Alma de Vidro |HIATUS|
2 Capítulo 02. Laços De Sangue
Notas iniciais
Uma pontada de dor aguda na omoplata desperta Domino Hepburn, arrastando-a lentamente de volta ao mundo tangível, como se ela fosse pesada demais para acordar de uma só vez.
Dando-se conta da consternação ressoando em si como uma onda, ela sente como se uma maré fria envolvesse seu corpo em um mar infinito e, em um flash involuntário, olha através de uma janela tão translúcida que quase não separa o quarto de cor pêssego do cenário fora dele, com arbustos tão cheios de neve quanto o chão todo coberto por um imenso cobertor branco.
Uma espécie de murmúrio sofrido escapa dos lábios de Domino quando ela percebe a cabeça tombada sobre o ombro de mau jeito. Toda a tensão e todas as fisgadas se afundam nela, arrancando os pregos que seguravam seus músculos no lugar, tornando-a um grande saco de impotência.
Com orbes em foco, ela enxerga o chão outrora branco, agora creme empoeirado, coberto por terra vermelha em todos os cantos. Uma corda relativamente grossa de um bege claro enlaça seus tornozelos, segurando-a às pernas de uma cadeira de madeira escura. Os pulsos também estão imóveis, colados aos braços da cadeira, mergulhados em um misto de pó de construção, fuligem escura como breu e sangue – seco e fresco.
Amarrada, Domino entende, abismada. Amarrada!
Inconscientemente, ela deve ter contorcido os braços contra a firmeza da corda na tentativa de se livrar da amarra, obtendo nada mais que ferimentos na pele já desgastada.
Não há sinal de alma alguma por perto, constata a garota torcendo o pescoço em todas as direções a procura de qualquer coisa.
Nada.
Há buracos no teto onde parte dele despencou e atingiu o chão, formando montes e montes de concreto e tijolo ao longo da sala cumprida e retangular. Pedaços de azulejo se juntam à baderna mais parecendo cacos de vidro pontudos e afiados. Canos grossos se destacam para fora das paredes, tão tortos e enferrujados que chegam a ser grotescos.
Uma casa condenada, pensa Domino em uma conjectura particularmente obscura.
Nada poderia assustá-la mais do que um lugar vazio caindo aos pedaços após acordar perdida em um lugar vazio caindo aos pedaços.
Uma leve luz avermelhada faz sua passagem pelos buracos desiguais do teto e até por algumas gritantes rachaduras nas paredes, dando a entender que o sol está se pondo. Ela agradece por não ter acordado no meio da noite. Palavras formam uma lista embaralhada em sua cabeça que mais parece uma sopa de letras, mas, quando está prestes a criar tópicos a fim de descobrir que diabos está fazendo presa a um móvel feito um animal, um som de motor encobre seus pensamentos.
Ocorre um desejo súbito de chorar, de gritar e de rolar pelo chão – tudo ao mesmo tempo – dentro do peito de Domino, que se contrai e diminui três vezes o tamanho. O martelar rítmico de seu coração a perturba porque se sobrepõe ao som do lado de fora.
Incapaz de se defender de quem quer que se aproxima, ela joga a cabeça sobre o ombro e fecha os olhos, acalmando a respiração e esforçando-se para ignorar o pânico crescente no céu da boca, que goteja insistentemente na garganta, espalhando-se no corpo até picar a mente.
– Eu te disse que ela não era grande coisa. – Diz uma voz grave que alcança Domino de forma petulante. Ela logo imagina o sujeito como um ser não digno de qualquer mérito.
– Não sei, não. – Responde uma voz também masculina, porém, de alguma forma mais suave, como se possuísse uma dose de sensatez para compensar a estupidez da primeira voz. – Ela é pequena, mas você já ouviu falar do estrago que pode fazer.
Estrago? Mas que estrago?
Os olhos de Domino coçam para se abrir, mas ela os mantém fechados com sutileza em uma farsa impecavelmente crível.
– Sabe o que eu acho? – A primeira voz zomba em tom de superioridade. – Que essa garotinha já foi longe demais com essa história toda de poder. Não passa de uma mimada que teve a sorte de encontrar uma mina de ouro, que por acaso, não faz ideia de como usar. Espere só até eu cuidar dela do meu jeito...
– Você não vai cuidar dela de jeito nenhum, porque estaria morto antes mesmo de dar o primeiro passo para longe do cadáver. – Afirma a segunda voz com um divertimento que gela o sangue de Domino. É sobre o cadáver dela que estão conversando, falando como se ela fosse uma espinha de peixe que podia ser facilmente despejada em uma lixeira. Sem mencionar o cadáver do dono da primeira voz, com o qual algo ruim supostamente aconteceria se a matasse... – Tendo uma armadura daquelas e um par de divindades como guarda costas, eu não mexeria com ela.
O som de risadas enche o ar, enojando Domino.
– Tem razão. – Voz número um admite. – Bom, vamos ao trabalho.
– É. Não temos a noite inteira para admirar este rosto de boneca.
Enojada em dobro.
Assim que um par de mãos toca o braço de Domino, seus olhos se abrem ao mesmo tempo em que ela pula na cadeira, jogando um dos pés do móvel em cima do pé do homem baixo e corpulento de pele morena brilhante, olhos castanhos e cabelo curto espetado e escuro, parado ao lado dela. Ele grita de surpresa e horror, tentando livrar o pé com insistentes puxões, sem obter êxito. O outro homem, loiro de olhos cor de amêndoa e bastante alto e esguio, de cabelos ondulados, pega a cadeira pela frente, jogando Domino de costas no chão, mais preocupado com o estado do parceiro do que com qualquer outra coisa.
Os dois começam uma conversa parte irritada, parte preocupada, na qual Domino não está interessada. Seus olhos examinam a pilha sobre a qual acabara de cair e se fixam de forma maníaca em um pedaço de azulejo com a ponta erguida para cima, tentadoramente chamando-a em sua direção.
Domino gira o corpo, balançando-se sobre o instável monte de concreto, tijolo e terra, e rola para o lado, parando de barriga para baixo com o pulso milagrosamente posicionado ao lado do que a garota saudou como “poderosa lâmina da libertação” antes de arranhar a corda ali, cortando-a e libertando o braço direito.
– Desgraçada! – Grita voz número um, tão próximo agora que Domino não se surpreende quando uma mão agarra firmemente seu cabelo na raiz e a puxa para trás. Ela torna a cair de costas, mas é muito tarde: não é preciso mais que cinco segundos para desatar o nó do braço esquerdo e, enquanto o moreno e o loiro se entreolham com o que parece medo em suas expressões, Domino também já se livrou das amarras nos tornozelos, que, percebe com raiva, também estão ensanguentados.
Uma vez de pé, ela lança o um olhar aos homens à sua frente. O olhar raivoso de um psicopata prestes a manejar uma faca. O olhar de aviso de um assaltante a ponto de apertar o gatilho. O olhar que não precisa de traduções.
Ela pensou que a primeira reação dos homens seria rir e que a última seria cortar-lhe a garganta com suas facas – ela pode claramente enxergar os cabos presos aos cintos deles –, mas, ao invés disso, ambos apenas dão passos desajeitados para trás, o moreno tropeçando em um pedaço de madeira e desabando no chão com a boca tremendo enquanto o loiro se encurrala na parede, as costas escorregando sobre ela de modo fúnebre.
– Por favor, não nos machuque. – O moreno consegue cuspir, tremendo tanto que Domino o imagina por um segundo como um pacote de ossos podres. Ela o reconhece como voz número um e olha duvidosamente dele para o outro, sem conseguir entender o temor que evidentemente estão sentindo.
– Vocês são loucos? – Dispara, enfurecida.
– Loucos? – É o moreno quem fala novamente, encarando-a como se ela fosse um corvo cor de rosa. – Acha que somos loucos por ter medo de você?
– Por que teriam medo de mim? – Ela pergunta, a confusão entrelaçando-se com o cansaço. Precisa sair da casa condenada. Precisa urgentemente de ar corrente.
– Todos sabem que têm motivos para ter medo de Domino Hepburn. – Diz o loiro com ar sombrio, de repente ereto rente à parede, observando-a com atenção, agora tão desconfiado quanto ela.
– Quem é Domino Hepburn? – Domino pergunta por fim, dando início a um fio enorme de indagações sobre a própria vida que, no momento, é uma incógnita para ela, que não sabe ao menos o próprio nome.
Ligação direta. Eu me lembro dela. Muito útil. Sempre útil.
Um Lamborghini branco. Por que dois patifes contratados para me dar um sumiço teriam um carro desses?
A) os dois não eram contratados, e sim os contratantes que na verdade são tão ricos e influentes que não quiseram arriscar que um trabalho de “apagão” pudesse ser usado contra eles como uma chantagem (o que me faria pensar que sou uma pessoa bastante importante); B) os sujeitos eram velhos contratados; um presente assim não é dado a um iniciante (o que me faria pensar que, pelo tempo de trabalho, sabem muita coisa a meu respeito); C) O(s) contratante(s), seja lá quem fosse(m), sabe(m) sobre meu gosto por velocidade e o carro é um presente.
De qualquer maneira, com tanta atenção em mim, estou deduzindo que haja um rastreador no celular que achei no bolso da jaqueta de couro preta que estou usando. Quero muito desbloqueá-lo, mas não sei a senha. Não me lembro da senha... Acho que ele me pertence, porque os riscos na tela me parecem de alguma maneira bastante familiares, como algo nostálgico enterrado no fundo da minha mente.
A questão é que estou dirigindo por uma estrada que reconheço e que me levará a um bar de estrada chamado Harlott’s. Pararei ali e esperarei alguém me rastrear. Claro que posso ser achada por algum outro louco – ou loucos – que também queira me matar, mas as possibilidades estão em 50%, já que pode haver alguém que está do meu lado no meio dessa bagunça toda em que estou metida. E, do jeito que eu vejo, tenho duas opções: posso destruir o celular ou jogá-lo pela janela para que ninguém jamais me encontre e viver perdida até sabe-se lá quando ou posso me arriscar trazendo alguém ao meu encontro para ver se obtenho algumas respostas. Eu prefiro me arriscar.
A curiosidade que me envolve é intoxicante. Um veneno se infiltrando nos capilares do meu corpo, atiçando-me e jogando-me contra uma enorme parede de concreto que pode muito facilmente desabar sobre mim e me sufocar sem jamais me fornecer resposta alguma. E eu me pergunto insistentemente porque estou concordando com tudo isso e porque não sinto nem mesmo um pingo de medo. Agonia. Frustração. Confusão... Tudo o que sinto é uma adrenalina louca e ansiedade ainda mais insana para descobrir o que está acontecendo e o motivo pelo qual minha memória parece uma peneira no momento – cheia de buracos que preciso preencher.
É como um desafio maravilhoso que me move, como combustível. Não me sinto nem ao menos receosa. E isso me intriga – me intriga muito.
Que tipo de pessoa eu sou? Era? Por que meu primeiro raciocínio foi teorizar sobre gente que queria me matar? Eu nem considerei a hipótese de tudo ter sido um engano e do meu nome na verdade ser outro que não Domino Hepburn. Eu parecia ter experiência com rastreadores, também. Será que meu inconsciente está tentando me lembrar de que eu anteriormente sabia que alguém pode me achar através do meu celular? Era um combinado que eu tinha com alguém? Eu também poderia descobrir mais sobre os dois supostos capangas através da placa do carro, se... Olhe só o que quero dizer. Quem sou eu?
Quando estaciono o Lamborghini na terra da área reservada para clientes do Harlott’s, o típico e tradicional bar de estrada frequentado por gangues e criminosos e mafiosos e sabe-se lá quantas outras variações e me coloco do lado de fora do carro, olho diretamente para o letreiro com o nome do bar, queixando-me mentalmente sobre o “l” cujo neon vermelho não funciona ao anoitecer, quando a luz fica ligada, deixando uma letra azul e a seguinte, vermelha.
Bato a porta do carro perguntando-me que diabos de negócios eu tinha naquele lugar suspeito que me cheira tão conhecido e com certeza insanamente reconfortante.
Assim que abro a porta dupla de madeira e adentro o local, vejo que está vazio. Não há nem mesmo alguém por trás do balcão com quem eu possa bater um papo.
– Muito bem. – Digo para as paredes e, com um impulso, pulo o balcão de madeira, observando em seguida meu reflexo no espelho atrás das várias prateleiras que abrigam bebidas de todas as cores, marcas e tamanhos.
Dou de cara com meu absinto favorito, a bebida que me lembro de apreciar bastante, embora não tenha uma preferência quando se trata de álcool e concluo, voltando a focar a atenção no espelho, que meu jeans está coberto de poeira e manchas pretas e carmim, há um risco comprido no coturno preto direito que estou usando, como se uma lâmina tivesse raspado no material e a jaqueta está rasgada na manga direita e na barra do lado esquerdo, assim como a blusa debaixo tem um rasgo no abdome, onde um corte superficial espalhou sangue por uma parte do tecido.
Trato de agarrar a garrafa de absinto e me ponho a andar pelo bar até o fundo dele, à direita, onde fica uma mesa de bilhar.
– Em situações como estas, nada melhor do que curar uma ressaca com outra. – Digo para mim mesma, tentando encarar o episódio da perda de memória como uma festa onde bebi tanto que nem me lembro de ter comparecido.
Eu devia estar paranoica. Devia estar apavorada. Devia estar ávida por me lembrar de tudo imediatamente.
No entanto, tudo parece sadicamente divertido demais, como um quebra cabeça que se deve montar sem nunca visualizar o desenho da capa.
É então que chego até a mesa de bilhar e um calafrio cai sobre mim como água fria me congelando da cabeça aos pés. É isso. Sinto-me mergulhada em uma maré de indagações que se torna de repente perigosa, começando a me arrastar discretamente para uma profundeza que posso até desconhecer, mas sobre a qual uma coisa é certa: o perigo.
Há um corpo jazendo sobre a mesa. Um loiro de jaqueta de couro marrom surrada deitado de costas com os expressivos olhos azuis arregalados em uma expressão de dor.
Largo a garrafa no chão e me debruço sobre a mesa, analisando cada canto do falecido que consigo encontrar, meus olhos correndo rápidos e precisos em cada extremidade do corpo rodeado pelas bolas coloridas.
– Agora, isso é interessante.
Há uma marca de sangue seco no ombro esquerdo do rapaz como se uma mão o tivesse agarrado, mas está muito manchada para que eu possa distinga o tamanho exato da mão. Como o corpo está com a cabeça para o lado de quem acaba de virar à direita para encontrar a mesa, eu diria que a pessoa que o lançou sobre ela agarrou-o pelo ombro e o girou no ar, fazendo com que ele parasse ao contrário, por isso o sangue está tão manchado em sua jaqueta.
O ferimento em seu peito no lugar exato do coração parece pequeno demais para ser mortal, então, com a manga da jaqueta cobrindo minha mão, ergo o cadáver para frente, obtendo a visão de suas costas, onde acho um buraco bem maior do que o da frente. Alguém esfaqueou o coitado por trás.
Mas talvez ele já esperasse por isso. Tudo na expressão do loiro me diz que, como quer que ele tenha passado dessa para melhor, o que lhe chocou no momento final não foi a pessoa atrás de si, mas a pessoa bem diante dele. O golpe por trás foi uma fatalidade, mas a dor estava concentrada em quem quer que o tenha jogado sobre a mesa.
Recuo um passo e aproximo a mão do cadáver, colocando-a o mais perto do pescoço dele que posso sem realmente tocá-lo.
– Ai, meu Deus! – Exclama uma voz feminina vinda de trás de mim.
Não ter percebido a presença antes me aborrece. Se fosse alguém armado e disposto a continuar a Operação Apagão, eu estaria no chão com uma bala na cabeça.
Ouço os passos de uma bota de salto baixo chegando perto e logo ergo a mão, sinalizando para que a figura fique onde está. Pelo seu tom espantado e surpreso, deduzo que não tem a menor intenção de ferir nem ao menos uma mosca.
– Sem alarde, senhora, eu venho em paz. – Aviso, concentrando-me no corpo.
– O que aconteceu, Domino? – A moça insiste.
– Domino, hein? – Repito, afastando-me do rapaz loiro para me dedicar à visitante. Com as mãos na cintura, fito-a de cima a baixo a procura de familiaridades. Não que eu encontre alguma. – Por que esse tom depreciativo na palavra “Domino”, como se já estivesse acostumada a tentar me repreender?
– Excelente uso da palavra “tentar”, já que é impossível argumentar com você. – Ela avança alguns passos até se postar ao meu lado, os olhos saltando de forma alarmante para nosso garoto desconhecido. – Quem é ele?
– Quem era ele.
– Por que ele está morto? – A mulher grita de modo histérico, aborrecendo-me ainda mais. Reparo em seu cabelo castanho claro, nos olhos marcantes, na expressão bestificada e na camisa xadrez folgada que ela está usando.
– Eu não sei. – Digo com pouco caso. – O que você está fazendo aqui?
A pergunta certa é “quem é você?”, mas é óbvio que ela me conhece e quero tornar esse diálogo o mais eficiente possível.
– Você deu o sinal. – Diz a criatura como se o assunto fosse o regimento da minha vida, em uma urgência nervosa demais. – Código Cinza, se lembra?
– A única coisa da qual me lembro é um nome que piscou algumas vezes na minha cabeça depois que acordei em um lugar abandonado não muito longe daqui. – Acabo por confessar, pensativa. – Mas sabia que o rastreamento do celular era algum acordo que fiz com alguém!
– Você andou bebendo, Domino? – Ela pergunta desconfiada, desviando olhadelas bastante perspicazes e indignadas para a garrafa de absinto no chão que nem cheguei a abrir.
– Eu faço isso com tanta frequência?
A mulher revira os olhos para o teto e de repente se afasta bruscamente da mesa, como que se lembrando da (ex) presença do loiro abatido ao nosso lado.
– O que você estava fazendo debruçada sobre o cadáver? – Pergunta horrorizada. – Nem sabemos há quanto tempo o coitado está assim...
– Menos de quatro horas. – Interrompo com precisão diante do semblante estagnado da moça. – O corpo não está frio o suficiente para mais que isso.
– Perdeu a memória, mas não perdeu o jeito para cenas do crime, eu vejo. – A pobre mulher passa a mão no cabelo em um gesto que busca calma.
– Em quantas cenas de crime eu já estive?
– Não sou tão boa em matemática. – Diz rapidamente, começando a andar pra lá e pra cá em uma curta linha reta imaginária.
– É, sim. – Afirmo. – Caso contrário, eu não teria criado o Código Cinza com você. Alguém com talento para tecnologia, no caso de rastreamento, tende a ser habilidoso com números. Suponho que você tenha talento para a física. Como isso funcionou, afinal? Eu apertei alguma espécie de botão do pânico e você recebeu o sinal de que eu precisava ser encontrada e veio para cá?
– Exatamente... Você está brincando comigo e se lembra de tudo.
– Por que eu faria isso?
– Eu não sei, Domino, porque parei de procurar um motivo para as coisas loucas que você faz...
– Você conhece alguma Jane Foster? – Pergunto de súbito, perseguida pelo único nome que consegui encontrar na minha cabeça durante a viagem de carro até aqui.
– Eu sou Jane Foster, Domino! – A moça enlouquece de vez.
– Por que eu só me lembro do seu nome? – Pergunto em voz alta a mim mesma, finalmente me mexendo para tirar as mãos da cintura e deixa-las cair ao lado do corpo.
Jane Foster se coloca diante de mim, mais próxima, procurando indícios de mentira em meu rosto composto e absorto.
– Você está mesmo me dizendo que está sofrendo de perda de memória? – Pergunta cuidadosamente e posso dizer que está começando a acreditar no acontecido.
– Lembro-me do seu nome. – Repito, tentando imaginar o motivo para isso.
– Isso é uma grande coincidência. – Jane Foster responde agora tão contemplativa quanto eu.
– Não existem coincidências, senhorita Foster. – Informo. – Você tem um carro?
– Sim.
– Precisaremos dele. – Pego a garrafa de absinto e passo por ela a caminho da saída. – Vamos.
– Não devíamos... Não sei... Limpar a cena do crime? – Ela indaga com incerteza atrás de mim, seguindo-me de modo trôpego.
– Não é nossa cena do crime, senhorita Foster. Deixe-a como está. Você não tocou em nada, não é?
– Não...
– Nem eu. Só nesta garrafa linda e simpática. – Ergo o encantador absinto para o alto por um momento, mostrando-a para a mulher às minhas costas.
Estamos pisando na terra do lado de fora quando Jane finalmente se põe ao meu lado.
– Senhorita Foster é novidade. – Comenta ela ao contornar a lata velha que está dirigindo.
Penso em limpar minhas digitais do Lamborghini que pretendo abandonar, mas tenho a forte impressão que quem quer que encontre o carro depois saberá que eu fui quem o pegou emprestado, quer eu me dê ao luxo de deixá-lo intacto ou não. Sem falar que, se o bar continua vazio após um acontecimento como o do rapaz loiro, é certo que alguém está tendo certo trabalho para encobrir alguma coisa. Ocultar digitais é a coisa menos importante no momento.
– Do que eu normalmente te chamo? – Continuo a conversa com Jane. Ela gira a chave na ignição e logo estamos em movimento.
– De coisas desagradáveis que não te darei o prazer de ouvir para poder usá-las contra mim de novo.
– Qual o motivo disso? – Reprimo um sorriso.
– Você tem um laço bff com o meu namorado. – Ela explica passivamente, dando-me a impressão de que de fato a realidade que está narrando não a incomoda. – Você não gosta de mim.
– Talvez eu goste e só queira te aborrecer. – Decido dizer. – Duvido que eu tenha uma queda pelo seu namorado ou coisa parecida.
– Não, você tem um lance com o irmão dele. – Jane fala em um misto de ironia com falsa despreocupação que deixa claro o quanto ela reprova o relacionamento e o quanto acha que eu também devia reprová-lo.
– Ele é bonito? – Pergunto assim mesmo.
– Meu namorado?
Minha vez de revirar os olhos.
– O irmão dele.
– Oh, bem... Eu-eu acho que sim, se gosta do tipo maléfico.... Sabe como é, alto e aterrorizante quase como o Drácula, você curte esse tipo de piração e...
– Ok, entendi. – Permito-me um sorriso enquanto desço o vidro, deixando que o vento jogue os fios castanhos do meu cabelo para trás. – Meu cara é bem mais badalado que o seu.
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