All I Want
15 Urban Hymns
Notas iniciais
André, 22:15:
Hey
Gabriel, 22:19:
Oi
André, 22:19
Queria falar com vc sobre o q aconteceu...
Gabriel, 22:20
Eu também queria falar com vc
André, 22:20
Pessoalmente
Gabriel,22:20
Sim
André, 22:21
Pode ser amanhã?
Gabriel, 22:25
Pode
André, 22:25
No lugar de sempre? Umas 14h?
Gabriel, 22:26
Combinado
Fiquei me perguntando se Gabriel me chamaria caso eu mesmo não o tivesse chamado. Pensei no que ele estaria sentindo, nas coisas que ele falaria no outro dia. A próxima parte seria, na melhor das hipóteses, difícil. Naquela noite, fui dormir pensando se o dia seguinte resolveria alguma coisa ou se não serviria para nada senão constranger a nós dois.
Fechar os olhos e relaxar parecia algo impossível, mas fui me acalmando com o tempo. Levantei no meio da noite para ir ao banheiro e beber água. A casa estava totalmente silenciosa e escura, e um fino chuvisco começou do lado de fora. Isso me tranquilizou de alguma maneira. Eu gostava de chuva. Minha mãe costumava dizer que a chuva lavava nossa má sorte, e eu acreditava nisso, pelo menos espiritualmente.
Respirei fundo algumas vezes antes de conseguir dormir, já deitado na cama com um lençol sobre minha barriga. Peguei uma almofada velha e a abracei.
Inexplicavelmente, tive um sonho com alguém da minha infância.
Liane, meu primeiro amor, me encarava do alto de uma janela de sobrado. Como uma cena de Romeu e Julieta. Logo percebi que ela usava um longo vestido azul. A parte direita de seu rosto descamava com a doença de pele que tinha. Isso a deixava instigante e misteriosa, como se estivesse me convidando a subir na janela e entrar em seu quarto.
— Liane, o que eu faço? Como chego até aí?
Ela apenas me olhava. Nenhuma resposta veio de seus lábios. Um brilho triste percorria seu olhar, e eu fiquei totalmente sem saber o que fazer.
Subitamente, senti o chão tremer. Era como se a terra estivesse cedendo sob meus pés. E surpreendentemente, percebi que estava. Olhei para trás: o chão estava desabando, abrindo uma cratera para o nada.
— Liane, me ajuda! — gritei.
Ela fez um sinal em negativo e desapareceu por trás das cortinas, fechando a janela.
A terra continuava a desabar. Comecei a correr, até chegar à parede da enorme casa, porém não havia nada a que eu pudesse me segurar.
Estava caindo sobre um vazio.
Um penhasco.
*
Às 14:00 horas do dia seguinte, eu estava sentado ao lado de uma árvore no Igapó. Olhando para o lago à minha frente, me distraí com os pontinhos de luz que se formavam com os poucos raios de sol. A chuva da madrugada permanecera até as onze, quando foi substituída por um leve mormaço e um céu cheio de nuvens.
Minhas pernas balançavam à minha frente. Eu encarava o celular a todo instante, vendo o horário. Cada segundo parecia lento ou rápido demais, dependendo do instante em que reparava. Tudo parecia confuso e incerto através dos meus olhos,
Eu estava nervoso. Mas decidido. Eu sabia que precisava entender Gabriel e ser compreensivo. Sabia que tinha que fazer alguma coisa a respeito de tudo.
— Oi — disse uma voz hesitante logo atrás de mim. Virei-me e vi Gabriel, de pé, parecendo ainda mais confuso do que eu.
— Oi — respondi. Encarei o chão, com vergonha demais para fazer qualquer outra coisa.
Ele andou mais alguns passos e veio até meu lado. Sentou-se, colocou a sua bolsa inseparável ao seu lado e envolveu a mão pelos joelhos.
Alguns segundos se passaram até ele dizer alguma coisa.
— Então... você disse que queria falar comigo.
— Sim.
Respirei fundo e olhei para o lado. Algo me dizia que eu estava piscando mais do que o normal.
— A primeira coisa que eu quero dizer é que... eu... você...você é uma pessoa muito especial pra mim — comecei, e as palavras pareciam tensas, porém as mais verdadeiras que eu podia usar. — Você sempre foi uma pessoa que eu admirei muito, que respeitei muito e, obviamente, você é o meu melhor amigo. O significado que você tem pra mim é simplesmente enorme e...
Quando o encarei, ele estava com o olhar focado no lago à nossa frente.
— ...E eu realmente não fazia ideia de tudo isso... não mesmo. Talvez eu seja uma pessoa idiota demais por não ter percebido esse tempo todo que você gostava de mim. E eu sei o quão difícil isso deve estar sendo pra você, Gabriel, mas... eu não vou deixar que tudo acabe assim. Poxa, eu te adoro, cara. E... eu queria pedir desculpas. Desculpas por não saber. Desculpas por qualquer chateação que eu tenha provocado. Eu sei como é decepcionante quando o sentimento não é recíproco. Me desculpa.
Ele levantou a cabeça e me lançou um olhar penetrante.
— Mas ninguém tem culpa nisso, André — disse ele, reflexivo. — Você pode até pedir desculpas pra mim pelo que quer que seja, mas eu sei que isso não tem nada a ver com você. É uma coisa que simplesmente aconteceu. Ninguém deve se desculpar aqui.
Ele voltou a encarar o lago e ficou um tempo em silêncio.
— Quando? — perguntei, simplesmente. — Você percebeu que estava sentindo isso?
— Quando? — repetiu ele. — Quando eu te conheci. Mas não quando nos vimos pela primeira vez. Quando nos conhecemos de verdade mesmo. Você.. você é o meu primeiro amor — disse, olhando para os pés. Senti algo no meu peito subindo até a garganta, como um peso que eu não fazia ideia de como carregar. — Sempre tão doce, tão confuso, tão imaginativo, tão lindo. Eu me apaixonei por tudo isso, André. Você é uma das melhores pessoas que eu conheci e eu realmente não queria que isso tivesse acontecido com o meu... com o meu melhor amigo.
Os olhos dele brilharam com a luz do sol que refletia no lago. Nesse momento, Gabriel me pareceu a pessoa mais fantástica e triste de todo o universo. Lembrei-me do dia em que conheci, eu sentado sozinho no corredor escutando música nos meus fones.
Você sabe onde é a secretaria?
Lembrei-me do modo como ele estava sempre disposto a ouvir as pessoas, mesmo aquelas que não mereciam ser ouvidas por ele. Lembrei-me de como ele estivera comigo durante esses anos de ensino médio e de tudo o que acontecera conosco.
— Cara — falei, espantando o peso da garganta. — Você é a melhor pessoa que eu já conheci. De verdade. E eu simplesmente não posso te compensar de forma alguma pelo modo como você sempre foi gentil comigo. Eu só quero que você saiba que, independentemente da decisão que você resolva tomar, eu te entenderei e sempre estarei aqui caso você precise...
E foi nessa hora que me lembrei de que havia mais uma coisa a ser dita.
— Mesmo que não... fisicamente — comecei, logo em seguida me arrependendo. Que jeito horrível de contar. Eu realmente não tinha experiência para lidar com despedidas. — Eu... vou me mudar de cidade — falei, sem rodeios. — Minha mãe conseguiu um emprego em Curitiba. O emprego dos sonhos dela, pra falar a verdade.
Ele levantou os olhos molhados.
— Sério? Isso é... maravilhoso. — ele esboçou um sorriso tênue.
Eu percebia que ele estava se esforçando ao máximo para ser simpático ou pelo menos aparentar algo positivo, porém apenas ficamos em silêncio, absorvendo tudo aquilo. Eu pensava em como as coisas seriam daqui pra frente, o que aconteceria. Aonde eu estaria daqui a um ano, dois, dez. Aonde Gabriel estaria.
— Eu... precisava realmente de um tempo pra mim, André. É isso que eu decidi. Eu preciso ficar mais na minha durante um tempo pra pensar. Só isso. Simplesmente parar e ver tudo isso pelos ângulos que eu ainda não enxerguei. Por hora, eu desejo tudo de melhor pra você também, e sei que, para onde quer que você vá, as coisas vão dar certo pra você. Eu... — ele me encarou profundamente. —... sou muito grato a você também. Você me proporcionou vários ótimos momentos e vou guardá-los comigo sempre.
Tentei sorrir em agradecimento, porém eu não podia deixar de pensar que eu também havia causado dor a Gabriel. Da mesma forma que um primeiro amor causa quando seus olhos não recaem sobre os nossos, quando seu coração não bate por nós. Eu sabia como era isso e me sentia incrivelmente cruel por simplesmente fazer parte de algo assim.
— Você é incrível, cara — foi o que consegui dizer.
Ele virou-se para a bolsa que havia deixado de lado, abrindo o zíper desajeitadamente e tirando um embrulho lá de dentro.
— Toma — disse ele, entregando-o a mim.
Encarei-o, surpreso.
— O que é isso?
— É um presente — respondeu.
— Mas presente de quê?
Ele suspirou.
— De amigo — e abriu um sorriso modesto que murchou quase no mesmo momento. — Eu queria te compensar de algum jeito por... por isso. Me desculpa.
— Não tem pelo que se desculpar... você mesmo disse.
— Mesmo assim.
— Não vou aceitar.
— Por favor, André... aceita. Você vai adorar. Abre aí.
Desamarrei o embrulho, rasgando algumas partes que estavam muito grudadas.
Era nada menos que a edição remasterizada de Urban Hymns, do The Verve.
— Mano — falei, abrindo um sorriso. Fazia tempo que eu estava querendo comprar aquele disco, porém não encontrava em lugar algum. — Como... você conseguiu?`
— Entrei em um grupo no Facebook de cds usados. Espero que você não se incomode...
— É claro que não, e você sabe disso.
Nós dois rimos. Por um momento, quase pareceu que tudo estava normal de novo. Que nada havia acontecido e as coisas estavam no rumo que sempre estiveram. Porém, o peso dos acontecimentos voltou rapidamente a fazer sentido.
— Obrigado. De verdade — respondi. Em seguida, fiz um gesto de como se estivesse prestes a abraçá-lo, porém não sabia se ele queria me abraçar. Acabei parando no meio do caminho, atrapalhado.
— Você ia me abraçar? — perguntou ele, levemente divertido.
— É... eu ia — respondi. — Eu... tudo bem pra você?
Ele suspirou e passou os braços pelas minhas costas, envolvendo-me em um aperto amigável.
— Sim — respondeu, afastando-se.
Examinei o CD em minhas mãos.
— Queria ter pensado em algo assim pra você — falei.
— Ah, que isso.
— Eu que precisava te compensar, cara.
Ele balançou a cabeça em negativo.
— É o que é — respondeu. — Não precisa me compensar.
E então eu fiz algo que, para ser sincero, até hoje não exatamente por que fiz. Eu simplesmente curvei minha cabeça para frente, em direção a de Gabriel, e encostei meus lábios nos dele. Dessa vez, eu fechei os olhos. Ele teve um pequeno espasmo, certamente surpreso com a minha atitude, mas depois se manteve constante. Não encostamos nossos corpos em nenhum momento. A boca dele se movia leve e lentamente. Não encostamos as línguas. Foi um beijo totalmente desprovido de detalhes: era o essencial.
Quando me afastei, os olhos de Gabriel estavam chorosos de novo.
— Me desculpa — respondi, imediatamente. — Me desculpa, me desculpa, me desculpa... eu não devia ter feito isso...
— Eu... — começou. —... tá tudo bem.
— Não, eu... que idiota eu fui.
— Tá tudo bem, André.
— Mesmo?
Ele enxugou os olhos e abriu um sorriso leve.
— Pode não parecer, mas sim — respondeu.
Fale com o autor