All souls are lost.
2 Burn It Down.
P.O.V DanteDois anos.
Esperei dois anos por esse momento. A luz da fogueira a minha frente não ilumina muito ao redor, nem deixa aquecido o suficiente. Aqui, dentro dessa floresta o clima parece mais sombrio e gelado. Árvores negras com formas estranhas me cercam, junto com olhos de predadores esperando para me fatiar em pedaços. Consigo sentir respirações atrás da nuca, sinto animais se movimentando inquietos, alguns se preparando para saltar sobre mim quando um clarão surge dos céus. Algo como um meteoro iluminou todo o céu, caindo bem à frente de onde eu estou. Pássaros começam a voar em direção oposta a colisão da luz, passando por cima da minha cabeça em uma velocidade tão grande que fizeram minha fogueira se apagar. O vento já tinha distorcido e se direcionado exatamente para minha direção, arrastando-me para trás.Finalmente chegou a hora?Corro em direção à luz e fumaça que preenchiam a noite, deixando-a mais cinzenta que o normal. Em questão de segundos, árvores e galhos se materializaram na minha frente, cada vez mais rápido. Não consegui conter uma animação dentro de mim, algo estranho no momento, mas verdadeiro. Poderia, enfim, conhecer o paraíso. Ajudar as pessoas que amo, as que perdi, todos eles. Enquanto corro, percebo que algo está diferente e logo minha animação se esvai; Sendo substituída por uma preocupação desigual. Uma forma escura passou como vento diante de mim, correndo em direção a luz, e desaparece em meio a escuridão do lugar. Não mudo minha direção, mas ainda fico olhando pelo canto do olho, esperando um ataque ou algo parecido. Nada.Quando volto meu foco para frente, percebo que algo está em chamas. Uma casa. Um pouco antiga, mas relativamente grande e bem detalhada. Bem, deveria ser bem detalhada, pois sua frente estava destruída e com algo líquido preenchendo uma trilha negra que se contornava a minha frente. Aproximo-me, saindo da escuridão das árvores e vejo uma garota em minha frente. Seus cabelos vermelhos flutuando no ar, junto com a poeira e tudo que o vento faz levar. Sua roupa está suja e rasgada em alguns pontos, onde pequenas feridas estão depositadas. A sua frente, no buraco da casa, dois corpos estão jogados no chão, misturados com sangue e escombros de madeira queimada. Aquele sangue brilhava em meio ao fogo e a escuridão como um holofote neon. Um homem formal se materializou em cima dos corpos; Careca, com um blazer e segurando uma adaga prateada. Seus passos pesados faziam o piso da casa rangerem e amassarem. Ele vinha em direção da garota, com um sorriso perverso no rosto. Ela ficou imobilizada, olhando através dele, para os corpos ensanguentados, possivelmente de seus pais. O homem logo abriu suas asas; Penas grandes que pingavam uma quantidade extraordinária de sangue, tanto humano quanto demoníaco. Não consegui mais ficar parado e deixei meu corpo seguir o piloto automático. Com um piscar de olhos, meu braço direito e demoníaco estava atravessando o rosto do anjo, jogando-o para cima com uma violência que fez a casa (ou, o que sobrou das madeiras soltas) serem lançadas para o ar. Madeiras, roupas, vidros e tudo que estava dentro da casa começou a cair, como chuva. O anjo caiu em pé, como um gato, e fez um sinal para que eu fosse até ele. Revirei os olhos para a garota, que estava chorando sem emitir som e com o olhar focado em mim. Voltei meu foco para o homem e avancei, apertando os punhos e me preparando para a batalha. Ele jogou uma porta que caiu perto dele na direção do meu rosto, o que me fez diminuir a velocidade para me desviar. Olhei para cima e vi um conjunto de facas caindo bem a minha frente. Perfeito. Lanço-me no ar, chutando o caixa onde todas as facas estão contidas. Em câmera lenta, vejo a caixa se abrindo, as facas caindo pra fora e voando como em direção ao anjo. Algumas acertaram suas pernas, atravessando totalmente a carne e fazendo o sangue descer pelas pernas e fazer um circulo vermelho em torno de si, deixando o gramado uma mistura de verde com vermelho. Chego perto o suficiente para me lançar contra ele, batendo suas costas no chão e ouvindo som de algo se quebrando. Fecho o punho com mais força e começo a socar a sua face. O rosto passa de homem formal e caseiro para um candidato vip para um necrotério. As maçãs de seu rosto já estão tão profundas que parecem bolhas dentro dos seus ossos. Continuo batendo, cada vez mais forte, quando algo azul começou a subir pelos céus e eu perdi a concentração. Uma chama. Uma chama azul. Minha cabeça começa a rodopiar enquanto eu saio de cima do anjo e olho para minha mão. Ela emana uma onda grande de chamas azuis, chamas que começam a rodopiar por todo o meu corpo e me dando um aspecto mais demoníaco que o normal. Uma onda de medo cai sobre mim. Não quero ser um monstro. Não de novo. Fecho os olhos e começo a pensar em coisas boas. Penso na vez em que fui até a casa de Amy, na vez em que estava olhando os prédios e toda a destruição da cidade que, ao por do sol, parecia lindo. Quando estava na casa de Jace, assistindo filmes com todo o pessoal. Quando estava deitado em cima da casa, sorrindo para as estrelas.
Abro os olhos. As chamas sumiram. Fico ali, em pé, olhando para o anjo que ainda respira com certa dificuldade. Todas as partes da casa já caíram ao meu redor, formando escombros com formas estranhas a luz da lua. Volto até onde a garota está. Ela ainda permanece quieta e chorando sem parar. Ajoelho-me a sua frente e coloco minhas mãos em seus ombros. – Você... Chama-se Dante, certo? – Ela me pergunta, sem levantar a cabeça, deixando-me encarando seus longos cabelos ruivos. – Como você sabe? – Não consigo esconder a surpresa em minha voz. Ela levanta a cabeça e encara em meus olhos. Agora eu posso, enfim, ver todos os detalhes dela. Uma pele branca e lisa, com um pouco de sardas no nariz e nas bochechas. Seus olhos verdes me encaravam, com lágrimas escorrendo descontroladamente entre eles. A cor de seus olhos parece mudar para um tom mais caramelo e depois volta pro verde, como um camaleão. – Eu sonho com você todas as noites. – Pronto, já estou vermelho. Abaixo a cabeça, evitando mostrar a timidez. Até perceber algo inesperado. Ela esta sem sutiã. E com a camisa rasgada bem perto dos... – Pare de encarar meus peitos, idiota. – Ela da uma risada leve e me joga para trás. – Como assim sonha comigo? – Pergunto. Ela me conta histórias diferentes de como eu aquele homem me ataca. A melhor foi no banheiro feminino. Mas a ultima... – O que você quer dizer com figura negra? Ele é o que? Slenderman? – Bem parecido... – Sua cara voltou a ficar séria. – Agora que você disse, eles são basicamente iguais mesmo. Ele deve aparecer daqui a pouco... – Ou talvez não apareça. Possa ser que você tenha tido um pesadelo e imaginado ele ali por coincidência. Ela ficou olhando para mim, séria. – É, talvez. Sento-me ao seu lado e começo a encarar o anjo deitado. Mesmo a essa distância, consigo ouvir sua respiração. Ela já está ficando boa de novo. Malditos anjos que se curam rápido. Logo uma pessoa aparece da floresta e começa a ir até o anjo. Está escuro demais pra eu distinguir as características da pessoa, mas já devo imaginar quem seja. Relaxo o ombro e começo a contar para a garota sobre tudo entre os seres sobrenaturais e minha história com eles. Quando termino, reparo que está saindo uma fumaça azul de dentro do anjo e está entrando pela boca do homem. – Então, aquele é seu amigo, roubando a graça do anjo? – Ela pergunta, encostando-se para perto de mim e apoiando sua cabeça em meu ombro. – Isso é realmente estranho. – Nem me fale. – Dou um sorriso que logo ele desaparece. – Aqueles eram... Seus pais? Minha pergunta faz com que os choros voltem novamente. Viro-me e a abraço, puxando-a para perto de mim e encaixando minha cabeça do lado da sua, apoiando-a no seu ombro. Ela me conta sobre eles; a mãe estranha e o pai amoroso. – Daremos a eles um enterro digno, eu prometo. – Ficamos ali, abraçados, eu a ouvindo chorar e a ponto de derramar lágrimas também. Depois de alguns minutos, um braço toca meu ombro e me faz levantar a cabeça. – Dante. – É Cass; com seu cabelo arrumado, vestido um moletom escuro, jeans e com algo diferente fluindo dentro de seus olhos. – Desculpe interromper. Olhe, eu já terminei, pode fazer o quiser com ele. Eu cuido da garota. – Solto-a e percebo que ela já esta dormindo. Seu rosto parece de uma criança, com suas bochechas e suas sardas deixando-a mais bonita que o normal. Escoro-a no ombro de Cass e me levanto, andando apressadamente até o anjo. – Seu amigo é um tremendo filho da puta, não? – Ele sorri, como se eu fosse rir com ele. Olho para trás e vejo Cass segurando a menina com cuidado e de um jeito estranho, como se nunca tivesse feito isso antes. Se um estranho passasse e os olhasse, pensaria que são irmãos. Volto meu olhar para o anjo. Vejo uma pequena luz azul emanar do meu braço. O anjo logo fica sério, e sua expressão fica horrorizada. – Por que está tão sério? Vamos por um sorriso nesse rosto.
Notas finais
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