Alluring Secret
1 Cena 1 - A queda
O céu. Objeto almejado pelos mortais após a morte. Recheado de pureza e bondosos anjos, que das brancas nuvens vigiam a vida dos humanos.
Kardia não era diferente dos demais. Apesar de anjos não possuírem gênero, suas aparências humanas podiam simular o masculino e o feminino. Neste caso, Kardia parecia um homem de corpo definido, alto, longa cabeleira azulada, pela alva e perfeita.
A este anjo cabia a missão de vigiar os humanos junto com outro anjo, de aparência feminina, cabelos negros e pele bronzeada, facilmente se passaria por uma bela mulher latina.
-Os humanos... tão frágeis e tão interessantes, não acha?
-Lamentável a sina deles, Calvera, seus dias longos são apenas um segundo diante de nós. Como pode o Senhor não ter piedade com eles e dar-lhes mais a suas almas? – suspirou o anjo masculino.
-Para isso nosso Senhor nos deu o dom de protegê-los e caminharem em boas direções, Kardia. Aliás, venho notando algo em você.
Kardia sorriu, irônico. Começou a mexer no cabelo com ar de arrogância:
-O que tem de mais em mim?
-Você anda observando demais aquela cidade francesa... Paris.
-As idéias do mundo saem de lá, é bom observar o povo que anda ditando modas aos demais. – bufou o anjo.
-Será mesmo?
Calvera se levantou da poltrona açucarada de nuvem que estava e foi para o seu posto, sem deixar de observar onde os olhos azuis de Kardia observavam. Era um casal burguês, jovens e bonitos. A moça loura e delicada e o rapaz altivo e sério.
-Quem dera você fosse imortal como nós... Degel...
Calvera estava furiosa. Ela sabia bem que não era por Paris ser o “centro” do mundo humano. Naquela cidade estava o “centro” de Kardia, o humano que o anjo mais desejava e observava. Anjos podiam ter ciúmes? Pois se podiam, Calvera estava mortificada em inúmeros cortes no seu coração imortal por esse sentimento. Sempre desejara Kardia para si e apenas para si.
Ela precisava agir, precisava retirar aquele humano da cabeça do anjo!
Seus passos rápidos buscavam o grande templo do anjo mestre, aquele que, em nome dos arcanjos, ditavam as leis divinas, Sage. Aquele anjo teria o poder de deter Kardia em seu pecado.
O anjo feminino adentrou ao grande salão de mármore branco e puro, como se tivesse sido esculpido na hora e não nos tempos da Criação. Em seu trono, Sage parecia aguardar Calvera.
-Mestre...
-Imaginava que um dia viria aqui. Eu via sua expressão triste, pequena criança. O que houve? – disse Sage, num tom doce e paternal.
-Sinto que Kardia, meu colega de casta, está se perdendo em sua missão. Temo por ele próprio.
Sage ficou surpreso. Kardia sempre lhe pareceu um bom anjo, cuidando de sua missão de guiar os humanos dos céus com fidelidade e precisão. O que poderia tirar o anjo de sua missão?
-Conte-me, criança, conte-me todas as suas angústias.
Calvera então começou a narrar os acontecimentos, desde quando começou a desconfiar até ter a certeza naquele dia.
O anjo feminino pensava seriamente que Sage poderia salvar Kardia, mas sua esperança se desfez em pedaços quando o anjo mestre pareceu tomado pela cólera.
-TODOS OS ANJOS! TRAGAM-ME O OFANIM KARDIA AGORA!
Tudo o que Kardia sentira nos minutos seguintes foram o chão gelado do templo do anjo mestre e a força dos querubins que o capturaram, prendendo-o no pulso. Seus olhos tentavam se focar no rosto frio e raivoso do anjo mestre.
Calvera se escondera, não conseguiria encarar Kardia depois do que fizera, tinha uma péssima impressão do que estava por vir.
-Kardia, é verdade que está se desviando de sua missão?
-Do que está falando, anjo mestre? Continuo dia após dia a observar os humanos e guia-los para o bom caminho!
-Soube que está observando por tempo demais um humano...
Kardia estava espantado, o quão afiado era o olhar do anjo mestre? Ele abaixou a cabeça para então erguê-la num sorriso provocador e cheio de marra.
-É, eu me apaixonei por um humano, por um humano da cidade de Paris. Por isso o guardo com tanto carinho e amor.
O salão ficou em silêncio, horrorizado pelo que o anjo dissera.
-Eu amo Degel! Amo aquele homem e eu o quero!
-Então admite teu pecado em desejar um humano? – disse Sage com uma voz sombria. – Minha criança perdida, nada posso fazer por você senão te atirar do céus e que Deus tenha piedade de você!
Sage erguera a mão direita e os querubins se afastaram imediatamente. Um retângulo luminoso surgiu envolta de onde Kardia estava jogado e o mármore evaporou, fazendo o anjo despencar dos céus.
Não importava o quanto batesse suas asas, ele não conseguia sustentar um vôo, não importava o quanto gritasse, ninguém o salvaria.
Ele caíra das graças do céu.
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