Alma de Vidro |HIATUS|
13 Capítulo 13. Deus Abençoe A América
Notas iniciais
– Belkan? — Repito irritada. — Que tipo de nome é Belkan? Você é o quê, um Pokémon?
– Sou um telepata, na verdade. Mas mais respeito com o Pikachu, irmã. — Ele rebate em um tom ofendido que quebra a última barreira que interpus contra minha raiva.
Com a mão trêmula e tensa, agarro o pescoço de Belkan e bato seu corpo na parte de trás de um dos pilares de madeira que rodeiam o balcão, tirando seus pés do chão.
– Respeito eu vou te mostrar quebrando todos os seus dentes. — Rosno para ele, esticando cada vez mais o braço que o mantém pendurado. — Escuta bem, patifezinho: acho bom você parar de bancar o esperto e não me olhar com essa carinha de playboy, porque, se você é um telepata, ainda não inventaram um nome para o que eu sou.
Thor e Selvig rapidamente se aproximam assim que percebem minha menção à briga, ambos colocando-se ao meu lado.
– Algum problema aí? — Pergunta o atendente anteriormente adornado por Belkan, a cabeça tombada em nossa direção, tentando ver o que está acontecendo atrás do pilar.
– Não. — Thor toma a frente, colocando sua mão enorme sobre a parte de cima do meu pulso, arrastando minha mão para longe de Belkan, fazendo-o cair de volta ao chão ofegando. — Está tudo bem.
Belkan deixa escapar uma tosse fraca e vira-se furioso para mim.
– Escuta aqui, princesa — Diz ele em irritação contida, segurando meu braço como que por reflexo. -, calminha aí. Eu não sou quem você pensa que sou.
– Para trás, suspeito. — Thor ralha com ele, segurando-o pela gola da camisa azul/cinza claro.
Belkan solta meu braço imediatamente e ergue as mãos. Mas não por medo. Não por se sentir ameaçado por Thor. Ele quer descrição. Quer que o escutemos e, acima de tudo, quer que confiemos nele. E isso me parece mais suspeito do que se ele apontasse uma faca na minha direção.
– Ei, pega leve, Barbie. — Diz uma voz feminina vinda de trás de mim que chama a atenção de todos com a exceção de Belkan, que não tira os olhos de mim. É a morena dos cabelos longos na qual reparei minutos mais cedo, a que é bonita e tem olhos verdes. Ela dá um passo na direção de Thor antes que eu, zangada, me coloque em seu caminho.
– Ninguém além de mim o chama de Barbie, queridinha. — Alerto-a, minha visão ficando totalmente embaçada e logo em seguida mais clara do que antes. Meu Deus, essa raiva homicida! – E, até onde eu sei, vocês dois são os capangas do mal que me querem morta, então me dê uma boa razão para não estraçalhar os ossos do seu amigo aqui e agora.
– Não somos quem você pensa que somos. — Belkan insiste e Thor volta a bater o corpo dele contra o pilar. — Não somos parte da HIDRA, Domino! — Ele repete com mais urgência, parecendo pela primeira vez genuinamente sério.
Olho em volta pela visão periférica em busca de qualquer objeto que possa me dar alguma assistência em uma situação como esta, porque sei que, a qualquer momento, a garota à minha frente vai investir contra Thor para que ele se afaste de Belkan e, sem saber qual o seu poder, não posso arriscar uma luta entre ela e meu parceiro. É quando vejo de relance um brilho prateado sobre uma mesa bem ao meu lado. Apanho-o depressa.
– É o que você continua dizendo, — Digo, apontando-o para a garganta da garota enquanto seguro seus cabelos com a outra mão, expondo o pescoço dela para mim. -, mas me dê uma razão para acreditar nisso.
Belkan ri como que por um fio e balança o que pode da cabeça.
– Abaixe isso, Domino.
– Ou o quê?
– Você não vai fazer isso.
Pela expressão da morena, ela não está tão convencida. Selvig apenas observa a cena atento, sem proferir uma palavra na presença de estranhos até então, furtivo como um bicho do mato que escolhe a hora perfeita para interagir no ambiente. Thor, por outro lado, apesar de estar imobilizando Belkan – mesmo eu suspeitando que Belkan poderia se “desimobilizar” quando quisesse –, me encara como um fiel escudeiro, sem sombras de dúvida no rosto, disposto a fazer parte e me apoiar em qualquer que fosse a minha decisão.
– Não vou? – Arrisco perguntar, pressionando a faca ainda mais rente ao pescoço da garota. – E por que não?
– Porque eu conheci o seu pai e se você é qualquer coisa como ele, não vai usar essa lâmina.
Eu sei que deve ser um truque. Sei que ele diria qualquer coisa para me convencer a acreditar que está do meu lado. Mas a menção ao meu pai me faz vacilar como corda bamba.
A única lembrança que eu tenho do meu pai é a da noite em que ele partiu para nunca mais voltar. Eu me lembro de que ele me colocou para dormir dizendo coisas sem sentido como que para se despedir sem jamais realmente dizer adeus. Lembro-me de como passei a noite inteira em claro perturbada pelo que ele disse, tentando entender o significado das palavras, para, no dia seguinte, minha mãe me informar que ele se fora. Eu perdi a conta de quantas vezes a questionei sobre o assunto, mas, na maioria das delas, tudo o que Jordana fazia era chorar e gritar comigo, então, com o tempo parei de questioná-la. Tentei pesquisar qualquer coisa sobre meu pai, mas não havia fotos, não havia documentos, não havia qualquer registro que confirmasse que ele havia sequer existido um dia – não havia nada. Também tentei a internet, mas ela não me trouxe nenhuma informação que eu já não tivesse – apenas coisas sem relevância para minha busca. Não que eu tivesse me conformado com o desaparecimento do meu pai – isso machuca como se tivesse acontecido ontem –, mas aprendi a ser paciente sobre o assunto e recentemente comecei a pensar que talvez, por mais horrível que fosse, eu poderia jamais descobrir o mistério por trás da vida de Valen Hepburn.
Acima de tudo isso, começo a entender um conhecimento conturbado sobre o que Belkan acaba de dizer.
Afasto a faca da pele de Sienna, que se põe depressa para longe de mim com uma careta de raiva enquanto deixo que o objeto caia no chão.
– Domino. – Selvig me repreende, falando em tom de alerta.
– Conheceu? – Repito sem me empenhar em conter as lágrimas que inundam pouco a pouco meus olhos. Sinto meu corpo dormente como se tivesse sido posta para boiar sobre uma água nostálgica e mórbida em um lugar tão distante que não consigo enxergar o caminho de volta. – Você acabou de dizer que o conheceu?
A expressão de Belkan muda drasticamente de urgente para uma surpresa pesarosa.
– Jordana nunca...? – Ele começa a perguntar, mas para antes do final da frase, deixando as palavras restantes morrerem no ar, indeciso sobre o que falar. – Domino, eu sinto muito mesmo.
– Não sente o suficiente. – Sibilo por entre os dentes e a luz violeta que parece tão familiar para mim começa a envolver meu corpo em uma neblina aconchegante, como um cobertor que quer me proteger do clima gelado.
– Valen Hepburn era uma lenda e eu o admirava mais do que ninguém e posso te contar tudo que você quer saber sobre ele, mas não aqui. – Belkan insiste, fixando um olhar sério e profissional em Thor, como se dissesse que cansou de brincar e que chegou à parte importante da conversa. A princesa logo o solta e se afasta, imóvel como se fosse feito de pedra. – Domino, se eu segui você desde aquela base da SHIELD até aqui, pode ter certeza de que não fui o único. Nós. Temos. Que Ir.
Lanço um olhar inquisitivo a Selvig, para o qual ele apenas me encara circunspecto, alertando-me de que, apesar de tudo, esta parte pode muito bem ser verdade.
– Por que essa gente está atrás de mim? – Pergunto a Belkan. – E por que eu deveria confiar em você?
No lugar da resposta de Belkan, a porta do bar é arremessada bem na nossa direção, explodindo para longe de suas dobradiças diretamente para cima de nós.
O impacto lança poeira e lascas de madeira para todo o lado e, debaixo dos pedaços de porta e mesas e cadeiras que tombaram na confusão, urro de dor e me viro no chão, colocando-me deitada de barriga para cima e erguendo a blusa até o ponto necessário para espiar meu ferimento de bala sangrando no abdome por baixo do curativo. O ponto na minha testa que Ellendra Silken arrebentou contra a grade da escada da minha finada casa também começa a latejar e, de repente, levantar parece muito difícil.
Localizo Selvig inconsciente debaixo de uma pilha de madeira bem à minha frente e não vejo Thor em lugar nenhum.
– Domino! – Ouço Belkan gritando adoidado e penso que, se eu fosse sua amiguinha dos olhos verdes, estaria uma fera por ele não gritar por mim primeiro. – Domino! Domino, cadê você?
Ele não demora muito para ter a sorte de jogar para o alto um pedaço da porta que estava em cima de mim.
– Domino, você está bem? – Pergunta aflito procurando por algum dano desde o meu rosto até meus pés, os olhos aumentando duas vezes de tamanho quando encontra o sangramento no meu abdome. – Ah, droga. Foi o tiro, não foi?
– Thor. – Digo em um fio de voz, sem me importar em saber como ele sabe que levei um tiro. – Onde está Thor?
Em resposta, um som áspero e grotesco ecoa pelo ar, vindo do lado de fora do bar. Os clientes e funcionários estão correndo de um lado para o outro, passando pela porta alucinadamente apavorados, gritando palavrões e pragas, ávidos por se verem fora do estabelecimento. Os gritos ficam mais altos quando as pessoas conseguem chegar do lado de fora e só posso imaginar que algo nefasto está guardando a saída e, quando o som farpado se repete, lembro-me subitamente de como se parece com o barulho que um réptil faria.
– Thor. – Repito em um sussurro assustado.
– Domino, nós temos que ir. – Belkan fala e me puxa para cima pelo pulso, levantando-me com a facilidade com que levantaria uma bolinha de ping pong. Ele apoia meu peso em seu corpo e tenta me conduzir, mas estanco no chão, decidida a não dar um passo.
– Não vou deixar Thor para trás. – Determino. – O que você fez com ele, de qualquer maneira? Para fazê-lo te soltar?
– Basicamente, ele está tão ativo quanto uma estátua agora. – Belkan fala cautelosamente, a voz baixando pouco a pouco como se ele fosse se dando conta de que talvez não devêssemos falar tão alto, sua cabeça virada para a porta, observando-a atentamente. – Disse para ele não se mexer, nem falar nada.
– Disse? – Repito desconfiada.
– Eu sou um telepata, Domino, é o que nós fazemos, não preciso literalmente falar para que as pessoas entendam a mensagem. “Disse” dentro da mente dele, entendeu? – Ele me puxa para mais perto de si, segurando-me com firmeza contra seu corpo. – Agora nós temos que sair daqui.
– Não, você leva o Selvig e eu procuro pelo Thor.
O sibilar lá fora fica mais alto e mais próximo e Belkan passa a sussurrar ainda mais baixo:
– Domino, nós realmente precisamos ir. Eles querem você, não vão se importar em parar para procurar por reféns se você não estiver aqui.
– Como você sabe disso? – Vejo-me sussurrando também, respirando o mesmo clima de terror que Belkan uma vez que estamos ele, Thor, Selvig e eu sozinhos no bar. – Como sabe que eles não vão machucar Selvig ou Thor? Como pode ter certeza disso?
– Não posso, mas não posso deixar nada acontecer com você! – Ele insiste, tentando me arrastar para fora do lugar outra vez, para o que me debato como uma lagartixa raivosa até ambos cairmos no chão.
Alarmados pelo barulho que fazemos ao alcançar o chão, Belkan e eu – ele de barriga para cima e eu de bruços sobre a bagunça – automaticamente fitamos o buraco sem vida que agora é a porta, deparando-nos com uma sombra corpulenta demais para tratar-se da cobra branca de olhos vermelhos que já vi antes.
– Mas que bruxaria é essa? – Murmuro comigo mesma, pensativa. – Belkan, apague as luzes.
– O quê? – Pergunta ele, olhando ao redor tão pensativo quanto eu, à procura de sua amiga, imagino.
– Apague as luzes.
– Eu nem sei onde fica o interruptor. – Ele ralha comigo como se eu estivesse proferindo uma loucura.
– Não, mas está na hora de a arma no seu bolso se fazer útil. – Brigo com ele, referindo-me ao objeto que senti em seu quadril quando ele me segurou contra seu corpo na tentativa de me arrastar para fora do estabelecimento.
Ele me olha primeiramente surpreso, depois levemente bravo, e finalmente orgulhoso, esboçando um rápido sorriso significativo antes de desenganchar a arma do cinto e apontá-la para o alto, para o lustre barato de mau gosto que emite a única luz do local, acertando-o até que todas as lâmpadas tenham estourado.
– E agora?
A sombra lá fora recua ao som dos disparos e eu, ignorando a dor no abdome e a ardência na testa, corro até o balcão – que fica perigosamente perto da abertura da porta –, pulando-o e pegando duas garrafas de sei lá o quê que vejo à minha frente, na estante de bebidas. Passo por cima do balcão de novo, sob o olhar incrédulo de Belkan e me abaixo diante do chão, despejando o álcool ali, em cima da madeira, em todos os cantos que consigo alcançar.
– Domino?!
– Abaixe! Debaixo da madeira, rápido!
Ambos corremos feito baratas tontas e nos deitamos, ajeitando-nos debaixo da madeira e da poeira e ficamos em silêncio.
O silvar recomeça, mas não ouço passos.
– Domino... – Uma voz colossal me chama como se fosse minha velha amiga, procurando por mim. – Onde você está?
Rezo para que o bicho pense que o cheiro de álcool que sei que pode sentir é resultado da correria que as pessoas causaram para sair do bar – tentei camuflar a trilha de bebida com a escuridão para que ele não saiba exatamente onde ela está – e rezo para que Thor fique bem, assim como Selvig, e rezo para que Belkan tenha em seu bolso algum acelerante e rezo para não terminar a noite entre os dentes de algum réptil mutante.
– É rude não recepcionar seus velhos amigos. – A voz continua como se lesse meus pensamentos. – Saia de onde estiver.
Permaneço imóvel, pensando em como dar início ao meu plano antes que o garoto cobra me ache – o que não vai demorar muito.
– Eu tenho um acordo para você.
Não faço acordos com cascavéis.
Ouço um gemido vindo de algum lugar à minha esquerda, um pouco acima de mim e respiro fundo.
– Esta não é você. – Diz Silken em sua voz animalesca e carregada, como eu imagino que seja a voz de um dragão. Posso ouvi-lo farejando o ar por um momento. – Mas conheço esse cheiro. Sienna, querida! Já estou indo.
Ótimo. Só pode ser a amiga de Belkan que acaba de acordar desnorteada depois que a porta explodiu em nossas caras. Ela não sabe o que está acontecendo e logo foi voltar a si resmungando em alto e bom som. Ótimo.
Logo escuto Belkan à minha direita se levantando em um estrondo, a madeira caindo para longe dele à medida que se põe de pé.
– Fique longe dela. – Ele ordena mais nervoso do que o ouvi a noite toda.
– Ora, ora, ora. – Silken continua com seu teatro enquanto me preparo psicologicamente para também me colocar de pé. – É o menino de ouro. Como vai, Belkan?
Todo mundo aqui se conhece, menos eu?
– Deixe Domino em paz e dê meia volta. Ou eu posso fazê-lo dar meia volta.
– Eu não quero encrenca, acredite.
– É, você só veio até aqui na forma de um crocodilo gigante para tomar chá. – Belkan debocha.
Um crocodilo.
Faz sentido. Por isso não ouvi os passos. Eles andam deslizando o abdome no chão e impulsionando-se com as patas. Qual é a desse moleque com répteis, Meu Deus?
– Domino, me escute. Eu não vou machucar ninguém se você me ouvir. – Continuo calada, curiosa. – Muito bem. É o seguinte: Ponto de Winker. Esteja lá ao meio dia de amanhã com sua amiguinha Sienna. Belkan sabe onde é. Estaremos esperando por você, minha mãe e eu.
– E por que ela compareceria a esse encontro? – Belkan questiona.
– Eu compareceria se quisesse salvar vidas. Em primeiro lugar, prometo não estraçalhar ninguém aqui e agora. Em segundo lugar, você atirou no joelho da minha mãe, Domino. Não foi legal. Ela está na pior no momento e Sienna nos faria um grande favor se a curasse, por isso você deve levá-la com você amanhã. – Silken explica. – Em segundo lugar, há mais uma vida na balança.
– Sienna não usaria o poder de cura dela na sua mãe nem se a vida do Justin Bieber dependesse disso. – Belkan cospe irritado.
– Já disse que não sou fã do Justin Bieber. – A voz de Sienna se faz escutar.
– Já disse que sou telepata e não adianta mentir para mim. – Belkan rebate.
– Fã ou não, a vida da qual estou falando é a de um velho conhecido seu, Domino. – Silken se interpõe, o peso da voz dele cada vez mais aumentando sobre mim. – Você conhece o Capitão América, não conhece?
Minha boca se abre em um O de indignação e choque e meus olhos parecem querer saltar das órbitas, correndo freneticamente de um lado para o outro até aterrissarem sobre um brilho prateado no meio da desordem de madeira e pó em que se transformou o bar. O brilho está soterrado no exato lugar em que Belkan estava camuflado, o que me dá uma boa ideia do que é.
– Bem, ele está vivo e Belkan pode confirmar isso. E nós, como os eficientes mutantes que somos, confiscamos o corpo dele.
Só agora me dou conta da transpiração irregular que estou vivenciando, do tum tum tum demente que irrita meus tímpanos, da tensão cômoda e incômoda dos meus músculos e fico realmente irritada. Meu pai, HIDRA, os mutantes forçados a fazer parte de um exército do qual não queriam fazer parte, minha mãe, Thor, Selvig... Quem é essa gente? Por que eles acham que podem me dizer o que fazer? Porque estão me ameaçando? Porque estão ameaçando o Capitão América? Porque eles são poderosos? Porque eles acham que podem? Bom, eles não me conhecem nem um pouco.
Ponho-me de pé em meio ao cenário pouco convencional, limpando o que posso da poeira em minha blusa.
Lá está ele. O animal feroz e ativo que é o crocodilo, com seu quarto dente do maxilar inferior hipertrofiado, exposto mesmo o réptil estando com a boca fechada. O enorme dente para fora somado à sua cabeça afilada e olhos de pupila reta e vertical me atiçam a autopreservação e tento pensar no isqueiro de Belkan no bolso traseiro do jeans – o que surrupiei do chão antes de me erguer – que me assistirá.
– Como é possível que o Capitão esteja vivo? – Pergunto como se falasse com algum conhecido humano. – Depois de o quê? Setenta anos? E por que sequestrar justo ele? Eu nem conheço o cara!
É realmente o maior absurdo que já ouvi.
Os olhos astutos de serpente de Silken me observam durante segundos insuportáveis antes que ele responda:
– Gelo, minha querida. Gelo é a resposta para todas as suas perguntas. Depois de aterrissar na água, o Capitão ficou congelado lá embaixo e, quando a SHIELD o encontrou junto com o escudo e coisa e tal, o descongelaram, mas ele continua inconsciente. Não se preocupe, ele nem sabe que foi sequestrado. – O abrir e fechar da boca do animal é grotesco e me dá um enjoo terrível, o que me faz lembrar que estou há horas sem comer nada. Minha noite não poderia estar melhor. – E, depois, quem nós sequestraríamos? Sua mãe está morta, seu pai está morto, você está sozinha nesse mundo e por que não uma figura que você admirou a vida inteira? É uma pena que a sua pelúcia do Capitão tenha queimado com o resto da sua casa, não é? Você sente saudade? Da sua vida como era antes de tudo isso? Do seu Capitão, sua mãe, seu quarto...?
Meu braço se estende na frente do meu corpo e minha mão aberta não se fecha inteiramente, mas o bastante para que a luz violeta envolva o pescoço do crocodilo, esmagando suas placas ósseas e sua pele rastejante e fria, sufocando-o.
– Você fala demais. – Digo em um comentário qualquer, com se ele não tivesse acabado de mencionar meus falecidos pais, como se não tivesse me tirado do sério, como se eu estivesse comentando sobre algum jogo de futebol ou sobre alguma marca de carro, como se não me deixasse louca o fato de todos menos eu saberem antes de mim que meu pai está morto. – Tem alguma ideia de como deselegante isso é? Minha vez de falar. – Minha mão se fecha um pouco mais, fazendo Silken tossir e se contorcer até rolar de costas no chão, caindo em um baque que treme o solo. – Não precisa me convencer sobre o Capitão, eu acredito. Afinal, no que eu não acredito mais é no impossível. E quer dizer, deve ter sido fácil para vocês sequestrá-lo, não é? Um bando de mutantes invadindo uma instalação da SHIELD... Coisa de criança. E se vocês foram covardes a esse ponto, se vocês se atreveram a envolver nessa bagunça um homem que está inconsciente há mais de cinquenta anos, vamos oficializar esse encontro de amanhã ao meio dia. Porque eu vou aparecer e eu vou levar Sienna e nós vamos resolver isso. – Olho para Belkan querendo dizer a ele para não me contestar; nós daremos um jeito nisso e vou garantir que Sienna não se machuque. Depois, volto a fitar os olhos do crocodilo, que já estão lacrimejando enquanto ele me olha de modo torturante. – Lágrimas de crocodilo. – Envolvo a luz violeta em seu corpo gigante inteiro e fecho ainda mais as mãos até ouvir um estalo e, quando o bicho tenta abrir a boca, termino de fechar a mão, meu braço ainda estendido. – E você pode dizer à sua mãe – Digo, aproximando-me dele abrindo a tampa do isqueiro e acenando com a cabeça para Belkan, que corre até Thor e o encara fixamente até que o loiro possa se mover novamente, depois vai até Sienna e a puxa de uma pilha de madeiras, colocando-a em seu colo ao fitar aturdido a mancha de sangue que suja a testa da garota. Thor, por sua vez, chega a Selvig e segura o cientista no ombro como se ele não pesasse mais que uma raquete de tênis. – Que vou enterrá-la. – Então, eu jogo o isqueiro aceso no rastro de bebida no chão.
Retiro a luz violeta do corpo de Silken e corro atrás de Belkan e Thor até o banheiro do bar. Ouço o bicho se lamentar em um som perturbador enquanto as labaredas consomem o lugar e sabe-se lá quanto do corpo dele antes que os urros se tornem tão distantes que eu perceba que ele está fora do local e que continua vivo para vir atrás de mim. Para me caçar. Para me torturar. Para talvez, no fim, me matar.
Pulamos desajeitadamente a janela do banheiro feminino e, quando caio sobre a grama do lado de fora, respiro fundo várias e várias vezes, trabalhando duro para acreditar no que acaba de acontecer, para acreditar que realmente não acredito mais no impossível. Começo a entender que não estou lutando só pela minha vida ou pela vida de qualquer mutante refém da HIDRA, nem pela vida das pessoas com as quais me importo; estou em um guerra que determinará como o mundo será depois que ela acabar. Se eu ganhar, os mutantes ficam bem e a HIDRA acaba. Se eu perder, haverá tortura, dor, morte, opressão. Se eu perder, o mundo livre será extinto.
Ao olhar para o lado, para um Selvig desacordado, uma Sienna contundida, um Belkan determinado e um Thor leal e corajoso, um único pensamento me alcança em meio ao cheiro de cinzas que o vento espalha na noite gelada durante o incêndio: não posso perder.
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