A porta do ônibus se abre com um estrondo e um zumbi entra. Charlie é pego desprevenido, portanto, está desarmado. Miro uma das pistolas na cabeça do zumbi e atiro, seu sangue fétido respingando no rosto de Charlie.

Ouço mais zumbis vindo e Charlie ouve também.

“Mas que porra...”

“Foi a arma. O barulho atrai mais deles.” diz Charlie jogando tudo de volta para a mochila. “Temos que sair daqui e evitar usar armas, ok? Você é boa com facas?”

Confirmo com a cabeça e coloco tudo na mochila também. Empunho as adagas e olho para Charlie.

Ok, agora fui realmente surpreendida. Ele tem em mãos um facão.

Charlie vira-se para mim e encara as adagas.

“Adagas. Muito bem pensado... Bom, vamos lá.”

Charlie vai na frente e antes de sequer pisar do lado de fora, um zumbi o surpreende, mas ele é mais rápido e em um único movimento a cabeça do zumbi tomba no chão.

“Vamos Alice, rápido.”

Corro para a porta e o sigo

A neblina debilita um pouco a visão na estrada, mas não podemos arriscar usar a lanterna. Charlie fica atento a qualquer movimento.

“Há alguns metros têm um mini supermercado na beira da estrada. A gente pode tentar se esconder lá.” diz ele.

“Mas e o ônibus? Eram tantos deles assim?”

“A porta do ônibus emperrou, aquilo já deve estar enfestado de malditos.”

“Tudo bem, vamos tentar o mercado”

“Preciso que você fique atenta, essa neblina não está ajudando muito.”

Concordo com a cabeça e giro, verificando se nenhum deles está nos seguindo. Nada. Olho para o ônibus e vejo que vários zumbis já o invadiram.

Seguimos por mais uns vinte ou trinta metros e o avistamos.

O mini supermercado encontra-se nos fundos de um posto de gasolina, bem perto de onde começa a mata. Charlie corre os olhos em busca de algum zumbi perto do local mas não encontra nada.

Entramos no mini supermercado, o sino da porta tintila e Charlie logo o arranca, para evitar chamar a atenção.

“Vou ver se tem alguma porta nos fundos, fique de olho aqui.” diz ele antes de sumir para os fundos da loja.

Enquanto Charlie vasculha a loja, vou para o lado de fora. Perto do posto há muitas motos e alguns carros, provavelmente abandonados durante alguma fuga. Isso pode nos servir de algo. Distraída com o que seria possível fazer com as motos, não percebo o zumbi se aproximando, apenas sinto seu cheiro e quando me viro encaro seus olhos negros e opacos bem de perto. Não me movo e prendo a respiração, apenas aperto as adagas mais firmemente em minhas mãos. O maldito fareja o ar tentando encontrar algo. Seu rosto se aproxima mais do meu e ele inclina a cabeça suavemente para o lado ainda farejando. Com o canto dos olhos vejo que Charlie está na porta, pronto para atacar o zumbi. Tendo impedi-lo, mas ele levanta o facão o crava no crânio do maldito.

Quando o zumbi cai aos meus pés eu volto a respirar.

“Mas que porra foi essa? Está tentando se matar?” ele grita.

“Pare de gritar, infernos, vai chamar mais deles!”

Empurro-o para dentro da loja, procuro por alguma chave embaixo de algum tapete mas não encontro nada. Procuro pelo extintor e busco a chave grudada embaixo do mesmo. Quando a encontro fecho a porta e a tranco.

“Vai me explicar agora que merda foi aquela?”

“Eles são cegos. Nos acham pelo olfato.”

“Ah, sim, você quase se matou para '‘estudar’' os zumbis? Você é louca?”

“Encontrou alguma coisa lá atrás?”

Ele bufa. “A loja tem um gerador, por isso algumas das luzes ainda estão acesas. Tem uma porta nos fundos que dá direto para a floresta.”

“Dá pra passar a noite?”

“Acredito que sim. Se os malditos não souberem abrir portas estamos seguros.”

“Como assim?”

“A porta dos fundos não tem tranca, consegui empurrar algumas caixas para bloquear a entrada, mas não sei se é o suficiente.”

“Bem, como eu disse, eles são cegos, não acho que eles seriam capazes de abrir a porta e entrar.”

“Olhando por esse lado... Vamos ver se achamos algo de útil aqui.”

Andamos pelo mini supermercado em busca de alguma coisa, mas tudo está revirado e a maioria dos alimentos já foram levados.

“Podemos pegar apenas os enlatados e alguns biscoitos. Duram mais. Procure alguma mochila no corredor ao lado.”

Sigo para o outro corredor e procuro por alguma mochila, mas encontro apenas uma bolsa de viagem com uma alça longa. Deve servir.

Quando volto para o corredor em que Charlie está me assusto ao notar que o mesmo não se encontra mais lá. Se eu gritar posso chamar a atenção de um possível zumbi.

Ouço um barulho há uns dois corredores de distância e empunho novamente as adagas. Ando lentamente até lá, sempre bem atenta a qualquer outro ruído. Quando chego ao corredor me deparo com Charlie seminu, procurando por roupas no setor masculino.

“Uou.” exclamo. Seu corpo é deliciosamente bem moldado. Suas pernas bem torneadas me deixam hipnotizada.

“É... tá aqui... a mochila.” tento ao máximo não olhar para seu corpo. Tento mesmo. Mas não dá muito certo.

Charlie veste-se e vem em minha direção.

“Ei, Alice... Acorde” diz interrompendo meus devaneios.

“Oi! Oi, tô aqui, oi.”

“Vamos pegar as coisas e arrumar um lugar para dormir.”

Voltamos para o corredor de alimentos e pegamos alguns enlatados, pacotes de biscoitos, refrigerantes e barras de cereais.

“Acredito que você queira algumas roupas também. Jogue as suas fora e pegue algumas no corredor cinco.”

Concordo brevemente e volto para pegar minha mochila. Quando chego ao corredor cinco, solto um suspiro de alívio ao notar que há roupas íntimas. Tiro as roupas velhas e imundas de minha mochila e jogo-as em um canto qualquer. Pego algumas regatas, uma camisa de mangas compridas e calças.

Sigo para a seção de roupas íntimas e pego o máximo que cabe em minha mochila.

Olhos para os lados para me certificar que estou sozinha e tiro a blusa, trocando-a por uma regata preta. Retiro minhas botas e a calça, trocando-a também. Termino de amarrar os cadarços e volto para onde Charlie estava.

“Acho que aqui deve ter algum colchonete ou saco de dormir, podemos dormir na parte de trás da loja, por segurança. Se ouvirmos algo, corremos para cá, ok?”

“Tudo bem.”

Andamos pelo mercadinho em busca dos colchonetes mas achamos apenas cobertas. Dei a ideia de juntarmos algumas e as colocarmos uma em cima da outra.

Pegamos as cobertas e levamos para os fundos da loja. Era frio por ser perto de um enorme refrigerador, mas era ou isso ou a frente da loja.

Montei minha “cama” e deixei que Charlie montasse a dele.

“Acho melhor desligarmos o gerador, os malditos estão perto demais.”

“Deixe só eu achar minha lanterna”

Procuro minha lanterna dentro da mochila, e depois de um pequeno esforço, a encontro.

“Pode desligar”

Assim que Charlie desliga o gerador eu ascendo a lanterna.

“Tudo bem por enquanto?”

“Tudo ótimo, tirando o frio.”

Ouço ele se mexer e depois sinto o toque da coberta sobre meu corpo.

“Pode ficar.”

“Obrigada” digo me enfiando ainda mais entre a coberta.

“Desculpe pelo que eu disse no ônibus. Boa noite, Alice.”

“Boa noite, Charlie.”