Alma de Vidro |HIATUS|

7 Caítulo 07. Deixe Que Eu Me Afogue No Dilúvio


Notas iniciais
Um capítulo bem gordo recheado de loucuras pra vcs!

Eu sempre achei olheiras de certa forma charmosas. Eu não sei, elas dão um toque sombrio ao rosto das pessoas. Não como um drogado que passa noites e noites sem dormir, mas como alguém que dorme pouco porque tem muito em que pensar.

Olhando meu reflexo no espelho do banheiro da lanchonete para onde fomos na importantíssima missão de matar a fome de Thor, eu vejo que as olheiras não causam o efeito legal em mim. Parece mais é que eu rolei na lama e ela continua apegada ao redor dos meus olhos.

A verdade é que o fortíssimo cheiro de bacon do estabelecimento está fazendo meu estômago revirar com uma fome sem igual. Eu não como desde...

Respiro fundo com as mãos apoiadas sobre a pia e fecho os olhos, abaixando a cabeça.

“Eu amo você”, ela disse. E foi a primeira vez. E a última.

Minha mãe nunca se preocupou em mostrar qualquer tipo de afeição a mim. Eu fui sempre a garota solitária que aprendeu tudo sozinha. Eu não pedia nada a ela. Nunca. Jordana nunca foi à uma reunião escolar minha, jamais elogiou qualquer feito que eu tivesse realizado – como na vez em que eu, com nove anos, fiz uma dedução lógica a respeito de um caso dela que a levou diretamente até o assassino –, não costumava me olhar diretamente nos olhos... E eu nunca entendi o porquê.

Então, no que eu considerava um dia normal, desconhecidos invadem minha casa e minha mãe simplesmente mete uma bala na própria cabeça?

Ela se cansou de vez de mim? Ela realmente me deixaria sozinha com a Mulher de Branco e com o loiro sinistro? Eu queria duvidar disso. Mas não posso. Apesar de ser minha mãe, eu não posso olhar para esse espelho e admitir para mim mesma que confiava nela. Eu não confiava. E nem me lembro mais se um dia quis confiar.

Ela estava escondendo algo de mim. Algo grande e importante e provavelmente horrível o suficiente para – direta ou indiretamente – ter causado sua morte. Como posso saber se qualquer coisa que ela já me disse um dia foi verdade?

Ergo a cabeça para mim mesma novamente e o que vejo é uma pessoa mais centrada do que a garota de minutos atrás. Se eu quero vingar a morte de Jordana? É claro que quero. Mas também quero – eu preciso – descobrir o que são todos esses segredos que me rodeiam. E não posso fazer isso se não estiver focada. Se não esquecer o quanto estou destruída, desfeita no momento, como se mil pedaços de mim estivessem espalhados ao redor do mundo e eu sem ideia nenhuma de onde começar a procurar.

Assim, ponho-me a andar para fora do banheiro. Rosto lavado, um jeans preto e botas de couro marrom com uma jaqueta jeans e regata cinza escuro que disfarçadamente roubei enquanto todos esperavam na van a caminho da lanchonete em uma pequena loja qualquer com a desculpa de que, fora dos domínios da igreja, estou livre para usar que vestimenta eu quiser.

Estou ao lado da cadeira de Thor, pronta para puxar a minha ao seu lado quando o maluco grita “Outra!” e espatifa sua caneca branca no chão da lanchonete.

– Ai! – Grito atormentada. – Santo Deus! Thor! – Dirijo-me a ele com um olhar severo enquanto ele calmamente me fita de volta, como se o recente ato de quebrar louças fosse a coisa mais normal do mundo para ele. – Já não falamos sobre quebrar coisas em momentos de agonia? O que foi que eu lhe disse sobre isso?

A Barbie Anabolizada me olha em dúvida por um momento, mas logo arregala os olhos, percebendo onde quero chegar e pigarreia, endireitando-se na cadeira enquanto Jane diz algo como “um acidente”.

– Eu sinto muitíssimo, minha dama. – Ele se desculpa categoricamente e de modo tão natural que chego a me espantar. – De agora em diante, me lembrarei melhor de nossas conversas. – A anta pisca para mim descarada e abertamente, tão sutil quanto uma gralha.

– Bom ouvir isso. – Digo indiferente. – Porque Deus está vendo. – Aponto para o teto e todos olham para cima. Thor tenta olhar, porque puxo seu rosto na minha direção, segurando seu queixo e movo os lábios dizendo “disfarce”. Quando Jane, Darcy e Selvig voltam a olhar para nós dois, finjo estar analisando os olhos de Thor. – Olhe só! Seus olhos nem estão mais vermelhos. Isso é uma melhora. Parabéns, Thor! – Dou-lhe um tapinha nas costas e ele sorri como um palerma.

Darcy puxa assunto com Thor até a comida chegar – quando ela tira uma foto de dele sorrindo de boca cheia – enquanto Jane tagarela com Selvig sobre qualquer equipamento sobre o qual não entendo patavina. Mesmo assim, abro bem os olhos nas horas apropriadas, como se dissesse “minha nossa, incrível” e faço que sim com a cabeça. Pergunto algumas coisas para mostrar-me interessada, mas não faço grandes comentários sobre nada.

Estou saboreando um chá gelado quando subitamente sinto meu braço sendo puxado e derrubo o copo sobre a mesa, melecando-a inteira com o líquido doce. Levanto-me rapidamente para não me molhar.

– Mas que festa do caqui é essa? – Grito com Thor, que está com a mão ao redor do meu braço e os olhos em dois caras conversando no balcão.

– Ali. – Ele se limita a dizer, o aceno de cabeça indicando os tais sujeitos que já percebi que ele está encarando.

– O que tem Gaspar e Horácio?

– Estão falando sobre a queda de um satélite.

– Ficar prestando atenção na conversa dos outros é muito mal educado, Thor. – Digo, levantando meu copo, averiguando se sobrou alguma coisa. Como não há nada restante, bufo mal humorada.

– Não é um satélite. – Thor fala decidido.

– Não é? – Jane pergunta, intrometendo-se no diálogo.

Estreito os olhos para ela para que não encoraje a loucura de um “viciado em drogas” e, secretamente, por parecer não ter ouvido uma palavra sobre o que eu disse a respeito de conversas alheias.

– Não. – Thor se põe de pé e vai até onde os pobres homens estão batendo papo.

Suspiro com um sorriso falso e olho para os três marujos restantes.

– Bom – digo, juntando as mãos diante do corpo. –, o dever chama.

Quando chego até Thor, ele já está rumando à saída.

– Ei, ei, ei, Suprassumo. – Falo, puxando-o pela camisa. – O que pensa que está fazendo?

O loiro se vira obstinado para mim.

– Não é um satélite. – Repete ele. – É Mjolnir.

– Certo. – Esforço-me para assentir. – O seu objeto perdido. Banido. Tanto faz.

– Exatamente! Temos que ir pegá-lo. – E lá se vai ele novamente, dando-me as costas para alcançar a porta.

– Espera aí, criança! – Reclamo, segurando-o pela camisa outra vez. – Você acha que as coisas são fáceis assim? – Pergunto irada por ter que dar uma de babá diante da situação infernal que estou vivendo. – Se você sair dessa maneira por essa porta e desaparecer no mundo à procura de algo que nem eu, nem nenhum dos três naquela mesa sabemos o que é, vão todos achar que você é pirado. Quer dizer, mais pirado do que já pensam que você é! – Respiro fundo, procurando me tranquilizar. – Thor, você pediu minha ajuda para encontrar esse Mimimi sei lá o quê e eu disse que vou te ajudar. Mas você tem que me deixar fazer isso.

Thor está com a expressão fechada, mas de maneira pensativa, considerando meticulosamente minha fala.

– E o que vamos fazer? – Pergunta por fim, cedendo ao meu apelo.

– Vamos ser espertos. – Respondo de prontidão. – Vamos esperar. Trabalhe comigo, grandão: ao anoitecer, roubamos a Máquina do Mistério e nos mandamos atrás da sua coisa perdida. Espera. Você sabe onde está?

– Sei, Gaspar e Horácio me deram as coordenadas.

Sorrio por Thor ter usado meus apelidos e balanço a cabeça, distraída por um momento pela espontaneidade do loiro.

– Ok. – Digo. – Então, estamos combinados?

Thor assente com um sorriso.

– Estamos combinados, Domino Hepburn.

Quando voltamos à mesa, tento ignorar os olhares furtivos que Erik Selvig dirige a mim. É como se ele soubesse quem eu sou e o motivo pelo qual estou aqui apenas por me fitar. É como se ele visse bem através de mim e soubesse até que meu interesse é a SHIELD. Ao encará-lo de volta com uma expressão não mais amenizadora que a dele, penso que de alguma forma eu e Selvig temos algo em comum. Só não sei ainda o que é.

–x-

É por volta da meia noite quando ouço o barulho de algo caindo no chão e Thor tropeça porta afora, cambaleando na terra em minha direção como o jumento atrapalhado que ele é.

Observo a escuridão dentro do trailer orando para que ninguém tenha acordado com os ruídos que o destrambelhado causou.

Visto que não ocorre nenhum movimento do lado de dentro, cruzo os braços zangada, vidrando o olhar em um Thor que se levanta introvertido.

– Vá fechar a porcaria da porta. – Resmungo sussurrando e ele obedece, fechando a porta com o triplo do tempo que normalmente a ação levaria, certificando-se de que não cometeria outro deslize. – Vamos.

Andamos furtivamente até o latão estacionado em frente ao trailer e tiro a chave furtada do bolso dianteiro do jeans. Uma vez no banco do motorista, empurro para baixo o freio de mão e coloco o braço para fora da janela, fazendo o símbolo do rock – meu sinal secreto com Thor para que ele empurre o furgão.

Quando estamos distantes o suficiente na estrada para que o ronco do motor se confunda com qualquer outro veículo passando por ali, giro a chave na ignição, inclino-me até o banco do passageiro, abrindo a porta e grito para que Thor se junte a mim no banco do carona – o que ele faz com um assovio, todo sorriso.

De repente, assim do nada, me encontro sorrindo feito uma pateta, contagiada pela magia de Thor.

– É isso aí, tigrão. – Aprovo. – Agora, me diga: o que é que estamos indo pegar?

– Um martelo. – Thor explica orgulhoso. Olho-o cética, incrédula por dentro pela declaração.

– Um martelo, tipo... – Observo pensativa a estrada iluminada apenas pelos faróis da van. – Você tem alguma casa para construir? Deixe-me adivinhar: você é um pedreiro.

– Um o quê? – Ele pergunta levemente confuso. – Não sou nada disso. – Nega rapidamente como se a profissão fosse um insulto.

– Ei, calma aí, camarada. Não estou te ofendendo. – Prometo. – Mas o que há de tão especial nessa marreta, afinal?

– Mjolnir é minha arma de guerra. É também um fiel amigo que me auxiliou em diversos momentos difíceis. – Explica o loiro de modo solene.

– Amém. – Falo, tentando segurar o riso.

Vejo, pela visão periférica, Thor apertando os olhos para mim de modo suspeito, segurando uma risada ele mesmo, como se fosse engraçado o fato de eu duvidar que ele usava um martelo como arma em guerras.

– Você não acredita em mim. – Destaca o óbvio, os olhos sagazes em cima de mim.

– Nada contra você, ó valente guerreiro. Só acho um pouco bárbaro usar um martelo em uma batalha. Sabe como é, não seria melhor... Uma espada? Uma lança? Ah! Um par de adagas! Essa é minha opção favorita, acho tão elegante.

Thor solta uma risada gostosa e bem humorada, balançando a cabeça para minha declaração.

– Você nada sabe sobre a guerra, Domino Hepburn.

– É, que seja. – Dou de ombros, também rindo e respiro fundo, mantendo a atenção no caminho que Thor me indicara. – Talvez você queira me ensinar. Conte-me de onde você veio.

Permito-me uma olhadela para o lado, encontrando primeiramente um Thor distante e nostálgico com o olhar perdido em algum lugar longínquo que lhe traz saudade, depois um Thor sorridente cheio de lembranças bem-aventuradas que subitamente o alegram.

– Eu venho de um lugar chamado Asgard...

–x-

No topo da Colina da Perdição, Thor e eu observamos a paisagem lamacenta abaixo de nós, preparando-nos para a batalha.

Até o toque de um celular vindo da van nos chama a atenção.

Entreolhamo-nos pesarosos com a possibilidade de termos sido descobertos e então corro até o banco do motorista, pegando o celular do painel e deparando-me com a escritura “Darcy” na tela.

Por via das dúvidas, penso que deixar Jane Foster, Erik Selvig e Darcy sem notícias é a pior coisa que posso fazer. Os Três Mosqueteiros podiam muito bem chamar a polícia e, se há uma coisa da qual eu não preciso, são tiras na minha cola.

– Funerária Santa Maria, sua morte é nossa alegria. – Saúdo.

– Domino? – Jane pergunta do outro lado da linha, não acreditando inteiramente que fui eu quem recebeu a ligação. Provavelmente, o celular do painel é dela.

– Glória a Deus, sou eu mesma.

– O que estão fazendo fugindo no meio da noite? – Pergunta a mulher, irritada.

– Não estamos fugindo, serva de Deus. – Minto. – Thor está em crise de abstinência, como eu vos disse. Viemos até a farmácia comprar-lhe uns calmantes. Estaremos de volta em pouco tempo.

– E por que roubaram a chave da minha van? – Ela insiste, agora irritando a mim.

Respiro fundo com a boca longe do aparelho e esboço um sorriso falso, concentrando-me em não perder a cabeça.

– Não roubamos a chave da sua van, simplesmente a pegamos emprestada silenciosamente para que você não acordasse. Não é nenhuma emergência, querida, somente uma compra sem importância.

O silêncio predomina por um momento – exatamente no momento em que começa a chover – até que ouço-a suspirar.

– Thor está bem?

– Está, está sim. Ele está bem... – Olho para frente, para o tal topo da Colina e tudo o que vejo é o vazio da noite. Thor sumiu! – Bem aqui ao lado, agora preciso ir, nossa vez no caixa chegou, vemos vocês depois, tchau.

Encerro a chamada e jogo o celular no banco, descendo da van na velocidade da luz, girando ao redor de mim mesma e correndo até a ponta do morro, os olhos buscando freneticamente o loiro escorregadio que desapareceu durante minha distração momentânea.

– Vadia! – Xingo Thor, batendo as palmas das mãos nas coxas.

Mas não demoro muito a achá-lo.

A Barbie está à minha direita, próxima a um emaranhado de túneis brancos que mais parecem partes do corpo de uma centopeia gigante. E isso não é tudo. Está em uma luta feroz com vários homens vestidos de preto que correm até ele como gnus em uma debandada. Touros em uma tourada. Crianças atrás do carrinho do sorvete.

E Thor abate cada um deles com uma habilidade além do normal, rindo e divertindo-se cada vez que derrota um, jogando-o na lama com força ou desferindo um soco que o incapacita.

– Talvez ele seja mesmo um deus vindo de Asgard e a louca seja eu. – Murmuro comigo mesma, observando a cena abismada.

De repente, vislumbro a sombra de um homem de preto correndo perigosamente perto de mim na escuridão. Ele tem uma mão em um dos ouvidos e minha presença passa despercebida por ele, já que me jogo no chão, mantendo-me deitada de barriga para baixo, sujando-me de lama.

– Unidade 0079 da SHIELD em Protocolo de Defesa. – Diz ele. – Repito: Unidade 0079 da SHIELD está em Protocolo de Defesa. Força hostil não identificada.

É aí que eu entro.

Quais eram as chances de eu esbarrar novamente no maldito nome SHIELD em uma missão que pensei que seria inteiramente dedicada a ajudar Thor?

Balanço a cabeça desacreditada e corro até a minhoca branca que são os túneis, dando a volta no morro e descendo a pequena ladeira lamacenta pelo lado contrário onde Thor está chamando a atenção. Os olhos estão todos nele e não avisto ninguém vigiando a retaguarda por onde estou passando. Então, quando chego perto o bastante do túnel, jogo-me contra ele, rasgando-o e vejo-me em seu interior.

Continuo a corrida até alcançar uma sala branca que deduzo ser o centro da instalação, com computadores em mesas brancas e algumas pilhas de papéis espalhadas sobre balcões na parede contrária aos computadores.

Tudo à minha volta parece deserto e me apresso em revirar os arquivos quando vejo que os computadores pedem uma senha que não tenho.

Os arquivos que encontro são pilhas e pilhas de relatórios sobre pessoas das quais nunca ouvi falar.

Mas um me chama a atenção.

Sua etiqueta diz HIDRA e percebo logo que não se trata de uma pessoa pelo nome incomum. Não sei o que me leva a vistoriá-lo, mas é o que faço, abrindo cuidadosamente a ficha e passando os olhos pelas informações, virando página atrás de página até um nome me surpreender. O meu.

Sinto minha expressão perturbada de dentro para fora e uma presença às minhas costas.

Mas só tenho tempo de senti-la e de me encher de adrenalina, porque, antes mesmo que eu me vire para ver quem mais está na sala, meu cabelo é violentamente puxado para trás e me vejo voando até os computadores, caindo com um estrondo de costas em uma tela, sentindo-a rachar contra minha pele e aterrissando no chão logo em seguida.

Ao erguer os olhos para meu agressor, encontro o rapaz cobra, loiro, encharcado como eu por conta da chuva e furioso diante de mim, satisfeito em me ver caída no chão diante de si.

– Encontramo-nos novamente, Hepburn. – Diz ele com gosto. Quem não conhece nossa história diria que estava realmente feliz por me ver.

Smilinguido. – Cumprimento com um aceno de cabeça.

– Meu nome é Silken. – Ele fala como se eu me importasse. – Você sabia que minha mãe não tem previsão para andar novamente? – Pergunta em falsa tranquilidade.

Com essa eu tenho que rir.

– Espero que ela nunca ande de novo.

É o bastante para que ele marche até mim e me erga do chão pelo pescoço em um aperto que me faz engasgar.

– Talvez eu deva quebrar cada pedacinho dos ossos das suas duas pernas para que você a faça companhia. – Sugere, o ódio pingando em cada palavra e o rosto avermelhado de ira. Seu braço está erguido ao máximo e meu corpo acima do dele e pergunto-me de onde é que essa galera tira tanta força.

– Prefiro fazer companhia ao diabo. – Digo como posso, muito baixo e com a voz entrecortada. O ar já começa a me faltar, trazendo dor e desespero e vou sufocando aos poucos. A pontada que senti o dia todo no abdome começa a se agravar e o sangue pulsa dolorosamente por meu corpo, mais forte e mais descontrolado do que nunca. Meus músculos estão tão tensos que mal consigo balançar as pernas.

– Ou eu posso simplesmente assistir a você sufocando lentamente... – Silken morde o lábio inferior, tentado a escolher essa opção.

Levo o pé direito para frente o mais forte que consigo e o acerto nas partes baixas, fazendo-o me largar imediatamente com um urro nada agradável.

De volta ao chão, tusso com vontade enquanto ouço o loiro azedo gritar todo o tipo de obscenidade contra mim.

Ele não demora a avançar na minha direção, erguendo o braço que desce na frente do meu rosto, bem rente ao espaço abaixo do olho direito. Mas sua mão não passa dali. Porque eu bloqueio o golpe com o punho direito que, vejo em choque, está envolto em uma luz de transparência violácea, como se eu estivesse usando uma armadura semelhante à do Homem de Ferro, como se a tal luz tornasse meu braço dez vezes mais forte do que ele realmente é.

Olho para Silken de modo assassino, tentada a quebrar-lhe o braço. Por um instante, minha visão fica inexplicavelmente embaçada, mas depois parece infinitamente melhor, mais nítida e, contra qualquer lógica ou racionalidade, vejo coisas que jamais vi antes: uma mosca voando do lado de fora da sala, no corredor, mais devagar do que nunca, as gotículas que saem da respiração ofegante de Silken, as sardas no rosto dele nas quais eu não havia reparado antes, uma rachadura em um dos cantos entre duas paredes que não vi quando adentrei a sala... Tudo tão lento, tão límpido, tão brilhante...

– Se-seus olhos... – Silken gagueja amedrontado e, quando tenta recuar, agarro seu braço em uma velocidade anormal, puxando-o para frente de modo que seu corpo bate contra a barreira violácea que agora me envolve por inteiro. O nariz dele sangra como se tivesse batido contra um muro e o empurro para longe, jogando-o para frente com tanta força que ele atravessa a parede de concreto, caindo sabe-se lá onde.

Olho para as paredes à minha volta e percebo que todas elas possuem uma câmera. Alguém teria visto a loucura que aconteceu aqui?

Sem que eu faça esforço nenhum, a luz violácea estoura do meu corpo, alcançando as paredes e explodindo as câmeras, quebrando a argamassa, jogando longe pedaços de entulho, arrebentando todo o equipamento de computadores e esvoaçando todos os papéis, derrubando e partindo mesas e cadeiras como se fossem feitas de algodão. A luz se vacila um pouco, piscando repetidamente, sem conseguir se manter intacta diante da bagunça.

Abaixo-me para pegar o papel referente a HIDRA que caiu bem aos meus pés e seguro-o firmemente, prestes a sair dali antes que recebesse uma visita pior.

Mas a vida é cheia de falhas, não é?

Bloqueando a porta com uma cadeira de rodas, lá está ela: a Mulher de Branco.

– Diabo, hein? – Pergunta ela com expressão superior de quem já fez três bolos enquanto você está indo buscar a farinha.

– Como foi que você desceu a encosta íngreme da lama até aqui? – Pergunto logo, curiosa a respeito de como três pessoas passam despercebidas pelos arredores desse lugar.

– Eu sou uma telepata, querida. Conseguir o que quero não é problema, acredite.

– Claro. Você é uma telepata, seu filho pirado muda de forma, hoje pela manhã eu conheci um deus de Asgard... Acho que só está faltando um dragão, certo? Ah, mas espere aí, seu filho pode se transformar em um.

– Você é engraçada. – Ela ressalta ainda com aquele ar de imponência. Que eu certamente não entendo e que não combina nem um pouco com sua pessoa. – Puxou seu pai.

– Chega de conversinha fiada. – Rebato irritada. – O que você quer?

– Eu quero você, Domino. – Ela fala como se fosse a explicação mais simples e razoável do mundo, para o que faço uma careta de completo desentendimento. – Eu sempre quis você. Sua mãe te escondeu de mim todos esses anos e escondeu a verdade de você, mas eu estou aqui agora. Posso te contar tudo o que você deseja saber.

– Foi por isso que a matou?

– Eu não...

– Não minta! – Grito, fora de mim de raiva. Sinto minha pele esquentar e fico tão irritada que um desejo insano de arrancar a cabeça daquela loira cretina com minhas próprias mãos só cresce dentro de mim. – Telepata ou não, eu sei que Jordana jamais se suicidaria. Então, não minta para mim. Suja a memória dela. E você não é digna disso.

– Se há alguém digna disso, sou eu, Ellendra Silken. Já que você é tão boa em pesquisas, como posso ver – o olhar dela vai para o arquivo da HIDRA em minha mão. –, procure por esse nome. Vai descobrir muitas coisas úteis.

– Está anotado. Agora, saia do meu caminho.

– Eu sempre estive no seu caminho, Domino. Não pretendo sair agora. Você pensa que é tão diferente? Que não é especial? Olhe só o que acabou de fazer. – Ela abre os braços, indicando a sala destruída em volta de si. – Quero uma resposta. Você vai se juntar a mim ou não?

Olho-a com o que considero uma mínima e quase inexistente sugestão de sorriso, chocada demais com a crueldade para realmente rir.

– Eu vou dar um tiro na minha própria cabeça antes disso.

A raiva faísca nos olhos de Ellendra.

– Que assim seja.

Ela acena com a cabeça para o lado e conduz a cadeira de rodas pelo corredor até sumir da minha vista, Silken surgindo do local para onde ela acenou e a seguindo – não sem antes me lançar o olhar furioso que promete uma vingança.

Não se passa um minuto desde a saída dos dois para que eu comece a sentir algo queimando dentro de mim. Não é como uma queimação de dor, é quente como fogo, como se eu estivesse pouco a pouco adentrando uma fogueira. Minha pele está literalmente começando a queimar de dentro para fora.

Minha respiração acelera pelo menos três vezes, arrancando de mim mais ar do que posso suportar ficar sem e minhas roupas começam a pesar demais.

Livro-me delas o mais rápido possível, jogando a jaqueta em qualquer canto e puxando para cima da cabeça a regata ao mesmo tempo em que um gemido escapa dos meus lábios.

Caio no chão retorcendo-me feito uma lagartixa, concentrando-me no frio que sinto nas costas até que o chão esteja tão quente quanto eu.

Começo a entrar em um novo nível de desespero, visualizando imagens minhas assando feito um porco, a pele carbonizada totalmente enegrecida.

Grito de dor quando o calor se torna mais intenso, sentindo meu corpo transpirar loucamente tentando aliviar a tensão da temperatura.

É quando minha visão turva encontra à minha frente um homem moreno de terno que, inicialmente, penso ser algum tipo de alucinação da minha cabeça transtornada. Só percebo que o sujeito é real quando ele se inclina sobre meu corpo, ajoelhando-se no chão sobre meus quadris e entrelaça os dedos nos meus, colando minha mão trêmula e queimante no chão, dando firmeza a ela.

Assim que sinto seu toque, solto um forte suspiro de alívio com o frio que vem com ele. É como um anestésico tremendamente prazeroso que me lança em uma onda de esperança que eu já não mais tinha.

Com a outra mão, o homem dos olhos verdes puxa para longe do pescoço uma echarpe verde, jogando-a no chão ao nosso lado e seu terno, camisa e gravata de repente se desmaterializam, desaparecendo diante dos meus olhos como se nunca tivessem existido. Ainda com a mão entrelaçada à minha, ele me puxa rápido e decidido para cima, contra seu peito.

Abraço-o imediatamente, grudando as mãos em suas costas, acariciando-as adorando a sensação de gelo contra minha pele absurdamente quente e emitindo graves suspiros de alívio quanto mais próxima fico dele.

Puxo minhas pernas estendidas para trás e coloco-me ajoelhada como ele está, erguendo-me nos joelhos e trazendo meu corpo para ainda mais perto do dele, sentindo seus dedos longos e macios percorrendo minha espinha bem devagar, de cima a baixo. Encosto a bochecha em seu ombro e fecho os olhos.

Não sei por quanto tempo permanecemos assim, mas logo entendo o que estava acontecendo: Ellendra, com sua maldita telepatia, fez com que eu pensasse que meu sangue estava esquentando até me queimar inteira. Logo, assim que tive algo gelado contra minha pele, o efeito do truque mental começou a diminuir até desaparecer.

Afasto o rosto do ombro do homem devagar, lamentando ter que estar fazendo isso e olho-o nos olhos desconfiada. Quem é ele? O que também está fazendo aqui, no centro da loucura? Por que me ajudou? Por que me salvou?

Mas não verbalizo nenhuma dessas perguntas. Estou agradecida demais para questioná-lo. E ele também não diz nada. Simplesmente alcança a echarpe jogada ao nosso lado, a coloca em volta do meu pescoço – fazendo-me corar feito uma imbecil ao perceber que estou apenas de sutiã diante dele – e sorri. Ele se levanta e me estende a mão, puxando-me para cima também.

– Aí está uma garota quente. – É a única coisa que diz antes de desaparecer no corredor.

Notas finais
Loki sempre chega pra divar HUGAIHISAUUGIH