O vento frio da noite bate em meu rosto enquanto corro à procura de um esconderijo. Um maldito segue ao meu encalço, chacoalhando um dos braços que permanece ligado ao corpo por poucos pedaços de pele morta. Ouço o som oco de seus passos em um caminhar apressado. Não desperdice munição, não desperdice munição. Se meu braço direito estivesse em seu perfeito estado, faria um belo trabalho com uma de minhas adagas. Continuo a correr até estar a uma distância segura do maldito.

De longe, meus olhos alcançam um ônibus abandonado no meio da estrada. Destravo a pistola e coloco o dedo no gatilho. Alcanço o ônibus e empurro a porta aberta, fechando-a logo em seguida. Vasculho em busca de alguma movimentação estranha, mas não vejo nada. Solto a respiração e sento em um dos bancos do ônibus sempre vigiando a porta. Abro minha pequena mochila, tiro dali a garrafa que contém o pouco que me resta de água e apenas molho a língua. Meu estômago ronca de fome e sei que está na hora de procurar alimento, porém, a dor e o cansaço tomam conta do meu corpo e acabo caindo em um sono pesado.

Sinto algo gelado em minha têmpora e desperto em um pulo, agarrando minha pistola. Meus olhos, embaçados pelo sono, focam em um par de olhos azuis tão claros, que podem ser confundidos com prata.

“Bom dia boneca, teve um bom sonho?”

Tudo bem, vamos checar minhas opções. Chutar suas bolas e sair correndo, porém, correr o risco de encontrar malditos e tê-los que enfrentar com pouca munição, ou, permanecer e tentar ter uma conversa pacífica.

No três eu corro.

Relaxo o resto do corpo e concentro toda a tensão na minha perna direita. Chuto com todas as minhas forças, mas meu golpe é facilmente aparado por uma de suas mãos. Eu o encaro.

“Valente você, em boneca? Que tal a gente conversar?”

“Se você soltar minha perna eu posso até pensar no assunto”

Ele solta minha perna e se agacha em minha frente.

“Quem é você?” pergunta.

“Eu é que deveria fazer essa pergunta! Invade a droga do meu ônibus, me acorda com toda...”

“Opa, opa! Seu ônibus? Como assim ele é seu?”

“Eu o encontrei. Ele é meu.”

“Tecnicamente falando, ele é meu. Eu o encontrei primeiro, boneca”

“Olha aqui, querido, seu nome não está escrito em lugar algum! Como poderia saber que alguém já o havia encontrado?”

Ele suspirou.

“Eu não encontrei outro lugar, estava de noite, eu estava sendo seguida e estava cansada. Se faz tanta questão dessa merda de ônibus, eu vou embora.”

Peguei minha mochila e me levantei pronta para sair, porém, ele segurou meu braço e me jogou de volta no banco.

“Olha, só me garanta que você não vai me matar durante a noite. É… Você pode ficar.”

“Achava que o ônibus era apenas seu” disse dando um sorriso irônico.

“Desculpe, ok? Mas hoje em dia é um pouco difícil confiar nas pessoas. Na verdade sempre foi.”

Assim que ele disse isso um turbilhão de lembranças invadiu minha mente, cegando meus olhos. Mas durou apenas alguns segundos.

“Meu nome é Charlie. Você é…?”

“Alice. Sou a Alice.”

“Prazer, Alice.” ele acenou com a cabeça “A julgar por esse barulho super estranho vindo da sua barriga, creio que você ainda não comeu nada.”

“Muito correta essa sua hipótese. Não, eu não comi nada. Estava um pouco ocupada fugindo de zumbis.” Ele riu.

“Bem, eu consegui alguma coisa essa noite, se você quiser…”

Ele abriu sua mochila e tirou pacotes de salgadinhos, salsichas enlatadas e sopas de ervilha.

“Bem, eu fico com os salgadinhos” disse puxando um pacote de suas mãos.

“O que uma moça como você faz perdida no meio de um apocalipse?” pergunta ele comendo uma das salsichas da lata.

“Acho que é meio óbvio… Quando tudo isso começou a acontecer eu saí correndo.”

“E como tem sobrevivido?”

“Exército.”

“Entendo…”

“E você? Como tem sobrevivido?” paro de atacar os salgadinhos e o encaro.

“Bem, eu era do exército. E se quer saber a verdade, eu já sabia da merda toda antes mesmo de acontecer.”

“Espera, espera. Então é verdade? Isso tudo, essa merda toda é culpa do governo?”

“Mais ou menos isso… A culpa é na real dos cientistas. Mas também é do governo por autorizar os cientistas a fazerem esses experimentos.”

“E como você sabia de tudo isso?”

“O governo queria total segurança. Ou seja, eles sabiam que ia dar merda.”

Eu sabia. Desde o começo.

“Se você sabia, por que ainda está aqui? Você bem podia estar em alguma colina agora, salvo. Em segurança.”

“Nunca que eu aguentaria aqueles filhos da puta. A parte da colina, nem é tão verdade assim… Mas que tem um lugar seguro, tem.”

“Tudo bem, você vai me contar tudo o que sabe. E agora.”

“Calma boneca, relaxe aí.” Ele se recosta no banco e cruza as pernas. E que pernas. “Ok, vamos lá. Do começo. Acredito que você seja inteligente o suficiente para saber que eles não jogariam a merda no ventilador sem ter um lugar seguro. Eles estão pouco se fodendo para a população, eles querem salvar a própria pele.”

Suspirei. “Claro que querem.”

“Deixe-me continuar, ok?” Assenti. “Depois de jogarem a merda e fugirem, eles dispensaram a maioria dos soldados. Claro, muita gente, a comida acaba rápido. Eles nos mandaram procurar outro abrigo, e como não tínhamos nada, andamos por dias. Como eu nunca me dei muito bem com ninguém de lá, me virei por conta própria e achei um abrigo. Menos de vinte e quatro horas depois, eles mandaram matar todos os soldados. Achavam que íamos tentar invadir o refúgio precioso deles.”

“Uau, que grande… Merda.”

“Quero entender como você não sabia de tudo isso. Era do exército, não?”

“É… Sim, era. Porém eles não recrutavam mais mulheres para missões como essa.”

“Ah, sim… Haviam boatos que isso aconteceu por conta de uma mulher. Parece que foi estuprada e quase morta por um dos tenentes. Mas acredito que não seja verdade.”

Minha garganta se fecha. Boatos. Boatos. Boatos. Isso tudo é uma grande merda. Que droga. Droga.

“Alice…?”

“Boatos… São uma droga, não?” começo a suar frio.

“Ei… Espere aí. Você sabe alguma coisa sobre isso, não sabe? Quer dizer, isso é meio que recente. É verdade não é? Nossa… Ela devia ser gostosa. Acho que faria o mesmo…”

Minha raiva subiu e queimou em minha garganta.

“Você é um grande idiota. Imbecil.”

Levanto e me sento em um dos bancos mais distantes dele. Claro, como você é burra Alice. Achava mesmo que ele seria diferente? Bufei. Algum tempo depois, Charlie levanta a cabeça e me procura com os olhos. Posso ver que ele está arrependido, se perguntando o que fez de tão errado. Reviro os olhos e desvio o olhar.

Quando a noite já está pra chegar, me levanto e pego minha mochila. Abro-a e retiro todo o equipamento. Dois pares de adagas, as pistolas e algumas facas. Arrumo as pistolas no coldre e as adagas. Coloco meu cabelo curto atrás das orelhas e arrumo minhas botas.

“Era você né… Me desculpe, ok? Falei merda. Eu...”

“Sério, não fala mais disso, não quero discutir com vo...”

Um barulho estrondoso me interrompe. Unhas arranham a porta do ônibus.

Que a noite comece.