caio.

Estou caindo.

Eu estou, de certa forma, segura enquanto caio. Sei que nada pode me atingir no vácuo, entre mundos, não corpórea como estou. O vazio ao meu redor sussurra coisas sem sentido para mim, palavras aleatórias rondando minha mente, que é a única coisa que me resta. Eu giro, giro e giro no eixo do meu próprio rodamoinho de dor. Imagens de sangue, poeira e sons de berros desesperados enchem o espaço, parecem preencher minha garganta e querer pular para fora de mim, como se eu sofresse essa mesma dor.

Parece uma eternidade em um abismo, sempre em direção ao chão sem nunca chegar lá.

Flashes começam a tomar conta da minha visão. A princípio, apenas piscando diante dos meus olhos fechados, depois como cenas em um filme.

A primeira coisa que vejo é Belkan ensanguentado caído em um chão branco de marfim. Depois, Jane Foster abrindo um corte na parte interna da minha coxa, bem na artéria, com uma faca de desossa. Então, eu deixando algum papel sobre a mesa da sala de estar de Tony Stark sob o olhar chocado e desconcertado do milionário enquanto estou chorando.

Uma cena dura mais do que as tantas outras que eu assisto: Loki e eu sem roupa alguma sobre uma cama de lençóis brancos, eu por cima de seu corpo e ele em sua forma azul congelante, os olhos vermelhos vidrados em minha boca enquanto meu cabelo cai sobre o rosto dele.

A sensação surreal de estar em queda livre foi tão real que, quando abro os olhos e me encontro em Carmaly, o cemitério, de pé, parada com Belkan à minha frente, pisco atônita por uns bons minutos, procurando qualquer evidência de que estive realmente caindo durante um tempo interminável. Mas, como sempre acontece quando faço isso, não há nenhuma prova à minha disposição.

– Está funcionando. – Ele segreda não exatamente surpreso, mas em um contentamento deslumbrado.

Espelho exatamente a mesma expressão.

– Loki. – Sussurro esperançosa.

– É. – Belkan concorda. – Loki.

Ele está conseguindo. Está fazendo com que eu me lembre. São apenas cenas das quais não me recordo de ter participado, mas são cenas reais.

– Minha mente... Minha mente entre dimensões, ela... Ela fica mais livre, não é?

– Sim.

– Como queda livre. Literalmente. – Começo a ficar frenética. – Tudo o que eu precisava era um empurrão. Para cair. Para começar a me lembrar...

– Exatamente. – Belkan sorri, aprovando o raciocínio. – Já que você não se lembrava do que acontecia com sua mente quando está entre dimensões, eu fico feliz que Loki tenha lembrado por você.

– Você acha que ele quer realmente me salvar? – Pergunto como só perguntaria a alguém com quem tenho uma intimidade especial, agora que sei que sou a tal amiga de quem Belkan falava. – Acha, Bel?

– Eu sei que ele realmente quer te salvar. – Belkan se aproxima outra vez, parando bem à minha frente, falando como se eu fosse uma criança ingênua que deveria ter reconhecido a verdade em suas palavras há muito tempo.

Perdida no azul dos olhos dele, subitamente começo a sentir medo.

– Como sabe disso? – Pergunto com careta de choro, sentindo as lágrimas se esvaindo de mim, me esvaindo em dor líquida, desprendendo-me do torpor e me agarrando à angústia.

Eu preciso saber. Preciso saber o que o Deus da Trapaça sente por mim. É o assunto que mais me dói no momento, porque eu sei que o que sinto por ele é insanamente forte e me sinto tão só, inexistente, no véu que preciso saber que ele me ama de volta. Porque não consigo passar por isso se ele não amar. E, agora, sinto que Belkan é o único capaz de me dar uma resposta.

– Sou um telepata. – Ele revela, desestruturando-me ainda mais. Claro que Belkan é um mutante! Por que é que eu não parei para pensar nisso por um segundo? – É minha obrigação bisbilhotar na mente do cara de quem minha melhor amiga está a fim.

Começo a rir e o riso se transforma logo em gargalhada. As coisas parecem tão fáceis com Belkan, parecem fluir tão bem, tão naturalmente que as palavras “melhores amigos” começam a tomar um novo sentido para mim. É como se eu visse em Belkan a outra metade de mim, não em Hayden.

Praticamente pulo em cima dele, pegando-o desprevenido em um abraço onde não nos tocamos, nos eletrizamos.

– Eu amei você acima de tudo, não amei? – Pergunto, e Belkan sabe o que quero dizer. Sabe que sou apaixonada por Loki e que amo muitas outras pessoas, mas que, com ele, eu tenho uma ligação que nada nem ninguém pode explicar.

– Você amou. – Ele me afasta suavemente para olhar para mim e acaricia meu cabelo. – E eu te amei de volta.

Quando Belkan beija minha testa, é como se alguém de repente apagasse a luz e a acendesse depressa e, quando ela se acende, estou diante de Loki de novo.

O deus ergue a cabeça assim que apareço novamente na cabana. Ele está sentado sobre a roupa de cama manchada de sangue e me nego a imaginar o que pode ter acontecido entre aquelas quatro paredes enquanto eu estive ironicamente fora.

Vou até ele, sentando-me ao seu lado e encontro a adaga ainda onde estava antes, debaixo dos lençóis.

– Eu descobri uma coisa agora há pouco.

Ele vira o rosto para mim para me olhar de má vontade, parecendo levemente irritado.

– Mesmo? – Pergunta sarcasticamente, em tom maldoso, e cada espécie de terminação nervosa em mim me envia pequenos choques como quando toquei em Belkan, só pelo som de sua voz. – E o que é?

O som de chuveiro no qual começo a reparar mais me desconcerta do que me tira do sério.

– Ela está tomando banho?

– Sim. – Loki responde com dureza. – Você a cortou, não se lembra?

– Ela estava agarrando você! – Digo como se meu ciúme louco justificasse a atitude.

– Ela é você, para todos os efeitos! – Loki se sobressalta, colocando a mão sobre a minha na adaga, intensificando os choques de modo que meus pensamentos começam a rodar e se emaranhar de formas estranhas, deixando-me meio entorpecida novamente. É como se eu tivesse tido muito pouco tempo para aprender a controlar meu corpo fora do meu corpo. – E agora, ela sabe que eu sei que ela não é você. Graças a sua mais uma vez sua falta de fé em mim. – Os olhos verdes ardem nos meus com raiva e decepção.

– Minha falta de fé não é em você. – Admito rapidamente à meia voz. – É em mim. – Isso parece chamar-lhe a atenção para um lado da história que ele não conhece. A tensão em seu rosto se suaviza à medida que suas sobrancelhas voltam a se erguer sem mais ficarem franzidas e ele relaxa o maxilar, interessado. – Eu quero beijar você, eu quero estar com você, eu quero tocar você. Eu! Eu, não ela. E eu não consigo. E isso me deixa louca. E o fato de eu estar mais desesperada para transar com você do que para salvar minha vida cada vez que penso que ela está com as mãos no seu corpo me apavora!

Loki é parcialmente indecifrável. Às vezes sinto que sei tudo o que há para saber sobre ele e, em situações como esta, sinto que não tenho ideia do que se passa em sua cabeça quando ele me olha com o rosto neutro e com os olhos acesos, sentindo algo que não tenho inteira certeza de que posso compreender.

– O que mais você descobriu? – Ele pergunta, voltando ao assunto que eu havia iniciado. – Além, de que sim, nós já transamos antes?

– Descobri que está funcionando. – Digo, ignorando a palavra “transamos” vinda da boca dele. – Estou me lembrando das coisas, só é como se fosse um filme do qual eu não participei, entende? Como se alguém me contasse o que aconteceu e eu não tivesse provas para acreditar. São apenas cenas na minha cabeça. Não me lembro de tê-las vivido.

Loki me encara cético e coloca os braços sobre os joelhos, juntando as mãos uma na outra à frente do corpo, afastando-se da adaga.

– Então, como sabe que é real? – Pergunta, olhando para frente.

– Posso sentir.

O deus me olha com mais raiva ainda por um instante e desvia o olhar rapidamente, como se não suportasse olhar para mim sem perder o juízo.

Deus, ele não está nem me vendo!

– Isso é bom. Se continuar assim, o plano funcionará. – Diz com a mandíbula tensa. – Só precisamos... – Ele se interrompe, virando a cabeça para ainda mais longe de mim, recusando-se a continuar.

– Só precisamos me drenar enquanto colocamos sangue humano no meu sistema, rezar para que eu não morra e rezar para que a Lolita aí se mande. – Completo sem nem saber o motivo, percebendo que isso irrita Loki ainda mais quando ele respira fundo. – Mas qual é o seu problema, afinal? – Reclamo. – Eu é que devia estar surtando.

– Você é o meu problema desde o dia em que te conheci! – O deus grita, finalmente abandonando o recato a que se agarrou tão firmemente até agora, levantando-se e andando de um lado ao outro do cômodo, a luz laranja do pôr-do-sol do lado de fora da cabana dando-lhe um efeito sobrenatural lindíssimo.

– Por que está dizendo isso? – Hayden pergunta com a voz trêmula, como um bebê, aparecendo de repente na porta próxima às almofadas verde e laranja, o corpo coberto apenas por uma toalha branca. Em um momento de lucidez antes de o choque me tomar, imagino porque todas as roupas de cama e banho que estou vendo ultimamente são brancas.

Loki a fita tão chocado quanto eu, os olhos arregalados e a postura rígida quando se vira para ela.

– Porque é a verdade! Não é isso o que você sempre quis de mim? – Ele grita sem controle, erguendo os braços ao lado do corpo. – Aí está! Você é o pior problema sem solução que eu já tive. – Loki se aproxima de Hayden e ela recua dois passos como se tivesse medo de que ele a estrangulasse, em uma expressão pateticamente falsa de medo. O deus a encurrala na parede nunca chegando a tocá-la, mas tão perto e tão ameaçador que ele não precisa do toque para provar seu ponto. – Meu problema, Domino Hepburn, é que você está aqui comigo e não está aqui comigo. Você nem sabe quem eu sou! Você me manipulou, você me beijou, você transou comigo, você se tornou algo para mim. – Ele baixa o olhar para o chão e anda de costas para longe de Hayden, os olhos correndo vagamente onde estão minhas pernas, onde ele sabe que elas estão, porque ainda não está me olhando diretamente nos olhos. – E, então, você tirou esse algo de mim. Por causa do seu moralismo estúpido, eu também não posso tocar você, não posso estar com você. – Loki levanta o olhar de repente e não tenho certeza se consigo sustentá-lo sem desvanecer porque a pressão dele em mim é grande demais, a mágoa ali é grande demais e a raiva também é enorme. – Você fez isso. Perdeu a memória porque entre mim e seus valores, você escolheu seus valores quando eu escolhi você. – Os olhos e o corpo dele se voltam novamente para Hayden. – E agora você nem sabe quem é ou o que nós somos. — Então, ele sorri como eu sinto que o conheço, um verdadeiro felino mortal, um caçador inflexível e insaciável. – Mas eu descobri algo também. – Chega perto de Hayden, que agarra a toalha na altura dos seios com a ponta dos dedos, ereta e tensa. Quando seus lábios estão na orelha dela, ele olha para mim ao sussurrar: – Nós não somos compatíveis. Não somos capazes de ficar juntos. Nunca seremos.

E tudo o que eu quero é novamente o conforto das palavras de Belkan, porque a única coisa que me mantinha em pé, o alicerce da minha alma, acaba de ser destruído.

Notas finais
Esse capítulo foi o mais intenso para mim até agora. E não de um jeito bom. Yup, Loki is Loki /: