Alicent Hightower: A Rainha Verde
4 Termos de paz
O pequeno conselho foi reunido um dia após a notícia da pequena coroação de Rhaenyra em Pedra do Dragão ter sido feita. Desta vez, Aegon também estava presente, como rei. Alicent também resolveu comparecer, chamando sua filha Helaena. O pequeno conselho podia não ser lugar para mulheres, mas ela precisava de toda a ajuda possível para apaziguar o seu filho mais velho.
Infelizmente, para Alicent, como já era esperado, sua rival não morrera no parto. Teve que se contentar com o fato dela ter perdido o bebê ao invés de perder s vida.
Larys Strong foi quem revelou as palavras ditas por Rhaenyra.
—Ela declarou que avô e a mãe de Vossa graça devem ser decapitados por traição—Disse o pé-torto, não que isso já não fosse esperado—Mas declarou também que se os meios-irmãos e a sua amada irmã forem a Pedra do Dragão pedir perdão, ela os acolherá em seu coração novamente.
—"Novamente"?—A rainha viúva repetiu as palavras com um meio sorriso; sua enteada nunca amou seus meios-irmãos—Por acaso ela acha que nós realmente iríamos acreditar nisso? Digo, nem ela pode ser tão estúpida.
Seu jovem filho, como já era de se esperar, ficou absurdamente irritado e não achou graça.
— Minha meia-irmã e meu tio são culpados de traição — declarou o jovem rei. — Quero os dois capturados, quero os dois presos e quero os dois mortos.
Orwyle tentou remediar a situação.
— A princesa precisa ver que a causa dela é impossível — disse o grande meistre Orwyle. — Irmão não devia guerrear com irmã. Me leve até ela, assim podemos conversar e chegar a um acordo amigável.
O jovem rei olhou o sábio meistre com fúria em seus olhos púrpuras.
—Você é só mais um traidor—Aegon o acusou, levantando-se da cadeira onde estava—Deveria jogá-lo nas celas negras com seus amigos negros.
O meistre pareceu encolher com a ameaça do rei.
—Meu Rei—Disse Alicent—O sábio meistre apenas fala em evitar o pior; nada de bom viria em ir contra a vossa meia-irmã e iniciar uma guerra terrível. Isso iria apenas trazer a ira dos deuses contra nós e trazer um caos sangrente e desnecessário para o reino.
Seu filho ainda não parecia disposto a ouvi-lá.
—Ninguém apoia Rhaenyra—Ele disse—A idiota foi coroada com a coroa de meu pai pois um vira-manto a roubou; e daí? Nenhum lorde importante lhe deu apoio ainda além da velha Serpente marinha. A puta não tem ninguém.
Mas tem mais dragões, pensou.
Sua filha Helaena ecoou as palavras da mãe.
—Meu doce marido—Ela disse, apelando pelas vidas de seus inimigos, como uma boa rainha faria, tocando o braço de Aegon—, peço que pense em nosso amado pai e em como nada disso seria de seu agrado; pense em como todos do reino irá saúda-lo como um grande rei se você lhes mostrar como é misericordioso. Pense em como irá ser lembrado por isso e até dar orgulho aos nossos filhos!
—Helaena, minha querida esposa e irmã—Disse Aegon, tocando o braço de sua companheira de sangue e matrimonio—Nossa Meia-irmã e seu marido iriam matar nossos filhos se lhe déssemos chance.
—Então prove que é melhor que eles—Ela respondeu—Por favor, meu marido, peço que pelo menos ouça o grande meistre e tente dar uma chance a nossa irmã.
O Rei pareceu ouvir as palavras da irmã-esposa e de sua mãe, embora claramente não gostasse delas.
—Está bem—Ele disse, carrancudo—, em nome das duas rainhas em minha vida, para acalmar o coração delas, e pela memória de meu pai, eu aceito tentarmos a paz com minha meia-irmã. O grande Meistre pode preparar os termos e ir amanhã com uma grande comitiva até Pedra do Dragão.
Helaena beijou a bochecha de seu carrancudo marido.
—Deuses o abençoem, esposo—Disse Helaena.
Alicent fez uma vénia.
—Obrigada, meu rei—Disse Alicent, agradecendo aos deuses por seu filho, apesar de sempre irritado, ainda lhe dar ouvido. —Eu irei ajudar o Grande Meistre em seus termos de paz.
O rei assentiu.
—E é bom a puta da minha meia-irmã aceitá-los—Disse Aegon—Aquela buceta velha e fazedora de bastardos tem que saber que ela, suas crias bastardas e seus amigos negros só estão vivos porque eu quis que fosse assim. Eu sou o rei aqui.
—E eu vou garantir para que ela o saiba, meu filho—Prometeu—Eu e Meistre Orwyle.
Não foi difícil para a rainha viúva ajudar o velho meistre a fazer os termos de paz, ela já havia pensado neles a muito tempo; se a princesa Rhaenyra o reconhecesse o meio-irmão como rei e se curvasse perante o Trono de Ferro, Aegon II confirmaria a posse dela de Pedra do Dragão e permitiria que a ilha e o castelo passassem para seu filho Jacaerys após a morte dela. Seu segundo filho, Lucerys, seria reconhecido como herdeiro legítimo de Derivamarca e das terras e posses da Casa Velaryon; seus meninos com o príncipe Daemon, Aegon mais novo e Viserys, receberiam posições de honra na corte, o primeiro como escudeiro do rei, o segundo como escanção dele. Seria concedido perdão aos senhores e cavaleiros que conspiraram traiçoeiramente com ela contra o verdadeiro rei (Alicent não viu motivos para pensar em Joffrey, visto que ele era só mais um bastardo e sem lugar para herdar como os outros dois mais velhos, e um refém pobre em comparação aos dois filhos legítimos de Daemon com a sua sobrinha).
Era perfeito, a sua enteada teria a vista grossa dos verdes quanto aos seus filhos bastardos; seus filhos mais novos seriam reféns, mas estariam em posição alta na corte; e, é claro, Aegon II seria visto como um rei misericordioso que concedeu a misericórdia a sua meia-irmã. Tudo estaria resolvido, sem derramamento de sangue.
Mas, tal como fizera ao sobreviver ao sobreviver ao bem dito parto onde dera a luz a uma filha natimorta monstruosa, a filha de Viserys mais uma vez se provou uma mulher incapaz de simplesmente se colocar de lado e aceitar a derrota.
Mas não foi realmente uma surpresa para Alicent quando Orwyle e a sua comitiva voltou com a péssima notícia de que Rhaenyra havia negado aceitar as ofertas de paz… Surpreendente foi ele voltar sem a sua corrente.
—O que aconteceu?—Alicent exigiu saber assim que viu o Grande Meistre entrar no pátio do castelo e descer do cavalo, mas ele parecia um tanto envergonhado para falar.
—A rainha Rhaenyra retirou a corrente dele, Vossa Graça—Disse o guarda real, Arryk Cargyll, o irmão gêmeo de Erryk Cargyll, que estava com Rhaenyra.
—Lamento majestade—Disse o Septão Eustace—A filha do falecido rei se recusou a ouvir a razão.
—Isso já era esperado dela—Disse Alicent—Minha amada enteada parece não ter ganhado muita sabedoria em seu tempo na ilha-fortaleza.
—A única paz que Rhaenyra pode nos dar é quando seu corpo estiver frio e sem vida—Disse Sor Criston.
—Sinto muito, irmã—Disse Gwayne, que também havia ido com o meistre para a ilha—Mas parece que ela não vai nos dar trégua. Ela até obrigou o brilhante Meistre a dizer que ela era a herdeira.
—O quê!?—Aquilo a enfureceu e a fez cerrar os olhos e encarar Orwyle—Isso é verdade? Disse com sua própria língua que ela é a herdeira? —Ela exigiu saber.
Orwyle finalmente engoliu o orgulho e falou:
—Ela perguntou quem o pai declarou ser seu herdeiro e eu não tive escolha além de re-responder a ve-verdade, Vossa Graça—Ele admitiu gaguejando, assustado com o olhar de raiva de Alicent—E e-ela disse que terá o trono de ferro… Ou a cabeça de Aegon.
—Pois ela terá que aceitar que não terá nenhum dos dois—Respondeu Alicent.—A princesa vai ter que aprender que não pode ter tudo nessa vida, o pai dela já não está mais vivo para mimá-la.
A única coisa boa nisso era que pelo menos Rhaenyra provou mais uma vez ser uma péssima política; ao olhar de todos, Aegon ofereceu paz a irmã, mas Rhaenyra apenas os ignorou e não ofereceu nada.
Mas a rainha viúva sabia que isso não iria ajudar tanto o seu lado tanto quanto se ela tivesse simplesmente aceitado os termos.
Alicent dispensou o irmão com um gesto e se virou para o manto branco.
—Sor Arryk, vá até a Mão do Rei e avise-o das notícias—Disse Alicent—Eu irei falar com ele logo depois, por agora, devo avisar meu filho. Ele não vai gostar nada disso.
Quando ela e seus companheiros foram até o quarto de seu filho, o encontraram apalpando uma empregada. Ele rapidamente se recompôs ao ver as portas se abrindo.
Alicent encarou a mulher que tentava ajeitar as vestes e ficava vermelha.
—--Saia---Ela ordenou, e a mulher foi rápida em fazer o que ela mandava.
—Milady mãe, senhores—disse seu filho, quando a empregada saiu, tentando se endireitar e enchendo uma taça de vinho—É sobre a minha meia-irmã?
—Sim, meu filho—Disse Alicent, já temendo a fúria que veria após dar as péssimas notícias.
Após falar tudo o que ocorreu para seu filho, Aegon apertou os olhos e as sobrancelhas, e enrugou os lábios.
— Eu ofereci uma paz honrosa a ela, e a prostituta cuspiu na minha cara — declarou ele.— O que vai acontecer agora é culpa toda dela.
—Infelizmente não vejo outra alternativa—Disse Alicent.
Sor Criston atiçou a chama de ódio do Rei.
—Vossa Graça lhe mandou termos que ela nem merecia e a puta de Daemon cuspiu neles—Disse o manto branco—Não pode deixar que ela faça troça de sua autoridade. Ela e os comparsas merecem pagar por isso, severamente. Não podemos mostrar misericórdia.
O rei assentiu.
—Quero-a morta—Disse Aegon, com escárnio na voz—Nunca deveríamos ter lhe enviado qualquer termo de trégua. Pedra do Dragão é de meu filho, Jaehaerys, não daqueles bastardos sujos dela. Ela nem sequer tem o direito de sentar aquele traseiro gordo no trono daquela ilha, muito menos no meu trono.
Após falar com seu filho, Alicent foi até os aposentos de seu pai, onde Sor Arryk lhe fazia guarda. Como de costume, o senhor seu pai estava escrevendo cartas na mesa.
Sor Criston logo atrás dela e fechou a porta dos aposentos quando ambos entraram.
—Pai—Disse Alicent—, imagino que já saiba das palavras de Rhaenyra.
Ele nem levantou a cabeça, apenas continuou escrevendo.
—Sim—Ele respondeu—, não posso dizer que estou surpreso com isso.
Ela foi até uma cadeira perto de sua mesa e se sentou. Sor Criston parou bem atrás dela.
—Temos notícias de Aemond?—Ela perguntou.
—Vosso filho escreve dizendo que chegou recentemente em Ponta Tempestade, apesar do clima severo—Ele respondeu, enquanto passava cera para selar o papel—Ele disse que Lorde Borros tem sido um bom anfitrião e está mais do que pronto para ajudar em nossa causa e defender o direito de um filho sobre uma filha.
Alicent sorriu ao ver aquilo. Rhaenys, a Rainha que Nunca Foi, apoiar a causa de Rhaenyra era um ponto importante para a causa dos negros, mas ter o apoio do lorde de Ponta Tempestade era mais importante ainda; graças as ligações dos Baratheon com a casa Targaryen.
—Então nem tudo está perdido—Disse Alicent—Bem, suponho que um enorme dragão sob suas muralhas tenha sido útil para auxiliá-lo a fazer a escolha certa. Um dragão pode fazer milagres.
Otto deixou a carta de lado e juntou as mãos, formando uma casa, e olhou para ela com seus frios olhos azuis, havia profundos sulcos em seu rosto. Era possível ver seu cansaço, por mais que ele tentasse parecer calmo e severo.
—E nem sempre esse milagre será a nosso favor, infelizmente.
Aquilo a deixou confusa.
—O que quer dizer?
—Quero dizer que o príncipe Daemon levou seu dragão para Harrenhal e o tomou sem dificuldades.
Alicent soltou um suspiro, horrorizada. Aquilo era péssimo; a enorme fortaleza de Haren, o Negro, era um ponto importante para se ter nas Terras Fluviais, pois era bem próxima de Porto Real e tendo a capacidade de conter um enorme exército, Daemon estava tomando um grande poder para si.
—Ele tomou o enorme castelo assim tão fácil?—Ela questionou.—A família de lá é a mesma de Larys, eles deveriam…
—Deveriam o quê?—Perguntou Otto, olhando-a como se fosse uma jovem tola—Os Strong deveriam lutar contra uma fera enorme, voadora e cuspidora de fogo?
Sor Criston deu um passo para frente, se colocando ao lado de Alicent.
—E os lordes do Tridente?
—Os Bracken já nos deram apoio—Disse Otto—, assim como a casa Butterwell.
—Só essas casas?—Perguntou a rainha, totalmente incrédula e furiosa—Eu pensei que Lorde Grover tivesse nos dado apoio! Por que aquele velho incompente não fez nada ainda?
—Infelizmente, parece que o velho lorde está acamado e seu neto não tem interesse em tomar qualquer partido até o momento. Lorde Forrest Frey, que um dia pediu a mão de Rhaenyra em casamento, já declarou seu apoio à causa negra, e imagino que é só questão de tempo para o Lorde Blackwood fazer o mesmo.
Aquilo a deixou furiosa. Ela tinha certeza que o bom e velho lorde iria dar seu total apoio a Aegon… Mas não contava com o astuto neto do Lorde.
—Talvez um dragão sob suas muralhas pudesse persuadir o neto dele também—Sugeriu Alicent—Se não, um castelo em chamas poderia resolver as dúvidas de seus vassalos. Podemos mandar Aegon, ou pedir para Aemond…
—Acho que Daemon pensou nisso antes, caso não tenha percebido—Disse Otto—Ele agora tem o maior castelo dos Sete Reinos e uma reputação impiedosa, junto de um ser que cospe fogo como Companhia. Mesmo que o neto de lorde Tully tome nosso partido, acha mesmo que seus vassalos iriam lutar por ele contra o mais infame príncipe Targaryen montado em um dragão?
Alicent abaixou a cabeça com as duras palavras de seu pai, como se ela fosse uma jovem levando sermão.
—Desculpe, pai.
—Temos que mostrar nossa força contra nossos inimigos—Disse Criston.—Deveriamos passar nossos prisioneiros na espada, e atacar logo as casas que se recusaram a aceitar a nossa causa.
Sor Otto o olhou como se fosse um tolo.
—Nós não temos aliados o bastante para um grande ataque—Ele retrucou—, os Negros podem não ter Vhagar, mas tem Caraxes, Meleys e até Syrax. E matar nossos reféns poderia piorar nossa imagem diante dos lordes.
—Matar traidores é justiça—Disse Criston.
—Pode até ser—Admitiu Otto—Mas não estou seguro de começar o reinado do meu neto com um banho de sangue.
—Que outras casas nos apoiam?—Questionou Alicent—Certamente não o Vale, mas certamente temos o apoio da Campina já garantido?
Seu pai a olhou e balançou a cabeça, mostrando que ela não devia estar tão segura disso.
Isso não está indo nada bem...
—Temos casas importantes da Campina, como Hightower e os Redwynde de Arbor, mas algumas casas não estão tão dispostas assim a nos apoiar.
Alicent balançou a cabeça.
—O filho de Lorde Beesbury?
—O próprio. Ainda exigindo que libertemos o pai dele.
—Acha que outras casas também vão se unir a ele?
Ele deu de ombros.
—É bem capaz, de qualquer forma, ainda temos o Oeste inteiro a nosso favor, lá os Lannister não tem nenhum senhor revoltado.
Aquilo não a apaziguou.
—Quem mais pode nos dar apoio? Dorne já lhe respondeu? Ou o senhor de Pyke?
—O príncipe de Dorne negou apoio—Ele revelou—Eu achei que ele estaria feliz em ir contra Daemon e Corlys, já que eles lhe tiraram o poder dos degraus, mas ele diz que Dorne prefere não lutar contra dragões novamente.
Alicent balançou a cabeça.
—Pelo visto, Dorneses nunca são confiáveis—Disse—E Pyke?
—Ainda sem respostas dele, mas pedi apoio a Triarquia, pois apenas eles podem ajudar contra a frota Velaryon.
—--Acha que vão aceitar?
—--É capaz, pois eu prometi comércio livre para eles, e controle total dos Degraus.
—--O Trono não manda nos Degraus.
—--Não, mas era a única forma de conseguir apoio… Mas vai demorar até obtermos respostas.
—Ter essa frota do nosso lado é ótimo, mas não podemos contar apenas com apoio estrangeiro, pai—Respondeu.—Precisamos do apoio de Westeros!
Seu pai não gostou nada de ouvir aquilo.
—Estou fazendo o possível, Alicent!—Disse Otto, claramente estressado—Já não basta o próprio Rei me importunando todo o santo dia? Eu tenho trabalhado constantemente para reforçar a proteção da cidade e da guarda do castelo, também usei parte do dinheiro da capital que temos para contratar mercenários.
Ele se pegou uma das cartas que tinha acabado de escrever e selar e a ergueu
—Esta carta vai para Winterfell; já escrevi para o Ninho da águia, mesmo que pareça improvável ter apoio—Sua voz estava zangada, mas também cansada—Já enviei para Ponteamarga, Ilha Bela, Porto Branco, Vila Gaivota; Cavaleiros foram enviados quando corvos não voaram. Me diga, o que mais posso fazer?
Alicent nunca viu seu pai daquele jeito; a raiva, o estresse, o cansaço… Medo. Somente Daemon Targaryen parecia capaz de irritar Sor Otto, mas nem ele o deixou naquele estado.
—Acalme-se, pai—Ela disse, tentando apaziguar a sua raiva—Sei que faz o que pode pela nossa causa. Devemos nos manter calmos e unidos, se o desespero nos pegar, tudo terá sido em vão.
Seu pai suspirou e massageou as temporas.
—Tem razão.—Ele disse por fim—Tentarei me acalmar
Alicent se levantou.
—Irei informar meu filho sobre a queda de Harrenhal—anunciou—Ele não ficará nada feliz com isso.
—E quando ele está feliz com algo?—Seu pai perguntou irritado e fez um gesto brusco com a mão—Saia, eu preciso tentar conseguir mais apoio.
Alicent e Sor Criston voltaram até os aposentos do rei, onde o mesmo estava bebendo mais vinho e se empanturrando com um prato cheio de cisne e frango.
—O que foi agora?—Ele perguntou irritado assim que a viu, chupando a gordura dos dedos.
—Tenho más notícias, Aegon—Ela avisou.
O filho bufou.
—É a puta da Rhaenyra outra vez?
Ela decidiu falar a verdade logo, não havia motivos para amenizar a verdade:
—Daemon conquistou Harrenhal—Ela disse—É capaz que as casas das Terras Fluviais passem para o lado dele, já que apenas duas nos deram apoio, e algumas já levantaram o estandarte de Rhaenyra.
Para a surpresa de Alicent, seu filho não ficou zangado, apenas a olhou, totalmente incrédulo.
—O quê?—Ele disse finalmente, com a cara cheia de gordura—Daemon e Rhaenyra conseguiram apoiadores?
Alicent se viu obrigada a assentir.
—Sim, infelizmente.
Seu filho pegou um cálice e o bebeu rapidamente, deixando o vinho escorrer pelos lados da boca e pingar no chão.
—O que faremos sobre isso?—Ele perguntou para ela, enchendo novamente o cálice—Quem mais apoia a causa dela?
—Tente ficar calmo, Aegon—Ela disse—A guerra está só começando, e o vosso avô está cuidando de tudo.
Dessa vez ele fez a sua carranca.
—Meu avô não está fazendo nada—Ele disse—Se estivesse, eu teria apoiadores de verdade! Corlys Velaryon está usando a sua frota para bloquear a Goela, sabe o quanto isso tem irritado os comerciantes? Todos os dias chegam cada vez mais deles para reclamar comigo, enquanto meu avô senta o rabo dele o dia inteiro e escreve cartas!
—Tem que entender que essas situações não são fáceis—Disse Alicent—Pode não parecer, mas as cartas de Sua Mão podem lhe trazer a vitória no futuro! Nenhuma guerra é ganha em um dia…
— Nenhuma guerra é ganha com tinta preta—Ele retrucou—Se nós queremos ganhar essa luta, precisamos de pulso firme!
—De fato—Concordou Criston, atrás de Alicent.
Ela o olhou irritada.
—Tome cuidado com a língua, Sor—Ela avisou—Seu trabalho é usar a espada, não a língua, e você claramente só sabe uma delas corretamente.
O homem de olhos pálidos preferiu se calar perante as palavras de Alicent.
Ela se voltou para o filho.
—Por favor, seja paciente—implorou—Garanto que as sementes do senhor meu pai logo vão vingar e você verá como ele é capaz de ajudar a nossa causa.
Seu filho bebeu um longo trago de vinho e depois falou.
—Assim espero, mãe—Respondeu Aegon, limpando a boca com as costas da mão—Um rei não deve ter uma Mão fraca.
As piores notícias vieram de fato no dia seguinte, no fim da tarde. Porém, a tragédia não foi anunciada pelas batidas de asas negras de corvos e sim de uma dragão. Seu filho Aemond, estava de volta.
Seu filho deixou Vhagar no fosso com os outros dragões e foi até se encontrar com ela, os membros do conselho, e o irmão na sala do trono.
Quando Aemond entrou na sala, seu olho de safira brilhava como se estivesse vivo. Um sorriso se encontrava nos lábios de Aemond, mais presunçoso do que de costume.
—Irmão—Disse Aegon, sentado no enorme trono de ferro, ao ver o irmão mais novo entrar—Espero que sua viagem tenha sido produtiva.
Aemond pareceu não gostar de ver o irmão no trono, mas ajoelhou mesmo assim.
—Meu rei—Ele disse—Foi melhor do que poderíamos imaginar.
—Meu filho—Disse Alicent.—, então você conseguiu selar o pacto de casamento?
Seu filho assentiu.
—Fiz muito mais do só isso, mas sim—Ele respondeu—Tenho o prazer de anunciar que casarei com a filha mais velha de lorde Borros, Cassandra—Ela era a mais bonita e seu pai me garantiu que logo irá florear–Deu um sorriso travesso—E logo irei deflorá-la; embora não veja porque deixar suas irmãs esperando.
Aquilo tirou uma risada de Aegon, mas deixou os outros membros do conselho claramente constrangidos. Alicent também não havia gostado do que ouvira.
—Aemond—repreendeu Alicent—, vossa esposa é uma donzela e de uma casa de respeito, assim como as irmãs dela, tenha mais respeito ao falar delas.
O olho de safira de seu filho brilhou ao ouvir aquilo.
—Oh, mas eu respeito ambas igualmente, mãe—retorquiu Aemond—De fato, eu beijei cada uma delas igualmente—Ele passou dois dedos nos lábios, como se estivesse se lembrando da suavidade dos lábios das donzelas.—Lorde Borros garantiu que Maris era a mais esperta, mas não era nada bela como as irmãs e seu beijo era simples… Já Cassandra é mais do meu gosto; ficando vermelha e envergonhada, mas sei que ela gostou do que teve. E tem boas ancas, é claro, vou lhe meter um filho, logo, logo.
—Pelo Deuses…—Disse Tyland Lannister, ficando vermelho.
—Vai gostar dela mãe—Disse Aemond—Vai lhe dar muitos netinhos novos.
—Assim eu espero meu filho—Disse Alicent, desconfortável—E espero que sejam felizes juntos.
—Quem sabe—Ele disse—Talvez se Borros não tiver um filho, eu possa ser o novo lorde de Ponta Tempestade. Talvez a esposa dele morra com o bebê, diferente daquela buceta velha em Pedra do Dragão.
—Meu princípe—Disse Otto—Não deveria falar assim do vosso futuro sogro.
Aemond olhou para o avô com uma cara sem graça.
—Desculpe Lorde Mão, não sabia que estávamos brincando de cortesia.
—Irmão—Chamou Aegon, no alto do trono de espadas retorcidas—, eu o parabenizo pelo vosso casamento, mas você disse que havia conseguido algo muito melhor do que nós jamais imaginaríamos… O que você conseguiu?
Aemond sorriu e seu olho de safira brilhou.
—Matei Lucerys Strong—Revelou Aemond, no auge do orgulho—O bastardo veio reivindicar apoio e tentou voar para longe com o rabo entre as pernas quando não conseguiu nada.
Um silêncio tomou conta de todos na sala, conforme Aemond os chocava com suas palavras.
—Vhagar esmagou seu minúsculo dragão—Ele revelou—Eu vi o bastardo de Rhaenyra cair em desespero nas águas. Eu reivindiquei minha vingança.
Alicent empalideceu ao ouvir as palavras do filho.
Matou Lucerys?, ela pensou desesperada, como pode ser tão tolo, meu filho? Tão imprudente?
— Que a Mãe tenha misericórdia de todos nós.—Foi tudo que ela conseguiu dizer.
Sor Otto, por outro lado, não estava tão tomado desespero para se calar.
— Você só perdeu um olho — Ele disse alarmado. — Como pode ter ficado tão cego?
O rei, porém, não teve as mesmas preocupações deles.
—Ótimo—Ele disse, levantando-se do trono e descendo os degraus retorcidos, indo até Aemond.
Quando desceu do trono, foi até seu irmão e lhe tocou no ombro.
—Meu irmão é o verdadeiro sangue do dragão—Ele anunciou. —Esse foi um ótimo começo de guerra.
Aemond sorriu ao ser saudado.
—É apenas o começo—Ele disse—Vou matar os outros bastardos de Rhaenyra e vou tombar Daemon eu mesmo. Ele é a verdadeira ameaça aqui.
Otto apenas balançou a cabeça ao ouvir tudo aquilo.
—Vamos fazer um banquete em homenagem ao nome de meu irmão—Declarou o rei.—Hoje vamos celebrar a primeira morte de nossos inimigos; que seja o primeiro de vários!
Os servos se apressaram em fazer o que lhes era pedido, enquanto o rei e o princípe saíram rindo e falando o que fariam com seus inimigos. Os membros do conselho debateram entre si sobre a situação.
—Isso é terrível—Disse Tyland—Matar um enviado? O que o príncipe estava pensando?
O Septão Eustace ecoou o que ele disse.
—E um de seu próprio sangue?—Balançou a cabeça—A ira dos deuses cairá sobre nós por isso.
—Dos deuses?—Disse Otto—Eu temo a ira de Daemon e seus dragões! Só os deuses sabem o do que ele é capaz…
—Ele apenas derramou sangue bastardo—Tentou defender Jasper Wylde.—E o garoto arrancou o olho dele.
—E você acha que isso fará diferença para Rhaenyra?—Questinou Tyland, como se Jasper fosse louco.
Otto se virou para sua filha.
—Estou vendo que cuidou muito bem de seus filhos—Disse Otto, sempre deixavam de ser seus netos quando faziam algo que ele não gostava.
—Eu!? Eu não poderia imaginar que isso ia acontecer—Se defendeu—Eu imaginei que talvez os negros dessem o apoio Baratheon como certo. E, mesmo que fossem enviar alguém, pensei que iriam enviar Rhaenys! Eu nunca pensei…
—Devia ter pensado—Ele interrompeu—Você, depois de todo esse tempo, ainda não entendeu que devemos sempre pensar nas estratégias de nossos inimigos?
Ele já havia dado esse mesmo sermão antes, quando eles tramaram para matar Laenor e casar Rhaenyra com Aegon. Parecia ter dado certo… Até Rhaenyra e Daemon estragarem tudo se casando.
Mas como ela poderia saber? Como ela poderia imaginar que Rhaenyra e Daemon iriam ser tão caóticos? Por que apenas ela era a culpada por isso?
—Pai, eu faço o que posso—Se defendeu.—Eu fiz tudo o que podia pela minha família. Não sei o que mais você quer de mim.
—O que eu quero? Eu quero competência, Alicent. Competência. Quero que me prove que realmente está disposta a tudo por nossa causa.
—O que mais você quer que eu faça? Quer outros riscos quer que eu corra? Não sou uma montadora de dragões.
Seu pai apenas abanou a cabeça e saiu andando.
—Pai…—Ela tentou chamá-lo, mas ele a ignorou.
Os membros do conselho, perdidos com o choque da situação e a saída da Mão, ficaram incertos do que deveriam fazer.
—Andem—Disse Alicent—Não ouviram meu filho? Ele quer um banquete para comemorar a loucura de meu filho, andem logo e vão arrumar tudo!
Com reverências profundas e nervosas, os homens deixaram o local, mesmo que a maioria nem tivesse o que fazer para ajudar no banquete.
Apenas Larys, o pé torto, que em nenhum momento deu uma palavra sequer ou mostrou qualquer emoção, permaneceu no local. Depois que os homens se foram, ele mexeu a sua bengala e foi até a rainha.
—Lamento pelas notícias, Vossa Graça—Ele disse—Pelo menos seu filho achou uma esposa.
—De nada serve se ele nem sequer estiver vivo para casar e consumar o casamento.
Ele assentiu, dando-lhe um sorriso afetuoso.
—De fato.—Ele assentiu—E eu espero que o fato de meu primo ter entregado Harrenhal não tenha afetado a vossa confiança em mim.
Ela o analisou por um tempo. Não sabia se sequer podia confiar nele antes. Um homem disposto a matar o próprio pai e irmão para ter o que quer não é exatamente o tipo de pessoa em que ela iria querer depender sempre.
—Não, não se preocupe quanto a isso, meu Senhor—Respondeu—Imagino que ele não tinham muitas opções, era se renderem ou queimar.
—E imagino que o último incêndio já foi o bastante para apavorar a todos—Ele brincou, como se não fosse nada.
A Rainha não conseguiu achar graça naquele humor mórbido que tinha o lorde pé torto.
—É, eu imagino que não tenha dado boas lembranças—Disse—Exceto, é claro, para você.
Ele pareceu divertido com o que ela disse.
—Oh, perder meu pai e meu irmão, os quais eu amava muito, foi difícil… Mas sim, um castelo e um assento no conselho sempre podem amenizar a minha dor—Ele fez uma leve vénia com a cabeça—E, é claro, agradar Vossa graça e seu filho, sei que sabem ser generosos.
—Oh, sim—Ela disse, sem achar motivos para estender aquela conversa—Bom, se não tem nada para me informar, eu…
—De fato tenho—Ele respondeu, dando um sorriso gentil como um pedido de desculpas por não ter lhe dito antes—Mas temo que não vai gostar, são péssimas notícias.
—Para variar—Ela disse—Bom, pode me contar logo, nada é capaz de me aborrecer ou me assustar mais do que as notícias de Aemond.
—Oh, receio que essas podem ser bem ruins—Ele disse—Meu primo, o castelão de meu castelo, conseguiu me enviar alguns corvos sem o conhecimento do príncipe Daemon.
Aquilo a deixou em alerta.
—O que houve?
—Novas casas declararam apoio a causa negra—Revelou—Em especial, os Blackwood, temo que tenhamos perdido todo território; mas ainda temos os Bracken.
—Que não servem de nada se todo o resto pode facilmente acabar com ele.—Ela respondeu—Mais alguma coisa?
—Parece que algumas casas da Campina também estão aderindo a causa de Rhaenyra—Ele revelou—Pelo que soube, Costayne e Tarly não estão reunindo exércitos.
Ela não esperava ouvir aquilo.
—A Campina também? E os Tyrell, simplesmente vão permitir isso?
Ele assentiu.
—O castelão e a mãe regente do pequeno lorde Tyrell parecem ter decidido que a casa irá ficar neutra.
Aquilo não era nada bom.
—Não creio que possa ficar pior—Ela disse.
—Lamento, minha Rainha—Larys—Mas ainda existe mais uma coisa a ser dita…
—Pois fale de uma vez, sou eu quem terei que aguentar a fúria do rei após anunciá-las depois do estúpido banquete.
—É sobre o filho mais velho de Rhaenyra.
—Jacaerys?
Ele assentiu.
—Parece que ele está no Vale—Revelou—, ou pelo menos estava, pode já ter partido.
—Lady Jeyne lhe deu apoio—Não era uma pergunta—Isso não é realmente uma surpresa.
—Ele provavelmente está indo para o Norte, ao encontro de Lorde Cregan.
—O norte é longe—Disse a Rainha—Ele pode chegar rápido de dragão, e pode até convencer Lorde Cregan a apoiá-lo, mas demorará meses até ele reunir os vassalos e vir para o Sul.
Larys deu um sorriso triste.
—Então imagino que não foram notícias avassaladoras no fim?
—Não, não foram—Ela confirmou—A situação já está bem ruim por si só, elas apenas azedaram o que já estava amargo.
Apesar da frieza em sua voz, havia medo em seu coração.
Daemon e Rhaeyra vão querer vingança por isso, pensou. Ela temia ambos, mas sábia que Daemon poderia ser mais implacável e cruel que Rhaenyra. Um frio subiu pela sua espinha e alcançou sua nuca.
Agora, a guerra iria de fato começar, e o lado de seu filho já não estava mais em vantagem.
Fale com o autor