Notas iniciais
Alice deve correr para não ser pega, mas ainda assim é pega por outro, ela conhece novos seres.
Alice se assusta quando vê uma criatura e assim inseri este novo personagem em sua história, é curioso como ele é natural diante das situações mais banais, mas será realmente que esse estranho pássaro irá ajudá-la?

***



Cai para trás de volta no córrego quando dei de frente com aquele bicho, meu cabelo caiu sobre meu rosto tapando minha visão e logo me senti sendo levantada por mãozinhas frenéticas e apressadas.


- Limpa, limpa, limpa, limpa... – eles repetiam aquilo numa espécie de frenesi.


Quando finalmente pude vê-los, notei que eram pedrinhas com pés e mãos e cada uma possuía uma vassourinha com a qual tentavam me limpar.


- Não, não. Já estou limpa, quero ficar seca!


- Seca, seca, seca, seca... – eles começaram e me conduziram, contra minha vontade, de volta para o córrego, logo eu estava imersa nas águas novamente.


- Xô, xô, — a outra criatura, que observava tudo, dispersou as pedrinhas, enquanto eu saia da água – Como está menina?


Pelo menos ele sabia que era uma menina.


- Molhada, acho que eles não me entenderam bem...


- Nunca entendem. Belas asas estas tuas.


- Obrigada, mas acho que a direita está quebrada.


- Não há problema!


Ele assobiou alto e longo, e logo uma raposinha vermelha veio correndo e saltitando, ela começou a me cheirar.


- Conserte!


A raposa puxou minha asa enquanto empurrava o resto do meu corpo com a pata, senti uma dor horrível e não podia fazer mais que não fosse gritar.
Terminada a tortura ainda fiquei cambaleante de dor por uns instantes até recobrar todos os movimentos, inclusive os da asa direita, apesar de tudo aquele puxão foi bastante eficaz.


- Cuspa!


Eu não entendi aquela ordem até que a Raposa começou a tossir horrivelmente e vomitou uma boneca de louça pálida e de vestido e cabelos pretos. A bonequinha se jogou no córrego para se limpar da saliva de raposa, depois saiu das águas pegou um facão de açougue e dentro do bolso do vestido e matou a raposinha, mal esta deu seu ultimo suspiro a boneca cortou uma de suas patinhas, lavou-a e guardou no bolso junto ao facão.


Fiquei horrorizada.


- Se eu soubesse que isso ia acontecer teria fechado os olhos.


- De fato, mas nunca se sabe o que ela pode fazer – ele falou natural, como se estivesse indiferente ao fato da Raposa que o obedecera tão fielmente ter morrido diante dele.


A boneca se despediu numa reverencia e se jogou no córrego se deixando levar pela correnteza até sumir numa curva.


- E quem és tu?


- Eu sou O Dodô – ele se curvou numa reverencia tão grande que sua cabeça tocou seus pés (patas, no caso) – e qual a vossa graça?
Retribui a reverencia.


Eu já havia visto varias replicas de dodôs no Museu de História Natural em Londres, mas a placa dizia que eles estavam extintos.


- Alice! Eu achava que dodôs não eram negros.


- Sou um Dodô “Imperial”.


Dodô foi até a raposa morta e arrancou um dos dentes caninos dela que se despejava em sangue.


- Pena, ela era até bonita... – ele disse analisando o dente – Quer um? Dizem que dá sorte...


- Oh, não obrigada.


Ele veio andando até mim enquanto guardava o dente na boca, a principio achei que ele o tivesse engolido, mas podia-se vê-lo debaixo de sua língua quando falava.


- Pois bem, de onde vieres e para onde vais?


- Vim do meu jardim, mas não sei ao certo aonde vou.


- Ora, deve saber, senão para onde iria?


- Acho que para onde meus pés me guiassem...


- Ora, não é bom plano.


- E por que não?


- Certa vez deixei que meus pés me guiassem e cai de um precipício, por sorte lembrei-me que sabia voar antes de cair no chão.


“E dodôs sabem voar?” pensei comigo.


- Ora, certamente que sabem – ele falou como se lesse minha mente – senão eu não estaria aqui

.

Começamos a andar em direção a um denso bosque, mas logo voltamos ao lugar inicial, pois as pedrinhas vinham com uma multidão de criaturinhas que nos carregou de volta a margem do córrego.


- Corre, corre, corre, corre – elas repetiam e a multidão toda alvoroçada parou para beber das águas enquanto outros se recostavam no macio pêlo da raposinha, enquanto uns carcarás picavam o rosto do pobre carnívoro morto.


- Por que correm Bill?
Um lagartinho franzino e amarelo respondeu, parando de vez em quando para tomar fôlego

.

- Um deles se soltou, Dodô!... E correu atrás de todos nós... Foi horrível Dodô... Horrível


- Ora, acalme-se Bill, não pode ser tão grave.


Eu já ia me aproximar de Dodô para pergunta a quem se referiam quando fui atropelada por um grupo de patinhos quem me jogou ao chão

.

- Já chamaram o Pardal?


- Pardal morreu... Uma cobra d’água... O devorou.


- Pobre Pardal, é realmente uma pena... – Dodô ficou uns segundos de olhos fechados, de certo lembrando o Pardal, mas era certo que estava insensível quanto ao fato de sua morte.


\"Bem feito para o Pardal\" pensei, mas desta vez Dodô não havia lido minha mente


- E o Rato?


- Também.


- Ora é quase um genocídio! Quem sobra?


- Sobra o Gato... Mas ele não vai... prendê-lo.


- De fato, o Gato não iria prendê-lo, quem prende então?


- Não prende – disse Bill com certo pesar na voz e agarrou as penas do pescoço de Dodô com uma enorme aflição — Oh, Dodô vamos todos morrer! Morreremos todos Dodô!


- Acalme-se Bill! – Dodô se desvencilhou do lagarto. – Daremos um jeito!


- E quem é esta?


Eu finalmente tinha conseguido me aproximar para ouvir o que eles diziam.


- Esta é Alice! Alice este é Bill, o lagarto.


Pelo menos não era um lagarto que se chamava Lagarto.


- É ele! – uma pata gritou aflita


- Corre, corre, corre, corre — as pedrinhas começaram de novo.


- Quem é? – perguntei, mas todos já tinham começado a correr em todas as direções gritando numa cacofonia frenética. Comecei a correr também.


- Cão, cão, cão, cão! – as pedrinhas gritavam.


Corri até uma caverna, onde fiquei presa numa teia de aranha.


- Comida, finalmente.


A multidão passou correndo do lado de fora da caverna, pude ver Dodô correndo esbaforido e depois um cão bem marrom agitando o rabo e latindo no encalço deles.


A aranha apareceu e começou a subir na teia.


- Uma menina de asas, que assombroso, diga-me antes que eu a devore: és parente da Sophie de asas brancas?


- Se eu disser que sim a senhora me solta?


- Se disser que não também não soltaria.


- Desce Aranha! – uma voz masculina falou da entrada da caverna.


- Quem manda?!- disse a Aranha irritada – Surja covarde!


- Mas você não vês que já me posto aqui na sua frente?


- Oh, Gato, é o senhor.


Eu não via nada, apenas a Aranha fazer uma reverencia para o ar e ainda que um gato estivesse lá seria absurdo chamá-lo senhor.


De repente ela começou a ser devorada pelo nada, gritou muito até finalmente ser comida por completa.


A teia da Aranha foi cortada pelo ar, fosse o que fosse aquilo havia me libertado e estava invisível.


Até que foi surgindo aos pouco, primeiro como um leve borrão roxo mesclado de rosa, nem acabou de se formar borrão e perguntou, ainda que sem boca.


- Quem vos sois?


- Alice... E quem és tu?


- Ora, sou o Gato

Notas finais
Que é este Gato tão estranho e distinto que o chamam de "Senhor"?
Por que ele não aparece por completo e se mostra?
Será que é realmente um gato?