Alma de Vidro |HIATUS|
14 Capítulo 14. Ampulheta Da Minha Alma
Notas iniciais
– Você acha mesmo que isso dará certo? – Sienna pergunta a Silken, ambos temerosos e ansiosos do lado de fora da casa de Malibu de Tony Stark, aguardando.
– Vai, sim. – O loiro confirma. – Vai dar certo. Eu confio nele.
– Você sabe que esse é seu primeiro erro, não sabe? – A garota adverte, mordendo o lábio inferior em seguida, pesarosa. – Silk, nós fizemos isso. Nós fizemos isso a ela. Não merecemos o perdão dela.
– Isso não é sobre perdão. Nem mesmo sobre nos redimir com ela. – O rapaz rebate irritado, sentindo-se tão culpado quanto Sienna. – É sobre ajudá-la porque ela merece nossa ajuda, não porque esperamos que ela nos perdoe.
– Eu sei, mas... – A morena respira fundo, parecendo quase prestes a chorar. – Nós estamos trabalhando com Loki, Silken. Isso não é demais?
– Demais por quê? – Silken fala como se Sienna fosse a garota mais burra do universo, irritando-se mais a cada segundo. – Loki foi quem realmente lutou pela Domino. Ele liderou o exército dela quando ela não pôde, ele a pôs para descansar quando achou que ela estivesse morta, ele foi contra tudo o que acredita por ela. Ser o Deus da Trapaça não quer dizer que ele não ama aquela garota.
– Talvez nós devêssemos estar do lado dos Vingadores. – Sienna pondera, incerta de como por tal pensamento para fora, intimidada pela raiva de Silken, incapaz de discordar da fala do rapaz.
– Nós estamos do lado da Domino. – Ele determina sem rodeios. – Não estamos do lado de mais ninguém, nem dos Vingadores, nem do Loki, nem de Belkan, de ninguém!
– Não fale dele desse jeito! – Sienna grita, as lágrimas finalmente transbordando dos olhos verde claro, para o que Silken ri desdenhosamente.
Sienna o segura pela blusa e bate o corpo dele contra a porta.
– Não fale dele desse jeito. – Sibila de forma descontrolada e os dois se encaram por um longo tempo sem se mover, sem falar, sem nada. Apenas lamentando em silêncio.
Até que a adaga prateada com pedras verdes incrustadas no cabo comece a emitir um brilho azul escuro.
– Vamos. – Diz Silken e Sienna assente, largando-o. – Você sabe o que fazer.
–x-
Os urros de Bruce começam a ficar mais e mais altos do lado de fora do lavabo uma vez que Loki o jogou para fora do lavabo quando ele começou a se transformar. O deus agilmente alcança o corpo de Domino antes que ela, perdendo a consciência, atinja o chão, tomando-a nos braços ao mesmo tempo em que segura com uma das mãos a adaga com força, fazendo pressão sobre o cabo até que ela emita uma luz azul escura – o sinal que ele combinou com seus cúmplices que aguardavam na porta de Tony Stark, o que faz com que o par da adaga brilhe também.
Loki, então, ignorando o momento de tensão, deixa que a adaga caia enquanto segura a cabeça de Domino com uma das mãos e tem seu braço em torno da cintura da garota.
– Vai ficar tudo bem. – Diz ele para o nada, fitando as pálpebras fechadas dela como se fossem seus próprios olhos castanhos, os verdadeiros dela, quando não está usando seus poderes, quando ela é ela mesma. – Eu sinto muito ter que fazer isso. Sinto muito que você não entenda o que estou fazendo. Sinto muito por deixar você pensar que eu não passo de um trapaceiro. – Ele faz uma pausa na explicação para respirar fundo, escutando por um instante o aglomerado de sons que formam a maior confusão lá fora. – Mas tem que ser assim. E, no fim, será como se nada do que estou fazendo agora tivesse te machucado. Confie em mim. Eu sei o que estou fazendo.
O deus levanta Domino como se ela fosse uma pena, recuperando a adaga rápida e habilmente, depositando-a com cuidado dentro da pia enquanto ajeita o corpo molenga da garota nos braços, acomodando a cabeça dela em seu peito como se pudesse escondê-la de todo o horror que ele mesmo está colocando em ação, como se pudesse tapar seus ouvidos contra os insuportáveis urros do Hulk, como se pudesse apertá-la com força suficiente para que o abraço nunca fosse desfeito.
Mas nada nunca é assim e lá está ela no campo aberto, como sempre. Contra a vontade do deus. Para sua frustração, na verdade. Se Loki odeia ficar à sombra do irmão, se odeia não ter seu trono, ele detesta Domino em perigo ainda mais. E, apesar de não parecer, está determinado a ajudá-la.
Porque ele é o único que pode.
Os Vingadores podem até se importar com ela – alguns podem até amá-la. Mas eles não a conhecem como Loki. Eles não a entendem como ele. Eles não sabem o que é preciso para salvá-la desta vez porque quem a salvou da última fora o deus. E ele sabe que continuará salvando-a quantas vezes for necessário. Por mais que odeie estar preso a ela dessa maneira. Protegê-la não é uma escolha. Amá-la nunca foi uma escolha.
Os ruídos grotescos da fera agora estão longe e Loki imagina que os Vingadores já estejam ocupados com o Hulk.
Assim, ele abre a porta do lavabo e logo se depara com Sienna e Silken.
– Seja rápida. – Diz a ela ao entregar Domino nas mãos da morena.
Sienna assente freneticamente e, apoiando o peso de Domino do lado esquerdo do corpo, põe-se a arrastá-la para fora da casa o mais rápido que consegue, tomando o caminho para a sala de estar que está vazia ao tempo em que já é possível ouvir gritos dos Vingadores debatendo um com o outro como conter Hulk, que parece mais nervoso do que nunca, devido às táticas de provocação de Loki.
Silken agarra o braço de Clint e o arrasta para fora do lavabo, fechando a porta em seguida.
– É sua vez, cobra. – Diz o Deus do Caos, como Domino costuma chamá-lo, os olhos espertos em Silken, aguardando pelo desfecho do plano.
O loiro, então, com expressão de raiva e pesar, muda de forma, metamorfoseando-se depressa em Domino enquanto a verdadeira Domino já está fora da torre na companhia de Sienna.
– Ótimo. – Continua o moreno. – Agora... – Ele acerta a têmpora da falsa Domino com uma pancada tão forte que o corpo da “garota” facilmente cai desacordado. – Hora do show.
–x-
Steve, Clint e Natasha falam e falam e falam sobre minhas condições vitais com suas caras de enterro e eu não me concentro na conversa.
Eu quero Loki. Quero que ele me diga o que fez, porque fez isso, o que pretende com isso por que não me contou seus planos e como é que planeja me tirar do coma – porque se eu ficar em coma para o resto da vida vou arrancar os olhos dele das órbitas. Vou puxar aquele cabelo preto até que fio por fio esteja em minhas mãos e aí então vou jogá-los em uma fogueira e vou arrancar também os dentes dele e fazer um colar, depois vou dar os pulmões dele para uma alcateia faminta devorar...
Sinto como se estivesse chorando e como se minha respiração estivesse acelerada, mas, na verdade, não sinto nada. Quer dizer, não consigo sentir nada fisicamente: por mais que tenha vontade de derramar algumas lágrimas de desespero, só sinto o desespero – que rasga minha alma com garras de ferro.
Completamente perturbada, começo a gritar sem que ninguém me ouça. Fora do meu corpo, não é um estrago muito grande o que eu posso fazer.
Era essa a dupla personalidade da qual Stark estava falando? Eu fora do meu próprio corpo de carne e osso? Mas, se é assim, por que ele diria que minha metade do mal tomava meu lugar?
– Eu não posso mais fazer isso. – Murmuro para mim mesma feito uma louca. – Não posso fazer isso...
Eu perco a memória. Eu sofro tentativas de assassinato. Eu descubro que conheço um bando de super herois e super vilões. Eu tenho dupla personalidade. Eu estou em coma e sou um fantasma fora do meu corpo.
– O que eu fiz? – Grito para o teto, inclinando a cabeça para trás e olhando para cima. – O que foi que eu fiz?! – Demando saber.
Chuto as mesas de centro da sala, soco as paredes, pondero sobre me jogar lá do alto e tento tocar em objetos como vasos e controles para jogá-los longe, mas nada do que faço surte efeito, porque meu corpo passa direto pelas coisas e eu não consigo tocar em nada.
A menos que...
Corro até o lavabo onde tudo ocorreu e ele parece tão normal quanto antes de eu, Clint, Loki e Bruce o adentrarmos. Meus olhos procuram avidamente pela única coisa na face da Terra que penso que pode me ajudar e a encontro dentro da pia branca, olhando para mim com deboche.
Toco o cabo da adaga podendo realmente tocá-lo e a levanto, segurando-a em mãos.
– Você fez alguma coisa, não fez, sua vadiazinha? – Rosno para ela. – Foi você, a culpa foi toda sua. Bom, a culpa foi do Loki, mas você ajudou!
Viro-a de um lado para outro, de ponta cabeça, seguro-a pela lâmina e tenho quase certeza de que acabo me cortando, mas nenhuma evidência disso aparece em mim, então suspiro decepcionada, pensando em que diabos tenho que fazer com a maldita adaga para conseguir algumas respostas.
E não tenho que pensar durante muito tempo.
Como se eu tivesse piscado, exatamente assim, mais rápido do que um mero segundo, encontro-me em uma cabana de madeira escura e lisa elegantemente polida sem móvel algum – com a exceção de uma cadeira da mesma madeira que o resto da cabana – em uma sala onde há uma lareira em uma das paredes.
Mas isso não é o mais surpreendente.
Loki está sentado na única cadeira do cômodo com as costas apoiadas no encosto de pernas abertas em uma pose típica de um rei. De repente, imagino-o sentado assim, com suas roupas de deus, em um trono dourado. Imagino-me entre aquelas pernas, sentada em seu colo no trono. Imagino...
Meu Deus! Não!
– Você não demorou. – Ele fala como se fosse óbvio que eu, ao tocar a maldita adaga enfeitiçada, iria parar bem aqui, diante dele. E eu, deslocada em seu plano mesquinho e na intenção de contrariá-lo por raiva, odeio que exatamente isso tenha acontecido. Loki fita exatamente o ponto onde estão meus olhos, como se pudesse me ver, o que sei que ele não pode fazer porque estou... Fora. Do. Meu. Próprio. Corpo.
– O que foi que você fez? – Grito na esperança de que ele me ouça, sabendo que as possibilidades são quase impossíveis, furiosa além da razão pelo estado em que me encontro.
– Tudo o que eu fiz foi para te ajudar. – O deus garante ao se levantar calculadamente, as palmas das mãos para cima como em sinal de paz.
– Não fale em me ajudar! – Berro para o eco. – Eu odeio você! E não fale como se estivesse me escutando!
– Eu estou escutando você. – Loki rebate levemente irritado, os olhos mais perspicazes do que nunca faiscando em minha direção como em alerta. – Não temos muito tempo, você acordará em breve.
– Eu estou acordada! – Continuo gritando, incapaz de me conter. – Olha, se existe a mínima possibilidade de você realmente estar me ajudando, eu quero uma explicação agora. – Tento fazer força para apertar a adaga entre minha mão trêmula. – Não quero ouvir que não há tempo, que é complicado, e principalmente não quero que você diga “confie em mim”. – Respiro fundo e balanço a cabeça comigo mesma. – Ganhe essa confiança.
Loki me observa calado e analítico enquanto falo, como que contendo qualquer emoção que venha a sentir para me deixar calma, para que eu extravase minha raiva e desconfiança primeiro. Ele assente e aponta para a saída da sala da lareira.
– Venha comigo.
Dou um passo hesitante na direção da abertura da porta onde não há porta alguma – somente um buraco retangular na madeira – e subitamente estanco no chão.
– Você pode me ver? – Pergunto insegura.
– Não. Só posso ver a adaga. É através dela que estamos nos comunicando, então, faça o favor de não perdê-la.
– O que há de especial nessa adaga, afinal? – Pergunto irritada.
– Você me pediu uma explicação. – Loki fala decidido enquanto recomeça a andar, dando as costas para mim, que o sigo cautelosamente pelo corredor escuro de madeira polida. Para uma cabana, o lugar parece extremamente bem cuidado, limpo e bastante conveniente dada a situação. É como se alguém morasse ali. – Vou dá-la a você. A verdade. Tudo.
Duvido, penso comigo mesma quando sigo Loki para dentro de um cômodo pequeno onde há um emaranhado de almofadas verdes e laranjas e cobertores e lençóis brancos em um monte arrumado no chão sobre os quais o corpo de uma garota está repousando.
Ela está desacordada com o corpo voltado para uma larga e ampla porta que dá vista para um lago de água escura e brilhante pelo efeito do sol. A porta de madeira está aberta e a brisa leve da manhã entra como uma antiga convidada, dançando entre os fios de cabelo de Loki, jogando-os para trás enquanto ele me encara soldando minha reação – mesmo sem poder me ver.
A garota deitada na cabana sou eu. Eu estou inconsciente bem na droga da minha própria frente.
Volto a respirar profundamente e a adaga treme na minha mão.
Em um segundo, Loki está diante de mim, segurando no cabo da adaga abaixo de onde minha mão está.
– Ei. – Diz ele em um sussurro tranquilizador. – Eu prometo a você que tudo está bem.
– Conte-me. – É só o que digo, esperando que ele comece a me dizer desde o início o que foi que me trouxe até aqui. O que nos trouxe até aqui.
Ele respira fundo e se afasta de mim, andando até o extremo do quarto, para a parede oposta. Permaneço parada de costas para a porta, desejando sentir o vento no meu corpo.
Quando Loki volta a se virar para mim, sua expressão está completamente vazia e tenho a impressão de que ele está mais pálido que o normal.
– Eu preciso te falar sobre o que Stark disse a respeito de você ter dupla personalidade. – Começa ele, claramente desconfortável, o que revela que ele fará de tudo para esconder o maior número de detalhes que puder, nada satisfeito em ter que partilhar a verdade comigo. Neste momento, mais do que nunca, entendo que Loki faria de tudo para não ter que me contar o que está prestes a me dizer. – Você já deve ter percebido que não é uma pessoa normal. – O deus olha para mim esperando uma confirmação e balanço a cabeça, insatisfeita quando ele não prossegue. Só então me lembro de que ele não pode me ver e sacudo de leve a adaga, sinalizando para que ele prossiga. – Bom, você é o que chamamos de mutante, alguém com o DNA alterado. Isso faz com que você desenvolva capacidades que os outros não conseguem desenvolver. Você manifestou uma espécie de escudo primeiro. É como uma luz que irradia de dentro do seu corpo. Você podia manuseá-la como quisesse: fazê-la sólida, moldá-la como uma névoa, torna-la um campo de força, enfim.
– O que quer dizer com “primeiro”? – Interrompo-o, curiosa.
Loki ergue as sobrancelhas como quem diz “conforme-se”.
– Você tinha dois poderes. – Admite orgulhoso, escondendo um sorriso perverso de divertimento.
– Continue.
Ele respira fundo mais uma vez e não sei dizer se é porque não gosta de estar recebendo ordens de mim ou porque está preocupado com as consequências de tais ordens ou pelas duas coisas.
– Esse primeiro poder quase a matou. – Confessa ele à contragosto e, por mais que tente fazer com que a fala soe natural, posso sentir uma careta que ele também luta para esconder, como se tivesse odiado tal fase da minha vida. – Ele era incrivelmente útil, mas forte demais. Você só poderia continuar usando-o se fosse tão forte quanto ele. E ele testou você. – O moreno suspira. – Não foram testes fáceis.
– O que aconteceu? – Insisto com ele.
– O poder irradiava de dentro de você. Não se sabe ao certo como ou porque, mas, à medida que ele começou a se fortalecer, começou a quebrar os seus ossos. Acontece que esse poder se transformou em uma espécie de armadura que reveste o seu esqueleto. Você passou por, como as mortais dizem, uma dor do inferno. – Loki está sorrindo de uma forma tão tensa que é impossível não reparar em sua mandíbula rígida, o maxilar travado, as têmporas ocasionalmente tremeluzindo à luz da manhã, uma veia indignada pulsando em sua testa. – Depois disso, você passou a pesar duas vezes seu peso normal. Uma vez, Clint Barton tentou bater em você e, quando te acertou, quebrou a mão. Você era a armadura.
– Minha pele continuaria exposta. – Discordo, chocada demais para contestar qualquer coisa. Simplesmente ativo o modo automático, onde me deixo levar por toda a loucura dessa conversa sem questionar a insanidade que estou absorvendo.
– E continuou, mas você era bem treinada. Sabia cuidar de si mesma se alguém estivesse atrás de você, e acredite: muitos estavam. Você se saiu bem.
– Como eu era bem treinada? – Não pude evitar perguntar, agora transbordando de curiosidade. – Quem me treinou?
A profundidade do olhar cortante de Loki sobre mim parece aumentar quando ele sorri contidamente.
– Eu treinei você.
– Claro que treinou. – É minha vez de suspirar.
– Com um par de adagas. – O moreno abre o sobretudo esquisito que está usando e retira de lá uma lâmina prateada com pedras verdes incrustadas no cabo. – Na verdade, com este par de adagas. – Completa ele, indicando com a cabeça a lâmina em minha mão, idêntica à que ele carrega.
– O que há com essas adagas? O que elas fazem?
– Elas são asgardianas. São mágicas.
Quero perguntar mais sobre as armas, porque isso explica basicamente nada, mas lembro-me de não perder o foco.
– Qual era o segundo poder? – Pergunto firme.
– Umbracinese.
Por essa eu não esperava.
– Espere um minuto aí. – Digo, quase gaguejando, rindo pateticamente por puro nervosismo à medida que a ideia vai se fixando em mim. – Você quer dizer tipo... Manipular a escuridão?
A cabeça de Loki vai pra lá e pra cá como se ele não concordasse nem discordasse da afirmação. Ele mantém uma expressão impassível, tornando minhas conclusões a respeito da benevolência do poder impossíveis de ser tiradas.
Olho-o aturdida e furiosa – apesar de ele não poder me enxergar –, demandando do jeito mais rude e violento uma explicação quando atiro a adaga em sua direção.
Loki rapidamente abaixa a cabeça e cobre a lateral da testa com a mão, o rosto de repente em uma máscara de horror. Ao erguer os olhos para mim voltando à sua posição ereta, o deus abre devagar a boca em um choque silencioso.
– Você me cortou. – Acusa ele desacreditado.
Apresso-me em correr até o outro lado do cômodo – mesmo sem entender como exatamente me locomovo estando fora do meu corpo, quer dizer, como é que eu não afundava até o subsolo e continuava caindo até os confins da Terra? – e apanho a adaga, colando-a perigosamente na jugular de Loki, esticando meu corpo ao máximo para alcançá-la, é claro.
– Vou cortar muito mais se você não parar de brincar comigo. – Ameaço. – Caso não tenha notado, eu estou fora da porra do meu corpo. Isso não é engraçado.
– E caso não tenha notado, eu estou tentando te aju...
– Não, eu não notei que você está tentando em ajudar, porque sempre que eu viro as costas e volto a te olhar, você está com uma faca no meu pescoço! — Grito, atenta à ironia da coisa, pressionando ainda mais a lâmina contra o deus.
Loki afasta lentamente a mão da testa e a olha em um misto de mortificação e raiva, encontrando uma pequena mancha de sangue em sua pele alva.
– Tudo bem! – Grita furioso. – Tudo bem! – O moreno ergue as mãos em sinal de rendição e respira fundo tentando se controlar. – Bom, a umbracinese pode ter várias conotações, se é que me entende. Uns controlam a escuridão, outros controlam os caminhos até outras dimensões e outros viajam livremente por esses caminhos.
– Qual deles sou eu? – Pergunto ansiosa e horrorizada. Não parece nada divertido para mim.
– Você viaja por outras dimensões. – Loki responde simplesmente, o queixo rígido e o rosto com aparência um pouco mais suave comparada ao seu ódio de segundos atrás. Ele está tentando...
– Como? – Surpreendo-me com o tamanho do esforço que faço para não gaguejar.
– Saindo do seu corpo.
BOOM!
É como uma bomba caindo diretamente na minha cabeça, como uma onda que quebra avassaladora sobre mim, como um furacão que me tira do chão e arrepia cada pelo do meu corpo.
Os poderes, sair do meu corpo, a umbracinese, a dupla personalidade... Tudo faz perfeito sentido agora! Mas é claro!
Afasto-me de Loki imediatamente.
– É isso o que Stark quis dizer, não é? – Falo rapidamente, as palavras sendo cuspidas com urgência e perplexidade para fora de mim. – Quando eu saio do meu corpo e fico em outra dimensão, como estou agora...
– Outra parte de você toma conta do corpo que você deixou na dimensão em que eu estou agora. – O deus completa a fala, satisfeito pelo meu raciocínio.
– Como assim “a outra parte de mim”? – Pergunto com uma careta.
Loki suspira como que injuriado pelo fato de a explicação parecer não ter fim.
– Quando você viaja por dimensões pela primeira vez, sua alma se fragmenta em duas partes. – Explica com uma espécie de complexidade acadêmica, como um verdadeiro professor. – Uma parte é a que você sempre conheceu, quem você é de verdade. A outra é a soma de todas as suas energias ruins. Sabe toda a raiva e desejo homicida que o ser humano sente quando é traído, por exemplo? – Loki sorri com cinismo e não espera por uma resposta minha: – É a metade ruim tentando tomar o controle.
– Então, você está me dizendo... – Engulo em seco, sentindo que, caso eu sentisse alguma coisa agora, seria meu estômago revirado desconfortavelmente. – No meu corpo, logo ali... – Aponto com a adaga para onde estou deitada. – Quando eu acordar...
– Ela estará lá, dentro de você enquanto você está aí fora.
– Como nos livramos dela?! – Grito em desespero, agradecida por não ser capaz de literalmente chorar deste lado do véu, por assim dizer.
– Honestamente, eu não sei. – Admite um Loki pesaroso. – Da última vez que isso aconteceu, na primeira, nós fizemos algo que aprisionou a sua metade ruim, então, sim, é lógico que ela volte assim que seu corpo recobrar a consciência, mas não há relato algum que nos diga o que fazer para nos livrar dela completamente.
– Você tem que ter algumas ideias. – Ralho determinada, rindo como uma lunática. – O que fez da última vez?
Loki deixa espaço para mais um sorriso malicioso típico de sua realeza.
– Bom, eu tenho uma pequena noção do que fazer.- Admite misterioso. – Mas você terá que fazer uma coisa para mim. – Ele olha novamente na exata direção dos meus olhos, como se esperasse que eu concordasse, para o que apenas o fito curiosa e atenta, esperando por sua proposta. – Tem que abandonar esse escudo que você insiste em usar contra mim. – O deus prossegue, parecendo mais sincero do que nunca. – Tem que esquecer as desconfianças, as mentiras, as traições, tudo. Você tem que se lembrar apenas de que é da sua vida que estamos falando e que estamos juntos nisso, e mais importante: pode ser nossa única chance de salvá-la. Consegue fazer isso?
Dividida entre razão e desespero, medo e choque, olho para mim mesma inconsciente. Sob a mão da garota desacordada, há uma mancha de sangue de tamanho razoável espalhada pelo lençol branco. Um flash de mim mesma no lavabo de Tony Stark pisca memoravelmente em minha cabeça. Viro-a de um lado para outro, de ponta cabeça, seguro-a pela lâmina e tenho quase certeza de que acabo me cortando, mas nenhuma evidência disso aparece em mim, então suspiro decepcionada, pensando em que diabos tenho que fazer com a maldita adaga para conseguir algumas respostas.
Então, eu começo a entender.
Começo a entender que esse jogo no qual me meti é muito mais perigoso do que imaginei. Começo a entender que preciso de ajuda, que não conseguirei passar por isso sozinha. Começo a entender o tamanho das proporções horríveis nas quais me envolvi antes de perder a memória. Começo a entender o significado literal da palavra "medo", quando todas as portas se fecham contra mim, quando o simples ato de respirar parece difícil, quando me sinto tão paralisada que não consigo nem piscar, quando vejo que toda a minha história me levou até um abismo do qual não tive como ecapar. Começo a entender que lutar pela minha vida exigirá a minha própria vida.
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