All I ever wanted
4 Descobrindo a verdade
Notas iniciais
Fazia uma manhã ensolarada em Orlando, embora o frio intenso de Janeiro em solo estadunidense. Gustavo despertou um pouco antes das seis da manhã, arrumou suas coisas e checou as malas pela última vez antes de acordar Dulce Maria para tomarem café e realizarem o check-out no hotel.
— Está na hora de acordar, meu anjo — disse o pai carinhosamente, afagando os cabelos loiros da menina.
— Bom dia papi. Nós já vamos embora? — perguntou a menina ainda sonolenta.
— Sim. Não está com saudades lá do Brasil?
— Estou papi, mas foi muito bom passar esses dias aqui na Disney, brincando, passeando com você só pra mim! — respondeu Dulce, abraçando Gustavo.
— Também amei passar esses dias com você, minha vida! Prometo que vamos viajar mais juntos, está bem?
— IUUUPI! — comemorou a pequena, dando um salto da cama.
— Então, aproveitando que a senhorita levantou, escove os dentes para tomarmos café. Não podemos nos atrasar! — lembrou o pai, vendo Dulce Maria correndo pelo quarto do hotel em direção ao banheiro.
Ao organizar o café para a filha, Gustavo lembrou da notícia que motivou sua súbita viagem de férias: a saída de Cecília do internato. O rei do café sabia o quanto aquela notícia abalaria sua princesa, portanto, contar a verdade não seria uma das tarefas mais fáceis. Estefânia e Gabriel devem ter alguma coisa em mente.
Por um momento, o jovem empresário se deixou levar por seus pensamentos. Recordou saudoso da noviça que cuidava com tanto apreço de sua filha, de seu olhar brilhante e afetuoso, do sorriso encantador que sempre estampava seu rosto a cada vez que se encontravam. E de certa forma, até quando a religiosa demonstrava raiva ou insatisfação, ele conseguia ver uma beleza especial naquela jovem mulher. Mulher. Deus, não posso vê-la desta forma, é errado. Não posso esquecer da Verônica, não quero brincar com ela, ele advertia a si mesmo. O moreno sentia um vazio, e doía imaginar que talvez nunca mais veriam Cecília.
E Gustavo queria acreditar que a sensação de perda que apertava seu peito era apenas por temor da reação de Dulce Maria.
— Papi, porquê você está tão sério? — indagou Dulce, despertando o pai de seus devaneios.
— Nada, filha. Vamos comer?
— Simpiririm!
[...]
Na mansão dos Lários, Silvestre trabalhava a todo o vapor, organizando impecavelmente os cômodos da residência para a chegada de seus patrões. Franciely, por sua vez, estava terminando de fazer uma saborosa torta de morango, a favorita da herdeira, para alegrá-la. Estefânia estava ainda mais inquieta do que o costume. Passavam das três da tarde e a estilista já havia ido ao supermercado para reabastecer o estoque da dispensa, à farmácia para comprar remédios, afinal a menina poderia ficar doente ante as mudanças de clima e temperatura, ao shopping para comprar presentes de boas vindas para pai e filha e, por fim, ao salão de beleza fazer as unhas. É claro que a mulher não havia esquecido da aparência, por isso, tratou de estrear um look e consequentemente, uma nova peruca. A tonalidade da vez era verde-esmeralda. A palavra de ordem de hoje é esperança, pensava a tia de Dulce Maria.
Não muito longe de Doce Horizonte, o expediente na Supreme Cafeteria estava bastante tumultuado. Lisandra havia passado mal ao chegar ao trabalho e em seguida, fora dispensada por Henrique. Diante da ausência da companheira, o atendimento aos clientes ficou por conta de Cecília, que se desdobrava para atender a demanda de clientes e evitar uma possível advertência a Lisandra, já que a ex-noviça suspeitava que a colega havia abusado do álcool mais uma vez na noite anterior.
Ao entregar um pedido a um casal de namorados, Cecília percebeu que alguém lhe observava atentamente da mesa vizinha. Sorriu ao constatar que era ninguém menos do que André Vieira.
— Boa tarde, André. — cumprimentou a garçonete.
— Boa tarde, Cecília. Você me parece cansada. — Ele foi direto. — Dia difícil?
— Lisandra teve que sair mais cedo.
— Ou seja, sobrou tudo pra você. — deduziu o médico.
— Isso aí.
— Ou seja, não vou nem propor um jantar, já sei que a resposta é...
O médico não conseguiu completar a frase, diante da interrupção da moça.
— Sim.
André ficou estarrecido com a resposta da atendente, que estava encabulada com a própria reação ao convite do pediatra.
— Sério? Você não cansa de me surpreender, sabia?
— Espero que seja de forma positiva. Que tal às nove, no La Vecchia? — acrescentou Cecília.
— Perfeito. Você leu meus pensamentos. Te encontro lá.
Os dois sorriram. Entretanto, a conversa foi interrompida pelo chamado de Henrique.
— Algum problema com o pedido do cliente, Cecília? — bufou o gerente.
— Não, senhor. Já estou indo pegar o...
— Cappuccino sem açúcar, por favor. — completou André.
— Com licença.
Apesar da cumplicidade de André, Cecília não conseguiu evitar uma bronca de Henrique assim que ela pisara na cantina.
— Deixe os flertes para depois do expediente, Cecília. Não admito este tipo de comportamento para com os clientes. Estamos entendidos? — repreendeu ele.
— Sim, senhor. — respondeu a morena, assustada.
— Isso que dá liberar subordinado para curar ressaca, bem no dia de maior movimento. Vá atender. Some daqui! — finalizou o chefe de Cecília, prestes a ter um ataque de nervos.
[...]
Horas depois, a família Lários estava reunida na sala, aguardando a chegada de Gustavo e Dulce Maria. Finalmente a campainha tocou.
— DEIXA QUE EU ABRO! — todos levantaram do sofá e disseram em coro.
— Se me permitem, eu atendo — pediu Silvestre, ansioso.
— Está certo, Silvestre — assentiu Gabriel.
— Vai lá, chefe! Tô louca pra ver a menina! — disse subitamente Franciely, arrancando risadas de todos, exceto Silvestre, que acenou para que fechasse o zíper de seu uniforme e também a boca.
— Olá família, chegamos! — saudou Gustavo, trazendo a pequena nos braços.
Após todos se cumprimentarem, Dulce Maria pediu colo ao tio.
— Titio, sabe me dizer se a Ceci já voltou do interior? Eu tô morrendo de saudade dela!
O silêncio imperou na sala. Estefânia respirou fundo e se aproximou do primo.
— Nossa, meu amorzinho, você chegou com tudo! Não está cansada?
— Nãopororom. Eu dormi no avião. Papi, posso ligar pro colégio pra falar com a Irmãzinha Cecília?
— Filha...
— Porquê vocês estão tão sérios? O que aconteceu com a Cecília?
— Ok, meu amor. Venha cá — chamou Tia Perucas e a menina sentou-se em seu colo, nervosa.
— Lembra que a Cecília foi viajar para o interior, para visitar a irmã dela? — começou a estilista, devagar.
— Sim, mas eu sei que a Madre não deixa ela ficar muito tempo longe do colégio. — lembrou a carinha de anjo.
— Então... A Cecília percebeu que precisava ficar mais tempo com a irmã... — Estefânia respirou fundo e fechou os olhos — e deixou o internato.
Os olhos de Dulce encheram de lágrimas instantaneamente.
— O QUÊ? Porquê ela foi embora? Ela me abandonou? Foi embora pra sempre, que nem a minha mãe?
— Não, meu anjo, é que a Cecília... — tentou explicar Estefânia, mas a pequena a interrompeu.
— Não, Tia! Não mente pra mim! A Ceci foi embora pra sempre e me deixou sozinha! — gritou Dulce, que saiu em disparada rumo ao seu quarto, enquanto a família estava atônita, sem saber o que fazer.
— Eu sabia, gente! Sabia que ela ia ficar desse jeito! E agora, como vai ser? — chorava Estefânia, sendo amparada por Gustavo.
— Vocês fizeram o certo. Mais cedo ou mais tarde, ela teria que saber. Eu vou falar com ela. — finalizou Gustavo, indo em direção ao quarto da filha, pedindo a Deus que conseguisse amenizar a dor de sua menina, enquanto tentava administrar a própria.
Fale com o autor