Alianças de Sangue e Ferro

19 Florescendo com responsabilidade


A atmosfera no quarto era sufocante, carregada pelo peso de uma tradição que não se importava com almas, apenas com linhagens. Alice permanecia imóvel sob o toque de Lucas, mas seu corpo estava rígido como pedra. Quando ele tentou passar o pano macio por suas costas, ela se encolheu, um tremor violento percorrendo sua espinha.

​— Não me toque — sussurrou ela, a voz tão fina que parecia prestes a quebrar. — Cada vez que você encosta em mim, eu ainda sinto os olhos deles através daquela seda. Eu me sinto... usada. Como se eu fosse apenas um campo a ser arado para uma colheita que nem ao menos me pertence.

​Lucas parou o movimento imediatamente. Ele viu nos olhos dela algo que nunca tinha visto em suas conquistas nas tavernas ou nos salões de Paris: uma dor profunda e silenciosa de quem teve sua dignidade arrancada pelo bem de um estado. A arrogância que ele cultivara por anos como uma armadura pareceu ridícula naquele momento.

​Ele se levantou, mas em vez de sair, caminhou até o armário e pegou um roupão de veludo espesso e quente. Ele o estendeu para ela, virando o rosto para dar-lhe o mínimo de privacidade que o mundo lhe negara na noite anterior.

​— Eu não sou seu dono, Alice — disse ele, a voz firme, mas despojada de qualquer veneno. — Eu sei que o que aconteceu ontem foi um circo de horrores. Eu agi como um idiota, tentando te ferir com palavras porque estava assustado com o tamanho da responsabilidade. Mas eu não vou deixar que você se sinta assim dentro destas paredes.

​Alice saiu da banheira, vestindo o roupão apressadamente, amarrando o cinto com tanta força que quase cortou a respiração. Ela se sentou na borda da cama, evitando o centro do colchão onde o lençol fora arrancado.

​Lucas ajoelhou-se à frente dela, não como um súdito, mas como alguém que finalmente entendia a gravidade do que compartilhavam. Ele não tentou pegar as mãos dela novamente; em vez disso, manteve as suas visíveis sobre os próprios joelhos.

​— Daqui para a frente, as ordens do meu pai e de Katherine ficam do lado de fora dessa porta — declarou Lucas. — Eles querem um herdeiro? Pois terão que esperar. Eu não vou encostar em você até que você me peça. Eu não vou ser o monstro que te faz sentir pequena.

​Alice o olhou, a desconfiança ainda nublando seus olhos azuis.

— E por que eu acreditaria em você? Você é o "Leão das Tavernas". Você vive de prazeres fáceis.

​— Prazeres fáceis não constroem reinos, Alice. E eu quero que o nosso seja real, não um teatro para o Arcebispo ver — ele respondeu, levantando-se e indo até a lareira para atiçar o fogo, garantindo que o quarto ficasse aquecido. — Vou pedir que tragam seu desjejum aqui. Ninguém vai entrar neste quarto hoje sem a sua permissão. Nem o Conselho, nem os Reis.

​Ele parou na porta antes de sair para dar as ordens aos criados, olhando para ela uma última vez.

— Eu estou aqui, Alice. Não para te dominar, mas para garantir que ninguém mais se atreva a te tratar como se você fosse menos do que a Rainha que você é.

​Alice observou-o sair. Pela primeira vez em anos, o ódio que ela sentia por ele encontrou uma barreira: a estranha e nova sensação de proteção. Ela ainda se sentia abusada pelo sistema que a vendera, mas, naquele quarto silencioso, Lucas começava a construir o primeiro refúgio que ela conhecO dia que se seguiu foi o primeiro em anos onde o tempo pareceu correr a favor deles, e não contra. Lucas cumpriu sua promessa: as portas permaneceram trancadas para o mundo exterior. Ele mesmo serviu o desjejum de Alice, trazendo as frutas e os pães que sabia que ela preferia, sem a pompa dos criados.

​Eles passaram as horas em uma intimidade silenciosa e curativa. Lucas montou o tabuleiro de xadrez perto da lareira, e ali, entre cavalos de marfim e torres de ébano, as farpas venenosas deram lugar a risadas genuínas. Alice descobriu que ele era um estrategista brilhante, e ele se surpreendeu com a audácia dos movimentos dela. Ele a mimou de maneiras sutis, lendo trechos de livros que ela gostava e garantindo que ela nunca ficasse com a taça vazia ou o coração pesado. Pela primeira vez, eles não eram peças de um tabuleiro político, mas apenas dois jovens se conhecendo sob as cinzas de um incêndio.

​Quando a noite caiu e o fogo da lareira tornou-se apenas um brilho alaranjado e reconfortante, o frio típico da noite francesa começou a rastejar pelo quarto. Alice, já deitada sob as cobertas pesadas, sentiu um calafrio percorrer seu corpo, uma mistura da temperatura baixa com o eco da solidão que a assombrara na noite anterior.

​Lucas deitou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, cumprindo o acordo de não invadir o espaço dela. No entanto, ele notou quando ela se encolheu, os ombros tremendo levemente sob o lençol.

​— Você está com frio? — sussurrou ele na penumbra.

​Alice hesitou por um segundo. A barreira do orgulho ainda estava ali, mas o cansaço emocional era maior. Em vez de responder com palavras, ela moveu-se lentamente para o lado dele. Buscando o calor que emanava do corpo de Lucas, ela se aconchegou em seus braços, escondendo o rosto no peito dele.

​Lucas hesitou, o coração disparando com a confiança inesperada que ela depositava nele. Com um cuidado infinito, como se estivesse lidando com algo precioso e frágil, ele a envolveu, puxando a coberta para cobri-los completamente.

​— Eu estou aqui, Alice — murmurou ele, encostando o queixo suavemente no topo da cabeça dela. — Ninguém vai entrar aqui. Você está segura.

​Alice fechou os olhos, sentindo o ritmo constante do coração de Lucas contra sua face. Pela primeira vez desde que pisara novamente na França, o frio não vinha de dentro. Naquela noite, não houve conselho, não houve lençóis exibidos, nem deveres impostos. Houve apenas o calor de um abraço que começava a transformar o ódio em algo que nenhum dos dois ainda ousava nomear, mas que ambos já sentiam florescer.ia na França.