Alma de Vidro |HIATUS|
17 Capítulo 17. Hannibal, O Canibal
Notas iniciais
Como todo o bom trapaceiro, Loki – agora Laufeyson – é excepcionalmente bom em passar despercebido quando é de seu desejo.
Como quando observou o irmão lutar em busca do Mjolnir, como quando viu quando ele não conseguira erguer o martelo. Como quando presenciou o estranho e curioso evento envolvendo o famoso nome Domino Hepburn.
Famoso, é claro, porque ele parece estar na ponta da língua de todos, isto é, pelo que Loki conseguiu sondar escondido nas sombras de sua descrição – disfarçando-se através de seus truques ou simplesmente mantendo uma distância segura –, é que todos os mutantes a querem ao seu lado; Porém, HIDRA a matará assim que descobrir que não há meio de convertê-la, já que ela é um risco que eles não estão dispostos a correr.
Loki entende o suficiente de magia para saber que o que sentiu na peculiar sala branca onde desfez o truque de Ellendra com Domino é que a magia da garota, por assim dizer, trata-se de mágica velada, isto é, que repele qualquer outro tipo de mágica, assim como repeliu a tentativa do deus de olhar dentro da mente dela quando ele tentou, enquanto a abraçava. Ela podia ter bloqueado Ellendra, se quisesse, se soubesse como. O palpite de Loki é que ela o repeliu porque o toque gelado dele a acalmou e ela foi capaz de tomar o controle. Com Ellendra, a garota deveria estar uma pilha de nervos, impossibilitada de moldar o próprio poder. Obviamente, é nova nisso.
HIDRA, outra coisa interessante em Midgard. Uma Organização... Como é? Nazista? Que seja. Muito interessante. Um problema, do ponto de vista do deus, mas um problema interessante, assim mesmo. Bom, se HIDRA dominasse Midgard, como era do interesse deles, quais as garantias de que não passariam a outros mundos depois? Pelo que Loki havia aprendido até agora, não há limites para mutantes, assim como não há limites para deuses.
Então, ele resolveu jogar as suas cartas.
E lá está, no estacionamento vazio do bar onde sabia que Domino costumava trabalhar, parado em seu sobretudo preto e verde, esperando com sua lança em mãos.
Ellendra não demora muito a aparecer. Na verdade, chega até adiantada, bem como ele, vestida toda de branco sob um semblante de fúria.
– É melhor que isso seja bom, Loki de Jotunheim. – Diz acidamente, parando a uma boa distância do deus, que sorri desdenhosamente para ela.
Um vento forte passa pelos dois, erguendo a terra do chão ao redor de ambos quando um carro solitário passa acelerado pela estrada.
– É algo muito promissor, Elle. Você tem a minha palavra. Serei breve, porque sei que você está com pressa para um encontro ao meio dia. – Naturalmente, Loki esteve do lado de fora do outro bar de beira de estrada na noite do incidente com o crocodilo. – Estou interessado na garota. Estou interessado no poder que ela representaria para HIDRA.
– E qual é minha vantagem nisso? – Ellendra pergunta duvidosa, fitando o deus com atenção, vasculhando seus pensamentos, procurando por qualquer coisa que lhe fosse útil.
Mas o deus está há anos nos dela e é também mais esperto e sabe alguns truques para fazer Ellendra “ver” o que na verdade não está lá.
– Sua vantagem – Loki responde orgulhoso. – é ter um deus como aliado. Não acha que seria útil? Eu sou algo como uma espécie diferente de telepata, eu tenho mais que o dobro da sua idade, o que me faz, com todo o respeito, mais experiente, e sou capaz de outras coisas interessantes que adorarei te contar quando tivermos mais tempo.
– Talvez a hora seja agora. – Ellendra diz subitamente animada abrindo um sorriso maldoso para o deus, que retribui o gesto, aprovando. Ele sente vontade de se movimentar pelo ambiente, andar para lá e para cá enquanto fala, porque se sente totalmente no controle quando tem liberdade corporal ilimitada, mas sente que, com Ellendra, é melhor se manter o mais aparentemente controlável possível para que nada dê errado. – Venha comigo ao meu encontro do meio dia e veja-a novamente. – O deus esboça uma leve careta de desentendimento diante da oferta repentina e inesperada. – Sua mente não é clara para mim, mas sei, pelas ondas que emanam dos seus pensamentos que você é muito bom em esconder o que não quer que eu veja. Como todo o bom telepata. – Acrescenta interessada na observação, para o que Loki sorri outra vez. – Quero você na presença da Domino para decidir por mim mesma se o que você tem por ela é de fato um interesse pela HIDRA, a qual imagino que você queira se juntar, e eu julgarei se é digno ou não de fazer parte da minha organização.
Loki pondera sozinho por um momento, ciente de que seu trunfo viria a calhar em algum ponto da conversa.
– Eu ficaria honrado em acompanhá-la, mas acho que você vai me querer em outro lugar.
Ellendra suspira como se já esperasse por um impasse. Ela encara Loki como se fosse sua mãe e ele tivesse derrubado cola no tapete novinho em folha.
– Mesmo? – Pergunta irônica.
– Oh, mesmo. – O deus responde elegantemente, sua expressão exagerada dando ênfase à importância do que está prestes a dizer: – Você não acha que seria bom ter algo para usar contra o inimigo? Algo que o faça se render, por exemplo? Porque eu sei de alguém que está desprotegida não muito longe daqui que seria uma bela moeda de troca, caso Domino tente alguma coisa e acredite quando digo que ela tentará.
Ellendra só pode ter tomado isso como uma alta prova de lealdade e inteligência, porque parece realmente considerar o plano.
– O que você sugere? – Pergunta incerta, os olhos se estreitando na direção de Loki.
– Deixe que eu vá até Jane Foster, a mulher em questão, e uma ligação, como vocês da Terra dizem, bastará para que Domino se entregue. Pacificamente. – Loki destila seu veneno. – Você vai ao encontro dela e espere por essa ligação. Só isso.
– Parece bom. – A loira se vira para voltar a seu veículo branco e desaparecer daquele deserto. – Não se atrase.
– Sinto muito! – Loki grita para ela antes que Ellendra vá embora.
A mulher se vira para ele irritada.
– Pelo quê?!
– Queria poder saber onde seu filho está.
É isso. Ele a tem agora, bem aqui, bem neste ponto da conversa. Ela já confia nele, tudo grita isso. O modo como seu corpo relaxa, os olhos se abrindo devagar não mais estreitos com desconfiança, a expressão surpresa e levemente afetada... Feito.
Agora, tudo depende da segunda etapa do plano.
–x-
– Tem certeza de que é uma boa ideia?
Todo o meu sarcasmo deve ter sido demais para Belkan, porque ele rapidamente desvia o olhar enquanto o encaro irritada, fingindo que nem estou presente, os olhos vagando por entre os túmulos.
– Como é que você tem esse número, de qualquer maneira? – Pergunto levemente perturbada.
– Um mágico nunca revela seus truques. – Diz ele pateticamente, tão irônico quanto eu, voltando os olhos para mim enquanto anda pra lá e pra cá ao meu lado de braços cruzados. – Além disso, já tenho esse número há um bom tempo. A dona me deu quando descobriu que eu estava procurando por você. Pensou que eu aceitaria um acordo para trabalharmos juntos.
– Que maluco iria querer trabalhar com você? – Pergunto como se falasse comigo mesma, sorrindo debilmente. – Você é um esquisito. – Belkan e eu sorrimos um para o outro e balanço a cabeça comigo mesma. – Ela procurou você para vir atrás de mim?
Ele dá de ombros como se fosse a coisa mais natural que um mutante faria.
– Quando descobriu que você estava viva, ela mexeu Céu e Terra para encontrá-la. – Agora com a postura e expressão séria, Belkan se dirige a mim em tom de confidência: – Depois de ter passado dezoito anos pensando que você estava morta, ela pensou que, nesse tempo, você estivesse mais do que bem preparada para enfrentá-la, você sabe, com talvez um exército ou coisa parecida.
– Ela pensava que eu estava morta? – Ecoo transtornada. – O quê?
– Eu lhe explico depois. – Diz Belkan, a cabeça acenando em direção ao telefone chamando em meu ouvido.
– Muito bem, crianças. – Selvig o apoia, lançando-me um olhar de alerta. – Calem a boca.
Thor me encara silencioso e circunspecto, atento a qualquer coisa ao seu redor, bastante concentrado. Sienna parece calma, mas consigo sentir certa tensão emanando dela enquanto os olhos verdes migram de mim para o celular, para Belkan, para o chão...
– Olá, Belkan. – Diz uma voz profissional do outro lado da linha.
– Mutante errado. – Vadia, queria completar.
O reconhecimento parece durar uns poucos segundos antes que ela diga meu nome.
– A que devo a honra dessa ligação? – Continua, parecendo bastante satisfeita e à vontade.
– Seu filho está aí?
Silêncio.
– O que isso quer dizer?
– Quer dizer que não acho que ele tenha sobrevivido às queimaduras de terceiro grau. – Digo em uma mistura de ameaça, bom humor, insolência e acusação. – Sabe, é melhor você começar a mandar outro alguém para fazer seu trabalhinho sujo, porque estou começando a ficar com dó do seu filho.
– Ele se virou bem depois da facada que você acertou nas costas dele. – Quase posso vê-la sorrir desdenhosamente para mim, como o bicho peçonhento que é, e cenas com a cobra branca de olhos carmim que Silken era quando quase me sufocou até a morte invadem minha mente, bem como a facada de que ela fala, quando lhe golpeei com um caco de vidro, sem nem mesmo saber onde o havia acertado. – Tenho certeza de que está bem e a caminho.
– Não tão a caminho, eu suponho, mas acho bom que você tenha tanta certeza. Deve ser maravilhoso entregar a vida do filho nessa certeza que você tem sem se preocupar com nada. Além do que, a coisa toda vai ser ainda mais impactante quando ele não voltar para casa.
– Escute-me, Domino: – Ellendra fala pela primeira vez de maneira firme sem sua compostura inicial e agora a imagino apertando teimosamente o celular em mãos, irritada. – Vamos simplesmente acabar com isso. Encontre-me no lugar marcado em algumas horas e tudo estará resolvido.
– Eu te digo como as coisas vão acontecer: amanhã, eu vou te matar como matei o seu filho. É assim que tudo estará acabado.
Um som de zombaria seguido de uma breve risada.
– Você não é uma assassina. – Diz ela com convicção.
– Não. – Concordo com sinceridade. – Mas o seu filho era. E eu estava me defendendo. E agora ele está morto. E quer saber? – Dou de ombros, mesmo que ela não possa ver. – Eu não sinto muito. Não sinto nada. Agora, se você ainda quiser sua cura, arrisque vir buscá-la. Eu levarei Sienna comigo. Mas você vai me encontrar em outro lugar, eu mando o endereço por mensagem de texto.
– O que te faz pensar...
– Até logo, Ellendra. – Ligação encerrada.
Digito o endereço do novo local escolhido para o encontro e envio.
Estamos todos tão tensos naquele cemitério que a energia em meio à todos os túmulos fica insuportável. Começo a sentir um calor psicológico desconfortável e sei que estou ficando vermelha enquanto o suor escorre devagar pelo meu corpo.
– Nós nem sabemos se ele está morto. – Diz Sienna com um quê fúnebre no semblante, como se a ideia de aterrorizar Ellendra com a suposta morte do filho para que ela perdesse o foco fosse medonha. O que, na verdade, é, sim.
– Não precisamos dele morto. – Explico de modo grosseiro involuntariamente, como se a garota fosse uma porta. – Precisamos que ela se preocupe com ele, e não conosco.
– E agora? — Belkan questiona.
É como se Thor e Selvig tivessem tanta fé em mim que jamais se incomodavam em perguntar nada, como se Sienna quisesse sempre deixar essa deixa para Belkan porque sabe que ele perguntará alguma coisa sempre que tiver a chance e, inconscientemente satisfeito por isso, o garoto é realmente um verdadeiro quiz.
Viro-me para Thor.
– Agora, eu preciso de você com Jane e Darcy, bff. Você vai com ele, Selvig.
Os dois me metralham com desconfiança e incredulidade em seus olhares chocados.
– Tem certeza disso? – O loiro pergunta ainda bastante metódico. – Pode precisar...
– Eu preciso de Jane e Darcy seguras. – Corto-o, virando-me para Belkan em seguida. – Você vai me deixar também.
– O inferno que eu vou! – Ele surta, jogando um braço para o alto e abaixando-o logo em seguida, como que me convidando a tomar... Um suco bem gelado de laranja.
– Isso não é um concurso de popularidade, Belks. – Digo na intenção nada saudável de irritá-lo mais do que ele consegue me irritar. – Eu preciso de você com eles se quisermos que esse plano dê certo.
– Olha, eu te dei o número da mamãe cobra, concordei em deixar que você levasse a Médica Belieber com você e aí tenho que ouvi-la dizer que eu não vou junto?! – Ele berra para que o cemitério inteiro ouça, os olhos de repente mais desvairados que as madeixas rebeldes, a respiração desregulada e pele avermelhada como a minha.
– Eu vou explicar tudo para que todo mundo saiba o que fazer, mas você tem que confiar em mim quando digo que não pode vir comigo, Belkan! – Digo determinada. – Agora, escutem, e escutem bem. Porque eu não falar de novo.
–x-
– Ela está atrasada. – Sienna observa. O sol parece se satisfazer cada vez mais castigando-nos em meio a poeira do cemitério, bem como o vento, que vem e vai levantando poeira dos mortos em nossos rostos. – Eu estou com fome. – Resmunga.
– À essa altura, imagino que Thor já tenha devorado uma vaca. – Comento divertida, agradecida profundamente por ele não estar aqui, porque, por algum motivo que não consigo explicar, Carmaly parece ainda mais ameaçador à luz do meio dia, quando o sol nos deixa parcialmente cegos, o calor nos torna pesados e cansados e a terá voando nos dá arrepios inevitáveis.
– Vaca? – Diz Sienna descrente, depois balança a cabeça como se uma ideia lhe ocorresse de repente. – Uma? – Rebate desgostosa, invejando a suposta refeição.
– É, ora, pelo menos estamos pegando um bronzeado. – Digo, sentindo-me uma pateta.
Estamos as duas paradas uma ao lado da outra no meio de um corredor que separa uma fileira de lápides de outra, os olhos atentos à entrada do cemitério, mais a frente.
– Será que Belkan já falou com nossos outros contatos mutantes?
– Honestamente, espero que sim. – Respiro fundo, o incômodo do suor cada vez mais insuportável. Sinto-me grudenta, pegajosa como uma...
– Sinto-me como uma cobra trocando de pele. – Sienna fala ao abanar-se com ambas as mãos, fazendo com que eu arregale os olhos de forma perturbada para ela. – Que foi?
– Nada. – Volto a olhar para frente rapidamente, espantando a ideia de que as pessoas são capazes de saber o que eu penso. Não que Sienna possa, até porque eu francamente duvido que ela seja telepata, já que ela não é perspicaz o bastante para isso, mas Belkan é. Ellendra também é. E a pior prisão a qual podemos ficar submetidos é a mente. E isso me apavora.
– Ela está vindo. – Sienna fica ereta de repente, esticando o corpo magro para cima, encarando a cena como se fosse a última coisa que veria.
Ellendra vem pisando em passos duros, trajando a saia social e blazer branco, o cabelo louro caindo liso e solto pelas costas. Ela está sob um salto quinze centímetros.
Ao que parece, Sienna é totalmente inútil.
O que me parece bem marcante é que ela está sozinha – o que sustenta minha teoria de que tentaria algum tipo de chantagem, por isso não tem a necessidade de trazer alguém consigo, porque seu trunfo está em outro lugar. O que não posso parar de me perguntar é quem é que está cuidando desses assuntos enquanto ela está aqui, porque sei que Silken não pode ser. Começo a realmente suspeitar de que a probabilidade de que ele está morto é maior do que eu gostaria que fosse.
A loira mal amada chega perto de nós com expressão que demonstra nojo, mas vejo algo muito mais profundo em sua linguagem corporal – quando ela tenta ao máximo afastar a grama rasteira dos pés, a introversão do tronco que ela mantém o mais para dentro possível, como que para barrar a energia negativa do local e o nariz franzido como se cheirasse enxofre por todos os lados. Parece mesmo que ela está com receio do cemitério, com medo. Ao me olhar nos olhos, ela disfarça bem, emoldurando o rosto branco em uma máscara de desprezo.
“E se ela ler sua mente?”, Belkan perguntara antes de partir com Thor.
Do you wanna dance and hold my hand? Tell me that I’m your man. Baby, do you wanna dance? Do you wanna dance under the moonlight?
– O que está fazendo? – Ellendra pergunta assim que vê o que está dentro da minha cabeça.
– Estou cantando. – Respondo despreocupadamente, cutucando Sienna no ombro com meu cotovelo, erguendo as sobrancelhas para ela, que assente com fervor.
A mulher olha de uma para outra e esboça uma expressão de ódio assassino.
– Mas que porcaria é essa?!
– É Johnny Rivers. – Digo.
– Justin Bieber. – Sienna diz com um sorriso patético no rosto, para o que olho para Ellendra como quem confidencia um segredo.
– Bom gosto não é para todo mundo.
– Já chega. – A Naja nos interrompe. – Onde está meu filho?
– Seu joelho parece bem. – Desconverso.
– Onde está meu filho? – Ellendra repete a pergunta, dando um passo à frente e agarrando a gola da minha jaqueta detonada, puxando meu corpo de encontro ao dela.
Do you, do you, do you, do you wanna dance?
Ela não consegue ler minha mente – ou a de Sienna –, não sabe onde está o filho, está desesperada. Eu entendo. E não estou nem aí.
– Deve ser muito difícil criar um filho adolescente. Ainda mais quando ele é um réptil. Eu só consigo pensar em que tipo de comida você dava para ele. – Dou risada comigo mesma e Ellendra me passa uma rasteira, derrubando-me na terra e caindo por cima de mim com o joelho perigosamente sobre o meu pescoço.
Sienna faz menção de dar um passo para mim, mas logo se contém com meu olhar que a censura, lembrando-se de minhas instruções para que ela não se envolva em nenhum tipo de contato físico. Se aquela garota se machuca, não sei o que faço.
Uma música altamente irritante e alta enche o ambiente e Ellendra me encara com um cinismo nojento enquanto alcança o celular no bolso do blazer, atendendo à ligação com uma satisfação que me irrita.
– É para você. – Estende o aparelho para mim com um sorriso contido.
– Importa-se? – Pergunto incomodada, apontando para o joelho dela. Bufando, Ellendra o afasta do meu pescoço e se levanta, enquanto permaneço deitada sobre grama, terra e poeira. – Era só o que me faltava, esse filhote de enguia se meter a besta para cima de mim, literalmente para cima de mim, espere só até eu enfiar seu rabo em uma tomada...
– Alô? – Uma voz trêmula e hesitante vem do outro lado da linha, como se a pessoa estivesse a ponto de chorar.
– Jane? – Digo chocada, esforçando-me feito uma louca para pensar somente que arrancaria o fígado de Ellendra Silken caso algo acontecesse a Jane Foster.
– Oi. – A mulher responde sem ânimo algum.
– Deus, você está bem? – Ouço o desespero claro em minha voz, agarrando-me ao telefone como se minha vida dependesse disso. – Alguém te machucou?
– N-não, eu estou bem. Estou bem.
Mas ela está tentando convencer a si mesma, e não a mim, e tudo parece tão real que a agonia que sinto é quase tangível.
– Vai ficar tudo bem, ok? Nós vamos resolver isso, você vai ficar bem. – Quase posso vê-la assentindo para mim, o corpo pequeno encolhido e a cabeça baixa. – Onde está Thor? Eu o mandei para ficar com você.
– Bom... Sobre isso... Espere.
Que diabos?
Sienna está me encarando preocupada e Ellendra com gosto, adorando todo o show que está armando.
– Olá, Domino.
A voz me gela o corpo inteiro e me causa calafrios.
É quando minha visão turva encontra à minha frente um homem moreno de terno que, inicialmente, penso ser algum tipo de alucinação da minha cabeça transtornada. Só percebo que o sujeito é real quando ele se inclina sobre meu corpo, ajoelhando-se no chão sobre meus quadris e entrelaça os dedos nos meus, colando minha mão trêmula e queimante no chão, dando firmeza a ela.
Assim que sinto seu toque, solto um forte suspiro de alívio com o frio que vem com ele. É como um anestésico tremendamente prazeroso que me lança em uma onda de esperança que eu já não mais tinha.
Com a outra mão, o homem dos olhos verdes puxa para longe do pescoço uma echarpe verde, jogando-a no chão ao nosso lado e seu terno, camisa e gravata de repente se desmaterializam, desaparecendo diante dos meus olhos como se nunca tivessem existido. Ainda com a mão entrelaçada à minha, ele me puxa rápido e decidido para cima, contra seu peito.
Abraço-o imediatamente, grudando as mãos em suas costas, acariciando-as adorando a sensação de gelo contra minha pele absurdamente quente e emitindo graves suspiros de alívio quanto mais próxima fico dele.
Puxo minhas pernas estendidas para trás e coloco-me ajoelhada como ele está, erguendo-me nos joelhos e trazendo meu corpo para ainda mais perto do dele, sentindo seus dedos longos e macios percorrendo minha espinha bem devagar, de cima a baixo. Encosto a bochecha em seu ombro e fecho os olhos.
– O que você fez com Thor?
– Você sabe quem é?
– É claro que sei quem é, Olhos Verdes! – Grito com raiva. – Agora me diga o que fez com Thor. E eu aviso que, se tocar em Jane ou em Selvig, eu arranco sua cabeça, está ouvindo?
– É claro que estou ouvindo. – Ele fala como se fosse uma cantada e estivesse interessado em qualquer som que saísse da minha boca, adorando a provocação contra mim. – E acho que você deveria aprender a ouvir também. Eu troco todos eles por você. Tudo o que você tem que fazer é ir de bom grado com Ellendra.
Isso é ruim. É muito ruim. Esse homem envolvido não era parte do plano, o que é que eu vou fazer?
– Tic Toc, Domino.
– Só não os machuque.
– Isso é um sim, querida?
– É, sim, bastardo. – Ellendra solta um risinho que tenho certeza de que ele consegue ouvir pelo telefone.
– Ótimo. – O sujeito responde claramente irritado. – Nos vemos em breve.
Jogo o celular de volta para Ellendra e suspiro no chão, relaxando o corpo cansada, pensando no quão perdida eu estou.
A Sucuri troca algumas palavras com o moreno dos olhos verdes – que por acaso eu pensei estar do lado dos mocinhos – e encerra a ligação, olhando de mim para Sienna com desconfiança.
– Onde está o terceiro membro da trupe?
Coloco-me sentada e olho de um lado para o outro, procurando.
– Não sei de nenhuma trupe, mas Belkan está no sentido de descida da única estrada que leva para fora daqui, esperando em um caminhão que roubamos ontem à noite para capotar seu carro quando você passar por lá. – Digo de má vontade, odiando cada pedaço de mim por estar admitindo isso.
– Era esse o plano? – Ellendra pergunta chocada. – Vocês iam me matar em um acidente de carro?
– Bom, não foi como se tivéssemos tido muito tempo para pensar em algo grandioso como te fazer andar na prancha para que você fosse comida por tubarões. – Sienna se intromete em uma postura rígida e desconfortável, o olhar perdido como se ela não tivesse mais nem um pingo de esperança. – O navio sairia muito caro.
– Exatamente. – Concordo, pondo-me de pé e batendo as mãos na calça para espantar a sujeira. Respiro fundo ao encarar as duas à minha frente. – E você não vale o esforço, se quer saber. Mas vou te dizer uma coisa: deixe que Sienna vá e encontre Belkan na estrada. Você e eu vamos pelo sentido contrário ao que eles estarão e os despistamos.
– Domino...
– Não! – Corto Sienna imediatamente, encarando-a com minha melhor expressão de seriedade. – Vá. Você precisa ir.
Precisa urgentemente.
Sinto que estou prestes a escorregar e por tudo a perder, então preciso acabar logo com isso.
– Nós vamos achar você. – Ela fuzila Ellendra com olhos como lâminas que juram vingança. – E aí, jogaremos um joguinho chamado “chutar o traseiro”, irmã. – Ela, então, nos dá as costas e corre para fora de Carmaly, a poeira levantando às suas costas.
Nem sei de onde Ellendra veio, porque não prestei a mínima atenção nela por um momento trágico de vertigem, mas a cretina de repente está bem à minha frente, encarando-me de tão perto que sinto claustrofobia.
– Vamos, Do. – Diz animada com um sorriso enorme e branco. – Vamos ser ótimas amigas.
E, então, ela faz a única coisa que eu esperava e queria que fizesse: postando-se atrás do meu corpo, sinto seus braços se fecharem em meu pescoço até que o ar começa a me faltar e pontos e mais pontos de escuridão se alastrem pela minha visão distorcida.
Eu desmaio.
–x-
Voltar à realidade é um baque surdo, porém elétrico.
Estou deitada sobre um sofá deliciosamente macio de cetim creme e dourado cheio de detalhes pequenos demais para que eu consiga descrever, desses bem antigos e elegantes, coberta por uma manta macia, fina e bastante quente de cor bege e também dourada, que brilha à luz da lareira que há no centro da sala, onde fica um tapete persa também em dourado, vermelho e marrom e noto que, surpreendentemente, as cores parecidas não formam um quadro enjoativo.
A sala onde estou é enorme, branca com teto abobadado com entalhes em ondas ali e aqui. A lareira também é branca e o chão é de madeira lisa, de um marrom mediano, nem claro, nem escuro. Há um sofá de cada lado da lareira – um onde eu estou e outro onde uma figura sentada com as longas pernas abertas espera por mim.
Olho do homem para trás, percebendo a enorme porta da mesma madeira do chão, também com leves entalhes bem desenhados que vai até a altura do teto, fechada. As compridas janelas verticais também estão fechadas, já que as longas cortinas estampadas em vermelho, dourado e creme não balançam nem um pouco com vento nenhum.
Ele se parece tanto com um rei sentado assim, sem uma preocupação no mundo, como alguém intocável, como quem está totalmente no controle.
Com os olhos de serpente chamuscando na direção dos meus olhos opacos e cautelosos, o indício mínimo de um sorriso brinca no canto dos lábios do moreno.
– Como você está, querida?
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