All I ever wanted
3 O convite
Notas iniciais
Cecília se surpreende ao reconhecer as feições do homem em que acabara de colidir.
— Dr. André? O que você faz aqui?
O médico tira os óculos de sol e olha atentamente para a morena.
— Atendo aqui em Catarina duas vezes por semana. Eu é quem te pergunto. O que você está fazendo aqui e, com todo o respeito... sem o hábito?
Cecília cora instantaneamente, apesar da indagação de André ser inevitável.
— Estou passando um tempo aqui em Catarina, na casa de minha irmã. Preciso repensar minha vida.
— Entendo. Desculpe o comentário, mas é que realmente eu não esperava por isso. Te encontrar aqui é uma grata surpresa do destino. — disse sorrindo.
— Também fiquei feliz em revê-lo, mas eu realmente preciso ir. Estou atrasada, é meu primeiro dia de trabalho...
— Se quiser, eu te dou uma carona, meu carro está aqui perto — Ofereceu o pediatra.
— Grata pela gentileza, mas não precisa. É ali na frente, na cafeteria...
— Na Supreme? Ótimo ambiente, sempre vou ali. Boa sorte.
— Obrigada, Dr.
— Sem formalidades, Cecília. Me chame apenas de André.
Ela sorriu, envergonhada.
— Está certo, André. Até logo.
— Até.
Por pouco, o atraso de Cecília não lhe rendeu uma advertência em seu primeiro dia de trabalho. Para sua sorte, Henrique, o gerente da Supreme Cafeteria, teve um problema mecânico em seu veículo, o que fez com que chegasse uma hora a mais que o habitual.
Após uma longa conversa com o superior hierárquico em sua sala, Cecília voltou para a cafeteria, onde foi bem recebida por seus novos colegas de trabalho. Em poucas horas, a morena já estava ambientada e realizando suas atribuições com precisão, o que lhe rendeu elogios dos colegas e clientes, ante sua boa vontade e simpatia. Quando já se aproximava do fim do expediente, um rosto familiar chamou a atenção da nova garçonete.
— Olá, André.
— Olá, Cecília. Não resisti e tive que passar por aqui para pelo menos ver como você está. Como foi seu primeiro dia? — questionou o médico, pegando o cardápio.
— Foi um sucesso, graças a Deus. Já recebi elogios de clientes e dos meus colegas. Não esperava que fosse gostar tanto do meu novo trabalho.
— Fico muito feliz. Impossível alguém não gostar de você.
A jovem enrubesceu.
— Desculpe, não queria te deixar sem jeito. Mas você é maravilhosa.
Rapidamente, a atendente mudou de assunto.
— Já sabe o que vai pedir?
— Sim. Um cappuccino sem açúcar.
— Está bem. Eu já trago.
Ao se dirigir ao balcão, Cecília teve que aguentar as piadinhas de Lisandra, loira, alta, próxima dos trinta anos, garçonete veterana do estabelecimento.
— Meu Deus, mas você não é fraca mesmo. Eu daria tudo para que aquele deus grego olhasse pra mim desse jeito. Vocês já se conhecem?
— Para, Lisandra. Ele pode ouvir — pediu Cecília. — Sim, ele faz plantão no hospital de Doce Horizonte.
— Ah, você deveria sair com ele! — replicou a atendente, o que deixou a novata ainda mais encabulada.
— Lisandra, pare com isso! Somos só amigos.
— Ah Cecília, você é tão legal. E me parece tão sozinha... Dá uma chance pro bonitão! — sussurrou a loira, entregando o pedido de André.
— Vou lá antes que o doutor venha buscar o próprio café — desconversou Cecília, tentando esconder um sorriso.
— Desculpe a demora. Deseja mais alguma coisa?
— Sim, eu quero.
— Pode pedir.
— Eu estava aqui em um conflito interno, pensando se deveria ou não te perguntar. Mas vou arriscar assim mesmo. Quer jantar comigo esta noite?
A morena respirou fundo. Ainda que negar parecia ser o mais óbvio, Cecília estava indecisa.
— André, me desculpe. Confesso que estou um pouco cansada. Um outro dia, quem sabe.
O médico sorriu.
— Está certo. Mas eu volto para cobrar essa promessa. — disse ele, dando uma piscadela antes de deixar a cafeteria, deixando uma Cecília confusa e uma Lisandra surtando ao ver o desfecho da cena que acabara de presenciar.
Enquanto isso, na Cobertura dos Lários em Doce Horizonte, uma Tia Perucas está inquieta andando pela sala, acompanhada por um Padre Gabriel sentado no sofá, pensativo.
— E agora, primo? Como vamos contar essa notícia pra Dulce?
— Não faço a menor ideia, Estefânia. A ideia da viagem pra Disney foi uma estratégia do Gustavo para pensarmos em algo. Mas amanhã eles já estão de volta.
— E você sabe, a primeira pessoa que ela vai perguntar é pela Cecília, se já voltou do interior, se pode ir visitá-la no internato... Ai meu Deus, e agora?
A campainha toca.
— Deixa que eu atendo, Franciely — gritou Estefânia.
— Olá, amor — disse Vitor carinhoso, dando um beijo na testa da namorada.
— Tudo bem, Gabriel?
— Na medida do possível, tudo bem. Estamos com um sério problema.
— Oi Vitor. Você chegou em ótima hora. — respondeu a tia de Dulce, abraçando-o.
— Mas o que houve? — perguntou Vitor preocupado.
— Gustavo acabou de ligar dizendo que ele e Dulce voltam de Orlando amanhã.
— Ou seja, ninguém sabe o que dizer pra menina quando ela perguntar sobre a Cecília — completou o gastrônomo, tenso.
— Exatamente, amor. Eu e o Gabriel já pensamos de tudo e não temos nada em mente. Estou desesperada — se queixou a estilista.
— Sei que é doloroso o que vou dizer, mas a Dulce precisa e merece saber a verdade. Vocês como ninguém sabem que ela é extremamente inteligente para uma menina de cinco anos.
— Como explicar pra Dulce que a sua professora favorita fugiu do internato porque está apaixonada pelo pai dela? Me diz? — questionou Estefânia, angustiada.
— Vitor tem razão, prima. Quanto mais escondermos, mais a nossa sobrinha irá sofrer. E isso é o que menos queremos. — lembrou o sacerdote.
— Não sei... Ah, mas o Gustavo também, tinha que voltar da Flórida tão cedo! Poxa, duas semanas não são tempo suficiente para apontar uma solução de um problema dessa magnitude!
— Não quero me meter, mas algo me diz que essa volta repentina do Gustavo tem a ver com uma terceira pessoa... — sugeriu Vitor.
— Verônica Batista. Ah, esse meu irmão. Sempre inconsequente. Meu Deus, não bastou a Nicole? — ralhou o padre.
— Não tenho nada contra a Verônica, Gabriel. Ela é honesta e me parece uma excelente pessoa. O problema é a Dulce...
— Aceitar outra mãe que não seja a Cecília. — completaram os cavalheiros em uníssono.
[...]
Ao chegar no apartamento, Cecília encontrou a irmã deitada no sofá assistindo um filme.
— Oi, mana.
— E ai, sister? Como foi seu dia? — perguntou Clarissa sentando-se rapidamente.
— Qual filme está passando? — disse a mais nova largando a bolsa num canto e deitando no colo da irmã.
— Como se fosse a primeira vez.
— Nunca vi. É novo?
A reação de Cecília levou Clarissa às gargalhadas.
— Meu Deus, qual foi o último filme que você assistiu na vida? Toy Story?
— Quase isso — admitiu ela, com um sorriso de canto. — Isso me fez lembrar de quando fugimos do colégio pra ir na casa da Deise assistir o filme, lembra? As freiras queriam nos matar! — lembrou Cecília
— É verdade. Como esquecer? Foi muito divertido. E acho que foi a primeira e única vez que você aprontou naquele internato.
— Não exagere. Ok. Eu me rendo, foi mesmo.
As risadas invadiram o recinto.
— Boa tentativa, mas você não respondeu minha pergunta inicial.
— Qual?
— Como foi seu primeiro dia! Pode me contar. O Adam e a Drew ficam pra depois — decidiu Clarissa, desligando a televisão.
Cecília percebeu que não iria conseguir esconder nada da irmã, então tratou de contar em detalhes seu expediente, incluindo o convite de André.
— PARA TUDO. COMO ASSIM, VOCÊ NÃO ACEITOU?
— Não aceitando, ué. Eu mal o conheço. Sei que ele é uma boa pessoa mas...
— Mas você perdeu uma excelente oportunidade de se distrair e conhecer um cara bacana. — completou a loira.
— Ah Clarissa, eu acabei de sair do colégio! Você acha que eu tenho cabeça pra encontros? — bufou Cecília.
— Pois deveria. Afinal, você disse não ter certeza sobre o celibato.
— O que não significa que eu tenha que aceitar a primeira proposta que me aparece! Oras.
— E se fosse o bonitão, o tal Lários? Duvido que você estaria aqui comigo numa discussão sem sentido.
Cecília ficou sem argumentos. Golpe baixo, pensou. Ao ver a expressão vitoriosa da irmã, a morena saiu rumo ao chuveiro, inconformada.
— Realmente, algumas coisas não mudam nunca. Continua impossível conversar com você!
— Também te amo, sister. — finalizou Clarissa ligando a TV novamente e pegando seu balde de pipoca.
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