Alliierten: Maledizione Delle Fiamme
3 Recrutamento - Parte 1
Notas iniciais
Era um gelado dia de outono. Nada de tão diferente ou que chegasse a incomodar. Afinal, só estava nevando fazia três semanas. Sem parar. Se você procurasse bem, poderia até achar um bastardo com a língua presa em um poste, porque foi feliz o bastante para tentar lambê-lo. Não me pergunte como alguém consegue realizar essa proeza, só sei que nada sei nessa joça toda chamada vida...
- Hoje também? – um rapaz sentou no banco coberto de neve da praça, que há esta hora estava totalmente vazia. Ele encarava o céu um tanto entediado. – De onde pode vir tanta neve?
Usava um gorro de lã, quatro ou cinco blusas, dois pares de luvas, grossas botas de borracha que pesavam mais de dois quilos, três calças e um cachecol. Resumindo, era uma bola de roupas num banco da praça em plena manhã, horário em que muitos desejariam estarem em suas camas, protegidos do frio e sofrimento.
- Parece-me que estamos entrando numa Era Glacial. – um rapaz sentou ao lado dele. Ao contrário do outro, ele vestia um volume bem menor de roupas. – Como vai, Grégoire? – sorriu, virando-se para o homem.
- Loue. – cumprimentou-o acenando levemente a cabeça. – Vou indo. Mas acho que minhas pernas congelaram. – Grégoire ajeitou seu cachecol, aproximando-o de seu pescoço o máximo possível. – Para melhorar tudo, só falta aparecer um psicopata fantasiado de Barney atirando em tudo que tenha mais de 2 cm de altura. – falou sarcástico, porém sério.
- Certamente. E pensar que mês passado estávamos quase cozinhando com o calor que estava fazendo... Quase quarenta graus Celsius, se não me engano. – riu Loue.
Instalou-se então um silêncio mortal. Grégoire encarava os delicados flocos de neve enquanto os mesmos iam caindo lentamente em sua mão. Toda essa monotonia durou longos dez minutos até ser quebrada pelo barulho do bater de asas.
- O que temos aqui? – Loue virou-se e viu um pombo pousado no encosto do banco. Em seu bico, trazia uma carta.
- Um dinossauro. – o rapaz ignorou o comentário sarcástico de Grégoire e pegou a carta.
- É para você. – entregou-a para o amigo. – Deve ser da Dominique.
Sem nem ao menos olhar para a carta, Grégoire amassou-a e jogou no cesto de lixo mais perto. Loue lançou-lhe um olhar reprovador. Antes que pudesse dizer alguma coisa, outra ave apareceu. Dessa vez, era um canário.
- Você não devia fazer isso, Grégoire. – mesmo Loue dizendo aquilo, ele repetiu seu gesto. – Você sabe como a Dominique é.
Outros pássaros surgiram, porém Grégoire continuava a rejeitar as cartas. O cesto de lixo havia se tornado pequeno diante daquele monte de papel. O último a surgir foi um Pica-Pau que ficou bicando a cabeça de Grégoire sem parar até que ele pegasse a carta em suas patas.
- Você devia ler o que a carta diz, não custa nada. – Loue suspirou, vendo o homem massagear o local em que o pássaro havia bicado-o.
Uma enorme pilha de cartas caiu sobre os dois. Acima deles, um grupo de patos distanciava-se após terminar sua entrega. Depois de tirar papel e mais papel de cima de suas cabeças, Loue e Grégoire conseguiram chegar até a superfície, respirando aliviados. O último, inexpressivo, pegou uma carta aleatória do montinho em volta dele e abriu-a.
- O que diz? – perguntou Loue calmamente.
- “Prezado Grégoire Le’Figo Encalda, através desta carta é anunciado que você foi escolhido para ocupar o cargo de Guardião da Névoa de Dominique Orchidea di Amici, décima terceira descendente do Primo Distrune, ou seja, a Tredicesima Distrune. É requerida a sua presença na propriedade da famiglia, situada na Itália, o quanto antes.” – Loue sorriu, porém esperou que o amigo terminasse de ler. – “Ok, sinto que isso ficou um pouco formal demais. E eu não deveria ter escrito isso, mas não posso apagar porque está em caneta, então fica assim mesmo. Gre, você entendeu, né? Que bom! Te vejo assim que você chegar em casa! Ciao ciao!” – uma gota escorreu pela cabeça de Loue enquanto Grégoire imitava a voz de Dominique ao ler a carta em voz alta.
- Bem... – coçou a cabeça, sem palavras. – Parabéns, eu acho. – sorriu.
- Obrigado... – disse desanimado, olhando para a chama no final da carta, pintada possivelmente com lápis de cor e giz de cera. O papel da carta também não era nada formal: uma folha de caderno arrancada às pressas e com alguns borrões por cima de palavras escritas de forma errada. – Você tem papel e caneta aí?
Loue vasculhou seus bolsos e deu a Grégoire um bloquinho de notas e uma caneta. O rapaz anotou apenas uma palavra no papel e o arrancou. Logo em seguida, dobrou-o para que ficasse no formato de um avião.
- O que você vai fazer? – Loue olhou-o curioso.
- Enviar uma mensagem para a minha nova Boss. – falou sério, devolvendo os objetos a Loue.
- Através de um avião de papel? – arqueou uma sobrancelha.
- É o meu costume. – e lançou o avião, deixando-o ser levado pelo vento.
- Sei. E esperar que milhares de cartas caíssem sobre sua cabeça também é? – Loue perguntou educadamente, acompanhando o avião com o olhar.
- Quando se trata da Dominique, é. – suspirou Grégoire.
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Mary e John entreolhavam-se, um desafiando o outro. Estavam parados na frente de uma porta, o carro esporte da famiglia Distrune estacionado logo atrás. Nenhum deles se mexia, apenas fuzilavam-se com o olhar. Passaram vários minutos assim, até que John soltou um longo suspiro.
- Certo, eu toco a campainha e você dá a notícia, feito? – disse o homem. Mary concordou com um leve aceno da cabeça.
John apertou o botão da campainha e o alto som ecoou por toda mansão Von Bonovultz. Uma empregada abriu a porta e encarou-os curiosa.
- O que desejam? – perguntou ela educadamente.
- Viemos falar com Akira Von Bonovultz. – respondeu Mary. A empregada, achando-os suspeitos, estava prestes a fechar a porta, porém a mulher foi mais rápida e disse algo que prendeu a atenção dela. – Somos da famiglia Distrune.
Essas quatro mágicas palavras foram o passe de entrada para John e Mary. Foram conduzidos pelos grandes corredores da moradia dos Bonovultz até chegarem aos fundos, onde um enorme jardim alcançava o horizonte com facilidade. Ficaram impressionados, mas não podiam perder o foco. Procurando com o olhar, logo encontraram a garota praticando arco e flecha ao ar livre. Ela, ao perceber a presença de John e Mary, parou o que fazia e foi até eles. Os três foram deixados a sós numa das várias salas da mansão para que pudessem conversar melhor.
- Como vai, Akira? – sorriu John, pegando um biscoito do prato depositado na mesa.
- Vou bem, talvez. – encarou os dois. O que dois membros da Distrune faziam ali? Algum motivo deviam ter.
- Vamos pular toda essa enrolação. – Mary jogou uma carta na mesa. Esta foi logo pega pela jovem Bonovultz, que abria o envelope calmamente. – Dominique está reunindo guardiões, como você deve saber. – os olhos da garota brilharam e um sorriso brotou em seus lábios.
-Devo concluir que isso é uma convocação? – disse sem ao menos ler a carta. Seu sorriso aumentava cada vez mais. Mary e John confirmaram acenando a cabeça.
- Seja bem-vinda à Distrune, Akira. – falaram os dois ao mesmo tempo.
- Mas, espere. – ela desfez o sorriso, os olhos percorrendo rapidamente as palavras contidas na carta. – Não preciso da permissão de meus responsáveis?
- Imaginamos que iria perguntar isso. – riu John. – Nós já conseguimos. – mostrou um papel onde havia a autorização da famiglia Von Bonovultz para que Akira se tornasse a guardiã da nuvem da Distrune. A garota não se segurou e soltou uma risada.
- Vocês nem esperaram eu dizer “sim”. – balançou a cabeça de um lado para o outro, rindo. – Se vocês fossem arranjar meu casamento, eu já estaria grávida e nem ia saber.
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América do Norte, Estados Unidos, cidade qualquer sendo atacada por um tornado e vacas voando. Uma garota de cabelos longos encarava seu adversário mandado pela natureza com bravura e punhos posicionados de forma ofensiva. Em sua cabeça, uma tiara com orelhas postiças de gato (nekomimi).
- PODE VIR! – berrou para o nada.
O que ela fazia ali? Simples. Ela só estava desafiando um f****** de um tornado, talvez o maior da história. Ela conseguiria sair viva de lá? Depende. Se ela for imortal, tiver a maior sorte do mundo, um pote de ouro no bolso, possuir poderes vampirescos e uma força sobrenatural, talvez ela não morra.
- Hm? – olhou para baixo. Uma carta estava perto de seu pé e tinha o nome da garota. Ela pegou-a e, na maior calma, começou a ler. – “Prezada Lira Le’Peseque Encalda, você foi selecionada dentre várias pessoas para ser a Guardiã do Trovão de Dominique Orchidea di Amici. Sua presença é requisitada na mansão da famiglia Distrune o mais rápido possível.” – abriu um sorriso maior que o mundo e deu vários pulinhos. – Eu fui escolhida! Eu fui escolhida! Sinto como se estivesse jogando bingo agora. – comentou, ignorando completamente o fato de que o tornado continuava na sua frente e aproximava-se numa velocidade absurda.
Lira guardou a carta no bolso e esperou que alguma vaca aparecesse sendo arrastada pelos fortes ventos. Assim que uma surgiu, ela pulou em cima desta e foi levada junto.
- Vamos lá, vaquinha! PARA A ITÁLIA, AGORA! – gritou animada.
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O som de objetos sendo quebrados era ouvido por todos os empregados. Casilda também conseguia ouvir através do telefone, mesmo que fosse pouca coisa. Além disso, ainda havia mais os gritos de seu pai. Sua mão, segurando o celular, estremeceu. Cerrou os dentes e fechou os olhos, tentando conter-se.
- Gerard está falando com papai? – sua voz saiu falha.
- S-sim. – respondeu assustada a empregada. – Eles estão assim faz uma hora, Deanna-sama.
- Certo, obrigada. Ligarei depois, quando estiver tudo mais calmo. – desligou relutante.
Casilda suspirou. Era sempre assim, aqueles dois sempre brigavam. Seu olhar, sério, encarava a parede do QG da Varia. Este, porém, foi logo desfeito quando Belphegor aproximou-se. Ela olhou-o com um sorriso bobo no rosto.
- Que foi? – perguntou rindo.
- Vermes como você, Casilda, não podem ficar no meio do corredor. Atrapalham a minha passagem. – ele preparou suas facas para atirar em Casilda. Ela, rindo nervosamente, saiu correndo e deixou apenas uma nuvem de poeira para trás, sendo seguida por um loiro malvado.
Já na mansão da Arcadio, as coisas não estavam tão felizes assim. Depois de muito gritar, o pai de Gerard abriu a porta com força e jogou o filho para fora da sala. Gritou alguns xingamentos e fechou a porta irritado, fazendo toda a parede do corredor tremer. O rapaz, não incomodado com nada que o homem falou, apenas se levantou e foi para seu quarto. As empregadas tentaram cuidar dos ferimentos que tinha, principalmente no rosto, mas ele se trancou antes que elas pudessem fazer alguma coisa.
- Ele acha mesmo que eu vou ceder aos caprichos dele. Aquele velho idiota...! – jogou-se na cama irritado.
Gerard ficou horas olhando para o teto. Não queria sair do quarto e ver o rosto de seu pai, muito menos ter que levantar da cama para poder destrancar a porta e as empregadas trazerem algo para ele comer. Não tinha vontade de nada, iria ficar ali até que se cansasse. Os machucados em sua face ardiam. Também tinha cortes pelo corpo, mas estava acostumado com eles. Suspirou, virando a cabeça para observar a estante encostada na parede. Nela, vários prêmios estavam organizados em ordem de bronze, prata e ouro. Claro, o último era o mais presente ali.
- Que droga... – sussurrou se sentado na cama. Depois de um tempo, Gerard finalmente levantou e foi andando até a estante. Seu estômago roncava alto, porém ele o ignorava.
Passou os olhos por todos os prêmios, seu orgulho gritando dentro de si. Ele havia conseguido tudo aquilo. Não foi com o nome da famiglia Arcadio, não foi com a ajuda de seu pai, foi com seu próprio esforço e suor.
- Eu consegui isso. – falou para si mesmo, orgulhoso.
No final daquela fila de prêmios, estava uma caixa. Parecia mais um pequeno baú, feito de carvalho com pequenos detalhes em ouro. Gerard pegou-a e a abriu. Uma doce melodia começou a tocar, fazendo o jovem rapaz fechar os olhos para apreciá-la. De alguma forma, aquilo sempre o acalmava, o fazia esquecer os problemas que tinha, esquecia que seu pai existia. Na tampa da caixa, na parte interior, estavam escritas em dourado as seguintes palavras:
A Famiglia Distrune deseja ao jovem Gerard Callisto di Arcadio uma vida repleta de alegria e saúde; um destino cheio de riquezas, aventuras, emoções e paixões.
Gerard lia e relia isso. Havia ganhado dos Distrune assim que nasceu e desde pequeno ouvia a música daquela caixinha, dizia sua mãe. Infelizmente, num momento de tensão como aquele, o garoto deveria abrir mão de seu tesouro por um tempo e escondê-lo num local seguro. As palavras que seu pai havia dito horas atrás ecoavam em sua mente, fazendo-o cerrar os punhos com força.
“- Não podemos deixar que uma famiglia tão forte como a Distrune seja liderada por uma garota tão incompetente e fraca. Para que ela não caia na desgraça, nós, a Arcadio, iremos interferir e acabar com a vida de Dominique antes que ela assuma de fato seu cargo como Tredicesima!”
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O pai de Dominique, Julian, lia alguns relatórios em seu escritório quando a porta foi aberta. Ele ergueu o olhar e encarou a pessoa parada na frente dele. Depositando seus óculos na mesa, suspirou e sorriu gentilmente para a filha.
- Algum problema, Dominique?
- Vim trazer um pouco de café para você, papa. – apontou com a cabeça para a bandeja que estava segurando.
- Em boa hora! – Julian tirou todos os papéis de cima da mesa e Dominique entregou-lhe uma xícara. Depois de soprar o café por alguns instantes, ele voltou a olhá-la. – Como vai o recrutamento dos seus guardiões, Domi?
- Mary e John foram até a casa dos Bonovultz buscar a Akira-chan, Lira deve chegar daqui a alguns dias. – sorriu animada. – Ai! – exclamou assim que queimou a língua.
Nesse instante, uma garota adentrou na sala. Com sua jaqueta preta amarrada na cintura, aproximou-se dos dois com passos firmes e um olhar indecifrável.
- Alleen-chan! – Dominique levantou da cadeira num pulo e foi correndo abraçar a garota. – Por que ninguém avisou que você já tinha chegado? – perguntou pendurando-se no pescoço dela.
- Porque eu pedi que não falassem nada. – ela afastou Dominique lentamente. – É bom ter uma surpresa de vez em quando, não acha? – os olhos da mais nova brilharam como duas estrelas enquanto ela concordava.
- Sente-se, Alleen-chan. Venha tomar um pouco de café conosco. – ofereceu Julian apontando para a cadeira ao lado da de Dominique.
- Obrigada. – devidamente acomodada, Alleen tomou alguns goles de café em silêncio.
- Bem, Dominique. – Julian começou a falar, chamando a atenção das duas garotas presentes na sala. – E quanto a Grégoire? – Alleen arqueou uma sobrancelha, já que a mesma não conhecia o futuro Guardião da Névoa da Distrune.
- Ele vai vir. – Dominique colocou sua xícara em cima da mesa. – Algumas horas atrás, esse avião de papel acertou a minha cabeça. – a garota retirou do bolso um papel amassado e entregou para seu pai. Após ler o que estava escrito, ele entregou-o para Alleen.
Não havia nenhum texto ali, muito menos um poema. No papel, havia apenas uma palavra. Alleen leu em voz alta com um pouco de dificuldade, já que a letra de Grégoire era um tanto estranha e borrada.
- “Idiota”. – Julian segurou o riso, mas Dominique continuava sorridente. – Como você pode saber que ele vai vir com apenas isso? – ela olhou para a Tredicesima Distrune tentando conter qualquer comentário sarcástico que pudesse falar naquele momento.
- Se ele não viesse, Gre não iria nem mandar essa mensagem. – explicou Dominique, apesar do argumento usado não ter muita lógica.
- E onde esse tal Grégoire estava quando você mandou a carta de convocação? – perguntou Alleen.
- França! – respondeu alegremente. – Loue deve estar vindo junto com ele.
Alleen piscou algumas vezes. Ah, claro. Como ela não havia pensado nisso antes? É óbvio que aquele avião de papel havia atravessado a França e chegado à Itália, entrado na mansão dos Distrune e acertado em cheio a cabeça de Dominique. Não há nada mais lógico que isso, claro. A jovem Salvatore soltou um longo suspiro. É, quando se está dentro do mundo da máfia, qualquer coisa pode acontecer. Qualquer coisa. Principalmente quando você faz parte da famiglia Distrune e convive com Dominique Orchidea di Amici, concluiu a Guardiã da Tempestade.
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