Alma de Vidro |HIATUS|
15 Capítulo 15. Sete Palmos
Notas iniciais
Para um sujeito que deu uma gorjeta tão generosa para o barman bombado de um bar de beira de estrada, foi no mínimo suspeito que Belkan não tivesse dinheiro para pagar um táxi. E esse detalhe martelou na minha cabeça como uma torneira desenfreada pingando sem parar em meu cérebro pulsante. Eu me lembraria desse detalhe.
Outras coisas ocuparam minha mente quando chegamos a um cemitério com uma placa de metal retangular e enferrujada pendurada por uma corrente de um lado – já que a do outro lado deve ter arrebentado há algum tempo. Diz “Carmaly” no que me parece uma pichação, com spray preto fazendo um risco desproporcionalmente grande no final da letra “y”, como se a pessoa que estava escrevendo tivesse sido subitamente arrastada para longe do pedaço de metal.
Pegamos carona com um sujeito caminhoneiro mal encarado de macacão jeans e boné vermelho que tinha mania de ruminar como uma vaca. Apesar da noite, sua pele clara demais estava avermelhada e os fios louros, molhados de suor. Seus olhos azuis desconfiados nos esquadrinharam de má vontade quando Belkan se meteu no meio da estrada obrigando-o a frear. É claro que nosso mais novo amigo mutante usou seu útil poder de persuasão – se é que me entendem – para amolecer o coração de pedra do caminhoneiro ranzinza.
Por precaução, descemos do caminhão a quatro quilômetros do cemitério – Belkan fez com que o motorista se esquecesse da nossa presença, mas eu imaginei que, se alguém decidisse escavar sua memória, não haveria limites para descobertas.
Assim, afastei-me de Thor, Belkan, Selvig e Sienna assim que passamos pelo antigo portão de ferro entreaberto, pisando na terra seca e maltratada para dentro do cemitério, e me pus a pensar sobre o que Silken propusera. E minhas conclusões vão de ruim a catastrófico.
– Sobre o que você tanto pensa?
É Belkan, aproximando-se em passos lentos e despreocupados, andando com calma até sentar no túmulo ao lado do meu.
– Há algo de errado sobre esse lugar. – Digo aleatoriamente, observando todos os outros túmulos em volta iguais aos que estou sentada: são apenas coberturas finas e instáveis de concreto sempre do mesmo tamanho, retangulares como se representassem os caixões, ou como uma espécie de cobertura para os corpos. Há também sempre uma lápide para cada concreto, com o nome da morta ou do morto, as datas de nascimento e falecimento, algumas possuíam citações de qualquer autor que parentes, amigos, ou seja lá quem cuidou do enterro devesse achar inspiradora, e, mais importante: em todas há um símbolo que nunca vi antes: duas flechas cruzadas com uma rosa bem no meio, no exato ponto onde as flechas se encontram.
Outro ponto curioso é que todas as bases retangulares de concreto estão rachadas – umas com elevações impressionantes, com montanhas de terra entre as rachaduras. É exatamente como se um terremoto tivesse passado por aqui e acordado os mortos.
O pensamento me joga em uma realidade dura e mesquinha, porque imagino quem são as pessoas abaixo de mim.
– Tem algo de errado em todos os cemitérios, Domino. – Belkan rebate com naturalidade, o que atrai meu olhar imediatamente. Deixo o comentário me tragar até suposições confusas e assustadoras.
E eu o entendo. Aquela sensação de vazio, de uma queda sem fim no desconhecido que nunca se revela, de medo, ronda todo e qualquer cemitério. Pelo menos sempre foi assim para mim. Não visitei muitos porque minha mãe – até onde eu sabia – era minha única família, mas, quando alguém morria em uma briga no Harlott’s – e isso era mais comum do que acordar a cada manhã –, eu me sentia no dever e obrigação de comparecer ao enterro mesmo e justamente quando eu era a única pessoa presente. Eram pessoas transparentes, passando pelo mundo como se não tivessem a menor intenção de levar nada dele, de deixar nada para ele e eu sentia pena e agonia por elas, tão preocupadas com bebidas alcoólicas e demonstrações públicas de poder que jamais se ocuparam com pensamentos progressistas. Pena.
Eu me lembro de deixar rosas azuis junto ao descanso final dos desconhecidos, porque rosas azuis representam o infinito e o inalcançável. E é isso que o que imagino que a mística arte da morte significa para mim – e é assim que desejo que minha passagem pelo mundo seja lembrada.
De qualquer maneira, fito o vazio à minha volta sempre de forma pensativa.
– As pessoas vêm aqui para ficar em paz. – Digo desconexamente, sem ter muita certeza sobre o que estou querendo dizer.
– Paz? – Belkan ecoa revoltado. – Você chama isso de paz?! Todas essas almas aqui, debaixo da terra, tão silenciosas e tão barulhentas ao mesmo tempo? Presas no meio do nada, você acha que elas estão em paz?
– Talvez elas estejam. – Digo sem nunca tirar os olhos do local ao meu redor, sem nunca tirar a atenção dos mortos que me rondam. – Talvez os perturbados sejamos nós. Talvez tenhamos muito medo do que não entendemos. Talvez esse medo nos leve a loucura.
– Não é medo do que não entendemos, Domino. – Posso perceber, pela visão periférica, que Belkan esboça um meio sorriso sarcástico. – É medo de algo que conhecemos muito bem. Porque não estamos falando da morte, nem do cemitério, e você sabe.
Eu sei.
Estamos falando do terrível peso da opressão. Aquele que odiei durante toda a vida. Aquele ao qual os mutantes estão submetidos pela HIDRA, que os obriga a participar de uma organização fascista e nojenta na qual eu cuspo. Isso para não citar a opressão que os mutantes que detestam a HIDRA sofrem por aqueles que a apoiam de livre e espontânea vontade. O mundo não poderia estar mais perdido.
– Eu não acho que Ellendra Silken tenha sequestrado o Capitão América porque ele significa algo para mim. – Digo centrada, sem me dar ao trabalho de perguntar a Belkan se a ameaça que Silken fez é real, sem querer saber os detalhes, somente acreditando que o Capitão está realmente em mãos perigosas. Finalmente olho para Belkan, que me encara de volta inquisitivo, interessado no rumo da conversa. – Eu acho que ela sequestrou o Capitão América porque ele significa algo para ela.
Ele não me entende e fica claro para mim que está com a mesma teoria que eu tive no início: Ellendra sequestrou o Capitão para que eu ficasse desesperado para correr até ele e salvá-lo e, assim, me apanhar em uma de suas armadilhas para trocar a vida do Capitão pela minha. É claro que ela com certeza daria um jeito de trapacear no encontro e matar o Capitão e me arrastar para algum lugar frio e escuro onde eu seria torturada até a morte.
Essa teoria não faz mais sentido para mim.
Também duvido completamente de que ela não esteja curada. Uma telepata com recursos ilimitados e conhecimento de quem sabe quantos milhares de mutantes? Por favor, a mulher é membro da HIDRA. Sienna com certeza não é a única capaz de dar um jeito naquele joelho.
Não, ela está novinha em folha e nada disso se trata de uma cura.
O que não entrava na minha cabeça: por que o Capitão?
Eu admirar o homem não é motivo suficiente para infiltrar-se ou invadir – não sei qual método foi usado, apesar de suspeitar que os poderes de mudar de forma e de controlar a mente tiveram algo a ver com isso – a SHIELD arriscando um flagra que colocaria em risco o futuro da HIDRA. E, se o objetivo era sequestrar alguém que, de alguma maneira, significasse algo para mim, por que não Tony Stark – que salvou minha vida e que, pela minha linha de raciocínio, tem uma relação bastante curiosa com minha mãe –?
Assim, pensei em algo mais elaborado e grandioso, que envolvesse uma vantagem avassaladora para uma ditadora como Ellendra. A única coisa que valeria a ousadia de sequestrar o salvador da América: uma mensagem de direita que faria com que as pessoas contra a HIDRA morressem de medo e as pessoas a favor de juntassem a ela mais do que depressa.
– Eu não sou idiota, Belkan. – Digo com uma calma surpreendente para um momento decisivo como este. – Ellendra conheceu meu pai. Ela já o citou mais de uma vez e falou sobre a personalidade dele. – Explico. – Se o que você disse sobre Valen é verdade, então suponho que você não é o único mutante familiarizado com o nome “Hepburn”.
– Em primeiro lugar, considere-me ofendido com esse “se o que você disse sobre Valen é verdade”. – Diz Belkan com expressão séria, as sobrancelhas franzidas como se ele ainda tentasse entender o que estou dizendo. – E, em segundo, não sou mesmo. Seu pai ficou famoso em sua luta para combater a HIDRA. Não há um mutante daqueles tempos que deseja a queda definitiva de Ellendra que não se lembra do nome “Hepburn”.
– Eu imagino que esse Ponto de Winker seja um lugar público. – Sondo mais uma vez.
Belkan está no auge de sua confusão. Ele não entende minhas perguntas e não faz ideia de onde estou querendo chegar. Seus olhos se estreitam cada vez mais e ele me olha em um misto de irritação, dó, admiração e determinação. Tento ao máximo ignorar tudo isso.
– É. – Diz ele pacientemente, incentivando-me a prosseguir.
Coloco-me de pé e ando até o final do retângulo rachado onde estive sentada, falando como se Belkan não estivesse presente, como se conversasse comigo mesma, não me dando ao trabalho de olhar para ele.
– Se meu pai tem toda essa fama de revolucionário, deve haver um bocado de mutantes que o apoiaram e o apoiam. Assim sendo, se, por exemplo, eu morrer e eles ficarem sabendo, isso seria meio que catastrófico, considerando que eu sou a herdeira Hepburn.
– É. – Belkan repete quando vidro o olhar calculista nele, como que perguntando se ele está me acompanhando. Sinto-me mil anos mais velha que ele, explicando os princípios básicos da matemática para uma criança de seis anos. Mas seus olhos começam a brilhar de maneira incerta e calorosa, como se finalmente ele tivesse alguma pista do que estou lhe revelando.
– Isso seria ótimo para a HIDRA. Você não vê? – Pergunto abismada e ansiosa, a pulsação de repente a milhões de quilômetros por hora, causando uma vertigem estranha em meu corpo machucado. Sinto o calor em cada veia, capilar e artéria e me renovo com o desejo de executar o plano que estou traçando enquanto meus olhos se arregalam involuntariamente em antecipação. – Ellendra quer me encontrar em um lugar público não para me pegar em uma emboscada. Ela me quer morta diante da maior plateia que conseguir reunir. – Passo a língua pelos lábios e balanço a cabeça comigo mesma, sorrindo orgulhosamente sob o olhar subitamente perspicaz e alarmado de Belkan. – Por que o Capitão América? – Continuo, exaltada. – Porque ele é um símbolo para a nação. Um símbolo de justiça para nós, um símbolo de derrota para a HIDRA. Ela tê-lo escolhido para usar contra mim é a resposta para todas as nossas perguntas: ela quer acabar com o sonho de liberdade para os mutantes. Pense a respeito: por que outro motivo ela iria querer nos encontrar em um lugar público? Ela quer a mídia para mostrar ao mundo que pode pisar em toda a nossa oposição.
Belkan se mantém inerte durante um momento, depois fita o chão temeroso e, por fim, põe-se de pé em um salto, os olhos bastante intencionados a pular para fora das órbitas.
– Você está querendo dizer que está lendo nas entrelinhas que Ellendra Silken planeja te matar diante de uma audiência em praça pública, que é onde fica o Ponto de Winker? – Conclui ele de um jeito cético, não sustentando a teoria criada a partir das minhas suposições. – Que isso não é sobre uma cura para ela?
Viro-me para ele, sorrindo de forma quase animalesca.
– É exatamente o que estou dizendo.
– E você sabe de tudo isso porque...? – Incita ele com desconfiança.
– Eu simplesmente sei! – Exclamo sem conseguir explicar o sentimento exultando dentro do meu peito dizendo-me que eu estou certa, que posso sentir o que Ellendra planeja. – Você deveria saber à essa altura que eu sou uma pessoa intuitiva. Além disso, já fui sufocada, já levei um tiro, minha casa explodiu, invadi uma base da SHIELD, botei fogo em um crodocilo e continuo viva. Isso deve contar para alguma coisa, não é? Chama-se “ser esperta”, Belkan.
– Ai, alguém misturou meus medicamentos. – Belkan geme em um lamento cansado, passando as mãos pelos rostos como se sua pele estivesse molhada e ele, secando-a. Depois despenteia os cabelos escuros e olha para mim com um sorriso irônico e cômico. – Ok. – Diz, por fim.
– Ok? – Repito incrédula, encarando-o duvidosa.
– É. Ok! – Ele ergue os braços para o alto por um instante, batendo as mãos nas coxas em seguida e eu, de repente, reparo em como o jeans que está usando cai bem em suas pernas. – Se você tem tanta certeza, quer dizer, nós devemos mesmo esperar pelo pior, não é? – Ele fala como se sua atitude fosse a coisa mais lógica do mundo. – Além disso, não perdemos nada nos precavendo. – Belkan ergue uma sobrancelha inquisidora na minha direção. – Suponho que você tenha um plano.
– Eu não tenho sempre? – Retribuo o mesmo olhar com a sobrancelha arqueada. – Os mutantes que querem acabar com a HIDRA, os que já lutaram contra ela, ou os que querem lutar contra ela, a nossa resistência. – Digo diabolicamente. – Você deveria entrar em contato com eles.
– E depois o quê?
– Você faz muitas perguntas, Belkan. Nunca ouviu falar em improviso?
– Improviso tende ao suicídio, você sabia?
Sorrio para ele, incapaz de esconder meu gosto pela sua falta de fé em mim. Assim, quando tudo desse certo, eu poderia ganhar seu respeito e, claro, o mais importante, humilhá-lo por ter duvidado de mim. Esfregar em sua cara que sou boa o bastante.
– Não vai haver suicídio nenhum. – Garanto eufórica, lutando para esconder minha ansiedade para a ação, aproximando-me de Belkan em passos apressados, parando à sua frente de modo que tudo o que tenho que fazer é sussurrar: – Vamos nos sair bem.
– Será que pode me contar de que diabo está falando? – Ele se irrita. – Você parece o seu pai! Sempre falando nas entrelinhas, com esse mistério e essas charadas e essa expressão que nunca sei o que quer dizer...
– Mais um motivo para confiar em mim, então. – Aponto secretamente orgulhosa de meu desempenho, lembrando-me de que Jordana falava sobre isso o tempo todo, do quanto sou parecida com meu pai. – Se você acreditava no meu pai, acredite em mim. Eu sei o que estou fazendo.
Tento passar por Belkan, mas ele me barra com uma mão na lateral do meu corpo, esbarrando no local do tiro. Resmungo um “ouch” e vacilo sobre meus pés, lembrando-me esmagadoramente da dor de todos os meus ferimentos até agora.
– Precisa de uma mão aí? – Sienna pergunta ao longe, observando de um túmulo onde estão agrupados Thor, Selvig e ela, todos olhando minuciosa e desconfiadamente a cena entre Belkan e eu.
Apenas fito-a com raiva, por algum motivo ofendida pela oferta.
– Já era hora. – Belkan comenta divertido, sorrindo como um modelo bem pago.
– Qual a graça, babaca? – Pergunto em um reflexo de intimidade que não tenho com o garoto mutante, arrependendo-me no segundo em que o leve xingamento sai da minha boca, esperando que ele não pense que o deslize quer dizer que somos algo como amigos.
Para a minha surpresa, Belkan ri com gosto. Ele aponta com a cabeça para uma Sienna cada vez mais próxima, vindo ao nosso encontro. Percebo que Thor, junto a Selvig, coloca-se subitamente em postura rígida, o rosto fechado, os ombros rígidos, as mãos em punho e a expressão inconscientemente ameaçadora, vidrado em mim.
Assim, tão de repente, me ocorre o pensamento de que nós, eu e ele, talvez sejamos sim amigos. E agradeço silenciosamente por isso.
A garota linda de olhos verdes com a qual não simpatizo de maneira alguma, Sienna, segura minha mão assim que chega perto o suficiente e me gira no ar, deixando o ferimento de bala de frente para ela quando meu corpo para virado de lado.
– Ei, o que está fazendo, Belieber? – Pergunto em uma clara tentativa de mostrar que não gostei do contato, muito menos de rodopiar como uma bailarina.
Sienna está sorrindo o tempo todo e, inesperadamente, coloca a mão debaixo da minha blusa, bem sobre onde a bala me pegou, causando-me uma pontada desconfortável.
Thor dá um passo para frente junto com Selvig antes que um olhar de fascínio roube a expressão de ambos.
Uma espécie de calor irradia da mão de Sienna, passando pela minha pele como a luz do sol, morna e tranquilizadora como se eu estivesse a céu aberto em um dia de verão – exatamente essa mesma sensação no único ponto onde ela está tocando.
Uma vez que ela retira a mão do ferimento, este não existe mais. E não sinto mais nada ali. Seguro minha blusa para cima, encarando a pele lisa e curada do meu abdome.
– Bem legal, hein? – Não parece uma pergunta, e sim uma afirmação de Belkan, que parece realmente feliz por partilharmos um momento como este, sorrindo como um menino. Por um momento, quando Sienna e ele se entreolham, penso nos dois como amigos de infância que se conhecem desde sempre.
– Whoa. – Digo admirada. – Você é boa, Dr. House.
Orgulhosa pelo elogio, Sienna toca o corte acima da minha sobrancelha e o cura também, assim como outros arranhões que eu trazia comigo. Enquanto isso, Thor se aproxima com um cientista bastante deslumbrado ao seu lado.
– Você, mutantes, são criaturas fascinantes. – Diz, encarando os pontos em meu corpo onde não há mais marca alguma. – Excepcionais, realmente. – Completa alternando olhares entre Belkan, Sienna e eu.
Os três, então, engajam uma conversa sobre os outros maravilhosos mutantes que Sienna e Belkan conheceram ao longe de suas vidas de resistência contra HIDRA. É como se os dois soubessem que quero ficar a sós com Thor e tratam de se afastar, caminhando pelo cemitério levando Selvig junto.
Com um suspiro resignado, olho para o deus à minha frente com pesar e com raiva de mim mesma, sentindo um buraco do tamanho de um planeta dentro do peito. O loiro me encara com seriedade um tanto quanto inexpressiva, esperando que eu fale primeiro.
– Thor, eu sinto muito. – Desabafo sentindo-me um caco. Passo nervosamente a mão pelo rosto e respiro fundo. – Eu sei que nada disso estava no nosso combinado e você nem achou sua marreta, eu nos meti em uma enrascada naquele bar e... Eu sinto muito. Não era para ter acontecido.
Sob o olhar atento de Thor, um desejo insano de chorar se apodera de mim.
– O que está dizendo? – Ele indaga ligeiramente confuso, o rosto indecifrável.
– Estou dizendo que acabou. Você não precisa mais andar por aí comigo. Se quiser, posso com certeza te ajudar a pegar de volta seu Mimimi Sei Lá Das Quantas, mas você não deve nem tem motivo para me acompanhar. – Explico.
O deus apenas ri. Ele abre um sorriso enorme todo criança e ri para mim, relaxando instantaneamente.
– Foi tão cômico assim? – Pergunto a mim mesma, encarando-o em descrença. – Nós podíamos ter morrido lá! Você e Selvig... – Minhas mãos voam para meus cabelos, puxando-os para trás em uma tentativa falha de conter o estresse. – Meu Deus!
Thor dá um passo à frente e coloca a mão em meu ombro, abaixando-se para deixar os olhos na mesma altura que os meus enquanto me fita de volta.
– Domino Hepburn – ele fala como que vangloriando meu nome, como se fosse algo digno de se vangloriar. –, com ou sem acordo, você não acha realmente que eu deixaria você agora, acha?
– O que é isso? – Sorrio contra minha vontade, esquadrinhando o loiro de cima a baixo. – Sua honra de deus asgardiano?
Ele dá de ombros, divertido.
– Pode ser. – Admite. – Mas uma coisa é certa: se fui pego no meio dessa batalha, devo enfrentá-la até o fim. Não darei as costas a você.
Volto a respirar fundo e recuo para longe do toque de Thor, cruzando os braços agoniada.
– Por que está fazendo isso? De verdade?
Thor parece atônito quando me afasto, mas logo recupera a compostura.
– Eu acredito em você, Domino. – Ele fala como se fosse o poema mais belo que este mundo já viu, uma certeza imutável e irreversível. – Eu não ligo para o que Belkan pensa. – Definitivamente ele esteve reparando em minha reação à dúvida que Belkan expressou em relação ao meu “ler nas entrelinhas” – Eu acredito que fui mandado à Midgard com o propósito de ajudar, de me tornar uma pessoa melhor. Era isso o que meu pai tentava me ensinar. – Thor fala com uma urgência quase desesperada para que eu o entenda, como se esta fosse mais uma verdade absoluta. – Foi isso que eu não ouvi e eu estou ouvindo agora. Se você vai lutar, eu vou lutar com você.
Uma única lágrima escapa do meu olho esquerdo.
– Eu não posso proteger você.
Thor sorri outra vez.
– Não estou pedindo sua proteção. – Contra-argumenta. – Só o que estou pedindo é sua amizade.
Meus olhos correm por um instante pelo cemitério enquanto retomo o fôlego e um vento cortante me arrepia. A terra, as rachaduras, as lápides... Morte.
– Bom – A promessa de Thor me lembra de que também há vida. –, você já a tem. – Sorrio significativamente para o deus. – Está pronto para o plano?
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