Alma Sombria
11 Capítulo 10
A AURORA DO INÍCIO DA MANHA SE ALASTRAVA PELO CÉU, ILUMINANDO A FLORESTA GELADA. A cabeça cor de avelã de Cauda de Esquilo apareceu na toca dos guerreiros, soltando um longo bocejo em quanto verificava o ar. Uma pata depois a outra ele saiu, alongando o corpo esguio. Com um olhar de simpatia ele sinalizou para que os dois irmãos viessem até ele. Pelagem Partida espreguiçou-se, flexionando as pernas enrijecidas uma de cada vez e passando a lingua seca sobre os lábios, e então foi ter com ele.
— Podem falar, a vigilia já terminou. — Ele miou com simpatia.— Ufa, achei que ia congelar aqui fora. — Brincou Garra de Espinho, aliviado por já ter acabado.— Vão descansar agora — Miou Cauda de Esquilo, fazendo um sinal com a cauda para que Pelagem Partida esperasse. Quando o irmão já havia entrado na toca dos guerreiros, o representante falou.— Quero que comande a patrulha do sol alto ao longo da fronteira com o Clã das Sombras, verifique se não estão colocando as patas em nossos territórios.. eles andam meio inquietos desde o dia da luta. — Cauda de Esquilo miou olhando o chão, pelo visto o representante compartilhava dos mesmos medos da jovem. Com um aceno, concordando, ela se foi. — Pelagem Partida, acorde, é hora da patrulha. — Cauda de Esquilo a cutucava, tentando acordá-la. — Acorde, vamos. — A gata abriu lentamente os olhos, parecia não ter dormido nada, as únicas vezes em que pegara no sono era atormentada pelas lembranças dos olhos bicolores queimando pousados em si.— Ah, claro — Ela levantou-se com dificuldade. — Estou indo. — Está bem, mas não demore. — Ele murmurou saindo da toca. Os raios de sol estavam mais fortes agora, ultrapassando a barreira de galhos da toca dos guerreiros e iluminando a entrada, sem indícios da noite fria que fizera. Tirando os pedaços de musgo grudados em seu pelo a gata respirou fundo e se foi, deixando a toca confortável para trás e indo cumprir com suas obrigações de guerreira. O sol só enganava, pois o vento que batia fazia a guerreira tremer nos ossos. Risco Branco comia ao lado de Lua Nova, os dois conversavam como se fossem melhores amigos. Cauda de Esquilo dava ordens a Pata Branca e Garra Listrada quando Pelagem Partida se aproximou.— Quem eu devo levar? — Perguntou a gata depois de cumprimentar a amiga.— Leve Garra de Azevinho, Folha de Outono e Pata Branca, será bom levar guerreiros experientes para que aprendam como é comandar uma patrulha. — Cauda de Esquilo piscou deixando-os a sós.— Está bem.. então vamos, antes que percamos o sol alto. — Ela miou ronronando. Garra Listrada foi chamar Garra de Azevinho e Folha de Outono que estava do outro lado da clareira, e juntos os quatro gatos caminharam para fora do acampamento. Indo por trás, os gatos atravessaram o Grande Plátano e seguiram o Caminho do Trovão até as Quatro Árvores, sempre verificando se havia sinais do Clã das Sombras e remarcando as marcas de cheiro. Como um estalo, Pelagem Partida olhou em volta, o vento batia forte nas copas das árvores mais altas, fazendo as folhas coloridas caírem sobre o chão, formando um tapete colorido. Com uma pontada no coração, Pelagem Partida percebeu que o Renovo acabara, dando lugar ao calor e a ventania da Estação que vinha preparar a floresta para a longa e árdua Estação sem Folhas. A Estação das Folhas Caídas começara. — Nenhum sinal do Clã das Sombras por aqui. — Murmurou Garra de Azevinho, o rosto retorcido pelo fedor do Caminho do Trovão.— Nem aqui — Folha de Outono chegava com Pata Branca, ambos não haviam detectado nada.— Está bem.. então.. é... — Ela estava um pouco perdida, não tinha ideia de como comandava uma patrulha, mas, lembrando-se das que já fora, ela fazia o possível. — Então vamos retornar ao Clã e avisar o líder, no caminho vamos caçar algo. — Miou tentando parecer o mais confiante possível. Os gatos a sua volta pareciam satisfeitos, começavam a retornar ao acampamento, atentos a qualquer sinal de presa. Pelagem Partida se afastou ao ouvir o bicar de um pássaro no tronco da árvore, tentando tirar uma minhoca que rastejava para um buraco. Passo ante passo, a gata olhava a ave atentamente, sem conseguir pegar a minhoca, o pássaro voou, mas não foi rápido o suficiente, Pelagem Partida deu uma patada forte no ar, fazendo-o cair sem vida. Pelagem Partida correu para acompanhar o grupo, cada um trazia uma ou duas peças na boca. Ao chegarem, eles depositaram o resultado na pilha. A guerreira depositou o pássaro que pegara primeiro na pilha e escolheu um rato gordinho para levar aos anciãos. Ela sabia que esse não era mais o seu dever, porém ela gostava de visitá-los e tirar um pouquinho de suas paciência, que já não era muita. — Com licença. — Murmurou entrando, colocando o rato bo meio da toca. — Alô, Estrelinha — Miou sorridente ao avistar o ancião, que estava deitado no cantinho da toca, a cabeça elevada. — Lobinho.. Castanha — Ele acenou em um oi. — Ah, deixe-me adivinhar. — Estrelinha se levantou com dificuldade, o corpo gordo já começava a atrapalhar as pequenas pernas do ancião. — Isso é para mim, não é? — Ele miou vaidoso, sem esperar respostas, já comendo a presa apetitosa. — Eu sei que é.
— Bem.. eu só vim trazer esse agradinho, em breve os aprendizes irão trazer mais — Ela soltou um ronrom. — Eu já vou indo, tenho deveres a fazer. — Ela miou dando uma piscadela.— Ah.. meus tempos de guerreira.. — Castanha miou, lamentando-se. — Era tão bom correr ao vento, caçar minhas próprias presas e arrancar tiras de pelos dos inimigos. — Ela soltou um suspiro. — Eu lembro quando, ha muitas luas atrá.... — Pelagem Partida saiu rápidamente antes que os anciãos a convidassem para ouvir a história que, como sempre, parecia demorar luas e luas para acabar. Copo de Leite estava do lado de fora do bercário, aproveitando o sol que lançava seus raios confortantes sobre o chão gelado da clareira. As duas bolinhas de pelo escalavam o corpo brando da mãe, que parecia cochilar, a não ser pelas orelhas contraídas para trás, atenta a cada movimento dos filhotes. Pelagem Partida se aproximou, a cauda erguida de satisfação a ver que os filhotes cresciam cada vez mais rápido.— Olá — Miou a guerreira ao se aproximar. Copo de Leite abriu os belos olhos azuis e piscou-lhes suavemente para a gata, que abaixou-se para fitar os bebês. — Bom dia bebês — Pelagem Partida sorriu para eles, o mais velho era um macho preto com uma pequena mancha branca no peito e olhos azuis como os da mãe, a mais nova, uma gatinha branca com as patas, orelhas, cauda e focinho negros a olhava, seus olhos eram verde-folha, aberto como o de Aveleira também parou de brincar, saltando para ficar na frente da guerreira. — Você é Pelagem Partida, não é? — Miou a jovem, os olhos verdes arregalados de adimiração.— Sou sim — Ela ronronou.— Mamãe disse que você seria mentora de um de nós! — O gatinho mais velho pulara da lateral da mãe e se juntara a irmã, alternando o peso de uma patinha para a outra, ansioso. Pelagem Partida fitou a rainha, os olhos azuis-piscina a fitavam com simpatia.— Eu faço muito gosto — Ela miou calma — Falarei com Estrela de Rocha para que, quando chegar a hora, faça a escolha mais obvia. — Ela piscou com carinho para a guerreira, que sentiu a pelagem queimar, não pelo sol, mas sim pela emoção que a tomara.— E...eu.. — Pelagem Partida gaguejou, escolhendo as palavras certas — Eu adoraria. — — Já está chegando a hora... esses dois estão ficando grandes de mais para o berçário. — Ela miou divertida, enrolando a cauda branca fofa sobre os dois filhotinhos.— Bem, eu vou indo, então. — A guerreira miou dando um aceno aos filhotes e a rainha, virando-se logo depois. Mancha Branca estava do outro lado da clareira dividindo um rato silvestre com Lua Nova, as duas gatas trocavam dicas, simpáticas. Pelagem Pertida se perguntou se talvez a guerreira cinza estivesse esperando bebês também, várias das vezes que vira a esbelta gata cinza quando ela não estava em patrulha estava no berçário com as rainhas. Bem, se isso acontecesse mesmo, Pata de Esquilo logo viraria guerreiro, ou, trocaria de mentor, o que era menos provável já que ele tinha quase a mesma idade da recém guerreira. Garra Listrada estava nos ramos perto da toca dos guerreiros quando, com um som abafado, chamou a irmã. — Toma, peguei para você. — O gato empurrou um pardal até a irmã. Pelagem Partida acomodou-se ao seu lado e deu uma mordida na presa.— Eu ouvi algo em quanto estávamos na avaliação... — Garra Listrada parecia pensativo, o olhar verde fitando o chão. — Não te contei antes porque.... porque eu não tinha certeza.. parecia ser bobeira, mas pensando agora, acho melhor eu dividir isso com você. — Pata Partida o olhava com certa curiosidade, o que será que o irmão ouvira de tão preocupante? A pelagem do pescoço da guerreira começou a se eriçar de desconforto com a inquietude do irmão, que parecia escolher as palavras que usaria.— Vamos, fale logo! quer me matar de curiosidade? — Pelagem Partida deu mais uma mordida na presa, mastigando.— Eu ouvi.. eu acho — Ele fez uma pausa, pousando o olhar verde na irmã — Eu ouvi o papai falar algo sobre um futuro sombrio... um assassino no Clã.. algo do tipo. — Pelagem Partida engasgou, cuspindo as penas do pardal. — C..como? -— É... ele falava com Risco Branco sobre um futuro assassino no Clã, com o futuro sombrio. — O olhar verde de Garra Listrada tinha um sombreamento de preocupação.— E... e o que Risco Branco disse? — Ela perguntou, dando algumas mordiscadas na presa, tentando não parecer assustada. — Ele falou que era bobagem, e que se tornaria um, ou uma, não sei direiro, guerreira em potencial e que tinha grandes habilidades a oferecer ao Clã. — Ele fez uma pausa — Eu... eu iria ouvir mais, só que eles perceberam meui cheiro, e eu fingi estar tocaiando algo ali. Eles não ligaram e foram cada uma para o seu rumo. — Ele terminou, olhando a irmã, esperando uma resposta.— Deve ser bobagem mesmo... — Ela piscou para o irmão, confortando-o — Não ligue para isso, se fosse algo importante mesmo, papai avisaria todo o Clã. — Garra Listrada deu de ombros, dando uma mordida faminta na presa.— Será que vai demorar muito para Pata Branca e Pata de Esquilo virarem guerreiros? — Garra Listrada perguntou, mudando totalmente de assunto.— Não faço ideia — Admitiu a gata, lançando um olhar ao tronco caído dos aprendizes, onde a pelagem espessa de Pata de Esquilo ondulava em quanto tomava um banho completo.— Sinto falta deles — Murmurou baixinho o gato listrado, seguindo o olhar da irmã. — É.. eu também. — Pelagem Partida miou sentida, Pata Branca e Pata de Esquilo eram mais novos que Pelagem Partida e Garra Listrada, faltava quase uma lua para eles se tornarem guerreiros também, e, emfim, voltarem a dividir a toca com os antigos amigos. Estrela de Rocha caminhava até o berçário e, com esforço, passou pela entrada estreita. O líder gostava de ver o futuro do Clã e orientá-los para que sejam fortes e leais guerreiros. Cauda de Esquilo organizava a patrulha extra do sol alto, chamando Lua Nova, Pelagem de Chumbo e Céu Chuvoso. Pata Branca brincava de lutinha com os filhotes de Fogueira, a rainha olhava atenta a brincadeira, como se a qualquer momento, os gatinhos sairiam aos pulos e choros. Lobinho colocava a cabeça larga para fora da toca dos anciãos, farejando o ar cautelosamente. Estrelinha e Castanha estava deitados de lado do lado de fora da toca, ambos cochilando sob o calor do sol, apreciando o dia quente que logo traria lufadas de ar frio, lembrando-os que a Estação das Folhas Caídas começara, e que, seus calores e frios contínuos revesariam por mais algumas luas. Pelagem Partida pensava, será que o que Garra Listrada falara sobre Estrela de Rocha e Risco Branco tinha algo a ver com ela? Algumas luas atrás, quando Pelagem Partida ainda era uma aprendiz, ela havia sido atormentada por sonhos crueis no qual fazia um grito de guerra, destinando os gatos do Clã à morte. Seu pai, Estrela de Rocha, parecia também ter tido os mesmos sonhos, pois Pelagem Partida o pegara trocando sonhos com Aveleira, perguntando-a, se pelos poderes de um curandeiro, ela saberia sobre algo. E agora, com Risco Branco, ele dava indícios de estar novamente atormentado com esse assunto. Talvez tivera algum outro sonho... talvez, o mesmo que a jovem!— Pelagem Partida e Garra Listrada — Uma voz arrancou a guerreira de seus pensamentos, que, levantando o olhar, viu a cabeça avermelhada de Cauda de Esquilo.— O quê? — A gata sacudiu a cabeça livrando-se dos pensamentos.— Quero que façam a patrulha do sol alto amanha. — Ele murmurou com um aceno. — Estrela de Rocha sairá antes do nascer do sol, quer ir as Pedras da Lua trocar lambidas com o Clã das Estrelas. — ... — Levem mais um guerreiro e um aprendiz com vocês, patrulhem a fronteira com o Clã do Rio, e certifiquem-se de estar tudo em seu devido lugar. Quando voltarem, relatem-me o que viram. — Ele acenou com a cauda espessa e se virou.— Oba, patrulha. — Garra Listrada ronronou, satisfeito. — O que você vê de tão bom em uma patrulha? — Perguntou a guerreira, sempre vira o irmão feliz ao realizar tarefas do Clã. — Não sei... apenas gosto de servir meu Clã... sempre lutarei por ele, pelo certo ou pelo errado. — Ele deu uma piscada simpática a irmã, dando a última bocada no rato. Pelagem Partida remexia nos restos da ave, fitando um ponto que só ela via. Garra Listrada a cutucou.— Você vai comer isso ai? — Ele apontou para o pardal semi-comido.— Ah não, é todo seu. — Ela o empurrou até o irmão, que a pegou com a lingua presa de lado. Pelagem Partida levantou, passando a lingua sobre os lábios secos. Tudo estava calmo no acampamento, a última luz do sol morria no horizonte, deixando o céu alaranjado. As primeiras estrelas do Tule de Prata começavam a aparecer. E Pelagem Partida se perguntava o que lhes esperavam, no dia seguinte.
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