All You Need Is Jily
6 In My Life
Notas iniciais

Voldemort estava chegando, eu pude sentir. Sua presença poderia ser sentida a milhas de distância e, estando tão perto da minha casa, da minha família, era impossível que não pudesse ser sentido.
Olhei para Lily e não precisamos dizer nada, ela estava tão apavorada quanto eu. Peguei sua mão e sussurrei que a amava. Eu realmente a amava e amaria mesmo depois de qualquer coisa, mesmo depois dele.
Não adiantaria de nada que tentássemos nos defender, fugir, escapar ou correr para qualquer lugar. Nossas varinhas estavam longe demais e Voldemort nos encontraria onde quer que estivéssemos. Acima de tudo, havia Harry, nossa maior prioridade.
Há lugares de que me lembro
Toda minha vida, apesar de algumas coisas terem mudado
Algumas para sempre, não para melhor
Algumas se foram e algumas permanecem
Pude ouvir os vizinhos gritando e soube que não tinha qualquer escapatória. Lily estremeceu e a abracei como se pudesse livrá-la de todo o medo que sentia, que sentíamos. Ela chorava de medo, de apreensão, por não saber o que seria de nós ou de Harry depois daquela noite.
Como se toda minha vida passasse diante dos olhos, lembrei dos meus pais. Tão novos, olhando-me brincar na neve durante o inverno. Já estavam velhos e eu sabia que sofreriam quando soubessem a meu respeito. Lembrei de Hogwarts, de cada um dos meus colegas de classe, dos meus professores, de Dumbledore.
Ora, se ele era o mais poderoso bruxo vivo, onde estava? Por que não podia salvar a mim e a minha família, impedir Voldemort de nos matar? Por que não podia dar a mim e a Lily a chance de vermos nosso filho crescer? Não vi Dumbledore como a pessoa boa que era, e sim como um covarde egoísta.
Godric’s Hollow ainda não tinha sofrido grandes mudanças, mas sofreria uma naquela noite. O bruxo das trevas visitaria o vilarejo em pessoa para lançar Avadas sobre outros, sobre mim. Godric’s mudaria para sempre, mas não para melhor.
Já Hogwarts, durante todos os anos, permaneceria a mesma. Quis tanto que Harry fosse para lá, mas não poderia ter certeza, tampouco o veria usando o uniforme vermelho e dourado da Grifinória. Oh, sim, ele seria da casa dos corajosos, só por estar enfrentando aquilo tudo aquela noite.
Todos esses lugares tiveram seus momentos
Com amores e amigos que eu ainda me lembro
Alguns estão mortos e alguns ainda vivem
Em minha vida, eu amei todos eles
Vi meus melhores momentos, no vilarejo e na escola. Minha infância e alguns flashes das férias em casa. Pensei em meus pais de novo e chorei, eu queria ter a chance de me despedir e de dizer que tudo ficaria bem, apesar de qualquer coisa.
Era quase impossível não vislumbrar os Marotos, meus melhores amigos. Sirius, meu irmão, a melhor amizade que eu poderia ter em toda vida, e todas as loucuras que fizemos, todas as detenções gloriosas que passamos. Remus, a melhor pessoa que conheci na vida, e toda a racionalidade que balanceava os absurdos que eu e Sirius fazíamos.
Eu os amava, com todo o meu coração. E os amaria para sempre, independentemente de qualquer acontecimento, e não poderia dizer adeus e pedir que cuidassem de Harry por mim.
Pensei em Peter e, diferente do esperado, não o odiei. Não naquele momento. Ele nos entregou, mas eu sempre soube que Peter era ingênuo e fraco demais. Com certeza recebera uma ótima proposta pela minha localização. Senti pena de Peter.
Amei também os que morreram ao longo daquilo tudo. Dorcas e Marlene, as que amei tanto quanto amei Lily, mortas. Vi-as sorrindo para um Harry recém-nascido e sorri também. Elas eram como minhas irmãs e perde-las foi doloroso demais.
Mas de todos esses amigos e amores
Não tem nenhum que se compare a você
E essas memórias perdem o sentido
Quando eu penso no amor como algo novo
Nenhum deles beirava o quanto eu amava Lily. Não havia palavras ou mensura suficientes que pudessem medir isso. Harry chorou, um choro angustiado, sofrido, apreensivo, e chorei junto dele. Deixei-a pegá-lo e, nos segundos em que não a tive por perto, todo meu medo triplicou.
Harry não parava de chorar por nenhuma das táticas que conhecíamos e Lily preferiu ouvi-lo do que o silêncio tenebroso que nos assolava. Olhando-a, abraçada ao bebê, percebi que eu era, sim, capaz de dar a vida por alguém.
Eu era capaz de dar a vida por Harry, por Lily.
Sussurrei de novo que a amava, mas minhas palavras não eram capazes de nos acalmar, tampouco de mudar o que viria a seguir. Todo meu amor por ela se sobrepunha às minhas memórias de uma vida pré-Evans. Eu comecei e terminaria de viver ao lado de Lily.
Ela me olhou como se suplicasse para tudo aquilo parar e me senti a pessoa mais impotente de todo o Universo. Eu não seria capaz de salvá-la, tampouco salvar a mim ou Harry. Eu era incapaz de salvar minha família.
Apesar de saber que nunca vou perder afeto
Pelas pessoas e coisas que vieram antes
Eu sei que sempre vou parar e pensar neles
Em minha vida, te amarei mais
Mesmo que tudo antes de Lily tenha tido importância significativa, era ela o que representava toda minha vida. Ao menos naquele momento. Eu sabia que, mesmo depois de Voldemort nos encontrar, todos os outros ainda veriam em mim o amigo que sempre fui. Era egocêntrico, mas verdadeiro.
Durante toda a vida, dei meu melhor em tudo que fiz. Nas amizades, quis sempre ser o melhor amigo, o que cativava mais, que ajudava mais, que se prestava mais. Era a necessidade de saber que eu era o melhor de alguém. Nos relacionamentos, quis só ser o melhor de Lily.
Para onde quer que iremos, irei pensar em Sirius e Remus, nos meus pais e até pense em Peter algumas vezes. Apesar disso, pensarei sempre em Lily, ainda que a tenha a meu lado, pensarei em como ela me fez feliz desde os onze anos, até mesmo em todas as vezes que me rejeitou.
Eu amaria cada um deles, mas a amaria mais. Muito mais.
Olhei para Harry, que ainda chorava, e me olhava de volta. Os olhos, tão verdes quanto os dela, eram repletos de medo e me vi refletido ali. Segurei sua mão, pequena e gorducha, e mesmo que ele não entendesse, disse que o amava mais do que a mim mesmo.
Em minha vida, te amarei mais
— Eu te amo — murmurei para Lily.
Antes que ela respondesse, ouvi nossa porta ser arrombada em um estrondo ensurdecedor. Lily gritou quando viu a silhueta alta e o rosto ofídico parado à nossa frente. Voldemort ria em satisfação e brincava com a varinha em mãos. Seus olhos caíram sobre Harry e senti o mais puro sentimento de nojo e repulsa de toda minha vida.
Beijei Harry e Lily, sabendo que seria a última vez. Era doloroso demais pensar nisso, aceitar isso, mas tive de fazê-lo mesmo assim. Ela me encarava ainda mais assustada do que antes e tinha o rosto marcado por lágrimas. Percebi que chorava também, mas já não tinha outra saída.
— Lily, pegue o Harry e vá! Corra! Eu o atraso...
Não tive a chance de vê-la correr, fugir para o mais longe que fosse possível. Não vi minha mulher e filho se salvando, por alguns minutos, da morte. Porque a minha chegou primeiro.
O jato de luz verde cobriu toda a casa e a vizinhança. Aquela voz asquerosa ecoou por tudo, rindo e gritando o mais abominável dos feitiços:
— Avada Kedavra!
Fale com o autor