Alma de Vidro |HIATUS|

12 Capítulo 12. Canção De Ninar


Notas iniciais
TENHO QUE AGRADECER A TODO MUNDO PELA PACIÊNCIA E ME DESCULPAR PELA MINHA AUSÊNCIA! Muito obrigada à galerinha que está acompanhando a história. Já sabem que o incentivo de vocês é o que me instiga a querer escrever cada vez mais, né? Ok? Ok UM AGRADECIMENTO ESPECIAL PARA A LETICIA CALAZANS QUE FEZ A PRIMEIRA RECOMENDAÇÃO EM ADV (': UM OBRIGADO ESPECIAL À BLOOD POR SEMPRE ME APOIAR NA MINHA ~CARREIRA~ E POR ME MANDAR COMENTÁRIOS CADA VEZ MAIS LINDOS e por me emocionar tanto e por nunca deixar de me dar alguma satisfação ou de falar comigo

Meu primeiro impulso vem de um lugar enevoado da minha mente, um espaço sombrio reservado para a irracionalidade, para a própria impulsividade, onde eu, de algum modo sei que já estive diversas vezes – quando as paredes ao meu redor parecem cada vez mais próximas, prendendo-me em uma jaula que ameaça me dominar para sempre. É o sentimento que sei que já senti de querer matar com minhas próprias mãos; de saber que sou capaz disso e que gosto de ser capaz disso.

É assassinato.

É raiva.

É ira.

Sou eu?

Agilmente, seguro os cabelos ruivos da nuca da mulher e empurro sua cabeça para frente ao mesmo tempo em que levo meu outro punho de encontro ao osso saliente em sua bochecha, devolvendo o soco que ela se atreveu a desferir primeiro.

Ela está no chão, mas eu não ligo.

– Levante! – Rosno quase a ponto de tremer de ódio, segurando-a pelos cabelos novamente.

Dessa vez, a ruiva apoia o cotovelo no chão e incita as pernas para cima, acertando em cheio um chute no meu quadril, fazendo-me cambalear enquanto se coloca de pé.

– Domino... – Tony Stark me chama de forma hesitante e propositalmente deslocada, como se não quisesse se interferir na briga, mas nunca abandonando sua pontada de ironia. – Já chega.

Ignorando as palavras do bilionário, preparo-me para o contra ataque da mulher, que corre para mim e começa a desferir golpes rápidos e precisos. Ela é claramente treinada e parece estar no ramo da luta há muito tempo. Então é com grande surpresa que descubro que não é preciso muito esforço da minha parte para contê-la. Os golpes dela são inexplicavelmente muito lentos para mim e, antes que ela execute o próximo movimento, consigo prevê-lo e me defender a tempo. É como se meu cérebro soubesse de antemão que ela fita meu ombro direito quando na verdade está pretendendo acertar o lado esquerdo do meu abdome; que ela estreita os olhos sempre que quer assaltar meu olho esquerdo; que ela coloca todo o peso do lado direito do corpo antes de desferi-lo totalmente para o lado esquerdo, quando trocará o punho para me acertar.

Assim, bloqueio todas as suas investidas e, quando me canso de brincar de gato e rato, acerto uma cabeçada em seu nariz, jogando-a para trás. Ela se desequilibra e seu nariz sangra, mas a ruiva não parece nem ligeiramente perto de desistir.

– Posso fazer isso o dia todo. – Informo a ela, começando a achar a situação levemente engraçada.

Ela devia ser uns bons anos mais velha que eu e, ainda assim, eu, sem memória, estou lutando melhor que ela.

– Nat, já chega, por favor, vamos simplesmente esquecer isso. – O sujeito que chegou com ela praticamente implora, o rosto em parte impassível, em parte cansado, como se já não suportasse mais pedir por isso.

– Domino! — Uma voz reprovadora me chama. — Eu pensei que tínhamos superado isso.

Minha atenção é completamente focada no homem moreno de óculos de grau, camisa social e postura tensa que adentra a sala Stark.

– Superado o quê? — Pergunto em um fio de voz, fascinada pelo fato de que também o conheço. A apreensão com que seus ombros se movem, a expressão deslocada em seu rosto, a timidez estampada em seu modo calmo e pacífico de andar, a calmaria emanando de seu corpo... Parece tão característico para mim que o homem chega a exalar o doce cheiro da familiaridade.

– O controle da raiva. — Ele fala como se a resposta fosse unicamente óbvia.

– Agora a festa está completa. — Anuncia Stark, indo ao encontro do homem que parece — olhem só — um querido amigo. — É um prazer receber outro gênio da ciência nesta casa.

Tony sorri ao trocar um rápido aperto de mãos com o sujeito, que também sorri — timidamente.

– Bem vindo, Doutor Banner. — Pepper saúda, também sorrindo, aproximando-se de Tony e também trocando um aperto de mãos com o homem.

– Espera, Bruce Banner?! — Pergunto chocada. — É sério? O dono do trabalho científico mais brilhante do universo? — Deixo escapar uma risada infame. — Ah, caramba!

– Eu não diria que é tão brilhante assim. — Tony resmunga ao lado de Loki, olhando-o em busca de apoio.

– Superestimado durante esses dias. — O deus concorda, olhando o bilionário com uma falsa fagulha de esperança, como se, afinal, houvesse salvação para o humano.

– Eu sou uma grande fã. — Informo ao doutor com um sorriso que parece não querer se desmanchar. — Na verdade, sou a maior fã. A fã número um. Considere-me uma tiete do mundo da ciência.

– Não exagere. — Tony me dirige uma careta zangada e entediada.

É a vez de Thor se aproximar e também apertar a mão do doutor.

– Bom vê-lo outra vez, Doutor Banner. — Cumprimenta o loiro com seu sorriso infantil e com Jane Foster ao seu lado.

– É uma grande honra, Doutor. — Diz ela devota enquanto se apresenta em um novo aperto de mãos. — Sou Jane Foster.

– Ouvi falar muito em você, senhorita Foster. — Diz Bruce, educado. — Você também não fica atrás no quesito ciência.

– Ah, que ótimo! — Diz Tony mau humorado. — Agora qualquer um pode achar que é cientista. Ele se vira para Pepper indignado. — Viu só isso?

– Olá, doutor Banner. — Diz o Capitão, aproximando-se da roda que se formou ao redor de Bruce. Clint e Natasha também dão seus cumprimentos e logo estamos todos em silêncio, sem saber o que falar.

– Bom, atendendo ao meu desesperado convite — Começa Stark. -, o doutor Banner nos presenteou com a sua presença nesse momento de escuridão para tentar o que chamamos de terapia ocupacional. Ou qualquer coisa parecida.

– Espere. Você quer que ele me hipnotize ou sei lá o quê para que eu recupere minha memória?

– Mais ou menos isso. — Tony começa a escolher com precisão as palavras, parecendo de algum modo um pouco mais sério do que o habitual. — Apesar de não se lembrar, você, pirralha — Ele aponta para mim com ênfase. — tinha o que chamamos de dupla personalidade, o que quer dizer que, de vez em quando, você saía para dar uma voltinha e sua metade maligna saía para brincar no seu lugar.

– O quê? — Ecoo incrédula. Cética. Triste. Chocada. Pensativa.

Será?

– Isso pode ser muito difícil de aceitar, mas creio que você já percebeu que não é exatamente o que se pode chamar de "pessoa normal". — Tony pontua e os olhares de todos à minha volta parecem ficar ainda mais focados em mim, cem por cento alertas esperando por uma confirmação que não vem. — E, por mais que eu odeie comcordar com Natasha Romanoff — Sua cabeça se inclina na direção da ruiva valentona. — e Clint Barton — e depois na direçao do sujeito ao lado dela. -, que Deus perdoe minha insolência, eles estavam certos quando chegaram aqui e disseram que você não pode ficar sem se lembrar de nada para sempre. Isso seria grave.

– Vocês estão todos loucos? — Loki pergunta de repente sem olhar para ninguém em particular. Seus olhos estão estreitos como ficam quando ele está tremendamente irritado com algo e está se contendo como o deus elegante que é. Seu olhar é comodamente frio e duro, repreensivo e sério. — Com tantos métodos ilimitados de poder, vocês realmente acham que é uma boa ideia chamar o monstro para resolver nossos problemas?!

– Não o chame assim. — Digo imediatamente de forma pouco consciente, a frase mais para um pedido cansado do que para de fato uma ordem.

– E como quer que eu o chame? — O fogo verde dos olhos de Loki se dirige a mim, queimando-me em labaredas disformes e surpreendentemente dolorosas. — Ele ser uma boa pessoa não importa, nem você nem ninguém aqui pode controlar o que ele tem dentro de si. Você, entre todas as pessoas, deveria saber disso.

– De quem estamos falando aqui, Loki? — Indago sem ter certeza se ele está se referindo a Bruce, a mim, a ele mesmo ou a todos os três.

O deus ri majestosamente e olha em volta como se fôssemos todos alunos aos quais ele pretende ensinar uma preciosa lição.

– Eu sei onde vocês querem chegar e se a ideia é trazer à tona o outro lado da moeda, eu tenho uma ideia melhor: — Loki sorri diabolicamente, um anjo de terror cravado em pedra. — Ellendra Silken.

Todos os vidros presentes na sala — desde os que adornam o decorrer do cômodo em lugar de paredes de concreto até as mesas de centro próximas ao sofá — explodem.

Simlesmente assim. Sem o menor aviso. Sem que eu mova um músculo.

Ainda assim, sei que fui eu porque meus olhos ficaram embaçados e entraram rapidamente em foco. Isso parece um sinal.

Minha visão ansiosa corre pela sala em busca de maiores estragos que posso ter causado e econtro Thor com seu corpo imenso debruçado sobre Jane Foster do mesmo modo que Stark está protegendo Pepper, Bruce Banner com as mãos bagunçando o cabelo na tentativa de se livrar de pequenos cacos de vidro. Natasha Romanoff com um corte na bochecha para o qual Clint Barton olha desgostoso, o Capitão, assim como eu, está observando a cena à sua volta e, quando olho para trás, minha boca se abre em um perfeito O de choque.

– Oh, Meu Deus! — Digo em pânico quando me deparo com Loki ensanguentado segurando um estilhaço do tamanho de um taco de baseball enquanto sangue e mais sangue flui da curvatura entre seu pescoço e ombro. Ele está de pé como se nada tivesse acontecido, segurando o vidro como se este pudesse ser o pote de geleia que ele estaria prestes a espalhar sobre uma fatia de pão.

Dou um passo duro e desajeitado na direção de Loki e, antes que eu o alcance, o deus dá um passo para trás, largando sem cerimônia o estilhaço.

– Não é mais que um arranhão, Domino. — Diz o deus, menosprezando completamente o que com certeza já teria matado o mais forte dos humanos com uma breve careta de insignificância.

– Então ele de fato sangra. — Thor diz de repente ao meu lado, fitando o irmão com clara preocupação e ao mesmo tempo de modo brincalhão, como que para não alarmar o moreno, como se ambos compartilhassem de uma piada interna com a frase, para o que Loki revira os olhos.

– Não está bonito. — Alerto, cada vez mais corroída pelas garras do medo.

– Ele precisa de pontos. — Instrui o Capitão.

– Eu posso ajudar. — Pepper se voluntaria e Tony a olha comicamente.

– Não pode, não. — Diz ele e Loki ergue as sobrancelhas, olhando para o teto entediado.

– Querido...

– Você tem aquela coisa. — O bilionário insiste. — Aquela coisa horrível que nos faz vomitar quando vemos sangue.

– Eu não...

– Posso ver em seus olhos. Você está com medo. Muito medo. — Stark coloca confortavelmente o braço sobre Pepper. — Não precisa passar por isso, meu bem.

Pepper rola os olhos e me lança o melhor olhar de desculpas que consegue.

– Eu faço. — Jane se oferece. — Você sim tem a coisa horível com feridas que te dão agonia.

– Não necessariamente sangue, mas... — Tento explicar, desconcertada.

– Eu não imagino que você tenha a mínima ideia de como costurar a pele de alguém. — Ela completa sorrindo, para o que esboço uma falha tentativa de sorrir de volta.

Jane se aproxima de Loki, que a olha com a expressão sacana de quem não está sorrindo por fora, mas está tripudiando por dentro, como que desafiando-a a ir chegando perto, sabendo que, por menor que possa ser seu efeito sobre ela, ele a intimida. Parte de mim pensa que ela só se colocou à disposição por saber que Thor e eu não a deixaríamos sob hipótese alguma sozinha com Loki. E a ideia quase me faz rir. Loki para mim parece tão inofensivo nesse sentido. Não o imagino fazendo qualquer mal a Jane Foster. Jamais.

– Hm. Domino? — Jane me chama. Olho para ela distraída, perdida em pensamentos e só então percebo que minha mão está ao redor do braço não ensanguentado de Loki.

– Você precisa me soltar primeiro, amor. — Loki comunica como o galã protagonista de algum filme antigo, adorando a ideia de expor afetos comigo em público e ainda mais adorando a ideia de mexer comigo.

Recolho a mão como se tivesse levado um choque — o que, de certa forma, de fato aconteceu.

Pepper se adianta em dar as coordenadas até o amplo lavabo no andar de baixo dizendo-nos em que armário está o kit de primeiros socorros que precisaremos e, quando Jane, Thor, Loki e eu começamos a nos encaminhar para lá, o Causador do Caos estanca os passos inesperadamente, virando-se para o restante de nós com ar convencido.

– Banner. — Diz com falsa inocência. — Você é um médico. Você pode me concertar, não é assim que os mortais dizem?

Bruce parece tão surpreso quanto eu ao encarar o deus e sua expressão logo mostra uma desconfiança secular da qual eu compartilho. A única razoavelmente aliviada parece ser Jane.

– Jane. — Pepper a chama na intenção de aliviar a tensão. — Você me ajudaria a fazer um café? — Ela sorri com uma pontada de loucura. — Acho que todos estamos precisando.

– Claro. — Jane responde de prontidão, lançando a Thor um sorriso calmo que ele retribui.

– Você pode ir, irmão. — Diz Loki em tom de desprezo. — Eu odiaria ser motivo de inconveniência.

– Claro. — Dizem Steve e Stark em conjunto, ambos sarcásticos e nada satisfeitos com a declaração do deus da trapaça.

– Podem ir, é só uma sutura, pelo amor de Deus! — Quase grito, enfezada. — Querem que eu quebre mais alguma janela?

– Não! — Tony responde rápido demais em um grito desesperado e, apesar da gracinha, sei que ele entendeu o que eu quis dizer: "deixem-me sozinha com Bruce e Loki de uma vez para que tudo se resolva antes que eu perca o controle de novo e faça chover estilhaços sobre as cabeças de todos". Afinal, não é algo que eu possa prever ou controlar.

– Stark. — Barton chama. — Você devia ir. Eu fico com eles.

Faço que sim com a cabeça depois que Tony lança uma olhadela a Pepper.

– Vai ficar tudo bem. O pior já passou. — Incentivo.

– Eu estarei logo aqui ao lado. — Ele me diz com seriedade como se eu fosse a garotinha de cinco anos que ele já botou para dormir. Assentindo, esboço para ele algo como um sorriso triste e melancólico antes de lhe dar as costas e caminhar junto a Bruce, Loki e Barton.

Quando estamos os quatro dentro do imenso banheiro, Loki trata de fechar a porta e trancá-la, virando-se para nós como se revelasse que não está para boas intenções.

– Olhem, eu lamento por isso, mas a única terapia que vai funcionar é a terapia física.

Dito isso, ele segura Barton por trás, pelo pescoço, de modo que o homem comece a sufocar e se contorcer.

Faço menção de correr até os dois para impedir qualquer loucura que Loki venha a fazer, mas Bruce me segura pelo braço, alertando-me com o olhar para que eu não faça nenhuma idiotice que piore a situação. "Ele não vai machucar ninguém.", ele quer dizer. "Só quer provar um ponto, é só isso. Vamos ver o que é e sairemos todos bem desta insanidade".

Mas não é um discurso bom o bastante quando o corpo de Barton escorrega até o chão. Desacordado, ele me passa uma sensação de adrenalina e temor inexplicável.

– O que você está fazendo? — Pergunto a Loki furiosamente, atenta a cada mínimo movimento de seu corpo, colocando-me à frente de Banner.

– Calma, agora. — Ele adverte. — Você não quer provocar a fera.

Encaro o deus como se ele fosse louco.

– Que fera?

– Você descobrirá. — Ele garante com um sorriso de felino que arrepia todos os pelos do meu corpo.

– Loki, isso não tem graça, pode parar agora! — Rosno para ele.

– Isso só para quando você se lembrar de tudo. — Ele rebate, tão elegante e tão bonito e tão sombrio ao mesmo tempo que tão irritante que não tenho ideia se quero beijá-lo, socá-lo ou construir um monumento em sua homenagem.

– Loki, já chega. — Bruce intervém. — O que quer que você planeje fazer...

– Está tudo bem, doutor. Você não precisa ficar nervoso. Você sabe que eu não vou machucá-la. Só quero tentar algo que os outros nunca me deixariam tentar.

– Soa como se fosse machucá-la.

– Muito bem! — Digo no limite da tensão. — Basta. Só me diga o que você está armando, Deus da Baixaria. Como se não bastasse todo esse estresse, você quer revelar seu plano master no banheiro enquanto estamos tentando não deixar que você sangre até a morte e...

A gargalhada desrespeitosa de Loki me aborrece mais do que teria me aborrecido se ele me perfurasse com uma lança.

– Isso? — Pergunta ele apontando para a curvatura de onde o sangue continua escorrendo. — Sinto muito, Doke, não é real.

Como se o sangue nas roupas e no corpo do deus não fossem nada mais do que água evaporando em velocidade record, ele some. Desaparece. Desmaterializa-se de um segundo para outro.

– Que diabo...?! — Começo a dizer, sem saber o que mais falar ou por onde começar a expressar toda a indignação e ódio que começo a nutrir pelo truque desumano no qual caí sem nem ao menos me dar ao trabalho de suspeitar de algo.

– Nós não temos tempo para isso, Domino. — Loki me corta curto e grosso. — Eu vou precisar da sua ajuda, doutor.

– Loki, pare enquanto você pode. — Bruce pede de forma cansada, dialogando como a pessoa calma que é. — Você sabe que eu não posso fazer nada para impedir você porque nós dois sabemos o que acontece quando meu coração fica acelerado, mas não faça mais nada para piorar a situação.

Bruce não parece nem um pouco surpreso com o desempenho de Loki assim que o sangue sumiu. Eu deveria saber. Deveria ter visto isso vindo.

– Isso é exatamente o que eu quero. — O deus revela. — O seu coração acelerado. Não precisa ser nada catastrófico, só preciso da intensidade das suas lembranças.

– O quê? — O doutor e eu perguntamos juntos.

Loki revira os olhos mais impaciente do que nunca e se aproxima de nós.

– Deem as mãos. — Pede ele. — Deem logo! — Repete quando Bruce e eu não nos movemos. — É importante que deem as mãos para que a intensidade das lembranças do monstro passem para você.

– Para que passar isso para mim?

– É, para que passar isso para ela? — Bruce repete a pergunta como se fosse inconsciente/indiferente ao fato de Loki tê-lo chamado de "monstro".

– Porque o efeito que isso terá sobre ela é o que chamamos de resultado. Agora, deem logo as mãos.

Meço Bruce com um olhar e ele assente, certo de que, se não fizermos o que Loki diz, aqui encurralados no banheiro e longe de testemunhas, um mero grito de nossa parte poderia significar algo muito ruim — e talvez relacionado a tal fera a qual Loki se refere.

Assim, damos as mãos um de frente para o outro e eu respiro fundo, preparando-me para o que quer que aconteça em seguida.

– Sem pânico. — Loki fala ao abrir seu sobretudo asgardiano parcialmente para retirar de lá uma adaga prata com pedras verdes adornando o cabo. Pedras que brilham como a luz da lua, emitindo porém, uma luz mais mágica e envolvente, de cor verde.

– O que tem aí? — Pergunto, referindo-me ao brilho.

– É magia, querida. — Loki sorri para mim e desliza a adaga abilmente próxima à minha mão e à de Bruce. — Segurem juntos como se continuassem dando as mãos.

Seguimos as instruções e a luz logo começa a irradiar com mais força da adaga, fluindo para mim como névoa entrelaçando-se em meu corpo.

– Uau. — Consigo expelir, bestificada pelo efeito de calmaria que ela tem sobre mim.

– É. — Loki diz como se a arma lhe trouxesse boas lembranças.

Minhas mãos estão entrelaçadas às de Bruce enquanto quatro mãos seguram juntas a adaga.

– Isso só funcionará com a sua ajuda porque você também sofre de dupla personalidade, doutor. — Loki explica. — Agora, fechem os olhos.

– Eu não estou gostando nada disso. — Declaro para que o momento de desconfiança não passe em branco.

– Feche os olhos.

Bufando e contra a minha vontade, fecho os olhos.

– Banner. Um passarinho azul me contou que você costumava ter alguém especial ao seu lado.

É estranhíssimo não ver nada que não seja breu enquanto se ouve a voz de Loki. É como um conto de terror do qual você está involuntariamente participando. Mais do que ouvir, você parece ser sugado para dentro de um mar repleto de tubarões apenas espreitando à sua volta, prontos para arrancar a carne de seus ossos à primeira e mínima oportunidade.

Sinto Bruce estremecer e deduzo que este é um assunto delicado.

– Certa doutora com a qual você tinha um relacionamento. Uma mulher bonita, pelo que sei. Você se lembra dela?

A luzinha curiosa da adaga é como álcool. Logo começo a notar os sintomas: ansiedade, separação da realidade, desequilíbrio, mente anuviada, perda de controle... Banner que o diga. As mãos dele me apertam cada vez mais forte — não na intenção de conter a raiva que possa estar sentindo, mas para manter-se são.

– Lembra-se dela ou o monstro levou essa lembrança embora da sua mente? — Loki insiste, determinado a ir com seu plano até o fim. — Eu sei que você podia matá-la com o mais suave toque.

Um grito de surpresa corre para fora da minha boca quando as mãos de Bruce esmagam as minhas sobre a adaga. Quero abrir os olhos, mas meu corpo não os abre.

– É isso que acontece nos seus sonhos? Em seus pesadelos? Você esmaga a cabeça dela em suas mãos até que não haja nada além de pó?

Bruce urra de forma estranha, como um animal faria, e não um ser humano. Sinto seu corpo se contorcer como se estivesse tendo um ataque epilético e tento dizer alguma coisa — qualquer coisa -, mas é como se a luz verde tivesse realmente se tranformado em uma névoa que, em contato com o meu corpo, impede-o de se submeter á minha própria vontade.

– Ou você a rasga ao meio como se ela fosse um papel sem uso?

O doutor aperta com mais força minhas mãos e a adaga parece cada vez mais quente sobre nosso toque desesperado, emanando um calor não natural através de meu ser.

– Seu coração já está acelerado, fera? — Posso sentir o sorriso perverso na voz de Loki e, então, um grito estridente altíssimo como o de uma fera de verdade passa cortando por minha audição.

As mãos de Bruce crescem umas trinta vezes de tamanho, soltando rapidamente a adaga.

É quando eu começo a tremer compulsivamente e também largo a adaga, derrubando-a no chão onde caio logo em seguida. Meus olhos continuam fechados e sinto que estou prestes a ter uma parada cardíaca com o coração apertado contra o peito querendo rasgá-lo a todo custo, a sensação térmica variando bruscamente de insuportavelmente quente para insanamente gelada sem parar, os globos oculares revirando-se dentro das órbitas mesmo com as pálpebras abaixadas...

Imagino que ser eletrocutado sobrenaturalmente deve ser mais ou menos assim — só que menos doloroso.

Loki diz que sente muito, que gostaria que não tivesse que ser assim, mas que tinha que ser e que ele sabia o que estava fazendo.

–x-

O banheiro está em completa escuridão quando abro os olhos, não mais banhado pela luz do dia.

Encontrando o cômodo vazio e percebendo que estou inexplicavelmente de pé sem me lembrar de ter levantado, vou para o corredor, caminhando até a sala.

Clint e Natasha são os únicos lá, mas eles não parecem notar minha chegada. Ambos estão demasiadamente pensativos e ansiosos — tensos até — sem trocar uma palavra um com o outro.

Não consigo pensar em nada bom o suficiente para dizer uma vez que ambos estão deliberadamente ignorando a minha presença, então limito-me a perguntar:

– O que aconteceu?

Nada. Os agentes continuam com suas expressões mortificadas como se eu não estivesse aqui.

Estou prestes a abrir a boca para gritar com os dois, mas então Steve aparece. Ele passa direto por mim e lanço-he um olhar tenebroso, magoada por sua falta de etiqueta. Vindo dele, eu diria que a atitude me causou um vazio no estômago, mas a verdade é que nem sinto meu estômago. Ou qualquer outra parte do corpo.

– É oficial. — Diz ele com pesar, os olhos azuis mais apagados que nunca, vermelhos como se ele não dormisse há tempos. Clint e Natasha o fitam com atenção redobrada enquanto o loiro respira fundo antes de falar. — Domino está em coma.

Notas finais
JURO Q MEU NYAH TÁ COM PROBLEMA NAS NOTAS INICIAIS:::::: Agradeço também os comentários que são importantíssimos como meio de comunicação e como um meio de mandar ataques cardíacos à autora (eu) que fica iludida e felicíssima quando os lê