All I Want
14 Mudança
Notas iniciais
Três dias após a ligação de Maria, eu resolvi que já estava mais do que hora de fazer alguma coisa, afinal. Mas eu não fazia ideia de como começar a falar com Gabriel, e, o mais importante, não sabia nem o que falar. Estava com medo do que poderia acontecer, ou do que ele poderia dizer pra mim, porque eu sabia que o que ele diria não seria nada próximo do que eu gostaria de ouvir.
Entrar no Whatsapp e checar a nossa última conversa era doloroso. E eu não estava esperando que fosse fácil, também. Só que parecia haver algo de errado naquilo. Como se eu não estivesse preparado ou coisa do tipo.
Mas uma coisa acabou acontecendo antes que eu pudesse pensar mais a respeito desse assunto.
— Eu preciso falar com vocês dois — disse minha mãe, logo após chegar do trabalho mais cedo na sexta-feira, enquanto Olívia e eu assistíamos TV na sala.
Não pude disfarçar o espanto na minha expressão. Havia alguma coisa na voz dela que se misturava entre hesitação e entusiasmo.
— O que é? — perguntei.
Ela pôs as chaves e a bolsa em cima da mesa de jantar e veio até nós. Agora eu também podia ver um sorriso discreto, em parte contido, percorrendo sua expressão. Parecia ser algo muito bom. Mamãe sentou-se no chão junto com a gente, o que era uma cena quase cômica, já que o terninho escuro de trabalho era sua marca de seriedade.
— Uma coisa muito, muito importante vai acontecer na vida da mamãe agora — falou. — Mas isso exige compreensão da parte de vocês — ela lançou um olhar mais demorado a mim do que a Olívia.
— Fala, manhê — insistiu Olívia.
Minha mãe respirou fundo e tentou disfarçar ainda mais o sorriso.
— Fui chamada para ser Professora em tempo integral do curso de Direito!
É, era algo muito bom.
— Uau... Isso é incrível, mãe! — comemorei.
Olívia não parecia muito entusiasmada, talvez porque nem entendesse muito bem do que estávamos falando. Ela nos encarou com seus olhos enormes e confusos.
— Você vai entender melhor depois, querida — explicou mamãe, rindo.
Subitamente, percebi que estava faltando alguma coisa a ser dita.
— Qual era a parte que precisava da nossa compreensão? — indaguei.
Ela amenizou o sorriso no mesmo instante.
— Bem... — começou, parecendo ter uma enorme dificuldade em olhar para nós dois. — A universidade fica em Curitiba.
Absorvi a informação durante algum tempo.
— O que significa que...
— Que... vamos ter que nos mudar de cidade — completou.
Senti como se todas as palavras tivessem sumido do meu vocabulário. Tenho certeza de que minha expressão não era das melhores, embora eu não soubesse exatamente como me sentia em relação a isso. Minha mãe segurou a minha mão e a de Olívia nas suas.
— Vai ser maravilhoso, eu prometo pra vocês... eu sei que é difícil entender, eu sei. Não queria que isso tivesse que acontecer, juro que por mim nós três continuávamos morando aqui... Eu juro. Mas foi uma proposta muito súbita. E sempre foi meu sonho dar aulas em uma Universidade...
Imaginei o que aquilo significaria para mim. Dadas as situações atuais com Gabriel, agora eu teria mais um motivo para conversar com ele. "Ei, então, agora eu vou me mudar de cidade, cara". Mesmo que eu não quisesse de fato ir embora, isso era ruim?
Mas também imaginei o que tudo significaria para minha mãe. Ela sempre trabalhara duro para nos sustentar. E eu podia ver que, ao menos no emprego atual, ela não era tão feliz quanto seria sendo professora. Eu sabia disso. E sabia que, se nós tivéssemos que nos mudar de cidade, seria por causa dela e não por uma simples opinião minha.
—... e o salário é ótimo. Mas vocês dois sabem que eu não tomo decisões sem consultá-los primeiro, e não quero que vocês cresçam me odiando ou...
— Mãe — interrompi, e tentei esboçar o sorriso mais convincente que pude. — Tá tudo bem.
Ela prendeu a respiração.
— Sério?
Lancei um olhar cooperativo para Olívia. Sabia que, se eu concordasse, ela concordaria também.
— Claro.
Olívia fez que sim com a cabeça.
Minha mãe praticamente voou em cima da gente, envolvendo-nos em um abraço apertado e entusiasmado.
— Eu tenho tanto orgulho de vocês dois — falou.
*
Mais tarde, deitado na cama, eu ainda não tinha decidido nem com qual palavra começar a falar com Gabriel. Eu encarava o celular como se aquilo fosse me dar algum tipo de ideia, mas nada de realmente promissor vinha até a minha cabeça. Comecei a batucar com os dedos nervosamente na parede.
O som estava ligado em Bitter Sweet Symphony pela milésima vez. Nada conseguia me dar inspiração ou coragem para fazer o que eu tinha que fazer. Comecei a me questionar se na verdade eu não era um grande idiota e covarde por sentir tanto medo por uma coisa dessas. O que tinha de tão medonho nisso, afinal?
— Ei — disse minha mãe, subitamente aparecendo na porta do quarto. — Podemos conversar um pouquinho, André?
Endireitei-me na cama até me sentar, e tentei ao máximo disfarçar a minha inquietude.
— Claro.
Larguei o celular num canto e abaixei o volume da música. Mamãe sorriu e veio até mim com passos leves, sentando-se bem ao meu lado. Ela encarou-me profundamente com um olhar compreensivo e suave.
— Sabe... eu entendo se você não estiver se sentindo feliz com a decisão que tomamos, filho. Você pode ser sincero comigo.
— Não, eu estou feliz — balancei a cabeça. — Isso vai ser ótimo pra você, mãe.
— Mas e pra você? — perguntou ela. — Eu sei que você vai sentir falta de morar aqui.
Suspirei, mas não pensei em nada melhor para dizer naquele momento.
— Você sabia que está tocando Bitter Sweet Symphony no seu rádio pela milésima vez, não é? — perguntou ela em tom brincalhão. — De volta aos anos 90?
Sorri, desligando o rádio.
— É só uma música idiota — respondi.
Ela deu duas palmadinhas na minha perna.
— Se você tiver qualquer coisa pra contar ou se quiser conversar sobre qualquer assunto, eu estou aqui, André. Você sabe disso.
Encarei o celular do outro lado da cama, indeciso. Minha mãe semicerrou os olhos.
— Já faz alguns dias que você não tem saído com o Gabriel.
Ok, ela tinha acabado de chegar na origem da minha ferida. Não seria fácil mentir ou me esquivar a partir daí. O que me fez pensar se realmente era necessário mentir ou me esquivar. Minha mãe era uma pessoa em quem eu confiava, e talvez ela pudesse me ajudar de alguma maneira, não?
— Sim — respondi, encarando o chão. — Alguns dias.
— E tem alguma coisa que você gostaria de falar? — ela perguntou, colocando a mão em meu ombro.
Pensei mais uma vez. Eu não ia mentir, mas também não era um requisito que eu contasse tudo. Talvez eu não precisasse ser tão específico e detalhista.
— Mãe — comecei, ainda sem coragem de olhar para cima. — Digamos que... em um relacionamento que você tenha com um amigo, com seu melhor amigo, alguma coisa acabasse com a amizade de vocês. Uma coisa que surge... do nada. Uma amizade pode acabar assim, de repente?
— Mas o que seria essa coisa que surge do nada?
Hesitei. Será que eu estaria violando a privacidade do Gabriel se eu contasse que ele era gay? Eu não sabia nem se os próprios pais dele sabiam. E se eu falasse pra minha mãe e ela falasse para os pais dele? E se eu estragasse tudo e Gabriel na verdade não quisesse que ninguém descobrisse?
Ela com certeza percebeu meu desconforto.
— Ok, querido, você não precisa contar se não quiser — disse, dando uma palmadinha no meu ombro.
Aquilo me deixou um pouco mais aliviado.
— É complicado, só isso — respondi, balançando a cabeça.
— Mas respondendo à sua pergunta, eu acho que não, as amizade geralmente não acabam de repente. Não as realmente verdadeiras, eu presumo. Você tem que lutar por elas. Por mais que essa coisa que aconteceu seja difícil de lidar, você tem que lutar e descobrir que os melhores amigos vão ser aqueles que continuarão mesmo depois dos piores momentos.
— Mas e se... e se não depender só de mim? — perguntei. — E se a minha luta não for o suficiente?
— Nunca depende só de você, querido. As amizades são resultados de um esforço mútuo, de uma cooperação. Você não pode se esforçar sozinho se a outra pessoa não se esforçar também.
— Ah. Eu... acho que não tinha visto por esse ângulo antes.
Minha mãe sorriu.
— Mas o mais importante — prosseguiu. — Sempre se coloque no lugar do outro, André. Isso é vital, é a coisa mais importante que te ajudará a manter qualquer amizade.
E subitamente, imaginei tudo invertido. E se fosse eu que estivesse gostando do meu melhor amigo, como eu reagiria? O quão difícil seria? Um sentimento não correspondido já doía, mas e se fosse de alguém próximo de mim? Tão próximo quanto eu era de Gabriel?
— Obrigado, mãe — respondi. — Obrigado mesmo.
— Ora, eu estou aqui pra isso — ela me envolveu em um abraço apertado e em seguida apertou a minha mão. — Eu sei que às vezes eu pareço ser uma workaholic desvairada, mas não se esqueça de que eu amo você e a sua irmã mais do que qualquer coisa nesse mundo.
— Nós também te amamos — respondi, sorrindo. — E eu queremos que você seja muito feliz nessa nova carreira de professora.
Ela acariciou meu cabelo.
— Obrigada. Já disse que tenho muito orgulho de vocês dois? Acho que não.
— Umas oito mil quinhentas e cinquenta e quatro vezes, pelas minhas contas.
Nós dois rimos.
— Bem, tenho que arrumar as coisas agora, querido. Ver toda a papelada do meu trabalho atual e essas chatices. Boa noite.
— Boa noite, mãe.
Ela já ia saindo do quarto quando eu peguei meu celular de volta.
Agora eu já sabia o que dizer a Gabriel.
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