Alice in Apocalypse
4 Chapter 4
Notas iniciais
Charlie dirige em direção a ‘grande fortaleza’. Estamos há apenas algumas horas na estrada e já me sinto exausta, desconfortável por permanecer na mesma posição. Fizemos apenas uma parada para ir ao ‘banheiro’.
“Charlie,” viro-me para ele “preciso muito ir ao banheiro! Pelo amor, não vou ser morta apenas por urinar!”
“Alice, você não sabe o que tem no meio desse mato, qualquer zumbi pode se esconder lá.”
“Mas que droga, eu só quero fazer xixi!”
Depois de tanto implorar pude, finalmente, descer do carro e fazer minhas necessidades. Porém, agora, não nos resta nada mais a fazer, a não ser seguir em silêncio e, nesse silêncio, começo a relembrar de minha vida. Minha vida de verdade. Quando eu tinha uma casa, uma casa linda em um bairro tranquilo e cercado de vizinhos amigáveis... Relembro de quando eu tinha um bom emprego, um bom emprego que mesmo não me agradando, dava para nos sustentar, eu e Luke. Ah, Luke... Meu pequeno. Lembro-me de seus olhos azul-marinho todas as noites. Ainda consigo sentir seus minúsculos bracinhos em volta de minha cintura, ouço seu riso, um riso inocente e puro, como o de um anjo. Todos os dias, quando acordo, culpo-me por tê-lo perdido. Culpo-me por tê-lo deixado em casa, por não estar com ele quando tudo isso aconteceu. Eu tentei, procurei-o, mas não o encontrei, e isso dói, dói como mil facas atravessando meu coração. Algo me diz que um dia irei encontrá-lo. Pode não ser nessa vida, mas eu vou.
Antes de me afundar na mágoa e na saudade, Charlie me tira de meus pensamentos.
“Temos um mapa e,” ele abre um mapa e só agora percebo que o carro está parado, encostado na beira da estrada “pelo que diz aqui, estamos perto de Downtown, mas acredito que seja difícil passar por lá. A estrada era totalmente lotada, há riscos de encontrarmos muitos carros abandonados no meio do caminho.”
“Nós podemos trocar o carro. Aqui no mapa diz que há um posto de gasolina logo depois de Downtown, podemos pegar um outro carro, encher o tanque e encontrar um lugar para passar a noite.”
“Mas você não acha que...”
“Charlie, por favor. Precisamos descansar, colocar as ideias no lugar.”
“Tudo bem, me ajude a esvaziar o carro então.”
Observo-o abrir a porta e descer do carro, e por esses breves segundos, realmente reparo nele. Seu cabelo preto, tão preto que quando na luz, pode ser confundido com o azul-marinho de seus olhos. Seu rosto juvenil, seus lábios carnudos e naturalmente rosados. Seus cílios longos e curvados que acariciam as maçãs de seu rosto cada vez que fecha os olhos. Ele é bonito, sem dúvidas.
“E aí princesa? Não vai ajudar? A ideia foi sua!”
Saio do carro, coloco minha mochila nas costas e pego a bolsa com os mantimentos, enquanto Charlie leva sua mochila e as cobertas.
“Dá para ver a estrada daqui, logo ali na frente” ele diz, e sigo seu olhar.
A estrada está lotada de carros abandonados. A maioria com vidros quebrados e com peças faltando. Andamos em silêncio. A única coisa que consigo ouvir é o som de nossos passos, nada mais.
“Engraçado... As vezes sinto que estou sozinho” diz Charlie “Sabe, porque você simplesmente não diz nada.”
“Você quer conversar?”
“Seria uma boa,” ele resmunga enquanto chuta uma pedrinha “só para não ficarmos nesse clima pesado...”
“Ok, me conte sobre sua vida então... Antes dessa coisa toda acontecer.”
“Minha vida... Eu era casado. Ou quase... Na verdade, acho que só usava a aliança para enfeitar a mão” ele dá de ombros “A gente não sentia mais todo aquele amor do começo...”
“Isso é normal, acontece. Vocês tinham filhos?”
“Tivemos uma filha, Valentina, mas ela morreu pouco depois de nascer.” ele diz em tom de tristeza.
“Sinto muito.”
“Não sinta. Na verdade acho que foi até bom, sabe... Nenhuma criança merece estar no meio dessa coisa toda. Acredito que não conseguiria com ela aqui.”
“Eu tenho um filho... Luke.”
“Ainda está vivo?” Charlie me olha com curiosidade.
“Eu o perdi... Quer dizer, quando tudo isso aconteceu. Ele estava em casa e eu no trabalho.”
“Você acha que ele sobreviveu?”
“Sinceramente... Acho sim. Quer dizer, acho que eu saberia se ele estivesse morto. Toda mãe sabe. Toda mãe sente. Algo me diz que minhas respostas estão naquela droga de fortaleza.”
“Por esse motivo está indo pra lá? Para tentar encontrar seu filho?”
“Esse é um dos motivos, mas...”
Antes de concluir minha linha de raciocínio, um barulho nos chama a atenção. Algo como um grito. Estridente e feminino, sem dúvidas.
“Mas que merda...”
Charlie acelera o passo e joga nossas coisas no banco de trás de um dos carros abandonados.
“Deixe tudo aqui, e verifique o carro. Eu vou ver o que foi isso.”
Ele corre antes mesmo de eu responder. Entro no carro e jogo as bolsas no banco. Busco a chave e ligo o carro. O tanque está pela metade mas dá para chegar até o próximo posto. Olho no retrovisor tentando encontrar Charlie mas não o vejo. Empunho minhas adagas e tiro a pistola da mochila, colocando-a por dentro da calça na altura da cintura. Desço do carro e olho em volta, ainda procurando por Charlie.
“Droga!”
Sigo o caminho que ele seguiu, pulando a mureta que separa a estrada da floresta.
“Só não me diga que entrou aí, por favor...” digo para mim mesma. Suspiro em frustração e começo a entrar na mata, mas algo me impede. Um vulto, no meio das árvores, chama minha atenção. Seguro as adagas mais firme nas mãos, alerta a qualquer movimento. Ouço vozes e reconheço a de Charlie. Mas sua voz vem acompanhada de mais duas. Um homem e uma mulher. Os três saem do meio das árvores e os olhos de Charlie encontram os meus.
Solto a respiração em alívio. “Você” aponto a adaga para seu peito “quase me matou de susto!”
Sua face adquire uma expressão surpresa. “Quase te matei te susto?”
“Claro! Primeiro ouço um grito, depois você simplesmente me larga na estrada e some no meio da mata. Você tem algum problema?”
“A culpa foi minha, desculpe.” A moça baixinha de cabelos ruivos esvoaçantes se pronuncia. “Eu que gritei. Me assustei com um dos andarilhos.”
“Anda...?”
“Alice!” me interrompe Charlie “Essa é Abby e esse,” aponta para o rapaz alto e magrelo “é Matt. Eles estavam perdidos na floresta.”
“Como sobreviveram até agora?” olhos para os dois. A garota é bem baixinha, com olhos verdes enormes e arregalados. O garoto é alto, porém magrelo, com cabelos cacheados que tapam seus olhos. Ambos carregam mochilas, e o garoto, Matt, tem um revólver no cós da calça. Aponto para o revólver “Aposto que nem sabe usar isso.”
“Não, não sei... Nos escondemos quando tudo isso aconteceu, achamos que os militares iriam nos ajudar, nos salvar... Mas eles não fizeram nada.” desabafa o magrelo.
Olho para Charlie.
“E vocês estão indo para onde?”
“Fortress. A Grande Fortaleza Militar.”
“Grande Fortaleza...? Espera, como sabem desse lugar?”
“Eles estão mandando transmissões nos rádios. Ouvimos em um dos carros abandonados. Dizem que lá todos estão em segurança, há alimento e abrigo. Eles resgataram algumas crianças, e agora, estão procurando por mais sobreviventes.”
“Charlie, não me diga que...”
“Sim, eles fizeram isso.” diz ele, quase como lendo meus pensamentos.
“Vocês... sabem se defender, pelo menos?”
“Olha, não estamos pedindo para vocês serem nossos guarda-costas. Só queremos uma carona. Eu vi vocês, no carro. Estamos tentando achar alguém há dias. Pensamos ter encontrado alguém, em um mercado na beira da estrada... Estamos na floresta por dias.”
“Eram vocês? Nós estávamos no mercado. Vocês que bateram à porta!”
“O quê? Nós... Sim! Achávamos que... Por que não abriram a porta?”
“Hoje em dia não tem mais essa de bater na porta. Achamos que eram zumbis.”
“Enfim,” Charlie interrompe o falatório. “vocês querem uma carona, certo?”
“Sim, se vocês aceitarem, claro.”
“Por mim tudo bem” diz Charlie dando de ombros. “Mas vocês têm que saber que não vamos nos responsabilizar por vocês.”
“Tudo bem, tudo bem. Muito obrigado, obrigado.”
Dou de ombros e ando de volta para o carro. Ouço Charlie ao meu encalço.
“Você acha que isso foi uma boa ideia?” diz ele.
“Não sei... Mas ele disse que resgataram crianças. Charlie, talvez Luke... Talvez ele... Esteja vivo.”
“Talvez, Alice. Talvez.”
E entramos no carro. Agora, com novos companheiros e novos objetivos.
Fale com o autor