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10 Achados & Perdidos


Notas iniciais
oiii genteee :) Td bem? Quero agradecer por vcs pelos coments, estou amando cada um. Espero q vcs curtam o cap ;) Links das playlist no fim. Bjssss :* P.S.: Perceberam a capa nova? ♥

Quando conheci Gabriel, eu estava em uma época da minha vida que não era das melhores. Eu estava sozinho.

Nós dois éramos novos no colégio, iniciando o primeiro ano do Ensino Médio sem conhecer ninguém. Logo, o fato de que nós dois sempre estávamos sobrando nas rodas de amigos foi o que acabou nos levando à nossa primeira conversa.

Eu estava sentado no chão do corredor da escola, perto da sala de aula, ouvindo música nos fones de ouvido e lendo o exemplar de bolso de A Guerra dos Tronos, totalmente distante do que acontecia à minha volta. Foi quando ele chegou e parou na minha frente, dizendo algo que não consegui ouvir direito.

— Desculpa — falei, retirando os fones. — Não entendi...

— Você sabe onde é a secretaria? — perguntou ele mais claramente.

— Na verdade não — respondi, meio sem jeito. — Eu sou novo aqui.

— Eu também.

Sorri, tentando ser simpático.

— Preciso achar alguém que saiba — ele disse. — Muito obrigado... é...

— André.

— Muito obrigado André. Eu sou o Gabriel.

E estendeu a mão educadamente. Retribuí o cumprimento com entusiasmo; ele parecia ser um cara legal.

Foi então que ele baixou o olhar e viu o livro que eu estava segurando.

— As Crônicas de Gelo e Fogo? Quanta coragem — comentou.

Eu ri, encarando o exemplar.

— Eu estou curtindo muito, pra ser sincero.

— Eu também gosto. Mas certamente eu demorei mais tempo pra ler do que o George R.R. Martin pra escrever.

Nós dois rimos.

— Sério? Já estou na metade. Comecei há duas semanas.

— Você deve ser um leitor bem rápido então.

Dei de ombros. Naquela época eu lia bastante, muito mais do que hoje em dia.

— Bom... — começou Gabriel. — Eu tenho que ir... antes que o intervalo acabe. Até mais, André.

— Eu... eu posso ir com você?

Ele me encarou com olhos simpáticos, e também pareceu ficar surpreso com a minha reação.

— Claro que pode.

Levantei-me, guardando os fones no bolso.

Não precisaria deles nos próximos intervalos.

*

— Com licença — disse Gabriel, parando um garoto pequeno e de óculos que passava comendo um salgado pelo corredor. — Você poderia me dizer onde fica a secretaria?

O garoto pareceu surpreendeu-se por alguma pergunta estar sendo dirigida a ele.

— Fica no segundo andar. É só subir as escadas e virar à direita, cinco portas depois.

— Muito obrigado.

E continuamos a andar.

— Por que exatamente você precisa ir à secretaria, Gabriel? — eu quis saber.

— Perdi minha blusa — disse ele, parecendo um pouco envergonhado.

— Ah, normal. Essas coisas acontecem.

Ele me olhou, dessa vez um pouco mais sério.

— Na verdade... eu tenho suspeitas de que ela tenha sido roubada.

— E você desconfia de alguém?

Gabriel suspirou.

— Eduardo — falou, parecendo sentir raiva.

Eduardo era um rapaz da nossa sala com quem confesso que não me dava muito bem. Sempre dormia nas aulas e era meio babaca. Evitava falar com ele pelo simples ar de arrogância e superioridade que ele emanava. Não suportava lidar com pessoas assim, e com ele não era diferente.

— Ele não parece ser boa pessoa — comentei.

— E de fato não é.

— Por que ele roubaria a sua blusa?

Gabriel bufou enquanto subíamos as escadas.

— Porque ele é também não é meu fã. Na verdade, ele me odeia.

Realmente me perguntei como os dois podiam se odiar com apenas duas semanas de aula transcorridas. Mas eu tinha plena certeza de que esse comportamento partira de Eduardo e não de Gabriel, mesmo tendo acabado de conhecê-lo.

— Tudo o que eu preciso fazer é verificar se a minha blusa não está no Achados & Perdidos.

— E se não estiver? Vai contar pra alguém da secretaria?

Ele fez que não com a cabeça e depois abriu um sorriso malicioso.

— Aí eu pago com a mesma moeda, ora pois.

Vocês estão prestes a conhecer um outro lado do Gabriel.

*

— Só tem duas blusas aqui — disse a secretária do Achados & Perdidos, uma mulher atarracada e que tinha em seu rosto uma expressão no mínimo entediante. — Um momento.

Ela desapareceu por trás da janela de seu gabinete, voltando alguns segundos depois com as blusas. Ela estendeu-as para a nossa vista. Uma delas era rosa choque com o capuz cheio de pelinhos brancos, e a outra parecia ter sido costurada em um tamanho maior que GG.

— Alguma delas é sua?

— Não — respondeu Gabriel, sorrindo educadamente.

— Ah — a secretária fez uma cara de "Eu já imaginava". — Bem, são só essas.

— Tudo bem... Muito obrigado, senhora. Tenha um bom dia.

A secretária forçou um sorriso amarelo e fomos embora.

— O que exatamente você pensa em fazer agora? — indaguei.

— A melhor forma de acabar com a arrogância de outra pessoa é mostrando-a que ela é igual a todas as outras.

— Então você vai roubar a blusa dele também?

— Longe disso. Não sou ladrão.

O sinal que anunciava o fim do intervalo tocou e nós entramos.

— Droga. Aula de Química agora. — lamentei. Sem dúvida, de todos os nossos professores, o de Química era o que mais se esforçava para ser chato. Com uma voz morta, expressão monótona e uma didática péssima, ele acreditava que aulas em slides eram parte da "escola tecnológica" e blablabla. Ninguém aguentava aquelas aulas.

— Isso tornará tudo mais fácil — disse Gabriel. — Uma aula de Química acaba com qualquer um.

Não entendi o comentário muito bem, mas aí nós entramos na sala de aula e eu percebi que Gabriel iria se sentar bem longe de mim.

— Boa sorte com a blusa — desejei.

— Valeu — ele sorriu amistosamente para mim.

A partir daí, seguiram-se duas tediosas horas de aula de Química, que, não vou mentir, odiei. Eduardo, o idiota — e agora eu sabia, ladrão — deitou a cabeça na carteira e caiu em um sono que parecia profundo. Ele não foi o único.

No final do período fomos dispensados, e quem ainda não tinha dormido levantou-se da carteira preguiçosamente, como se tivéssemos corrido uma maratona.

— Gente — chamou Gabriel, indo à frente da sala antes que as pessoas saíssem. — Preciso de um minutinho de vocês, por favor.

Todos encararam-no, meio grogues. Eduardo acabara de acordar e parecia ter levado um soco.

— Ontem eu deixei minha blusa em cima da minha carteira na hora do intervalo. Mas quando voltei, ela sumiu. Algum de vocês a viu?

Ninguém disse nada, apenas fizeram gestos em negativo.

— Quem saiu por último ontem?

Todos os olhares recaíram sobre Eduardo. Ele pareceu incomodado.

— Vocês estão achando que fui eu?

— Só quero saber se você viu.

— Não vi, e por favor, pare de me acusar.

— Não estou te acusando, estou perguntando.

— Já disse que não sei.

— Ótimo.

— Ótimo.

— Vou sentir falta.

— Que pena.

— Era nova.

— Ahm.

— A minha blusa laranja.

— Mas não era laranja.

Um lampejo de vitória passou pelos olhos de Gabriel.

— Como você sabe?

Eduardo corou instantaneamente, parecendo mais lento do que de costume.

"Isso tornará tudo mais fácil. Uma aula de Química acaba com qualquer um."

Agora eu tinha entendido.

Os nossos colegas começaram a cochichar e rir baixinho.

— Porra, cara! Você roubou a blusa dele? — disse uma voz risonha da plateia de alunos, acompanhada de uma risada feminina e um "vishe".

— Eu... ora, eu nunca te vi com uma blusa laranja — começou Eduardo. — É por isso que eu falei.

— Aham — Gabriel pareceu não ouvir suas palavras, como se fossem irrelevantes. — Bom, obrigado, pessoal. Era só isso mesmo.

Ele pegou sua mochila e o restante da classe se amontoou em direção à porta, saindo em um fluxo apertado. Quando quase ninguém estava na sala — apenas eu, Gabriel, Eduardo e mais três colegas — vi Gabriel andar até Eduardo e sussurrar algo em seu ouvido, ao que o outro franziu a sobrancelha e pareceu ficar com raiva.

Nós nos encontramos na saída.

— Nossa — comentei. — O que você disse pro Eduardo agora há pouco?

Ele sorriu.

— "Se você me devolver a blusa, desminto os boatos".

— Uau. Isso foi esperto.

— Valeu. As pessoas subestimam o valor do julgamento precipitado.

Eu ri.

Após um tempo caminhando, perguntei:

— Você vai de ônibus pra casa?

— Vou sim.

— Qual é o seu?

— 213. E o seu?

— 806.

Ele suspirou e estendeu a mão de novo. Por um minuto, pareci ter visto um lampejo de decepção em seu olhar, mas ele continuou sorrindo.

— Vai guardar segredo, André?

— Vou, Gabriel.

— Gostei de você. A gente se fala amanhã?

— Com certeza.

E nos despedimos.

Naquele dia, fui para casa sentindo uma ponta de entusiasmo sobre ele. Certamente, eu não estaria mais sozinho naquela escola; e isso já era tudo para mim.

Notas finais
Playlist do Gabriel: https://open.spotify.com/user/laurent123373/playlist/5jeQl18nsJ8q6bzt68ummb Playlist do André: https://open.spotify.com/user/laurent123373/playlist/7egp4Rp3P3qfssGqlXGRwR Playlist da Maria: https://open.spotify.com/user/laurent123373/playlist/3Ifa72tfUJZzIWkf7FZ2ao