Alma de Vidro |HIATUS|

8 Capítulo 08. Deus Abençoe A Genética


Notas iniciais
Esse tá pequenininho, mas tá valendo!

O dia amanhece mais cedo para mim.

Deixo o quarto de hóspedes ainda no escuro da madrugada, dirigindo-me até a cozinha morta de fome. Pepper e Stark insistiram para que eu usufruísse de meu antigo quarto – o que eu nem me lembro de um dia ter tido –, mas recusei.

Reviro a geladeira até encontrar qualquer coisa para rechear um sanduíche e só quando estou mordendo o primeiro pedaço do tal é que vejo, no balcão sobre um pedaço de papel, um copo transparente com tampa e um canudo ao lado, contendo um líquido esbranquiçado.

Aproximo-me lentamente, como que suspeitando que o copo possa se transformar em um inseto gigante e arrancar meu nariz com suas garras, mas tudo o que está presente na cozinha é o silêncio enquanto puxo o papel para lê-lo.

Seu favorito, está escrito.

Não tem assinatura e eu não preciso de uma para saber a quem pertence a caligrafia refinada.

Seguro o copo com as duas mãos, observando-o na tentativa de averiguá-lo para o caso de estar envenenado, ou sei lá. É leite com chá e pergunto-me onde foi que um deus de outro planeta encontrou leite com chá, porque, obviamente, não foi ele quem preparou a bebida.

Eu não me imagino bebendo chá leite com chá com Loki nem daqui a mil anos. Um homem como ele simplesmente não se encaixa em uma visão dessas. Então, como diabos ele sabia que era meu favorito?

Arriscando uma intoxicação, viro o copo na boca e bebo o líquido depressa sem o canudo, saboreando seu gosto reconfortante e estranhamente delicioso.

Assim que meu cérebro assimila o sabor, meu corpo trava. O fluxo da minha respiração para, todos os meus músculos enrijecem, minha massa cinzenta parece enclausurada por uma caixa que fica cada vez menor, apertando-o até que esprema todos os meus pensamentos e memórias perdidas.

Estou deitada em um chão de madeira lisa sobre e enrolada por dois cobertores e por um lençol, rodeada por travesseiros. A roupa de cama é toda branca e tão macia que sei que não tenho vontade de levantar nunca mais. Mas, pela expressão completamente vazia e sofrida em meu rosto, vejo que não quero levantar por outro motivo. Minha cabeça está tombada em um travesseiro também branco e estou imóvel com um curativo manchado de uma quantidade razoável de sangue no ombro direito. Lágrimas escorrem lentamente de meus olhos, estes focados em algum lugar e ocasião distantes.

Loki entra no cômodo usando uma camisa social branca e um jeans escuro com um casaco de veludo azul marinho. Ele traz um olhar inacreditavelmente triste e um copo de leite com chá em mãos.

Eu não levanto os olhos na direção dele, nem faço o menor movimento que indique que percebi sua entrada. Aliás, não pareço perceber nada. Estou alheia ao mundo.

Meus olhos estão lacrimejando loucamente quando começo a piscar e puxo desesperadamente o ar, ávida por respirar de novo. Percebo meu corpo junto ao chão frio da cozinha de Stark e sinto o leite com chá ensopando minha camisa do pijama, meu rosto e meu cabelo. Mas não tenho tempo para me concentrar em qualquer outra coisa, porque outro flash de repente pisca em minha cabeça.

Neste, estou usando um vestido estilo sereia champagne, naquele tom perolado que acho elegante. Ele fica justo e destacando cada mísera curva do meu corpo pequeno. Um jazz maravilhoso e afinado está tocando e, apesar de eu não saber dançar esse tipo de música, estou bem no meio do salão e Loki está me guiando na dança, usando um terno de linho preto e uma echarpe verde.

– Nós não deveríamos estar aqui. – Digo, balançando a cabeça e olhando ao redor. – Não temos tempo para isso.

Ele me olha com censura e desentendimento, como se fosse uma verdadeira criança. Lá vem uma frase irônica.

– Como é que você espera conseguir alguma diplomacia sem ter que fazer sacrifícios em nome de um bem maior?

Olho-o chocada, segurando o riso e acabo sorrindo.

– Você tem alguma ideia de como essa frase foi tão “não você”?

Ouço alguém chamando meu nome, sinto meu corpo indo para frente e para trás e abro os olhos, deparando-me com um Capitão assustado à minha frente, com as mãos em meus braços tentando me despertar. O olhar dele vai da bebida espalhada pelo meu corpo até meus olhos que, por um momento, ficam embaçados.

– Você está bem? – Pergunta alarmado.

Quando ameaço levantar sem responder à pergunta, Steve me segura pelo braço e ajuda a me erguer. Não posso deixar de reparar que tudo à minha volta parece... Mais nítido.

Caminho obstinada até o corredor onde ficam os quartos de hóspedes com o soldado em meu encalço, apressando-se para me seguir.

– Qual quarto, Cap? – Pergunto quando estanco os passos e o pobre Steve consegue frear por pouco, quase caindo sobre mim.

– Qual quarto o quê? – Pergunta atordoado.

– Loki.

– Domino, eu não acho...

– Qual quarto, Capitão?

À contragosto, Steve me indica com a cabeça a segunda porta à direita, onde entro feito um furacão.

Loki está sentado em uma cadeira de madeira em frente à janela do quarto. A cama está arrumada, como se ele não tivesse encostado nela e a luz que entra pela janela já indica que a madrugada se foi. Está com um livro em mãos, mas parece apenas estar disfarçando o fato de que o está segurando somente para não ser pego fazendo nada.

– Bom dia. – Diz com os olhos nas páginas.

Marcho até ele e o seguro pela gola da blusa verde de lã que ele está usando, levantando-o da cadeira e grudando seu corpo à parede.

– Domino... – Steve tenta intervir, mas não o estou ouvindo.

– Diga-me como nós estamos conectados agora mesmo! – Rosno irada.

Loki ri. Simplesmente ri. Na minha cara.

– Não me diga que você está tendo sonhos eróticos comigo. – Diz ele com gosto, bastante satisfeito com a situação e, apesar de seus olhos estarem nos meus, sei que acaba de dizer isso para provocar o Capitão e pergunto-me de repente se não teria sido melhor esclarecer meu passado com Steve primeiro.

Puxo Loki para frente pela camisa e bato seu corpo na parede de novo, tentando não arrebentá-lo.

– Você é engraçado. Você é bastante engraçado. Aposto que não será tão engraçado uma vez que eu arrancar os seus dentes.

– Os da frente ou os de trás? – Pergunta ele divertido.

Ergo as sobrancelhas fingindo pensar, entrando na brincadeira.

– Podemos tirar no cara ou coroa. Aí, então, eu faço um colar com os dentes sorteados e te presenteio no Natal, o que acha?

– Se quer saber mesmo como estamos conectados – Loki fala seriamente agora, o rosto inclinado em direção ao meu e qualquer sugestão de graça desaparecida. –, eu vou lhe contar. – Agora ergo uma sobrancelha só, sabendo que um truque está a caminho. – Mas vou contar apenas a você.

Novamente, Loki não tira os olhos de mim, mas está mirando no Capitão.

– Está tudo bem, Cap, eu vou ficar bem. – Digo contrariada. Não por Steve ter que se retirar, porque, pessoalmente, não estou animada para discutir o assunto diante dele, mas pelo fato de Loki estar induzindo sua retirada. – Vá. – Reforço quando vejo que Steve está tão contrariado quanto eu.

Ouço os passos do Capitão quando ele começa a se retirar e ouço o som da porta se fechando.

– A menos que você queira tirar minha camisa, acho que poderia me soltar. – Loki comenta com um sorriso expressivo.

Largo-o, revirando os olhos, e dou um passo para trás, ansiosa para me ver o mais longe dele possível para que talvez eu possa me focar no problema central.

– Você não vai me contar porcaria nenhuma e só quer ficar sozinho comigo para tentar alguma coisa inusitada, não é? – Deduzo. Sei que deveria estar irritada, mas só sinto satisfação, como se estivesse feliz com a declaração porque, se fosse de qualquer outro jeito, não seria o jeito de Loki.

– Você se lembra do Belkan? – Ele atira a pergunta para cima e mim, as sobrancelhas franzidas como se quisesse semicerrar os olhos para mim em sinal de raiva contida por seu habitual sarcasmo. Como se estivesse prestes a disparar uma acusação contra mim. – O nome Belkan diz alguma coisa a você?

– Pare. – Peço, sabendo aonde ele quer chegar. – Me deixar com raiva para que eu comece a me lembrar das coisas é idiotice e, pelo seu tom acusatório, é exatamente isso que você quer fazer. Então, o que aconteceu? Eu traí Belkan? Eu o matei? Ele morreu por minha causa? Não adianta, eu não vou me lembrar assim, Loki!

– Então, eu quero te deixar irritada. – Diz ele com naturalidade. – Não me deixe. Como você já disse, não se lembra de nada, de qualquer maneira.

Não, não me lembro. Mas o nome Belkan não me é tão estranho assim. Na verdade, assim como o nome Loki me trazia coisas à cabeça quando eu o escutava, o nome Belkan me fez pensar em força. Honra. Sacrifício. Morte.

– Ele está vivo? – Pergunto com a voz cortada, sentindo com pesar a onda de uma nostalgia profunda que me atinge como um tapa.

– Está? – Loki repete, a expressão de falsa inocência presente mais do que nunca em seu rosto. – Diga-me você. Você era a melhor amiga dele, ele era seu melhor amigo... Com certeza você sabe disso melhor do que eu.

E lá está ela outra vez: a adrenalina que sinto me apunhalando como uma faca de dois gumes quando meu cérebro faz alguma menção de se lembrar de algo importante.

– Pare com isso. – Insisto, colocando as mãos na cabeça que parece querer explodir com seus baques como água pingando sem parar de uma torneira aberta.

– É isso que você diz em uma situação difícil? – Loki pergunta com desdém, arriscando alguns passos na direção da minha pessoa trôpega. – Você realmente não se lembra de nada sobre si mesma, não é?

– Chega, Loki! – Grito, sentindo o peso das palavras dele me esmagar ainda mais, como se eu estivesse no fundo do oceano e a pressão da água me sufocasse com cada vez mais força, prendendo-me em um buraco fundo e escuro.

– O que você vai fazer? – Ele está bem diante de mim agora, abaixado na minha direção com o nariz quase tocando o meu. – Vai chorar?

A raiva explode de mim em um estardalhaço surreal.

Uma luz violeta se expande do meu corpo e, quando atinge os móveis, quebra-os em pedaços como se fosse a coisa mais sólida e resistente do mundo. Quando chega às paredes, quebra o concreto e produz rachaduras. O vidro da lâmpada se quebra com violência e um estilhaço atinge o canto superior esquerdo da minha testa.

Sinto a ardência do corte, mas ela parece tão inferior comparada à confusão à minha volta que a ignoro.

Não demora muito para que Tony, Pepper, Jane, Thor e Steve apareçam ofegantes na porta do quarto, todos encarando a cena chocados.

De algum modo, sei que meus olhos estão violeta e sinto como se uma corrente elétrica estivesse girando pelo meu corpo agora, como se um poder incrível estivesse presente em cada uma de minhas células. Como se eu pudesse cair do alto da Torre Stark, em Nova York e sobreviver. Como se pudesse fazer qualquer coisa. Como se fosse flexível o suficiente para um triplo mortal carpado de costas com uma xícara de café em mãos sem derrubar uma gota de café.

Olho para Loki e vejo que ele entende a sensação de poder. Quem melhor que ele para entender? Sustento seu olhar e sinto-me obrigada a assentir imperceptivelmente, como que dizendo a ele que funcionou. Porque entendo tudo. Loki não queria que eu ficasse zangada para me lembrar aos poucos do meu passado. Ele queria que eu perdesse o controle para me lembrar de uma coisa específica. De que meu DNA é alterado. De que a luz violáceo é meu poder. De que eu sou uma mutante.

Notas finais
Só pra esclarecer: não coloquei a fanfic na categoria X-men porque a Domino na verdade é uma mutante que não tem nada a ver com eles e nenhum X-men aparece nessa história.