Alma Sombria

7 Capítulo 6


OS OLHOS DE ESTRELA DE ROCHA ARREGALARAM-SE NA HORA, CHEIOS DE LÁGRIMA. Sua boca deixou-se perder, e sua pelagem ao longo da espinha eriçou-se.

— Saia da frente! — Roncou Estrela de Rocha, quase atropelando Cauda de Esquilo ao passar. Pata Partida sem esperar correu atrás, a pelagem arrepiada e as garras à mostra. O corpo esbelto e branco de Flor de Aurora agora era cheio de cicatrizes e manchado de sangue, inerte, ele jazia no centro da clareira. Os gatos à volta davam espaço ao líder. Em pânico, Pata Partida parou, as pernas rijas de pânico. Seu coração pesou, seus olhos encheram de lágrimas, seu chão parecia ali desmoronar.

— NÃAAAO! — Gritou Pata Partida, correndo ao encontro da mãe. Pata Listrada já estava lá, a cabeça enterrada nos ombros peludos, o olhar longe, opaco. Pata Partida colocou-se ao lado do irmão e do pai, que ali lamentavam sua perda. Pata Partida aconchegou-se perto do peito da mãe, e, afundando seu focinho no pescoço da mesma, fungou seu perfume pela última vez.

— Mamãe... não me deixe — Ela sussurou em seu ouvido, sua voz era quase um múrmuro. — Eu não sou nada sem você, mamãe.... nada. — As lágrimas comaçavam a escorrer frenéticamente no rosto da aprendiz, que, não lutava em conte-las. Pata Branca e Pata de Esquilo vinham ao seu lado, prestando solidariedades. As rainhas do berçário vinham aos poucos, o olhar triste. Murmuravam palavras carinhosas em seu ouvido e iam em bora cuidar de seus filhotes. Pata Partida acomodou-se, pronta para passar a noite ali. As primeiras estrelas do tule de prata começavam a aparecer no céu limpo, que, levemente, dava espaço a escuridão. A maioria dos gatos já haviam ido para suas tocas. Dali onde estava, Pata Partida podia ver a forma esguia de Pata de Esquilo subir e descer, respirando calmamente em quanto dormia. Céu Chuvoso e Lua Nova montavam a guarda para a noite, Cauda de Esquilo, com o olhar longe, fazia a vigilia com Estrela de Rocha, lado a lado. Pata Partida e Pata Listrada estavam emboladinhos um do lado do outro, a pelagem arrepiada por conta do frio que tomava conta da noite que outrora fizeste tanto calor. Pata Partida sentia os músculos doer, porém, não sairia dali até o nascer do sol. Sua mãe, tão amada, que lhe cuidara tão bem, que lhe protegera debaixo de seu ventre, que lhe dera seu leite e lhe ensinara a viver no Clã, agora, estava morta. Cauda de Esquilo falava com o líder, enchendo-o com palavras reconfortantes e carinhosas. A patrulha do anoitecer chegara, e, fazendo um aceno de respeito e tristeza com a cabeça, logo também foram para o aconchego de suas tocas. Pata Partida era um poço de tristeza e exaustão, seus olhos, de vez em quando, fechavam, mas Pata Partida logo tratara de abri-los. Com um lampejo nos olhos, Pata Partida lembrou-se do sonho, onde a mãe despedia-se dela e, lhe mostrava dois caminhos, um escuro, e outro claro, mandando-a seguir seu coração, e logo depois dando o último adeus. Pata Partida ficou em choque. Seu sonho lhe avisou que sua mãe morreria naquele dia, e ela nem sequer percebeu. Agora só lhe restava lamentar e despejar suas palavras carinhosas sobre o corpo inerte da mãe.

~~

Quando Pata Partida acordou, o ninho de Pata Listrada já estava frio, indicando-a de já ter saído a tempos. A aprendiz piscou algumas vezes, espantando o abatimento que caía em si ao lembrar-se de tudo que ocorrera na noite anterior. Pata Partida havia ido treinar com seu pai, líder do Clã do Trovão, porém, quando chegaram, receberam a dolorosa notícia do falecimento de Flor de Aurora, sua mãe. Desde ai, Pata Partida, Pata Listrada e Estrela de Rocha montaram vigília a noite inteira, indo descansar apenas ao nascer do sol. Quando Pata Partida ia saindo da toca dos aprendizes esbarrou em cheio com Pata Listrada, que entrava aos trombolhões.

— É hora de enterrá-la. — Miou ofegante, sua voz era um fiasco. Pata Partida não respondeu, apenas seguiu o irmão. Pelo visto já era sol apino. A patrulha do sol alto acabara de chegar, fazendo barulho ao passar pela barreira de folhas da entrada do túnel. Estrela de Rocha liderava a patrulha, que ao chegar, foi ao encontro dos filhos, o olhar perdido, desolado.

— Enterrem-a, eu não posso deixar o Clã agora, mas mais tarde irei fazer as últimas despedidas. — Miou o líder, fazendo um aceno doloroso com a cabeça. Folha de Outono que estava perto dali ouviu parte da conversa, aproximando-se.

— Eu posso ajudá-los — Murmurou Folha de Outono, dando um oi com a cauda ao chegar.

— Ah.. sim. Obrgado. — Roncou o líder, despedindo-se e caminhando para a sombra da Pedra Grande, onde Cauda de Esquilo o esperava. Folha de Outono acenou compreensivamente com a cabeça para os aprendizes, e então, junto a dupla, arrastaram o corpo para fora do acampamento. A floresta parecia sorrir, as flores que haviam caído no chão agora formavam um tapete colorido mesclado com o verde vivo. Ao longe podiá-se ouvir os sons de pássaros, que cantavam graciosamente. As árvores que estendiam-se até em cima recebiam o brilho forte do sol, ganhando uma coloração dourada. Tudo estava do jeito em que Flor de Aurora gostava.

— Aqui está ótimo. — Roncou Folha de Outono. O lugar era realmente bom. Pata Partida soltou cuidadosamente o corpo de Flor de Aurora no chão, e, com passos pesados, caminhou até onde seria a sepultura. Pata Listrada, Pata Partida e Folha de Outono cavavam um buraco ideal no chão macio, espalhando terra por todos os lados. Folha de Outono agarrou a guerreira pelo cangote e, com cautela, arrastou-a até o buraco. Pata Partida mal podia conter a tristeza que novamente lhe tomava por dentro, arrasando-a.

— Adeus, mamãe. — Murmurou baixinho Pata Partida, a cabeça afundada sobre os ombros largos. Pata Listrada deu uma última olhada e virou-se, indo em bora. Pata Partida e Folha de Outono foram depois, lado a lado. A aprendiz andava mais devagar a medida em que alcançavam o túnel. Suas patas doíam, seu olhar antes tão vívidos agora estavam opacos, sem vida. Sua cauda arastava-se no chão, varrendo as folhas secas da floresta. Pata Partida não ligava se estava calor ou frio, se estava ventando ou não, se tinha flores ou vida na floresta, para ela, nada mais importava no momento, ela só queria lamentar sua perda.

— Nada como um dia comum no Clã para acalmar os nervos, não é, Copo de Leite? — Murmurou Pata Partida ao entrar pela porta estreita do berçário. Lá dentro estava aconchegantemente quente, o cheiro morno de leite estava por todos os lados, as folhas da parede impediam de que o vento e a luz do dia entrasse, fazendo com que a aprendiz tivesse de piscar algumas vezes para acostumar-se a escuridão. A esbelta rainha branca estava deitada de lado, as duas minúsculas bolinhas de pelos que Pata Partida vera luas atrás, agora estavam maiores, escalando a barriga da mãe.

— Pois é — Murmurou a rainha, soltando um suspiro de alívio — Nada como um bom sol para tirar aquelas bolas de pelo preguiçosas do ninho. — Ronronou, divertida. Pata Partida os olhava, feliz. Aquelas pequenas criaturinhas, tentando correr e aventurar-se pelo berçário fazia com que Pata Partida lembrasse da infância, com quem passou ela toda no aconchego do ventre de sua mãe, junto a Pata Listrada.

— Desculpe-me não não ter vindo esses dias... eu estive meia... — A voz de Pata Partida morreu na garganta, o coração voltou a pesar ao lembrar de sua mãe.

— Ah, não se preocupe, minha jovem. — A rainha lançou-lhe um olhar de compreensão, como uma mãe olha para seu filhote. — Todos nós sabemos pelo que você está passando, sei que não é fácil, mas vai passar, um dia, vai passar. — A rainha piscou-lhe gentilmente. Pata Partida agradeceu silênciosamente por ter gatos com quem se importasse com ela. Copo de Leite havia cuidado de Pata Partida e Pata Listrada junto a Flor de Aurora, com quem era muito próxima.

— Eles parecem bem maiores do que quando os vi pela última vez. — Ronronou positiva. — Logo deixaram o berçário! — Exclamou, mostrando as presas grossas ao sorrir.

— Mal espero para esse dia — Brincou a rainha, os olhos azuis brilhando de orgulho. — Eles já estão começando a dar muito trabalho para uma velha gata como eu. — Disse ela, olhando além de Pata Partida, o olhar perdido. — Logo poderei levá-los para conhecer o acampamento — Ela fez uma pausa — E a floresta também. — Miou a rainha, parecia preocupada.

— Não se preocupe, Copo de Leite, você poderá contar comigo para ajudá-la quando quiser. — ... — É um prazer poder traçar o caminho dessas pequenas bolinhas de pelos, ensinando-os o código e as fronteiras. — Pata Partida começava a lembrar-se de quando ela e Pata Listrada haviam ido junto, com Espinheiro e Risco Branco, conhecer as fronteiras do Clã.

— Sim... — A rainha branca a olhou profundamente. — Se eles se tornarem um aprendiz de pura corajem, firmeza e lealdade como você, será melhor ainda. — Ronronou a gata, olhando-a com orgulho. Pata Partida sentiu-se sem graça, e, procurando o olhar da gata, reparou como ela parecia cansada.

— Bom, obrigada. — Pata Partida retribuiu o gesto, agradecida. — Eu vou te deixar descançar agora, amanhã eu volto, prometo trazer uma peça suculenta de presa fresca. — Ronronou por sobre o ombro, antes de sair. Quando Pata Partida saiu, seu pai, Estrela de Rocha estava em cima da Pedra Grande, fazendo a convocação habitual do Clã. A maioria dos gatos já estavam lá. Pata Partida foi até o grupo de aprendizes que estavam na estremidade da clareira, observando.

— O que há? — Perguntou Pata Partida, ao chegar.

— Estrela de Rocha convocou uma reunião, ninguém sabe sobre o que se trata ainda. — Miou Pata Branca, a curiosidade velada em seu olhar azul. Pata Listrada acomodou-se ao seu lado.

— É, mas se tiver algo a haver com o brilho de satisfação no olhar de Cauda de Esquilo, a notícia promete ser boa. — Ronronou Pata de Esquilo, divertido.

— Como todos já sabem, ontem, uma de nossas guerreiras veio a falecer por conta de uma luta boba de fronteira com o Clã das Sombras — Estrela de Rocha começou a falar, a voz era um ronco grosso e decidido. — O Clã das Sombras vai pagar, vai pagar por tirar a vida de uma guerreira inocente que morreu bravamente protegendo nossas terras! — O miado do líder era quase um grito. Vários múrmuros de concordância ecoavam pela clareira. Pata Partida e Pata Listrada se entreolharam, os olhos arregalados. Pata Partida não sabia o que sentir, era a primeira vez que presenciava aquilo, porém, uma coisa não podia negar, uma comichão em seu peito crescia, fazendo-a querer explodir.

— Hoje a noite — Ele miou, varrendo a clareira com seu olhar amarelo. — Hoje a noite, vamos atacar o Clã das Sombras!