Alice in Apocalypse
3 Chapter 3
A noite se arrasta e permaneço apavorada, enrolada na coberta ouvindo os sons medonhos da madrugada. Charlie dorme serenamente ao meu lado, roncando baixo. Percebo que ele tem leves tremores, provavelmente devido ao frio. Levanto-me da cama improvisada e coloco a coberta que ele cedeu para mim sobre seu corpo. Pego as adagas e a pistola, e vou até a frente da loja. Sinto uma falta repentina de álcool. Um pouco agora seria muito bem-vindo, para relaxar e esquecer os problemas.
Procuro em todos os corredores e finalmente encontro algo. Uma garrafa de alguma vodca barata. Abro-a e tomo no gargalo. A sensação familiar de queimação na garganta me atinge e, depois de muito tempo, eu sorrio. Sento-me no chão, perto da entrada para os fundos e derramo garganta a baixo metade da garrafa. Penso sobre todas as merdas que aconteceram em minha vida antes disso tudo começar, e por esse motivo, bebo mais. Quando começo a entrar em um leve estado de inconsciência, levanto-me e caminho de volta para minha adorável cama. Porém, algo me impede de seguir meu caminho. Uma batida na porta. A porta sem tranca. Será possível? Os malditos sabem bater à porta agora?
Empunhando as adagas, tento me aproximar da porta sem pisar em nenhuma das caixas que estão espalhadas pelo chão, mas antes de sequer levantar o pé do chão, sou puxada pelos cotovelos e meu corpo vai de encontro ao peitoral musculoso de Charlie.
“Fazendo loucuras novamente, senhorita '‘eles são cegos’'?”
Reviro os olhos.
“Ouvi batidas. Na porta”
“Querida, não estamos brincando de casinha. Se alguém bate na porta, você não abre, você tranca.”
“Mas…”
“Mas nada. Volte para lá, vou tentar reforçar o bloqueio na passagem da porta”
Sem olhar para ele, sigo o caminho que antes fora interrompido. Coloco as adagas ao lado da cama e a pistola debaixo do travesseiro, vulgo, minha mochila. Deito e tento me aconchegar o máximo possível. Ouço Charlie se deitar e poucos segundos depois sinto a coberta sendo colocada novamente sobre mim.
“Não, obrigada. Não estou mais com frio.”
“Tudo bem então...”
Charlie se cobre e vira para o outro lado. Viro para o lado oposto e rapidamente pego no sono.
“Ei, Alice. Acorde.”
Acordo no susto e pego a pistola, mirando em algum ponto que meus olhos embaçados pelo sono não conseguem focar.
“Ei, ei! Calma. Sou só eu.”
Quando consigo finalmente focar a visão, vejo Charlie com os braços erguidos e uma cara de espanto. Volto a respirar e massageio minhas têmporas.
“Droga, minha cabeça está prestes a explodir”
“Acho que tem algum medicamento no mercado. Quer que eu procure para você?”
Apenas concordo com a cabeça tentando evitar as pontadas de dor, mas, mesmo assim, elas me atingem. Charlie volta alguns minutos depois com alguns comprimidos. Pego minha garrafa, agora já quase vazia, de água e engulo os comprimidos de uma só vez. Charlie senta-se ao meu lado no chão.
“O que faremos agora?”
“Como assim o que faremos agora? Tomamos café? Lemos um jornal?”
Ele revira os olhos. “Você entendeu o que quis dizer. Continuamos aqui ou procuramos outro lugar?”
“Acho que devíamos tentar a ‘fortaleza das autoridades’” disse me sentando e encarando-o com uma das sobrancelhas erguidas.
“Está ficando louca? Seremos mortos antes mesmo de chegar lá! Se não por eles, mas pelos zumbis.”
“Acho que seria uma boa ideia. Pense bem. Lá tem comida, abrigo e segurança. E somos apenas duas pessoas.”
“Você não entende, não é? Eles nunca permitirão. Nem mesmo pensarão no assunto.”
“O que você quer então? Viver fugindo?”
“Você quer arriscar a vida para viver junto com um bando de merdas?”
“Eu tenho uma ideia, ok? Se você, pelo menos, tentasse escutar”
“Tudo bem então, senhorita inteligência, conte-me seu plano.”
“Vai se foder, ok? Estou apenas tentando ajudar!”
Ele resmunga mas não fala nada, apenas me encara aguardando uma explicação.
“Tem um posto de gasolina ali na frente...”
“Ah, tem? Não me diga!”
“Cale a boca.” dou-lhe um tapa na coxa “Como ia dizendo... Tem um posto de gasolina ali na frente, e ontem eu percebi que há alguns carros abandonados por ali...”
“Carros?”
“Sim, carros, sabe? Aqueles que andam sobre quatro rodas.”
Charlie revira os olhos.
“Estou começando a gostar desse sua ideia...”
“Olha, acho que podemos pelo menos tentar, entende? Se não nos aceitarem lá, podemos pegar nosso carrinho e voltar para cá.”
Charlie viaja em seus pensamentos por alguns segundos e me encara com um sorriso brincando em seus lábios.
“Até que não é má ideia...”
“Eu sei, obrigada.”
“E você pretende começar essa '‘aventura’' quando?”
“Hoje.”
“Hoje?! Mas...”
“Nós não temos tempo para desperdiçar assim. Ou você prefere passar mais alguns dias aqui e acabar com a comida, água e munição? Se partirmos hoje poderemos nos virar mais para frente.”
Ele concorda com a cabeça e se levanta. Faço o mesmo e pego as pistolas e as adagas, apenas por precaução.
“Vamos achar um carro, pegar tudo o que precisamos e dar o fora daqui.” diz Charlie, agora já se firmando na ideia.
Ele empunha o facão e eu as adagas, mas, antes de sairmos, dou uma boa observada em volta.
“Ei, ei! Já sei! Invés de nos arriscarmos indo e voltando para colocar as coisas no carro, podemos trazer ele aqui pra dentro.”
“Trazê-lo para dentro?”
“Sim! Olha,” aponto para a entrada com portas de vidro “um carro passa facilmente por essa entrada. É só arrastarmos algumas dessas prateleiras lá para trás e entrar com o carro.”
“Tudo bem, vamos lá.”
As prateleiras na frente do mini supermercado não são muito grandes, por isso imagino serem mais fáceis de arrastar. Charlie em uma ponta e eu na outra.
“Pronta?”
“Pronta.”
Empurramos. A prateleira move-se milimetricamente, e, alguns minutos depois, ela já está afastada da porta o suficiente para a entrada do carro. Fizemos isso com todas as prateleiras que estavam na frente, e quando terminamos, Charlie cai cansado no chão.
“Ah, vamos lá fracote! Já se cansou apenas arrastando meras prateleiras?” debocho dele, dando um leve chute em seu joelho.
“Fracote? Ah, garota... Você está mexendo com o perigo”
Ele se levanta mais rápido do que meus olhos conseguem acompanhar e me levanta em seus braços, me jogando sobre seus ombros.
“Charlie! Charlie, Charlie, Charlie! Me solta, me põe no chão!”
Meu coração dispara e sinto minha garganta se fechar. Desde o que aconteceu comigo durante o treinamento do exército, nenhum homem me tocou. Nunca. Nem da forma mais inocente. Qualquer simples contato me deixa no ápice de meus sentimentos.
“Por favor! Por favor, me solte!”
Charlie ri. Ele não entende.
“Calma boneca, relaxa, só estou brincando!” diz me colocando no chão.
“Não faça mais isso, escutou? Nunca mais!”
Viro-me e vou para o lado de fora.
Enquanto procuramos por algum carro que ainda funcione, Charlie não toca mais no assunto, passa o resto da manhã e parte da tarde toda em silêncio.
Quando finalmente encontramos alguma coisa, Charlie o liga e estaciona o carro dentro da nossa '‘casa temporária’'. É um jeep velho, cheio de lama e pó. Mas funciona.
Tiramos os restos de comida e lixo de dentro do carro, e começamos a abastecê-lo com comida e água.
Volto para os fundos do mercadinho enquanto Charlie abastece o carro e pego minha mochila, a bolsa com alguns dos alimentos e duas cobertas, para evitar passar frio de noite. Coloco tudo dentro do carro e Charlie também coloca as coisas dele. Abro a porta do motorista e Charlie coça a garganta.
“Sinto lhe dizer, mas... Quem vai dirigir sou eu.”
“Mas...”
“Não, não, sem mas!”
Bato a porta e bufando, contorno o carro, entrando do lado do passageiro.
Charlie entra no carro e se acomoda.
“Pronta de novo?”
“Pronta.”
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