Alianças de Sangue e Ferro
20 O Desjejum dos Aliados
O sol da manhã entrava pelas frestas das cortinas, mas o despertar de Alice foi diferente. Não houve o susto da invasão de Katherine, nem o peso do desespero. Ela acordou envolta no calor de Lucas, sentindo a respiração dele calma contra seu pescoço. Por alguns minutos, eles permaneceram naquele casulo de silêncio, uma trégua preciosa antes de enfrentarem os leões lá fora.
— Precisamos descer — sussurrou Lucas, a voz rouca de sono. — Se não aparecermos, meu pai virá derrubar esta porta pessoalmente.
Alice assentiu, sentindo a armadura de princesa retornar ao seu corpo conforme ela se vestia. Lucas ajudou-a com os pequenos botões nas costas do vestido, um gesto de intimidade que teria sido impensável dias atrás.
Ao entrarem na sala de jantar privada, o ambiente estava carregado. Ricardo lia relatórios com uma expressão severa, enquanto Katherine tomava seu chá com a elegância de uma predadora em repouso. O silêncio foi quebrado pelo som dos talheres de Lucas ao se sentar.
— Finalmente — disse Ricardo, sem desviar os olhos dos papéis. — Esperamos que o isolamento de ontem tenha sido produtivo para os interesses do reino.
Katherine ergueu o olhar, examinando o casal. Ela notou algo diferente: a postura defensiva de Alice não era mais voltada contra Lucas, mas contra o resto da mesa. E Lucas, em vez de ignorar a esposa, inclinou-se para servi-la antes mesmo de se servir.
— Vocês parecem... menos dispostos a se matarem hoje — observou Katherine, a voz tingida de uma curiosidade astuta. — Devo assumir que o decreto sobre o herdeiro foi bem recebido?
Alice sentiu um nó no estômago com a menção direta ao dever biológico, mas antes que pudesse se encolher, sentiu a mão de Lucas encontrar a sua por baixo da mesa, apertando-a com firmeza.
— O que acontece entre as paredes do nosso quarto diz respeito apenas a nós, Majestade — declarou Lucas, encarando a mãe com uma audácia que fez Ricardo baixar os relatórios. — Nós cumprimos o protocolo. A prova foi dada. Agora, peço que nos deem o espaço necessário para governarmos nossa vida privada.
Ricardo franziu o cenho, surpreso com a nova autoridade na voz do filho.
— Espaço é um luxo que reis não possuem, Lucas. O povo espera resultados. A Inglaterra espera estabilidade.
— E eles terão — interveio Alice, sua voz clara e firme, surpreendendo a todos. — Mas um herdeiro forte nasce de uma união sólida, não de uma imposição feita sob vigilância de conselheiros. Se querem que este reino prospere, deixem-nos ser o casal que a França precisa, não os fantoches que o Conselho deseja.
Katherine sorriu levemente por trás da xícara de porcelana. Ela reconhecia aquele brilho nos olhos de Alice — era o brilho de quem começava a entender como o poder realmente funcionava.
— Parece que a loba aprendeu a morder — comentou a rainha. — Pois bem. Veremos se essa nova "união" produz os frutos que exigimos.
O café da manhã prosseguiu, mas o equilíbrio de poder na mesa havia mudado. Lucas e Alice não eram mais apenas dois jovens sendo empurrados; eles eram, pela primeira vez, uma frente unida.
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